Tia Eron e os “Pastores” da esquerda


Por Marcos Romão

Certa vez, caro amigo Valmiro Oliveira Nunes,*** uma velha raposa política, democrata empedernida como eu. Me falou que o exercício da democracia é como escovar os dentes, só se aprende os escovando todos os dias.Tia Eron

Temos realmente um quadro lamentável de mandatários no congresso, nas câmaras estaduais e municipais, como você assevera e acrescenta que “somente o exercício da política e da democracia, em linhas gerais, poderá melhorar a qualificação do Congresso.”
Vou além. Já são 26 anos que a sociedade discutiu distribuição ou não dos bens produzidos e ou acumulados pela economia. Se discutiu muito, mas só lá em cima.

Pouco se discutiu sobre cidadania e participação popular não conduzida de cima para baixo.
Resultado é que temos uma esquerda de soldadinhos de cartilhas e uma direita de paus mandados de cabrestos, que quando abrem a boca, de um lado e de outro, causam a vergonha da nação, tal a mediocridades de argumentos e distância da realidade daqui de baixo que apresentam.

Sofremos nos últimos 26 anos a deterioração da cultura de discussão democrática. A demonização do adversário político nos botou neste beco sem saída.
Esta anomia ou falta de comando político central, que aconteceu paulatinamente até chegar ao ponto de termos um “ex-governo” ao lado de um “quase governo”. Libera a olhos vistos, o que há de mais retrógrado no país a nível dos costumes e ações de ódio, como assassinatos de jovens negros, massacres de povos indígenas e violência generalizada de norte à sul contra as mulheres.

O locus onde acontecem todas estas violências e negação da cidadania, são os municípios.

A mesma prática corrupta levada a cabo na Petrobrás, assistimos em todos o municípios do Brasil com suas secretarias com poder de compra. Ao olharmos os cartéis milionários dos empresários de ônibus, podemos sentir onde aperta o nosso calo econômico nos “coletivos” lotados.

Como discutir os cortes federais na economia, se estamos dominados e medrosos nos municípios, exatamente nas nossas paradas de ônibus, filas de postos de saúde e de guichês de pagamentos de salários que atrasam?

Fora Temer, fora Dilma, fora Renan ou fora Cunha são temas que passam ao largo, quando se sai de casa nos horários de trégua entre o Caveirão e o Tráfico.
Desaprendidos de nossas cidadanias, estamos aqui em baixo levando porrada e morrendo sem saber para onde ir.

Precisamos voltar a conversar sobre quais são nossas necessidades prementes e o que queremos.

São 26 anos que os movimentos sociais estão sendo engabelados, cooptados e aparelhados pelos partidos políticos.
É deste castelo de cartas que precisa cair, que falo. E para isto o Movimento Negro e os Movimentos sociais precisam conversar com todo mundo. Até com tia Eron, que segundo notícias de jornais, era madeira mandada até ontem, quando deu seu grito de libertação, mesmo que momentâneo e individual.
Temos que parar de sermos “pastores” de esquerda apontando o dedo para deus e o mundo.

 

*** Valmiro Nunes é um velho amigo jornalista e ativista do Movimento Negro e membro da Cojira.

Nos últimos 40 anos temos conversado sobre os caminhos para a democracia brasileira e a vida dos negros e todos os cidadãos brasileiros para além da sobrevivência física.

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Um bom corte


martelo da justiçaQue tal fazer a conta do fim da imunidade tributária para entidades religiosas, privilégio garantido, mas questionado?

por ana Ana Maria Machado

Alguma coisa acontece no coração do Brasil. Municípios remotos estão dando lições ao país.

Em Aparecida de Goiânia, um casal tinha dificuldades para trabalhar, por não ter quem cuidasse dos filhos, esperando vaga em creche desde que nasceram. Resolveu acreditar na Justiça. Entrou com um processo para que a lei fosse cumprida. Deu certo. A juíza mandou a prefeitura pagar creche particular para os meninos. O exemplo vingou. Vizinhos pediram o mesmo. Eram oito mil famílias esperando vaga no município. Outras cidades das redondezas estão seguindo o exemplo. Provocaram uma explosão imobiliária na área da pré-escola. O resultado é que nunca se construiu tanta creche tão rapidamente na região.

