A invisibilidade da “voz” negra na crise brasileira.


marcha negra de 1988

marcha negra de 1988

por Marcos Romão

Fecham hospitais?

A maioria atingida é a população negra.

Fecham escolas?

A maioria atingida são as escolas de maioria negra.

Fecham as fábricas e empresas?

A primeira parte atingida nas demissões é a parte negra da classe trabalhadora.

Tem protestos?

O que se vê nas fotos é a população negra sindicalizada, estudantil, marginalizada e sem receber salários e tratamento de saúde adequados, levando bombas de gás e balas de borracha e de aço.

E quem nos representa a nós populações negras nestes protestos? Quem aparece na imprensa defendendo a luta negra em todas as frentes?
Quem é que fala para a sociedade em nosso nome, e explica  que “questões de segurança” para nós, são questões de acessos à saúde, educação e principalmente aos meios de comunicação, para dizermos que as soluções de segurança apresentadas tem um perspectiva branca, colonial e opressora, que mantém toda a população negra sob um regime de insegurança, em que o terror de estado representados por suas polícias, recai diretamente sobre os bairros de maioria de população negra? Quem é que fala por nós negras e negros?

De negras e negros ninguém.

Apesar de nós negras e negros, estarmos em todas as frentes de luta contra os males causados por más políticas, que levaram o estado â falência econômica, moral e ética, as negras e os negros que lá estão no meio do burburinho, não tem onde assinar o “ponto negro” de presença. Estamos invisíveis e guetizados de representatividade até nos movimentos sociais.

Por cegueira ou oportunismo dos brancos e muita omissão nossa, viramos apenas azeitonas pretas nos pastéis da lideranças do movimentos sociais, que se promovem e se elegem com os votos de nossos mortos. Sim porque preto morto é bom e dá voto tanto para a direita quanto para a esquerda, mesmo que defendam interesses diferentes e não os coloco no mesmo saco.

Está na hora também de falarmos enquanto coletividade negra para as lideranças dos movimentos sociais que estamos aqui, sabemos o que queremos e que nos respeitem.

Cansei de ouvir relatos, de negras e negros que protestam nas ruas, que cada vez que vão para as ruas, aparecem logo ongs e “comandos” partidarizados brancos ou pretos, querendo assumir a direção da ação, botando suas bandeiras nas mãos e botons nos peitos dos negros e negras. além de quererem dar lições e determinar quem fala ao microfone.

Estou cansado de ouvir negras e negras que protestam e que tem que implorar espaço para que as famílias negras que tiveram seus filhos assassinados, possam falar por si mesmas nos palcos dedicados às lutas pelos direitos humanos.

Exigimos respeito, compadres!

Amarildo sumiu?

Cláudia Silva Ferreira foi executada através de tiro e arrastamento pelas ruas puxada por um camburão?

Roberto Silva de Souza, de 16 anos, Wilton Esteves Domingos Júnior, de 20 anos, Carlos Eduardo Silva de Souza, de 16 anos, Wesley Castro Rodrigues, de 25 anos e Cleiton Correa de Souza, 18 anos, foram executados pela PM com 111 tiros?

A sociedade brasileira e mundo se chocaram e se indignaram com estas mortes, que representam apenas a ponta do iceberg de um genocídio da população negra e principalmente de  jovens, que terá repercussão nos futuro dos índices demográficos da população negra brasileira, pois quem cuidará nas velhice das mães e pais que ficaram órfãos de seus filhos?

Mas quem falou nestas tragédias em nome de nós, as negras e  os negros do Rio de Janeiro?

Ninguém. Nenhuma negra ou negro falou em nosso nome, que tenha tido repercussão estadual,  nacional e internacional  e, que demonstrassem que nós podemos falar por nós mesmos.

Não é que nós negras e negros não estejamos protestando, não me entendam mal. Saiba quando abrimos a boca

Grupos e coletivos negros foram na Rocinha apoiar a família de Amarildo.

Grupos e coletivos negros e a velha guarda negra,subiram o morro da Congonhas em solidariedade à família de Cláudia da Silva Ferreira.

Com algumas e alguns militantes negras e negros da velha guarda, centenas de jovens de coletivos negros do Hip Hop, do samba e das artes negras, encheram as ruas de Madureira e também foram ao Palácio Guanabara protestar contra o morticínio.

Manifestação de protesto no Palácio Guanabara contra a execução de 5 jovens negros em Costa Barros-foto Jose Andrade

Manifestação de protesto no Palácio Guanabara contra a execução de 5 jovens negros em Costa Barros-foto Jose Andrade

Mas o que aparece na imprensa?

O que aparece são setores de partidos e Ongs brancas nacionais e internacionais, que prestam sua solidariedade para a população negra, mas que vão além do que lhes diz respeito e literalmente abusam ao falar por nós, pois ainda não estamos presos!

Não nos consultam até porque ou não nos acham, ou não nos dão importância, ou por que acham que estamos órfãos de representatividade, ou que  nós mesmos nos fazemos de bobos e nos permitimos ser massa de manobra. Inocentes prá lá de inuteis.

