Pisou na bola acadêmica? Sente-se ACUADO o PROFESSOR MALAGUTI ?


Por Jorge da Silva***

Jorge da Silva

Jorge da Silva

O Jornal Nacional da Rede Globo (05/11/14), noticiou o episódio em que o professor de economia Manoel Malaguti, ao se posicionar contra o sistema de cotas durante uma aula no curso de Ciências Sociais da Ufes, afirmou que, entre um médico branco e um médico negro, escolheria o branco. Ante a repercussão pública do episódio, tentou justificar-se nos seguintes termos, ipsis litteris:

“[…] Eu diria simplesmente e reafirmo, que dois médicos, com o mesmo currículo e com a mesma experiência, só que um negro e outro branco, em função da possibilidade estatística desse médico branco ter tido uma formação mais preciosa, mais cultivada, eu escolheria o médico branco. Há uma maior dificuldade do cotista negro, há uma maior dificuldade. Não quer dizer que ele é inferior, superior, nada disso. Ele simplesmente nasceu numa situação de desigualdade social em relação aos outros alunos brancos e que não sejam cotistas”. (Conferir entrevista em http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2014/11/declaracoes-de-professor-contrario-ao-regime-de-cotas-provoca-indignacao.html )

Como o IBGE adota o sistema de autodeclaração, posso, mesmo possuindo traços negroides e carapinha, declarar-me ao IBGE como branco e comportar-me como tal, e posso, com cabelos lisos e pela clara, declarar-me negro, sendo esse um dos argumentos dos que são contra as cotas, ou seja, o da suposta dificuldade de se saber quem é negro e quem é branco no Brasil, pois seríamos todos “misturados”, pardos, ainda que pretos retintos ou brancos da cor da neve. Falácia de quem é portador de daltonismo sem sabê-lo, ou de quem desconhece a distinção entre “preconceito de origem” e “preconceito de marca”, o brasileiro, como explicou Oracy Nogueira; ou de quem, conhecendo a distinção, discorda dela. Tal ambiguidade tem sido fonte de muita crise existencial. Seria o caso de Manoel Malaguti?

Ora, nenhum problema em a pessoa ser contra ou a favor das cotas. Opinião é opinião. Só que um acadêmico, professor-doutor, não pode orientar-se apenas por lugares comuns do senso comum (sic) nem ficar preso à identidade social que ostenta. Afinal de contas, uma coisa é uma conversa privada entre pares identitários; outra é a pretensão de entrar na pugna argumentativa pública, em meio acadêmico, a favor ou contra, sem ter estudado o tema, armadilha em que se meteu Malaguti. Quando o professor fala em “formação mais preciosa, mais cultivada”, faz lembrar Narciso admirando-se no espelho. No fundo, refere-se à sua formação em economia.

O professor descartou o fato de que pode haver cotistas muito inteligentes, e não cotistas pouco inteligentes. Descartou também o fato de que há estudantes negros não cotistas que, mesmo oriundos de um sistema público precário como o nosso, apresentam desempenho melhor do que o de muitos estudantes brancos vindos de escolas privadas da alto padrão. Aliás, o reitor da Ufes foi bem claro a esse respeito. Pesquisas da Uerj chegaram à mesma conclusão. Ademais, inúmeras pesquisas Brasil afora há muito derrubaram os argumentos do professor sobre cotas; e nenhuma que eu conheça, os confirmou.

Para piorar a situação de Malaguti, o mesmo deve ter enfurecido outros opositores ilustres das cotas, como Demétrio Magnoli, Ali Kamel e Ivonne Maggi, os quais insistem na estranha tese de que não há negros nem brancos no Brasil; só brasileiros misturados, todos pardos.

Em suma: o professor Malaguti é exemplo do oposto de tudo que sustenta. Além disso, conseguiu inovar: somou o racismo individual, que se manifesta nas relações interpessoais, ao racismo estrutural, o que se opõe à mudança da ordem social contida na fórmula “Cada macaco no seu galho”.

**** Jorge Da Silva, cientista social, é professor-adjunto da UERJ, aposentado. Criado no hoje chamado Complexo do Alemão, no Rio, serviu antes à PM, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos/RJ.

 

Racismo institucional no Procon de Vitória. Até num órgão da Secretaria Municipal de Cidadania e Direitos Humanos?


Walmyr Junior*

Você percebe a perversidade do racismo quando ele, além de oprimir, tenta transportar a denúncia para outro território. Que o racismo se faz presente em todas as esferas da vida pública e privada, não temos dúvida. Mas, é de se alarmar quando um caso ocorre dentro de um órgão da Secretaria Municipal de Cidadania e Direitos Humanos.  Assim, começa o caso explorado pelo artigo de hoje. Lízia De Boni, servidora pública da Prefeitura Municipal de Vitória, sofreu mais uma vez na pele as opressões e as violências que o racismo promove na população negra.

Walmir Junior

Walmir Junior

.  Assim, começa o caso explorado pelo artigo de hoje. Lízia De Boni, servidora pública da Prefeitura Municipal de Vitória, sofreu mais uma vez na pele as opressões e as violências que o racismo promove na população negra.

O que parecia mais um atendimento a munícipes pelo Procon, órgão em que a servidora trabalha, terminou em mais uma reprodução do racismo que a oprime ao longo de 28 anos. Uma denúncia na 4ª Delegacia Policial em Maruípe na tarde de 31/10/2014 foi realizada, conheça a denúncia na íntegra:

“Por volta das 16hs do dia 30/10 chegou ao Procon Municipal de Vitória um senhor alterado por ter chegado após o horário prevista de distribuição de senha. A coordenadora do órgão mostrou a portaria municipal que regulamenta o horário de atendimento, mas fez uma concessão e solicitou a uma funcionária que o atendesse. Durante o atendimento, o munícipe puxou conversa enquanto a funcionária digitava os dados do processo no computador. Ele se referia a um programa de TV sobre o oriente médio e elogiava as feições físicas dos árabes, enquanto manifestava o desejo de que as feições do povo brasileiro “evoluíssem” para um padrão com feições mais europeias. E citando diferentes regiões do Brasil como exemplo, disse que a região sudeste estava já manifestando padrões físicos mais aceitáveis devido imigração italiana. Ele ainda se referiu às redes sociais, que essa semana as pessoas estavam sendo acusadas de xenofobia, racismo e ódio. E que ele DISCORDAVA DA EXISTÊNCIA DO RACISMO. Em dado momento, começou a se referir a um apresentador de um programa de TV da Band. A funcionária continuou o seu trabalho e disse que não assiste TV. O munícipe seguia dizendo que era um absurdo ligar a TV e “dar de cara” com “aquilo”, que era muito feio e se vestia como africano “ o cabelo de tranças horríveis, camisa larga e calça no meio das pernas”. Por fim, manifestou que tinha motivo pra ter medo se cruzasse com “um cara desses” na rua, que depois as pessoas falam que é racismo e ele discorda disso. Ao perceber que o munícipe insistia na conversa, a funcionária interrompeu o atendimento e começaram a discutir sobre o fato.

