ACARI+20: OCUPAÇÃO NUNCA MAIS! NA VISÃO DE ARTISTAS E INTELECTUAIS QUE ATUAM EM ÁREAS DE CONFLITO ARMADO.


CCPD-Centro Cultural Poeta Deley do Acari

CCPD-Centro Cultural Poeta Deley do Acari

Por Deley de Acari, militante negro, poeta e animador cultural

Dia 23 de Abril faz 20 anos que acari foi ocupada policial e militarmente. Dois meses depois foi a vez de Lucas e VG serem ocupadas. Na madrugada de 23 de Abril de 1996, um contigente de 300 policiais civis, liderados pelo delegado, Petista, defensor de direitos humanos e ex-acessor jurídico da FAFERJ, Hélio Luz.

Em junho do mesmo ano, as tres favelas passaram a ser ocupadas por 280 pms, comandados pelo então Capitão Claudio Oliveira, hoje tenente coronel conhecido poe ser mandante da morte de juíza Patrícia Aciolli

De Acari, podemos dizer que independente do que a ocupação tenha causado à favela, no que nos afeta como artistas de comunidade foi ela ter destruído quase que totalmente a cultura popular levando a extinção de 16 quadrilhas juninas, uma folia de reis, o berço da cultura funk consciente, abortando o crescimento de pelo menos seis grupos de rep e surgimento da lei, que obrigava as associações de moradores a pedirem o nada a opor pra realização de qualquer baile em espaço fechado ou festa de rua, ao comandante do batalhão da área.
O crescimento excessivo, conservador da cutltura religiiosa fundamentalista neopentecostal.

CCPD-Centro Cultural Poeta Deley do Acari

CCPD-Centro Cultural Poeta Deley do Acari

Qual será a visão de hoje e, como atuaram, resistiram com suas artes, na época os artistas e inteletuais desses territórios ainda em conflito? E como vem atuando, resistindo com suas artes os artistas das áreas ocupadas por UPPs e até onde pretendem ir com suas atuações e resistência?

Em Acari, além de todas as perdas e danos materiais, sociais culturais e morais, tivemos centenas de vidas humanas, inclusive de jovens artistas, de forma direta ou indireta, ceifadas como consequências da ocupação: Mc Betinho, Mc Alex, Mc Jr, os graafiteiros Pato e Acerola…

Por outro lado, o sofrimento e a dor causados pela ocupação cruel e violenta fez surgir artistas como o casal Zé Luiz, mosaiquista e Maria da Penha, poeta e artesã, o grupo de rep N’ATITUDE MCs, Mcplay… da mesma forma que fez surgir Fatinha Silva na Rocinha…
Estamos pensando em aproveitar a data pra fazer uma mostra da arte dos artistas e do pensamento de intelectuais, não só de Acari, VG e Lucas, que foram desocupadas no dia 20 de Julho de 2010, mas também das comunidades UPPeizadas hoje.

Muito provavelmente no CCPD onde funcionava a temivel e sinistra base de ocupação em Acari onde funciona hoje um centro cultural.
Não demora, mais sobre…

Deley de acari, militante negro,poeta e animador cultural

Deley de acari, militante negro,poeta e animador cultural

DIÁLOGO DE DIREITOS HUMANOS EM ACARI


por Deley do Acari – Vanderley Da Cunha Vanderley

Deley do Acari Defensor dos Direitos Humanos

Deley do Acari
Defensor dos Direitos Humanos

As prisões de ativistas que atuam preponderantemente no “asfalto” tem demonstrado o quanto a classe dominante vem se capacitando a criar um “estado democrático de direito” sustentado por leis e um linha de frente formada por juízes, promotores, delegado de policia,etc competentes o bastante para despolitizar nossas ações políticas mais radicais e transforma-las em crimes comuns e fazer de nós ativistas políticos criminosos comuns.

Nem nos tempos da “ditadura civil empresarial militar” conseguiram com tamanha facilidade e eficácia, despolitizar e criminalizar nossa militância política e daí nos por na cadeia como agora.

Por outro lado, nunca antes, o Complexo de Favelas do Grande Rio, teve tantos militantes de esquerda, tão jovens, tão femininos e tão bem formados política, ideologicamente e tão capazes de ações políticas diretas fora da ação formal e ordeira dos partidos de esquerda burgueses.