A iniciativa do Conselho de Defesa do Negro, Cedine, em conversar diretamente com o “Chefe de Estado” do RJ, na última segunda-feira, 21 de dezembro,  é ainda consultiva, vamos tateando e nos afirmando para nos fazermos respeitados tanto pelo governo, como também pelo movimento social, que pensa que está na casa do Pai João. Saiba mais

O Conselho de Defesa do Negro do Estado do Rio de Janeiro-Cedine- ao fazer 15 anos de existência, só terá visibilidade e força própria e independente se a coletividade negra lhe der sustentação, assim como também se os organismos de representação, formados por negros e negras no governo, tomarem consciência que estão ai para darem apoio à coletividade negra e não para calá-las por interesses partidários.

Uma ação coletiva só acontecerá quando cada um tiver consciência do seu papel e agir de forma democrática, transparente, sinergética e compartilhada para barrar o racismo e estancar o sangramento de nosso povo negro.

 

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Mãe haitiana aguarda decisão da justiça para retomar guarda da filha, tomada por casal com posses financeiras.


Recebemos da advogada Silvana Lazzaroto, apoiadora da causa da mãe haitiana, que teve sua filha levada por uma família brasileira com melhores condições financeiras no Rio Grande do Sul.

por Silvana Lazzaroto

Aconteceu a audiência as 17. horas com término as 19:40 horas. Em função do “segredo de justiça” não se pode revelar maiores detalhes, apenas que:

a defesa da mãe haitiana, manteve-se firme comprovando que a mãe nunca abandonou a criança e que foi vítima de violência o que a fez se distanciar da filha.

Bem como, decisão preliminar da justiça. A parte contrária se utilizou de argumentos alegando melhor condições financeiras.

Para a defesa, o sentimento e a relação de mãe para filha está acima de qualquer situação financeira, e quem é mãe sabe disso, admitir tal possibilidade é deixar de lado valores como moral e aqueles sentimentos mais fundamentais que balizam o bom relacionamento humano, como o relacionamento afetivo entre pais e filhos… “admitir tal intento seria vergonhoso e desumano”.

Continuamos nossa luta em defesa da condição de extrangeiro, do direito de ser e exercer o direito de ser mãe, de ser negra e ser mais humilde !!!!!!!!!

A magistrada determinou alguns procedimentos processuais para futuramente proferir sentença. Grata

saiba mais sobre o caso

Hoje acordei com vontade de gritar: SOU NEGRA!!! Eu sou a prova!


por Mirian França
mirian refeita 2Hoje acordei com vontade de gritar: SOU NEGRA!!!
Filha de uma negra solteira, pobre, costureira aposentada, que jogou uma negra doutora na cara da sociedade. Uma negra que estuda e trabalha pra caralho pra garantir o direito de ser livre e viver como quiser.
Essa sou eu, MIRIAN FRANÇA, a negra encarcerada no Ceará em Dezembro de 2014 por suspeita de assassinar uma turista italiana.
Graça aos amigos e a população, a policia foi obrigada a me libertar do meu cárcere. Cárcere sim! Pois se tratando de uma prisão sem fundamentos, trata-se de uma prisão ilegal. Cometida por uma polícia despreparada e racista, que insiste em enxergar o negro como culpado mesmo quando não existem provas, evidência, motivação ou testemunha. Que insiste em dizer que têm “CONVICÇÃO” de que somos culpados mesmo quando não há nenhuma prova da nossa culpa. Se tratando dos negros a polícia se esquece do nosso direito básico de que somos inocentes até que ELES provem o contrário, não somos nós que precisamos provar nossa inocência.
Aos 31 anos descobri o que é ser negra de verdade.
mirian refeitaSer negra é ser chamada de estranha quando você sai de férias e passa o dia na beira da piscina lendo, porque uma negra gostar de ler “é muito contraditório, provavelmente está forjando um álibi”.
Ser negra é ser questionada sobre como teria dinheiro para tirar férias no Ceará (um estado do MEU país, onde apenas turistas estrangeiros parecem ser bem vindos).
Ser negra é ter a obrigação de andar com um macho a tira colo; não poder viajar sozinha; não ter o direito de trepar com quem quiser, sem ser chamada de puta (alias, essa é a sina de todas nós mulheres).
Ser negra é ter medo de parir uma criança que já nasce como um alvo para o genocídio. Que precisa ser preparado pra violência policial, pra chacota na escola, no teatro, na vida toda.
O RACISMO no Brasil É UM CRIME PERFEITO. É o crime sem corpo, sem prova, sem testemunha. Mas é nítido quando a polícia tem “convicção de que você é culpado”, apenas com base no seu “comportamento suspeito” (Gostar de ler? Gostar de escutar musica? Gostar da introspecção? Gostar de viajar? Ser solteira?).
mirian refeita 3Não precisa chamar o negro de macaco pra ser racista não. Basta abrir os olhos e ver quem é preso por engano, basta ver quem precisa provar a inocência (quando a lei é clara que se é inocente até que se prove o contrario). Quem é assassinado nos autos de resistência nunca é um branco. Eu nunca soube de um branco preso em manifesto por portar uma garrafa de desinfetante (Daniel Braga). E nem uma branca ser arrastada por viatura policial (Claudia Ferreira).
Eu sou a prova viva de que a redução da maior idade no Brasil é pretexto pra prender criança negra. Sou prova viva de que pena de morte no Brasil é consentimento jurídico para o Estado assassinar mais negros. Eu sou a prova de que pra policia brasileira a culpa tem cor.

