Pai do MC Criolo preso por “sequestrar” filho menos escurecido no hospital


criolo e seu pai

Ao lado do pai, Cleon Gomes, o rapper Criolo (Kleber Cavalcante Gomes), nascido na Favela das Imbuias, zona sul de São Paulo, fala sobre desigualdade social e racial, sobre a falta de perspectiva dos jovens da periferia, preconceito e racismo. E conta como seu pai, ao levá-lo para ser socorrido num hospital após um acidente doméstico, foi acusado pelos próprios funcionários do hospital de tê-lo sequestrado.

Reprodução da entrevista de Claudia Belfort e André Caramante da Ponte Jornalismo
Imagens e edição: Gabriel Uchida e Leonardo Lepri

por marcos romão

Quando vejo o grande compositor, cantor e MC, Criolo ao lado de seu pai, penso que poderia ser meu filho mais velho, o Jorge Samora, levam o mesmo jeito.

Sermos pais ou mães negros e negras de filhos mais ou menos escurecidos não é mole não.
Vivemos um momento crucial em nossa sociedade. Avanços democráticos e melhorias sociais e econômicas são visíveis em todo o país, ao menos no crescimento da população que pode consumir. Ao mesmo tempo vemos o aumento vertiginoso da violência em nossas cidades grandes, médias e pequenas e um número de assassinatos que atingiu um caráter de endemia social.

Neste quadro de violência vertiginosa em que vivemos, nós pais e mães negros, ou pais e mães brancos de filhos e filhas negras, vivemos uma tensão especial. Nossos filhos e filhas são o alvo principal dos atos violentos que lhes custam a vida, ou sequelas psicológicas indeléveis, provocadas pelo racismo de que são vítimas ou são testemunhas e com as quais eles elas vivem por toda a vida, como uma bomba de tempo que pode eclodir em depressões, suicídios ou atos violentos contra si e contra a sociedade.

Criolo falou de sua vivência e cruel experiência com o racismo ao lado de seu pai. Está aí um caminho que todos podemos seguir. Discutir o racismo em todos os lugares, tirá-lo de debaixo do tapete, mostrar onde existe e como agem os racistas e combatê-los.

Valeu Criolo! Tem que falar, falar junto do pai é mais amor ainda. Tem que falar do racismo, tem que falar toda hora para mudar o que está aí. ” Quanto mais a gente ganha, mas sofre por ver os outros por aí…” Falou crioulo! É nas conversas de família, no trabalho, nas escolas, nas igrejas e nas quebradas. São em todos os lugares que devemos falar do racismo e da divisão estilo apartheid que vivemos no Brasil. A benção ao teu pai!

Para seguir o exemplo de Criolo e seu pai, conto aqui uma das”vivências”, enquanto pai preto de filhos pretos mais e menos escurecidos:

RTEmagicC_BlaualgenKinderAmWasser.jpg (1)Certa vez, eu estava em um parque com minhas duas filhas gêmeas e caçulas. Estavam com três anos de idade. Foram fazer xixi atrás de um arbusto, enquanto eu fiquei de guarda. Passou um homem fazendo “jogging” que me olhou com espanto.

Meia hora depois, o parque muito frequentado por estudantes de países africanos, estava cercado por policiais. Minha filhas haviam voltado para brincar nos balanços e a uns trinta metros de distância, podíamos ver que os estudante eram recolhidos pelos policiais e colocados sentados no chão próximo a um lago, com as mãos para trás algemadas. Fiquei curioso, estariam procurando drogas?

Resolvi perguntar aos policiais o que estava acontecendo, me apresentei, disse que eu estava ali com minhas crianças, e queria saber se havia perigo em lá estar, já que eles faziam um operação que já contava com 20 policiais e 4 carros patrulhas, além de duas motos ocupando o parque.
O comissário me explicou que haviam recebido a denúncia de um possível sequestro de duas criancinhas menos escurecidas por um homem negro, que as haviam levados para trás dos arbustos.

Neste momento minha filhas vieram correndo e já me agarraram nas pernas gritando, “o que houve papai!”. Foi uma troca de olhar rápida entre mim e o chefe da operação “Caça Africano”. Os dois compreendemos no mesmo momento o terrível engano que estava se passando.

Desfeita a operação como todos os estudante soltos, caminhei com minhas filhas para sair do parque por um portão lateral.
Neste momento quase aconteceu uma morte. Uma patrulha que passava pela rua lateral do parque com muitas árvores em volta, viu a mim e as minhas filhas. Jogaram o carro encima de mim, que estava com uma das filhas no colo, quando uma soldada desceu com a pistola engatilhada apontando para minha cabeça.

Foi o momento em minha vida em que senti um medo que eu não conhecia, o medo de ver o medo que aquela jovem soldada demonstrava ao me ver como negro sequestrador.
Gelado e e quase paralisado, vendo a outra filha já agarrada nas pernas da policial, num gesto instintivo para proteger seu pai sobe ameaça de uma arma. Só tive tempo de me atirar contra a porta do carro imprensando a policial, enquanto o seu companheiro de patrulha, mais “calmo”, apontava a arma para mim e minhas filhas.

Também pela primeira vez na vida, senti alívio ao escutar os berros de um policial. O comissário que observava a cena de longe, gritava para a patrulha: “Para, para, o cara é inocente, foi um engano”.
ps: fiquei meses respondendo a um processo por agressão a um policial, que foi arquivado. A polícia não me forneceu o nome do denunciante, que também nunca mais vi no parque em que eu ir sempre passear com minhas filhas.

