Uma aula de jornalismo e empatia


O fotógrafo e jornalista Betinho Casas Novas.

pediu desculpas a jornalistas mais experientes, por ter em um ato público com a presença de vários profissionais de imprensa, abraçado uma criança que se sentia com medo. Ao braça-la e confortá-la, ficou na frente de outros fotógrafos, atrapalhando sem nota os outros fotógrafos.
Escrevi para ele:

Betinho Casas Nova. Não precisa pedir desculpas como jornalista. Foi uma aula de como ser cidadão jornalista no local em que as notícias estão acontecendo!
A isto eu chamo de empatia de profissionais de comunicações!

betinho e a criançaDesculpem-me, amigos jornalistas…

Na última sexta feira (30/03), a Ong Rio de Paz realizou um ato em memória ao bebê Benjamim de um ano, morto com um tiro na cabeça durante uma perseguição com tiroteio no Complexo do Alemão.

Reunidos no ato, estavam amigos e familiares de outras vítimas da violência do Rio, como a mãe, pai e amigos de Maria Eduarda, estudante e atleta morta dentro de uma escola na favela do Acari.

A parte que mais me chocou, foi o momento em que os pais de Benjamim penduravam em um varal, as fotos e roupinhas do bebê. No varal, outras fotos e roupas de demais vítimas eram expostas no memorial.

Essa da foto é a pequena Sofia, de quatro anos.
Sofia era a irmã mais velha do bebê Benjamim. A todo momento, a pequena observava com um olhar assutado toda aquela movimentação no ato em Copacabana.

Por muita das vezes, observei a pequena Sofia ao lado dos seus pais, agarrada em suas pernas, como se tivesse com medo. Não sei se o que a assustava, era estar naquele local tranquilo e “seguro”, com pessoas de biquíni e sungas, correndo e se banhando na praia, ao lado de um memorial de pessoas mortas pela violência, sem se importar ou se quer parar para ver o que tá acontecendo.

Seus pais choravam, enquanto soltavam suas vozes nas entrevistas pedindo justiça pelo caso.

Fui como cidadão mais do que jornalista neste ato.
Observar a Sofia assutada daquele jeito me deixou inquieto. Em um momento em que seus pais davam entrevistas para os colegas jornalistas, Sofia olhou para a foto de seu irmão estendido no varal e desabou a chorar: “Estou com saudades dele…”.

Os pais, imediatamente pararam a entrevista e abraçaram a pequena: “Não tem como continuar falando depois de ver minha filha assim…” contou a mãe.

Foi quando eu me emocionei, atravessei a multidão de fotógrafos sem perceber e fui correndo abraçar a pequena.
Foi um dos abraços mais forte que recebi.
Em seguida, peguei minha câmera e comecei a mostrar pra ela o que aquela máquina fazia.

Por um momento, ela se distraia e futucava os milhares de botões que a máquina oferecia para uma criança, parando, por aquele momento, de chorar… mas não de sentir saudades.

Não percebi que tinha entrado na frente dos meus colegas e amigos de profissão. Quando dei por sí, estava eu, na frente das câmeras. Vi alguns amigos reclamando, mas fiquei feliz em ver grande maioria deles entendendo a minha atitude de parar o que tava fazendo, para acolher aquela pequena: “Ele é do Alemão também, vamos entender…”

Afinal de contas, sou também morador da mesma comunidade que ela e seu irmão vivia.
A dor não é diferente, é muito mais a mesma, por ter sido na favela onde moro e atuo.

Quando percebi o que tinha feito, fui me desculpar com todos.
Eles entenderam e nem reclamaram do que tinha feito.

Mas venho pedir desculpas pelo que fiz.

Sabe, viver em uma comunidade onde você atua na parte mais crítica (violência) é realmente dosar entre a linha do profissionalismo com a linha pessoal. Uma batalha!

É difícil, as vezes, saber dosar em qual sentimento estamos, quando vemos uma mãe, baleada com dois tiros, segurando nas mãos, desesperada, o carrinho do seu bebê morto com um tiro na cabeça.

Mas no final, sabemos que somos todos iguais e que a justiça que todas aquelas famílias das vítimas clamam, são para todos nós, não só para os que morreram.

Porque a cada morte, todos nós, vamos morrendo aos poucos, com o sangue de cada vítima.

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