Saiba mais sobre o caso

Denúncia Anônima e Vazia leva trabalhador negro do Grajaú para a prisão em Bangu 10.


Gustavo Nunes Guedes e sua esposa, são os únicos camelôs negros na praça Edmundo Rego, no bairro do Grajaú. Rio de Janeiro.

Com sua barraca de venda de bolsas conseguiu criar sua filha, Caroline Guedes, que formada em história, hoje faz mestrado e já viajou por vários países.

Gustavo Nunes Guedes , negro ,camelô , marido e pai trabalha desde os 11 anos de idade. Gustavo foi preso dia 4/9/2014 acusado de roubar um carro em 2011.

Gustavo foi acusado por uma mulher que mora no mesmo bairro. Foi acordado as 5:30h da madrugada e teve anunciada pelos policiais a ordem de prisão. Gustavo, o negro ,camelô e pai de família foi levado à delegacia, onde foi encaminhado ao presídio de Bangu 10.

O jovem Vinícius Romão, que se tornou tristemente famoso ao ser vítima de policiais racistas, que o encarceram por 16 dias sob falsa acusação de assalto, é amigo de Caroline Guedes , filha de Gustavo, Caroline lhe relatou o ocorrido com o pai, ressaltando que por serem a única família negra a ter um stand de vendas na praça, não eram aceitos por certo vizinhos.

Vinícius entrou em contato com a Comissão de Igualdade Racial da OAB-RJ, que marcou uma reunião com Caroline Guedes para acertarem uma visita ao Sr. Gustavo Nune Guedes no Presídio Bangu 10.

Assim relatou à Mamapress o presidente  da CIR-OAB, Marcelo dias, o encontro ocorrido:

“após ouvirmos , eu e a nossa vice presidente Dra Sandra Machado , o relato emocionado da jovem Caroline , marcamos uma visita ao Sr Gustavo em Bangu 10.
Ao estarmos indo embora , chega uma mensagem no celular do Vinícius, informando que foi concedida a liberdade do pai de Caroline após cinco ou seis longos dias.
Caroline não aguentou a emoção , desmaiando na sala de reunião.

 Marcelo Dias acrescenta:

 ” O racismo não dá trégua, nos cabe reagir à violência racial. A comunidade negra e seus aliados , aqueles que não são negros , mas lutam contra o Racismo precisam cada vez mais se levantar e dizer basta ao racismo e ao extermínio da população negra.
Alguns acham que a punição ao Grêmio foi desproporcional ao ato repugnante de parte da sua torcida.
Não foi.
A justiça precisa agir para deter o ódio racial que cresce em nosso país.
Como prender por seis dias um ser humano , um trabalhador que tem residência fixa , trabalho fixo em razão de uma simples denúncia ?
Racismo é Crime.
Reaja à Violência Racial.”

OPINIÃO DA MAMAPRESS

A rapidez da resposta ajuda sempre.
A Comissão de Igualdade Racial da-OAB Rj tem sido uma prancha de salvação para as vítimas de racismo em todo o Estado do Rio. Mas sei que são poucos e que fazem das tripas coração para atenderem os casos de racismo.
Tá na hora da turma da reclamação no facebook arregaçar as mangas e fazer trabalho voluntário junto a CIR-OAB e também criar grupos de voluntários para combater o racismo em todos os municípios.
Não são só advogados que se precisa para estes casos, mas de psicólogos, assistentes sociais e principalmente ativistas contra o racismo. para irem com as vítimas nas delegacias e acompanharem os casos.
Todos podem aprender a entrar com um pedido de Habeas Corpus. A RedeSOS Racismo Brasil propõe à CIR-OAB-RJ, desde já um encontro de treinamento para agir em casos emergenciais, para todas e todos que desejem mais do que reclamar contra o racismo.
O amigo Vinícius Romão é um bom exemplo de como uma vítima bem defendida, acompanhada e orientada, pode se transformar em um ativista solidário com outras vítimas do racismo.
Caros Marcelo Dias, Sandra Machado e Da Silva Tito Da Silva, vocês devem estar tão cansados feito eu, de ouvirem no facebook a frase—Cadê o Movimento Negro?— num chororô constante da turma das arquibancadas online.
Sempre respondo, Movimento Negro é e está onde um negro ou um antirracista se levanta.
Movimento negro contra o racismo é quando uma pessoa de qualquer cor se levanta e não aceita mais a violência racista que vitima alguém ao seu lado.
Movimento Negro não é um departamento do estado com sala e água gelada, Movimento Negro é você, sou eu, somos nós que andam de cabeça erguidas nas ruas do racismo brasileiro!

