Ditadura perseguiu até bailes black no Rio de Janeiro.


Com reprodução da matéria do Globo escrita pela jornalista Flávia Oliveira, sobre as perseguições da ditadura militar aos ativistas do Movimento Negro nas décadas de 70 e 80. A Mamapress faz um apelo para que ativistas negros e negras de todo o país, nos enviem relatos das perseguições políticas e impedimentos profissionais que sofreram, devido às suas atividades culturais e políticas no movimento negro nestas décadas.

Nesta matéria de o Globo, temos apenas a ponta do iceberg revelada, sabemos de muito mais, temos ainda tempo de revelarmos para os jovens, tudo que se passou conosco desde 1964, e que o olhar branco ao escrever a história do Brasil não conta. Como foi por exemplo a cassação em 64, através do Ato Institucional nº 1, e exílio físico e intelectual do deputado e professor negro Guerreiro Ramos, que neste ano de 2015 faria 100 anos de idade. Contem! (Marcos Romão-Mamapress)

Militares suspeitavam que artistas e DJs queriam implantar regime de segregação racial

RIO — Seria cômico, não fosse trágico. E brutal. Depois de perseguir, exilar, torturar e matar opositores políticos, a ditadura militar direcionou seu aparato de investigação a grupos sociais e movimentos culturais, entre eles os bailes black. Os eventos reuniam multidões nos subúrbios cariocas, para dançar ao som de ícones da soul music, como James Brown.

Dom Filó, da equipe Soul Grand Prix, foi levado encapuzado ao DOI-Codi, na Tijuca, em 1976: “Perguntavam onde estava o US$ 1 milhão” - Agência O Globo / Gustavo Miranda/17-06-2015

Dom Filó, da equipe Soul Grand Prix, foi levado encapuzado ao DOI-Codi, na Tijuca, em 1976: “Perguntavam onde estava o US$ 1 milhão” – Agência O Globo / Gustavo Miranda/17-06-2015

A Comissão Estadual da Verdade do Rio (CEV-RJ) encontrou documentos que provam como, a serviço do governo, investigadores assombraram artistas e produtores, pela suspeita de que um revolucionário americano estaria no Brasil recrutando militantes para implementar no país um regime de segregação racial. Um relatório da Polícia Federal no Rio Grande do Sul, de agosto de 1978, chega a recomendar o uso da Lei de Segurança Nacional contra “tentativas subversivas de exploração de antagonismos raciais”.

O ponto de partida dos historiadores da CEV-RJ foi um informe de fevereiro de 1975, enviado pelo I Exército aos órgãos de informação, incluindo o Departamento da Ordem Política e Social (Dops) do antigo Estado da Guanabara. O assunto indicado não deixou dúvida: “Black power” (poder negro, em tradução literal), expressão de forte conotação política relacionada ao movimento dos negros americanos pelos direitos civis.

 O texto alertava para a formação de “um grupo de jovens negros de nível intelectual acima da média, com pretensões de criar no Brasil um clima de luta racial”. Os militantes seriam liderados por um negro americano, que receberia dinheiro do exterior, e agiria na Portela, tradicional escola de samba carioca. O Informe 17/75-B também mencionava supostas metas do grupo: “Sequestrar filhos de industriais brancos; criar um bairro só de negros; criar ambiente de aversão aos brancos”.— Nos primeiros dez anos da ditadura, os militares se concentraram em neutralizar membros do governo Jango e aniquilar militantes de esquerda. A partir de 1975, a repressão se estendeu a outros grupos historicamente discriminados, como negros, indígenas, camponeses e pobres. A produção de documentos sobre os bailes black começou assim — diz João Ricardo Dornelles, membro da CEV-RJ e coordenador da pesquisa no Arquivo Nacional e no Arquivo Público do Rio.

As investigações começaram sob recomendação de que fossem conduzidas por “sindicante altamente reservado e discreto”. Para os pesquisadores, trata-se de um eufemismo para sugerir que um agente negro se infiltrasse nos bailes.

No início de abril de 1975, documento da equipe de sindicância avisava que, até ali, nada do revolucionário estrangeiro: “Tudo indica (que a suspeita), tenha um fundo de verdade. Porém, não se conseguiu apurar algo positivo”. Piada. Só que o comando recomendou mais 15 dias de diligências para informações detalhadas e, se possível, qualificação dos envolvidos.

A denúncia infundada embasou a perseguição aos organizadores dos bailes. Relatórios seguintes identificavam nomes de equipes de som, como Black Power e Soul Grand Prix, e de seus integrantes. Os textos traziam descrições detalhadas de público presente, preço de ingressos e até expressões usadas pelos frequentadores. Ao 2º Encontro dos Blacks, no Portelão, compareceram seis mil “pessoas de cor”, segundo o documento da Seção de Buscas Ostensivas. Pela primeira vez, os historiadores encontrariam referências à cor da pele dos investigados.

Os responsáveis pelos bailes foram fichados e interrogados. Em 1976, Asfilófio de Oliveira Filho, o Dom Filó, da Soul Grand Prix, foi capturado perto do Renascença Clube, na saída da Noite do Shaft. Encapuzado, foi lançado num carro. Terminou numa sala úmida, com a visão ofuscada por uma luz forte. Passou a madrugada sob tortura psicológica, sem saber onde estava. A descrição do ambiente coincide com depoimentos de presos políticos que passaram pelo DOI-Codi, cuja sede ficava no Quartel do 1º Batalhão da Polícia do Exército, na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca.

— As vozes perguntavam onde estava o US$ 1 milhão. Mas aquilo não existia — lembra Dom Filó, deixado horas depois no Lins de Vasconcelos.

Gerson King Combo, apresentado como “líder do movimento black”, foi levado do Aeroporto Santos Dumont para a sede da PF, na Praça Mauá. Voltava de show em Recife. Prestou depoimento por três horas.

— O movimento nunca foi político. Fui paraquedista, tinha noção dos cacetes que os presos políticos tomavam. A gente queria se divertir e aumentar a autoestima dos negros. Nos shows, eu recitava mandamentos black: dançar, cumprimentar, falar, amar, curtir — conta.

