Marina pode ser a primeira presidente negra. De cima do muro será que dá?


De cima do muro será que dá?
size_590_marina-silvaJosé De Andrade me alertou para esta matéria da Reuters publicada na revista Exame, falando da possibilidade de Marina Silva vir a ser a primeira presidente negra do Brasil. Mas pergunto, como o próprio jornalista comenta, como poderá ganhar boa parte deste votos de mais de 50% da população, se ela não toca na questão racial no Brasil?
Na matéria é citado um assessor, que relata este ser o maior mistério da campanha de Marina, não falar da questão racial.
Entre meus amigos do movimento negro, temos mesmo nos perguntado, se votar na Marina, por ela ser negra, não seria lhe dar um cheque me branco, já que ela não fala nem se posiciona sobre a questão, contrariando toda uma nova onda positiva na sociedade brasileira, em que não só os negros e os índios falam abertamente do racismo no Brasil e de como o racismo está entranhado nas relações institucionais, econômicas, políticas, culturais, religiosas e pessoais em nossa sociedade, como também a maioria dos jovens que foram às ruas com dezenas de reivindicações, mas que elevaram a um dos maiores símbolos deste movimento, a denúncia do racismo e violência que atinge as populações de periferia e que tiveram em Amarildo e seu desaparecimento, a sua bandeira maior.
Como já estamos calejados de vermos negros e negras, que ao assumirem uma posição de prominência na sociedade, evitam falar do racismo, e quando abrem a boca, é só para fazer calar os outros negros que se levantam contra o racismo, como o caso de Pelé em relação ao jogador Aranha. Eu e meus amigos ficamos com um pé atrás, pois não queremos que nossa juventude tenha que fazer de novo. todo o trabalho que tivemos nos últimos 40 anos, de convencimento da sociedade em levar em conta as questões raciais nas políticas públicas que sejam implementadas.
Falar só do social, já sabemos, não alcança nossas reivindicações, como nem passa perto de nossa premência principal, que é o fim do genocídio da juventude negra.
Talvez se Marina chegar ao segundo turno, o tema relações raciais e racismo no Brasil, saia da boca da candidata negra. Quem sabe?
Por enquanto é mistério.
Só não concordo com o título da matéria, que não reflete nem a profundidade do texto, nem o fato de muitos negros a apoiarem já de agora, mas que podem mudar no segundo turno, e muitos que não a apoiam, mas que também podem mudar de opinião, dependendo de como o tema das relações raciais e das conquistas já alcançadas pelos negros e negras sejam abordados.
Um fato que me dá otimismo, é que a juventude negra brasileira demonstra no momento uma maior consciência do racismo no Brasil, e também uma maior consciência negra de autoestima, se espalha por todos os segmentos negros nacionais, independentes de seus partidos, posição social, religião e grau de escolaridade e etc.
Sem ter nenhum instituto estatístico que corrobore minha opinião, arrisco a dizer que o voto negro, está cada vez mais desencabrestado. Que tanto Marina, como Dilma corram atrás. Os Gregórios Fortunatos são coisas do passado.‪#‎marcosromaoreflexoes

Leiam a matéria de Paulo Prada

São Paulo – Os brasileiros podem fazer história este mês caso Marina Silva (PSB), uma filha de seringueiros pobres da Amazônia, seja eleita a primeira presidente negra do país. Continuar lendo

Único Quilombo da Zona Sul do Rio recebe portaria do INCRA e celebra com a tradicional feijoada com pagode


por Caetano Manenti
Fonte  do “reblog” : Jornalismo em Pé

depoimento luiz“Um sorriso neeeegro

um abraço neeeegro

traaaaaz felicidade

Foi com o verso de Dona Ivone Lara na garganta e com um enorme sorriso negro no rosto que Luiz Sacopã descarregou tantas horas de emoções. Minutos antes, o líder da Família Pinto me admitia, num misto de sinceridade e galhofa, que passara a noite anterior com receio da plena resiliência de sua saúde. Afinal, tratava-se da véspera de um dia aguardado por ele há 72 anos — ou desde que nasceu, como o filho mais novo de Manoel Pinto Jr, o precursor desta longa história.

 Em 1929, cansado de perambular com sua mulher e seus filhos em busca de trabalho em fazendas do interior do Rio e de Minas, o lavrador Manoel chegou ao Rio de Janeiro, mais precisamente à região que fica na margem nordeste da Lagoa Rodrigo de Freitas. Deixara em Nova Friburgo sua mulher, Eva, que servia às famílias ricas da Serra.

Onde se estabeleceu na cidade do Rio, Manoel encontrou — em vez de um ambiente prestigiado e valorizado, como agora é o trecho que fica entre o bairros de Copacabana e do Humaitá — apenas poucas casas pequenas e muitos terrenos baldios. Foi a antropóloga Eliane Cantarino O’Dwyer, da Universidade Federal Fluminense, quem estudou a origem dos Pinto. Em seus trabalhos, ela relata que Manoel passou a trabalhar para a família Darke de Matos, dona de quase toda aquela área entre o Morro da Catacumba e a Fonte da Saudade. Primeiro, como faxineiro e jardineiro, depois, como guardião da mansão enquanto a matriarca Astréia viajava para Niterói ou para os Estados Unidos.

Com a valorização da área na década de 30, Astréia criou a Incorporadora Darke — certamente, para lucrar com a expansão imobiliária e construções de novas ruas. Foi neste contexto que, em 1939, Manoel passou a trabalhar na abertura da Ladeira Sacopã, um sinuoso caminho íngrime que escala o Morro da Saudade como uma serpente desde a rua Fonte da Saudade, principal do bairro à época.

Mais seguro com a situação no Rio, Manoel trouxe Eva e seus cinco filhos para perto de si. Descrita como mulher trabalhadora e agregadora, Eva ajudava no orçamento da casa com a venda de quentinhas para a multidão de operários que erguiam a emergente construção civil da região. Assim, estabeleceram morada no mesmo terreno onde, 75 anos depois, nesta terça-feira, 23 de setembro de 2014, seu filho Luiz cantava pagode e comia feijoada.

O casal Manoel Pinto e Eva Manoela da Cruz divide a moldura pregada à parede da cozinha do Quilombo Sacopã.