Em Santo Antônio da Platina, no Paraná, os moradores não acharam justo que os vereadores tivessem aumentado os próprios salários. Começaram a fazer pressão para que as câmaras municipais reduzissem sua remuneração. A notícia não dá detalhes de suas ações, a gente fica sem saber exatamente o que a população fez. Mas foi muito convincente, porque deu certo: os vereadores recuaram e desistiram do autoaumento, considerado desnecessário pelos eleitores. Diante disso, um município da vizinhança tratou de fazer o mesmo. Como fogo morro acima em dia de ventania, o exemplo se alastrou rapidamente pelo estado, de Jacarezinho a tantas outras cidades cujos edis exorbitaram, na opinião do eleitorado. Numa, o padre pregou contra o aumento, no sermão de domingo. Em outra, um estudante começou um movimento, convocando manifestações pela internet. Esta semana, já são 28 cidades paranaenses vivendo experiências semelhantes. Ali mesmo no Sul, jornais do interior gaúcho acompanham o fenômeno, o noticiam com atenção, e semeiam a ideia. E no interior de São Paulo, se noticia que há ações semelhantes em Avaré, em Ourinhos, em Botucatu, em Mauá da Serra.

Em Araras, no Rio Grande do Norte, um lugar bem pequenino e de poucos habitantes, há um fenômeno diverso: muitos casos de uma doença genética rara, que causa tamanha intolerância à luz solar que se torna impossível trabalhar durante o dia. Alguns moradores entraram com pedidos de aposentadoria pelo INSS. Como as solicitações foram negadas, recorreram à Justiça Previdenciária. O juiz foi até lá, estudou o caso e mandou pagar, assegurando o direito dos trabalhadores. Fez mais: montou um plantão no local, para dar a orientação e cobertura necessária. O episódio não é isolado. Há hoje 43 mil ações judiciais de pacientes em andamento em São Paulo e 42.300 no Rio, buscando garantir tratamento do SUS.

O que significa isso? Será que o simples fato de sentir que a Justiça pode ir além de blá-blá-blá e realmente funcionar está levando os cidadãos a buscar a garantia de seus direitos? Efeito secundário de figuras de juízes confiáveis terem substituído ícones de abuso? Sai alguém como o juiz Lalau e entra Joaquim Barbosa no imaginário popular. Sai o juiz que se apossou dos carros aprendidos de Eike Batista e entra o juiz Sérgio Moro. Esses novos exemplos se somam à ação do Procon e exercem um papel pedagógico, na medida em que reconciliam o brasileiro com o respeito à lei e promovem um crescimento da noção de cidadania, bem como da fé na democracia.

Dá até esperança de que o país esteja mudando para melhor em termos de consciência popular. Prova disso foi a mobilização que resultou na Lei da Ficha Limpa, por mais que os passos de sua implementação e regulação tenham sido lentos, em relação à urgência dos que assinaram a petição para que ela existisse.

Agora, duas mobilizações parecidas começam seu longo processo de multiplicar apoios. Uma é a campanha do Ministério Público Federal, propondo Dez Medidas Contra a Corrupção. Pode ser acessada na página <www.combateacorrupcao.mpf.br>.

Outra é um projeto de iniciativa popular que já recolheu mais de 20 mil assinaturas e chegou ao Senado, onde está na Comissão de Direitos Humanos. Propõe o fim da imunidade tributária para as entidades religiosas, um tipo de privilégio tradicionalmente garantido, mas questionado por muitos. Pelo número de apoios, agora a Casa está obrigada a decidir se isso vira um projeto de lei ou não. Foi uma proposta iniciada por um cidadão comum, por meio do Portal e-Cidadania, e foi angariando partidários pela internet. Quando se discute um orçamento deficitário e a necessidade de cortes, é uma boa sugestão para o Congresso, que há pouco aprovou a MP 668, com um aumento dessas isenções e perdão de multas a igrejas. Que tal fazer a conta? É um bom corte.

A Guerra da Independência americana começou com uma rebelião contra o imposto do chá. A Inconfidência Mineira reagia à cobrança de taxas altíssimas. A Revolução Francesa é filha dos impostos elevados para pagar gastos do governo e da nobreza (que, como o clero, tinha isenção fiscal). Pelo menos Dilma deu sinais de juízo, recolhendo o balão de ensaio da CPMF.

Com alguma coisa acontecendo no coração do Brasil, é melhor não brincar com fogo.