VESTIDOS À MODA BLACK

Os informes também faziam referência a artistas como Tony Tornado, que chegou a sair do país nos anos 1970, e aos DJs Big Boy, Monsier Limá e Ademir Lemos, os três já falecidos. Rômulo Costa, da equipe Furacão 2000, é citado em documento do Ministério da Aeronáutica como um dos organizadores do 1º Encontro Nacional dos Blacks, em setembro de 1977, no Ginásio do Madureira. O relatório diz que cerca de 15 mil jovens negros lotaram o estádio vestidos à moda black: “cabelos cheios, calças ‘boquinhas’, camisas extravagantes, sapatos de sola, saltos altos e cores berrantes, turbantes indianos e cumprimentando-se com punhos cerrados”.

— O texto retrata o notório preconceito racial. Não fazíamos nada para competir ou nos distinguir dos brancos. Fazíamos porque gostávamos e nos identificávamos com a cultura black americana na música e na maneira de vestir — diz Costa.

As investigações se estenderam a São Paulo e ao Rio Grande do Sul. É do escritório gaúcho da PF o último documento achado pela CEV-RJ. O relatório criminalizava o movimento black, cujo objetivo seria pregar entre jovens negros “o preconceito racial, a discórdia e o desentendimento nocivo à comunidade brasileira”. O americano subversivo jamais foi encontrado. Cômico, não fosse trágico.

Registro de um encontro em 2011 do pessoal do Soul da década de 70

A equipe Cultne composta por Slow DABF, Alvaro RioMais e Filó Filho registraram o re-encontro da galera do soul no Gremio de Rocha Miranda no último dia 3 de dezembro de 2011 na zona norte do Rio de Janeiro. Foi histórico e emocionante curtir ao som da lendária equipe CashBox e bailar com as caravanas de black brothers de São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Jandeiro. Ao som dos DJs Marcão (Cashbox), Sir Dema (Clube do Soul) e Eduardo Oldschool os bons tempos foram relembrados no Templo do Soul, situado em Rocha Miranda, zona norte da cidade do Rio de Janeiro, que recebeu os ilustres soul brothers Mr. Funk Santos, Mancha,Rita Monteiro, Nea, Osmar, Peixinho, Waldeck, Nelson Triunfo, Funk Gil e Don Filó.

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Prá você que morre de saudades da ditadura. 10 casos de corrupção foram listados pela UOL


do original UOL

  • Militares em frente ao Ministério do Exército, no Rio, em 2 de abril de 1964Militares em frente ao Ministério do Exército, no Rio, em 2 de abril de 1964

Os protestos de 15 de março, direcionados principalmente contra o governo federal e a presidente Dilma Rousseff, indicaram a insatisfação de parte da população com os casos de corrupção envolvendo partidos políticos, empresas públicas e empresas privadas. Algumas pessoas, inclusive, chegaram a pedir uma intervenção militar, alegando que essa seria a solução para o fim da corrupção.

Mas será que nesse período a corrupção realmente não fazia parte da esfera política? Apesar da blindagem proporcionada pelas restrições ao Legislativo, Judiciário e imprensa, ainda assim a ditadura não passou imune a diversas denúncias de corrupção.

O UOL listou dez delas, tendo como fonte a série de quatro livros de Elio Gaspari sobre o período (“A Ditadura Envergonhada”, “A Ditadura Escancarada”, “A Ditadura Derrotada” e “A Ditadura Encurralada”) e reportagens da época. O primeiro item que envolve Delfim Netto contém uma resposta do ex-ministro sobre os casos. Veja:

1 – Contrabando na Polícia do Exército

A partir de 1970, dentro da 1ª Companhia do 2º Batalhão da Polícia do Exército, no Rio de Janeiro, sargentos, capitães e cabos começaram a se relacionar com o contrabando carioca. O capitão Aílton Guimarães Jorge, que já havia recebido a honra da Medalha do Pacificador pelo combate à guerrilha, era um dos integrantes da quadrilha que comercializava ilegalmente caixas de uísques, perfumes e roupas de luxo, inclusive roubando a carga de outros contrabandistas. Os militares escoltavam e intermediavam negócios dos contraventores. Foram presos pelo SNI (Serviço Nacional de Informações) e torturados, mas acabaram inocentados porque os depoimentos foram colhidos com uso de violência – direito de que os civis não dispunham em seus processos na época. O capitão Guimarães, posteriormente, deixaria o Exército para virar um dos principais nomes do jogo do bicho no Rio, ganhando fama também no meio do samba carioca. Foi patrono da Vila Isabel e presidente da Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba).

2 – A vida dupla do delegado Fleury

Folhapress

Sérgio Paranhos Fleury

Um dos nomes mais conhecidos da repressão, atuando na captura, na tortura e no assassinato de presos políticos, o delegado paulista Sérgio Fernandes Paranhos Fleury foi acusado pelo Ministério Público de associação ao tráfico de drogas e extermínios. Apontado como líder do Esquadrão da Morte, um grupo paramilitar que cometia execuções, Fleury também era ligado a criminosos comuns, segundo o MP, fornecendo serviço de proteção ao traficante José Iglesias, o “Juca”, na guerra de quadrilhas paulistanas. No fim de 1968, ele teria metralhado o traficante rival Domiciano Antunes Filho, o “Luciano”,  com outro comparsa, e capturado, na companhia de outros policiais associados ao crime, uma caderneta que detalhava as propinas pagas a detetives, comissários e delegados pelos traficantes. O caso chegou a ser divulgado à imprensa por um alcaguete, Odilon Marcheronide Queiróz (“Carioca”), que acabou preso por Fleury e, posteriormente, desmentiu a história a jornais de São Paulo. Carioca seria morto pelo investigador Adhemar Augusto de Oliveira, segundo o próprio revelaria a um jornalista, tempos depois.

Os atos do delegado na repressão, no entanto, lhe renderam uma Medalha do Pacificador e muita blindagem dentro do Exército, que deixou de investigar as denúncias. Promotores do MP foram alertados para interromper as investigações contra Fleury. De acordo com o relato publicado em “A Ditadura Escancarada”, o procurador-geral da Justiça, Oscar Xavier de Freitas, avisou dois promotores em 1973: “Eu não recebo solicitações, apenas ordens. (…) Esqueçam tudo, não se metam em mais nada. Existem olheiros em toda parte, nos fiscalizando. Nossos telefones estão censurados”.

