Assassinos neonazistas de negro idoso em rua de Rio Claro, vão a Júri Popular


Rio Claro/SP – Hélcio Alves Carvalho e Axel Leonardo Ramos (foto abaixo ao serem presos), os dois acusados pela morte do guardador de carros Benedito Santana de Oliveira, de Rio Claro, interior de S. Paulo, irão à juri popular nesta terça-feira (28/04) por homicídio triplamente qualificado e podem pegar de 12 a 30 anos de prisão. O julgamento começa a partir das 9h30 no Fórum da cidade e deve se estender até pelo menos quarta-feira, quando será anunciada a sentença.

O caso aconteceu há dois anos, na madrugada de 06 de abril de 2013, quando os assassinos – que, segundo a suspeita da Polícia pertenceriam a uma célula neonazista da cidade de Ponta Grossa, no Paraná – atacaram e o idoso. “Seo” Benedito fazia bicos como guardador de carros para ajudar no orçamento de casa. Depois de permenecer por algum tempo internado na Santa Casa de Rio Claro, ele, à época com 71 anos, acabou morrendo por causa dos socos, chutes e ponta-pés, boa parte dos quais na cabeça.

Silvio Santana, um dos filhos, disse àAfropress por telefone, que a família estará presente ao julgamento. Desde o crime, os acusados estão presos na Penitenciária de Itirapina, cidade próxima a Rio Claro.

Manifestação

O Conselho Municipal da Comunidade Negra da cidade está convocando a população para uma concentração a partir das 9h, na praça da Liberdade, em frente ao Fórum, para acompanhar o julgamento. “Basta de racismo! Que seja feita Justiça”, diz o texto da convocação.

Segundo Kizie de Paula Aguiar, gestora de políticas públicas da Prefeitura, é esperada uma grande quantidade de pessoas na manifestação porque o crime – pela crueldade e pela covardia dos assassinos – provocou a revolta da população.

O idoso era casado com Maria Aparecida Zequeu, de 74 anos e deixou 5 filhos – dois homens e três mulheres. Segundo Silvio, a família espera Justiça. “Queremos Justiça e esperamos que os assassinos do meu pai recebam pena máxima”, afirmou.

Segundo Francisco Quintino, presidente do Instituto pela Igualdade Racial (Inspir), que no ano passado, que participou de manifestações de protesto contra as agressões ao aposentado, o julgamento é um marco.

“Considero um marco no combate à discriminação racial, considerando que é em consequência da mobilização e engajamento das diversas forças e entidades do movimento negro e negros e negras que saíram às ruas exigindo Justiça. E a sociedade, por sua vez, segue com enormes dificuldades de superação das desigualdades relegando aos afrodescendentes o papel de coadjuvante, sem vontade política de reconhecer os erros e corrigir as injustiças históricas”, afirmou.

Para a professora Elisa Lucas Rodrigues, da Coordenação de Políticas para as Populações Negra e Indígena da Secretaria da Justiça, o caso do idoso é emblemático de que a sociedade não pode permitir a impunidade. “Estamos muito esperançosos em que a Justiça seja feita exemplarmente”, afirmou.

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Sindicato dos Jornalistas condena ataque racista ao portal Afropress


afropress nota sindicato jornalistas

Sindicato dos Jornalistas condena ataque racista ao portal Afropress
 

afropress

 

 

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo (SJSP) repudia e se solidariza com a Agência Afroétnica de Notícias (Afropress), que no último sábado (11) teve sua página na internet invadida por “hackers racistas” e “neonazistas”, que na oportunidade postaram imagens em defesa da pedofilia e do estupro de crianças negras, segundo informou o jornalista e editor da Afropress, Dojival Vieira dos Santos, na rede social da agência de notícia.

Em comunicado oficial a Afropress disse que acionou as autoridades policiais e em respeito aos leitores decidiu retirar a página do ar.

 

Leia o comunicado da Afropress:

 

NÃO PASSARÃO!

