Uma fonte. 400 jornalistas


Edição e tradução: Marcos Romão

Parece suspeito mas não é suspeito- Gunnlaugsson

Parece suspeito mas não é suspeito- Gunnlaugsson


Vídeo transmitido pela ARD.de

As investigações dos Panama´ Papers começaram com um telefonema para o jornal alemão Suddeutshe Zeitung.

John Doe- Alô.
John Doe- Aqui fala John Doe.
John Doe- Interessados em dados? Compartilho com prazer.

Resumo das falas do vídeo:
A fonte anônima envia ao jornalista cada vez mais 11,5 milhões
de dados internos do Escritório de Advocacia Mossak&Fonseca no Panamá.
São emails, extratos bancários e contratos através de Firmas Caixas Postais.
Eles tornam públicos os nomes de políticos.
Infelizmente já faz tempo, que uma estrutura paralela se estabeleceu
No mundo por assim dizer. Em que os poderosos se movimentam…
Que muitas figuras se movimentam, que têm muita coisa para esconderem
O Suddeutsche Zeitung entregou os dados à rede de jornalistas investigativo ICIJ
E a seus parceiros especializado em checagem de fontes.
São negócios globais que atinge cada país.
Fala de uma jornalista: Os dados são um grande desafio para todos nós. Nenhum jornalista, nenhuma
mídia por mais forte que seja pode fazer esta história sozinho. Vimos que precisamos uns dos outros
Ao todo os jornalistas investigam quase um ano todo o Panama´Papers.
Hoje à noite publicaram ao mesmo tempo em 100 mídias em 88 países.

Para o Jornalista Helio Gurovitz, trata-se de um dos maiores furos jornalísticos dos últimos tempos:
“O trabalho levou um ano. O resultado, além de ser o maior furo jornalístico internacional dos últimos tempos, revela a extensão da corrupção e da lavagem de dinheiro em escala planetária. Estão na lista de atingidos 12 líderes globais, entre eles os atuais presidentes da Rússia, Vladimir Putin, da Argentina,Maurício Macri, e da Ucrânia, Petro Poroshenko; o rei da Arábia Saudita, Salman bin Abdulaziz al Saud; o emir de Abu Dhabi, os ex-premiês da Geórgia, do Iraque, da Jordânia, do Qatar e da Ucrânia, o ex-presidente do Sudão e o agora ex-premiê islandês Sigmundur Gunnlaugsson – cuja imagem em vídeo, ao ser supreendido por repórteres com perguntas sobre seu dinheiro oculto, entrará para a história como o símbolo do Panama Papers (Gunnlaugsson renunciou ao cargo ontem mesmo).”

Para nós da Mamapress, o jornalismo compartilhado é o jornalismo do futuro. Para se ter um jornalismo investigativo é necessário que os jornalistas sejam financiados com transparência para manterem a sua independência.

Com a investigação compartilhada ficou comprovada que se pode fazer diferente, quando um telefonema fonte chega em alguma redação. O jornalismo do futuro não deverá ficar na dicotomia entre, profissionais em empresas de mídias, e profissionais independentes, como se houvessem jornalistas das verdades e jornalistas das inverdades. Com a gama de informações que temos hoje, precisamos atuar de forma solidária e compartilhada e que todos ganhem o seu pão profissional. Assim será que possível que outros 11 milhões de dados, não fiquem apenas arquivados nas memórias dos computadores, sem uma análise jornalística, que contribua para sua compreensão.

Anúncios

Nem tudo que não é proibido é correto. José Dirceu: Um depoimento diverso do “Nada a declarar”, cunhado por Armando Falcão.


Depoimento de José Dirceu na íntegra.

por Marcos Romão

foto da internet

foto da internet

Considero que independente das opiniões diversas, este vídeo  é um documento inovador na forma que traz ao público em geral, informações em fonte primária, que mostra em parte,  como funcionaram os mecanismos e as relações de poder em um período da história de nossa República, que não é muito diferente dos períodos anteriores e atual.

Acostumados que estão, os cidadãos  da nação, em só tomarem conhecimento de decisões tomadas ou julgadas pelos articuladores e operadores do poder, considero o depoimento de José Dirceu, um excelente precedente para compreensão e julgamento por parte do público, não só de suas ações individuais, como também de todo o círculo de poder, que decidiu e decide os destinos do país.

Este depoimento público é uma inovação desde o famigerado “NADA A DECLARAR”, cunhado pelo de triste memória, falecido ministro da justiça na ditadura civil – militar, Armando Falcão.

É experiência dos povos, que falar de um passado silenciado, que opera no presente, é sempre difícil da primeira vez. A Alemanha levou 45 anos para iniciar, com a queda do muro, ao abrir todos os arquivos, a conversar sobre o seu verdadeiro passado. A Argentina, nossa irmã e vizinha levou menos tempo para botar para fora todos os podres acumulados durante e após a ditadura militar.

O depoimento público e viralizado de José Dirceu, é algo novo no Brasil. Um político com trânsito no poder, fala e ao vivo.    Não são memórias ditadas para um jornalista.

Sem pré – julgamentos, considero este ato em si, este depoimento, um início do descascamento da tinta de uma parede de uma casa chamada Brasil, que está abandonada e em estado precário. Muita gente à direita e à esquerda, tem o que falar em nossa “República do Silêncio”.

Ao ler as memórias de Geisel, na série de livros sobre a ditadura, escrito por Elio Gaspari, Zuenir Ventura comentou:  “Éramos inocentes e não sabíamos”.

Ele se referia ao total desconhecimento que todo o povo brasileiro, inclusive seus intelectuais e jornalistas de oposição, tinha das lutas internas de poder dentro da ditadura civil – militar.

