Agora Joaquim Barbosa é também Doutor em Filosofia Honoris Causa da Universidade Hebraica de Jerusalém


Foto extraída do vídeo

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Joaquim Barbosa recebe o título de Doutor em Filosofia Honoris Causa da Universidade Hebraica de Jerusalém em 31 de maio de 2015.
Pelo exercício como presidente do Supremo Tribunal federa, onde demonstrou sua inabalável convicção de combate à corrupção pública política, e por ter apoiado as lutas em defesa do multiculturalismo e igualdade social.

Vídeo enviado por Eliane Esberard.

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O desabafo de Barbosa. Um documento para a história contemporânea brasileira.


Por Marcos Romão

joaquim barbosaConcorde-se ou não, é a palavra discordante  do presidente do Supremo Tribunal Federal da decisão final de seus pares sobre julgamento do “Embargos infringentes  na AP 470”.

Como vivemos uma época em que os grupos políticos  tomam decisões em segredo em todas as esferas de poder. Documentos de falas como a do ministro Joaquim Barbosa, podem ajudar o cidadão e o estudioso, a montar o quebra-cabeças que forma o mosaico da atual política brasileira.

Aproveitem, pois não se sabe quando no futuro, teremos mais documentos televisionados sobre as entranhas do poder no Brasil.

Em Londres, Joaquim Barbosa falou para a Afropress: “A discriminação racial e o racismo são as questões mais sérias a serem discutidas no Brasil.


Alberto Castro, correspondente de Afropress em Londres

Londres – O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Joaquim Barbosa, disse nesta quinta-feira (29/01), em palestra no Kings College, de Londres, que a discriminação racial e o racismo são as questões mais sériaa a serem discutidas no Brasil e que enfrentar o problema é condição fundamental “se o país quiser ser respeitado como um player importante entre as nações do mundo”.

”É preciso fazer algo para incluir negros no mainstream da sociedade”, advertiu frisando que “o Brasil nunca tratou a sério esse assunto”. Na sua ótica, ”a única medida séria nos últimos 10 anos foram as cotas, mas elas não resolvem o problema”, observou salientando que o maior problema para a solução desse problema reside na educação.

A resposta do ministro aconteceu ao responder a uma pergunta colocada por Alberto Castro, correspondente de Afropress em Londres, que acompanhou a palestra realizada para uma platéia interessada que lotou os 250 assentos do auditório Edmond J. Safra, do King’s College, da Universidade de Londres.

”A grande maioria dos brasileiros que sofrem as consequências de uma educação paupérrima é a dos negros que vivem nas favelas, que e têm os piores trabalhos, os piores salários, cerca de 50% da média das pessoas brancas”, disse em tom de denúncia. ”Todos os indicadores mostram que esse é um dos problemas-chave na política brasileira”, informou opinando que ”essa é uma questão geradora de controvérsias sobre a qual é urgente um debate público sério”.

Veja, na íntegra, e com exclusividade o relato do correspondente de Afropress e suas impressões sobre a palestra do ministro – o primeiro negro a assumir a chefia do Poder Judiciário no Brasil:

Os 250 assentos do auditório Edmond J. Safra, do King’s College, Universidade de Londres, foram ontem (29/01) insuficientes para acomodar o grande número de estudantes, professores, brazilianistas e também alguns imigrantes brasileiros que se apresentaram para assistir à palestra proferida por Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), o que fez com que parte dos interessados se contentassem em seguir o evento por viodelink numa sala para onde foram encaminhados.

Na sua intervenção, de cerca de uma hora e meia, Barbosa fez uma avaliação histórica do STF apontando algumas das maiores mudanças sofridas pela instituição na década passada, dando exemplo de alguns dos casos mais emblemáticos ali tratados.

Todavia, desde o início, foi notório que a audiência, que escutou atentamente o palestrante, estava muito mais interessada em ouvir da atual estrela do Judiciário e da política brasileira, tido por muitos como herói devido ao seu papel no já histórico caso ”mensalão”, as suas opiniões sobre assuntos mais comuns que afetam a sociedade brasileira.

Candidatura

Eis algumas das questões mais pertinentes, a começar a que se tornou recorrente: “vai o senhor candidatar-se a presidência do Brasil?”

”Nunca fui um político e nem nunca fui filiado a um partido, nem mesmo na universidade. Nunca tive militância política”. Começou por responder fazendo uma breve pausa para concluir: “Não. Eu realmente quero ser um homem livre de novo, ter vida privada e menos exposição do que tenho agora”.

A uma pergunta sobre o fato de ser um liberal e progressista mas, paradoxalmente, ser adorado pelos conservadores replicou: ”Sou uma pessoa muito cautelosa. Faço o que penso ser certo. Tenho décadas de experiência na academia e nos tribunais. Pesquiso e aplico as regras da lei e esse é o meu guia para fazer o que tem que ser feito. Se as pessoas liberais ou conservadoras gostam, ok. Se não gostam, não me importa”, enfatizou.