Depois das providências cabíveis junto às autoridades policiais, ao Ministério Público, e em respeito aos nossos milhares de leitores no Brasil e no mundo, decidimos pedir ao provedor a retirada do ar da página da Afropress – http://www.afropress.com.

Tomamos essa decisão após obter as pistas para identificar e exigir a punição severa dos delinquentes e criminosos racistas e neonazistas que nos atacaram e tomaram o controle da página para postar imagens em defesa da pedofilia, do estupro de crianças negras e outras não menos repugnantes e abjetas, que dão bem uma idéia da natureza do inimigo que combatemos.

Esta não foi a primeira vez que somos alvo desse tipo de violência. Provavelmente não será a última. Mas, também como das outras vezes, voltaremos ao ar com mais vigor e determinação para continuar o bom combate dos que querem um país sem racismo e não se intimidarão diante da ação de criminosos.

– Pedimos a solidariedade ativa de todos (as) os (as) que lutam contra o racismo e por igualdade;

– Exigimos ação das autoridades no sentido da identificação e punição severa dos criminosos racistas e neonazistas que nos atacaram mais uma vez.

ESPERAMOS ESTAR DE VOLTA TÃO RÁPIDO QUANTO POSSÍVEL. ESTAMOS TRABALHANDO PARA ISSO. NEM UM PASSO ATRÁS.

Deu na Afropress: Desconstruindo Marina


Desonstruindo Marina.

por Dojival Vieira

Dojival Vieira Jornalista,advogado, ativista do Movimento Negro

Dojival Vieira
Jornalista,advogado, ativista do Movimento Negro

Não estou vinculado a nenhuma campanha. Também não tenho vínculos com quaisquer partidos. Mas, é de indignar observar a tentativa de desconstrução da candidata Marina Silva (PSB/REDE), após se tornar candidata oficial à Presidência, no lugar do ex-governador Eduardo Campos, morto no trágico acidente aéreo em Santos.

Bastou que as pesquisas de opinião a colocassem novamente no páreo e logo começou o tiroteio por meio das redes sociais, onde não faltam as bem treinadas – e, em alguns casos, pagas – línguas de aluguel.

Na verdade a ação nefasta começou já no velório do ex-governador pernambucano, em Recife, que reuniu milhares de pessoas (as estimativas variam entre 130 e 160 mil) no Palácio do Campo das Princesas e terminou no Cemitério de Santo Amaro. Marina teria tido comportamento leviano ao aceitar posar para selfies diante do caixão na companhia da viúva Renata Campos e filhos.

Completo absurdo porque o comportamento da ex-senadora, e agora candidata, como é sabido, é naturalmente discreto em qualquer circunstância. No velório, manteve-se o tempo inteiro sentada numa cadeira na segunda fileira, atrás da família do morto.

Se a cerimônia adquiriu tons de ato político, esse foi dado pela viúva e filhos, o que também não é nada de estranhar, tendo em vista as circunstâncias trágicas da morte do ex-governador, em pleno auge de sua vida política e no começo de uma campanha eleitoral em que se apresentava junto com Marina – sua vice – como alternativa à velha política.

Também não custa lembrar ser Campos neto do ex-governador Miguel Arraes, levado preso do mesmo Palácio em que se realizou o velório durante o golpe militar e exilado durante anos na Argélia. O recado da viúva e dos filhos seria esse mesmo e a maior homenagem que poderiam prestar seria a demonstração perante as milhares de pessoas que se reuniram no domingo de que o legado da família Arraes continuará tendo o protagonismo que sempre teve na política pernambucana e brasileira.

Aliás, ao contrário: louve-se a firmeza dos adolescentes filhos de Campos, crianças ainda, e da viúva que, marcados pela profunda dor e tristeza da tragédia, sepultaram o morto – ou o que sobrou do seu corpo, pulverizado na explosão do choque da aeronave – sob palavras de ordem “Campos, guerreiro do povo brasileiro!”.

Mas, o que mais chama a atenção na tentativa de desconstrução política de Marina – a candidata que agora ameaça o projeto lulodilmista de poder, e a pretensão tucana de encerrar o ciclo de 12 anos de governos do PT -, é a participação de lideranças negras no papel de massa de manobra dessa batalha.

