AÇÕES AFIRMATIVAS NO BRASIl: Debate com Carlos Alberto Medeiros no Coletivo Justiça Negra – Luiz Gama


Extraído do Facebook de Bruno Cândido

Carlos Alberto Medeiros

Carlos Alberto Medeiros

Mamapress apresenta o vídeo de nossa parceira Cultne, da palestra do do professor e ativista negro Carlos Alberto Medeiros, na qual ele discorre sobre o processo de construção do racismo à brasileira do final da escravidão até hoje. Uma aula imperdível para todos os interessados.

Saiu no CULTNE TV – Projeto Diálogos.

Com alegria, damos visibilidade a palestra do Prof. Carlos Alberto Medeiros, que curiosamente aniversaria na data de hoje. O presente certamente é nosso, e para nossos descendentes, que poderão ler, muito deste livro vivo!

Projeto Diálogos realizado pelo Coletivo Justiça Negra – Luiz Gama, uma organização sem fins lucrativos que pretende à promoção intelectual e econômico da Juventude Negra. Tem como missão o empoderamento intelectual e econômico da Juventude Negra, bem como influência no sistema de Justiça.
Cultne esteve presente no plenário da CAARJ/OAB com imagens e edição de Filó Filho, registrando a palestra do Jornalista Carlos Alberto Medeiros que discorreu sobre “O impacto das ações afirmativas no Brasil” com casa cheia na sua maioria jovens de várias áreas, em especial a área de Direito.

CARLOS ALBERTO MEDEIROS é jornalista, militante e estudioso da questão racial, graduado em Comunicação e Editoração pela UFRJ, com mestrado em Ciências Jurídicas e Sociais pela UFF. Autor de Racismo, preconceito e intolerância (com os antropólogos Jacques D’Adesky e Edson Borges) e Na lei e na raça. Legislação e relações raciais Brasil – Estados Unidos, resultado de sua dissertação de mestrado, com o qual iniciou um mergulho nos estudos comparativos abordando as duas sociedades.

AÇÕES AFIRMATIVAS
São medidas especiais de políticas públicas e/ou ações privadas de cunho temporário ou não. Tais medidas pressupõem uma reparação histórica de desigualdades e desvantagens acumuladas e vivenciadas por um grupo racial ou étnico, de modo que essas medidas aumentam e facilitam o acesso desses grupos, garantindo a igualdade de oportunidade. É importante também não perder o foco, pois entre os fatos que nos levam a pensar na implantação das ações afirmativas existe o agravante do baixo nível de formação e capacitação do ensino fundamental e médio nas escolas públicas do Brasil. Ainda que essa problemática esteja arraigada em nossa historicidade, necessitamos de algumas respostas imediatas a essas demandas, por isso a importância de discutir e debater as causas faz-se necessária. Entender de forma ampla e consciente as Ações Afirmativas é também questionar o passado, efetivar o presente e planejar o futuro de forma consciente.
“Consistem em políticas públicas (e também privadas) voltadas à concretização do princípio constitucional da igualdade material e à neutralização dos efeitos da discriminação racial, de gênero, de idade, de origem nacional, de compleição física e situação socioeconômica ( adição nossa). Impostas ou sugeridas pelo Estado, por seus entes vinculados e até mesmo por entidades puramente privadas, elas visam a combater não somente as manifestações flagrantes de discriminação, mas também a discriminação de fundo cultural, estrutural, enraizada na sociedade. De cunho pedagógico e não raramente impregnadas de um caráter de exemplaridade, têm como meta, também, o engendramento de transformações culturais e sociais relevantes, inculcando nos atores sociais a utilidade e a necessidade de observância dos princípios do pluralismo e da diversidade nas mais diversas esferas do convívio humano”.[1]

[1] GOMES, Joaquim Benedito Barbosa. Ação Afirmativa & Princípio Constitucional da Igualdade: o direito como instrumento de transformação social. A experiência dos EUA. Rio de Janeiro: Renovar, 2001, p. 6-7.
Fonte: UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina

Pai do MC Criolo preso por “sequestrar” filho menos escurecido no hospital


criolo e seu pai

Ao lado do pai, Cleon Gomes, o rapper Criolo (Kleber Cavalcante Gomes), nascido na Favela das Imbuias, zona sul de São Paulo, fala sobre desigualdade social e racial, sobre a falta de perspectiva dos jovens da periferia, preconceito e racismo. E conta como seu pai, ao levá-lo para ser socorrido num hospital após um acidente doméstico, foi acusado pelos próprios funcionários do hospital de tê-lo sequestrado.

Reprodução da entrevista de Claudia Belfort e André Caramante da Ponte Jornalismo
Imagens e edição: Gabriel Uchida e Leonardo Lepri

por marcos romão

Quando vejo o grande compositor, cantor e MC, Criolo ao lado de seu pai, penso que poderia ser meu filho mais velho, o Jorge Samora, levam o mesmo jeito.

Sermos pais ou mães negros e negras de filhos mais ou menos escurecidos não é mole não.
Vivemos um momento crucial em nossa sociedade. Avanços democráticos e melhorias sociais e econômicas são visíveis em todo o país, ao menos no crescimento da população que pode consumir. Ao mesmo tempo vemos o aumento vertiginoso da violência em nossas cidades grandes, médias e pequenas e um número de assassinatos que atingiu um caráter de endemia social.

Neste quadro de violência vertiginosa em que vivemos, nós pais e mães negros, ou pais e mães brancos de filhos e filhas negras, vivemos uma tensão especial. Nossos filhos e filhas são o alvo principal dos atos violentos que lhes custam a vida, ou sequelas psicológicas indeléveis, provocadas pelo racismo de que são vítimas ou são testemunhas e com as quais eles elas vivem por toda a vida, como uma bomba de tempo que pode eclodir em depressões, suicídios ou atos violentos contra si e contra a sociedade.

Criolo falou de sua vivência e cruel experiência com o racismo ao lado de seu pai. Está aí um caminho que todos podemos seguir. Discutir o racismo em todos os lugares, tirá-lo de debaixo do tapete, mostrar onde existe e como agem os racistas e combatê-los.

Valeu Criolo! Tem que falar, falar junto do pai é mais amor ainda. Tem que falar do racismo, tem que falar toda hora para mudar o que está aí. ” Quanto mais a gente ganha, mas sofre por ver os outros por aí…” Falou crioulo! É nas conversas de família, no trabalho, nas escolas, nas igrejas e nas quebradas. São em todos os lugares que devemos falar do racismo e da divisão estilo apartheid que vivemos no Brasil. A benção ao teu pai!

Para seguir o exemplo de Criolo e seu pai, conto aqui uma das”vivências”, enquanto pai preto de filhos pretos mais e menos escurecidos:

RTEmagicC_BlaualgenKinderAmWasser.jpg (1)Certa vez, eu estava em um parque com minhas duas filhas gêmeas e caçulas. Estavam com três anos de idade. Foram fazer xixi atrás de um arbusto, enquanto eu fiquei de guarda. Passou um homem fazendo “jogging” que me olhou com espanto.