7 DÉCADAS E 5 ANOS DE INCERTEZAS

Não é uma linha reta, de paz e tranquilidade, que liga as obras da rua de 1939 ao pagodão de 2014. A história da família Pinto em um dos redutos mais grã-finos do Rio de Janeiro registra centenas de desvios e curvas tão imprevisíveis quanto as da própria Ladeira Sacopã. Logo nos primeiros anos no local, Manoel e Eva completaram com mais dois a prole de sete filhos. A maioria trabalhou desde jovem — com frequência, servindo às famílias ricas do bairro.

Três décadas se passaram, e os anos 70 trouxeram consigo as reais ameaças à família. A Prefeitura iniciou uma nova fase de urbanização na zona sul da cidade. Muitas favelas, como a da Catacumba, e famílias pobres sem registro adequado da terra onde moravam foram despejadas para a zona oeste da cidade, com a construção de conjuntos habitacionais da Cidade de Deus e da Vila Kennedy. Sem temperamento para enfrentamentos, era provável que o patriarca Manoel, ainda vivo, perdesse a propriedade onde crescera sua família.

Edifício Chácara Sacopã

Em 72, a ameaça ganhava concreto e massa corrida. O Edifício Chácara Sacopã fincou seus pilotis de sustentação dentro das terras ocupadas pela família pinto. Dois anos depois, mais disputa: subiu o muro de contenção do edifício Lagoa Azul, também dentro da área. E pior: a Prefeitura do Rio com auxílio da Polícia Militar iniciou um processo de desintrusão, nome que se dá a retirada de alguém que se apossou ilegalmente de uma propriedade.

Foi a senha para Manoel ceder aos apelos de seus filhos já adultos e ingressar na Justiça com uma longa ação de usucapião da área. O imbróglio passa então ao Judiciário, mas será através da música e da comida que a família Pinto vai conseguir fama e prestígio para montar sua fortaleza.

É aí que dois dos filhos de Manoel e Eva tornam-se os novos protagonistas desta trama. Maria Laudelina Freitas é o nome de batismo da falecida Tia Neném. O apelido virou lenda no número 250 da Ladeira Sacopã. Um imenso retrato dela serviu de moldura para a cerimônia desta semana.

Quilombolas dançam à frente do retrato de Tia Neném, falecida em 2006.

Tia Neném desde criança queria ser cantora. A beleza de sua voz é lembrada com a mesma nostalgia da sua capacidade de luta. Ao contrário da amiga Elza Soares, Tia Neném não seguiu carreira profissionalmente. Dona Eva, sua mãe, não gostava da ideia. Neném virou, então, cabeleireira e ainda ajudava Dona Eva na cozinha da pensão, que seguia fundamental para o balanço da família, produzindo quentinhas para alimentar os operários de uma segunda leva de urbanização no bairro. Porém, mesmo se dividindo entre as panelas e as tesouras, Neném nunca se afastou do microfone, do samba, do pagode e, consequentemente, das feijoadas.

Já era década de 80 quando Tia Neném, com apoio de seu irmão mais festeiro, o também músico Luiz, escreveu o capítulo que pode ser considerado o mais importante para a resistência da família no local até hoje. Neném e Luiz lançaram o espaço “Só na lenha Pagode”. O Samba da Sacopã virou febre entre artistas e descolados da zona sul do Rio de Janeiro. Em seu auge, entre 1983 e 1986, chegavam a ser comercializados por noite, 100 caixas de cerveja e 1.200 caldinhos de feijão, numa festa que ia até às 5h da manhã do dia seguinte. Naquela época, o Pagode recebia até 350 pessoas, o que requeria quase 32 pessoas trabalhando, contando a família e os músicos. As informações são de outro estudo importante desta história, umadissertação de pós-graduação da advogada Patrícia Mendonça de Castro Maia.

Quase trinta anos depois José Cláudio, filho de Tia Neném, ex-jogador de futebol do São Cristóvão, tem certeza que o decreto do INCRA tem, em seu DNA, o som do pandeiro e a beleza das artes.

— A arte sempre foi um momento mágico para a nossa sobrevivência aqui. Minha mãe deixou a bagagem da arte. A arte é atípica. E o nosso resultado de hoje é da arte, é atípico. Se fosse pelo poderio econômico, a gente não conseguiria. Se não fosse a abertura da arte, a possibilidade de receber as pessoas, a gente não chegaria até aqui. O encontro deixou isso aqui mais forte. Depois vieram os intelectuais, professores da UFF, da UFRJ e da PUC. (José Cláudio Freitas, filho da Tia Neném)

NEM TUDO É FESTA NO PAGODE DO QUILOMBO

Se a confusão do repique e do tantã — aromatizada pela linguicinha e pelo paio — criava amizades dentro da propriedade, fora dela, o clima com a vizinhança só piorava. O desassossego criou fortes inimizades na ladeira. É o que revela outro símbolo importante da família Sacopã, Bráulio Nazaré, ex-remador da seleção brasileira, morador do local há 58 anos, do tempo em que “nem havia o Túnel Rebouças e que a Lagoa chegava até a Fonte da saudade”.Bráulio é considerado da família Pinto, mas é descendente natural de uma família ainda mais antiga na região. Nesta terça, Bráulio, que só consegue andar com auxílio de muletas, não cabia de felicidade em seu corpo forte de ex-atleta. Me aproximei dele após ouvi-lo gritar: “A família Sacopã é foda!!”

— Peço desculpas por essa primeira impressão. Mas minha família está aqui há 105 anos. Tentaram tirar a gente daqui inúmeras vezes.

— Quem tentou?

— Tem um condomínio aqui em cima chamado Chácara. Tem um outro prédio chamado 110 — esse grande aqui, que é feito dentro do nosso território. Tem um prédio chamado 250 e tem um senhor ali que é desembargador que é o calo do nosso pé. Ele é um racista e é doido para tirar a gente daqui.

Bráulio se referia ao desembargador Antonio Eduardo Duarte. Foi com surpresa que Antonio Eduardo atendeu a minha ligação telefônica nesta quarta-feira. Perguntei se ele sabia do que havia se passado na tarde anterior ao lado de seu apartamento, uma ruidosa festa de celebração de todo o movimento negro fluminense.

— Não… Passei o dia hospitalizado, cheguei agora há pouco. Diarréia…

— Queria saber sua posição sobre o decreto do INCRA.