Prisões

Questionado sobre o estado lamentável em que se encontram as prisões brasileiras e sobre os mais recentes casos trágicos no Maranhão disse: “As prisões são um problema muito sério no Brasil. No ano passado eu fiz visitas a presídios. O que posso dizer é que horror é a palavra mais adequada para qualificar as prisões brasileiras”. Para o magistrado, a questão a ser colocada seria: ”porque essa situação é tão absurda?” A resposta está, no seu entender, no fato de as prisões no Brasil serem primeiramente um assunto de responsabilidade estadual.

”O Governo federal joga um papel menor ao ajudar os Estados a construir prisões com uma mínima dignidade para os prisioneiros”, esclareceu para logo depois criticar o desinteresse dos políticos: ”Eles não se importam com esse problema, porque ele não lhes dá retorno político, votos. Essa é a razão porque as prisões estão nesse estado”, afirmou, lembrando que ”o problema não é novo, acontece em todo o Brasil e não apenas as prisões do Maranhão se parecem com um inferno”, esclareceu. Lembrou ainda que em alguns Estados as prisões são controladas por duas das maiores facções criminosas brasileiras como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho.”Esta é a realidade”, admitiu.

Fundamentalismo religioso

Questionado sobre a perigosa ligação entre política e religião no Brasil e sobre se o país caminha em retrocesso para um fundamentalismo religioso, disse: ”Não diria que caminhamos para uma espécie de fundamentalismo religioso embora haja um número crescente de deputados sendo eleitos devido a sua filiação religiosa. Por enquanto não me parece que os grupos religiosos constituam uma ameaça séria. Mas esse é um assunto igualmente sério”, advertiu.

Mas foi talvez o tema colocado pela Afropress que mereceu do presidente do STJ uma maior profundidade, frontalidade e, dir-se-ia mesmo, denúncias nas suas análises. Provavelmente por estar perante uma audiência internacional de estudantes, acadêmicos e jornalistas, e também diaspórica brasileira, audiência quase totalmente branca. Uma questão intrigantemente quase ignorada pelos correspondentes da mídia brasileira que cobriram o evento.

Tratou-se da pergunta sobre avaliação que ele fazia do racismo e da discriminação racial na sociedade brasileira e sobre as medidas até agora tomadas pelos governos brasileiros para atacar o problema. Barbosa começou por dizer que, para ele, esse era o tópico mais sério a ser tratado  no Brasil. O país tem, na sua opinião, uma tarefa muito séria na resolução desse problema ”se quiser ser respeitado como um player importante”, alertou, assinalando que a população negra (pretos e pardos) constitue de 50 a 51% do total da população brasileira, a maioria, segundo dados oficiais.

Inclusão de negros

”É preciso fazer algo para incluir negros no mainstream da sociedade”, advertiu frisando que “o Brasil nunca tratou a sério esse assunto”. Na sua ótica, ”a única medida séria nos últimos 10 anos foram as cotas, mas elas não resolvem o problema”, observou salientando que o maior problema para a solução desse problema reside na educação.

”A grande maioria dos brasileiros que sofrem as consequências de uma educação paupérrima é a dos negros que vivem nas favelas, que e têm os piores trabalhos, os piores salários, cerca de 50% da média das pessoas brancas”, disse em tom de denúncia. ”Todos os indicadores mostram que esse é um dos problemas-chave na política brasileira”, informou opinando que ”essa é uma questão controversial que urge  um debate público sério”.

Frontalmente culpa a elite branca pela inexistência desse debate na sociedade brasileira ao afirmar categóricamente que  ”os brancos brasileiros não gostam de debater o assunto. Acham-no enfadonho. Para eles não é ok discuti-lo”, lamentou.

”Quando uma pessoa sensível chega pela primeira vez ao Brasil, a primeira coisa que nota é a ausência de negros em trabalhos de prestígio, de boa posição em empresas, na TV. Valha-me Deus!, a TV brasileira parece ser da Dinamarca”, brincou seriamente arrancando sorrisos dos presentes. ”Esse é um assunto  muito sério”, voltou a salientar concluindo que o mesmo merece ser tratado urgentemente ”porque quanto mais pessoas estiverem incluídas na economia melhor o país se torna”.