Alguns, afoitos, a chamam de “racista”, epíteto que passa a ser um xingamento na boca de alguns, muito provavelmente pela ausência de argumentos para dar combate aos verdadeiros racistas camuflados sob o mito da democracia racial brasileira. Outros, ressuscitaram artigo da filósofa Sueli Carneiro, em que, de forma infeliz, Marina saiu em defesa do deputado Marco Feliciano que, segundo ela, estaria sendo atacado por ser “evangélico e não por suas posições políticas equivocadas”.

A mesma filósofa, em entrevista para José Arbex, da Revista Caros Amigos,  manifestou-se assim em fevereiro de 2.000, sobre o fato do então prefeito Celso Pitta, à época acusado de corrupção na Prefeitura, usar como álibi “estar sendo perseguido por ser negro”: “Não me consta que o Pitta não tenha consciência de sua condição de negro. Não se tem notícia dele como ativista. (…) Somos seres humanos como os demais, com diversas visões políticas e ideológicas. Eu, por exemplo, entre esquerda e direita, continuo sendo preta” (“Caros Amigos” n° 35, fevereiro de 2000).

A frase, à época, soou como uma defesa enviesada do ex-prefeito malufista, ainda que possa não ter sido essa a intenção da filósofa, e ainda hoje é repetida como um mantra por quem, de forma acrítica, acha correto em pleno capitalismo, transformar as contradições de classe numa questão biológica – vale dizer: ser ou não ser negro – e não política e ideológica. Sem levar em conta o extremo conservadorismo que é reduzir a luta política numa sociedade de classes à esfera da biologia, trata-se de um evidente equívoco, como se vê.

Também no caso da defesa de Marco Feliciano (a entrevista é do ano passado, e estar sendo convenientemente requentada) a ex-senadora, teve uma posição corporativa do campo religioso em que se situa, tese tão conservadora, quanto a que pretende ignorar que a luta política e ideológica não está subordinada à raça, qualquer que seja.

Os ataques a agora candidata do PSB por ser evangélica e ter, em determinados temas, posições conservadoras é parte da campanha de desconstrução da sua imagem pública e tem um único objetivo: a erosão de sua densidade eleitoral, que é suficiente para fazê-la chegar ao Planalto, conforme demonstrou a pesquisa Datafolha em que aparece com 21% das intenções de voto, ainda que a campanha esteja apenas começando.

Marina, tanto quanto Lula, independente da fé que processa, tem uma história e um perfil que se identificam com a maioria do povo brasileiro. Seringueira pobre, se alfabetizou aos 15 anos de idade e foi companheira de Chico Mendes assassinado pelo latifúndio nos seringais do Acre. Tornou-se uma referência não só brasileira, mas em todo o mundo, da luta pela preservação e pela defesa da sustentabilidade. Foi durante anos Ministra do Meio Ambiente do primeiro Governo Lula, de onde saiu por conta própria, sem jamais ter merecido qualquer reparo dos que agora a atacam.

Passou a ter mais defeitos – do que os que efetivamente tem – depois que teve a ousadia de se afastar do Governo para ser candidata a Presidência, primeiro pelo PV – obtendo quase 20 milhões de votos, nas eleições de 2.010.

É negra, ainda que jamais tenha estado na linha de frente na luta antirracista, nem assumido protagonismo na defesa desse tema. Como defensora de teses ambientalistas e da sustentabilidade – a ponto de se chocar com os poderosos interesses do agronegócio – é impossível, que seja indiferente à chaga do racismo, essa patologia social que se constitui em elemento estruturante da desigualdade social brasileira, que tanto nos envergonha.

Pretender sua desconstrução, apenas por ser evangélica, é um ato de intolerância religiosa, tão condenável quanto os que são sofridos por Pais e Mães de Santo das religiões de matriz africana, vítimas cotidianas de perseguições que condenamos.

Ou é o mero propósito das línguas de aluguel em ação, próprias e ou terceirizadas, a serviço de interesses outros que não ousam dizer o nome. Quem condena a intolerância com os nossos, não pode ser intolerante com os outros.