No fim daquele ano de 1973, o delegado chegou a ter a prisão preventiva decretada pelo assassinato de um traficante, mas o Código Penal foi reescrito para que réus primários com “bons antecedentes” tivessem direito à liberdade durante a tramitação dos recursos. Em uma conversa com Heitor Ferreira, secretário do presidente Ernesto Geisel (1974-1979), o general Golbery do Couto e Silva – então ministro do Gabinete Civil e um dos principais articuladores da ditadura militar – classificou assim o delegado Fleury, quando pensava em afastá-lo: “Esse é um bandido. Agora, prestou serviços e sabe muita coisa”. Fleury morreu em 1979, quando ainda estava sob investigação da Justiça.

3 – Governadores biônicos e sob suspeita

Em 1970, uma avaliação feita pelo SNI ajudou a determinar quais seriam os governadores do Estado indicados pelo presidente Médici (1969-1974). No Paraná, Haroldo Leon Peres foi escolhido após ser elogiado pela postura favorável ao regime; um ano depois, foi pego extorquindo um empreiteiro em US$ 1 milhão e obrigado a renunciar. Segundo o general João Baptista Figueiredo, chefe do SNI no governo Geisel, os agentes teriam descoberto que Peres “era ladrão em Maringá” se o tivessem investigado adequadamente. Na Bahia, Antônio Carlos Magalhães, em seu primeiro mandato no Estado, foi acusado em 1972 de beneficiar a Magnesita, da qual seria acionista, abatendo em 50% as dívidas da empresa.

4 – O caso Lutfalla

Estadão Conteúdo

Paulo Maluf

Outro governador envolvido em denúncias foi o paulista Paulo Maluf. Dois anos antes de assumir o Estado, em 1979, ele foi acusado de corrupção no caso conhecido como Lutfalla – empresa têxtil de sua mulher, Sylvia, que recebeu empréstimos do BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento) quando estava em processo de falência. As denúncias envolviam também o ministro do Planejamento Reis Velloso, que negou as irregularidades, e terminou sem punições.

5 – As mordomias do regime

Em 1976, as Redações de jornal já tinham maior liberdade, apesar de ainda estarem sob censura. O jornalista Ricardo Kotscho publicou no “Estado de São Paulo” reportagens expondo as mordomias de que ministros e servidores, financiados por dinheiro público, dispunham em Brasília. Uma piscina térmica banhava a casa do ministro de Minas e Energia, enquanto o ministro do Trabalho contava com 28 empregados. Na casa do governador de Brasília, frascos de laquê e alimentos eram comprados em quantidades desmedidas – 6.800 pãezinhos teriam sido adquiridos num mesmo dia. Filmes proibidos pela censura, como o erótico “Emmanuelle”, eram permitidos na casa dos servidores que os requisitavam. Na época, os ministros não viajavam em voos de carreira, e sim em jatos da Força Aérea.

Antes disso, no governo Médici já se observavam outras regalias: o ministro do Exército, cuja pasta ficava em Brasília, tinha uma casa de veraneio na serra fluminense, com direito a mordomo. Os generais de exército (quatro estrelas) possuíam dois carros, três empregados e casa decorada; os generais de brigada (duas estrelas) que iam para Brasília contavam com US$ 27 mil para comprar mobília. Cabos e sargentos prestavam serviços domésticos às autoridades, e o Planalto também pagou transporte e hospedagem a aspirantes para um churrasco na capital federal.

6 – Delfim e a Camargo Corrêa

Leticia Moreira/Folha Imagem

Delfim Netto

Delfim Netto – ministro da Fazenda durante os governos Costa e Silva (1967-1969) e Médici, embaixador brasileiro na França no governo Geisel e ministro da Agricultura (depois Planejamento) no governo Figueiredo – sofreu algumas acusações de corrupção. Na primeira delas, em 1974, foi acusado pelo próprio Figueiredo (ainda chefe do SNI), em conversas reservadas com Geisel e Heitor Ferreira. Delfim teria beneficiado a empreiteira Camargo Corrêa a ganhar a concorrência da construção da hidrelétrica de Água Vermelha (MG). Anos depois, como embaixador, foi acusado pelo francês Jacques de la Broissia de ter prejudicado seu banco, o Crédit Commercial de France, que teria se recusado a fornecer US$ 60 milhões para a construção da usina hidrelétrica de Tucuruí, obra também executada pela Camargo Corrêa. Em citação reproduzida pela “Folha de S.Paulo” em 2006, Delfim falou sobre as denúncias, que foram publicadas nos livros de Elio Gaspari: “Ele [Gaspari] retrata o conjunto de intrigas armado dentro do staff de Geisel pelo temor que o general tinha de que eu fosse eleito governador de São Paulo”, afirmou o ex-ministro.
Outro lado: Em relação às denúncias que envolvem seu nome nesse texto, o ex-ministro Delfim Netto respondeu ao UOL: “Trata-se de velhas intrigas que sempre foram esclarecidas. Nunca tive participação nos eventos relatados”.

7 – As comissões da General Electric

Durante um processo no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) em 1976, o presidente da General Electric no Brasil, Gerald Thomas Smilley, admitiu que a empresa pagou comissão a alguns funcionários no país para vender locomotivas à estatal Rede Ferroviária Federal, segundo noticiou a “Folha de S.Paulo” na época. Em 1969, a Junta Militar que sucedeu Costa e Silva e precedeu Médici havia aprovado um decreto-lei que destinava “fundos especiais” para a compra de 180 locomotivas da GE. Na época, um dos diretores da empresa no Brasil na época era Alcio Costa e Silva, irmão do ex-presidente, morto naquele mesmo ano de 1969. Na investigação de 1976, o Cade apurava a formação de um cartel de multinacionais no Brasil e o pagamento de subornos e comissões a autoridades para a obtenção de contratos.

8 – Newton Cruz, caso Capemi e o dossiê Baumgarten

Paula Giolito /Folhapress

Newton Cruz

O jornalista Alexandre von Baumgarten, colaborador do SNI, foi assassinado em 1982, pouco depois de publicar um dossiê acusando o general Newton Cruz de planejar sua morte – segundo o ex-delegado do Dops Cláudio Guerra, em declaração de 2012, a ordem partiu do próprio SNI. A morte do jornalista teria ligação com seu conhecimento sobre as denúncias envolvendo Cruz e outros agentes do Serviço no escândalo da Agropecuária Capemi, empresa dirigida por militares, contratada para comercializar a madeira da região do futuro lago de Tucuruí. Pelo menos US$ 10 milhões teriam sido desviados para beneficiar agentes do SNI no início da década de 1980. O general foi inocentado pela morte do jornalista.