Meia hora depois, o parque muito frequentado por estudantes de países africanos, estava cercado por policiais. Minha filhas haviam voltado para brincar nos balanços e a uns trinta metros de distância, podíamos ver que os estudante eram recolhidos pelos policiais e colocados sentados no chão próximo a um lago, com as mãos para trás algemadas. Fiquei curioso, estariam procurando drogas?

Resolvi perguntar aos policiais o que estava acontecendo, me apresentei, disse que eu estava ali com minhas crianças, e queria saber se havia perigo em lá estar, já que eles faziam um operação que já contava com 20 policiais e 4 carros patrulhas, além de duas motos ocupando o parque.
O comissário me explicou que haviam recebido a denúncia de um possível sequestro de duas criancinhas menos escurecidas por um homem negro, que as haviam levados para trás dos arbustos.

Neste momento minha filhas vieram correndo e já me agarraram nas pernas gritando, “o que houve papai!”. Foi uma troca de olhar rápida entre mim e o chefe da operação “Caça Africano”. Os dois compreendemos no mesmo momento o terrível engano que estava se passando.

Desfeita a operação como todos os estudante soltos, caminhei com minhas filhas para sair do parque por um portão lateral.
Neste momento quase aconteceu uma morte. Uma patrulha que passava pela rua lateral do parque com muitas árvores em volta, viu a mim e as minhas filhas. Jogaram o carro encima de mim, que estava com uma das filhas no colo, quando uma soldada desceu com a pistola engatilhada apontando para minha cabeça.

Foi o momento em minha vida em que senti um medo que eu não conhecia, o medo de ver o medo que aquela jovem soldada demonstrava ao me ver como negro sequestrador.
Gelado e e quase paralisado, vendo a outra filha já agarrada nas pernas da policial, num gesto instintivo para proteger seu pai sobe ameaça de uma arma. Só tive tempo de me atirar contra a porta do carro imprensando a policial, enquanto o seu companheiro de patrulha, mais “calmo”, apontava a arma para mim e minhas filhas.

Também pela primeira vez na vida, senti alívio ao escutar os berros de um policial. O comissário que observava a cena de longe, gritava para a patrulha: “Para, para, o cara é inocente, foi um engano”.
ps: fiquei meses respondendo a um processo por agressão a um policial, que foi arquivado. A polícia não me forneceu o nome do denunciante, que também nunca mais vi no parque em que eu ir sempre passear com minhas filhas.

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Para Brasília, só com passaporte


A proposta inconstitucional da redução da maioridade penal vai mostrar quem é mais corrupto: se o povo ou o Congresso

No filme Branco Sai, Preto Fica, em cartaz nos cinemas do Brasil, para alcançar Brasília é preciso passaporte. O elemento de ficção aponta a brutal realidade do apartheid entre cidades-satélites como Ceilândia, onde se passa a história, e o centro do poder, onde a vida de todos os outros é decidida. Aponta para um apartheid entre Brasília e o Brasil. Ao pensar no Congresso Nacional, é como a maioria dos brasileiros se sente: apartada. O Congresso mal iniciou o atual mandato e tem hoje uma das piores avaliações desde a redemocratização do Brasil: segundo o Datafolha, só 9% considera sua atuação ótima ou boa, 50% avalia como ruim ou péssima. É como se houvesse uma cisão entre os representantes do povo e o povo que o elegeu. É como se um não tivesse nada a ver com o outro, como se ninguém soubesse de quem foram os votos que colocaram aqueles caras na Câmara e no Senado, fazendo deles deputados e senadores, é como se no dia da eleição tivéssemos sido clonados por alienígenas que elegeram o Congresso que aí está. É como se a alma corrompida do Brasil estivesse toda lá. E, aqui, o que se chama de povo brasileiro não se reconhecesse nem na corrupção nem no oportunismo nem no cinismo.

Há, porém, uma chance desse sentimento de cisão desaparecer, e o Brasil testemunhar pelo menos um grande momento de comunhão entre o Congresso e o povo. Alma corrompida com alma corrompida. Cinismo com cinismo. A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara pode decidir, nesta semana, pela admissibilidade da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 171/93. Ela reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos. Se isso acontecer, a proposta, que estava engavetada desde o início dos anos 90, terá vencido uma barreira importante e seguirá seu caminho na Câmara e no Senado. Diante do Congresso mais conservador desde a redemocratização, com o crescimento da “bancada da bala”, formada por parlamentares ligados às forças de repressão, há uma possibilidade considerável de que seja aprovada. E então o parlamento e o povo baterão com um só coração. Podre, mas uníssono.

A redução da maioridade penal como medida para diminuir a impunidade e aumentar a segurança é uma fantasia fabricada para encobrir a verdadeira violência. Segundo o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), dos 21 milhões de adolescentes brasileiros, apenas 0,013% cometeu atos contra a vida. Mas são eles que estão sendo assassinados sistematicamente: o Brasil é o segundo país no mundo em número absoluto de homicídios de adolescentes, atrás apenas da Nigéria. Hoje, os homicídios já representam 36,5% das causas de morte por fatores externos de adolescentes no país, enquanto para a população total corresponde a 4,8%. Mais de 33 mil brasileiros de 12 a 18 anos foram assassinados entre 2006 e 2012. Se as condições atuais prevalecerem, afirma o Unicef, até 2019 outros 42 mil serão assassinados no Brasil.

Quem está violando quem? Quem não está protegendo quem? Quem deve ser responsabilizado por não garantir o direito de viver à parte das crianças e dos adolescentes?

Há uma verdade mais dura sobre nós: a da nossa alma corrompida

Ainda assim, mais de 90% dos brasileiros, segundo pesquisa realizada em 2013 pela Confederação Nacional dos Transportes, aprovam que se coloque adolescentes em prisões que violam as leis e os direitos humanos mais básicos, no quarto sistema carcerário mais populoso do mundo, em flagrante colapso e incompetente na garantia de condições para que uma pessoa construa um outro destino que não o do crime. Se aprovada essa violação da Constituição, a segurança não vai aumentar: o que vai aumentar é a violência. E a capacidade da sociedade brasileira de produzir crime disfarçado de legalidade.

Parte da sensação de que há um exército de crianças e adolescentes perversos, prontos para atacar “os cidadãos de bem”, costuma ser atribuída à enorme repercussão de crimes macabros com a participação de menores de idade. Aquilo que é exceção, ao ser amplificado como se fosse a regra, regra se torna. As estatísticas desmentem com clareza esse imaginário, mas o sentimento, reforçado por parte da mídia, seria mais forte do que a razão. Viraria então uma crença sobre a realidade, manipulada por todos aqueles que dela se beneficiam para justificar seus lucros, seus empregos e sua própria violência, esta sim amparada em números bem eloquentes.