 

 

“Este artigo reflete as opiniões do autor e não do veículo. A Mamapress e a Afropress não se responsabilizam e nem podem ser responsabilizadas pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso da informações contidas no artigo.”

Deu na Afropress: Ueki, ex-presidente da Petrobrás, será ouvido sobre caso da V. Socó


Da Redação

 

Cubatão/SP – Depois de 30 anos, o ex-presidente da Petrobrás Shigeaki Ueki será ouvido sobre as circunstâncias, omissões e responsabilidades no caso do incêndio da Vila Socó, em Cubatão, em que morreram cerca de 508 pessoas, na sua maioria migrantes nordestinos pobres e negros, de acordo com números extra-oficiais divulgados à época. O incêndio aconteceu na madrugada de 25 de fevereiro de 1.984 e resultou do vazamento de 700 mil litros de gasolina das tubulações da empresa, em função da ausência de manutenção e de um erro de operação.

O depoimento do ex-dirigente da Petrobrás e ex-ministro das Minas e Energia durante o período militar está marcado para o próximo dia 30 deste mês, das 14h às 18h no Plenário Teotônio Vilela da Assembléia Legislativa de S. Paulo.

O nome de Ueki deixou de ser relacionado ao caso após a “Operação Abafa” desencadeada pelo governo – o presidente à época era o general João Batista Figueiredo, o último do período militar. Como parte dessa “Operação”, o número oficial de mortos foi reduzido a 93 – um terço dos quais crianças –, o direito das vítimas à indenização foi ignorado e os responsáveis pelo incêndio jamais foram punidos. Segundo peritos que auxiliaram o trabalho de investigação do Ministério Público, à época, famílias inteiras desapareceram sob as chamas.

Tragédia

A tragédia da Vila Socó foi o incêndio com maior número de vítimas no Brasil. Além das vítimas fatais, dezenas de pessoas ficaram feridas e foram internadas nos Hospitais da Baixada Santista. Antes disso, apenas o Gran Circo Norte-Americano de Niterói teve um número aproximado – 500 mortos e cerca de 180 mutilados.

O caso foi reaberto por iniciativa da Comissão da Verdade da OAB/Cubatão e da Comissão da Verdade Rubens Paiva da Assembléia Legislativa de S. Paulo. Segundo o presidente da Comissão, deputado Adriano Diogo (PT/SP), o depoimento de Ueki será fundamental para esclarecer pontos que “permanecem obscuros”.

Um desses pontos é porque a Petrobrás presidida por ele, não aceitou indenizar crianças de até 12 anos, sob o argumento de que não eram “força produtiva”. Um outro dado é porque razão se construiu um número oficial de 93 mortos – quando os próprios peritos que trabalharam no caso em apoio ao Ministério Público, falam de 508 mortos – número considerado conservador, e que ganhou as manchetes dos principais jornais do mundo, entre os quais, o New York Times.

Ueki também será questionado sobre a real dimensão do vazamento de gasolina, já que o perito Jorge Moreira, que trabalhou auxiliando o Ministério Público nas investigações afirmou em depoimento a Comissão da Verdade da OAB/Cubatão, que o vazamento foi de cerca de 2 milhões de litros de gasolina e não 700 mil – a versão oficial. Os membros da Comissão suspeitam que a subestimação do vazamento seja parte da manobra para reduzir o tamanho da tragédia, manobra que teria sido montada pelas autoridades preocupadas com o impacto do número de vítimas para a imagem da estatal dentro e fora do país.

Depoimentos

Além de Ueki deverão ser ouvidos na audiência, os depoimentos dos jornalistas Carlos Dorneles, Carlos Nascimento, Alberto Gaspar e Isabela Assunção, que cobriram a tragédia para a Rede Globo de Televisão. Também serão convidados o promotor do caso, Marcos Ribeiro de Freitas, e as diretoras das Escolas João Ramalho e Estado do Mato Grosso, parentes de sobreviventes.