9 – Caso Coroa-Brastel

Delfim Netto sofreria uma terceira acusação direta de corrupção, dessa vez como ministro do Planejamento, ao lado de Ernane Galvêas, ministro da Fazenda, durante o governo Figueiredo. Segundo a acusação apresentada em 1985 pelo procurador-geral da República José Paulo Sepúlveda Pertence, os dois teriam desviado irregularmente recursos públicos por meio de um empréstimo da Caixa Econômica Federal ao empresário Assis Paim, dono do grupo Coroa-Brastel, em 1981. Galvêas foi absolvido em 1994, e a acusação contra Delfim – que disse na época que a denúncia era de “iniciativa política” – não chegou a ser examinada.

10 – Grupo Delfin

Denúncia feita pela “Folha de S.Paulo” de dezembro de 1982 apontou que o Grupo Delfin, empresa privada de crédito imobiliário, foi beneficiado pelo governo por meio do Banco Nacional da Habitação ao obter Cr$ 70 bilhões para abater parte dos Cr$ 82 bilhões devidos ao banco. Segundo a reportagem, o valor total dos terrenos usados para a quitação era de apenas Cr$ 9 bilhões. Assustados com a notícia, clientes do grupo retiraram seus fundos, o que levou a empresa à falência pouco depois. A denúncia envolveu os nomes dos ministros Mário Andreazza (Interior), Delfim Netto (Planejamento) e Ernane Galvêas (Fazenda), que chegaram a ser acusados judicialmente por causa do acordo.

Polícia ou bando de rufiões que espalham o terror de um novo regime?


por marcos romão

Repórter ferido

Repórter ferido

É preciso que analisemos com uma certa distância e sem partidarismos, as imagens e vídeos do que se passou na Praça Saens Pena no último jogo da Copa 2014, que aconteceu no Maracanã.

O que se passou por lá?

Uma manifestação com um número relativamente pequeno de manifestantess, que pelas imagens em nenhum momento constituiam ameaça à segurança pública, passam a ser atacados por bombas de efeito moral, gás colorido e de lacrimogêneo, além de cassetes e spray de pimenta e terminam sitiados por horas sujeitos a todo tipo de violência estatal.

O que a um primeiro momento mais parece um caos sem comando, com policiais que mais pareciam não saberem o que fazer fugindo do gás  e rodando que nem perus sem orientação, revela-se nas imagens uma desordem orquestrada pelas forças da ordem. O ataque a pessoas presas por grades na estação do metrô Saens Pena, o direcionamento das agressões a jornalistas e o disseminado ataque aos moradores da localidade, depreendem uma jogada previamente ensaiada para instalar o terror, além de prenunciarem como  a Secretaria de Segurança e o governo do Estado do Rio vão continuar tratando as questões sociais no Rio.

Pode-se muito bem observar que em meio às tropas, que lá deveriam estar para garantir a ordem pública e segurança dos cidadãos, inclusive dos manifestantes que desarmados não atacavam ninguém, encontravam-se soldados fardados, fazendo o papel de rufiões instigadores e aplicadores de violência, como a exemplo das tropas da SA na década de 30 na Alemanha. Eram policiais militares que estavam ali não para estabelecer a ordem e sim o caos e a violência.

Policial presente em várias ações violentas e "aparentemente" sem controle e comando.

Policial presente em várias ações violentas e “aparentemente” sem controle e comando.

A campanha eleitoral já começou. Nos estados democráticos se preveem em período eleitoral, comícios, caminhadas, discursos nas ruas, protestos e apoios. Eleição é um fenômeno de massas em que cada cidadão passa a ser o governo durante um curto período. É o momento em que manifestar sua opinião e intenção de voto estaria em tese protegida pela constituição, que diz que todo o poder emana do povo.

Caros amigos e amigas que ainda acreditam em cidadania e possibilidade em termos direitos democráticos:
Não é o que o governo, ou o que está por trás do governo do RJ fala que é a verdade. Eles não desejam a ordem democrática e  não estão atrás de “terroristas”. Eles estão querendo calar toda e qualquer oposição  e impedir toda livre discussão democrática, que possibilite mudanças profundas nas relações entre os poderes e direitos dos cidadãos e os poderes do Estado.
O enredo da peça já está montado. Milícias com ou sem fardas irão atuar direto nas campanhas. É necessário que todos os democratas e amantes da liberdade de todos os partidos e sem partidos, acordem para combater a hidra do mal instalada em nosso Estado do Rio.

Enquanto isto não acontece, recomendo aos meus colegas jornalistas, ativistas e cidadãos comuns, que andem sempre com mais de um e nas confusões que apareçam, fiquem de costas uns para os outros para se protegerem com 4 olhos, pois a ordem secreta é caçar todo tipo de oposição. As tropas já saem nas ruas com as fotos dos “inimigos” que vão levar porrada.

Que meus amigos e amigas não percam tempo com discussões teóricas e defendam o seu vizinho, mesmo que tenham discordâncias ideológicas.
Só sobreviveremos em liberdade se estivermos juntos.

Estamos todos no Rio de Janeiro nas mãos de bandidos fardados, com a leniência e comando da justiça e dos governos municipal, estadual e federal.
Nem nas manifestações de 70 vi tantas porradas gratuitas da polícia.  A imagens abaixo demonstram muito bem que “tropas” são estas.

Entenda a Ditadura no Brasil e a intervenção dos Estados Unidos


Os Brasileiros tem a falsa ideia que os Estados Unidos são sempre os mocinhos do mundo, pois temos que mudar essa concepção, entenda como os EUA mudou a história do Brasil apoiando e patrocinando a ditadura que torturou e matou cidadãos brasileiros!

fonte: Mundo do Acessório

TV Brasil e publicado no youtube em março de 2013

Quilombo do Sacopã-Despejo: Justiça Federal dá seis meses de moratória. Agora só depende do INCRA.


por Marcos Romão
1 a sacopaNa véspera de 21 de março, Dia Internacional Pela Eliminação da Discriminação Racial, o Egrégio Tribunal Regional Federal da 2ª Região, no Rio de Janeiro, suspendeu por seis meses o julgamento sobre o pedido da Imobiliária Higienópolis, para que as famílias do Quilombo do Sacopã sejam despejada de suas terras cobiçadas, na Rua do Sacopã 250, na Fonte da Saudade-Lagoa Rodrigo de Freitas em Ipanema. São mais de 20 mil metros quadrados de terras, cercadas por luxuosos condomínios e, com o meio-ambiente ainda preservados.