Ana Maria Machado é escritora

publicação original: http://oglobo.globo.com/opiniao/um-bom-corte-17411784#ixzz3l0cq88yN

EM CORUMBÁ, IGUALDADE RACIAL REFORÇA APOIO ÀS COMUNIDADES QUILOMBOLAS


Leomar Alves Rosa*SONY DSC

Corumbá (MS) – Dar maior visibilidade e estreitar a relação do poder público gerando benefícios para as comunidades. Foi nesse sentido que a Subscretaria de Políticas Públicas para a Promoção da Igualdade Racial e Cidadania (Subpop), ligada à Secretaria de Estado de Direitos Humanos Assistência Social e Trabalho (Sedhast), teve ação em Corumbá, no sábado (11), no evento Escambo Cultural e também visitou Comunidades Quilombolas e entidades sociais do município.

Segundo dados oficiais do último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 71% da população de Corumbá se considera negra ou parda. A cidade possui duas comunidades quilombolas reconhecidas e mais quatro estão em processo de reconhecimento pela Fundação Palmares, fato esse que gera a legalização do território dando o acesso oficial a serviços como água, esgoto e energia elétrica, além do reconhecimento cultural.

O subsecretário da pasta, Carlos Versoza, juntamente com a coordenadora, Lecir Marques e o técnico Rodrigo Nogueira, em visita as comunidades quilombolas Família Osório e Família Campos Corrêa, puderam ver de perto as necessidades dos moradores, como por exemplo, a falta de coleta regular de lixo, e assim irão estabelecer parâmetros de ação do poder público em benefícios dos mesmos, até mesmo no reconhecimento de novas comunidades.

Segundo Carlos Versoza, a Subpop atuará de maneira a dar o máximo de apoio para o desenvolvimento pleno dessas comunidades. “Nós vamos trabalhar, em todo o MS, para que essas comunidades saiam da invisibilidade perante a sociedade e que possam realmente ter o seu papel reconhecido, com o atendimento as suas necessidades mais básicas e ainda com apoio do Estado em cursos de qualificação e orientação técnica. Vamos reunir as demandas e dar os encaminhamentos necessários também em parceira com outras secretarias e órgãos federais”, disse.

Carlos Versoza e o presidente da Comunidade Quilombola Família Osório

José Rosa Rodrigues, presidente da Comunidade Quilombola Família Osório, diz que essa aproximação do Estado é inédita e acredita que será muito positiva. “Aqui nós plantamos para sobreviver e é da terra que tiramos a maior parte do nosso sustento. Com esse apoio que nós teremos daqui para frente, acredito que as condições vão melhorar e poderemos ter acesso a mais conhecimento e aos projetos que beneficiarão a nossa comunidade”, ressaltou. Ainda segundo Rodrigues, a maioria das 13 famílias da sua comunidade não possui outra renda fora da agricultura familiar.

Escambo Cultural – O Escambo Cultural reuniu diversas lideranças do movimento negro do Estado, do país e autoridades municipais, nos dias 10 e 11 de abril em Corumbá, no auditório do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), no Porto Geral.

SONY DSCCarlos Versoza e Lecir Marques em fala no Escambo Cultural

Segundo o organizador do evento, Lamartine dos Santos, capoeirista do grupo Cordão de Ouro, o Escambo Cultural tem o objetivo de definir os conceitos de políticas de inclusão social, apresentando diagnósticos e apontando os desafios a serem enfrentados em cada área desses atores urbanos, formulando diretrizes gerais, bem como a estruturação de intervenções por meio de estratégias que agrupam tematicamente os planos de ação para a classe da capoeira, programas, projetos e ações a serem implementadas a curto, médio e longo prazo, dando uma continuidade para esses profissionais.

Em sua fala no evento, o subsecretário Carlos Versoza destacou a mobilização na cidade e ainda reforçou a ideia de colocar o evento no calendário oficial de Mato Grosso do Sul.

*Leomar Alves Rosa (Assessoria Vice-Governadoria e Sedhast)

Fonte reblogada: notícias,ms

Mamapress/Radio Mamaterra pesquisa: Paulo Roberto Diop dos Santos

Pintaram de rosa tanque de guerra em São Gonçalo


fonte: Extra

Mais uma vez São Gonçalo, a terra em que nasceu a Umbanda, dá exemplo para o mundo! Cidadão criativo e pacífico acaba preso e será processado. Riscos da cidadania. #marcosromão

“Uma cena inusitada pegou de surpresa dois policiais militares do 7º BPM (São Gonçalo) que passavam, na manhã desta quinta-feira, pela Praça dos Ex-combatentes, no Patronato, em São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio. Um homem pintou de rosa parte de um tanque de guerra que fica exposto no local. O “artista” é um gerente comercial, de 38 anos, que foi detido e levado para a 73ª DP (Neves).