— Não posso. Me retirei do caso porque meu condomínio é parte.

— E como vizinho? Gostaria de falar o que pensa?

— Não, não gostaria.

O tom lacônico do desembargador ao telefone até poderia ser decorrência do problema estomacal, mas, certamente, indicava muito mais. Indicava a perda — pelo menos momentânea — de uma antiga queda de braço entre o desembargador e os quilombolas.

Durante os anos 90 e a primeira década deste século, a brisa gostosa sob a sombra da Mata Atlântica preservada deu lugar ao medo sempre iminente da expulsão. O problema com a vizinhança — que reclamava do barulho e da atividade comercial na área — tornou-se também uma disputa com a Prefeitura. Tudo porque, influenciado pelas diretriz da ECO 92, o prefeito Marcelo Allencar criou, naquele mesmo ano, uma Área de Proteção Ambiental no Morro da Saudade. Agora a propriedade da família Pinto sera parte do Parque Municipal José Guilherme Merchior — até hoje, o parque é desconhecido dos cariocas, com pouca ou nenhuma iniciativa de visitação turística.

Arte sobre foto contida nadissertação da advogada Patrícia Mendonça de Castro Maia.

Arte sobre foto contida nadissertação da advogada Patrícia Mendonça de Castro Maia.

Agora dentro de um parque, a utilização da propriedade se restringia cada vez mais. Um mandado judicial de 1996 determinou a remoção das ferramentas da oficina de automóveis que funcionava então no local, dos
instrumentos musicais e da cozinha industrial. Até mesmo os portões do espaço foram lacrados. Alegando que as casas dos Pinto eram construções irregulares em uma área de proteção ambiental, um decreto municipal decidia pela demolição das casas.

Recorrendo sempre a instâncias superiores, a família Pinto brigou no Tribunal de Justiça do Rio e até mesmo no Supremo Tribunal Federal. Nesta jornada inglória, tinham sempre embaixo do braço o artigo 68 da Constituição de 1988. Agora, o texto serve como boas-vindas à propriedade.

Em 2002, a família Pinto venceu disputa por usucapião da propriedade. Em 2003, no entanto, o TJ/RJ reverteu a decisão. Ainda neste mesmo ano, operde-e-ganha teve um novo capítulo fundamental. Logo em seu primeiro ano como presidente, Lula regulamentou, através do decreto 4887, o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades de quilombos.

Um dos passos essenciais deste procedimento era a certidão de autorreconhecimento quilombola. No começo do novo século, a família Pinto tinha orgulho (e também interesse) na afirmação de sua história, inclusive daquelas partes onde seus antepassados eram cativos, mas nem sempre foi esse sentimento que vigorou por ali. De acordo com o que Luiz — agora conhecido como Luiz Sacopã — disse para a antopóloga O’Dwyer, seus pais, Manoel e Eva, não gostavam nem mesmo de tocar no assuntoescravidão. Nascido na propriedade, Luiz descobria o passado de seus avós apenas através de conversas roubadas por detrás da porta. Talvez por isso, não se saiba ao certo quem foi o último escravo da família Pinto. Manoel, pelo menos formalmente, não foi, afinal, nascera em 1900. Provavelmente, os pais de Manoel e Eva nasceram sob a égide da Lei do Ventre Livre.

Em 2005, a família recebeu da Fundação Cultural Palmares o título decomunidade quilombola. Ainda falta, porém, a titulação definitiva da terra. O tão sonhado documento só poderia chegar após a publicação de uma outra portaria do INCRA, que assegurava como propriedade da Família Pinto uma área de 6,4 mil metros quadrados.

Foi esse documento do INCRA que o servidor Richard Torsiano trouxe debaixo de sua axila esquerda nesta terça-feira.

Richard, diretor de Ordenamento da Estrutura Fundiária do INCRA, usou seu sotaque de Penápolis, no interior de São Paulo, para explicar por que estava com os olhos tão brilhantes naquela ensolarada tarde.

— Não há como não se emocionar com essa celebração que se faz hoje. Todo o cidadão brasileiro — estando ou não no serviço público — que conheça minimamente sua história tem que reconhecer o valor do seu povo. O povo negro, para mim, é quem deveria ter sido mais valorizado por sua história, porque foi nas costas do povo negro que esse país se desenvolveu. (Richard Torsiano, diretor de Ordenamento da Estrutura Fundiária do INCRA)

Ele não perdeu o tom histórico da sua fala nem mesmo ao explicar toda a dificuldade que ainda a família Pinto deve enfrentar para receber a posse definitiva da terra.

— Nós precisamos avançar para a regularização fundiária efetiva, através de uma articulação com a Prefeitura e com a Câmara de Vereadores, porque aqui ainda é um parque. Neste parque, nós vamos ter que operar um processo de desafetação para titulação definitiva da comunidade. (Richard Torsiano, diretor de Ordenamento da Estrutura Fundiária do INCRA)

Trocando em miúdos: a família ainda não tem a posse do terreno, mas agora tem um sentimento assossegado de que não será retirada dali. Um reversão da situação, num país como o Brasil, nunca pode ser descartada, mas é profundamente improvável.

A festa para celebrar o momento não foi modesta, mais de 300 pessoas apareceram, embora sem presença da imprensa comercial. Todo o Movimento Negro foi chamado. Representantes de mais de 20 comunidades quilombolas do interior do Estado participaram. Era uma tarde histórica para aquelas pessoas. Nas palavras de Bráulio, “o dia mais feliz” da vida dele. Na cerimônia de entrega do documento, as falas eram interrompidas com ruidosos aplausos ou ainda com saudações de origem africana. O dono da festa, Luiz Sacopã, se manteve saudável e emocionou a todos com o seu discurso.

É um prazer enorme recebê-los aqui neste momento em que o impossível acontece. Eu me lembro que, há aproximadamente dois anos, nós estávamos sendo aqui acorrentados por uma iniciativa judicial. Ficamos dentro do nosso quilombo durante dez dias, cerceados de nosso direito de ir e vir. Jamais poderia passar pela cabeça de todo esse povo quilombola que hoje nós estaríamos aqui para celebrar esse grande feito que, simplesmente, significa uma vitória do fraco contra o forte. Mesmo com a força da especulação imobiliária, com seu poderio econômico, com seu tráfico de influências e maracutaias junto à ala podre do Judiciário, eles perderam.