No momento correm dois processos paralelos, que segundo a justiça federal, impedem o despejo dos Quilombolas do Sacopã. O primeiro, moroso, de usocapião. está há 40 anos “rodando” e se encontra atualmente no STJ.

O segundo, já com as terras reduzidas, de 23 mil metros quadrados para cerca de 7 mil, encontra-se no INCRA e, depende apenas de uma canetada que não precisa ser de ouro nem de prata, para que seja resolvido administrativamente.  Segundo informações, encontra-se na procuradoria do INCRA em Brasília, que aguarda uma ordem “de cima”. A Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, representante do Município, que também é parte no processo, já reconheceu em decreto-lei  de agosto, 2012, a área quilombola como de”Área Especial de Interesse Cultural”. último entrave, para que o INCRA, titule de vez, as terras do Quilombo do Sacopã, já reconhecido desde 2004, pelo órgão competente, que é a Fundação Palmares.

Últimas pessoas humanas de pele negra e descendentes de escravizados a viverem na área com o metro quadrado mais caro do Brasil, eles nos lembram dos mais de 60 mil negros e pobres removidos pela ditadura militar para os subúrbios da zona oeste de Rio, na década de 70. Eram então os Quilombos do Leblon, Ipanema, Jardim Botânico e Lagoa. cognominados de Favelas da Catacumba, Pinto, Draga, Piraquê e outras.

A família Pinto resistiu e lá permanece até hoje. Como se estivesse nos confins do Brasil sem lei e sem justiça, convive também com grileiros poderosos que infernizam a sua vida.

Por infeliz coincidência, cotumaz na justiça brasileira, um advogado que é hoje desembargador de justiça dos Rio de Janeiro é o principal agente contra os direitos dos quilombolas do Sacopã. Morador em um condomínio dentro das terras em litígio, infesta a comunidade quilombola com processos administrativos. O último processo, decidido pela desembargadoria do TJ-Rj. proibe que o Quilombo do Sacopã realize qualquer tipo de atividade comercial ou cultural que envolva público. Nem festas de aniversários das crianças quilombolas são permitidas.

O Quilombo do Sacopã está sendo estrangulado economicamente. Até a caderneta de poupança com os parcos recursos da sobrevivência familiar, foi confiscada pela prefeitura da cidade, em um jogo de gato e rato, que já causou a morte da matriarca da comunidade, infartada e desgostosa com tanta ignomia, depois de uma discussão com este vizinho poderoso, causídico e agora desembargador de justiça.

Que o INCRA de Brasília tire da gaveta o processo de regularização do Quilombo do Sacopã. Será um excelente enlace, para que eles possam finalmente comemorar os 125 anos de Abolição da Escravatura.

CARTA DO QUILOMBO DE RIO DOS MACACOS – BAHIA


Recebemos de Damião Braga do Quilombo da Pedra do Sal, no Rio de Janeiro, este apelo nacional dos Quilombolas do Brasil. Para eles, pelos seus depoimentos no vídeo de Josias Pires publicado no blog  Bahianarede, a ditadura militar continua. Mamaterra reafirma sua solidariedade com o Quilombolas do Quilombo do Rio dos Macacos e de todos os Quilombos do País. Pois como disse uma senhora quilombola em seu depoimento:

“Nós num somo invasor não, meu senhor, quando eles chegaram, acharam a gente”

Quilombo Rio dos Macacos,Bahia, 05 de março de 2012.

Para nossas comunidades, o Território possui um significado completamente diferente da que ele apresenta para a cultura ocidental hegemônica. Não se trata apenas da moradia, mas sim do elo que mantém a união do grupo, e que permite a transmissão de nossa história, nossos cantos e danças, forma de plantar e colher, de geração em geração, possibilitando a preservação da nossa cultura, dos valores e do modo peculiar de nossas vidas enquanto comunidade étnica.

Sabemos que há mais de três séculos, as comunidades quilombolas são vítimas de violentas campanhas do Estado Brasileiro, que objetiva espoliar os nossos territórios, destinando vastas extensões das terras ao agronegócio, por meio de chacinas, assassinatos e despejos violentos, um verdadeiro genocídio!

Nós, das diversas comunidades quilombolas signatárias de todo  Brasil, vimos por meio deste, denunciar à sociedade brasileira e ao mundo a forma brutal como o Estado Brasileiro tem nos tratado, onde, em pleno século XXI, o governo brasileiro  reedita as medidas sociopolíticas que patrocinam a destruição sistemática dos nossos modos de vida, através de supressão física e opressão cultural.

O Governo Lula chegou ao seu último ano de mandato emitindo apenas 11 títulos às comunidades quilombolas, com a promessa de que seriam 57 comunidades em 2010.  Até dezembro de 2011, somente 3 das 44 áreas decretadas para desapropriação haviam sido tituladas pelo governo federal. As comunidades beneficiadas foram Família Silva (RS), Colônia São Miguel (MS) e Preto Forro (RJ). A primeira teve suas terras parcialmente tituladas em 2009 e as outras duas em 2011.

No novo PPA (2012-2015), já sob o governo Dilma, as comunidades quilombolas não mais contam com um programa específico; na transição para o novo PPA não mais existe o programa Brasil Quilombola. O novo programa, denominado Enfrentamento ao Racismo e Promoção da Igualdade Racial, e que tem na Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial-SEPPIR o órgão gestor responsável tem para o ano de 2012, um orçamento no valor de R$ 73,125 milhões, e para os três anos seguintes, mais R$ 239,498 milhões, totalizando no período de 2012-2015 cerca de R$ 312,623 milhões. Considerando-se os números apresentados, um orçamento ainda menor que o anterior (2008-2011).

Além dos números apresentados, a política adotada pelo Estado Brasileiro em relação às nossas comunidades é pautada pela barbárie, operada através do uso abusivo da máquina estatal, leis, bens públicos, força repressiva e expropriação dos recursos que seriam de toda a coletividade. Tecnologia há mais de três séculos solidamente instalada e tendo como sua principal base de sustentação o controle do acesso à justiça.