– Peraí. O senhor vem no meu guichê pra vomitar racismo na minha cara?

– Não é racismo não. Tô te contando um caso acontecido que eu não concordo.

– Senhor, eu estou aqui pra falar de Código de Defesa do Consumidor e não sou obrigada a ouvir os comentários racistas do senhor. Por que o senhor está falando isso comigo? Você está falando que o meu povo é feio, que nosso cabelo é feio e que vcs tem que ter medo da gente na rua?

– Mas é feio mesmo. As pessoas não são obrigadas a ligar a televisão 23h e ver um cara daquele na TV. Até parece que se você tiver passando na rua e encontrasse um sujeito desse, não teria medo.

– O nome disso é racismo e eu não vou tolerar. Se o senhor falar de celular eu atendo, se não eu vou pedir pro senhor se retirar.

O munícipe insistiu por diversas vezes em argumentar com adjetivos contra o apresentador negro, sem ouvir o apelo da funcionária.

– Me desculpe, eu não vou te atender. Se alguém se disponibilizar a atender pode ir. Eu não.  – Vocês vão ter que atender. Está aqui para isso.

– Não senhor, você chegou após o horário de distribuição de senha e está escrito na portaria que eu não sou obrigada. Posso fazer trabalho interno.

A coordenadora chegou e pediu para a atendente se acalmar. A atendente se retirou e quando voltou ao ambiente de trabalho o munícipe conversava com a coordenadora sobre o fato ocorrido, insistindo muito que não era situação de racismo. A atendente voltou para o seu guichê, ao lado onde estava o munícipe.

– Essa daí está aí para servir e tem que me atender. Eu sou da justiça federal. Eu não vou pedir desculpas pelo racismo, mas pelo fato ocorrido. Eu tava contando um caso pra ela.

– Se o senhor tiver que pedir desculpas e falar alguma coisa, tem que falar comigo que fui a atingida. Eu não sou amiga do senhor pra ficar ouvindo caso.

– Eu não vou pedir desculpas pra você, estou falando com ela (a coordenadora). Qual o nome “dessa aí”?  -lizia de boni silva , matricula XXXXX.

Ele anotou. A coordenadora se manifestou, dizendo que não queria “aquele tipo de conversa” ali e que se a atendente quisesse fazer “aquilo”, era “da porta pra fora” ou que resolvesse na justiça.

“Acabou Lízia. Fica quieta. Acabou”.

A coordenadora pediu que ela se retirasse e que o munícipe permanecesse. A atendente não aceitou, falou que continuaria trabalhando e argumentou que estava na SECRETARIA MUNICIPAL DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA e a coordenadora por ser advogada tinha conhecimento do que era racismo e se fosse qualquer outro crime cometido ali, já teriam chamado segurança.

O munícipe continuava a argumentar. O tempo todo a coordenadora mandava a funcionária se calar e dizia que conhecia as posições políticas dela, mas que ali “não era lugar”. “Tem como você se calar?” “Já estou calada. Estou indo embora.” A funcionária se sentindo constrangida se retirou e o munícipe permaneceu”.

Espera-se que a Secretaria Municipal de Cidadania e Direitos Humanos de Vitória instale uma comissão para apurar o caso e garanta a integridade de Lízia De Boni, bem como a erradicação de qualquer opressão, seja ela de gênero, orientação sexual, religiosa, de raça dos espaços institucionais, bem como indicam as politicas afirmativas e universais de garantia de vida à população, sobretudo negra. Dizer que a opressão que a servidora sofreu é fruto de qualquer outra situação é uma tentativa de desterritorializar o sistema racista que opera todos os dias e condena negros e negras a condições de vidas indignas e legitimar a violência física e simbólica a que estão submetidos.

 

* Walmyr Júnior é professor. Representante do Coletivo Enegrecer no Conselheiro Nacional de Juventude – CONJUVE. Integra Pastoral da Juventude e a Pastoral Universitária da PUC-Rio. Representou a sociedade civil no encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ.

ue o racismo promove na população negra.

O que parecia mais um atendimento a munícipes pelo Procon, órgão em que a servidora trabalha, terminou em mais uma reprodução do racismo que a oprime ao longo de 28 anos. Uma denúncia na 4ª Delegacia Policial em Maruípe na tarde de 31/10/2014 foi realizada, conheça a denúncia na íntegra:

“Por volta das 16hs do dia 30/11 chegou ao Procon Municipal de Vitória um senhor alterado por ter chegado após o horário prevista de distribuição de senha. A coordenadora do órgão mostrou a portaria municipal que regulamenta o horário de atendimento, mas fez uma concessão e solicitou a uma funcionária que o atendesse. Durante o atendimento, o munícipe puxou conversa enquanto a funcionária digitava os dados do processo no computador. Ele se referia a um programa de TV sobre o oriente médio e elogiava as feições físicas dos árabes, enquanto manifestava o desejo de que as feições do povo brasileiro “evoluíssem” para um padrão com feições mais europeias. E citando diferentes regiões do Brasil como exemplo, disse que a região sudeste estava já manifestando padrões físicos mais aceitáveis devido imigração italiana. Ele ainda se referiu às redes sociais, que essa semana as pessoas estavam sendo acusadas de xenofobia, racismo e ódio. E que ele DISCORDAVA DA EXISTÊNCIA DO RACISMO. Em dado momento, começou a se referir a um apresentador de um programa de TV da Band. A funcionária continuou o seu trabalho e disse que não assiste TV. O munícipe seguia dizendo que era um absurdo ligar a TV e “dar de cara” com “aquilo”, que era muito feio e se vestia como africano “ o cabelo de tranças horríveis, camisa larga e calça no meio das pernas”. Por fim, manifestou que tinha motivo pra ter medo se cruzasse com “um cara desses” na rua, que depois as pessoas falam que é racismo e ele discorda disso. Ao perceber que o munícipe insistia na conversa, a funcionária interrompeu o atendimento e começaram a discutir sobre o fato.

– Peraí. O senhor vem no meu guichê pra vomitar racismo na minha cara?

– Não é racismo não. Tô te contando um caso acontecido que eu não concordo.

– Senhor, eu estou aqui pra falar de Código de Defesa do Consumidor e não sou obrigada a ouvir os comentários racistas do senhor. Por que o senhor está falando isso comigo? Você está falando que o meu povo é feio, que nosso cabelo é feio e que vcs tem que ter medo da gente na rua?

– Mas é feio mesmo. As pessoas não são obrigadas a ligar a televisão 23h e ver um cara daquele na TV. Até parece que se você tiver passando na rua e encontrasse um sujeito desse, não teria medo.

– O nome disso é racismo e eu não vou tolerar. Se o senhor falar de celular eu atendo, se não eu vou pedir pro senhor se retirar.

O munícipe insistiu por diversas vezes em argumentar com adjetivos contra o apresentador negro, sem ouvir o apelo da funcionária.

– Me desculpe, eu não vou te atender. Se alguém se disponibilizar a atender pode ir. Eu não.  – Vocês vão ter que atender. Está aqui para isso.