Se engaje nesta luta da Mamapress pelos direitos humanos e contra o racismo. Acompanhe a nossa página no Facebook Sos Racismo Brasil

EU NÃO VOU ROUBÁ-LO


Bem arrumado e elegante, cheiroso e todo style, desço do metrô, e pego a escada rolante que da acesso a praça Cinelândia. Alguns degraus acima, vai uma moça de tés clara, perfil de estudante universitária. Ao olhar pra trás e me ver, ela logo sentiu-se desconfortável, e segurou a bolsa.Fiz de conta que não percebi. Assim que a escada aproximou-se do seu objetivo final e, mal o degrau recolheu-se – ; a menina se antecipou e acelerou o passo. Foi-se a direita, na mesma direção da calçada do consulado; aonde eu estava indo buscar o visto. Ao me ver novamente, ela entrou em pânico -, e começou a correr desesperada pela calçada e pediu socorro a um homem que vinha do lado contrário.O homenzarrão a abraçou prontamente, no intuito de protege-la. Fechou a cara e veio ao meu encontro. Como na verdade ele viu que eu estava arrumado, pensou duas vezes. Foi o tempo de eu gritar, – que eu não ia roubá-lo, e não precisava rouba-la. Atônitos, passaram correndo os dois por mim. E logo foram socorridos por outros transeuntes.

Quanto a mim, só coube desabafar com um senhor que varria a frente de um comércio. E o medo que dali criassem uma turba e viessem os “justiceiros”. Talvez seja o momento de eu estampar uma camiseta para dar segurança as pessoas de bem com o slogan, ” EU NÃO VOU ROUBÁ-LO “.

Racismo contra aluna negra e bolsista na faculdade de arquitetura da PUC-Campinas


Única mulher, negra e bolsista da PUC-Campinas no curso de Arquitetura e Urbanismo entre 200 alunos, narra sina de perseguições e ofensas racistas dentro da universidade de Campinas

Prezada Sthefanie, nossa solidariedade do Sos-Racismo aqui do Rio de Janeiro.
Você está no caminho certo em tornar público o seu caso, que demonstra o poder do racismo institucional.
Este caminho longo de sofrimento que você passou e passa deve ser reverberado para todos os cantos do país e do mundo.
Muita gente já passou por isto calada, e até hoje paga psicanalistas, para descobrir onde errou para ser massacrada sistematicamente em sua humanidade por racistas dentro da universidade.
Alunos, professores, administradores e direção desta faculdade são agentes e cúmplices deste crime de racismo continuado e inafiançável contra você e toda pessoa negra do Brasil.
Você deve continuar nesta faculdade, pois é a sua vontade e direito.
Este lugar é seu e temos que fazer piquetes presenciais e virtuais para lhe garantir a sua integridade pessoal. O corpo e a alma das pessoas são intocáveis. Além dos ataques racistas você está sendo vítima de tortura psicológica e mental!#marcosromaoreflexoes

Única mulher, negra e bolsista da PUC-Campinas no curso de Arquitetura e Urbanismo entre 200 alunos narra sina de perseguições e ofensas racistas dentro da universidade

Por Stephanie Ribeiro

fonte Blogueiras Negras

Não é de hoje que discutimos o papel do negro nas universidades, erram os que pensam que o assunto é cotas, mas sim a forma como as universidades se preparam pra receber alunos negros, porque independente da que estamos falando, quando o assunto são as grandes universidades brasileiras, públicas ou particulares o acesso de negros é restrito, umas nem aderir a cotas raciais tiveram coragem de fazer, porém não assumem também que são um ambiente branco e elitizado. Por trás de toda uma película acadêmica de local “universal” se esconde o racismo da Casa de Engenho, e parece que ninguém tem muita vontade de quebrar essas barreiras. Mas se engana quem pensa que não vamos resistir, invadir e ocupar esses espaços que são nossos também. Se o Brasil existe, ele deve muito a nós, ao nosso trabalho não valorizado, a nossa luta que a mídia não mostra, e a nossa inteligência também, que não é aproveitada porque nos segregam e excluem.  Porém o problema só aumenta quando se é MULHER e NEGRA, a luta é duas vezes maior e as agressões tem mais do que uma motivação.

Eu sou estudante e bolsista de Arquitetura e Urbanismo, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, aonde eu sofro perseguição por conta das minhas ideias, defesas e focos. Não achei que seria assim, não acreditei que além de elitizado e branco, o ambiente também seria conformado e moralista, alguns assuntos só podem ser ditos baixinho e com determinados alunos, porque outros vivem numa bolha de ignorância que é praticamente impossível de ser estourada e o racismo é evidente, não é à toa que negros só são maioria na faxina e não na sala de aula.