Em reportagem para o Jornal da Band desta sexta-feira (18/07), o promotor Marcos Ribeiro de Freitas, atualmente aposentado, “admitiu que o número pode ser maior”.

A reportagem dos repórteres Tony Chastinet e Rodrigo Hidalgo revelou que na Escola Mato Grosso os nomes de 44 crianças aparecem com a anotação “excluída” numa mesma data, o mesmo ocorrendo nos prontuários da Escola João Ramalho em que anotações de transferência foram feitas sem qualquer indicação de para onde foram feitas.

O ex-prefeito José Oswaldo Passarelli, interventor nomeado pelos militares (à época Cubatão era considerada área de segurança nacional e não elegia prefeito) também deverá ser ouvido. No mês passado, ele foi convidado, porém, justificou ausência por motivo de saúde.

Condenação

Segundo membros da Comissão da Verdade da OAB/Cubatão, que atua por meio de um Termo de Cooperação com a Comissão da Verdade Rubens Paiva, as anotações nos prontuários podem indicar que essas crianças estejam mortas e não constam dos números oficiais. O desaparecimento das crianças também consta no laudo elaborado por peritos, tornado público, após o desarquivamento do processo.

A proposta da Comissão, segundo o presidente da OAB/Cubatão, Luiz Marcelo Moreira, é levar o caso à Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA, com pedido para que a Corte condene o Estado brasileiro por graves violações dos direitos humanos e a Petrobrás a pagar as indenizações às vítimas.

Veja, na íntegra, a reportagem dos repórteres Tony Chastinet e Rodrigo Hidalgo, da Band.

http://mais.uol.com.br/view/15123728

Em Londres, Joaquim Barbosa falou para a Afropress: “A discriminação racial e o racismo são as questões mais sérias a serem discutidas no Brasil.


Alberto Castro, correspondente de Afropress em Londres

Londres – O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Joaquim Barbosa, disse nesta quinta-feira (29/01), em palestra no Kings College, de Londres, que a discriminação racial e o racismo são as questões mais sériaa a serem discutidas no Brasil e que enfrentar o problema é condição fundamental “se o país quiser ser respeitado como um player importante entre as nações do mundo”.

”É preciso fazer algo para incluir negros no mainstream da sociedade”, advertiu frisando que “o Brasil nunca tratou a sério esse assunto”. Na sua ótica, ”a única medida séria nos últimos 10 anos foram as cotas, mas elas não resolvem o problema”, observou salientando que o maior problema para a solução desse problema reside na educação.

A resposta do ministro aconteceu ao responder a uma pergunta colocada por Alberto Castro, correspondente de Afropress em Londres, que acompanhou a palestra realizada para uma platéia interessada que lotou os 250 assentos do auditório Edmond J. Safra, do King’s College, da Universidade de Londres.

”A grande maioria dos brasileiros que sofrem as consequências de uma educação paupérrima é a dos negros que vivem nas favelas, que e têm os piores trabalhos, os piores salários, cerca de 50% da média das pessoas brancas”, disse em tom de denúncia. ”Todos os indicadores mostram que esse é um dos problemas-chave na política brasileira”, informou opinando que ”essa é uma questão geradora de controvérsias sobre a qual é urgente um debate público sério”.

Veja, na íntegra, e com exclusividade o relato do correspondente de Afropress e suas impressões sobre a palestra do ministro – o primeiro negro a assumir a chefia do Poder Judiciário no Brasil:

Os 250 assentos do auditório Edmond J. Safra, do King’s College, Universidade de Londres, foram ontem (29/01) insuficientes para acomodar o grande número de estudantes, professores, brazilianistas e também alguns imigrantes brasileiros que se apresentaram para assistir à palestra proferida por Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), o que fez com que parte dos interessados se contentassem em seguir o evento por viodelink numa sala para onde foram encaminhados.

Na sua intervenção, de cerca de uma hora e meia, Barbosa fez uma avaliação histórica do STF apontando algumas das maiores mudanças sofridas pela instituição na década passada, dando exemplo de alguns dos casos mais emblemáticos ali tratados.