Solidariedade

Momento de humanidade e solidariedade do magistrado tido como implacável no combate contra a corrupção e contra as injustiças sociais aconteceu quando ouviu atentamente o testemunho de um compatriota a quem foi recusado visto de refugiado no Reino Unido por ter sofrido ameaças de assassinato no Brasil. ”A ameaça de assassinato não me surpreende. Recentemente  tivemos o assassinato de uma juíza no Rio de Janeiro. Temos alguns casos de assassinatos de jornalistas, não nas grandes cidades, mas em pequenas cidades e nas áreas periféricas do Brasil. O Brasil tem uma cultura de violência”, enfatizou lembrando que o país teve séculos de escravidão. O  presidente do STF aproveitou o tema para voltar a tocar na questão do racismo no Brasil recordando que ”as vítimas mais frequentes da violência são os jovens negros”.

”Lamento muito o que sucedeu consigo mas você é um afortunado por ter conseguido sair. Muitas pessoas em situação similar não têm essa escolha. Continuam sendo subjugadas, ameaçadas e eu diria que muitos casos de ameaça não são do conhecimento público. Se alguma coisa acontece na periferia do Brasil nesse sentido você não toma conhecimento”, lembrou. ”Espero que você seja capaz de voltar ao Brasil e, por enquanto, ir para um outro Estado. Saia das pressões locais e estabeleça-se num outro Estado. Desejo sorte na sua luta”, disse humano e solidário.

A palestra terminou com fortes aplausos e Joaquim Barbosa, qual estrela de cinema, mal teve tempo de respirar e viu-se logo rodeado de um punhado de gente cumprimentando-o e pedindo um momento de foto com ele para a posteridade. ”Tirei a foto com o meu herói”, disse-me no final um jovem branco radiante.

Afropress 8 anos de mídia étnica, parceira da Rede Radio Mamaterra.

Joaquim Barbosa sobre o racismo: diplomacia brasileira “é muito discriminatória”


Em nossa linha de conversar sobre o racismo no Brasil sem subterfúgios nem desculpas esfarrapadas, a Mamapress reitera a sua posição de o racismo no Brasil vai aparecer e se evidenciar cada dia mais. Vai aparecer não pelo racismo de agora ser maior ou menor do que antes. Mas sim porque os discriminados não estão mais engolindo as desculpas esfarrapadas dos racistas que sempre alegam que têm um pé na cozinha quando querem esconder os crimes racistas que cometem.
Já temos toda uma geração de empregadas domésticas que exigem seus direitos trabalhistas. Temos toda uma geração de trabalhadores negros que, que já não mais aceitam que seus companheiros brancos ganhem mais e sejam sempre promovidos na frente deles. Já temos toda uma geração de intelectuais formados lá fora que podem sustentar de igual para igual com os intelectuais brancos as discussões e reivindicações trazidas pelos 53% da população não branca. Infelizmente maioria destes intelectuais formados em todas as disciplinas, foram formados lá fora, pois aqui no Brasil, a academia reservou aos negros e indígenas estudarem os negros e indígenas, viramos uma disciplina.
Queremos mais, queremos estar no poder em todas as instituições. Temos homens e mulheres negras e indígenas de todas as idade preparados para esta tarefa, e não me venham com esta velha história que precisamos esperar os investimentos em educação para termos igualdade. Dou meu exemplo pessoal: Em minha experiência profissional no Brasil, a maioria da pessoas brancas a quem eu fui subordinado, não tinham o preparo que eu tinha, hoje a maioria é rica e senta em Brasília enquanto eu… tive minha carreira de sociólogo de tal forma bloqueada que tive que sair do país em 1989.
Quantas vezes tive que pedir à uma funcionária negra, com 30 anos de serviços sem nenhuma promoção, que tivesse a gentileza de “escolarizar” a loura que iria ser chefe dela no secretariado, que nem um memorando escrever o sabia, mas como branca representaria melhor a recepção no gabinete do chefão branco?
As discussões à cerca do racismo que sempre foram colocadas debaixo do tapete, e estavam reduzidas aos circuitos do movimento negros e grupos discriminados como os grupos mulheres, indígenas e LGBT, viraram questão nacional desde as manifestações de junho de 2013.
O desaparecimento depois de torturado do corpo de Amarildo levaram os jovens de classe média das grandes cidades do Brasil que sempre viveram nos condomínios e escolas segregadas, ao descobrirem que estavam sendo tratados como negros pelas policias estaduais especializadas em maltratarem, torturarem e eliminarem negros na história do Brasil.
A perversidade do sistema racista e de apartheid que sustenta e mantém uma elite branca ou esbranquiçada no Brasil, saiu de suas margens de só atacar os guetos e hoje estende suas garras a todos os cidadãos e os perseguem mesmo dentro de seus computadores.
Fomos todos nivelados por baixo, fomos todos nivelados pela discriminação antes reservadas aos negros e indígenas.