– Não senhor, você chegou após o horário de distribuição de senha e está escrito na portaria que eu não sou obrigada. Posso fazer trabalho interno.

A coordenadora chegou e pediu para a atendente se acalmar. A atendente se retirou e quando voltou ao ambiente de trabalho o munícipe conversava com a coordenadora sobre o fato ocorrido, insistindo muito que não era situação de racismo. A atendente voltou para o seu guichê, ao lado onde estava o munícipe.

– Essa daí está aí para servir e tem que me atender. Eu sou da justiça federal. Eu não vou pedir desculpas pelo racismo, mas pelo fato ocorrido. Eu tava contando um caso pra ela.

– Se o senhor tiver que pedir desculpas e falar alguma coisa, tem que falar comigo que fui a atingida. Eu não sou amiga do senhor pra ficar ouvindo caso.

– Eu não vou pedir desculpas pra você, estou falando com ela (a coordenadora). Qual o nome “dessa aí”?  -lizia de boni silva , matricula XXXXX.

Ele anotou. A coordenadora se manifestou, dizendo que não queria “aquele tipo de conversa” ali e que se a atendente quisesse fazer “aquilo”, era “da porta pra fora” ou que resolvesse na justiça.

“Acabou Lízia. Fica quieta. Acabou”.

A coordenadora pediu que ela se retirasse e que o munícipe permanecesse. A atendente não aceitou, falou que continuaria trabalhando e argumentou que estava na SECRETARIA MUNICIPAL DE DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA e a coordenadora por ser advogada tinha conhecimento do que era racismo e se fosse qualquer outro crime cometido ali, já teriam chamado segurança.

O munícipe continuava a argumentar. O tempo todo a coordenadora mandava a funcionária se calar e dizia que conhecia as posições políticas dela, mas que ali “não era lugar”. “Tem como você se calar?” “Já estou calada. Estou indo embora.” A funcionária se sentindo constrangida se retirou e o munícipe permaneceu”.

Espera-se que a Secretaria Municipal de Cidadania e Direitos Humanos de Vitória instale uma comissão para apurar o caso e garanta a integridade de Lízia De Boni, bem como a erradicação de qualquer opressão, seja ela de gênero, orientação sexual, religiosa, de raça dos espaços institucionais, bem como indicam as politicas afirmativas e universais de garantia de vida à população, sobretudo negra. Dizer que a opressão que a servidora sofreu é fruto de qualquer outra situação é uma tentativa de desterritorializar o sistema racista que opera todos os dias e condena negros e negras a condições de vidas indignas e legitimar a violência física e simbólica a que estão submetidos.

 

* Walmyr Júnior é professor. Representante do Coletivo Enegrecer no Conselheiro Nacional de Juventude – CONJUVE. Integra Pastoral da Juventude e a Pastoral Universitária da PUC-Rio. Representou a sociedade civil no encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ.

As infelizes cotas: Prefeitura de São Pedro da Aldeia organiza concurso para professores a partir de texto preconceituoso


Tania Pacheco – fonte:Combate Racismo Ambiental
concurso“As infelizes cotas … servem magnificamente para alcançarmos este objetivo:  a  mediocrização também do ensino superior. Alunos que não conseguem raciocinar porque não lhes foi ensinado, numa educação de brincadeirinha. / E, porque não sabem ler nem escrever direito e com naturalidade, não conseguem expor em letra ou fala seu pensamento truncado e pobre. (…) / Além do mais, as bolsas por raça ou cor são altamente discriminatórias: ou teriam de ser dadas a filhos de imigrantes japoneses, alemães, italianos, que todos sofreram grandemente chegando aqui, e muitos continuam precisando de esforços inauditos para mandar um filho à universidade”.

 

O trecho acima faz parte do texto “Buscando a excelência”, escrito por Lya Luft e publicado na Veja no dia 26/09/2012. A parte e o todo poderiam ter ficado lá enterrados mas, lamentavelmente, foram ontem ressuscitados. E não foi a Veja ou qualquer outro veículo da mídia empresarial que os trouxe de volta, mas a Prefeitura de São Pedro da Aldeia, Rio de Janeiro, no concurso para professores de nível superior realizado ontem, 12 de outubro.

Se alguém pensa que ele foi proposto como uma provocação, a partir da qual esperar-se-ia que os futuros professores mostrassem sua capacidade crítica, dialogando em Português bem construído com as posições da autora, está redondamente iludido. Ele foi apresentado como texto de referência, a partir do qual candidatas e candidatos deveriam responder a dez questões de múltipla escolha. Para isso, novamente, foram escolhidas frases (algumas inclusive presentes na citação acima) que ratificavam as opiniões nele expressas, quer propostas para conferir se a pessoa havia entendido a mensagem, quer servindo como base para perguntas relativas a gramática.

A Prefeitura de São Pedro da Aldeia poderá argumentar que não foi ela que organizou a prova, mas o Instituto Nacional de Concurso Público (INCP), que assim se apresenta em seu site

“prestador de serviços técnicos, especializado em Concursos Públicos, é uma instituição de direito privado, sem fins lucrativos, que oferece aos órgãos governamentais, sem tercerizar [sic] nenhum serviço, uma equipe técnica, altamente qualificada e totalmente informatizada , com equipamentos modernos , na organização e total execução de Concursos Públicos e processos seletivos para o provimento dos mais variados cargos ou empregos nos níveis de ensino elementar, fundamental, médio e superior”.

Convenhamos que esse argumento é inaceitável. Primeiro, porque seria questionável escolher, para organizar uma prova de Português, uma instituição que não “terceriza” nenhum serviço. Neste caso, ela devia urgentemente fazê-lo, começando pela contratação de um revisor. Segundo, porque cabe ao gestor público, caso terceirize alguma de suas funções (e mais ainda uma da importância da contratação de professores, nos diferentes níveis), responsabilizar-se por monitorar e aprovar o que está sendo feito com o dinheiro público.

Na situação em pauta, prefiro acreditar, aliás, que isso não tenha acontecido. Seria inaceitável que uma Prefeitura buscasse contratar, para dar aulas em suas escolas para uma população que dificilmente não será majoritariamente negra, professores que concordassem com esse tipo de visão de mundo.

Esse já me parece ser, aliás, um motivo de base para a anulação do concurso. Mas há outro: sei de pelo menos uma pessoa que se sentiu pessoalmente atingida pelo texto. “Se queriam desestabilizar, conseguiram”, escreveu ela. Acho que para isso não seria necessário inclusive ser negro/a. Apenas ter a capacidade de pensar e de se indignar.

Abaixo a prova feita pelo INPC

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O movimento negro chapa branca, beija-mão e adesismo sem propostas


Editoral da Afropress

A Mamapress se associa a este  editorial da Afropress, nossa co-irmã da Imprensa Interétnica.