Para Frei David com a saída do Ministro Barbosa, os protestos, as revoltas irão crescer mais. Os políticos e os magistrados precisam refundar o Brasil.


por Frei davida

Joaquim-BarbosaA Família EDUCAFRO agradece ao Ministro Joaquim Barbosa pelos excelentes serviços prestados à nação.

 

Ser autoridade do Judiciário e ter postura isenta custa caro a qualquer cidadão corajoso e o nosso irmão NEGRO, Joaquim Barbosa, não quis continuar pagando este alto preço, prejudicando sua vida e sua saúde.

 

Ele foi ao limite de doação pela ética na Política e na Justiça! Cabe a nós sociedade dar continuidade!

 

Com a saída do Ministro, os protestos, as revoltas irão crescer mais ainda, especialmente se os políticos e os Magistrados não refundarem urgentemente o BRASIL. Temos que sair de uma nação afundada em corrupção e favores. O povo brasileiro acreditou muito em mudanças e não merece ser decepcionado. Queremos urgente reforma politica e na justiça!

 

Joaquim foi uma das poucas autoridades que o povo sentia nos seus olhos o desejo de mudança sincera, sem estar preocupado em agradar à direita ou à esquerda.

Barbosa revelou que sempre votou no PT para a Presidência. A perseguição que o PT fez às Instituições, combatendo e dando outras interpretações às corajosas posições dele, enfraqueceu as Instituições, especialmente o STF.

Um país só será forte quando suas Instituições são respeitadas e por isto, fortes.

IGUALDADE RACIAL COMO TRAGEDIA OU FARSA.


Igualdade Racial – Tragédia e Farsa

Yedo Ferreira

Janeiro 2014

Yedo Ferreira

Yedo Ferreira

Quando pretos (?) dos partidos de esquerda, em particular o Partido dos Trabalhadores e o Partido Comunista do Brasil apoiam ostensivamente pretos como Marcelo Dias (PT) e Edson França (PC do B) na ação que fazem para impor a todo custo o mito da igualdade racial como objetivo a ser alcançado pelos negros do Brasil, sem sombra de dúvida que não há como uma militância negra histórica se manter em silencio diante desta farsa inominável.

A igualdade em política, ou seja, a igualdade como qualidade de mesma condição e habilidade no trato das relações humana com vista a obtenção de um resultado desejado, é a rigor, palavra qualificada positivamente e usada por pessoa determinada em contextos diferenciados.

Neste sentido tem-se a palavra igualdade usada de forma positiva como igualdade de direito, igualdade de oportunidade e outras formas de igualdade. Porém, quando igualdade é usada em política como relação entre pessoas com predomínio da condição étnica, “racial” ou religiosa, o resultado quase sempre é uma tragédia para aqueles que acreditam nesta relação de igualdade. A condição humana mantém uma certa igualdade entre pessoas, mas as condições; étnica, “racial”, religiosa e mesmo nacional, são determinantes na manutenção da desigualdade entre elas.

Na história da humanidade o número dos que acreditaram em igualdade entre pessoas é grande e os trágicos resultados para as pessoas que colocaram fé nesta forma de igualdade também não é um numero pequeno. O mais trágico porém, é que o erro de um, nunca serve de exemplo a não ser seguido, palo outro.

Ao ser empossado como Primeiro Ministro do Governo da República do Congo (antigo Congo Belga), Patrice Lumumba, no seu discurso da Independência da colônia belga, proferiu as seguintes palavras de um crente na igualdade entre as pessoas: “Rejeitamos a política de dominação e optamos pela cooperação numa base de IGUALDADE, no respeito mútuo a soberania de cada Estado”.

Acreditar numa relação de igualdade como base da cooperação e colaboração entre negros colonizados da África e brancos colonialistas da Europa, custou a Patrice Lumumba a sua vida, morreu assassinado pelos antigos colonizadores em quem acreditava se relacionar no mesmo patamar de igualdade.

A caminho do cadafalso, líderes negros da Inconfidência Baiana ou Revolta dos Búzios, ocorrida no ano de 1793, em Salvador, na Bahia, com certeza haviam de ter como último pensamento, que vão pagar na forca com suas vidas por terem um dia acreditado na igualdade que os brancos, simpatizantes da Igualdade, Liberdade e Fraternidade, lema da Revolução Francesa, de 1789, propagavam entre os negros para contar com a participação dos mesmos na luta que diziam querer fazer contra o governo colonial português instalado na Bahia.