Quase que ao mesmo tempo os brasileiros descobrem que têm um juiz negro na maior corte do país, juiz de carreira e que chega ao topo, elevando-se à categoria de ser o único e primeiro negro no Brasil a assumir esta posição no Brasil. Este exemplo nos nivelou por cima a todos o negros no Brasil. Em um país em que nós negros e indígenas somos segregados em tudo, descobrimos que também podemos entrar na máquina responsável por nos manter através da lei longe da propriedade e dos bens econômicos do Brasil. De nela entrar e transformá-la pode ser um passo. Esta possibilidade remota dede mudar o sistema judiciário que manda para as prisões  medievais milhares de negros, assusta. Assusta a simples possibilidade de negros julgarem e assim também brancos irem para a cadeia. Pela primeira vez então os brancos da elite brasileira, muitos deles que já passaram pelos porões da ditadura, se lembram e derramam lágrimas de crocodilos, sobre as condições desumanas em que vivem milhares de negros encaixotados em porões em que a tortura é o simples ir para lá. A justiça brasileira ao condenar alguém não o pune por seus mau-feitos, mas sim pela sua cor e condição econômica. Mandar alguém pobre e preto para a prisão no Brasil para simples averiguação, é dar a pena de morte ou tortura perpétua. A única saída para esta pessoa é baixar a cabeça ou se tornar fera para massacrar e cortar cabeças de outros iguais.

Todos estes acontecimentos que vivemos nos últimos dois anos são momentos emblemáticos, que escancaram para todos o Brasil racista que só inglês podia ver.

Vivemos um momento chave em nosso país que pode influenciar e propiciar a mudança da mentalidade racista de todos nós brasileiros. Está na hora de termos solidariedade um com os outros e reconhecermos que o sistema de apartheid racial e econômico no Brasil, nos atinge a todos e à nossas famílias. Que está nos destruindo a todos

A entrevista do RFI com o Ministro Barbosa, revela um ministro do STF, também preocupado com esta questão. O próprio STF com esmagadora maioria de brancos quatrocentões, em decisão memorável reconheceu a dívida do Brasil para com os negros e indígena e homologou em 2012 as cotas como constitucionais.

É essa discussão que nos interessa e nos interessa fazê-la com responsabilidade, pois estamos todos sentados em um Barril de Pólvora evidenciado pelo genocídio de nossa juventude negra, que precisa ser finalmente enfrentado.
O linchamento que alguns setores da sociedade fazem atualmente do Ministro Joaquim Barbosa, é por nós considerado como uma fuga da discussão do racismo institucional que perpassa toda a nossa sociedade desde o alto escalão de Brasilia, passando pela composição racial dos quadros que comandam as redações de nossos veículos de comunicações, até as chefias de cozinha nos grandes clubes e hotéis.
Enfrentamos o racismo em todas as esquinas, este é o fato. (Marcos Romão- editor da Mamapress)

Artigo nos  de Lúcia Müzel, que nos foi enviado pelo advogado Humberto Adami

Joaquim Barbosa sobre o racismo: diplomacia brasileira “é muito discriminatória”

Lúcia Müzell fonte: RFI

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa STF

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa
STF

Em 1993, quando deixou Paris com um título de doutor recém-conquistado na Universidade Panthéon-Assas, Joaquim Benedito Barbosa Gomes não imaginaria que, quase 20 anos depois, seria o primeiro negro a assumir a presidência do Supremo Tribunal Federal. A nomeação, entretanto, é uma exceção em um país onde o racismo se esconde atrás de piadas e os negros permanecem longe de ter acesso às mesmas oportunidades que os brancos, apesar de comporem a maioria da população. Em entrevista exclusiva à RFI, Barbosa afirma que um dos piores exemplos é a face brasileira no exterior: a diplomacia, segundo ele, ainda “é muito discriminatória”.
Durante sua curta passagem por Paris, na semana passada, o presidente do STF foi recebido como convidado de honra no Conselho Constitucional francês, uma das instituições de maior prestígio do país. Poucos minutos antes de embarcar em um trem rumo a Londres, onde cumpre a segunda etapa de compromissos oficiais na Europa, ele conversou com a RFI.

Na semana passada, enquanto os jornalistas brasileiros aguardavam o senhor em um café na praça da Sorbonne, um garçom francês, negro, reconheceu o seu nome e sabia quem o senhor era. O senhor já é reconhecido no exterior?
Eu sempre tive o hábito de parar na praça da Sorbonne, não somente para tomar um café mas para estudar. Eu gostava de ficar ali. Mas em relação a um garçom ter me reconhecido, isso representa o fato de que os negros se reconhecem em qualquer lugar do mundo. Eles se reconhecem uns nos outros.