O que acontece é que eu represento algo provocativo naquele local, e junto com as ideias que eu tenho a situação é maior, mesmo que eu só queira ir lá e ser uma Arquiteta e Urbanista, eu incomodo, e isso começou a dar indícios quando o meu Facebook começou a se tornar assunto, eu não podia postar nada que ia contra a “moral e bons costumes” que virava assunto de corredor, até ai eu aceitei, o problema é que isso começou a resultar em agressões ainda mais quando eu expus que era feminista, ao ponto de pixarem meu armário da faculdade com a frase “Não ligamos para as bostas que você posta no Facebook”, sendo que essa rede social tem ferramentas que permitem não só excluir como bloquear usuários que te incomodam. Ou seja, é muito fácil não me ter nessa rede, mas parece que não é essa opção que resolveram tomar, preferiram mensagens anônimas e vário in box como os a seguir:

(Imagem: Reprodução/Facebook)

(Imagem: Reprodução/Facebook)

(Imagem: Reprodução/Facebook)

(Imagem: Reprodução/Facebook)

E assim foi 2012, quando procurei a secretária pra falar sobre meu armário disseram que não podiam fazer nada e que as câmeras não gravavam e que eu deveria dar nomes se quisesse que algo fosse feito, com o fim do ano nas férias eu ainda recebia algumas mensagens, me perguntando o porquê de não ir nas festas, o que me fez começar a ter receio de frequentar tais festas, porque se essas pessoas me zoavam no corredor, me mandavam esses in box, e pixavam meu armário, o que não poderiam fazer comigo se eu estivesse numa festa sozinha? Então não frequento e não pretendo ir nas festas da minha faculdade.

Início de 2013, eu estava no segundo ano da faculdade, e comecei a fazer alguns trabalhos em grupos, duplas e por ai vai, o que aconteceu é que no primeiro semestre uma pessoa que dizia ser minha amiga, no meio de um trabalho disse: “Não quero ser racista, mas já perceberam como negros normalmente fedem mais que brancos, tem um cheiro mais forte.” Ei fiquei em choque, as pessoas concordaram com aquilo, e eu ali, pra completar essa pessoa disse “Mas você Ste é diferente, é cheirosa.”

Eu entendi a gravidade dessa frase só depois de um tempo e foi agressivo pra mim, as pessoas que diziam ser minhas “amigas” não entenderam a minha reação, nem a minha indignação, sendo que no segundo semestre em outro trabalho, em determinado momento alguém disse “somos todos iguais” e a mesma pessoa da frase acima esfregou a mão da própria pele e disse “menos a Stephanie.” Olha isso foi visto como brincadeira de mau gosto pelos demais, por mim foi visto como Racismo, e sim isso é racismo.

O que posso deixar claro é que dessas pessoas, eu resolvi me afastar foi um processo complicado, porque era gente que eu via como amigo, mas acho que não posso ser próxima de quem acha que é piada racismo. Além do mais, ouve uma briga na faculdade, onde um namorado de uma aluna, invadiu o local e agrediu um aluno. Diante desse fato, um dos seguranças de PUC, se manifestou com a seguinte frase “Quem devia ter apanhado era essa menina.” O fato é que independente do porquê da briga, independente de quem fez algo ou não, agressão é intolerável a agressão a mulher num país com números como o nosso, e isso não devia nem ter sido cogitado por quem devia zelar pela nossa segurança.  Quando eu manifestei minha opinião sobre a fala do tal segurança. Meu Facebook foi novamente invadido pelos alunos da Faculdade de Arquitetura da Pontifícia Universidade Católica, dessa vez defendendo agressão a mulher. Sim, eles defenderam que dependendo da justificativa uma mulher poderia ser agredida.

Meu post foi esse:

(Imagem: Reprodução/Facebook)

Que resultaram nos seguintes comentários dos alunos, destacados em preto:

SR 8

SR 6SR 7

Esses foram os comentários dos alunos diante o machismo, da fala do segurança, eles não só colocaram que havia um contexto, como deram a entender que bater em mulher é uma “solução” viável as vezes. Para piorar novamente invadiram meu facebook, mesmo alguns que já estava bloqueados, usavam o facebook de amigos para manifestar ódio, inclusive me ameaçar de agressão caso não ficasse quieta:

(Imagem: Reprodução/Facebook)

Enfim, essa história passou e eu vi até pessoas que se diziam minhas “amigas” ficando do lado desses determinados alunos que estavam não só defendendo agressão como me ameaçando.

Finalmente 2013 acabou, eu comecei a dar indícios de tristeza e ficar muito deprimida. Às vezes eu preferia me trancar na minha casa e chorar a ir a aula, ninguém entendia e nem eu.

Começou 2014, agora estou no terceiro ano, me afastei dos “amigos” citados, me afastei de várias coisas que me faziam mal, sim, cada vez mais sozinha. Me sentindo estranha naquele lugar, eu escuto que sou a maior racista comigo mesma, que deveria trocar de curso, pois levo tudo pro social, então deveria fazer ciências sociais. E assim fui levando esse começo de semestre, até que um professor numa determinada aula disse:

“Até você que tem a pele mais escurinha, consegue perceber diferentes cores de luz na sua pele.”

Enfim, eu desmoronei.

Eu não tenho vontade de ir na aula, não tenho vontade de conversar com as pessoas, eu quero ficar em casa chorando. Eu me encontro triste, comecei terapia, e a psicóloga só conseguiu dizer que eu era racista comigo mesma e que eu estava no curso errado, porque a universidade não vai mudar por mim.

E mais uma vez essa semana mostraram como o mundo é estranho, primeiro ironia lidando com o assunto sério que são vagas com definição de gênero.