Todavia, desde o início, foi notório que a audiência, que escutou atentamente o palestrante, estava muito mais interessada em ouvir da atual estrela do Judiciário e da política brasileira, tido por muitos como herói devido ao seu papel no já histórico caso ”mensalão”, as suas opiniões sobre assuntos mais comuns que afetam a sociedade brasileira.

Candidatura

Eis algumas das questões mais pertinentes, a começar a que se tornou recorrente: “vai o senhor candidatar-se a presidência do Brasil?”

”Nunca fui um político e nem nunca fui filiado a um partido, nem mesmo na universidade. Nunca tive militância política”. Começou por responder fazendo uma breve pausa para concluir: “Não. Eu realmente quero ser um homem livre de novo, ter vida privada e menos exposição do que tenho agora”.

A uma pergunta sobre o fato de ser um liberal e progressista mas, paradoxalmente, ser adorado pelos conservadores replicou: ”Sou uma pessoa muito cautelosa. Faço o que penso ser certo. Tenho décadas de experiência na academia e nos tribunais. Pesquiso e aplico as regras da lei e esse é o meu guia para fazer o que tem que ser feito. Se as pessoas liberais ou conservadoras gostam, ok. Se não gostam, não me importa”, enfatizou.

Prisões

Questionado sobre o estado lamentável em que se encontram as prisões brasileiras e sobre os mais recentes casos trágicos no Maranhão disse: “As prisões são um problema muito sério no Brasil. No ano passado eu fiz visitas a presídios. O que posso dizer é que horror é a palavra mais adequada para qualificar as prisões brasileiras”. Para o magistrado, a questão a ser colocada seria: ”porque essa situação é tão absurda?” A resposta está, no seu entender, no fato de as prisões no Brasil serem primeiramente um assunto de responsabilidade estadual.

”O Governo federal joga um papel menor ao ajudar os Estados a construir prisões com uma mínima dignidade para os prisioneiros”, esclareceu para logo depois criticar o desinteresse dos políticos: ”Eles não se importam com esse problema, porque ele não lhes dá retorno político, votos. Essa é a razão porque as prisões estão nesse estado”, afirmou, lembrando que ”o problema não é novo, acontece em todo o Brasil e não apenas as prisões do Maranhão se parecem com um inferno”, esclareceu. Lembrou ainda que em alguns Estados as prisões são controladas por duas das maiores facções criminosas brasileiras como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho.”Esta é a realidade”, admitiu.

Fundamentalismo religioso

Questionado sobre a perigosa ligação entre política e religião no Brasil e sobre se o país caminha em retrocesso para um fundamentalismo religioso, disse: ”Não diria que caminhamos para uma espécie de fundamentalismo religioso embora haja um número crescente de deputados sendo eleitos devido a sua filiação religiosa. Por enquanto não me parece que os grupos religiosos constituam uma ameaça séria. Mas esse é um assunto igualmente sério”, advertiu.

Mas foi talvez o tema colocado pela Afropress que mereceu do presidente do STJ uma maior profundidade, frontalidade e, dir-se-ia mesmo, denúncias nas suas análises. Provavelmente por estar perante uma audiência internacional de estudantes, acadêmicos e jornalistas, e também diaspórica brasileira, audiência quase totalmente branca. Uma questão intrigantemente quase ignorada pelos correspondentes da mídia brasileira que cobriram o evento.

Tratou-se da pergunta sobre avaliação que ele fazia do racismo e da discriminação racial na sociedade brasileira e sobre as medidas até agora tomadas pelos governos brasileiros para atacar o problema. Barbosa começou por dizer que, para ele, esse era o tópico mais sério a ser tratado  no Brasil. O país tem, na sua opinião, uma tarefa muito séria na resolução desse problema ”se quiser ser respeitado como um player importante”, alertou, assinalando que a população negra (pretos e pardos) constitue de 50 a 51% do total da população brasileira, a maioria, segundo dados oficiais.