A sua carreira é de exceção no Brasil: um negro de origem humilde que chega à presidência do STF. Hoje, foram implantadas as cotas, por exemplo, entre outras ações para integrar melhor os negros na sociedade, inclusive em altos cargos. O senhor acha que a situação melhorou?
As coisas melhoraram um pouco nestes últimos 20 anos. Mas eu acho que nós ainda precisamos de bastante cotas em diversas áreas, porque 50 ou 51% da população é formada por negros. Entretanto, eles ainda se encontram em situações de inferioridade, sofrem discriminação, conseguem empregos ruins. No Brasil, nós não vemos os negros em cargos de direção nas empresas, ao contrário de outros países. A nossa diplomacia é formada em 99% por brancos e é muito discriminatória. Ou seja, ainda temos muito a fazer. Muito mesmo.

Na Europa, essa pouca representação dos negros nos altos cargos no Brasil, um país tão miscigenado, causa estranheza. O senhor acha que o Brasil é um país racista?
É um país onde o racismo é latente. Não é explícito: é latente. Ele é disfarçado, e se mostra nas situações nas quais os negros são excluídos. Quando alguém é surpreendido em um ato racista, ele muda de discurso, faz como se não fosse nada, diz que era uma brincadeira, reafirma que o país é uma mistura de raças, lembra que tem uma tia negra. Porém, em tudo aquilo que conta de verdade, na economia, nas posições de comando, os negros são excluídos.

Recentemente, a ministra francesa da Justiça, Christiane Taubira, foi alvo de vários ataques racistas. O senhor se encontrou com ela na semana passada. Vocês conversaram sobre este assunto?
Sim, nós falamos. Eu acho isso vergonhoso para a França. Uma mulher com muitas qualidades, como a ministra da Justiça Taubira, ser alvo de atos de machismo e de racismo. Nós estudamos na mesma faculdade de Direito em Paris, Panthéon-Assas, embora não tenhamos nos conhecido na época. Ela estudava em Assas e eu fazia o doutorado em Panthéon. E nós conversamos sobre incidentes racistas que nós dois tivemos na época. Houve brigas envolvendo a extrema-direita no campus, coisas assim. Eu acho tudo isso assustador. Porém, na França pelo menos existe o debate, enquanto, no Brasil, tudo fica escondido. Tudo fica como se fosse uma brincadeira. As medidas necessárias [contra o racismo] não são tomadas. O assunto é tratado com superficialidade. O assunto não é levado a sério, e este é o problema.

Durante as manifestações do ano passado, o senhor era visto como um ídolo. O seu nome era evocado para a presidência da República. Nos últimos meses, entretanto, o senhor virou alvo da imprensa, como por exemplo sobre o pagamento de diárias durante a sua viagem à Europa. Como o senhor sentiu essa mudança?
Isso não me incomoda. Isso faz parte do caráter um pouco provinciano do debate público no Brasil. Eu gostaria de debater as coisas sérias. É isso que me interessa. Mas tem uma certa imprensa sem escrúpulos no Brasil, pessoas pagas por fundos governamentais e que só querem saber de me atacar, mas eu só faço o meu trabalho. Faço o meu trabalho e não estou nem aí para essas pessoas.

Questionar a sua honestidade o incomoda?
São os brasileiros que devem dizer se sou honesto, e não estes maus-caracteres.

Só mesmo no Brasil, jornalista vira charlatão em psicologia e analista de caráter do negro


por Marcos Romão

Visibilidade e fama para negro no Brasil são coisas perigosas.  O perigo de cair do sucesso para o Pelourinho, está em cada casca de banana escondida em todas as curvas de seu caminho.

O caráter do homem e da mulher negra é como ‘bundinha de nenén’, todo mundo se acha no direito de dar opinião e passar a mão dando seus beliscõezinhos em nada agradáveis.

Para não me alongar no tempo da escravização do negro no Brasil, em nossa república falar e escrever sobre o caráter do negro virou uma especialidade em que todos podem tecer suas teorias, desde os acadêmicos até os fuxiqueiros enciumados da esquina. Todos têm um amigo negro que é bom, mas no geral os negros e as negras precisam se adaptar. Precisam sair desse “complexo de inferioridade”, porém, sem montar barracos, confusões e possíveis atos vingativos, melhor serem agradecidos.

De Oliveira Viana a Gilberto Freyre, os acadêmicos brancos brasileiros deram sua pitada sobre o que é o negro brasileiro, o que é o seu caráter. É uma sina do negro brasileiro ter tanta gente a defini-lo. O negro fica sem tempo para saber quem é nesta miríade de definições e sentenças sobre o que ele é e onde deve estar e ficar.

Apesar de alguns avanços da academia em relação aos estudos sobre o negro desde Florestan Fernandes, passando pelos brasilianistas e pelos cientistas sociais balançados pelo movimento negro dos anos 70s. Estes avanços teóricos que tiveram a influência do esquecido e nunca citado Sociólogo Guerreiro Ramos e a faca lingüística e política de Abdias Nascimento, pouco influenciam no dia a dia e no racismo verbal que atingem os negros brasileiros, pois ainda vivemos em nosso imaginário coletivo, nos tempos de Monteiro Lobato e narizinhos empinados e de Gilberto Freyre com sua morenice agradável. Negro bom é o negro que se adapta, se comporta e esquece que é negro, pois adaptado é “igual”.