Essa é uma parte da verdade, mas não toda. É a parte da verdade benigna para a sociedade brasileira, que só apoiaria a redução da maioridade penal por ser iludida e manipulada pela mídia ou pelos deputados ou pela indústria da segurança. Manipulada por alguém, um outro esperto e diabólico, que a levaria a conclusões erradas para obter benefícios pessoais ou para corporações públicas e privadas. Seria um alento se essa fosse a melhor explicação, porque bastaria o esclarecimento e o tratamento correto dos fatos, para que a sociedade chegasse a uma análise coerente da realidade e à óbvia conclusão de que a redução da maioridade penal só serviria para produzir mais crime contra os mesmos de sempre.

Os mesmos que clamam pela redução da maioridade penal convivem sem espanto com o genocídio da juventude negra e pobre das periferias

Há, porém, uma verdade mais dura sobre nós. É a da nossa alma apodrecida por um tipo de corrupção muito mais brutal do que a revelada pela Operação Lava Jato, com consequências mais terríveis do que aquela apontada com tanta veemência nas ruas. A cada ano, uma parte da juventude brasileira, menor e maior de idade, é massacrada. E a mesma maioria que brada pela redução da maioridade penal não se indigna. Sequer se importa. No Brasil, sete jovens de 15 a 29 anos são mortos a cada duas horas, 82 por dia, 30 mil por ano. Esses mortos têm cor: 77% são negros. Enquanto o assassinato de jovens brancos diminui, o dos jovens negros aumenta,como mostra o Mapa da Violência de 2014.

Há uma parcela crescente da juventude negra, pobre e moradora das periferias que morre antes de chegar à vida adulta. Num país em que a expectativa de vida alcançou os 74,9 anos, essa parcela morre com idade semelhante à de um escravo no século 19. E isso não causa espanto. Ninguém vai para as ruas denunciar esse genocídio, clamar para que ele acabe. São poucos os que se indignam e menos ainda os que tentam impedir esse massacre cotidiano.

Como é que vivemos enquanto eles morrem? Como é que dormimos com os gritos de suas mães? Possivelmente porque naturalizamos a sua morte, o que significa compreender o incompreensível, que dentro de nós acreditamos que o assassinato anual de milhares de jovens negros e pobres é normal. E, se essa é a realidade, a de que somos ainda piores do que os senhores de escravos, o que essa verdade faz de nós?

Acontece a cada dia. E a maioria das mortes nem merece uma menção na imprensa. Quando eu era repórter de polícia e ligava para as delegacias perguntando o que tinha acontecido nas madrugadas, sempre tinha acontecido, mas era visto como um desacontecido. “Não aconteceu nada”, era a invariável resposta dos policiais de plantão. Tinham morrido vários, mas eram da cota (sim, as cotas sempre existiram) dos que podem morrer. Estas seriam as mortes não investigadas, as mortes que não seriam notícia. Crime que merecia investigação e cobertura, já era bem entendido, era de branco e, de preferência, rico, ou pelo menos classe média. Dizia-se, no passado, que a melhor escola do jornalismo era a editoria de polícia. Era, de fato, a melhor escola para compreender em profundidade as engrenagens que movem a sociedade brasileira, porque já na primeira aula se aprendia que a morte de uns é notícia, a de outros é estatística.

Assim como os senhores de escravos internalizaram que os negros eram coisas, ou, conforme o momento histórico, uma categoria inferior na hierarquia das gentes, mais de um século depois da abolição oficial da escravatura, a sociedade brasileira naturalizou que existe uma parte da juventude negra que pode ser morta ao redor dos 20 anos sem que ninguém se espante. Se de fato fôssemos pessoas decentes, não era isso o que deveríamos estar gritando em desespero nas ruas? Mas nos corrompemos, ou nunca conseguimos deixar a condição de corruptos de alma.

Em vez disso, clama-se pela redução da maioridade penal, para colocar aqueles que a sociedade não protege cada vez mais cedo em prisões onde todos sabem o quanto é corriqueira a rotina de torturas e estupros, sem contar a superlotação que faz com que em muitas celas seja preciso alternar os que dormem com os que ficam acordados, porque não há espaço para todos ficarem deitados. Como se já não soubéssemos que as unidades que internam adolescentes infratores, contrariando a lei, são na prática prisões, infernos em miniatura, com todo o tipo de violações dos direitos mais básicos. Alguém, nos dias de hoje, pode alegar desconhecer que é assim? E então, como é possível conviver com isso?

O debate na Comissão de Constituição e Justiça desceu a níveis de cloaca

Em 24 de março, no debate sobre a redução da maioridade penal na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, o deputado “delegado” Éder Mauro (PSD-PA) afirmou, conforme cobertura do portal jurídico Jota no Twitter: “Não podemos aceitar que, assim como o Estado Islâmico, que mata sob a proteção da religião, os menores infratores, bandidos infratores, menores desse país, matam sob a proteção do ECA”. Como uma asneira desse porte não vira escândalo? Comparar a lei que ampara as crianças e os adolescentes com as (des)razões alegada pelo Estado Islâmico para decapitar e queimar pessoas é uma afronta à inteligência, mas a discussão na Câmara sobre um tema tão crucial desce a esse nível de cloaca. A sessão foi encerrada depois de um bate-boca em que foi preciso separar outros dois deputados. E, assim, o Estatuto da Criança e do Adolescente, uma das leis mais admiradas e copiadas no mundo inteiro, mas que infelizmente até hoje não foi totalmente implementada, é colocada na mesma frase que o Estado Islâmico. Colegas me sugeriram que não deveria dar espaço a uma declaração e a um deputado desse calibre, mas ele está lá, eleito, bem pago e vociferando bobagens perigosas no parlamento do país. É preciso levar muito a sério a estupidez com poder, uma lição que já deveríamos ter aprendido.

Os manifestantes de 15 de março, que protestaram contra a corrupção, tiraram selfies com uma das polícias que mais mata no mundo

É verdade que “a carne mais barata do mercado é a carne negra”. É o que descobriu Alan de Souza Lima, de 15 anos, em fevereiro, na favela de Palmeirinha, em Honório Gurgel, subúrbio do Rio. Morreu com o celular na mão, e só por isso deixou de ser apenas estatística para virar narrativa, com nome e sobrenome e uma história nos jornais. Alan estava conversando com mais dois amigos e gravava um vídeo no celular. Acabou documentando a sua agonia, depois de ser baleado pela polícia. Como de hábito, a corporação alegou o famoso “confronto com a polícia”, o argumento padrão com que a PM costuma justificar sua assombrosa letalidade, uma das campeãs do mundo. E de imediato acusaram os três de estarem armados e de resistirem à prisão. Mas Alan morria e gravava. A gravação, que foi para a internet, mostrava que não resistiram. Chauan Jambre Cezário, de 19 anos, foi baleado no peito. Ele vende chá mate na praia e sobreviveu para dizer que nunca usou uma arma. A culpa dos garotos era a de viver numa favela, lugar onde a lei não escrita, mas vigente, autoriza a PM a matar. No vídeo há uma frase que deveria estar ecoando sem parar na nossa cabeça. Quando um dos policiais pergunta aos garotos por que estavam correndo, um deles responde:

– A gente tava brincando, senhor.