Ao ser abordado, o homem disse aos PMs que levou um galão de tinta de casa e que a ideia era deixar o monumento “mais feliz”. Ele afirmou que não tinha conhecimento de que estava cometendo um crime.

– Só queria dar mais vida ao monumento. Foi um gesto de cidadania. Minha ideia era que a população dialogasse mais com esses equipamentos urbanos – disse o gerente.”

Tanque-Rosa

Tanque-Rosa  O tanque foi quase todo pintado Foto: Foto do leitor / Via WhatsApp

 

tanque-verde

Tanque-Verde

 

Leia mais: http://extra.globo.com/casos-de-policia/homem-detido-apos-pintar-tanque-de-guerra-de-rosa-em-sao-goncalo-14947071.html#ixzz3NgXkb76C

Dione Mariano o homem negro morador de rua é o réu da vez. Como no caso Vinícius Romão, primeiro prendem depois investigam.


por marcos romão e sandra martins

Design feito Gá

Design feito Gá

Inocente ou culpado, o procedimento da polícia para prender o homem negro, Dione Mariano, foi igual ao do Vinícius Romão, primeiro prendem depois investigam.
O que está acontecendo com este rapaz, está sendo acompanhado? Está sendo torturado e mal tratado? Está sendo acompanhado pela defensoria pública?
Acho melhor que para ajudar à polícia do Meyer e Todos os Santos, todos nós negros do Rio de Janeiro façamos uma fila em frente à delegacia. Quem sabe assim eles acham um milhão de negros culpados por viverem nesta cidade do Apartheid?

“E o erro continua. A policia “investigou” e encontrou este suspeito – usuário de cocaína e morador de rua – que levou os agentes de segurança publica até seus objetos de uso pessoal.
Lá, os policiais “acharam” uma arma dentro de um tênis. O rapaz assumido usuário de drogas afirmou que a arma não era dele e que os policiais a plantaram.
Estes apresentaram o rapaz como o bandido-facínora-ladrão negro como o réu.
Só que um detalhe: sem reconhecimento da vítima e sem investigações apuradas sobre possíveis denúncias de pequenos furtos praticadas por ele na região, mas sem que houvesse registros infracionais sobre o rapaz.
A policia aposta que não haverá comoção por ser “mais um negro sem ‘pedigree’. Assim todos viveriam felizes para o todo sempre.
Fim”

Joaquim Barbosa sobre o racismo: diplomacia brasileira “é muito discriminatória”


Em nossa linha de conversar sobre o racismo no Brasil sem subterfúgios nem desculpas esfarrapadas, a Mamapress reitera a sua posição de o racismo no Brasil vai aparecer e se evidenciar cada dia mais. Vai aparecer não pelo racismo de agora ser maior ou menor do que antes. Mas sim porque os discriminados não estão mais engolindo as desculpas esfarrapadas dos racistas que sempre alegam que têm um pé na cozinha quando querem esconder os crimes racistas que cometem.
Já temos toda uma geração de empregadas domésticas que exigem seus direitos trabalhistas. Temos toda uma geração de trabalhadores negros que, que já não mais aceitam que seus companheiros brancos ganhem mais e sejam sempre promovidos na frente deles. Já temos toda uma geração de intelectuais formados lá fora que podem sustentar de igual para igual com os intelectuais brancos as discussões e reivindicações trazidas pelos 53% da população não branca. Infelizmente maioria destes intelectuais formados em todas as disciplinas, foram formados lá fora, pois aqui no Brasil, a academia reservou aos negros e indígenas estudarem os negros e indígenas, viramos uma disciplina.
Queremos mais, queremos estar no poder em todas as instituições. Temos homens e mulheres negras e indígenas de todas as idade preparados para esta tarefa, e não me venham com esta velha história que precisamos esperar os investimentos em educação para termos igualdade. Dou meu exemplo pessoal: Em minha experiência profissional no Brasil, a maioria da pessoas brancas a quem eu fui subordinado, não tinham o preparo que eu tinha, hoje a maioria é rica e senta em Brasília enquanto eu… tive minha carreira de sociólogo de tal forma bloqueada que tive que sair do país em 1989.
Quantas vezes tive que pedir à uma funcionária negra, com 30 anos de serviços sem nenhuma promoção, que tivesse a gentileza de “escolarizar” a loura que iria ser chefe dela no secretariado, que nem um memorando escrever o sabia, mas como branca representaria melhor a recepção no gabinete do chefão branco?
As discussões à cerca do racismo que sempre foram colocadas debaixo do tapete, e estavam reduzidas aos circuitos do movimento negros e grupos discriminados como os grupos mulheres, indígenas e LGBT, viraram questão nacional desde as manifestações de junho de 2013.
O desaparecimento depois de torturado do corpo de Amarildo levaram os jovens de classe média das grandes cidades do Brasil que sempre viveram nos condomínios e escolas segregadas, ao descobrirem que estavam sendo tratados como negros pelas policias estaduais especializadas em maltratarem, torturarem e eliminarem negros na história do Brasil.
A perversidade do sistema racista e de apartheid que sustenta e mantém uma elite branca ou esbranquiçada no Brasil, saiu de suas margens de só atacar os guetos e hoje estende suas garras a todos os cidadãos e os perseguem mesmo dentro de seus computadores.
Fomos todos nivelados por baixo, fomos todos nivelados pela discriminação antes reservadas aos negros e indígenas.