(Imagem: Reprodução/Facebook)

Claro que ninguém achou isso idiota, só “uma piada”, claro que quando eu falei que é desnecessário, que eu não gostei, quando eu falo tudo que eu acho desse mundo branco/elitista/reaça, surge um moço pra dizer “Relaxa e Goza”, ai o cara da frase, me manda “Calar a boca.” e sim, o outro me zoa falando “faz print” e pra finalizar uma menina branca diz ” Stephanie, calma, eu sempre leio seus posts e tento entender seu ponto de vista, mas não tem um pouco de vitimismo de sua parte tbm?… Não me xinga, não me chame de “branca” e que eu não sei pelo q vc passa, eu já sofri MUITO preconceito tbm, mas de outras formas….Enfim, se quiser podemos conversar, mas pra ja, vamos com calma que ninguém está te atacando!”

Isso que eu estou passando é o que acontece quando uma mulher NEGRA E FEMINISTA, entra na universidade, num curso elitizado. Eu conquistei esse espaço eu não posso abandonar uma coisa que as pessoas como eu não tem acesso. Arquitetura e Urbanismo e pra gente como eu, não só pra ficarem falando em palestras como objeto de estudo, não só pros alunos usarem nós como temas de iniciação cientifica, Arquitetura e Urbanismo é pra ser cursada por gente como eu, Arquitetura e Urbanismo tem que chegar nas pessoas como eu, tem que atingir, tem que mudar a vida delas.

Pode ser Universidade pública ou privada elas devem conscientizar alunos, que tragam o Movimento Negro e o Movimento Feminista pra dentro de seus campus. Porque desde quando passamos a ter alunos medíocres e não formadores de opinião dentro dos jovens de 20 e poucos anos? Desde quando a Universidade se tornou um local de oprimir e não de lutar?

Enquanto tiver aluno bolsista passando fome pra fazer faculdade. Não me calarão.

Enquanto tiver aluno sem ter onde dormir pra fazer faculdade. Não me calarão.

Enquanto nos mulheres estivermos ganhando menos que homens. Não me calarão.

Enquanto nos mulheres estivermos sujeitas a agressão e estupros. Não me calarão.

Enquanto o meu canteiro de obras for mais negro que minha sala de aula. Não me calarão.

Enquanto o Brasil não superar os quase 400 anos de escravidão. Não me calarão.

Enquanto eu for a única mulher, negra e bolsista da Pontifícia Universidade Católica no curso de Arquitetura e Urbanismo do meu ano que tem mais de 200 alunos. Não me calarão.

Gera revolta na sociedade, habeas corpus concedido em segredo à racista presa em flagrante em cabeleireiro em Brasília.


cortebsb

por marcos romão

Nós da Mamapress alertamos já desde o anos passado que atos racistas, assim como a denúncia destes atos criminosos iriam aumentar no Brasil.

Existe um sentimento de impunidade quanto à punição dos crimes raciais em nossa terra, que até novas brasileiras de origem australiana sabem, que quando se tem poder  tudo é deixado pra lá. Ou como disse uma racista também na Capital Federal para uma motorista de ônibus que ela havia discriminado, na mesma semana a australiana naturalizada brasileira agredira racialmente uma manicure: ” Pode chamar, polícia não vem para preta”.

25 anos depois de decretada a Lei Caó de nº 7.716/89, com seus vetos e adendos, a lei se transformou em uma colcha de retalhos e furos, que qualquer vítima leiga percebe que sua queixa não vai dar em nada ao entrar em uma delegacia e mofar até conseguir registrar um B.O. Isto se o próprio delegado não pedir “prá deixar prá la”.

A certeza de que o racista não será punido gera um sentimento de passividade entre as vítimas, criando uma poderosa “Escola de Aceitação de Racismo Coletivo”, em que as vítimas de racismo são os detentores de seus próprios chicotes através da auto-punição da vergonha que sentem, da passividade a que são obrigados a assumirem para não fazerem “escândalo à toa”, que podem provocar inclusive a perda de seus empregos, e principalmente geram uma perpetuação do discriminado que assim já dentro de casa, se passa de pai para filho a filosofia de manter a cabeça baixa e fingir que não escutou a agressão racial moral e física.

Louise Stephany Garcia Gaunt-  que reiteradamente praticou crime de racismo, ao se recusar a ser atendida por uma manicure negra, mandou-se se retirar do ambiente e ainda ofendeu outra cliente, negra, e um policial – também negro – que  atendeu o caso.

Nem mesmo 24 horas a cidadã ficou presa, por um crime que é inafiançável.

Foi solta por um habeas-corpus, sobre o qual a imprensa nada diz, inclusive o nome do sr. Juiz que o concedeu.

Nenhum senhor Promotor Público apareceu protestando e recorrendo, em nome da sociedade, da decisão.(do Blog Tijolaço)

Entre os motivos do aumento acelerado dos casos de racismo, nos atemos a dois neste momento. Por parte dos que denunciam podemos ver uma consciência maior de seus direitos por parte dos negros brasileiros, em conjunto com  o desejo de maior mobilidade por parte dos negros, que “penetram” em ambientes nunca antes pisados. Já por parte dos que cometem atos racistas, este aumento cavalar, pode ter como causa a certeza de impunidade para quem cometa este crime, 25 anos depois de decretada a Lei Caó, feita para puni-los.

