NÃO SOU ESCRAVO NEM SENHOR! MEU DEUS, MEU DEUS, ESTÁ EXTINTA A ESCRAVIDÃO?


por Marcos Romão

A PARAÍSO DO TUIUTI, ME e NOS DEU UM PRESENTE DE CONSCIÊNCIA NO MEU PRIMEIRO ANIVERSÁRIO DE TRANSPLANTE DE FÍGADO.

São em momentos de passagem em nossas vidas, como nascimento, primeira trepada e um bom carnaval, que damos uma parada para refletir:

Vemos  um mundo novo e damos uma parada em nossas vidas, preocupados em contar pros mais novos, que sempre tem surpresas e novas vidas, quando você acredita nos outros e na humanidade.
Quando entrei para a mesa de operação para trocar o meu centro de armazenamentos de dores e felicidades, que é meu fígado alma, deixei com minha família até as senhas de minhas memórias gravadas.

Entrava na mesa de operações, com uma dorzinha de corno em pensar que se não voltasse, não poderia contar mais sobre as esperanças transformações, produzidas no Brasil pela minha geração de negras e negros da resistência, cultural, política, econômica e religiosa, que ajudamos a preservar e transformar.

Mera megalomania de agonizante eram estes sentimentos egoístas que eu tivera.

Minha geração de negros e negras, pouco escrevia, ou melhor escrevia na vida os passos a serem dados. Escrevíamos no silêncio das invernadas, favelas, exílios internos e prisões as transformações, que queríamos e viríamos fazer acontecer no Brasil, campeão mundial da escravidão e da falta de memória de nossas elites.

Nenhum conhecimento não compartilhado existe. Este é o mal da esquerda e da direita brancas brasileira, que produz nas faculdades e parlamentos, uma história que não é a história de nosso povo que construiu o Brasil.

Chorei de cabo a rabo assistindo em minha sala de casa, a Escola de Samba Paraíso do Tuiuti, autodenominada em sua favela como ‘Quilombo do Tuiuti.”.
Assisti a uma verdadeira aula magna dada pelo enredo da Escola da favela, que enrolou as línguas dos comentadores da TV OFICIAL DO ESTADO RACISTA BRASILEIRO, que não sabiam o que falar, abestalhados que ficaram, diante de tão didática e pedagógica forma em mostrar a realidade da escravidão do Brasil colonial de outrora, até o Brasil vampiresco e neoliberal de agora.

Em um Brasil com uma esquerda de pijama atordoada e, uma direita que age como matilha de hienas, roendo os ossos de nossa gente. É uma dádiva assistir meu povo contar a sua própria história de resistência e superação do racismo e dominação agônica, que só sobreviveverá enquanto houver inconscientes marionetes que o sustentem.

Flavia Oliveira 1

Foto Flávia Oliveira

A velha máxima dos Griots funcionou:

Flavia Oliveira 6

Foto Flávia Oliveira

“Fale enquanto puder, transmita seu conhecimento, não guarde a liberdade para si”.

Assim acontece desde que os primeiros negros e negras foram sequestrados para o Brasil.

O que vi hoje, sei que assisti ao lado de Maria Batriz Nascimento, Neuza Santos, Lélia Gonzalez, Abdias Nascimento, Neguinho do Samba do Olodum, Neuma e Cartola, Carlos Alberto Caó Oliveira, Aniceto do Império, Candeias, Clementina de Jesus, Hermógenes, Carlão do São Carlos, Marlene de Oliveira e tanta gente que se foi, mas nos deixou contada/cantada uma parte do que conheciam da história da escravidão negra do Brasil.

Escravidão que hoje não tem fronteiras e se espalha por todo o Brasil. 

As poucos direitos conquistados desde a abolição em 1888, tais com a Consolidação das Leis Trabalhistas e o reconhecimento do trabalho das empregadas domésticas através da Carteira de Trabalho, estão sendo destruídos pela elite paneleira e cruel.

“E assim quando a lei foi assinada
Uma lua atordoada assistiu fogos no céu
Áurea feito o ouro da bandeira
Fui rezar na cachoeira contra bondade cruel”.

Poesia é uma excelente arma contra o ressentimento que aprisiona a alma em mágoas.

Poesia é a ânima que transforma a raiva em resistência e muda a situação de escravidão em liberdade.

Assino embaixo no manifesto samba da Tuiuti

#marcosromaoreflexoes

PS: AO CONTRÁRIO DOS “BLOCOS CARIOCAS” DA ZONA SUL, A PARAÍSO DO TUIUTI TÊM PRETOS E PRETAS.

“Irmão de olho claro ou da Guiné
Qual será o seu valor? Pobre artigo de mercado
Senhor, eu não tenho a sua fé e nem tenho a sua cor
Tenho sangue avermelhado
O mesmo que escorre da ferida
Mostra que a vida se lamenta por nós dois
Mas falta em seu peito um coração
Ao me dar a escravidão e um prato de feijão com arroz

Eu fui mandiga, cambinda, haussá
Fui um Rei Egbá preso na corrente
Sofri nos braços de um capataz
Morri nos canaviais onde se plantava gente

Ê Calunga, ê! Ê Calunga!
Preto velho me contou, preto velho me contou
Onde mora a senhora liberdade
Não tem ferro nem feitor

Amparo do Rosário ao negro Benedito
Um grito feito pele do tambor
Deu no noticiário, com lágrimas escrito
Um rito, uma luta, um homem de cor

E assim quando a lei foi assinada
Uma lua atordoada assistiu fogos no céu
Áurea feito o ouro da bandeira
Fui rezar na cachoeira contra bondade cruel

Meu Deus! Meu Deus!
Seu eu chorar não leve a mal
Pela luz do candeeiro
Liberte o cativeiro social

Não sou escravo de nenhum senhor
Meu Paraíso é meu bastião
Meu Tuiuti o quilombo da favela
É sentinela da libertação.”

Que sempre cantem nossos Tuiutis!
Olhem aí Flávia Oliveira e Luciana Barreto e Ricardo Romao, a “ESCOLA DO POVO” ESTÁ NO AR!
CONTINUEMOS TODAS BOTANDO A BOCA NO TROMBONE!

3 pensamentos sobre “NÃO SOU ESCRAVO NEM SENHOR! MEU DEUS, MEU DEUS, ESTÁ EXTINTA A ESCRAVIDÃO?

  1. Realmente, meu caro Romão, foi uma aula magna! Que coisa mais linda ver aquela ópera negra na avenida! Não só o Brasil, mas o mundo inteiro viu e comentou. Alma lavada é a grande resposta.

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