Inclusão de negros

”É preciso fazer algo para incluir negros no mainstream da sociedade”, advertiu frisando que “o Brasil nunca tratou a sério esse assunto”. Na sua ótica, ”a única medida séria nos últimos 10 anos foram as cotas, mas elas não resolvem o problema”, observou salientando que o maior problema para a solução desse problema reside na educação.

”A grande maioria dos brasileiros que sofrem as consequências de uma educação paupérrima é a dos negros que vivem nas favelas, que e têm os piores trabalhos, os piores salários, cerca de 50% da média das pessoas brancas”, disse em tom de denúncia. ”Todos os indicadores mostram que esse é um dos problemas-chave na política brasileira”, informou opinando que ”essa é uma questão controversial que urge  um debate público sério”.

Frontalmente culpa a elite branca pela inexistência desse debate na sociedade brasileira ao afirmar categóricamente que  ”os brancos brasileiros não gostam de debater o assunto. Acham-no enfadonho. Para eles não é ok discuti-lo”, lamentou.

”Quando uma pessoa sensível chega pela primeira vez ao Brasil, a primeira coisa que nota é a ausência de negros em trabalhos de prestígio, de boa posição em empresas, na TV. Valha-me Deus!, a TV brasileira parece ser da Dinamarca”, brincou seriamente arrancando sorrisos dos presentes. ”Esse é um assunto  muito sério”, voltou a salientar concluindo que o mesmo merece ser tratado urgentemente ”porque quanto mais pessoas estiverem incluídas na economia melhor o país se torna”.

Solidariedade

Momento de humanidade e solidariedade do magistrado tido como implacável no combate contra a corrupção e contra as injustiças sociais aconteceu quando ouviu atentamente o testemunho de um compatriota a quem foi recusado visto de refugiado no Reino Unido por ter sofrido ameaças de assassinato no Brasil. ”A ameaça de assassinato não me surpreende. Recentemente  tivemos o assassinato de uma juíza no Rio de Janeiro. Temos alguns casos de assassinatos de jornalistas, não nas grandes cidades, mas em pequenas cidades e nas áreas periféricas do Brasil. O Brasil tem uma cultura de violência”, enfatizou lembrando que o país teve séculos de escravidão. O  presidente do STF aproveitou o tema para voltar a tocar na questão do racismo no Brasil recordando que ”as vítimas mais frequentes da violência são os jovens negros”.

”Lamento muito o que sucedeu consigo mas você é um afortunado por ter conseguido sair. Muitas pessoas em situação similar não têm essa escolha. Continuam sendo subjugadas, ameaçadas e eu diria que muitos casos de ameaça não são do conhecimento público. Se alguma coisa acontece na periferia do Brasil nesse sentido você não toma conhecimento”, lembrou. ”Espero que você seja capaz de voltar ao Brasil e, por enquanto, ir para um outro Estado. Saia das pressões locais e estabeleça-se num outro Estado. Desejo sorte na sua luta”, disse humano e solidário.

A palestra terminou com fortes aplausos e Joaquim Barbosa, qual estrela de cinema, mal teve tempo de respirar e viu-se logo rodeado de um punhado de gente cumprimentando-o e pedindo um momento de foto com ele para a posteridade. ”Tirei a foto com o meu herói”, disse-me no final um jovem branco radiante.

Afropress 8 anos de mídia étnica, parceira da Rede Radio Mamaterra.