O advogado do Rio Grande do Sul, Jorge Terra publicou em seu blog um artigo em que ele alerta para as contradições nas estrutura da lei, que depois de reformas possui artigos que conflitam entre si e permitem ou facilitam um elevado grau de absolvição do racista e apresenta propostas referentes aos crimes de motivação racial ou religiosa:

“De bom alvitre sublinhar que gera-se aparente conflito entre o artigo 20 da Lei 7716/89 e o parágrafo terceiro do artigo 140 do Código Penal. Em síntese, pode-se dizer que, com esteio em decisões judiciais, que ofensa que se limite à pessoa da vítima, é tida como injúria racial e aquela que atinja um grupo étnico, mesmo que dita a uma pessoa, seria tipificada como racismo. Portanto, no primeiro grupo, enquadram-se as ofensas “macaco” ou negro safado”. Se a ofensa, dirigida à uma pessoa, fosse “aqui não é lugar de negro” ou “é bem coisa de negro”, estar-se-ia diante do segundo grupo.

Na medida em que se torna mais relevante o xingamento dito e não a intenção do agente, permite-se subjetividade geradora de insatisfação e de sensação de impunidade, pois, em não raras vezes, faz-se incidir a norma extraível do Código Penal. Com isso, não se estaria na presença de crime inafiançável e imprescritível, mas sim de crime que permite a fiança e que prescreve, em tese, em oito anos. Acrescente-se que há estudos técnicos que dão conta de as absolvições superarem as condenações (Relatório Anual das desigualdades Raciais no Brasil; 2009-2010 – LAESER).

Entende-se que o ânimo de provocar injúria não se coaduna com o da prática de racismo por meio de expressões racistas. Portanto, na medida que se utiliza expressão de cunho racista, não se está diante de injúria. Está-se diante de atitude mais grave consoante o texto constitucional, impondo resposta mais severa. Em outros termos, quem chama outro ser humano de “macaco”, “carvão”, “negro safado” ou negro sujo”, não está a injuriar, está a tratar a vítima com desigualdade, pretendo colocá-la em patamar inferior ao seu em decorrência de serem de cores ou etnias diferentes. O agressor está a regredir no tempo e no estado civilizatório”.

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“No Brasil, está povo contra povo”, afirma a ativista Yvonne Bezerra de Mello


Depoimento de Yvonne Bezerra de Mello sobre a sua ação durante a libertação do jovem negro violentado, seviciado, torturado e largado acorrentado a um poste por um bando de 30 marmanjos no Bairro do Flamengo, Rio de Janeiro.

“No episódio do menor acorrentado no Rio de Janeiro, a porção intolerante do Brasil tentou ganhar no grito. Alguns poucos ainda resistem.”

Racismo nas altas esferas, quem tem medo de um negro que sabe? Professor Kabengele Munanga quebra o silêncio acadêmico.


por marcos romão

Professor Kabengele Mulanga

Professor Kabengele Munanga

O Professor  Kabengele Munanga foi preterido na seleção dos 59 estudiosos que foram beneficiados pela bolsa do programa “Professor Visitante Nacional Sênior ” da Capes.

Kabengele havia aceito a sondagem da Professora Georgina Gonçalves dos Santos, para atuar na jovem Universidade do Recôncavo Bahiano -UFRB-, através de uma posssível bolsa de pesquisador visitante nacional sênior da CAPES. Kabengele foi preterido, foi desmeritado na alta esfera de decisão, na cúpula do poder que decide no Brasil, quem foi, é e será beneficiado por bolsas para aprender ou distribuir seus conhecimentos.

Segundo palavras do Professor José Jorge de Carvalho, Coordenador do INCTI, em seu documento em apoio à Kabengele para reivindicar a bolsa:

“Com toda sua clareza do intelectual militante e engajado e sua posição político-ideológica a respeito da inclusão dos negros e indígenas no ensino superior, docência e pesquisa, talvez Kabengele fosse o único estudioso negro ou um dos pouquíssimos pesquisadores negros a concorrer a essa bolsa. Por coincidência, esse único negro foi o menos qualificado, por comparação. Estranha e triste coincidência!”

Kabengele quebra o silêncio em uma área extremamente delicada que é área de financiamento da produção intelectual do conhecimento no Brasil. Poucos ou nenhum negro ou negra brasileira, pode se arriscar ou se arriscou na área acadêmica, à questionar o possível racismo que nós da Mamapress, consideramos estar entranhado no meio acadêmico brasileiro, racismo que se tornaria visível, diante de qualquer pesquisa séria feita por qualquer aprendiz de Ciências Sociais. O endocolonialismo ou sub-colonialismo interno consegue no Brasil ser mais branco e europeu do que os europeus desejaram na década de 30, e hoje, graças as deuses africanos, esqueceram e mudaram.

Ao contrário da falácia que o negro precisa estudar para ter o seu lugar na sociedade, nós da Mamapress afirmamos, quanto mais o negro souber, em qualquer área, mais ele será uma ameaça e mais ele será discriminado.