Nas últimas décadas, como forma de enfrentar a organização política da comunidade Rio dos Macacos e da solidariedades de muitos grupos da Bahia e do Brasil, a Marinha protagonizou inúmeras ações violentas a exemplo do assédio diário à comunidade com dezenas de fuzileiros armados; invasão de domicílios atentando contra os direitos das mulheres; uso ostensivo de armamento exclusivo das forças armadas criando verdadeiros traumas em crianças, adolescente e idosos, que tiveram casas invadidas e armas apontadas para as suas cabeças; em 04 de março de 2012, uma semana após realização de audiência com a presença da Secretaria Geral da Presidência da República, o quilombola Orlando sofreu atentado contra sua vida, quando um fuzileiro naval disparou tiro contra o mesmo, com o intuito de matá-lo, quando este chegava em Rio dos Macacos. Além, há severo impedimento das atividades econômicas tradicionalmente desenvolvidas pela comunidade, como a agricultura e a pesca de subsistência como forma de inviabilizar a permanência no território. Um saldo desse conflito desigual se evidencia no grande número de crianças, adolescentes e adultos que foram impedidas ou que foram forçadas a desistir de frequentar a escola. Na comunidade de Rio dos Macacos, dois fuzileiros ficavam de prontidão num ponto denominado pela comunidade como “barragem” para impedir a saída e entrada de pessoas, e quem insistiu foi espancado, preso e humilhado publicamente como castigo exemplar. Desde a década de 1970 que mais de 50 famílias foram expulsas do território e se mantém alto nível de hostilidade aos que permaneceram resistindo. A disputa não se dá apenas no campo objetivo, pois a Marinha, ao destruir quatro terreiros de Candomblé em Rio dos Macacos, também estabeleceu uma guerra contra a sustentação simbólica, que incide diretamente no ataque à memória, à cultura e às tradições, elementos fundamentais à identidade quilombola. Outra comunidade quilombola, Tororó, vizinha ao Rio dos Macacos, também tem sofrido com o mesmo processo de violência, realizada pela Marinha do Brasil.

No território quilombola da Ilha da Marambaia, no Rio de Janeiro,  encontramos um verdadeiro Estado de Sítio. A administração militar da ilha instaurou, a partir de 1971, um regime de proibições que decorrem da sobreposição de algumas figuras legais, cuja aplicação local é ambígua e até mesmo distorcida: área de interesse militar- freqüentemente confundida com Área de Segurança Nacional; Área de Preservação Ambiental (APA) – pensada como área de uso exclusivo para pesquisa científica (Reserva); e área de patrimônio da União – tomada como Patrimônio Histórico Nacional. Lançando mão da sobreposição e confusão dessas categorias, os administradores da ilha criam um verdadeiro território de exceção, que busca dar aparência legal e justificação legítima à estrutura de precariedades criadas em torno da posse territorial que quase 300 famílias quilombolas mantêm na ilha há três gerações.

No norte de Minas Gerais, a Comunidade Quilombola de Brejo dos Criolos enfrenta latifundiários violentos todos os dias. Reconhecida desde 2004 como Comunidade Quilombola, depois de 6 anos de espera. Em razão desta lentidão, foram realizadas desde 2005 até os tempos atuais seis re-ocupações de terras, sendo que em três, o conflito intermediado pela Procuradoria da Republica em Minas Gerais, propiciou a permanência nas áreas ocupadas. E em uma delas, dado que foi solicitada ao juiz da comarca a manutenção da posse da terra retomada, cuja representação foi alicerçada na afirmação constitucional de que estando “ocupando as suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir- -lhes os títulos respectivos.  Para a emissão do decreto de desapropriação ( o único emitido pelo Governo Federal em 2011!), centenas de quilombolas acamparam e se acorrentaram diante do Palácio do Planalto em setembro de 2011. Registra-se ainda a violência permanente sofrida pelos Quilombolas Theodoro e Ventura, na serra do Salitre, Pato de Minas, com lideranças ameaçadas de morte.

No Maranhão, a Anistia Internacional, diante da violência contra os quilombolas de Salgado, Território Aldeia Velha,Pirapemas, lançou Ação Urgente em defesa da mesma em dezembro de 2011. Como em outras comunidades afrodescendentes no Maranhão, a comunidade de Salgado tem sofrido intimidação e ameaças persistentes, por poderosos proprietários de terras locais, em consequência de sua longa luta para ter as suas terras tituladas. Em 3 de dezembro de 2011, membros da comunidade descobriram que 18 animais pertencentes à liderança quilombola Zé da Cruz foram envenenados e mortos, resultando em grande perda para sua família. No final de agosto, um pistoleiro local disparou na direção da casa de José da Cruz, matando um animal. Em 14 de Dezembro, José da Cruz e outros membros da comunidade encontraram um recipiente de herbicida no poço usado pelas famílias de Salgado. Em 22 de dezembro, um pistoleiro havia sido contratado para matar Zé da Cruz, enquanto dois homens armados foram vistos patrulhando os arredores da comunidade. O processo desapropriatório tramita no INCRA há 12 anos.

No Rio Grande do Sul, as famílias do Quilombo do Morro Alto, desde 2004, esperam que o Incra complete a regularização e devolução do território aos Quilombolas. Em 2011, quando deveriam ocorrer as notificações dos ocupantes não quilombolas, ligados ao agronegócio, para indenização e saída da área dos mesmos, ilegalmente o processo foi remetido ao presidente nacional do Incra, sem nenhuma consulta às famílias. Em razão da lentidão do governo federal, a violência no quilombo somente aumentou. Grileiros que invadem o território quilombola a mando de grandes proprietários têm provocado conflitos físicos com membros da comunidade e no dia 12 de outubro de 2011, o presidente da Associação dos Moradores do Quilombo de Morro Alto, Wilson Marques foi agredido e recebeu um tiro que pegou de raspão em sua cabeça. Imaginando que o quilombola estivesse morto, os agressores fugiram.

Nos meandros deste sistema de concentração de terra, a violência empregada pelo Estado brasileiro tornou-se um instrumento tão efetivo de controle e coerção, quanto à única forma de comunicação entre as estruturas de governo e as nossas comunidades. A força bruta e os constrangimentos físicos constituíram-se numa forma de relação legitimada, de maneira explícita, pelos aparatos de poder.Evidente, pois, que a ação oficial, nesses casos, padece de uma espécie de racismo institucional, embutido nas práticas de seus operadores. O resultado é uma tomada de partido de parte dos técnicos pela lógica dos proprietários de terra ou de grandes empreendimentos.