A frase deveria ficar ecoando na nossa cabeça até que tivéssemos o respeito próprio de nos levantarmos contra o genocídio cotidiano de parte da juventude do Brasil.

A gente tava brincando, senhor. E então o senhor atirou. Feriu. Matou.

Aqueles que foram para as ruas bradar contra a corrupção tiraramselfies com uma das polícias que mais mata no mundo. Só a Polícia Militar do Estado de São Paulo, governado há mais de 20 anos pelo PSDB, matou, em 2014, uma pessoa a cada dez horas. Se os manifestantes que tiraram selfies com a PM no protesto de 15 de março na Avenida Paulista admiram a corporação pela eficiência, precisamos compreender o que esses brasileiros entendem por corrupção, no sentido mais profundo do conceito.

Numa pesquisa da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), intitulada “Desigualdade Racial e Segurança Pública em São Paulo”, as pesquisadores Jacqueline Sinhoretto, Giane Silvestre e Maria Carolina Schlittler chegaram a conclusões estarrecedoras. Pelo menos 61% das vítimas mortas por policiais são negras. E mais da metade tem menos de 24 anos. Já 79% dos policiais que mataram são brancos. O fator racial é determinante: as ações policiais vitimam três vezes mais negros do que brancos. As mortes são naturalizadas: apenas 1,6% dos autores foram indiciados como responsáveis pelos crimes. É a Polícia Militar a responsável por 95% da letalidade policial no estado de São Paulo.

Em fevereiro, a PM de Salvador executou 12 jovens no bairro de Cabula. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis. Sete. Oito. Nove. Dez. Onze. Doze.

O que o governador da Bahia disse, depois dos corpos tombados no chão pela polícia que comanda? A comparação jamais deve ser esquecida. Depois de parabenizar a PM, Rui Costa (PT-BA) comparou a posição do policial diante de suspeitos a de “um artilheiro em frente ao gol, que tenta decidir, em alguns segundos, como é que ele vai botar a bola dentro do gol, pra fazer o gol”. Rui Costa foi aplaudidíssimo.

O futebol continua dizendo muito sobre o Brasil: botar uma bala no corpo de um negro é o mesmo que fazer gol, diz o governador baiano

É isso. Enfiar uma bala no corpo de jovens negros e pobres das periferias é fazer como a Alemanha no icônico 7X1 contra o Brasil: “botar a bola dentro do gol”. E isso dito não nos tempos de Antônio Carlos Magalhães, o poderoso coronel da Bahia, mas pelo governador do Partido dos Trabalhadores, supostamente de esquerda. O futebol continua dizendo muito sobre o Brasil.

É por isso que, no filme Branco Sai, Preto Fica, quem é negro e pobre precisa de passaporte para entrar em Brasília. O título do filme é a frase berrada pela polícia ao invadir um baile no “Quarentão”, na Ceilândia, na noite de 5 de março de 1986, onde jovens dançavam, depois de passar a semana ensaiando os passos. A PM entrou gritando: “Puta de um lado, Veado do outro. Branco sai, Preto fica”. Quase três décadas depois, Marquim do Tropa e Shockito são atores interpretando em grande parte o seu próprio papel. Marquim para sempre numa cadeira de rodas pelo tiro que levou, Shockito com uma perna mecânica depois de ter perdido a sua pisoteada por um cavalo da polícia. Resultado do Branco Sai, Preto Fica daquela noite. Sem passaporte para fora do massacre porque, na condição de pretos, eles ficaram.

Branco Sai, Preto Fica tem sido descrito como uma mistura especialmente brilhante entre documentário e ficção científica, com nuances de humor. Ganhou o prêmio de melhor filme no Festival de Brasília de 2014 e chegou há pouco aos cinemas do país. Para mim, o filme de Adirley Queirós se iguala, na potência do que diz sobre o Brasil e na forma criativa como diz, às dimensões do já mítico Bye Bye Brasil, de Cacá Diegues. São filmes que falam de Brasis diferentes, em momentos históricos diferentes, e, também por isso, falam do mesmo Brasil.

É do futuro, do ano de 2073, que vem outro personagem, Dimas Cravalanças, cuja máquina do tempo é um contêiner. A Ceilândia do presente lembra, sem necessidade de nenhum esforço de produção, um cenário pós-apocalíptico. Cravalanças tem a missão de encontrar provas para uma ação contra o Estado pelo assassinato da população negra e pobre das periferias. A voz que o orienta do futuro alerta: “Sem provas, não há passado”.

A Comissão da Verdade da Democracia vai investigar os crimes cometidos pelo Estado

Só na ficção para responsabilizar o Estado pelo genocídio cotidiano da juventude pobre e negra? Quase sempre, sim. Mas algo se move na realidade, com pouco apoio da maioria da sociedade e escassa atenção da mídia. No fim de fevereiro, foi instalada na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo a Comissão da Verdade da Democracia “Mães de Maio”. Sua criação é uma enormidade na história do Brasil, um marco. Depois de apurar os crimes da ditadura, uma comissão para investigar os crimes praticados pelo Estado na democracia. Em busca de provas no passado recente para que tenhamos um futuro.

“Mães de Maio”, que empresta o nome à comissão, é um grupo de mulheres que perderam seus filhos entre 12 e 20 de maio de 2006, quando uma onda de violência tomou São Paulo a partir de confrontos da polícia com o crime organizado. Foram 493 mortes neste período, pelo menos 291 delas ligadas ao que se convencionou chamar de “crimes de maio”. Pelo menos quatro pessoas continuam desaparecidas. Edson Rogério, 29 anos, filho de Debora Maria da Silva, líder do “Mães de Maio”, foi executado com cinco tiros. A suspeita é de que os autores do assassinato sejam policiais. Segundo Debora, seu filho gritava antes de ser morto: “Sou trabalhador!”. Seu assassinato segue impune. Edson morreu na mesma rua que, como gari, havia varrido pela manhã.

Nem as centenas de assassinatos de maio de 2006, nem as mortes aqui relatadas ocorridas há pouco, exemplos do genocídio cotidiano, moveram sequer um milésimo da revolta provocada por crimes com a participação de menores em que foram assassinados brancos de classe média ou alta. Seria demais esperar que um assassinato fosse um assassinato, independentemente da cor e da classe social? Menos que isso é aceitar que a vida de uns vale mais do que a de outros, e que essa hierarquia é dada pela cor da pele e pela classe social. Se é assim que você compreende o valor de uma pessoa, diga o que você é diante do espelho. Não para o mundo inteiro, para você mesmo já basta.