Tomamos a liberdade de publicar a Carta Aberta do Professor Kabengele Munanga:

CARTA ABERTA DO PROFESSOR KABENGELE MUNANGA

Permitam-me, primeiramente, quebrar meu silêncio, começando por desejar-lhes um feliz 2014, repleto de sucessos e realizações.
Agradeço a solidariedade e o pronto recurso feito por vocês junto à CAPES através da Reitoria da UFRB diante da omissão do meu nome entre os 59 estudiosos beneficiados pela bolsa do programa “Professor Visitante Nacional Sênior (cfr. Edital 28 de 2013)”.
Geralmente, levo tempo para me manifestar em situações aparentemente urgentes como essa que acabamos de viver. Isto é uma das minhas características que, acredito, se não for uma qualidade, é um defeito incorrigível, pois faz parte da minha pequena natureza humana. Creio, agora, que já tive bastante tempo para refletir sobre o acontecido.
Relembrando como todo começou, estava eu na véspera da minha aposentadoria compulsória na USP que aconteceu em novembro de 2012, quando a colega e amiga Professora Georgina Gonçalves dos Santos, me sondou sobre a possibilidade de ser convidado da UFRB através da bolsa de pesquisador visitante nacional sênior da CAPES. Sem hesitação, aceitei imediatamente e desde então comecei a recusar outros convites que me foram dirigidos depois. Tinha e tenho a convicção de que poderia ser mais útil para uma nova universidade como UFRB do que para as universidades mais velhas que possuem um quadro de pesquisadores e docentes mais estruturado.
Elaborei então uma proposta do programa de atividades a serem desenvolvidas, de acordo com as instruções contidas no Edital 28 do PVNS, proposta esta que foi enriquecida e consolidada pelas sugestões dos colegas Osmundo Pinho e Georgina Gonçalves dos Santos e em última instância pela própria Pró-Reitora de Pesquisa e Pós-Graduação da UFRB, a Professora Ana Cristina Firmino Soares.
Acreditávamos que essa proposta era exequível, de acordo com a demanda do CAHL da UFRB e da minha experiência acumulada durante 43 anos como pesquisador e docente. Uma experiência começada em 1969, na então Universidade Nacional do Zaire, onde fui o primeiro antropólogo formado, passando pela Universidade Católica de Louvain (Bélgica) e pelo Museu real da África Central em Tervuren (Bruxelas), Universidade Cândido Mendes, Rio de Janeiro (visitante), Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Universidade de São Paulo (1980-2012), Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, Moçambique (visitante) e Universidade de Montreal, Canadá, como Professor associado convidado para orientação de teses (2005-2010). Sem deixar de lado os cargos de direção na USP, como Diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia (1983-1989), Vice-Diretor do Museu de Arte Contemporânea (2000-2004), Diretor do Centro de Estudos Africanos (2006-2010) e participação em diversos conselhos, como o Conselho Universitário da USP etc. Orientei dezenas de teses e dissertações, entre as quais algumas premiadas como a tese de José Luís Cabaço, que ganhou Prêmio da ANPOCS, e recentemente a tese de Pedro Jaime Coelho Jr., que ganhou prêmio de melhor tese em Ciências Humanas, destaque USP 2013.
Modéstia à parte, sem “me achar” e sem exibição, pensava que com toda essa experiência poderia servir para uma nova universidade em construção como a UFRB. Lamento que o sonho não deu certo!
Pelo parecer da Comissão Julgadora (Edital 28- 2013), nosso programa foi deferido e recomendado à bolsa com certo elogio, classificando-me na Categoria I dos pesquisadores do CNPQ. Foi, se entendi bem, na última instância que fomos preteridos, em comparação com os demais deferidos. Em outros termos, tenhamos a coragem de aceitá-lo, nosso programa e meu CV foram considerados inferiores para sermos incluídos entre os 59 bolsistas aprovados.
Por que então tantas lamentações, pois não somos os primeiros, nem os últimos a serem preteridos? Os recursos perpetrados junto à CAPES por outras universidades mostram que outros e outras colegas não contemplado/as pela bolsa não são menos qualificado/as que Kabengele. No entanto, vale a pena, apesar da consciência, divagar um pouco sobre os critérios de comparação, pois foi por ela que fomos eliminados. Pois bem, é possível comparar propostas diferentes sem antes estabelecer entre elas um denominador comum? Qual foi esse denominador? As regras do jogo de comparação não parecem claramente definidas; a subjetividade e a objetividade dos julgadores parecem se misturar. Claro, não há nenhum demérito aos colegas cujos projetos foram beneficiados pelas 59 bolsas atribuídas. Os especialistas da Física Quântica não têm dúvida sobre a subjetividade do observador pesquisador no momento em que ele começa a interpretar cientificamente os fenômenos da natureza por ele obsevados.
Na esteira do raciocínio do Professor José Jorge de Carvalho, Coordenador do INCTI, em seu documento em apoio a mim para reivindicar a bolsa, com toda sua clareza do intelectual militante e engajado e sua posição políico-ideológica a respeito da inclusão dos negros e indígenas no ensino superior, docência e pesquisa, talvez eu fosse o único estudioso negro ou um dos pouquíssimos pesquisadores negros a concorrer a essa bolsa. Por coincidência, esse único negro foi o menos qualificado, por comparação. Estranha e triste coincidência!
Minha consideração especulativa poderia ser enquadrada no chamado discurso da vitimização, o que pouco me importa, pois já estamos acostumados. No entanto, os que detêm o poder de nomear os outros, ou seja, de nos nomear, são os mesmos que nos julgam, pois fazem parte do binômio saber/poder muito bem caracterizada na visão foucaultiana (Ver Michel Foucault). Neste sentido, os argumentos aparentemente científicos escondem uma relação de poder e autoridade difícil de transformar. Por isso, eu nutri certo sentimento de pessimismo que me faz acreditar que o recurso da UFRB e o apoio dos colegas não surtirão efeito de reversão da decisão da CAPES, no sentido de dar outra bolsa além das 59 concedidas. Ou seja, o recurso da UFRB e o documento de apoio do Professor José Jorge de Carvalho, coordenador do INCTI, assinado por demais colegas têm menos probabilidade de ser atendida positivamente.
Por isso, sem esperar o fechamento esperado, sinto-me no momento na simples obrigação moral de agradecer o recurso da UFRB e o apoio de vários colegas encabeçado pelo amigo e companheiro de luta, o Professor José Jorge de Carvalho. Estarei sempre disposto a colaborar com a UFRB, através de convite para participar dos seminários, proferir conferência e palestras, participar de comissões julgadoras de mestrado etc., como já o venho fazendo.
Meu muito obrigado,
Kabengele Munanga