Quase que ao mesmo tempo os brasileiros descobrem que têm um juiz negro na maior corte do país, juiz de carreira e que chega ao topo, elevando-se à categoria de ser o único e primeiro negro no Brasil a assumir esta posição no Brasil. Este exemplo nos nivelou por cima a todos o negros no Brasil. Em um país em que nós negros e indígenas somos segregados em tudo, descobrimos que também podemos entrar na máquina responsável por nos manter através da lei longe da propriedade e dos bens econômicos do Brasil. De nela entrar e transformá-la pode ser um passo. Esta possibilidade remota dede mudar o sistema judiciário que manda para as prisões  medievais milhares de negros, assusta. Assusta a simples possibilidade de negros julgarem e assim também brancos irem para a cadeia. Pela primeira vez então os brancos da elite brasileira, muitos deles que já passaram pelos porões da ditadura, se lembram e derramam lágrimas de crocodilos, sobre as condições desumanas em que vivem milhares de negros encaixotados em porões em que a tortura é o simples ir para lá. A justiça brasileira ao condenar alguém não o pune por seus mau-feitos, mas sim pela sua cor e condição econômica. Mandar alguém pobre e preto para a prisão no Brasil para simples averiguação, é dar a pena de morte ou tortura perpétua. A única saída para esta pessoa é baixar a cabeça ou se tornar fera para massacrar e cortar cabeças de outros iguais.

Todos estes acontecimentos que vivemos nos últimos dois anos são momentos emblemáticos, que escancaram para todos o Brasil racista que só inglês podia ver.

Vivemos um momento chave em nosso país que pode influenciar e propiciar a mudança da mentalidade racista de todos nós brasileiros. Está na hora de termos solidariedade um com os outros e reconhecermos que o sistema de apartheid racial e econômico no Brasil, nos atinge a todos e à nossas famílias. Que está nos destruindo a todos

A entrevista do RFI com o Ministro Barbosa, revela um ministro do STF, também preocupado com esta questão. O próprio STF com esmagadora maioria de brancos quatrocentões, em decisão memorável reconheceu a dívida do Brasil para com os negros e indígena e homologou em 2012 as cotas como constitucionais.

É essa discussão que nos interessa e nos interessa fazê-la com responsabilidade, pois estamos todos sentados em um Barril de Pólvora evidenciado pelo genocídio de nossa juventude negra, que precisa ser finalmente enfrentado.
O linchamento que alguns setores da sociedade fazem atualmente do Ministro Joaquim Barbosa, é por nós considerado como uma fuga da discussão do racismo institucional que perpassa toda a nossa sociedade desde o alto escalão de Brasilia, passando pela composição racial dos quadros que comandam as redações de nossos veículos de comunicações, até as chefias de cozinha nos grandes clubes e hotéis.
Enfrentamos o racismo em todas as esquinas, este é o fato. (Marcos Romão- editor da Mamapress)

Artigo nos  de Lúcia Müzel, que nos foi enviado pelo advogado Humberto Adami

Joaquim Barbosa sobre o racismo: diplomacia brasileira “é muito discriminatória”

Lúcia Müzell fonte: RFI

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa STF

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa
STF

Em 1993, quando deixou Paris com um título de doutor recém-conquistado na Universidade Panthéon-Assas, Joaquim Benedito Barbosa Gomes não imaginaria que, quase 20 anos depois, seria o primeiro negro a assumir a presidência do Supremo Tribunal Federal. A nomeação, entretanto, é uma exceção em um país onde o racismo se esconde atrás de piadas e os negros permanecem longe de ter acesso às mesmas oportunidades que os brancos, apesar de comporem a maioria da população. Em entrevista exclusiva à RFI, Barbosa afirma que um dos piores exemplos é a face brasileira no exterior: a diplomacia, segundo ele, ainda “é muito discriminatória”.
Durante sua curta passagem por Paris, na semana passada, o presidente do STF foi recebido como convidado de honra no Conselho Constitucional francês, uma das instituições de maior prestígio do país. Poucos minutos antes de embarcar em um trem rumo a Londres, onde cumpre a segunda etapa de compromissos oficiais na Europa, ele conversou com a RFI.