São mais de 1700 organizações negras no Brasil. Individualmente muitos de nós participam em partidos e muitos partidos tem suas seções negras.
São direitos democráticos
Propostas do movimento negro independente e como um todo, ,   foram elaboradas em congressos e seminários desde o ínicio da década de 70 e encaminhadas para o  ESTADO BRASILEIRO.
Já em 1946, partidos como o PCB e o PTB incluiam reivindicações contra a discriminação racial em seus programas.
Recomendações da ONU para o Estado Brasileiro

Recomendações da ONU para o Estado Brasileiro

Na década de 30, somente 42 anos depois do fim da escravatura, 200 mil negros apresentaram através da única grande tentativa de se formar um partido negro. a Frente Negra, propostas para a nação de igualdade para os negros, em todos os níveis e escalões da sociedade Brasileira.
O Movimento Negro tem história e precisa ser respeitada. Se quiserem atender aos negros, basta cada político ou partido buscar nas suas gavetas e gavetas dos governos as nossas reivindicações, que estão entregues às traças nos arquivos do racismo institucional.

De 82 para cá, vários governos municipais e estaduais, e a partir de 1986, o governo federal e o congresso nacional adotaram algumas medidas, que definimos como Políticas de Estado que atendessem as revindicações do Movimento Negro.
Em uma escala de 0 a 10, diríamos com otimismo que alcançamo, 0,5 % destas reivindicações.
A matança diária de jovens negros por todo o Brasil, balança até o otimismo dos 0,5% dos avanços que o Estado Brasileiro teve em relação ao atendimento das necessidades e reivindicações de 55% da população brasileira.
Fazem poucas semanas, organizações negras independentes, se manifestaram em todo o país pelo fim do Genocído da Juventude Negra, era o Movimento Reaja ou Será Morto, que botou mais de 50 mil pessoas nas ruas de todo o Brasil, sem o apoio de nenhuma organização do aparato governamental. E as mortes acobertada pelo famigerado “Auto de Resistência” continuam, com ou sem eleições.
Lutamos para que cada cidadão negro, assim como cada cidadão brasileiro, alcance um dia a liberdade plena de votar. Liberdade esta que é impedida de acontecer, pelo clientelismo, ameaças, violências e a famosa frase que se repete ad infinitum. que melhorando as questões sociais e econômicas, vamos, enquanto negros, podermos sentar um dia na mesa do poder, para comermos do bolo da liberdade plena.
Engodo. Nossa plataforma, nossa reivindicação principal de Movimento Negro para o Estado Brasileiro, é o fim do Apartheid e Racismo entranhado em todas as estrutura de poder e instituições do Brasil.
Somos mais de 100 milhões de indivíduos. Cada um tem a sua opinião e vai dia 5 às urnas.
Que nem brancos nem negros, 126 anos depois da Abolição, venham nos botar cangalhas para dobrar nossos pescoços.
Até a ONU já sabe de nossas reivindicações ao Estado Brasileiro.
Temos negros e votamos em todos os partidos no Brasil, mas nossas reivindicações vão além de partidos e governos, queremos Políticas de Estado que nos atendam e reparem rápido os estragos feitos e superem as desigualdes profundas existentes entre os negros e os brancos brasileiros.
Não podemos aceitar ficar como reféns da boa vontade, das políticas adotadas por este ou aquele partido, por este ou aquele governo.
Desde o primeiro desembarque nestas terras, sabemos que promessas que não se transformam em leis de Estado a serem cumpridas, só nos tem mantido numa eterna galé chamada Brasil. #marcosromao
O Editoral da Afropress

Ninguém pode ser contra que os negros do PT e do PC do B, representados por suas articulações e entidades como a CONEN (Coordenação Nacional de Entidades Negras) e a UNEGRO (União de Negros pela Igualdade) manifestem sua adesão a candidata que tem o apoio desses partidos no Governo – no caso, a Presidente Dilma Rousseff, do PT, que disputa a reeleição.

Ninguém pode ser contra que os negros do PSB ou da Rede ou de qualquer partido apóiem sua candidata, a ex-senadora Marina Silva, que tem aparecido nas pesquisas sempre em segundo lugar e, a esta altura – a uma semana das eleições – parece ter fôlego para chegar ao Planalto, ainda que em queda nas intenções de voto.

Ninguém tampouco pode ser contra que os negros do PSDB, do DEM, do PMDB, ou de qualquer outra legenda integrante desses aglomerados que conformam a sopa de letras do cenário partidário brasileiro (o Brasil é o único país do mundo que tem 32 partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral) se manifeste a favor dos seus preferidos nas eleições.

O que não se pode conceber nem aceitar é que os negros de tais partidos se assumam como porta-vozes dos negros brasileiros e lancem manifestos de apoio a este ou aquele candidato, na condição de representantes da população negra, como se falassem pelo todo, por todos nós.

Trata-se de fraude, que precisa ser denunciada para que a enganação e o embuste não prosperem. Os negros brasileiros nada tem a ver com o “caciquismo negro”, com essas tristes figuras que transformaram a ocupação de “puxadinhos” – seja nos partidos, seja no Estado, onde exercitam a subserviência e o jogo da bajulação aos donos desses partidos – em meio de vida. Ninguém deu a eles procuração.

Que se manifestem em campanha por seus candidatos ou candidatas, estão no seu papel, que é exatamente este: o de cabos eleitorais de luxo, símbolos e alegorias dessa inclusão que nunca acontece de verdade, de olho numa emenda parlamentar, num projetinho a ser patrocinado por esta ou aquela estatal, expediente de que o Governo atual usou e abusou para servir a essa gente as migalhas que sobram da farta mesa do poder.

Mas, não falem pelos negros brasileiros, que se constituem em 53,1% da população de 202,7 milhões habitantes, de acordo com a mais recente Pesquisa Nacional de Amostras de Domicílio 2013 (PNAD), 55% dos eleitores, segundo levantamento recente do Instituto Patrícia Galvão.

Ao fazerem, se inserem no movimento de mistificação e da mentira; fazem o jogo dos que, simplesmente, estão preocupados com a manutenção do poder e se fazem de surdos à necessidade de transformações estruturais no Brasil, que comecem por uma agenda que tenha como prioridade a inclusão dos que foram deixados à margem por uma Abolição nunca concluída. O que querem, na prática, é garantir espaço nos “puxadinhos” para os próximos quatro anos, no que revelam o caráter de um movimento negro chapa branca, que tem o adesismo ao Governo (qualquer Governo) gravado no seu DNA.

A maior prova disso é que não tiveram os negros apoiadores da candidata que disputa a reeleição, sequer o cuidado e o pudor de apresentarem um documento com propostas e reivindicações. Foi um ato de pura adesão, um beija-mão explícito transformado em peça de campanha.

Os argumentos utilizados de que estão em jogo “não apenas uma disputa eleitoral, mas projetos políticos” e que a opção feita foi “por aquele que tem conquistas mais próximas às bandeiras historicamente defendidas”, são risíveis, hilários mesmo, um jogo de palavras que que tem um único objetivo: disfarçar, com certa pompa e arroubos de retórica, o adesismo mais xinfrim e a ausência de autonomia e independência, na tentativa de ludibriar incautos e desinformados. (veja matéria em http://www.afropress.com/post.asp?id=17532).