— Hoje, meu povo, emocionadamente, eu posso dizer: aqui eu nasci, aqui eu criei e aqui eu morrerei! Obrigado!

(Luiz Sacopã, líder do Quilombo Sacopã)

Richard, do INCRA, encerrou os discursos, antes de entregar a Luiz Sacopã a cópia da página 73 da terceira seção do Diário Oficial da União do dia anterior. Grafado com caneta marca-texto estava um parágrafo, que “reconhece e declara como terras da Comunidade Remanescente de Quilombolas do Sacopã (família Pinto) a área de 0,6404 hectare, situada no município do Rio de Janeiro.”

Já era perto das 14h30. Não havia mais como segurar, o povo negro e os não-negros que também lutam pelo povo negro queriam comemorar. Impedidos pela justiça de promover pagode sob aquelas telhas de amianto desde 2011, a Comunidade Sacopã matava a saudade do jongo, das danças africanas e, especialmente, do pagode e da feijoada.

A feijoda do Sacopã é cozinhada no forno à lenha.

Os Filhos de Gandhi celebraram com os quilombolas.

Emocionado, LUIZ SACOPÃ cantou sambas e pagodes clássicos e também apresentou os sambas escritos por ele para o seu bloco de carnaval.

MAYUMI SONE é presidente do Instituto de Terras e Cartografia do Estado do Rio e foi celebrada como peça fundamental da luta dos povos quilombolas no Rio de Janeiro.

IVONETE SILVA DE MENDONÇA, presidente do Conselho de Entidades Negras do Interior do Estado do Rio de Janeiro, destacou a luta dos não-negros na causa negra.

LUIZ SACOPÃ recebeu das mãos do diretor de Ordenamento da Estrutura Fundiária do INCRA, RICHARD TORSIANO, a cópia do Diário Oficial da União de 22/09/201

A risonha Dona Uia, quilombola de Búzios.

— Para mim, hoje é um dia feliz. Saber que é mais um passo que estamos dando. Estamos sendo mais reconhecidos e estamos perto da titulação. Eu sou de Búzios e vim de Búzios para ajudar. Para a gente, é uma alegria muito grande, hahahaha!

— Qual o seu nome?

— Me chamam de Uia, mas meu nome mesmo é muito feio: A-ri-val-di-na! Mas como? Eu não sei o porquê! Então já cresci com o nome de Uia! Hahahaha!

A feijoada estava deliciosa, mesmo que não tenha caído muito bem na barriga do repórter.

— Vem, vem para a foto! Só as princesas quilombolas!

“Neste momento, não tenho nem explicação para poder expressar o que estamos sentindo. Eu acho que a gente só vai mesmo se situar amanhã ou depois, quando olhar pro Cristo e pensar: “nós estamos aqui, estávamos e vamos estar”.
(JORGE ANTÔNIO MONTEIRO, morador da localidade há 60 anos, um dos responsáveis pelo feijão)

Filipão pisa na bola e banaliza racismo no futebol.


Questionado sobre a importância da discussão do racismo no futebol, o treinador Luiz Felipe Scolari, deixou claro que o melhor caminho é ignorar as pessoas que praticam atos preconceituosos no esporte.”Deixem esse assunto para lá, daqui a pouco todos esquecem e estas pessoas voltam para o cantinho delas”, completou.
Januário Garcia, ativista negro e lutador contra o racismo há mais de 40 anos, comentou indignado com o “fairplay” de Filipão em relação ao racismo nos estádios:
“A COISA TÁ PRETA, QUE JUDIAÇÃO, são expressões racistas ditas diariamente que atingem negros e judeus. O racismo no Brasil é explicito contra negros e judeus, como pode o técnico da seleção brasileira se expressar dessa forma como se isso fosse uma coisa menor, ” Não deveríamos nem debater isso. Não adianta punir, a solução é ignorar deixem esse assunto para lá, daqui a pouco todos esquecem e estas pessoas voltam para o cantinho delas”. Há anos negros lutam para que a escravidão seja um crime de lesa humanidade, e o judeus a cada dia reafirmam a tragédia do holocausto crimes cometidos exatamente por causa do racismo, chega Felipão e pede para deixar pra lá.”
Hoje me baixou o astral completamente quando meu amigo Januário Garcia me mandou pelo Facebook, este comentário do Filipãop. Estou até com dor de cabeça.
Filipão nos revelou finalmente, como funciona a máquina racista de aniquilamento da consciência de homem livres, perpetrada contra os negros jogadores de futebol do Brasil
Nunca tive em minha vida esta sensação de impotência em minha luta contra o racismo e pela educação de todo o povo brasileiro para eliminar este sistema, que eliminou os povos indígenas quase à extinção, sequestrou, escravizou povos negros e nos mantém a todos hoje em cheque e segregados.
Sempre acreditei que um dia iria ajudar a sociedade branca brasileira, a compreender que cada negro ou indígena discriminado, impedido de entrar em algum lugar ou eliminado é uma perda para a humanidade de cada branco do Brasil. Isto conta do branco mais pobre ao branco mais rico do país.
Cada Indígena ou Negro que tenha possibilidade de exercer a sua liberdade e tenha acesso a um mínimo de base econômica para mantê-la, carrega nas costas para o progresso, pelo menos 5 brancos.
Tanto faz nas favelas, nas restingas ou nos entornos das aldeias, cada índio ou negro que produza a sua cultura enriquece o país, mas, da simples chefia de bloco carnavalesco de lata até a chefia da Funai, quem leva o ouro e os louros são os brancos.
Nos discriminar é matar a galinha dos ovos de ouro!
Hoje de tarde me baixou o astral total, quando juntei no meu pensamento o que o Filipão falou sobre o racismo e sobre como se deu nos últimos 50 anos a destruição da consciência de si e do racismo em volta, que os jogadores como o Tinga o Pelé, manifestam ou deixam de manifestar no Brasil.
A Escola em que o Filipão aperfeiçoou a sua forma de deixar prá lá o racismo tem sistema, vem de longe. Para pessoas assim, quem joga e trás uma dinheirama desgramada, os jogadores negros não passam de “macaquinhos” de circo que podem ser humilhados, ofendidos e cuspidos, pois ao fim da apresentação trazem os bonés cheios de moedas. São  escravizados de luxo na sociedade racista moderna.
Não me lembro de Técnicos de Seleção Brasileira que fossem negros, só tem “bonna” gente que acha que racismo é moda passageira.
Preciso juntar minhas energias, para começar tudo do zero nesta Copa do Apartheid Ideológico!
http://copadomundo.uol.com.br/noticias/redacao/2014/03/08/e-uma-bobagem-diz-felipao-sobre-discutir-racismo-no-futebol.htm
Neymar e sua casca de banana

Neymar e sua casca de banana

É no Brasil. Árbitro de futebol é chamado de macaco e tem seu carro quebrado por torcedores racistas.