Presos teoricamente em Gilberto Freyre, os intelectuais brancos brasileiros, revelam em 2013, com a aparição de uma casquinha de pele preta próxima ao poder (não nele) seus medos infantis do bicho-papão, do negro mau, que chega de noite para violar suas casas, mulheres ou seus castelos teóricos. Estava tudo tão confortável no Brasil. Negro se fingia de bonzinho e tudo ia bem. Gente negra mal agradecida, bem que os bisavós escravizadores avisaram.

Fiquemos no “Pai de Todos”, o Gilberto Freyre e suas lições sobre caráter, comportamento e participação do povo negro na formação do modo de pensar brasileiro.

Em Casa Grande e Senzala, ele nos dá uma pista sobre como se pensa no imaginário coletivo brasileiro de 2013:

“na colocação dos pronomes, como nós brasileiros temos duas faces:

uma dura, antipática, dominante que se expressa no Faça-me isto! E uma suave, simpática, pronta a obedecer do dominado que pede Me faça. E nem precisamos ter uma só linguagem as duas devem coexistir porque a força, a potencialidade da cultura brasileira parece residir toda na riqueza dos antagonismos equilibrados!!!”

Joaquim Barbosa contraditou o esperado e optou como negro “complexado e “dominado” pelo “Faça-me isto!”

Como sujeito negro com complexo de inferioridade, nas palavras do jornalista Ricardo Noblat, o ministro negro saiu de seu papel, que deveria ser dócil e agradecido, pois lá no Supremo está por ser um negro “escolhido” como café de boa cepa.

Pela infeliz escolha do magnânimo senhor de plantão, a coisa ou o  julgamento deu no que deu. Foi até o fim e tem gente graúda presa, apesar de 200 milhões de brasileiros e brasileiras, jamais imaginarem que um dia isto poderia acontecer no Brasil.

O jornalista Noblat vai ao cerne do jeitinho que é a base do racismo brasileiro, mas perde as estribeiras, como é típico para intelectuais que entram no campo do “psicológico” quando falam do negro no Brasil:

“Por mais inocente que seja quem não receia ser alvo de uma falsa acusação? Ao fim e ao cabo, quem não teme o que emana da autoridade da toga?

Joaquim faz questão de exercê-la na fronteira do autoritarismo. E por causa disso, vez por outra derrapa e ultrapassa a fronteira, provocando barulho.

Não é uma questão de maus modos. Ou da educação que o berço lhe negou, pois não lhe negou. No caso dele, tem a ver com o entendimento jurássico de que para fazer justiça não se pode fazer qualquer concessão à afabilidade.

Para entender melhor Joaquim acrescente-se a cor – sua cor. Há negros que padecem do complexo de inferioridade. Outros assumem uma postura radicalmente oposta para enfrentar a discriminação.

Joaquim é assim se lhe parece. Sua promoção a ministro do STF em nada serviu para suavizar-lhe a soberba. Pelo contrário.”

Joaquim foi descoberto por um caça talentos de Lula, incumbido de caçar um jurista talentoso e… negro.”

Tenho respeito por Ricardo Noblat, um jornalista que se caracteriza por sua independência, como também a tem o juiz Joaquim Barbosa.

Em seu texto “Joaquim Barbosa: Fora do eixo”. Noblat não entra nas diatribes racistas que se tem publicado ultimamente em blogs e jornalões, em uma campanha orquestrada para se atingir o caráter de Joaquim Barbosa, entretanto a alimenta.

Noblat escorrega no desaforo, como todo bom jogador de futebol amigo do negro que acabou de xingar. Só que Noblat, estamos em 2013 e o pote de tolerância com o racismo transbordou. Basta!

Joaquim Barbosa está Ministro Presidente do Supremo Tribunal porque é negro, todos nós negros, assim como Barbosa, o sabemos. Como sabemos que todos os outros anteriores o foram porque eram brancos.

Como um troféu de outrora ele o negro jurista precisou ser caçado, como eram caçados os griots, quando havia necessidade de alguma conciliação colonial com os escravizados, depois eram mortos.

Negro jurista dificilmente seria encontrável nos churrascos da “Granja Torta e Branca”, onde negros só entram como “tias Anastácias” e Lambe-Botas. Caçadores de talentos deveriam sair de lupa na mão para aprisionar um negro com “alguma” competência branca, pois o Brasil assim o precisava para ter uma nova imagem.