Da mesma forma, os negros apoiadores da ex-ministra do Meio Ambiente do Governo Lula, considerada por ele próprio a “Pelé do Ministério” quando saiu, mas agora satanizada, apresentada como de extrema-direita, apenas pela conveniência eleitoral em que, assim como na guerra, a verdade é a primeira vítima.

O texto divulgado por eles remete a uma reunião ocorrida com a candidata no dia 20 de setembro último em Salvador, e nele há uma série de reivindicações, a sugerir proposta de um suposto programa de Governo. Não há, contudo, uma única explicação sobre o grau de concordância da candidata a tais reivindicações, o que evidencia que se está diante, igualmente, de uma peça de campanha escrita de improviso e nos joelhos.

Tanto num caso como no outro, estamos diante de uma encenação que beira o surreal: tais lideranças negras, que se apresentam como representantes da maioria dos eleitores brasileiros (55%, repetimos) aceitam, passiva e dócilmente, que as duas principais candidaturas não assumam um único compromisso com essa maioria, nos seus eventuais governos.

Não há um único ponto, uma única proposta, com a qual tenham fechado questão como condição para apoio como seria de se esperar. É como se estivéssemos todos muito contentes, todos muito satisfeitos e, portanto, a única coisa a fazer fosse apoiar os benfeitores de plantão, esperando deles favores e benignidade. Não há como não associar isso aos rituais do beija-mão, reverência tão em voga sob o escravismo.

É surreal, sim, mas revela muito do porque o Brasil – a 7ª economia do mundo – é um dos países campeões no quesito desigualdade, e porque após 126 anos da Abolição estamos como estamos.

 

Denúncia Anônima e Vazia leva trabalhador negro do Grajaú para a prisão em Bangu 10.


Gustavo Nunes Guedes e sua esposa, são os únicos camelôs negros na praça Edmundo Rego, no bairro do Grajaú. Rio de Janeiro.

Com sua barraca de venda de bolsas conseguiu criar sua filha, Caroline Guedes, que formada em história, hoje faz mestrado e já viajou por vários países.

Gustavo Nunes Guedes , negro ,camelô , marido e pai trabalha desde os 11 anos de idade. Gustavo foi preso dia 4/9/2014 acusado de roubar um carro em 2011.

Gustavo foi acusado por uma mulher que mora no mesmo bairro. Foi acordado as 5:30h da madrugada e teve anunciada pelos policiais a ordem de prisão. Gustavo, o negro ,camelô e pai de família foi levado à delegacia, onde foi encaminhado ao presídio de Bangu 10.

O jovem Vinícius Romão, que se tornou tristemente famoso ao ser vítima de policiais racistas, que o encarceram por 16 dias sob falsa acusação de assalto, é amigo de Caroline Guedes , filha de Gustavo, Caroline lhe relatou o ocorrido com o pai, ressaltando que por serem a única família negra a ter um stand de vendas na praça, não eram aceitos por certo vizinhos.

Vinícius entrou em contato com a Comissão de Igualdade Racial da OAB-RJ, que marcou uma reunião com Caroline Guedes para acertarem uma visita ao Sr. Gustavo Nune Guedes no Presídio Bangu 10.

Assim relatou à Mamapress o presidente  da CIR-OAB, Marcelo dias, o encontro ocorrido:

“após ouvirmos , eu e a nossa vice presidente Dra Sandra Machado , o relato emocionado da jovem Caroline , marcamos uma visita ao Sr Gustavo em Bangu 10.
Ao estarmos indo embora , chega uma mensagem no celular do Vinícius, informando que foi concedida a liberdade do pai de Caroline após cinco ou seis longos dias.
Caroline não aguentou a emoção , desmaiando na sala de reunião.

 Marcelo Dias acrescenta:

 ” O racismo não dá trégua, nos cabe reagir à violência racial. A comunidade negra e seus aliados , aqueles que não são negros , mas lutam contra o Racismo precisam cada vez mais se levantar e dizer basta ao racismo e ao extermínio da população negra.
Alguns acham que a punição ao Grêmio foi desproporcional ao ato repugnante de parte da sua torcida.
Não foi.
A justiça precisa agir para deter o ódio racial que cresce em nosso país.
Como prender por seis dias um ser humano , um trabalhador que tem residência fixa , trabalho fixo em razão de uma simples denúncia ?
Racismo é Crime.
Reaja à Violência Racial.”

OPINIÃO DA MAMAPRESS

A rapidez da resposta ajuda sempre.
A Comissão de Igualdade Racial da-OAB Rj tem sido uma prancha de salvação para as vítimas de racismo em todo o Estado do Rio. Mas sei que são poucos e que fazem das tripas coração para atenderem os casos de racismo.
Tá na hora da turma da reclamação no facebook arregaçar as mangas e fazer trabalho voluntário junto a CIR-OAB e também criar grupos de voluntários para combater o racismo em todos os municípios.
Não são só advogados que se precisa para estes casos, mas de psicólogos, assistentes sociais e principalmente ativistas contra o racismo. para irem com as vítimas nas delegacias e acompanharem os casos.
Todos podem aprender a entrar com um pedido de Habeas Corpus. A RedeSOS Racismo Brasil propõe à CIR-OAB-RJ, desde já um encontro de treinamento para agir em casos emergenciais, para todas e todos que desejem mais do que reclamar contra o racismo.
O amigo Vinícius Romão é um bom exemplo de como uma vítima bem defendida, acompanhada e orientada, pode se transformar em um ativista solidário com outras vítimas do racismo.
Caros Marcelo Dias, Sandra Machado e Da Silva Tito Da Silva, vocês devem estar tão cansados feito eu, de ouvirem no facebook a frase—Cadê o Movimento Negro?— num chororô constante da turma das arquibancadas online.
Sempre respondo, Movimento Negro é e está onde um negro ou um antirracista se levanta.
Movimento negro contra o racismo é quando uma pessoa de qualquer cor se levanta e não aceita mais a violência racista que vitima alguém ao seu lado.
Movimento Negro não é um departamento do estado com sala e água gelada, Movimento Negro é você, sou eu, somos nós que andam de cabeça erguidas nas ruas do racismo brasileiro!

Dione Mariano o homem negro morador de rua é o réu da vez. Como no caso Vinícius Romão, primeiro prendem depois investigam.


por marcos romão e sandra martins

Design feito Gá

Design feito Gá

Inocente ou culpado, o procedimento da polícia para prender o homem negro, Dione Mariano, foi igual ao do Vinícius Romão, primeiro prendem depois investigam.
O que está acontecendo com este rapaz, está sendo acompanhado? Está sendo torturado e mal tratado? Está sendo acompanhado pela defensoria pública?
Acho melhor que para ajudar à polícia do Meyer e Todos os Santos, todos nós negros do Rio de Janeiro façamos uma fila em frente à delegacia. Quem sabe assim eles acham um milhão de negros culpados por viverem nesta cidade do Apartheid?