Histórico da situação explicada em carta de solidariedade do historiador Jacques Depelchin:

O Professor Kabengele Munanga FOI EXCLUÍDO de uma seleção para professor visitante da UFRB( Universidade Federal do Recôncavo da Bahia).
Por que tanto medo do Professor Kabengele Munanga? Por que tanta raiva contra alguém que contribuiu tanto na partilha dos seus saberes? Para as pessoas pouco informadas, o Professor Kabengele Munanga se destacou na sua carreira acadêmica na USP.

Em fins de 2013 se aposentou e aceitou o convite para lecionar como Prof. Visitante Sênior na jovem universidade federal do Recôncavo da Bahia(UFRB) Baiano -UFRB. Para isso, se candidatou para uma bolsa da CAPES, Edital 28 de 2013, na Categoria de PVNS Apesar de um parecer favorável e elogioso recomendando a outorga da Bolsa pleiteada, a sua candidatura foi rejeitada, levando a um protesto de vários acadêmicos, incluindo professores da UFRB. Numa carta aberta, agradecendo este ato de solidariedade, o Professor Kabengele Munanga explica historiando o processo em que se deu o que lhe aconteceu (veja anexo em baixo)
Aqui, gostaria de levantar uma pergunta: alguém teria medo do Professor Kabengele Munanga e de onde viria? A necessidade de refletir sobre isso é urgente, não só para os Afro-Brasileiros, mas também para todos os Brasileiros que entendem e agem como membros duma só humanidade, pois o contexto global em que vivemos hoje, exige, com urgência, essa afirmação.
No seu livro Pele Negra, mascaras brancas, Frantz Fanon discute esta questão do medo (pp. 125-6, Edufba, Salvador 2008), focando sobre aspetos bem conhecidos pelos sobreviventes dos legados acumulados da escravidão atlântica e da colonização. Infelizmente, o próprio Fanon não entra na discussão sobre como ele superou o medo.
O medo dos adversários do Prof Kabengele Munanga é o produto, indireto, da serenidade e da franqueza com que ele tem abordado assuntos incomodantes da sociedade Brasileira, em volta das raízes do racismo, das sugestões sobre como solucionar as injustiças cumulativas herdadas dessas violências contra as partes discriminadas da humanidade.
Esse medo, quer da vitima, quer de quem tem medo da resistência das vitimas, nunca é de bom conselho. O medo dos gerentes dum sistema prisional tem uma explicação, mas, como é sobretudo visceral, a explicação a partir da razão não se aplica. Porque, como sempre aconteceu em outros casos históricos, os administradores do sistema não são preparados para enfrentar quem deveria se submeter à suas ordens, mas que, em vez, se levanta e argumenta a partir da sua consciência e com eloqüência e sabedoria uma saída honrosa para todos. Para os gerentes dum sistema injusto, as vitimas tem que se calar. Ir na contra mão dessa ordem informal é geralmente caracterizado de “impertinência” e, por isso, tem que ser punido.
Os administradores/gerentes dum legado histórico profundamente injusto tem dificuldades em parabenizar o Professor Kabengele Munanga decidir, no fim da sua careira, na pratica, dar uma lição de como corrigir as conseqüências, no nível do ensino superior, duma injustiça sistêmica contra as descendentes e os descendentes da escravidão.
Não é difícil imaginar o que se passa na mente dos adversários do Professor Kabengele Munanga. Na peça de teatro Et les chiens se taisaient, Aimé Césaire ilustrou como o rebelde escravo enfrentou o dono, no próprio quarto dele. O que aconteceu ao Professor Kabengele Munanga pode ser lido como a continuação do comportamento típico dos dominantes quando enfrentam um caso de rebeldia contra injustiça: o rebelde tem que ser punido, na medida do possível, duma maneira exemplar (leia severamente) para que outros rebeldes potenciais não sejam encorajados em imitá-lo. Historicamente, os exemplos individuais e coletivos abundam: Kimpa Vita, Zumbi, Geronimo, Abdias Nascimento, Toussaint-l’Ouverture, Cuba, Haiti, Patrice Lumumba, Amilcar Cabral, Salvador Allende, Cheikh Anta Diop, Nelson Mandela, Samora Machel, Thomas Sankara, Steve Biko, Chris Hani, Aristide, para não mencionar mais.
O Professor Kabengele Munanga, de origem Congolesa, nação de Kimpa Vita, Patrice Lumumba e outras e outros, na mente dos seus adversários, por definição, não tem direito à palavra, muito menos quando a sua fala/escrita acaba dando uma lição contundente de como superar legados históricos seculares, no Nordeste Brasileiro, para que qualquer Brasileir@ possa pensar, sonhar, e conseguir ser uma estrela, um craque intelectual.
Desde já, agradecemos a coragem do Professor Kabengele Munanga por ter continuado trilhando os caminhos das benzedeiras e dos benzedeiros sobre os quais o grande autor Ghaneense, Ayi Kwei Armah escreveu com tanta eloquencia no seu livro de ficção The Healers.