São 125 anos de Abolição e só os astros dirão se vai durar mais 125 anos para termos um ou outro presidente do STF negro.

Baixe o pau quem quiser no Presidente do Supremo. Dê sua opinião quem quiser sobre o julgamento do mensalão. Coloque em questão quem quiser os procedimentos jurídicos do julgamento e das prisões. Estamos em uma democracia, mesmo que capenga. Ainda é um direito de qualquer cidadão emitir sua opinião.

Agora pensem duas vezes ao serem analistas do caráter de ser negro. Vocês têm muito pouca experiência no assunto, pois são inconscientes da própria cor e de seus privilégios. Chega de charlatanismo psicológico sobre o que o negro pensa.

Quantas vezes, você Noblat participou de uma roda de conversa antirracista para saber o que é construção de identidade?

Os negros sabem que é muito difícil para os brancos encararem a sua “falta de identidade privilegiada”, por isto fica mais fácil falar e escrever sobre os outros, índios e negros e mulheres e assim esquecerem-se da própria “Patologia do Homem Branco”, como nos lembra Guerreiro Ramos.

Nestes últimos 40 anos tive o prazer de vivenciar com brancos no Brasil e na Europa, que enfrentaram  a Esfinge do Racismo. Doeu mas pariram. Pararam de serem “doutores” em negros. Ai deu para começar a conversar.

Pergunte às mães e esposas de jovens e maridos negros, o que é assistir a seus parentes serem julgados por milhares de juízes brancos, que tem medo e asco à sua pele e comportamento e os enfiam nas masmorras?

Ainda não li uma linha branca nos jornalões sobre o caráter mau, perverso, branco e racista destes juízes e de sua formação e berço.

Ao voltar há dois anos ao Brasil avisei aos meus amigos. O racismo brasileiro está entrando em uma fase nova e virulenta. Poucos acreditaram.

Agora muitos negros estão surpresos e estupefatos, com a sem cerimônia intelectual com que passam a mão nas nossas caras e nádegas e pedem que sejam agradecidos pela condescendência de o fazerem com margarina.

Negro não tem imprensa, mas a resposta está aí. Só não vê quem não quer.

Como diria o Gonzaguinha: “A gente não está com a bunda exposta na janela prá passar a mão nela”.

Meus respeitos agora estão na condicional.

campanha contra barbosa é racismo

Cartaz da Campanha Stop o Neoracismo produção Luiz Carlos Gá

Par quem quiser em meia hora se aprofundar sobre a construção do imaginário coletivo racista de 2013, aqui está uma aula sobre o pensamentos social brasileiro da Professora Elide Ruda Bastos

Privacidade e vida pública de Joaquim Barbosa, não é “casa de mãe Joana”


por marcos romão(blog mamapress n° 999!)
“Cresce rumor quanto interferência de Joaquim Barbosa na prisão de jornalista”
“Que horror! Correspondente do Estadão é presa e algemada nos EUA a pedido de Joaquim Barbosa!”

Foi assim que passamos este último domingo, ao lermos dezenas blogs de “seriosos” e viróticos na internet em uma jogada muito mal orquestrada.

januário garcia garoto

Foto ripada na internet do autor de Janujário Garcia

Com esta notícia, em que uma jornalista foi presa de forma injusta, caberia ao Jornal Estadão, que a colocou na fogueira acionar a universidade de Yale. Existem tribunais para isto.
Com esta campanha contra Barbosa, tornam o fato um “factóide jornalístico” que retira toda a legitimidade de uma jornalista que poderia até acionar a Emenda n° 1 Americana, caso se sinta ferida em seu direito de liberdade de informação.
Com toda esta especulação vou acabar sendo obrigado a votar no Barbosa, pois de certa forma o estão obrigando a se candidatar para presidente.
Determinados jornalistas brasileiros, precisam saber que nós negros já estamos preparados para respondermos este papo de que “defecamos” na saída.