Essa militância favelada, negra e jovem vem pensando e agido com boa fluência e eficácia tanto nas ações no “asfalto” quanto na Favela.
O problema é que se no “asfalto” são tão vulneráveis a despolitização e sequente criminalização das ações políticas quanto as e os compas e camaradas que lá, no asfalto, militam prioritariamente, nas favelas são mais vulneráveis, despolitizáveis e criminalizáveis ainda.

Um ativista de esquerda que mora e atua no asfalto, se pego com um fogo de artifício pode ser muito bem defendido por seu advogado sob alegação de que se preparava pra comemorar um gol na copa do mundo ou na festa junina da escola.

Um ativista, se pego com um fogo de artifício em casa será facilmente criminalizado preso ou presa e indiciado por associação ao tráfico de drogas.

Não há dentre nós ninguém ingênuo o bastante para não saber que essa militância de esquerda favelada que vem pensando, se pensando e agindo diretamente com tanta desenvoltura e emponderamento, é tão vigiada, mapeada, grampeada e “dronizada” quanto as/os 23 compas/camaradas que a “justiça do estado de direito democrático burguês” prende e solta, prende e solta a toda hora.

Nada pra ficar só se perguntado porque essa militância da esquerda favelada ainda não tomou o mesmo bota que as/os compas e camaradas do asfalto, se esta mais exposta, fragilizada e vulnerável a criminalização.

Não dá pra esperar que a CORE ou o CHOQUE bata o pé na porta do primeiro barraco de um de nós pra depois sair correndo atrás do “caveirão” com um habeas corpus nas mãos.

Tão importante quanto a defesa dos direitos humanos dos moradores de favela é a defesa do direito a ser defensor de direitos humanos e militante político de esquerda favelado sem que seja despolitizado, criminalizado e preso ou morto por isso.

Ser favelado ou favelada, preto e pobre já nos faz vulnerável ante ao estado e a policia quanto qualquer morador. Ser defensor de direitos humanos e militante favelado nos faz mais vulnerável ainda. Como enfrentar e reduzir essa vulnerabilidade com traços de capa de “super-homem” feita de papel crepom debaixo de chuvas balas 762 e ventania das elices de um caveirão voador?

Neste Sábado, 26 de Julho, às 10h de manhã, agora em Acari, na Atividade DIÁLOGOS DE DIREITOS HUMANOS EM ACARI, com a presença da Comissão de Direitoss Humanos da OAB,que vai começar ás 10h de manhã, será um momento importante para, não só pensarmos mas traçarmos estratégias e ações para, como se diz no “asfalto” “emponderar” essa militância de esquerda favelada negra tão jovem e feminina como nunca antes, diante do que ainda esta por vir por aí, já que os quatro candidatos a governador de no Estado do Rio, prometem não só manter o projeto de segurança pública simbolizado pela UPPs como aperfeiçoa-lo e ampliar para todas as favelas com todos seus sistemas de vigiar, criminalizar e punir, não só os vigiáveis, criminalizáveis e puníveis por portar um fuzil e um saquinho de drogas nas mãos do diaádia .

Ta lcomo os que portam nos corações e mentes ainda tão jovens, sonhos de uma Favela/Brasil sem o poder opressor e o domínio das armas não governamental do tráfico ou governamental das policias, ambos a serviço de uma mesma mestre/patroa: a burguesia capitalista que vem constituindo da forma mais maquiavélica e desumana, nem antes vista no iniciao mais selvagem do capitalismo, este Estado Policial Civil Militar Penal que se autoprocrama Estado Democratico de Direito

Deley de Acari.

QUE DEFENSOR FAVELADO DE MERDA EU SOU?


por Deley de Acari

Chacina do Acari

Chacina do Acari

Enquanto os 200 “robocops” do BOPE, o CHOQUE e o 41º BPM, palmeavam, pilhavam e matavam na favela, dia 17 de Julho, 5ª Feira passada, eu e mais dois defensores favelados, vagueávamos favela de ponta á ponta tentando ajudar famílias que tiveram casas invadidas, mães, irmãs, esposas de supostos traficantes executados.

Do “alto” de minha suprema autoridade defensora de direitos humanos favelada, fui cada vez mais tomando consciência da impotência e inutilidade como militante, e me envergonhava intimamente de carregar dentro da pasta de napa, uma carteira da associação de moradores que me credencia como responsável pelo núcleo de direitos humanos, uma de defensor da carteira de frontline e a medalha de direitos humanos Chico Mendes do Tortura Nunca Mais.

Que direito, que merecimento que legitimidade tem um um defensor de direitos humanos tem de ser arvorar e se-crer o que pensa que é, que dizem que é, que acham que a ponto de lhe conferir e confiar tais graciamientos?