“E o erro continua. A policia “investigou” e encontrou este suspeito – usuário de cocaína e morador de rua – que levou os agentes de segurança publica até seus objetos de uso pessoal.
Lá, os policiais “acharam” uma arma dentro de um tênis. O rapaz assumido usuário de drogas afirmou que a arma não era dele e que os policiais a plantaram.
Estes apresentaram o rapaz como o bandido-facínora-ladrão negro como o réu.
Só que um detalhe: sem reconhecimento da vítima e sem investigações apuradas sobre possíveis denúncias de pequenos furtos praticadas por ele na região, mas sem que houvesse registros infracionais sobre o rapaz.
A policia aposta que não haverá comoção por ser “mais um negro sem ‘pedigree’. Assim todos viveriam felizes para o todo sempre.
Fim”

O homem certo, no lugar certo para uma certa polícia. Vítima admite em depoimento que se enganou ao acusar ator de roubo, diz delegado.


Graças a ação dos amigos de Vinicius Romão este não foi mais um erro que caísse no esquecimento.
Para nós da Mamaterra, este caso que é uma sucessão de erros, equívocos e induções processuais, não é uma exceção. A única exceção é que este jovem negros tem amigos solidários, que passando por cima dos temores plausíveis da família do Vinícius, colocaram este esbulho policial nas redes sociais e chegou na grande imprensa.
Este é um caso exemplar de como a justiça brasileira tem um sistema de Apartheid.
Um detetive em sua hora de folga, sai em socorro de uma copeira que acabara de ser assaltada em R$ 10 e um Cartão Único. Em seu carro particular sai com a vítima abalada emocionalmente em busca do criminoso, que seria negro, com cabelos black power, bermudas vermelhas, sem camisa e de sandálias. O detetive aponta para o primeiro homem  negro vê, que vestia calças compridas e camiseta preta e pergunta a mulher vítma de assalto, ” é ele?”. Chorando ela confirma e já com apoio da PM que havia chamado. Imobiliza o rapaz que a partir daí inicia a sua caminhada pelo inferno da máquina discriminatória de negros e pobres que é o sistema policial e a justiça brasileira. Vivemo em um sistema de Apartheid na justiça brasileira.
Graças a ação dos amigos de Vinicius Romão este não foi mais um erro que caísse no esquecimento.
Para nós da Mamaterra, este caso que é uma sucessão de erros, equívocos e induções processuais, não é uma exceção. A única exceção é que este jovem negros tem amigos solidários, que passando por cima dos temores plausíveis da família do Vinícius, colocaram este esbulho policial nas redes sociais e chegou na grande imprensa.
Este é um caso exemplar de como a justiça brasileira tem um sistema de Apartheid.
Segundo relatos de Marcelo Chaves Lameirão à Radio Globo, o recado que Vinicius passou foi a de que “se ele fosse um homem branco, o delegado o teria escutado, e ele e sua família não estariam passando por essa situação humilhante e que fere sua alma. Mas que ele sabe que será solto e irá lutar para ajudar a que este tipo de situação não aconteça com ninguém mais em nosso país.”
Força Vinícius Romão! Estamos todos consigo! Marcos Romão
A Mamapress reproduz aqui a reportagem de Ana Carolina Torres e Marcos Nunes que acaba de ser publicada no Globo Extra.
Vinicius Romão tem a cor padrão dos suspeitos em nossas cidades. Prende-se primeiro e investiga-se depois. Esta é a praxe da polícia.
Vítima admite em depoimento que se enganou ao acusar ator de roubo, diz delegadoAna Carolina Torres e Marcos Nunes

O delegado Niandro Lima, titular da 25ª DP (Engenho Novo), disse que a mulher que acusava o ator Vinícius Romão de Souza, de 26 anos, prestou depoimento por mais de uma hora nesta terça-feira e admitiu ter se enganado no reconhecimento. O policial contou que informará o Tribunal de Justiça sobre o ocorrido.

– Isso pode ajudar a defesa dele a soltá-lo mais rapidamente. Além disso, entrarei com um pedido de habeas corpus em favor do Vinícius, com a cópia do depoimento anexada, pedindo que ele seja solto – disse o delegado.

Em seu depoimento, Dalva da Costa Santos disse que, assim que chegou em casa após registrar o roubo, no dia 10 deste mês, ficou “meditando” a respeito da negativa contundente de Vinícius em relação à autoria do crime. Ela disse que realmente ficou em dúvida e que, no dia seguinte de manhã, pensou em ir à delegacia para retirar queixa. Mas não o fez por não ter o dinheiro da passagem.

Vinícius foi acusado de assalto
Vinícius foi acusado de assalto Foto: / Reprodução do Facebook

Pai de Vinícius, o tenente-coronel da reserva do Exército Jair Romão de Souza, de 64 anos, comemorou a notícia. Segundo ele, foi a “melhor dos últimos tempos”.

– Estou felicíssimo! Você nem pode imaginar o quanto. Quero correr para dar um longo abraço nele. Foi um sofrimento muito grande tudo isso, principamente para ele. Está na capa dos jornais todos essa história, mas não me senti constrangido porque sabia que, mais cedo ou mais tarde, a verdade iria acontecer. Como diz o ditado: “Quando estiver em dúvida entre a mentira e a verdade, não fique com nenhum dos dois. Fique com o tempo, porque o tempo vai desfazer a mentira e trará à tona a verdade” – disse ele.

O pai do ator comemorou o novo depoimento da vítima do assalto, que inocenta o filho
O pai do ator comemorou o novo depoimento da vítima do assalto, que inocenta o filho Foto: Reprodução do Facebook

Cela dividida com outros 15

Vinícius está preso na Casa de Detenção Patrícia Acioli, em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio, acusado de roubar a bolsa da mulher. Ele divide a cela com outros 15 detentos. Segundo o advogado do jovem, Rubens Nogueira de Abreu, que o visitou na manhã desta terça-feira, o rapaz está tranquilo:

– Mas ele não está conformado com essa situação.

O ator está preso em São Gonçalo
O ator está preso em São Gonçalo Foto: / Reprodução do Facebook

O advogado contou que nesta terça foi chamado à direção da casa de detenção. Segundo ele, depois da repercussão do caso – Vinícius nega ter cometido o roubo do qual foi acusado -, o diretor da unidade ofereceu a transferência do ator – formado em Psicologia – para uma cela para presos de nível universitário. Vinícius, porém, negou.

– Ele contou que os outros detentos que estão com ele o respeitam – disse Nogueira.

Ele já entrou com um pedido de revogação da prisão. Segundo a assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça, o pedido já está nas mãos do juiz da 35ª Vara Criminal e pode ser apreciado a qualquer hora.

Leia mais: http://extra.globo.com/casos-de-policia/vitima-admite-em-depoimento-que-se-enganou-ao-acusar-ator-de-roubo-diz-delegado-11708247.html#ixzz2uMMlyo2m

140 tons de marrom e os “critérios técnicos” da escolha de autores brasileiros pela Funarte para irem à Feira de Livros em Frankfurt


Artigo de Michaela Metz para o jornal Süddeutsch Zeitung sobre racismo no Brasil. Traduzido Gilmar Jost e Marcos Romão.