Sim, esse Congresso comandado por dois políticos investigados por corrupção é, ressalvando as exceções, que também existem, uma vergonha. Mas minha esperança é que, no que se refere à proposta inconstitucional da redução da maioridade penal, o Congresso seja melhor do que o povo brasileiro. Tenha grandeza histórica pelo menos uma vez e diga não a nossas almas tão corrompidas.

Enquanto isso se desenrola em Brasília, vá ver Branco Sai, Preto Fica. Ao sair do cinema, você saberá que um jovem, quase certamente negro, morreu assassinado no Brasil enquanto você estava lá.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficçãoColuna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos e do romance Uma Duas. Site:descontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter:@brumelianebrum

Policial que mata negro fica impune. Assim decide o “sistema”.


por marcos romão

Morte de um homem negro é assunto todos os dias na “seções criminais ‘ de nossa grande imprensa. O Brasil parece que já se acostumou ao “sistema” que elimina por “autos de resistência”, milhares de negros  por ano. Policiais e militares do exército postam anúncios em seus Facebooks, anunciando que irão matar e entregar suas vítimas às suas famílias. Vivemos a barbárie genocida e racista. Veja o vídeo

Em Nova Iorque,um policial branco, ao aplicar o golpe “mata-leão”, enforca até a morte Eric Garner, um negro pai de família , e novamente um grande juri dos EUA não indicia os policiais.
Eric Garner

Milhares demonstram em todo o país, muitos com raiva, alguns com resignação.

Faltam palavras para Darnell Moore, ativista afroamericano ativista, que escreve: “ Sinceramente gostaria de dizer algumas palavras poéticas de pesar. Eu estou arrasado. Falando sinceramente, o sistema fala mais alto”

Estas foram as palavras que o autor e ensaista dos EUA postou no seu Facebook nesta última quantra-feira.

Ele falou não só para os negros do fundo de seu coração..

Mais uma vez um homem negro é vítima de um policial branco. Mais uma vez o grande juri se reune para aconselhamento e decide não acusar o policial branco.
América oscila ente a resignação e a revolta. Os casos de violência policial contra os negros não têm fim, e mais uma vez o sistema que deveria protegê-los, transmite o mesmo sinal: quem mata afroamericanos, fica impune. ”

Eric Garner morre após levar o golpe "Mata-Leão" Método proibido pela polícia de Nova Iork

Eric Garner morre após levar o golpe “Mata-Leão” Método proibido pela polícia de Nova Iork

Ao relatar estes fatos  que acontecem nos EUA, tenho a impressão que falo das minhas esquinas no Brasil. Creio que o sistema é o mesmo.

fonte:gmx.de

A chacina anunciada de Belém. Estamos por nossa própria conta, já dizia Bantu Steve Biko!


Publicada em 13:10 07/11/2014 – por: Luciane Reis

Fonte : Correio Nagô

Eu estarei com qualquer um, não me importa a sua cor, desde que você queira mudar a condição miserável da população negra que existe nesta terra”.

Malcolm X

Mais de 35 mortes, esse é o saldo descrito pela população que sofre diretamente com a ação policial após a morte de um policia com comprovação de que era corrupto e bandido. Mataram de maneira aleatória e como bem disse Larissa Nascimento, “  Não há apenas despreparo policial, meu povo, há crueldade mesmo, há prazer em fazer uma pessoa tentar a sorte da sobrevivência. Quando você atira na cabeça de um pessoa é pra matar, você sabe que pode matar. Quando você encurrala pessoas desarmadas não tem a intenção de acariciar. Nossa polícia não pode ser chamada de despreparada, ela é formada estrategicamente para o atentado, a tortura e o abuso – coisas que um Estado Democrático de Direito não comporta”.

É impossível descrever em sentimentos o que nesse momento e de onde falo isso significa. A comprovação de que a morte de jovens negros não  choca a sociedade é desalentador. 35 PESSOAS COM MENOS de 30 anos, esse é o saldo de Belém até agora  e o estado brasileiro DORME. Dorme o sono dos justos e de quem acha que cartas, falas de solidariedade e conversas com governadores responde a um holocausto maior que o sofrido pelos judeus. O Brasil precisa PARAR a justiça brasileira. É inadmissível que um órgão governamental, chame uma chacina em massa pelas redes sociais e isso não seja entendido como convite de extermínio, que esses não sejam punidos e afastados da corporação.

ROTAM 1

ROTAM 1

 

É um absurdo que essa página se mantenha a mais de 2 anos com avisos claros de matança de pessoas ou ditos criminosos e isso nunca tenha chamado atenção do Ministério da Justiça ou dos órgãos de controle da Justiça ou direitos humanos, se algum dia esse órgão considerou PRETO humano. Sinceramente, não vejo mais possibilidades de dialogo, vejo sim chegada a hora de seguir a orientação dos black panthers ( para quem não sabe quem são esses, segue explicação ), em dado momento da sua construção, os Estados Unidos estava  matando homens negros na mesma velocidade e com a certeza da impunidade da mesma forma que o Brasil HOJE e isso da mesma forma que aqui  não era resolvido de maneira séria.

Esses homens e mulheres cansados de enterrar seus parentes e amigos implantaram a patrulha nos guetos negros com o objetivo proteger os residentes dos  atos de brutalidade da polícia. Esses defenderam de maneira corajosa: o armamento de todos os negros, a isenção dos negros de pagamento de impostos e de todas as sanções da chamada “América Branca”, a libertação de todos os negros da cadeia e o pagamento de indenizações aos negros por “séculos de exploração branca”.

Sim, entendendo que o estado brasileiro NÃO nos defende e quando pensa em fazer isso, não quer se comprometer de fato e com a seriedade que isso pede acho que chegou o momento de debatermos o que de fato estamos chamando de políticas públicas. Não vejo mais a possibilidade de construção de políticas públicas, mediante dialogo com gestores que boicota qualquer possibilidade de alteração desta realidade por exemplo.

 

ROTAM 2

ROTAM 2

Estão nos matando em MASSA, portanto qual governo está sendo realmente pensado para nós homens e mulheres negras? A política pública central para população negra hoje, É O DIREITO A VIDA.  O GOVERNO FEDERAL tem que ter um posicionamento enérgico e sério. Não existe o que ser averiguado em uma policia corrupta e  meios de comunicação duvidoso, não dá pro governo levar em conta dados de uma  policia COMPROVADAMENTE CORRUPTA ao se fazer uma investigação ou precisar agir.  A palavra da população PRECISA prevalecer diante de qualquer dado dito oficial, quando se trata de segurança pública.

Não tenho medo de dizer o que estou dizendo, alías, tenho medo de poucas coisas. O que tenho agora é dor, tenho um  sentimento de impotência e certeza de impunidade me consumindo, tenho sentimento de solidariedade e pertencimento com cada corpo enterrado. Nove pessoas, JAMAIS construiria congestionamento de carro do IML como o acontecido no Pará essa semana ou na Bahia na chamada semana santa. 9 ( NOVE)  pessoas mortas, NUNCA fecharia uma rua por mais de 3 horas, senhores gestores.