Em solidariedade,
Jacques Depelchin
Historiador
Salvador-Bahia

A barbárie mora ao seu lado: O Depoimento à Veja, pelo menino de rua de 15 anos, brutalizado e preso a um poste em pleno bairro do Flamengo


O depoimento dado à Revista Veja à jornalista Pamela Oliveira:

“O adolescente detalhou, em depoimento, seus passos na noite de sexta-feira. Contou que seguia para Copacabana com três amigos, também moradores de rua, para tomar “banho de mar”. Depois de passar pelo local onde funciona uma academia ao ar livre, no Aterro do Flamengo, o grupo foi perseguido pelos cerca de 30 jovens que estavam no local, alguns deles motociclistas, segundo conta. Um dos homens estava armado com uma pistola, disse. Dois dos amigos moradores de rua escaparam. Com o rapaz que não conseguiu fugir, ele passou a ser agredido e ameaçado. Em dado momento, o outro jovem também escapou, e passou a ser ele o único em poder do grupo. Os homens o acusavam de roubar bicicletas e praticar assaltos naquela região.

Os agressores aplicaram uma “banda” e ele foi ao chão. Começaram, então, agressões com capacetes, pontapés e várias humilhações. Acusado de roubos, ele acreditava que seria morto pelos jovens que descreveu como “brancos e fortes” e “playboys” – apenas um deles era “pardo”, segundo contou o rapaz a um funcionário da Secretaria Municipal de Desenvolvimento social. O pardo, segundo conta, pediu desculpas.

Depois do fim da sessão de agressões, ele foi atado ao poste, e passou a sentir medo de ser assassinado por um dos jovens agressores, que poderiam retornar para terminar o “serviço”. O rapaz foi localizado e socorrido por alguns moradores do Flamengo – entre eles a artista plástica Yvonne Bezerra de Mello, fundadora da ONG Projeto Uerê, de educação infantil. Depois de medicado, ele se desvencilhou e procurou ajuda em um abrigo da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social no Centro, onde estava desde então, sem ser identificado. Outro dos quatro perseguidos também ficou no abrigo, anonimamente.

Na tarde desta quarta-feira, segundo contou, a diretora do abrigo o reconheceu, e comunicou o caso à Secretaria, que auxiliou o rapaz a prestar depoimento. A delegada Monique Vidal apresentou a ele fotografias dos 14 detidos na noite da última segunda-feira, em um tumulto no Flamengo, no qual dois menores disseram ter sido ameaçados. O jovem não reconheceu nenhum deles, o que, por ora, descarta a suspeita de que os casos estejam conectados e que sejam grupos de agressores com integrantes em comum.

A delegada Monique Vidal tenta, agora, encontrar imagens das cenas de perseguição, tortura e humilhações ocorridas entre a noite de sexta-feira e madrugada de sábado, para tentar chegar aos agressores. A Polícia Civil informou que o adolescente tem uma passagem pela Delegacia Especial de Proteção à Criação e ao Adolescente, que cuida de crimes cometidos por menores, mas não detalhou que delito foi atribuído a ele.

Funcionários da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social descreveram o jovem com um menino calado, pacato e muito querido pelas assistentes sociais. Ao ser identificado pela diretora do abrigo, ele chorou compulsivamente.

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Nota da Mamapress

Desde 2010 está acontecendo  a mesma prática de violência praticadas por bandos da classe média, nesta área no bairro do Flamengo em .

No dia 09 de janeiro de 2010 na Avenida Pasteur, quase em frente à IBM, motoqueiros despiram um rapaz negro e o amarraram nu, sob sol escaldante na calçada quente.
A apreensão do rapaz, a quem acusavam de ter tentado furtar uma moto, fora feita por um bombeiro do Salva-Mar. O bombeiro se retirou deixando a custódia do rapaz com os motoqueiros.
Existe uma semelhança e uma coincidência com os fatos de 2014 com a utilização dos mesmos métodos de tortura e humilhação.
A Rede Rádio Mamaterra observou nas trocas de conversa nos grupos sociais do facebook de moradores da mesma área em 2014, a participação de motoqueiros e bombeiros que lá moram.
Esta prática fez escola e tem lideranças. Cabe ao ministério público investigar à fundo esta quadrilha que parece operar há anos no Bairro.

Se o MP e a polícia, não estão ainda fazendo, devem fazê-lo, pois a linha de tempo destes facínoras está gravada. É só pesquisar.
A grande imprensa e a mídia em internet também pode fazê-lo. Estas pessoas criminosas estão tão certas de sua impunidade. Que deixaram o rabo à vista na internet.

9 de fevereiro de 2010 no Flamengo

9 de fevereiro de 2010 no Flamengo