Na semana passada, enquanto os jornalistas brasileiros aguardavam o senhor em um café na praça da Sorbonne, um garçom francês, negro, reconheceu o seu nome e sabia quem o senhor era. O senhor já é reconhecido no exterior?
Eu sempre tive o hábito de parar na praça da Sorbonne, não somente para tomar um café mas para estudar. Eu gostava de ficar ali. Mas em relação a um garçom ter me reconhecido, isso representa o fato de que os negros se reconhecem em qualquer lugar do mundo. Eles se reconhecem uns nos outros.

A sua carreira é de exceção no Brasil: um negro de origem humilde que chega à presidência do STF. Hoje, foram implantadas as cotas, por exemplo, entre outras ações para integrar melhor os negros na sociedade, inclusive em altos cargos. O senhor acha que a situação melhorou?
As coisas melhoraram um pouco nestes últimos 20 anos. Mas eu acho que nós ainda precisamos de bastante cotas em diversas áreas, porque 50 ou 51% da população é formada por negros. Entretanto, eles ainda se encontram em situações de inferioridade, sofrem discriminação, conseguem empregos ruins. No Brasil, nós não vemos os negros em cargos de direção nas empresas, ao contrário de outros países. A nossa diplomacia é formada em 99% por brancos e é muito discriminatória. Ou seja, ainda temos muito a fazer. Muito mesmo.

Na Europa, essa pouca representação dos negros nos altos cargos no Brasil, um país tão miscigenado, causa estranheza. O senhor acha que o Brasil é um país racista?
É um país onde o racismo é latente. Não é explícito: é latente. Ele é disfarçado, e se mostra nas situações nas quais os negros são excluídos. Quando alguém é surpreendido em um ato racista, ele muda de discurso, faz como se não fosse nada, diz que era uma brincadeira, reafirma que o país é uma mistura de raças, lembra que tem uma tia negra. Porém, em tudo aquilo que conta de verdade, na economia, nas posições de comando, os negros são excluídos.

Recentemente, a ministra francesa da Justiça, Christiane Taubira, foi alvo de vários ataques racistas. O senhor se encontrou com ela na semana passada. Vocês conversaram sobre este assunto?
Sim, nós falamos. Eu acho isso vergonhoso para a França. Uma mulher com muitas qualidades, como a ministra da Justiça Taubira, ser alvo de atos de machismo e de racismo. Nós estudamos na mesma faculdade de Direito em Paris, Panthéon-Assas, embora não tenhamos nos conhecido na época. Ela estudava em Assas e eu fazia o doutorado em Panthéon. E nós conversamos sobre incidentes racistas que nós dois tivemos na época. Houve brigas envolvendo a extrema-direita no campus, coisas assim. Eu acho tudo isso assustador. Porém, na França pelo menos existe o debate, enquanto, no Brasil, tudo fica escondido. Tudo fica como se fosse uma brincadeira. As medidas necessárias [contra o racismo] não são tomadas. O assunto é tratado com superficialidade. O assunto não é levado a sério, e este é o problema.

Durante as manifestações do ano passado, o senhor era visto como um ídolo. O seu nome era evocado para a presidência da República. Nos últimos meses, entretanto, o senhor virou alvo da imprensa, como por exemplo sobre o pagamento de diárias durante a sua viagem à Europa. Como o senhor sentiu essa mudança?
Isso não me incomoda. Isso faz parte do caráter um pouco provinciano do debate público no Brasil. Eu gostaria de debater as coisas sérias. É isso que me interessa. Mas tem uma certa imprensa sem escrúpulos no Brasil, pessoas pagas por fundos governamentais e que só querem saber de me atacar, mas eu só faço o meu trabalho. Faço o meu trabalho e não estou nem aí para essas pessoas.

Questionar a sua honestidade o incomoda?
São os brasileiros que devem dizer se sou honesto, e não estes maus-caracteres.