Anos mais tarde, em abril de 1803, agora numa prisão na França de Napoleão Bonaparte, o líder da Independência do Haiti – primeira e única revolta de escravos africanos vitoriosa nas Américas – Toussaint 1. Ouverture, debilitado pelas péssimas condições do cárceres e nos seus últimos dias de vida, deve ter pensado na sua fidelidade a França da igualdade e liberdade e por ter acreditado no Governo da Revolução que reconheceu no espírito da igualdade entre nações “irmãs”, a Independência do Haiti.

Ao serem informados do falecimento do Toussaint na prisão dos franceses, seus antigos companheiros de liderança na Revolta do Haiti, Dessaline e Moise, com certeza devem ter pensado no alto preço que Toussaint pagou por acreditar na igualdade entre as pessoas do Governo da França e na liberdade dos oprimidos da revolução francesa.

Um caso marcante de igualdade entre pessoas onde predominou posições ideológicas nacional e “racial” entre as pessoas envolvidas como determinantes nas condições de trabalho das mesmas aconteceu no México, na região de Cananea, no ano de 1906.

Em julho de 1906, operários da mineradora Cananea Cooper Company, do norte americano, William Greene, cruzaram os braços e iniciaram um movimento de greve. O motivo era Greene que decidiu contratar mineiros norte americanos com salários infinitamente maiores dos que ele pagava aos outros mineiros, entre eles muitos antilhanos procedestes das possessões inglesas e francesas que tinham abolido o trabalho escravo, além do beneficio de jornada de 8 horas de trabalho diário que apenas os mineiros norte americanos usufruíam.

A principal reivindicação era: Igualdade de tratamento entre os mineiros e substituição dos capatazes norte americanos, brancos é obvio, que maltratavam apenas os mineiros não brancos.

No primeiro dia de greve houve confronto grave entre mineiros do México e norte americanos, resultando na morte de dez mineiros, entre eles nenhum era norte americano.

No segundo dia de greve, numa forma explícita de afirmação de que a divisão entre os mineiros era “racial” com verniz de ser nacional: mexicanos contra norte americanos – o internacionalismo proletário não se fez presente – chegou a região de Cananea, 275 fuzileiros do Fort Huachuca (Arizona/EUA), sob o comando do coronel Rining, em apoio aos mineiros norte americanos.

A repressão foi brutal e resultou em mais 30 mineiros assassinados – nenhum norte americano – com a prisão e condenação sumária dos líderes da greve a 15 anos de reclusão na temível prisão de San Juan de Ulúa.

Enfim, 40 mortos e reclusão dos líderes da revolta, o saldo da greve de reivindicação por igualdade de tratamento no trabalho entre mineiros negros e brancos.

Assim negros (as) do PT e do PC do B que se deixam influenciar pelo branco do partido para fazer ações por igualdade racial, ignoram ou nenhuma importância dão fatos que a História registrou, uma vez que fatos históricos como os acima citados têm que ser olhados como exemplos trágicos do passado que não podem (nem devem) ser repetidos. Levantar bandeira de pró igualdade racial é um erro que cometem: Marcelo Dias (PT) com “igualdade racial é pra valer” e Edson França (PCdoB) com “…planos de igualdade racial com metas qualitativas…”

Em vista de que Marcelo Dias e Edson França se dizem marxistas não é demais lembrá-los de Karl Marx, “de que a história não se repete, mas sim fatos históricos por ventura semelhantes”, acrescentando “que podem se repetir como farsa ou tragédia”. Na conclusão de Marx, se um determinado fato histórico se realizou no passado como farsa, ele vai com toda a certeza se repetir no futuro como tragédia. O contrário também é verdadeiro: se o fato histórico aconteceu como tragédia ele vai se repetir como farsa.

Esse pensamento de Marx é uma retificação ao que falou seu antigo mestre Hegel (Friedrich) que “todo povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la”, repetir os erros cometidos o que é óbvio.

A verdade é que Hegel e Marx estavam certos, apenas em Hegel uma retificação de que um povo não aprende conhecendo apenas a sua história. Um povo aprende também conhecendo a história de outros povos, as suas vitórias e suas derrotas. Negros (as) do PT e PC do B melhor seriam se aprendessem com os pensamentos dos dois alemães. A final; se aceitam passivamente a orientação do branco do partido no qual são filiados para acreditar numa improvável igualdade racial, não há então nenhum absurdo em adotarem para as suas ações políticas, os pensamentos desses dois brancos alemães. Pelo menos nunca mistificaram como fazem os brancos dos dois partidos: Não acreditam em igualdade entre as classes sociais mas induzem negros (as) a acreditar em igualdade racial. Igualdade entre “raças” (?).

Da farsa e tragédia pensadas por Marx aplicada no marco da história do negro no Brasil, tem-se o decreto que aboliu a escravidão do negro no Brasil, assinado pela Princesa Isabel chamada a Redentora, é sem duvida um fato histórico importante. Contudo, não há como negar que esta Lei Aurea em si, resultou numa grande tragédia para os descendentes de escravos, mantidos por mais de um século, no subemprego e nas favelas, condições de vida das quais nunca se libertam.