Foram os próprios alemâes que levantaram a lebre ainda em agosto, sobre  o racismo embutido no critério de escolha dos escritores brasileiros que participam este ano da feira de Livros de Frankfurt.

Causou espanto a autora do artigo, o fato de somente 1 escritor negro e 1 escritor indígena estarem nesta lista. A autora foi fundo na pesquisa, e apresentou um quadro da realidade de discriminação racial no Brasil, publicado através do renomado Diário sueddeutscheZeitung.

Enquanto isto no Brasil a Ministra da Cultura Marta Suplicy  justifica que a escolha de 68 escritores brancos entre setenta notáveis, foi apenas um “critério técnico” e não um “critério étnico”.schwarzespoesie

Para o advogado Humberto Adami do “IARA’ em artigo publicado em seu blog, “a utilização do critério técnico apenas, é inconstitucional e ilegal. E dá margem a vexames internacionais, como dito. A utilização do conceito de ação afirmativa deve ser espraiado para todo staff da administração pública brasileira, através de parecer do Advogado Geral da União, o qual é vinculante e obrigatório, para que se evite que ministros da Presidente Dilma Roussef propiciem experiencias como a presente, que nos submetem ao encontro com a face mais evidente do racismo no Brasil, que tem sido motivo de denúncia do Movimento Negro brasileiro, e afronta aos Direitos Humanos.”

Em entrevista para o Globo, Marta Suplicy ,  demonstra uma completo desconhecimento da produção intelectual dos negros e indígenas no Brasil e sua penetração no mercado de livros europeu, ao afirmar que um dos critérios utilizados, “foi o da escolha de autores que tivessem livros traduzidos em língua estrangeira — disse Marta. —Toda lista tem sempre um recorte que provoca discussão. O Brasil vive um momento de transformação, o que vai permitir que, nas próximas gerações, tenhamos um número maior de negros participando. Hoje, infelizmente, não temos.”

Ainda no artigo publicado em seu blog, o advogado Humberto Adami, ressalta; “Uma rápida pesquisa na internet nos informa que em 2011, foi lançada, pela Fundação Biblioteca Nacional a coletânea Literatura e Afrodescendência no Brasil: Antologia Crítica, que reúne, em quatro volumes, textos de 100 escritores negros, do século 18 aos dias atuais (ver aqui). A Fundação Biblioteca Nacional também está sob comando da ministra Marta. Entre os autores há nomes como Machado de Assis, Cruz e Souza e Lima Barreto, e, entre os contemporâneos, Nei Lopes, Joel Rufino dos Santos e Muniz Sodré. Abdias Nascimento, Cidinha Sillva, Ana Maria Gonçalves, podem ser lembrados.  Achei ainda o nome de Conceição Evaristo, doutora em Literatura comparada, pela UFRJ, com obras publicadas no Estados Unidos. A ministra Marta pode ver aqui. Anos atrás, andando em Washington, trombei, estupefato, com uma exposição em homenagem à http://pt.wikipedia.org/wiki/Carolina_de_Jesus“. A ministra Marta Suplicy pode se informar sobre quem foi, e quantos livros publicou. Ou contratar uma assessoria mais eficiente.”

O internacionalmente renomado fotógrafo Januário Garcia,  nos lembra, que “Moema Parente Augel” da Universidades de Bielefeld na Alemanha, há muitos anos trabalha com a literatura afrobrasileira, inclusive tem vários livros de escritores negros brasileiros traduzido para o alemão.”  Mamapress lembra à assessoria de imprensa  da Ministra, que hoje dia existe um “robot” chamado “Google”, acessível até para as elites brancas do ministério da cultura onde se pode  pesquisar sobre a produção intelectual de outras etnias que não seja a eurodescendente brasileira.  Como poderia dizer Guerreiro Ramos, já está passando do “patológico” a cegueira branca cultural brasileira, que através da própria Ministra da Cultura, nos acena com uma espera de mais 125 anos, para irmos como intelectuais e escritores à Frankfurt. Que os assessores da ministra tomem conhecimento da “Amazon”, pois lá vão encontrar os negros e indígenas pelo mundo,  que eles não conseguem nem querem ver nem pintados no Brasil.

Fica para a ministra a pergunta do Advogado Humberto Adami em seu blog: ” porque  não usou a ação afirmativa para negros e índios, que o Supremo Tribunal Federal aprovou por 11 a 0?

Para a intelectual e ativista antirracista Elisa Larkin Nascmento:
Como ficou patente, somente Paulo Lins foi selecionado por sua obra ‘Cidade de Deus’. Lins não participa do conjunto de escritores negros contemporâneos que participam da chamada ‘ literatura de combate ‘. ´Sua obra, entretanto, é uma manifestação poderosa de ficção e aclamadíssimo pela crítica. Sem dúvida, não poderia ficar de fora de qualquer seleção. Porém, a falta de informação de setores do Minc, sobretudo pela Fundação Biblioteca Nacional, nos faz pensar  que o etnocentrismo orientou todo o processo de escolha de escritores e obras.” (a. Marcos Romão)

140 tons de marrom, por Michaela Metz

“O debate sobre o racismo na Brasil é obscurecido pela polidez e os estereótipos de uma alegria multicultural”
(Michaela Metz)favela-papst-rio-janeiro-brasilien

Se cor de café, bronzeado, meio branco, meio preto ou torrado – a cor da pele desempenha um papel enorme no Brasil. Mas o debate sobre o racismo no país é mascarada pela polidez e estereótipos de vitalidade multicultural. Este será também o caso em Frankfurt, onde o país se apresenta na Feira do Livro, em outubro.

Na Feira do Livro de Frankfurt setenta autores brasileiros são convidados deste ano, o que deve dar ao público alemão uma impressão do país anfitrião deste ano e de sua literatura. “A lista inclui representantes da cultura indígena, bem como descendentes de africanos e europeus”, disse Galeno Amorim, presidente do comitê organizador brasileiro.

À primeira vista, no entanto, é apenas uma parte da delegação autores afro brasileiro Paulo Lins, que cresceu na favela “Cidade de Deus”, no Rio de Janeiro, e tornou-se conhecido por seu best-seller “Cidade de Deus”. O livro gerou um filme que em 2004 foi nomeado para quatro Oscars. O único representante indígena do Brasil na Feira do Livro é o filósofo Daniel Costa Monteiro de Belém do Pará, no norte. Ele pertence à tribo dos Munduruku. Em 2004, ele foi agraciado com o grande prestígio no Brasil Prêmio Jabuti por seu livro “COISAS do Índio” (coisas do Indio).