Nós, Comunidades Quilombolas signatárias, não aceitamos esse estado de coisas, que mata e violenta nosso povo!!

Desta forma, exigimos, de acordo com o Artigo 68 ADCT/CF, Convenção 169 da OIT, Decreto Federal 4887/2003:

Desistência dos 3 processos judiciais movidos pela União/Marinha contra a Comunidade Quilombola de Rio dos Macacos;

Finalização do RTID de Rio do Macacos com a o prazo de 3 meses, a contar da data desta Carta e imediata publicação do mesmo no Dário Oficial da União;

Que o INCRA e a Fundação Cultural Palmares cumpram com seu dever de defesa da comunidade quilombola de Rio dos Macacos em conflito com a Marinha em todas as esferas;

Elaboração dos 34 RTID’s das comunidades quilombolas do Maranhão no ano de 2012, conforme acordo estabelecido entre o Moquibom-Maranhão e INCRA Nacional durante o Acampamento Negro Flaviano, em 2011;Conclusão dos processos de regularização fundiária, com a notificação dos ocupantes não quilombolas de Morro Alto/RS, imediatamente e conclusão do processo de regularização com a edição do Decreto de desapropriação por interesse social;

Titulação dos territórios quilombolas da Pedra do Sal e Marambaia;

Proteção às lideranças quilombolas ameaçadas de morte em todo o Brasil, por meio dos Programas Estaduais e Federal de Proteção dos Defensores dos Direitos Humanos;

Presença da Comissão Externa da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal, constituída em 2011, cujo objetivo é avaliar as violações dos direitos humanos nas comunidades quilombolas, prioritariamente na Bahia e, seguidamente, no Maranhão, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Goiás, Rio de Janeiro;

Pela não aprovação da PEC 215, a tramitar no Congresso Nacional, que visa tornar de competência exclusiva do Congresso nacional a demarcação de terras de índio e de quilombos;

Pelo indeferimento da ADIN 3239, do Democratas-DEM, que visa declarar inconstitucional o decreto federal 4887/2003;

Pela não aprovação do Projeto de Lei nº 44/2007 de autoria do deputado federal Valdir Colato (PMDB-SC), que visa sustar a aplicação do decreto federal 4.887/2003;

Pela agilidade do processo de certificação das Comunidades Quilombolas pela Fundação Cultural Palmares;

Reiteraramos a Nota Pública editada pela MALUNGU- Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombo do Pará, no que se refere à proposta do Governo Federal de Regulamentação do Direito da Consulta Prévia estabelecido pela Convenção 169-OIT, visto que o formato de discussão proposta pelo Governo possui caráter excludente em relação à grande maioria das comunidades quilombolas e indígenas do País;

Assinam

Comunidade Quilombola Rio dos Macacos-BA

Comunidade Quilombola Aldeia Velha-MA

Comunidade Quilombola do Charco-MA

Comunidade Quilombola de Cruzeiro-MA

Comunidade Quilombola de Pericumã-MA

Comunidade Quilombola de São Caetano-MA

Comunidade Quilombola de Bom Jesus-MA

Comunidade Quilombola de Carro Quebrado-MA

Comunidade Quilombola de Açude-Ma

Comunidade Quilombola de Brasília-Ma

Comunidade Quilombola de Ponta-Ma

Comunidade Quilombola de Nazaré-MA

Comunidade Quilombola de Mondego-Ma

Comunidade Quilombola de Cedro-Ma

Comunidade Quilombola de Lacral/Espírito Santo-MA

Comunidade Quilombola de Tijuca-Ma

Comunidade Quilombola de Achuí-MA

Comunidade Quilombola de Engole-MA

Comunidade Quilombola de Rio Grande-Ma

Comunidade Quilombola de Ramal de Quindiua-MA

Comunidade Quilombola de Mafra-Ma

Comunidade Quilombola de Bitiua-MA

Comunidade Quilombola de Mutaca-Ma

Comunidade Quilombola de Maiabi-Ma

Comunidade Quilombola de Boa Vista-Ma

Comunidade Quilombola de Rosário dos Pretos-MA

Comunidade Quilombola de Mariano dos Campos-Ma

Comunidade Quilombola de Conceição-Ma

Comunidade Quilombola de Aliança/Santa Joana-Ma

Comunidade Quilombola de Sumaúma-MA

Comunidade Quilombola dos Silva-RS

Comunidade Quilombola do Fidelix-RS

Comunidade Quilombola do Morro Alto-RS

Comunidade Quilombola Candiota-RS

Comunidade Quilombola Palmas-RS

Comunidade Quilombola Picada das Vassouras-RS

Comunidade Quilombola Várzea dos Baianos-RS

Comunidade Quilombola de Solidão-RS

Comunidade Quilombola Várzea do Candiota-RS

Comunidade Quilombola Teodoro/Ventura-MG

Comunidade Quilombola da Pedra do Sal-RJ

Subscrevem:

Frente Nacional em Defesa dos Territórios Quilombolas

Comissão Pastoral da Terra-MA

Movimento Quilombola do Maranhão-MOQUIBOM

GT Nacional MNU de Luta, Autônomo e Independente

Casa do Boneco – Itacaré-BA

Campanha Somos Tod@s Quilombo Rio dos Macacos

CSP-CONLUTAS

[1] Conforme destaca o INESC, o Plano Plurianual (PPA) 2008-2011 previu como meta a titulação de 264 territórios quilombola, dos quais 198 somente entre 2008-2010. Passados três anos de implementação da Agenda Social Quilombola (2008-2010) foram emitidos apenas 36 títulos de terra, número bastante aquém da meta estabelecida em 2007.

[2] Terras Quilombolas. Balanço 2011. Comissão Pró-Índio de São Paulo, disponível em http://www.cpisp.org.br/email/balanco11/img/Balan%C3%A7oTerrasQuilombolas2011.pdf

[3]  Terras e territórios quilombolas no PPA 2012-2015

[4] Leite, Ilka Boaventura. Humanidades Insurgentes:Conflitos e criminalização dos quilombos. In. Cadernos de debates Nova Cartografia Social: Territórios quilombolas e conflitos /Alfredo Wagner Berno de Almeida (Orgs)… [et al]. – Manaus: Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia / UEA Edições, 2010.