O Estatuto de Políticas para a promoção da igualdade racial, lei assinada pelo Presidente Lula, chamada por negros (as) partidários, de nova “Lei Aurea”, tinha como pressuposto (ou deveria ter) mudar as condições de vida dos descendentes de escravos. Porém, passado anos em que a lei se encontra em vigor, nada mudou nas condições de vida dos descendentes de escravos, ainda nas favelas e nos subempregos. Sendo assim, não há como negar que o fato histórico como ato em que o Estatuto foi sancionado, é uma grande farsa.

Se os dois fatos históricos – se assim forem considerados – estiverem (e estão) de acordo com as afirmações de Marx; de fato histórico semelhante se repetir como farsa ou tragédia, então, a Lei Aurea foi a tragédia dos descendentes de escravos e o Estatuto de Igualdade Racial, a farsa. Uma farsa que não se tornou maior do que ela mesma, porque nenhum dos “pretos” presente no ato no Palácio Presidencial, reuniu coragem suficiente para de joelhos beijar a mão do Presidente Lula e assim repetir a atitude de José do Patrocínio, que, de joelho beijou a mão da Princesa Isabel.

Um fato graciosamente original que não pode deixar de ser citado: A Lei Aurea tragédia, O Estatuto, farsa. A democracia racial como farsa e a igualdade racial a tragédia. Resulta desses fatos que crença na igualdade racial é tragédia e farsa ao mesmo tempo. Nem mesmo Marx nos seus melhores momentos reflexivos pensou neste fato no mínimo inusitado.

De retorno a História, os fatos que nunca devem ser esquecidos, é que na revolta dos Búzios, na Bahia, na Revolta dos Escravos, no Haiti, na revolta dos mineiros, no México, havia em todos os envolvidos nessas revoltas, uma crença explicita na igualdade como um objetivo que esperavam alcanças com a luta que travavam.

Uma observação importante é que em todos os casos aqui citados de aspiração a igualdade entre pessoas, negros e brancos encontram-se em posições diametralmente opostas e sob a influencia de uma implícita ideologia, mas que é determinante. Porém existe um fator entre eles, a crença do negro na igualdade, onde só ele acredita na relação de igualdade entre negros e brancos.

Na Revolta dos Búzios, os brancos induziram os negros a tomarem para si, para confrontar a Coroa Portuguesa, os lemas igualdade e liberdade da revolução Francesa a qual eles tinham simpatias. Mas na repressão a revolta apenas os negros foram supliciados, os brancos que os induziram a revolta, a Coroa Portuguesa foi condescendente, uma vez que nenhum branco sofreu repressão alguma.

Na revolta dos Escravos no Haiti, Napoleão Bonaparte, que antes fora considerado avalista dos ideais da Revolução Francesa, de liberdade e igualdade, além de ser uma personalidade que Tossaint confiava, enviou seu exercito para esmagar no Haiti, a liberdade que Toussaint aspirava e a igualdade que acreditava.

A Revolta dos Mineiros no México, não teve melhor sorte os que acreditavam na igualdade entre as pessoas onde predominava uma determinada ideologia.

O grande escritor francês, Vitor Hugo, na sua obra prima, Os Miseráveis, ao retratar a Revolta de Paris, de 1815, na qual se pretendia o renascimento dos ideais republicano de Igualdade, Liberdade e fraternidade da Revolução Francesa de 1789, revolta que Vitor Hugo participou ativamente, e cujo resultado o levou ao exílio na Inglaterra, ao ser expulso da França, vaticinou: “Só existe igualdade na morte.”

Os negros/negras não omissos devem responder o que pensam da igualdade racial de Marcelo dias e Edson França.

Nota da Redação: Yedo Ferreira, 80 anos, ativista e  militante histórico do Movimento negro é internacionalista e defensor das Reparações Já.

Joaquim Barbosa sobre o racismo: diplomacia brasileira “é muito discriminatória”