A naturalização destas mortes se dá por ela ser da cor não valorizada e respeitada nesse país, quem diz isso não sou EU, Luciane Reis, é a pesquisa do Data Senado intitulada “ Violencia contra a Juventude Negra no Brasil”, segue link para quem não conhece (http://www.senado.gov.br/senado/datasenado/pdf/datasenado/DataSenad… ).  Chegou a hora dos governos estaduais, municipais e principalmente federal  mostrar que é dos mais pobres, precisamos está vivos, precisamos ter serenidade para que a  cada final de semana ou de ano, não tenha como pedido a garantia da vida dos nossos entes queridos.

Precisamos enfrentar o estado brasileiro e fazer nossas vidas valer a pena. Chegou a hora de resgatar os ensinamentos Black Panthers, precisamos aceitar que  o estado brasileiro não nos ver como seres humanos e portanto, temos que resgatar o ensinamento dos  que lutaram essa mesma luta. Steve Biko já dizia “ESTAMOS POR NOSSA PRÓPRIA CONTA”. A cada chacina nas periferias do Brasil, percebemos como a minimização da atuação do estado sobre as mesmas comprova esse ensinamento.

Luciane Reis, Publicitária, Ativista do Movimento Social Negro Brasileira, Yawó da Casa de Oxumaré e gosta de dar opinião no que não é chamada de vez em quando.

As infelizes cotas: Prefeitura de São Pedro da Aldeia organiza concurso para professores a partir de texto preconceituoso


Tania Pacheco – fonte:Combate Racismo Ambiental
concurso“As infelizes cotas … servem magnificamente para alcançarmos este objetivo:  a  mediocrização também do ensino superior. Alunos que não conseguem raciocinar porque não lhes foi ensinado, numa educação de brincadeirinha. / E, porque não sabem ler nem escrever direito e com naturalidade, não conseguem expor em letra ou fala seu pensamento truncado e pobre. (…) / Além do mais, as bolsas por raça ou cor são altamente discriminatórias: ou teriam de ser dadas a filhos de imigrantes japoneses, alemães, italianos, que todos sofreram grandemente chegando aqui, e muitos continuam precisando de esforços inauditos para mandar um filho à universidade”.

 

O trecho acima faz parte do texto “Buscando a excelência”, escrito por Lya Luft e publicado na Veja no dia 26/09/2012. A parte e o todo poderiam ter ficado lá enterrados mas, lamentavelmente, foram ontem ressuscitados. E não foi a Veja ou qualquer outro veículo da mídia empresarial que os trouxe de volta, mas a Prefeitura de São Pedro da Aldeia, Rio de Janeiro, no concurso para professores de nível superior realizado ontem, 12 de outubro.

Se alguém pensa que ele foi proposto como uma provocação, a partir da qual esperar-se-ia que os futuros professores mostrassem sua capacidade crítica, dialogando em Português bem construído com as posições da autora, está redondamente iludido. Ele foi apresentado como texto de referência, a partir do qual candidatas e candidatos deveriam responder a dez questões de múltipla escolha. Para isso, novamente, foram escolhidas frases (algumas inclusive presentes na citação acima) que ratificavam as opiniões nele expressas, quer propostas para conferir se a pessoa havia entendido a mensagem, quer servindo como base para perguntas relativas a gramática.

A Prefeitura de São Pedro da Aldeia poderá argumentar que não foi ela que organizou a prova, mas o Instituto Nacional de Concurso Público (INCP), que assim se apresenta em seu site

“prestador de serviços técnicos, especializado em Concursos Públicos, é uma instituição de direito privado, sem fins lucrativos, que oferece aos órgãos governamentais, sem tercerizar [sic] nenhum serviço, uma equipe técnica, altamente qualificada e totalmente informatizada , com equipamentos modernos , na organização e total execução de Concursos Públicos e processos seletivos para o provimento dos mais variados cargos ou empregos nos níveis de ensino elementar, fundamental, médio e superior”.

Convenhamos que esse argumento é inaceitável. Primeiro, porque seria questionável escolher, para organizar uma prova de Português, uma instituição que não “terceriza” nenhum serviço. Neste caso, ela devia urgentemente fazê-lo, começando pela contratação de um revisor. Segundo, porque cabe ao gestor público, caso terceirize alguma de suas funções (e mais ainda uma da importância da contratação de professores, nos diferentes níveis), responsabilizar-se por monitorar e aprovar o que está sendo feito com o dinheiro público.

Na situação em pauta, prefiro acreditar, aliás, que isso não tenha acontecido. Seria inaceitável que uma Prefeitura buscasse contratar, para dar aulas em suas escolas para uma população que dificilmente não será majoritariamente negra, professores que concordassem com esse tipo de visão de mundo.

Esse já me parece ser, aliás, um motivo de base para a anulação do concurso. Mas há outro: sei de pelo menos uma pessoa que se sentiu pessoalmente atingida pelo texto. “Se queriam desestabilizar, conseguiram”, escreveu ela. Acho que para isso não seria necessário inclusive ser negro/a. Apenas ter a capacidade de pensar e de se indignar.

Abaixo a prova feita pelo INPC

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Grada Kilomba: Lidando com o racismo na Europa


Grada Kilomba: Lidando com o racismo na Europa
Autora de “Plantation Memories”

Grada Kilomba

Grada Kilomba

Em primeiro lugar, o racismo é um problema branco,

Um problema da sociedade branca.

E, em segundo lugar, não é uma questão ”Sou racista ou não”.

Essa não é uma questão que a pessoa branca deve fazer.
Mas, sim, a questão:

“Como eu desconstruo meu próprio racismo?”

O dever das pessoas brancas- e o racismo é definitivamente uma questão delas- é de tornar-se cientes de que elas são brancas.

E o que significa ser branco?

O que esta branquitude encarna?

Encarna privilégio, encarna poder, encarna também poder e brutalidade.

Como eu lido com todas essas partes da minha história?

Estas são as questões que as pessoas brancas precisam lidar.

E este é um processo psicológico, eu penso, para as pessoas brancas quando elas começam a lidar como o racismo.

Há como um encadeamento… um processo.

Primeiro estamos lidando com a negação dizendo “não, não é bem assim, não sou branco, e não sou racista, sou diferente”.

Da negação, passamos a um outro momento de culpa, culpabilidade.

Vem então um terceiro momento de vergonha.

E vem um quarto momento de reconhecimento.

E então vem a reparação.

E a reparação só é possível…

Reconhecimento e reparação só são possíveis quando a pessoa branca é capaz de se posicionar.

E esse processo descreve…

Esse é um processo branco.

Par as pessoas negras,

Nossa tarefa é nos curarmos.