O silêncio e o isolamento dos negros no Brasil precisa acabar.
Me pergunto sempre que mecanismo é esse que impede a um negro buscar outros negros para lutar junto, que faz com que os negros silenciem e só quando pensa em seus filhos abre a boca e chora diante da imprensa?
É, o isolamento dos negros no Brasil tá matando mais por dentro do que o próprio racismo.
Parabéns árbitro Marcio Chagas da Silva por abrir a boca. Estamos aqui para apoiá-lo.
Vamos ver se a Presidenta e as autoridades brasileiras, vão se importar em coibir os racistas nacionais!
Vamos ver o que o Tinga tem a falar agora!( Marcos Romão)
Jones Lopes da Silva

Ao chegar em casa em Porto Alegre após o jogo da noite em Bento Gonçalves, o árbitro Márcio Chagas da Silva encontrou a mulher, Aline, dormindo. Estava sob forte efeito das agressões racistas sofridas no estádio horas antes na Serra. Ofensas do tipo “macaco safado” e “volta para a selva, negro” que ouvira na partida não lhe saíam da cabeça. Queria desabafar, mas não acordaria a mulher no início da madrugada. Foi ao quarto do filho, Miguel, de 10 meses, que também dormia, e decidiu: não se calaria diante da humilhação.

Foto: Diego Vara

Foto: Diego Vara

Lembrou que há quase 10 anos, em 2005, sofrera os mesmos xingamentos em jogo do Encantado contra o Caxias, no Estádio Centenário. Na época, o técnico Danilo Mior, do Encantado, o chamou de “negrão coitado”. Márcio relatou em súmula e Danilo acabou suspenso por 60 dias pelo tribunal da Federação Gaúcha de Futebol (FGF). Zero Hora contou a história daquela agressão. Márcio comentou:

– Esses casos acontecem sempre na Serra. É muito difícil trabalhar lá.

Agora, o árbitro volta a sentir a revolta. Passado tanto tempo, continua a suportar o estigma de ser árbitro negro no interior gaúcho.

– Pensei: não quero que meu filho sofra o mesmo daqui a 10 anos – murmurou o árbitro.

Foi para o notebook, queria redigir a súmula e, com tanta revolta, não sabia por onde começar. Iniciou a redação e resolveu transformá-la em e-mail, que enviou como um desabafo a amigos. A súmula faria depois.

Diz assim a mensagem, escrita na madrugada:

“Ontem à noite (quarta-feira) fui recebido de forma hostil, algo que não é novidade, mas também com insultos racistas desde a entrada em campo (…). Fui chamado por parte de torcedores do Esportivo com as seguintes palavras: “Macaco safado ladrão, volta para selva negro imundo”. Além destes elogios todos, meu carro foi amassado a pontapés nas portas e arranhado com algum objeto contundente, sendo que colocaram bananas por cima do carro e no cano de escapamento (…) Fica o triste registro do ocorrido! Márcio Chagas.”

Ontem, Márcio Chagas de novo se emocionou ao lembrar de Miguel dormindo.

– Eu pensei em parar de apitar – disse ele. – Qual o mundo que o meu filho vai encontrar?  – Não sou eu o errado. Decidi desabafar, é a melhor forma de ajudar Miguel.

Reveja a reportagem sobre racismo publicada por ZH em 2005:

 racismo

A cor padrão de Vinicius Romão. Até prova em contrário, fora da telinha todo negro é ladrão.


COR PADRÃO.
É bom que se dê divulgação jornalística sobre os casos de reconhecimento nas delegacias de polícia ou mesmo na área judicial, que não atendam o mínimo da lógica – seja por “capricho” em não admitir erros em o ato de prender ou no caso do judiciário pra não perder tempo com o grande número de processos e detalhes que podem prejudicar o andamento do dia, digamos assim ,ou seja, fator de extrema importância é o aponte de qual roupa a pessoa vestia, se possuía algum sinal na face que recordava.
É também FUNDAMENTAL colocar outra pessoa junto àquele que está sendo acusado pra efeito de reconhecimento visual pra ver se de fato há dúvidas por parte de quem acusa…
Outra situação é até que ponto a vítima tem condições de reconhecer quando alterado seu sistema emocional a tal ponto ou seja pode ser como ventila-se INDUZIDA NAQUELE ESTADO ou mesmo ainda, que na dúvida venha a reconhecer equivocadamente, gerando desgraça pra todo e qualquer acusado injustamente… por isso, DETALHES SÃO FUNDAMENTAIS PRA AUTORIDADE POLICIAL (OU JUDICIAL) NO ATO E A PRISÃO DEVE SER EXCEÇÃO E NÃO REGRA, NOS CASOS DE CONFUSÃO OU POSSIBILIDADE DE ERRO – NOS RECONHECIMENTOS EM GERAL—NA COR “PADRÃO”… Advogado Tito Mineiro

vinicius romao 1

EXIGIMOS A LIBERDADE DE VINICIUS ROMÃO IMEDIATAMENTE

por Francisco Chaves, Marcelo Chaves, Tito Mineiro e Marcos Romão

Esse é o Vinicius Romão, 26 anos, psicólogo, ator e que atualmente trabalha nas lojas Toulon, no Norte Shopping.

Segunda-feira, dia 17 de fevereiro, como fazia diariamente ao sair do trabalho às 22 horas, vinha pela rua Amaro Cavalcante, quando foi abordado por uma viatura do 3° Batalhão da PMERJo:

Os “policiais militares” arrogantemente mandaram ele parar,e se deitar de bruços , apontaram a pistola para sua cabeça, e o prenderam sem nenhuma prova, apenas a acusação de uma mulher em prantos, que estava perto do local, a acusar um negro de cabelo “black”, de bermudas e sem camisa, de tê-la agredido e roubado seus pertences.