Em nossa linha de conversar sobre o racismo no Brasil sem subterfúgios nem desculpas esfarrapadas, a Mamapress reitera a sua posição de o racismo no Brasil vai aparecer e se evidenciar cada dia mais. Vai aparecer não pelo racismo de agora ser maior ou menor do que antes. Mas sim porque os discriminados não estão mais engolindo as desculpas esfarrapadas dos racistas que sempre alegam que têm um pé na cozinha quando querem esconder os crimes racistas que cometem.
Já temos toda uma geração de empregadas domésticas que exigem seus direitos trabalhistas. Temos toda uma geração de trabalhadores negros que, que já não mais aceitam que seus companheiros brancos ganhem mais e sejam sempre promovidos na frente deles. Já temos toda uma geração de intelectuais formados lá fora que podem sustentar de igual para igual com os intelectuais brancos as discussões e reivindicações trazidas pelos 53% da população não branca. Infelizmente maioria destes intelectuais formados em todas as disciplinas, foram formados lá fora, pois aqui no Brasil, a academia reservou aos negros e indígenas estudarem os negros e indígenas, viramos uma disciplina.
Queremos mais, queremos estar no poder em todas as instituições. Temos homens e mulheres negras e indígenas de todas as idade preparados para esta tarefa, e não me venham com esta velha história que precisamos esperar os investimentos em educação para termos igualdade. Dou meu exemplo pessoal: Em minha experiência profissional no Brasil, a maioria da pessoas brancas a quem eu fui subordinado, não tinham o preparo que eu tinha, hoje a maioria é rica e senta em Brasília enquanto eu… tive minha carreira de sociólogo de tal forma bloqueada que tive que sair do país em 1989.
Quantas vezes tive que pedir à uma funcionária negra, com 30 anos de serviços sem nenhuma promoção, que tivesse a gentileza de “escolarizar” a loura que iria ser chefe dela no secretariado, que nem um memorando escrever o sabia, mas como branca representaria melhor a recepção no gabinete do chefão branco?
As discussões à cerca do racismo que sempre foram colocadas debaixo do tapete, e estavam reduzidas aos circuitos do movimento negros e grupos discriminados como os grupos mulheres, indígenas e LGBT, viraram questão nacional desde as manifestações de junho de 2013.
O desaparecimento depois de torturado do corpo de Amarildo levaram os jovens de classe média das grandes cidades do Brasil que sempre viveram nos condomínios e escolas segregadas, ao descobrirem que estavam sendo tratados como negros pelas policias estaduais especializadas em maltratarem, torturarem e eliminarem negros na história do Brasil.
A perversidade do sistema racista e de apartheid que sustenta e mantém uma elite branca ou esbranquiçada no Brasil, saiu de suas margens de só atacar os guetos e hoje estende suas garras a todos os cidadãos e os perseguem mesmo dentro de seus computadores.
Fomos todos nivelados por baixo, fomos todos nivelados pela discriminação antes reservadas aos negros e indígenas.

Quase que ao mesmo tempo os brasileiros descobrem que têm um juiz negro na maior corte do país, juiz de carreira e que chega ao topo, elevando-se à categoria de ser o único e primeiro negro no Brasil a assumir esta posição no Brasil. Este exemplo nos nivelou por cima a todos o negros no Brasil. Em um país em que nós negros e indígenas somos segregados em tudo, descobrimos que também podemos entrar na máquina responsável por nos manter através da lei longe da propriedade e dos bens econômicos do Brasil. De nela entrar e transformá-la pode ser um passo. Esta possibilidade remota dede mudar o sistema judiciário que manda para as prisões  medievais milhares de negros, assusta. Assusta a simples possibilidade de negros julgarem e assim também brancos irem para a cadeia. Pela primeira vez então os brancos da elite brasileira, muitos deles que já passaram pelos porões da ditadura, se lembram e derramam lágrimas de crocodilos, sobre as condições desumanas em que vivem milhares de negros encaixotados em porões em que a tortura é o simples ir para lá. A justiça brasileira ao condenar alguém não o pune por seus mau-feitos, mas sim pela sua cor e condição econômica. Mandar alguém pobre e preto para a prisão no Brasil para simples averiguação, é dar a pena de morte ou tortura perpétua. A única saída para esta pessoa é baixar a cabeça ou se tornar fera para massacrar e cortar cabeças de outros iguais.

Todos estes acontecimentos que vivemos nos últimos dois anos são momentos emblemáticos, que escancaram para todos o Brasil racista que só inglês podia ver.

Vivemos um momento chave em nosso país que pode influenciar e propiciar a mudança da mentalidade racista de todos nós brasileiros. Está na hora de termos solidariedade um com os outros e reconhecermos que o sistema de apartheid racial e econômico no Brasil, nos atinge a todos e à nossas famílias. Que está nos destruindo a todos

A entrevista do RFI com o Ministro Barbosa, revela um ministro do STF, também preocupado com esta questão. O próprio STF com esmagadora maioria de brancos quatrocentões, em decisão memorável reconheceu a dívida do Brasil para com os negros e indígena e homologou em 2012 as cotas como constitucionais.

É essa discussão que nos interessa e nos interessa fazê-la com responsabilidade, pois estamos todos sentados em um Barril de Pólvora evidenciado pelo genocídio de nossa juventude negra, que precisa ser finalmente enfrentado.
O linchamento que alguns setores da sociedade fazem atualmente do Ministro Joaquim Barbosa, é por nós considerado como uma fuga da discussão do racismo institucional que perpassa toda a nossa sociedade desde o alto escalão de Brasilia, passando pela composição racial dos quadros que comandam as redações de nossos veículos de comunicações, até as chefias de cozinha nos grandes clubes e hotéis.
Enfrentamos o racismo em todas as esquinas, este é o fato. (Marcos Romão- editor da Mamapress)

Artigo nos  de Lúcia Müzel, que nos foi enviado pelo advogado Humberto Adami

Joaquim Barbosa sobre o racismo: diplomacia brasileira “é muito discriminatória”