Oito anos de Afropress – O lado negro da Imprensa


Oito anos de Afropress – O lado negro da Imprensa
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Há oito anos, a Afropress se afirma como veículo de informação de qualidade comprometido com a produção de conteúdo jornalístico com foco nos temas do combate ao racismo e a defesa dos direitos da população negra brasileira.
Venha celebrar conosco essa conquista. Dia 26 de novembro, a partir das 17h, no Plenário Paulo Kobayashi, da Assembléia Legislativa de S. Paulo, vamos realizar ato para marcar essa importante conquista. Informação de qualidade, jornalismo com seriedade, independência e com foco. Esta é a nossa marca!
Programa
17h – Mesa Redonda sobre “A História da Imprensa Negra no Brasil: desafios e perspectivas”
Presenças confirmadas:
Oswaldo Faustino, escritor e jornalista (ex-Estadão)
Maurício Pestana – Editor executivo da Revista Raça Brasil
Flávio Carrança – Jornalista da Comissão da Igualdade Racial de S. Paulo (Cojira/SP)
Luiz Paulo Lima – Fotógrafo da Kultafro
Juliana Gonçalves dos Santos – Comunicação do CEERT
Rosenildo Gomes Ferreira – Editor assistente da Revista Isto É Dinheiro
Francisca Rodrigues – Comunicação da Faculdade Zumbi dos Palmares/Afrobras
Rita Batista – Jornalista e apresentadora do Programa “A Liga”, da Rede Bandeirantes de Televisão
18h30 – Debate: “Linha editorial da Afropress”
Apresentação: jornalista responsável e editor Dojival Vieira
19h – Ato solene pelos 8 anos da Afropress – Agência Afroétnica de Notícias
Mesa:
Deputados:
Adriano Diogo – Presidente da Comissão de Direitos Humanos e da Comissão da Verdade “Rubens Paiva” da ALESP
Leci Brandão – Deputada estadual, integrante da Comissão de Educação e Cultura da ALESP.
Elisa Lucas Rodrigues – Coordenadora de Políticas para as Populações Negra e Indígena da Secretaria de Justiça de S. Paulo
19h30 – Lançamento da campanha “Corra atrás do seu direito – em defesa dos negros perseguidos pela ditadura militar”. Campanha que orientará ativistas e militantes negros a se organizarem para ingressar com processos com base na Lei 10.559/2002, buscando a anistia e a reparação
Apresentação:
Ana Paula Marchiori – Advogada de perseguidos políticos da ditadura
20h – Homenagens aos profissionais de comunicação comprometidos com a causa da igualdade no Brasil.
20h30 – Encerramento.
PromoçãoAfropress – SOS Racismo – Comissão da Verdade Rubens Paiva e Comissão de Direitos da Assembléia Legislativa – Presidência Deputado Adriano Diogo.

Preso em São Paulo assassino de estudante angolana


Publicado e reblogado da nossa Parceira AFROPRESS

Polícia prende acusado pela morte da estudante angolana
Por: Redação – Fonte: Afropress – 11/7/2012

Zulmira Cardoso

S. Paulo- A Polícia de S. Paulo prendeu na manhã desta terça-feira (11/07), José Marcelo de Vasconcelos, acusado da morte da estudante angolana Zulmira de Souza Borges, 26 anos, estudante de engenharia da Uninove. Vasconcelos foi preso por homens do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), por volta das 6h da manhã na mesma região em que o crime ocorreu – no Brás, região do centro.

Segundo o advogado Hédio Silva Jr. (foto), constituído pela família e que também acompanha a investigação em nome do Consulado Geral de Angola, em S. Paulo, a Polícia pode anunciar nas próximas horas a prisão do outro envolvido – um homem de nome Gil, que teria dado suporte e fuga para o assassino.

O caso aconteceu no dia 22 de maio passado em um bar da Rua Cavalheiro e, além de Zulmira, foram atingidos pelos disparos, o nomorado, Gaspar Armando Mateus, estudante de 27 anos, no Brasil há três, e mais Renovaldo Manoel Capenda, de 32, e Celina Bento Mendonça, de 34.

Celina estava grávida de oito meses e correu risco de perder o bebê pois o tiro que a atingiu foi na barriga. A criança, contudo, nasceu com saúde no último dia 16 de junho no Hospital Santa Catarina e recebeu o nome de Patrícia Vitória.

Segundo estimativas 60% da comunidade angolana no Brasil vive em S. Paulo.

Com a prisão do acusado pelo crime, a Polícia agora espera esclarecer as razões pelas quais o homem atirou em todo o grupo depois de uma discussão em que se xingou os angolanos de “macacos”.

Para o advogado Hédio Silva Jr., ex-Secretário de Justiça de S. Paulo, não há dúvidas de que o crime teve motivação racial.