Os policiais encaminharam o rapaz para a 25ª DP, onde foi feito um novo “reconhecimento” pela suposta vítima, que trabalha de copeira no Hospital Pasteur. Esse confronto entre “supostos” acusado e vítima, foi feito sem nenhum critério técnico policial, realizado apenas na base do “cara a cara”, para não dizer imposto.

Vinicius foi imediatamente encarcerado, e posteriormente levado para a casa de detenção Patrícia Acioli, em São Gonçalo, na Região Metropolitana de São Gonçalo. Ele está sem poder receber visitas, e sem nenhuma possibilidade de defesa, pois pode ser transferido a qualquer momento para outros presídios do Estado.

Câmeras dos prédios nas proximidades do pseudo assalto, mostram que o ladrão era outro, de bermudas e sem camisa, enquanto Romão vestia uma calça e camisa pretas. Na verdade esse crime contra o direito de ir e vir e da defesa dos direitos que é imputado ao jovem psicólogo; nada mais é do que um caso público de racismo, pois ele estava àquela hora, só, e por ser negro foi acusado e preso por esse detalhe étnico.

Queremos que Vinicius possa imediatamente receber visitas e que seja posto em liberdade já! para que se possa punir essas negligentes e preconceituosos policiais por racismo, calúnia e difamação.

A Rede Rádio Mamaterra e o nosso Blog mamapress.org, tem alertado aos pais e mães de jovens de sucesso com caraterísticas físicas “não brancas”, sobre o aumento o racismo nas cidades. Orientem seus filhos a só andarem à noite prestando mais atenção à polícia do que aos assaltantes. Desliguem o Walktalk para ficarem atentos e se acaso perceberem que serão abordados plea polícia, procurem ficar em frente à prédios iluminados e com porteiros, assim será mais difícil darem um bote ilegal.
Façam também uma cópia desta orientação jurídica abaixo e repassem para seus filhos negros, pois por acharem que tem bom empregos e estarem bem vestido e próximos às suas casas, estaria livres de ações racistas institucionais e acabam literalmente “dançando”:
“quando um cidadão é preso em flagrante – o flagrante deve ser imediatamente comunicado ao Juizo no prazo máximo de 24 horas… ainda que seja sábado , pois, existem juízes de plantão. 
Desde a voz de prisão já são franqueadas ao preso o uso de telefone pra contacto com pessoa que deseja falar. 
Nota de Culpa – o motivo pelo qual ele está sendo detido , etc… esses detalhes nem sempre são respeitados na íntegra – daí o defensor do caso pode requerer desde o relaxamento da prisão, Liberdade provisória ou propor desde logo o HC – Habeas-Corpus.

sos vinicius

Igualdade Racial como tática de luta contra o racismo – resposta a Yedo Ferreira


Edson França e Marcelo Dias

Muitas vezes quando um matemático foge do campo da lógica e utiliza a História (como ciência) para fundamentar e exemplificar seu argumento é desastre na certa, pois invariavelmente não tem método ou não acumulou mérito para tal. É chocante, senão revoltante ler uma narrativa histórica – cujo principal personagem foi uma pessoa negra – que infantiliza dirigentes políticos de processos revolucionários que marcaram a história do negro na humanidade. Parece coisa de branco racista, pois expressa uma concordância com aqueles que advogam a inferioridade da raça negra.

Não profane a história e contribuição dos povos negros

Verificamos no texto “igualdade Racial – Tragédia e Farsa” uma profusão tão grande de erros na analise de processo histórico que nos leva a imaginar que ou o autor é rigorosamente limitado e inconsistente teoricamente, fez o que sabia fazer, ou subestimou as capacidades analíticas dos leitores. Estão longe de serem inocentes, boçais, confiarem nos agressores e serem iludidos lutadores como Patrice Lumumba – principal liderança na luta pela descolonização do Congo enfrentou o imperialismo e o saque de riquezas das grandes potências ocidentais, se alinhou com a antiga União Soviética e obteve apoio de nações e instituições anticoloniais. Lumumba e líderes africanos como Dedan Kimathi (Quênia), Modibo Keita (Mali), Murtala Mohamed (Nigéria), Amilcar Cabral (Guiné Bissau), Samora Machel (Moçambique), Eduardo Modlane (Moçambique), Thomas Sankara (Bokina Faso), Chris Hana (África do Sul), Stve Biko (África do Sul) pagaram com a vida a luta que conduziram contra o racismo e pela descolonização africana. Segundo Carlos Moore em A África que incomoda: “Entre 1957, data da independência do Gana, e 1987, data do assassinato do último dirigente declaradamente pan-africaista, Thomas Sakara, trinca e cinco dirigentes africanos nacionalistas e pan-africanistas foram assassinados” (grifo do autor), Moore cita entre as vítimas Patrice Lumumba. As potências colonialistas utilizaram todos os meios para impedir a autodeterminação dos povos africanos os homicídios das principais lideranças anticoloniais se constituem no processo de violência política mais grave dirigida contra nações, por isso consideramos uma desonestidade teórica atribuir inocência e credo no agressor a causa do assassinato de um líder que, no contexto da Guerra Fria, mobilizou a nação, angariou apoios, pegou em armas para libertar seu país.

Toussaint Loverture – de escravo a principal condutor da Revolução Haitiana, o mais bem sucedido levante escravo que a humanidade conheceu, enfrentou e derrotou o exército de Napoleão, na época o mais poderoso do mundo, até hoje o povo haitiano paga alto o peço pela ousadia de ter enfrentado e derrotado o colonialismo racista e escravocrata das potencias coloniais (França, Inglaterra e Espanha). A Revolução Haitiana é considerada um momento decisivo da história dos africanos nas Américas, mais ainda, a saga dos escravos, descalços, maltrapilhos, famintos e desarmados em combate heroico contra os mais poderosos exércitos coloniais do mundo, abriu os olhos das elites crioulas sobre a impotência das metrópoles coloniais em manter sob seu jugo as nações que se formavam em toda América. O Haiti inaugura um processo de independência que varreu todo o Novo Mundo. É inadmissível atribuir boçalidade a Toussaint Loverture principal protagonista desse processo.