Segregação e o ônus da colonial

Há no Brasil mais de 140 nomes diferentes para cores de pele, incluindo: cor de café, café com leite, canela, chocolate, galego, meio branco, meio marrom, meio-negro ou torrado. Muitos destes termos têm a intenção de dar a impressão de um pouco mais de cor branca à pele dos negros. Mesmo os brasileiros comuns tendem a classificar os seus conterrâneos negros mais próximos como sendo de pele mais clara – apenas por polidez. Porque a cor da pele não é, no Brasil, como nos Estados Unidos, caracterizada por etnia, mas por aparência.

Atrás da polidez, no entanto, se esconde uma realidade brutal. Jornalista e escritor Luiz Ruffato que vai fazer na Feira do Livro de Frankfurt, o discurso de abertura: “Temos no Brasil uma sociedade muito injusta onde  vivemos de forma segregacionista. Há índios e negros e há uma elite branca na sociedade sem qualquer responsabilidade para o país em que vive “. A sociedade brasileira ainda usa os critérios do período colonial, disse Ruffato.

Usamos o futebol como uma imagem apropriada. Por exemplo, na final da Copa das Confederações, no Estádio do Maracanã, o Brasil contra a Espanha no final de junho: “No topo da arquibancada os brancos e ricos sentaram-se para ver no campo, os negros jogarem, os negros suam para proporcionar um espetáculo para os brancos .. ”

Paulo Lins e Daniel Munduruku Portanto, estas são as chances de dois homens minorias? Nem um pouco. Embora os índios sejam apenas 0,4 por cento da população brasileira, porque desde o Século 16 sao massacrados sistematicamente. Os afro-brasileiros, no entanto, são a maioria no país. Com o último censo, em 2010, pela primeira vez derrubou o dinheiro. Dos quase 191 milhões de brasileiros são designados como 47,73 por cento brancos, 50,74 por cento, como preto ou marrom.

Os entrevistados tiveram que escolher entre cinco opções, branco, preto, marrom (pardo) decidir, amarelo e indígena. O termo “pardo” é a tentativa de encontrar um termo geral para as inúmeras tonalidades de cor da pele. Pardo também é “cinza, duvidoso.” “Pardo não é cor de pessoas, é uma cor de gatos ou papel de embrulho”, disse o historiador Wania Sant’Anna. Além disso, o movimento negro, rejeita a palavra pardo da categoria para tons de pele.

Branco primeiro a ser servido

Desde 1988, o racismo e a discriminação é um crime no Brasil. O cotidiano parece diferente. Advogados negros, jogadores de futebol ou políticos são regularmente inspecionados à mão armada pela polícia quando estão andando de carro. São barrados em edifícios de escritórios ou restaurantes (também por um porteiro preto). Os garçons servem primeiro o branco e, em seguida, o convidado de pele escura. Os modelos nas capas de revistas brasileiras são brancos, tão branco como Gisele Bundchen. Assim como as estrelas das novelas populares são loiras e brancas. Aos pretos são dados papéis mais leves, como empregadas domésticas, motorista ou pessoas do mal.

As teorias raciais cruéis com que as elites brancas no século 19 , planejaram o o reassentamento, a deportação, a esterilização eo extermínio dos negros, foram produtos originais da Europa.

Em resposta aos anos sombrios, “Casa Grande e Senzala” de Gilberto Freyre lancado em 1938,  como trabalho sociológico era considerada leitura básica sobre o mito da democracia racial no Brasil. Ele viu a colaboraçãoo de brancos, negros e índios como uma oportunidade para o Brasil, que deve ser baseada na coexistência harmoniosa de grupos étnicos. Hoje, suas teorias são criticadas, uma vez que esta suposta harmonia impediu um debate sobre o problema real.

Proibição de Carnaval para os negros

Getúlio Vargas, que governou o Brasil 1930-1945 como um ditador, precisava de um forte sentimento nacional em seu estado centralizado. Tão rapidamente quanto possível, procurou caracterizar uma identidade brasileira atrás deste país enorme. Neste momento, a cultura afro-brasileira com o seu samba, os desfiles de carnaval, a arte marcial Capoeira e a fé no Candomblé fé deram  identidade à nação brasileira.

O que hoje é considerado o epítome do Brasil, anteriormente era proibida sob punição. Capoeira e Candomblé era proibidos, seus mestres e  sacerdotes foram perseguidos, o carnaval era um tabu para os negros. Samba foi considerado como  “música negra” de incivilizados.

No entanto, a apropriação de sua cultura não protegeu afro-brasileiros ciontra a discriminação . Mesmo 125 anos após o fim da escravidão, “coloreds” e índios frequentam hoje piores escolas  do que as escolas frequentadas pelas criança branca, ganham menos, não podem pagar consultas médicas e morrem estatisticamente mais cedo. Muitas vezes através da violência policial.

Gilberto Carvalho, chefe do Gabinete Presidencial, em Brasília, recentemente reclamou: “A violência contra a juventude negra aumentou consideravelmente. É como um avião cair a cada semana com mais de três centenas de jovens do céu.”. Um total de quase 35.000 negros foram assassinados em 2010 no Brasil. Para efeito de comparação – nos Estados Unidos, cujos cidadãos não têm escrúpulos em lidar com armas de fogo, cerca de 13.000 pessoas morreram de forma violenta em 2010.

A única maneira de escapar a esta miséria é a educação. 15 por cento dos brancos conseguem um lugar em uma universidade estadual brasileira. No entanto, apenas cerca de cinco por cento dos afro-brasileiros conseguem o mesmo. Escolas públicas do Brasil são terríveis, quem não pode pagar uma escola privada está em desvantagem. Muitos abandonam a escola após quatro ou cinco anos.

“Belíndia” muitos brasileiros chamam seu país. Quem tem dinheiro e a cor da pele certa, vive uma vida de padrões Europeus. Todos os outros lutam com os problemas de um país em desenvolvimento, como a Índia. E o racismo não é apenas o dia-a-dia da vida no Brasil, ele é institucionalizada: Dos 513 deputados no Congresso Nacional brasileiro só 30 sao descritos como de pele escura.

No entanto, há sinais positivos: Um avanço foi a eleição do primeiro negro presidente Joaquim Barbosa do Supremo Tribunal Federal no Brasil no ano passado. Seu sucesso tem o poder simbólico. Presidente do Brasil Dilma Rousseff está planejando agora cotas, para pessoas negras e indígenas em cargos públicos. A receita para o sucesso é o programa “Bolsa Família”  criado pelo ex-presidente Lula da Silva, que está  no centro da sua política social. A bolsa apóia as famílias que mandam seus filhos regularmente para a escola e para vacinação.

Depois de uma mudança constitucional, em março, as empregadas, principalmente negras, que cuidam das famílias brancas o tempo todo, lavam e cuidam as crianças, têm os mesmos direitos dos demais trabalhadores. Até agora, os trabalhadores domésticos eram considerados como propriedade quase privada do empregador, sem direitos, e sempre disponível, alojados em uma câmara sem janelas ao lado da cozinha. Em debate no Senado, a importância desta nova lei foi comparado com a abolição da escravatura em 1888.

Quão mais bem sucedido seria o país maravilhoso se os negros, a maioria dos seus cidadãos, não fossem degradados como cidadãos de segunda classe?