ministros-do-supremo

foto oficial do STJ

Vejam vocês que coisa complicada, é responder quando falo que faço defesa etno-racial do Ministro Joaquim Barbosa e digo que ele é uma possibilidade presidencial. Eu estenderia este conceito à autodefesa étnica, de todo um grupo que começa lentamente a se identificar como um povo e que deseja finalmente fazer parte desta nação que construiu.
Pessoalmente não sou de embarcar em defesa de paladinos da justiça nem de Batmans justiceiros conforme a classe média brasileira adora. Sei que muitos que hoje  batem palmas  para o Joaquim Barbosa, à primeira escorregada dele, vão dizer, “eu, não disse, não fez na entrada, mas na saída….”
Minha solidariedade com Joaquim Barbosa vai até o ponto que eu conheça as razões de seus atos, o faço assim com toda pessoa humana, até porque ainda não tive oportunidade de saber quais são as propostas ideológicas dele para o país, ou se as tem.
Agora, tanto faz para mim se um ministro da justiça negro ou um pm, um bandido ou um qualquer, quando percebo que estão sendo vítimas de racismo, eu grito.
Até porque mesmos os negros que como os caçadores de escravos, capitães de mato tenham permanecido do lado seus senhores, eles eram e sempre foram na história do Brasil, os primeiros sacrificados nos momentos de crise ou de partilha do poder.
Vejam os exemplos dos Lanceiros da Revolução Farroupilha, dos sobreviventes negros que participaram do genocídio contra os indígenas na guerra do Paraguai, do Gregório Fortunato e uma centena de exemplos que amealho ao longo de minhas pesquisas— negro que sirva ao senhor um dia se estrepa nas mão deste mesmo senhor.
Agora voltando ao Barbosa, só nestes últimos 2 dias contei 11 blogs “seriosos” plantando essa barriga jornalística, objetivando dar uma derrubada no Barbosa–agora agente de repressão americana— noutros blogs, “macaco metido à besta”, e nos mais emperdenidos blogs políticos–um negro mal agradecido– que não soube demonstrar gratidão ao seu “nomeador/alforriador”.
A jornalista disse, “telefonei para ele( o Barbosa) e ele disse que não queria falar comigo” e segue a jornalista…”disse então que o esperaria lá fora”. Mas que isto?
Já entrevistei até primeiro ministro alemão e o próprio Lula, mas sempre pedi licença, o Cabral não quis dar entrevista em Hamburgo, quando estava acompanhado de mais dois jornalistas da cidade e mesmo assim não fiquei esperando “ele lá fora”. Convenhamos, caros migos e amigas. Se jornalista pode enfiar o microfone na cara de um pobretão da favela, ou um presidiário algemado, com uma autoridade ministerial o buraco é mais embaixo.
Autoridade negra é igual a qualquer outra e “seu espaço privado ou público”, não é casa de mãe Joana.
Joaquim Barbosa, pude estar próximo algumas vezes no início da década de 80, junto com alguns advogados ligados ao movimento negro aqui no Rio. Ele era simpático ao movimento negro, mas nunca se aproximou muito.
Ele é um ou dois anos mais jovem que eu,. Posso até compreender porque ele fez essa carreira solo, sem deixar de ser negro, como a maioria dos que fazem carreira e ficam furtacor. Na justiça brasileira demonstrar sua cor é ser condenado a ficar na geladeira, mesmo entre os pares. Afinal quantos de seu pares o convida para jantar?

Fosse Joaquim Barbosa muito identificado com o movimento negro, nunca seria nomeado nem por Lula. O Brasil até que pode ter peles pretas no poder, mas está mais que demonstrado, que não está preparado para ter negros que pensem por si mesmo, ou que o demonstrem.
Agora, amigos e amigas, quanto à defesa eptelial, não é do meu feitio. Mas que tem um ranço de racismo quatrocentão embutido nesta jogada de desmoralizar um “símbolo negro” que vai aparecer outro deste quilate, sei lá quando, lá isto tem.
Aprendi na minha convivência com judeus e muçulmanos, vizinhos meus em Hamburgo nos últimos 25 anos, a defender o direito de não ser discriminado até do meu pior inimigo, depois podemos até sair na porrada.
Assim o faço na minha luta pelos direitos humanos, quero os algozes nas malhas da justiça, não justiçá-los.
Isto tem feito com que eu tenha sido imcompreendido a um primeiro momento por ambos os lados.  São os ossos do ofício.

januário garcia

Foto Januário Garcial

PS: acabo de receber uma relato da Jeruse Romão, que não vem a ser nem minha contra parente, apesar do mesmo sobrenome:
“Um dia encontrei-me com uma pessoa conhecida para tomar um café em Brasilia, lá pelos anos de 2003. Era Luiza Bairros, hoje Ministra da Seppir. Eu disse a ela que a forma como o STF tratava o Joaquim era absurda. Racista até. Sempre prestei atenção a isso, independente do que digam hoje e com o cenário de hoje. Fui assessora parlamentar por anos e convivi com parlamentares semi analfabetos( e branco) , sempre ser resguardou um certo respeito colonial para aquilo que se entende por ” autoridade”. No caso de Joaquim o comportamento colonial é às avessas. Trata-se de, na crítica contra seus atos, instigar subliminarmente sua origem ” inferior”, portanto, o fato de ser exceção no lugar que ocupa e de não está preparado para isso por ser preto. Todos querem falar com ele diretamente, como se todos estivessemos no mesmo lugar da piramide que ele.Não dá para não falar de racismo. Ainda que seus julgamos sejam falhos- não sei- o que leva o teor das criticas conter tanto conteudo do repertório do estatuto colonial??”