Lucas Dantas, Manoel Faustino, Luiz Gonzaga e João de Deus – quatro negros revolucionários da Revolta de Búzios ou Conjuração Baiana, a mais consequente e popular revolta anticolonial e antiescravista do período de dominação portuguesa. Inspirados na revolução haitiana tinham em sua plataforma o fim da escravidão, igualdade social e igualdade civil. O tema da igualdade sempre questionou a opressão e a injustiça, bem como moveu ideários revolucionários. Os conjurados foram denunciados, aprisionados e enforcados em praça pública. Esse episódio simboliza mais um capítulo da sistemática reação negra contra a opressão do Estado escravista e colonizado. Não há negros inocentes e boçais em condução de processos de enfrentamento com o poder, todos os líderes de Búzios foram hábeis políticos, lideranças incontestes dos africanos e afro-baianos, enfrentaram, conduziram a heroica luta contra dominação escravocrata e colonial.

De modo que o texto “Igualdade Racial como Tragédia ou farsa” de Yedo Ferreira do ponto de vista histórico é uma vergonha! Puro diletantismo, que não leva a nada, utilizou exemplos inconsistentes, provocadores e divisionistas para questionar a estratégia que o movimento negro vem perseguindo. Não merece respeito e atenção porque deseduca, aliás, todos os que profanam a história do negro, dá juízo errôneo e impróprio sobre nosso passado, desrespeita a memória negra universal, dado o fato que idade não é passaporte para o bem ou para o mal, não sabemos se Yedo Ferreira erra por ignorância ou má fé, no entanto o erro merece nosso repúdio!

Diferença sim, desigualdade não!

A luta política sempre tem determinações dadas pela correlação de forças, pelos sujeitos envolvidos, pelos interesses em disputa, pela cultura, lugar e tempo históricos, conjuntura e outros elementos. De modo que não combatemos com as armas que desejamos e nem sempre numa batalha ganha atingimos 100% dos nossos objetivos. Devemos agir a partir de um cenário concreto, quando o idealismo dirige a tática e a estratégia tornamos agentes sem capacidade de atuar sobre os fatos e sujeitos disfuncionais para construção de projetos alternativos.
Diante disso, consideramos que o movimento negro está no caminho correto, embora haja poderosos obstáculos que precisamos superar. A busca pela igualdade (econômica, social, política, civil) entre os seres humanos continua sendo uma grande utopia, um ideário perseguido por povos, Estados e nações há várias gerações, nós negras e negros brasileiros, especialmente a militância, deve ter como perspectiva na luta para construção de uma nova sociedade a igualdade nos quatro planos acima descritos.

Diferença sim, desigualdade não! Por isso propomos políticas de igualdade racial como forma de combater o racismo, é uma estratégia circunscrita para conjuntura atual, tem caráter temporário, por que sabemos que não superaremos as enraizadas desigualdades sócios políticas e econômicas entre negros e brancos só no plano da política pública, será necessária a ascensão do negro ao poder. A política de igualdade racial representa uma tática diferente das perseguidas até então pelo movimento social negro, ao invés de focar na criminalização da prática do racismo, e aprisioná-lo no campo das relações interpessoais, ou seja, entre os indivíduos: o racista e sua vítima; intervimos nos resultados sociais, políticos e econômicos decorrentes do impacto do racismo, propondo medidas que promovam a população negra.

Através de sua negação lutamos contra a desigualdade, compreendemos como Clóvis Moura, que o racismo tem sentido político e ideológico, visa dominar povos, nações e classe social, vai para além do caráter etnicorracial, conforme Yedo Ferreira e seus asseclas defendem. Em última instância, a luta contra o racismo exige uma luta contra os que se beneficiam do trabalho, da mais valia produzida pela população negra, 50,6% dos brasileiros. Esse é o sentido que tem orientado a estratégia atual da maioria do movimento negro brasileiro e tem produzido resultados positivos, mais destacadamente, com a inclusão de negros nas universidades; proliferação de estruturas de igualdade racial em espaços da sociedade civil e governos; aperfeiçoamento da legislação de igualdade racial. Esses resultados somados não podem ser ignorados, se não tivermos capacidade de reconhecer os avanços e pactuar novas metas não sairemos do lugar. Não estamos entre aqueles que consideram que o movimento negro não avançou nos últimos dez anos, bem como não estamos entre aqueles que compreendem que a situação social, econômica e política da população negra está boa.

Respeito a diversidade e unidade na luta deve prevalecer

Compreendemos que os movimentos sociais e políticos não se constituem em espaços monolíticos, ao contrário, enriquecem com a diversidade de ideias – desde que não sejam antagônicas. Nosso desafio no movimento negro é construir unidade com diversidade e lutas comuns. No entanto, Yedo Ferreira aprisionado em tempo e espaço distintos, munido de narrativas equivocadas ou mal intencionadas, desprovido de uma compreensão mais profunda dos significados e sentidos que balizam a atual estratégia do movimento negro, se valendo de uma condição que ancestralmente respeitamos: a idade; prepara um texto confuso, ofensivo a duas lideranças negras e com claro objetivo de impor uma polêmica artificial, que só serve ao seu ego.

Atacar de forma pessoal a nós militantes de décadas do movimento negro e militantes históricos de nossos partidos é uma tentativa de atacar todos os negros e negras do PT e do PCdo B e isto repudiamos com toda a nossa força. Somos contra o canibalismo político que tanto encanta nosso detrator.

Este senhor há muito tempo se coloca contra as políticas de ações afirmativas, contrapondo-as a luta por REPARAÇÃO, equívoco grave e primário, pois elas podem se constituírem em medidas reparatórias.

Este senhor encara a militância branca de esquerda, socialista, revolucionária, humanitária como adversária ou inimiga do movimento negro, ainda que a história de todas as lutas da diáspora africana e dos povos africanos contaram com aliança de brancos que se contrapuseram a dominação racial e de classe. Por isso, a consideramos aliadas fundamental para a luta contra o RACISMO, POR AÇÕES AFIRMATIVAS E POR REPARAÇÕES. Subscrevemos a assertiva de Solano Trindade: “Negros opressores em qualquer parte do mundo não são meus irmãos”.