[5] Arruti, José Maurício. A NEGAÇÃO DO TERRITÓRIO: estratégias e táticas do processo de expropriação na Marambaia. In. Cadernos de debates Nova Cartografia Social: Territórios quilombolas e conflitos /Alfredo Wagner Berno de Almeida (Orgs)… [et al]. – Manaus: Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia / UEA Edições, 2010.

[6] Costa, João Batista de Almeida e Oliveira, Cláudia Luz de. NEGROS DO NORTE DE MINAS: DIREITOS, CONFLITOS, EXCLUSÃO E CRIMINALIZAÇÃO DE QUILOMBOS In. Cadernos de debates Nova Cartografia Social: Territórios quilombolas e conflitos /Alfredo Wagner Berno de Almeida (Orgs)… [et al]. – Manaus: Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia / UEA Edições, 2010.

[7] Andrade, Maristela de Paula. RACISMO, ETNOCÍDIO E LIMPEZA ÉTNICA –AÇÃO OFICIAL JUNTO A QUILOMBOLAS NO BRASIL

Primeiro aluno de Medicina a entrar por cotas na Universidade federal da Bahia recebe diploma


foto da internet

Luana Ribeiro, postou esta notícia nas redes sociais e a Mamapress repinica com satisfação:“Em uma casa azul na Ladeira Manoel Faustino – mesmo nome de um dos líderes negros da Revolta dos Alfaiates, que em 2011 se tornou Herói da Pátria – Ícaro Luis Vidal.

Desafios
O sonho de Medicina surgiu cedo. Ao ver crescer a barriga de três tias que engravidaram na mesma época, a cabeça do menino de 6 anos se encheu de perguntas. “Queria saber como tinha entrado, como saía”, lembra. Com o tempo, esqueceu a obstetrícia: agora quer ser oncologista. “Conviver com esses pacientes, tão carentes de atenção, me despertou para a área. O câncer é uma doença que isola”, reflete.”

É um pequeno passo, na participação completa dos negros brasileiros construção de uma nova sociedade brasileira. É resultado de políticas pontuais, com muitos adversários que apontam para um futuro longínquo, as grandes soluções para racismo no Brasil. Sempre com a mesma cantilena, que foi estribilho da ditadura militar: É preciso esperar o bolo crescer para dividi-lo.
Lei do Ventre Livre, lei do Sexagenário, “Racismo é crime” e outras medidas que mexem com uma nação como um todo, foram e são medidas de impacto geral. Não conseguem entretanto atender ao indivíduo que começa do zero e a pé, em uma corrida em que seus amigos de rua, já estão sentados em um carrro da fórmula 1.
Cotas não é a grande solução para a sociedade, a nação brasileira precisa encarar o racismo de frente e enfrentá-lo em todos os setores. Cotas é acima de tudo um gota d´água junto a outros incentivos às minorias majoritárias do Brasil, que ajudarão bastante a diminuir o fosso entre ricos e pobres no país, entre negros e índios em suas relações com os que se consideram brancos.
Faculdade de medicina é “símbolo” de “competência”, em uma sociedade do “quem sabe com quem está falando”  é o que determina o  mérito, seja  para ocupar um cargo de chefe de limpeza ou  gerente de um banco ou um hospital.
Cotas não são muletas, são um crédito na força de vontade de milhares de jovens negros e indíos do Brasil.
O apoio a estes jovens negros e índios brasileiros, que desejam contribuir, agora e já, para a construção de nossa nação para todos, é tarefa urgente de todos nós brasileiros e brasileiras.
O jovem Ícaro, o primeiro formado pelas “cotas” em medicina numa federal da Bahia, é mais que um resultado simbólico  de um desejo de séculos dos negros brasileiros, é uma pequena resposta, que demonstra que nossos jovens estão este mundo pela vida.

Medidas de afirmações positivas é um desejo de nós jovens negros, até quando já estamos velhos. É uma saudade futura para ser saciada agora.

Uma nação não pode ser grande nem feliz, enquanto a “um” de seus indivíduos for recusado o acesso aos meios necessários para realizarem o que são capazes.
A Bahia que nos útimos anos tem se notabilizado pelo número recorde de jovens negros vítimas de homícidios, no que já se poderia denominar como epidemia nacional de assassinatos de violência contra jovens negros, dá um pequeno voo pela vida, que esperamos não termine agora .
Ao contrário do ìcaro da mitologia grega, nosso Ícaro, com as tecnologias modernas continuará voando e será um super jumbo, pois temos muitos passageiros na fila, que querem vooar no bem-estar da nação Brasileira. Sexta economia mundial para alguns meritosos.  Marcos Romão

Abaixo a notícia completa:

Ícaro Luis tornou-se ícone do sistema; aprovado em concurso para o Programa de Saúde da Família, já tem emprego garantido

Em uma casa azul na Ladeira Manoel Faustino – mesmo nome de um dos líderes negros da Revolta dos Alfaiates, que em 2011  se tornou Herói da Pátria – Ícaro Luis Vidal, 24 anos, se apronta para o grande dia de sua vida. À noite, o primeiro estudante a ingressar pelo sistema de cotas no curso de Medicina da Universidade Federal da Bahia (Ufba) se forma.

As trancinhas que a cabeleireira faz em seu black power têm dois motivos: um é poder vestir o capelo de formatura (chapéu usado na solenidade). O outro é a pressão de sua mãe, Raimunda Vidal dos Santos, 47, que acha que assim o filho fica mais bonito para a festa, realizada ontem à noite, no Centro de Convenções.

Ícaro começou o curso em 2005, quando a Ufba implantou o sistema de cotas. Hoje, a instituição reserva 2% das vagas para índio-descendentes e 43% para alunos que tenham todo o ensino médio em escolas públicas. Desses, 85% são para estudantes que se declararam pardos ou pretos.

Ao fim do 3º ano no Colégio da Polícia Militar, conciliado com o cursinho, Ícaro já tinha passado no meio do ano em Direito na Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs). “Assim, eu fiz a prova mais tranquilo”. Amiga de infância, Inês Costal, 24, lembra dele como aluno aplicado. “Sempre foi brilhante, era o CDF”, relata.

Orgulho
Ícaro atribui o desempenho à sua criação. “Ele nunca me deu trabalho, mas sempre cobrei. A média do colégio era 8, mas eu exigia  9”, lembra a mãe. O rigor deu resultado. “Tenho orgulho dos meus filhos”, afirma ela, incluindo a filha Ísis Carine dos Santos, 25, que mês que vem se forma em Engenharia Química, também na Ufba. Continuar lendo