Se das 3 da manhã até as 17h40 e poucos não conseguiu evitar tantas violações de direitos humanos contra sua favela, a qual, pensar pode proteger?

Diante da minha impotência e inutilidade e vergonha, só me restou chorar muito, sentir o estresse subir tanto até quase romper a consciência, pegar três peças de roupa e um livro e ir me abrigar bem longe de Acari, no colo gentil e terno de uma tia de 90 anos.

Um dia depois baixou o estresse, mas permanece uma tristeza e depressão abssal e sufocante e dolorosa desvontade de ainda estar na luta.

E a pergunta intima que mantem-me as pálpebras baixas e o olhar ficando no chão?

QUE MERDA DE DEFENSOR FAVELADO SOU? MERDA DE POMBA DA PAZ OU MERDA DE ABUTRE DA GUERRA? QUE IMPORTA QUE MERDA, SE TUDO É UMA MERDA SÓ?

 

ACARI COMO SE FOSSE ANGOLA: DOIS PEQUENOS JOGADORES MEUS ACHAM E SE FEREM GRAVEMENTE COM UM GRANADA CASEIRA.


De Vanderley Da Cunha Vanderley*
foto da internet

foto da internet

Na 5ª Feira treinaram comigo e ficaram felizes em saber que iriam disputar um campeonato fora da favela em Agosto. Na 6ª feiras,por volta de 11h, o mais velho, de 11 anos foi buscar o mais novo,8 anos, na escola, no caminho acharam uma granada caseira, esquecida por “alguém” durante uma fuga de policiais. O mais velho chutou o artefato pensando ser um punho de guidão de bicicleta. A granada detonou a um metro dele e cerca de 200 estilhaços feriram gravemente suas pernas e o tórax do mais novo, que esta com fragmentos até no fígado.

foto Manuel Bastos, internet

foto Manuel Bastos, internet

A cena para quem viu foi como alguém viveu num documentário sobre minas terrestres em Angola, explodindo sob as pernas de meninos procurando uma bola de trapos no meio de um moita. Horrível, medonha.

Os dois vieram do Maranhão há pouco tempo e não tem os mesmos conhecimentos bélicos que as crianças criadas na favela.

Tenho um carinho especial por eles pois são caladinhos mas estão evoluindo bastante nos treinos.

Que que eu faço agora, diz aí? Nada! Só choro muito quando lembro deles nos treinos. Agora a pouco abri um foto do time e lá estão eles, com carinha de criança de roça… simplezinhas mais com ar de felicidade por estarem onde jamais imaginavam estar quando chegaram na favela: nas equipes de base de um clube de futebol profissional.

Quando meus pequenos estarão comigo, com a gente de novo? A médica falou que correm risco de infecção generalizada já que granada caseira é feita com fragmentos de metais contaminados: pregos, pedaços de lata, bilhas…

O mais velho esta com um pedaço de lata do tamanho uma unha atrás da veia femural. Se for removida agora pode dilacerar a veia e mata-lo.

Quero meus pequenos de volta logo. Daria uma das minha pernas, meu fígado para não ficarem mutilados.

Quero visitá-los… mas não tenho mais ânimo, vontade de lutar, pra que porra? Porque as crianças faveladas, principalmente as mais simplezinhas tem que pagar pela violência dos adultos?

Se o tiro que raspou minha cabeça sábado passado me atingisse, que falta eu faria? Já vivi muito e fiz tão pouco pela minha favela, pelas minhas crianças? Espero tão pouco, minha esperança cada vez mais se esvai entre os becos de Acari, mas porque a violência atinge quem esta começando a vida com simplicidade, inocência, esperança?

Que os Orixás abençoem, protejam de deem muita saúde a minha “menorzada”, e preserve suas vidas! Se precisar diminua o que for preciso da minha. Já não preciso viver tanto, nem sei se quero. Eles precisam viver muito, e querem tanto.

Eles estão sofrendo e sentido as dores que nós adultos merecemos… eles não. Que as Yabás façam sofrer quem merece.  As crianças de minha favela, Senhoras Rainhas, por favor não, não mais, não mais, não mais, NÃO MAIS!

Eu sim!

Deley Caso De Acari Chacina Vinte Anos

Nota da Redação
Nosso amigo Deley do Acari, é um poeta, ativista social da favela do Acari. Forma há anos jovens para a vida. Através do esporte, da poesia e criatividade.
Nossa solidariedade da Rede Rádio Mamaterra