Assinam

Edson França
Presidente Nacional da União de Negros Pela Igualdade – UNEGRO
Diretor de Cultura da União das Escolas de Samba Paulistana – UESP

Marcelo Dias
Presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB/RJ
Militante do Movimento Negro Unificado / MNU/RJ

How Argentina ‘Eliminated’ Africans From Its History And Conscience


By Palash Ghosh | June 04 2013 5:48 AM

Tens of millions of black Africans were forcibly removed from their homelands from the 16th century to the 19th century to toil on the plantations and farms of the New World. This so-called “Middle Passage” accounted for one of the greatest forced migrations of people in human history, as well as one of the greatest tragedies the world has ever witnessed.

Millions of these helpless Africans washed ashore in Brazil — indeed, in the present-day, roughly one-half of the Brazilian population trace their lineage directly to Africa. African culture has imbued Brazil permanently and profoundly, in terms of music, dance, food and in many other tangible ways.

But what about Brazil’s neighbor, Argentina? Hundreds of thousands of Africans were brought there as well – yet, the black presence in Argentina has virtually vanished from the country’s records and consciousness.

According to historical accounts, Africans first arrived in Argentina in the late 16th century in the region now called the Rio de la Plata, which includes Buenos Aires, primarily to work in agriculture and as domestic servants. By the late 18th century and early 19th century, black Africans were numerous in parts of Argentina, accounting for up to half the population in some provinces, including Santiago del Estero, Catamarca, Salta and Córdoba.

Statue of  "The Slave", by Francisco Cafferata in Buenos Aires, Argentina
http://usslave.blogspot.com
Statue of “The Slave”, by Francisco Cafferata in Buenos Aires, Argentina

In Buenos Aires, neighborhoods like Monserrat and San Telmo housed many black slaves, some of whom were engaged in craft-making for their masters. Indeed, blacks accounted for an estimated one-third of the city’s population, according to surveys taken in the early  1800s.

Slavery was officially abolished in 1813, but the practice remained in place until about 1853. Ironically, at about this time, the black population of Argentina began to plunge.

Historians generally attribute two major factors to this sudden “mass disappearance” of black Africans from the country – the deadly war against Paraguay from 1865-1870 (in which thousands of blacks fought on the frontlines for the Argentine military) as well as various other wars; and the onset of yellow fever in Buenos Aires in 1871.

The heavy casualties suffered by black Argentines in military combat created a huge gender gap among the African population – a circumstance that appears to have led black women to mate with whites, further diluting the black population. Many other black Argentines fled to neighboring Brazil and Uruguay, which were viewed as somewhat more hospitable to them.

Others claim something more nefarious at work.

It has been alleged that the president of Argentina from 1868 to 1874, Domingo Faustino Sarmiento, sought to wipe out blacks from the country in a policy of covert genocide through extremely repressive policies (including possibly the forced recruitment of Africans into the army and by forcing blacks to remain in neighborhoods where disease would decimate them in the absence of adequate health care).

Tellingly, Sarmiento wrote in his diary in 1848: “In the United States… 4 million are black, and within 20 years will be 8 [million]…. What is [to be] done with such blacks, hated by the white race? Slavery is a parasite that the vegetation of English colonization has left attached to leafy tree of freedom.”

By 1895, there were reportedly so few blacks left in Argentina that the government did not even bother registering African-descended people in the national census.

The CIA World Factbook currently notes that Argentina is 97 percent white (primarily comprising people descended from Spanish and Italian immigrants), thereby making it the “whitest” nation in Latin America.

But blacks did not really vanish from Argentina – despite attempts by the government to eliminate them (partially by encouraging large-scale immigration in the late 19th and 20th century from Europe and the Near East). Rather, they remain a hidden and forgotten part of Argentine society.

Hisham Aidi, a lecturer at Columbia University’s School of International and Public Affairs, wrote on Planete Afrique that in the 1950s, when the black American entertainer Josephine Baker arrived in Argentina, she asked the mixed-race minister of public health, Ramon Carilio: “Where are the Negroes?” In response, Carilio joked: “There are only two — you and I.”

As in virtually all Latin American societies where blacks mixed with whites and with local Indians, the question of race is extremely complex and contentious.

“People of mixed ancestry are often not considered ‘black’ in Argentina, historically, because having black ancestry was not considered proper,” said Alejandro Frigerio, an anthropologist at the Universidad Catolica de Buenos Aires, according to Planete Afrique.

“Today the term ‘negro’ is used loosely on anyone with slightly darker skin, but they can be descendants of indigenous Indians [or] Middle Eastern immigrants.”

AfricaVive, a black empowerment group founded in Buenos Aires in the late 1990s, claimed that there are 1 million Argentines of black African descent in the country (out of a total population of about 41 million). A report in the Washington Post even suggested that 10 percent of Buenos Aires’ population may have African blood (even if they are classified as “whites” by the census).

“People for years have accepted the idea that there are no black people in Argentina,” Miriam Gomes, a professor of literature at the University of Buenos Aires, who is part black herself, told the Post.

“Even the schoolbooks here accepted this as a fact. But where did that leave me?”

She also explained that almost no one in Argentina with black blood in their veins will admit to it.

“Without a doubt, racial prejudice is great in this society, and people want to believe that they are white,” she said. “Here, if someone has one drop of white blood, they call themselves white.”

Gomes also told the San Francisco Chronicle that after many decades of white immigration into Argentina, people with African blood have been able to blend in and conceal their origins.

“Argentina’s history books have been partly responsible for misinformation regarding Africans in Argentine society,” she said. “Argentines say there are no blacks here. If you’re looking for traditional African people with very black skin, you won’t find it. African people in Argentina are of mixed heritage.”

Ironically, Argentina’s most famous cultural gift to the world – the tango – came from the African influence.

“The first paintings of people dancing the tango are of people of African descent,” Gomes added.

On a broader scale, the “elimination” of blacks from the country’s history and consciousness reflected the long-cherished desire of successive Argentine governments to imagine the country as an “all-white” extension of Western Europe in Latin America.

“There is a silence about the participation of Afro-Argentines in the history and building of Argentina, a silence about the enslavement and poverty,” said Paula Brufman, an Argentine law student and researcher, according to Planete Afrique.

“The denial and disdain for the Afro community shows the racism of an elite that sees Africans as undeveloped and uncivilized.”

http://www.ibtimes.com/blackout-how-argentina-eliminated-africans-its-history-conscience-1289381#