E como sobrevivemos e nos curamos?

Nos abraçando, cuidando bem de nós, tomando a palavra, reconstruindo livros, documentando nossa história, falando, fazendo filmes…

Construindo, recuperando o que foi perdido, reavendo o que foi tomado.

Ou recompondo a história, que é uma história fragmentada.

É isto que estamos fazendo.

É como fazer um filme com pequenos fragmentos de imagens.

E na diáspora temos todos este pedaços fragmentados e estamos reunindo-os.

É  assim que nos curamos.

Então nós temos um processo diferente para sobreviver, temos um processo diferente para lidar.

 

Racismo: Encontro ou Desencontro com Fátima Bernardes?


médico

O tribunal branco de Fátima Bernades

Encontro ou Desencontro com Fátima Bernardes?

por Yure Romão

Venho acompanhando o decorrer do caso de racismo contra o goleiro Aranha através dos blogs, jornais, sites e programas de televisão e acredito que bons debates e boas discussões vêm sendo colocados em cena, sobretudo no que diz respeito ao racismo dentro do esporte e ao racismo que opera incessantemente no Brasil, seja através de xingamentos, humilhações, prisões sistemáticas e genocídios cotidianos que não param.

Nesse texto em especial gostaria de abordar o programa matinal do dia 9 de setembro da apresentadora Fátima Bernardes, que convidou Patrícia Moreira, a “gremista (,) acima de tudo” para dar suas “explicações”. Quero analisar o programa como um todo, em especial a fala e a presença de um médico.

Primeiramente, o que me saltou aos olhos em um programa que debaterá o racismo, foi o fato de não haver nenhum negro compondo o palco onde estariam os convidados. Nenhum negro. Este fato já nos dá em primeira mão a intenção do programa, que certamente não estava disposto a realizar um debate, mas sim uma amplificação de um monólogo de amenização do racismo, onde cada fala só busca reforçar e embasar a fala do outro.

A parte da comoção popular, da utilização sensacionalista da imagem de uma pobre menina branca, com olhos lacrimejantes, beiços trêmulos, que acima de tudo ama seu time e pede perdão, já era de se esperar e não me causou espanto. É televisão, e parafraseando o teatrólogo Augusto Boal a respeito das novelas, só é preciso certa dose de empatia entre personagem e espectador para que a máquina de culpa, redenção dos pecados e final feliz comece a funcionar. Claro, dentro da televisão.

A discussão do programa se limitaria então a um apelo sensacionalista, colocando o racismo como um Mal intrínseco, que somente pessoas diabólicas, de aparência medonha e chifres na cabeça poderiam concretizar. – “Uma menina que é auxiliar de dentista, que ama futebol assim como todos os brasileiros, que pediu perdão e está chorando em rede nacional não pode ser malvada a esse ponto.” Pronto! Tá pronta a arapuca!

Só entra nessa quem quer. Só cai nessa arapuca quem não quer ver que o racismo no Brasil está muito além de bem e de mal, que na verdade ele está impregnado em todas as relações e todas as instituições, desde as escolas maternais onde crianças negras são vistas como “futuros marginais”, “hiperativas”, “com dificuldades de aprendizagem”, “encarnações do mal”, até a instituição máxima de nossa punição social: a cadeia, onde negros são amontoados como animais, como é o caso de Rafael Braga, um negro, morador de rua preso (e já cumprindo pena) por porte de materiais de limpeza, durante uma manifestação no Rio de Janeiro. Isso claro, se não forem julgados e sentenciados a morte antes de chegarem aos tribunais, como foi o caso dos dois menores levados por dois policiais no centro da cidade há pouco tempo e um deles foi executado na floresta da Tijuca. Essas prisões e mortes estão previstas dentro de nossas instituições racistas e propagadoras do racismo. São amenizadas e muitas vezes naturalizadas.

Ser racista independe da índole ou do carácter da pessoa, é algo independente de ter amigos negros ou não, se você transa com negros ou não. Na hora em que o “bicho tá pegando” e que o teu está na reta, o racismo não aparece simplesmente. Não brota do nada como algo impensado e inconsciente, mas é o resultado de algo trabalhado e repetido todos os dias, em todos os lugares e necessário para que o “modus operandi branco” se mantenha no topo e a relação se mantenha vertical. Trata-se apenas de uma resultante instantânea de um racismo institucional e cotidiano.

O racismo não é um sentimento que aflora em determinados momentos, como as pessoas vêm tentando dizer. Ele é nada mais, nada menos que o não-sentimento por aquilo que é considerado um não-humano no momento da agressão. O racismo está presente em nossas vidas 24 horas por dia, 365 dias por ano. Não existe falar sem intenção ou não ter noção do peso de algo que vem sendo dito e propagado há mais de 500 anos nesse país. A intenção é extremamente forte, pesada e antiga, mesmo que pronunciada com doçura e carinho. Aqueles que alegam dizer algo racista sem intenção, estão duplamente errados: uma pelo insulto racista e outra pelo pouco caso que fazem do efeito desse insulto e do peso dele, ao usar essa justificativa.

Voltemos ao programa de Fátima Bernardes. Após o chororô apelativo e algumas frases sem nexo, ditas por Patrícia e possivelmente ditadas por seu advogado, entra em cena o personagem que me chamou atenção: o Doutor. A voz da ciência.

Se em um primeiro momento tentaram nos fazer engolir que havia uma “incoerência” no fato de uma menina de ar “angelical” ter um ato racista, apelando para nossas crenças e para as imagens de bondade com cabelos lisos e pele branca que reproduzimos do jogo televisivo, das revistas, clipes e afins; em um segundo momento temos a Ciência para carimbar o passaporte de inocência e de pureza de Patrícia, usando o argumento do “Inconsciente” ou de uma possível “histeria coletiva”, em que tomada pelo impulso, a jovem foi quase que obrigada a insultar o goleiro Aranha. Nas duas explicações, Patrícia não estava no controle de suas ações. Nas palavras do “Doutor” :

-“Essa não é a primeira história, existem diversas histórias de pessoas que se envolvem em confusões, manifestam uma opinião que muitas vezes não é dela e acaba arcando com as consequências por ter sido flagrado ou detectado […]” (Médico Fernando Gomes Pinto-neurocirurgião e neurocientista);

O “Doutor” continua sua explicação, amenizando a situação dizendo que não é a primeira vez que esse comportamento acontece. Pausa dramática. Puta que o pariu! Se esse é um comportamento que se repete, isso deveria nos chocar e nos inquietar na busca de uma solução para esta merda e não nos apaziguar, naturalizando a gravidade do ocorrido, que inclusive gerou consequências jurídicas para a equipe e para os torcedores. Mais uma vez é a voz do programa gritando em nosso ouvidos.