Lúcia Müzell fonte: RFI

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa STF

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa
STF

Em 1993, quando deixou Paris com um título de doutor recém-conquistado na Universidade Panthéon-Assas, Joaquim Benedito Barbosa Gomes não imaginaria que, quase 20 anos depois, seria o primeiro negro a assumir a presidência do Supremo Tribunal Federal. A nomeação, entretanto, é uma exceção em um país onde o racismo se esconde atrás de piadas e os negros permanecem longe de ter acesso às mesmas oportunidades que os brancos, apesar de comporem a maioria da população. Em entrevista exclusiva à RFI, Barbosa afirma que um dos piores exemplos é a face brasileira no exterior: a diplomacia, segundo ele, ainda “é muito discriminatória”.
Durante sua curta passagem por Paris, na semana passada, o presidente do STF foi recebido como convidado de honra no Conselho Constitucional francês, uma das instituições de maior prestígio do país. Poucos minutos antes de embarcar em um trem rumo a Londres, onde cumpre a segunda etapa de compromissos oficiais na Europa, ele conversou com a RFI.

Na semana passada, enquanto os jornalistas brasileiros aguardavam o senhor em um café na praça da Sorbonne, um garçom francês, negro, reconheceu o seu nome e sabia quem o senhor era. O senhor já é reconhecido no exterior?
Eu sempre tive o hábito de parar na praça da Sorbonne, não somente para tomar um café mas para estudar. Eu gostava de ficar ali. Mas em relação a um garçom ter me reconhecido, isso representa o fato de que os negros se reconhecem em qualquer lugar do mundo. Eles se reconhecem uns nos outros.

A sua carreira é de exceção no Brasil: um negro de origem humilde que chega à presidência do STF. Hoje, foram implantadas as cotas, por exemplo, entre outras ações para integrar melhor os negros na sociedade, inclusive em altos cargos. O senhor acha que a situação melhorou?
As coisas melhoraram um pouco nestes últimos 20 anos. Mas eu acho que nós ainda precisamos de bastante cotas em diversas áreas, porque 50 ou 51% da população é formada por negros. Entretanto, eles ainda se encontram em situações de inferioridade, sofrem discriminação, conseguem empregos ruins. No Brasil, nós não vemos os negros em cargos de direção nas empresas, ao contrário de outros países. A nossa diplomacia é formada em 99% por brancos e é muito discriminatória. Ou seja, ainda temos muito a fazer. Muito mesmo.

Na Europa, essa pouca representação dos negros nos altos cargos no Brasil, um país tão miscigenado, causa estranheza. O senhor acha que o Brasil é um país racista?
É um país onde o racismo é latente. Não é explícito: é latente. Ele é disfarçado, e se mostra nas situações nas quais os negros são excluídos. Quando alguém é surpreendido em um ato racista, ele muda de discurso, faz como se não fosse nada, diz que era uma brincadeira, reafirma que o país é uma mistura de raças, lembra que tem uma tia negra. Porém, em tudo aquilo que conta de verdade, na economia, nas posições de comando, os negros são excluídos.

Recentemente, a ministra francesa da Justiça, Christiane Taubira, foi alvo de vários ataques racistas. O senhor se encontrou com ela na semana passada. Vocês conversaram sobre este assunto?
Sim, nós falamos. Eu acho isso vergonhoso para a França. Uma mulher com muitas qualidades, como a ministra da Justiça Taubira, ser alvo de atos de machismo e de racismo. Nós estudamos na mesma faculdade de Direito em Paris, Panthéon-Assas, embora não tenhamos nos conhecido na época. Ela estudava em Assas e eu fazia o doutorado em Panthéon. E nós conversamos sobre incidentes racistas que nós dois tivemos na época. Houve brigas envolvendo a extrema-direita no campus, coisas assim. Eu acho tudo isso assustador. Porém, na França pelo menos existe o debate, enquanto, no Brasil, tudo fica escondido. Tudo fica como se fosse uma brincadeira. As medidas necessárias [contra o racismo] não são tomadas. O assunto é tratado com superficialidade. O assunto não é levado a sério, e este é o problema.

Durante as manifestações do ano passado, o senhor era visto como um ídolo. O seu nome era evocado para a presidência da República. Nos últimos meses, entretanto, o senhor virou alvo da imprensa, como por exemplo sobre o pagamento de diárias durante a sua viagem à Europa. Como o senhor sentiu essa mudança?
Isso não me incomoda. Isso faz parte do caráter um pouco provinciano do debate público no Brasil. Eu gostaria de debater as coisas sérias. É isso que me interessa. Mas tem uma certa imprensa sem escrúpulos no Brasil, pessoas pagas por fundos governamentais e que só querem saber de me atacar, mas eu só faço o meu trabalho. Faço o meu trabalho e não estou nem aí para essas pessoas.

Questionar a sua honestidade o incomoda?
São os brasileiros que devem dizer se sou honesto, e não estes maus-caracteres.