“E O ARABÁ AVISOU PARA QUE NÃO DESSEM CABO AO MACHADO POIS ESTE SERIA O FIM DE TODAS AS ÁRVORES… “


intolerância religiosaPor Babalawo Marcio Obeate Ifairawo

“No início dos tempos, quando as árvores eram virgens e não conheciam seu destino, o Arabá foi a Orunmila e lhe saiu este Odu. Então Orunmila lhe disse que chegaria um forasteiro que lhe pediria guarida e que ele não desse. Tempos depois chegou um viajante e, tal como disse Orunmila, ele lhe pediu guarida e o Arabá disse que não podia atendê-lo. Ele foi às outras árvores, que já haviam sido alertadas pelo Arabá, e elas também não o atenderam. Até que, por fim, uma lhe atendeu e lhe cedeu alguns de seus galhos. Imediatamente o forasteiro foi a um ferreiro e encomendou alguns machados e, com os galhos daquela árvore, os usou como cabo. Voltou à floresta e começou a cortar as árvores começando por aquela que havia lhe cedido os galhos.” (Odu Ifá Otrupon Xxxx)

Desde ontem, diante dos vídeos de agressão a duas casas religiosas do candomblé, mais antigo segmento religioso de matriz africana em nosso país, temos visto a busca por culpados pela situação de desrespeito e afronta que chegou ao nível do terrorismo e da violência religiosa.

Nós, babalawos, não fechamos os olhos ao que ocorre em nossa sociedade, e por pertencermos também à matriz africana, não podemos ficar impassíveis. Portanto, como em tudo que fazemos, buscamos respostas à luz de Ifá.

Nesse sentido, este caminho do Odu descrito acima, nos dá algumas pistas para a compreensão do momento atual e já nos aponta algumas soluções.

As árvores eram virgens e não conheciam seu destino – As árvores por livre escolha não iam a Orunmila saber seu destino. Viviam suas vidas sem grandes preocupações. Isso lembra muito a lógica de “cada casa um reino” que tanto permeia a visão mais frequente de algumas pessoas responsáveis pelas casas religiosas. Quando o odu diz que as árvores eram virgens está falando de ingenuidade, da incapacidade de lidar com as questões mais complexas da vida, situação em que muitas vezes nos defrontamos quando lidamos com sacerdotes absolutamente perdidos na condução de suas próprias vidas pessoais, quanto mais a de outros.

O Arabá foi a Orunmila e lhe saiu este Odu – Ao avisar o Arabá sobre o infortúnio que estava por vir, Orunmila lhe deu a oportunidade de alertar todas as árvores para que assim se salvassem. Algumas o ouviram, a que não ouviu pôs todas as outras a perder. Isso demonstra o quanto a falta de visão de uns poucos pode ser comprometedora para o conjunto. Muitos foram os alertas nas últimas eleições municipais que o candidato por fim eleito, representava um segmento religioso que tem como prática cotidiana a perseguição e ofensa às religiões de matrizes africanas, mas não adiantou, a maioria da população o elegeu, inclusive alguns setores de nossa religiosidade.

O forasteiro foi a um ferreiro e encomendou os machados – deste trecho até o fim veremos como aquele que se aproveitou da ingenuidade e desobediência de outros, usou de recursos externos para, em conjunto com o que lhe havia sido dado, agir contra todas as árvores. Percebam o momento atual em que a igreja do atual prefeito está sendo acusada de arregimentar bandidos armados (traficantes), para atacar as casas religiosas.

É importante notar que mesmo com todas as árvores sendo derrubadas, não se vê na descrição do caminho nenhum tipo de protesto ou acusação do Arabá àquela árvore que não obedeceu à recomendação dada por Orunmila.

Ok, dirão alguns, estamos falando de árvores. Mas Ifá é metafórico e a metáfora contida no Odu, serve para qualquer contexto em que se apresente.

Muitos outros odus poderiam nos servir para este momento. O que quero afirmar aqui, baseado neste Odu, é a extrema necessidade que temos, como religiosos de matrizes africanas, de conhecermos nosso destino e de saber nos preparar para os infortúnios que virão. Precisamos, pois, construir a unidade, mínima que seja, entre nós seja para a construção de um projeto político, seja a partir de aspectos litúrgicos ou doutrinários. O que não podemos é ficar dando cabo ao machado, nos criticando, denunciando um ao outro, permitindo acusações falsas em nosso meio, pois só assim poderemos cumprir nosso destino e não sucumbir diante daqueles que querem nos destruir. Agindo como árvores ingênuas que permanecem impassíveis diante do inimigo que quer nos destruir.

Ashè tò Iban Eshu

Iboru, Iboya, Ibosheshe

Nota da Mamapress:

A hidra da intolerância fascista, machista e racista está espalhando seus braços por toda a cidade do Rio de Janeiro e o Grande Rio. Temos a impressão de ser uma ação concatenada, que acontece pelo menos com a aprovação passiva da administração da prefeitura do Rio e de outras prefeituras, em relação ao terrorismo praticado pelos adeptos fundamentalistas da denominação religiosa do atual prefeito, entre outras denominações religiosas tão ou mais radicais ainda.

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Neste vídeo abaixo enviado por Bruno Rico podemos assistir a uma cena de humilhação violenta, em que traficantes pertencentes aos grupos evangélicos, seguem apenas a onda de intolerância propagada nos púlpitos dos templos, contra as religiões de matrizes africanas.

E nos diz Bruno Rico

 

Quem não quiser ficar parado, venha até  conosco na 10ª Caminhada Em Defesa Da Liberdade Religiosacaminhada contra em defesa da liberdade religiosa 2.jpg

 

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