Fernando Gomes Pinto

Fernando Gomes Pinto

O que esse médico faz nessa fala e nesse programa específico, cujo o tema era o racismo é absurdamente grotesco. Ele simplesmente legitima uma atitude racista de qualquer pessoa, sob a alegação de que em situações como essa o cérebro não é controlado mais pela pessoa e passa a agir sozinho. É a biologia mais uma vez controlando as ações sociais do ser humano. Digo “mais uma vez” porque no início do século XX, baseado no discurso cientificista, o mundo acreditou por muitos anos que fatores biológicos determinavam ou não tendências criminosas e por conta disso, pessoas com nariz largo, cor mais escura, lábios grossos tinham maior propensão a serem criminosos ou a cometer delitos. Estudos “comprovados” dessa época, diziam que o cérebro do negro era menor que o do homem branco. Racismo fantasiado de ciência. Agora o argumento é o mesmo, mas com o objetivo de inocentar aquele que comete o crime e curiosamente não se trata de um negro, mas de uma menina branca.

Para finalizar, gostaria de compartilhar com vocês, leitores, as estratégias que meus olhos e meus ouvidos não conseguiram deixar passar em branco nesse programa que se propõe a falar sobre o racismo. Com apenas convidados brancos, o programa apresenta a imagem de uma jovem indefesa, oprimida e arrependida, não promove um discussão real sobre o racismo, sobre suas consequências para as vítimas de agressões racistas e legitima a atitude da jovem que grita “macaco” influenciada pela euforia da massa e pelo calor do momento. Tudo isso carimbado e assinado pela presença de um médico que justifica e naturaliza a atitude da moça dentro de um determinado contexto.

Note-se que nesse programa não se coloca em dúvida se o ato foi racista ou não, mas tenta-se o tempo todo amenizar a situação frente a população, ao dizer que trata-se de um ato frequente em situações como essa. Está na hora de atacarmos de frente essas estratégias de apaziguamento, amenização e relativização do racismo, que acabamos aceitando muitas vezes em nossas vidas por conta das complicações e dores de cabeça que podem nos causar. Nossas cabeças estão a prêmio há muito tempo com dores ou sem. Não importa o que façamos sempre se dá um jeito de inverter a situação para amenizá-la. Ataquemos então esses mecanismos de apaziguamento, essas estratégias de inversão, essas estruturas pré-prontas que dizem discutir o racismo e que não apresentam nada além de explicações e justificativas para atos racistas, essas mesas de debate que só possuem uma única voz e dizem contemplar a todos sob a fantasia da neutralidade.

Lombroso ao contrário

Lombroso ao contrário

Combatamos esse neutro que nos silencia em todas as esferas políticas, esse “Somos todos da raça humana” que inclui todos somente até o momento em que somos desumanizados, animalizados e então o discurso de igualdade do ser humano vai por água abaixo e os direitos deixam de existir. Xingar de “macaco” dentro de um estádio é um ato de animalização através do discurso, mas que ultrapassa a esfera do mesmo sempre que se amontoam negros em celas da prisão, sempre que “Candelárias” se repetem, sempre que “Cláudias” são arrastadas pelas ruas da cidade, sempre que falam por nós, sobre nós em programas de televisão e nos silenciam ou fingem não entender o que falamos, como se fossemos animais. O chamar de “macaco” é muito mais do que uma simples ofensa oral. É reflexo de todo um pensamento de animalização do negro desde o período da escravidão e que perdura até os dias de hoje. Não há nada para amenizarmos, o caso é muito mais grave do que imaginamos e o buraco é muito mais embaixo. Façamos ouvir nossas Vozes!

NENHUM PASSO ATRÁS.

Yure Romão

Assista o vídeo e tire suas conclusões

Pelé nunca foi um negro de sua geração.


por Marcos Romão

Pelé diz que racismo deve ser ignorado.(Divulgação/Santos FC)

Pelé diz que racismo deve ser ignorado.(Divulgação/Santos FC)

A geração de Pelé é 10 anos mais velha que a minha.
Aprendi quando jovem, ao ouvir das mulheres e homens negras que eram 10 anos mais velhas que eu, que Pelé era uma incógnita, que parecia que não via o que os negros e negras de sua idade viam em volta, a ver, o racismo e o apartheid no Brasil.

Os negros e negras de sua idade não entendiam, como um negro que conquistou fama mundial, na mesma época em que surgiam lutas pelos direitos civis dos negros americanos, que ia jogar bola em países que lutavam contra o colonialismo racista europeu que dominava a África e podia ver o que se passava, ficasse calado sobre o racismo e o Apartheid no Brasil e no mundo..

Neste mesmo tempo em que Pelé diz que era todo o tempo xingado em campo e que se parasse o jogo não teria mais jogo nenhum, ele era ao mesmo tempo o maior garoto propaganda para a venda da imagem que o Brasil como um país da democracia racial. Pelé era a prova viva de que o racismo no Brasil não existia.

Fotos do Rei Pelé estavam afixadas nos salões de entradas de todos os as embaixadas e consulados brasileiros, ao lado de propaganda de café, fotos de Ipanema e de bahianas vendendo acarajé.

Ao som da bossa-nova cada estrangeiro que fosse pegar o visto, recebia a impressão que no Brasil, a harmonia entre as “raças” fluía como a cores pretas e brancas das curvas da calçada de Copacabana.

Pelé já sabia desde 1960 que haviam negros e negras paulistas que denunciavam o racismo brasileiro e que não aceitavam a discriminação e se organizam para combatê-la. Tenho relatos de vários ativistas que o procuraram e ele desconversava.
Pelé não era como os negros de sua época, nunca foi antes e nem agora.
Pelé como jogador vai continuar eternamente como o Rei da Bola.
Pelé. fica cada vez mais claro, fez a opção por seu caminho de vida há muito tempo.
Optou não só por não falar do racismo, como optou ser um reacionário que procura escondê-lo.
É só isto um reacionário, conservador e negro.

Afinal nós negros podemos ser o que quisermos e assumirmos as consequências pelas nossas escolhas. Só não podemos dizer que somos isto ou aquilo porque acompanhamos a onda. Como o disse a menina racista do Grêmio.

Como um famoso velho negro de 73 anos, ele sabe que cada uma de suas palavras tem um peso enorme. O peso de um veredito que ensina a toda uma juventude negra, que para se ter sucesso é preciso ser vaquinha de presépio, baixar a cabeça, ajoelhar-se e levar todo dia o tapinha elogioso de garoto negro em busca do sucesso.

Pelé, como fez sua opção, que carregue então o peso de ser um reacionário não solidário com o povo negro brasileiro e do mundo.

Como o racista velho, o velho negro que aceita o racismo não tem jeito, Pelé está em um caminho sem volta.

Nos preocupemos então,  com a educação e em salvar da morte as milhares de crianças e jovens negros, que são vítimas do racismo genocida brasileiro. Racismo que se alimenta desta filosofia perversa que o Reio Pelé tão bem representa: “Não estou nem aí. Não dou bola para o racismo”.