Com este depoimento, para o bem o para o mal, nenhum de nós poderá dizer, não sabíamos. E a inocência ou a culpa passa a ser uma responsabilidade política coletiva. É assim numa democracia. tudo que se cala é suspeito e, inocência só se prova à luz do dia. Nas ditaduras, todos saem culpados do porões com luz fosca.

Somos uma república silenciada desde 1889, esquecemos de abrir a boca em 1988. Corrupção, compadrio, patrimonialismo, enriquecimento ilícito, violência nas cidades, intolerâncias e racismo, cresceram de forma epidêmica em nossa república, através do jeitinho silencioso operado e consentido desde cima até embaixo.

Vejo neste depoimento a chance de cada brasileiro botar as cartas na mesa. É um início. Só isto. Mas pode ser um salto quântico para compreensão que todos temos responsabilidade por nosso país, que nem tudo que não é proibido é correto e, que não podemos passar procuração, nem dar cheque em branco, por simpatias e expectativas, de que alguém irá fazer o melhor por nós.

Um sistema à beira do colapso ou um Beabá da Crise.


Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense; 05/02/2015
Reedição Marcos Romão

As agências do Estado encarregadas de zelar pelo desenvolvimento do país foram tomadas de assalto
A presidente Dilma Rousseff ocupa o vértice de um sistema de poder que entrou em xeque.

O primeiro sinal de que a reeleição não foi suficiente para mantê-lo foi a escolha de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda. Essa opção representa uma ruptura com a “matriz econômica” que havia adotado, cujo eixo era o fortalecimento e a ampliação de um modelo esquizofrênico de capitalismo de Estado. Por mais que negue, essa ruptura está em pleno curso. Se for obstruída, terá graves consequências econômicas, políticas e sociais.

De onde vem a esquizofrenia?

Do fato de ser é um projeto fora do tempo e de lugar. Historicamente, o capitalismo de Estado foi uma via de industrialização para os países de desenvolvimento capitalista tardio. Serviram-se dele, bem ou mal, as ditaduras fascistas, os governos populistas da América Latina e os regimes socialista do Leste europeu. O líder russo Vladimir Lênin chegou a dizer que o capitalismo de Estado era a antessala do socialismo.

A intervenção dos militares na atividade econômica faria corar o presidente Getúlio Vargas

Essa via de industrialização deu-se pela presença do Estado na indústria de base e pela substituição de importações de bens de consumo pelo setor privado. No Brasil, o processo de substituição de importações foi concluído durante o regime militar, cuja intervenção na atividade econômica faria corar o presidente Getúlio Vargas, que se matou em 1954 diante da deposição iminente por militares que tomariam o poder em 1964.

Esse modelo se esgotou porque o Estado brasileiro perdeu capacidade de financiamento, a partir da crise do petróleo da década de 1980, e o país mergulhou progressivamente na hiperinflação, principalmente no governo Sarney. A alternativa à substituição de importações era a integração competitiva à economia mundial.

Esse foi o foco do Plano Real, programa de estabilização iniciado no governo Itamar Franco e concluído nos dois mandatos do presidente Fernando Henrique Cardoso, ministro da Fazenda do antecessor. Para isso, foi preciso salvar o sistema financeiro, reduzir a intervenção do Estado na economia, privatizar as empresas de infraestrutura e adotar uma política monetária cujo eixo eram o câmbio flutuante, a meta de inflação e o superavit primário.

A crise do modelo

Esse “tripé” foi mantido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, afinal sem ele não seria possível viabilizar o bem-sucedido programa de transferência de renda. Mas, na crise mundial de 2008, essa estratégia começou a ser substituída pela chamada “nova matriz econômica”, que jogou o tripé para o espaço. A economia passou a girar com câmbio artificialmente controlado, taxa de inflação no teto da meta e o deficit fiscal mascarado pela “contabilidade criativa”. Foi preciso elevar a taxa de juros para impedir uma explosão inflacionária. Resultado: o país parou.

O modelo de capitalismo de Estado adotado, porém, favoreceu a formação de grandes monopolistas nacionais e promoveu uma brutal transferência de renda do setor público para esses grupos. Paralelamente, as agências do Estado encarregadas de zelar pelo desenvolvimento do país foram tomadas de assalto pelo partido no poder e seus aliados. Formou-se um sistema de poder, à margem da legítima representação do Congresso, embora com o beneplácito dos principais dirigentes. Seu vértice hoje é ocupado pela presidente Dilma Rousseff.

A maior parte das doações das empresas envolvidas no escândalo aos partidos no governo foi feita de acordo com a legislação vigente, mas a origem do dinheiro é criminosa porque vem de contratos superfaturados obtidos em licitações fraudulentas. É aí que está o problema político-institucional.

Na base do sistema de poder, a Petrobras foi encarregada de alavancar a política industrial e a política de ciência e tecnologia, com a formação de um cluster de empresas subsidiárias e de fornecedores que se estendeu do complexo petroquímico à indústria metalmecânica. Recebeu uma missão que estava acima das possibilidades reais. Mas não foi só isso. A Operação Lava-Jato, da Polícia Federal, que apura os escândalos da Petrobras, está nos revelando que esse modelo de capitalismo de Estado também foi aparelhado para financiar a hegemonia do partido no poder e de aliados. É esse sistema de poder que está em crise.

A maior parte das doações das empresas envolvidas no escândalo aos partidos no governo foi feita de acordo com a legislação vigente, mas a origem do dinheiro é criminosa porque vem de contratos superfaturados obtidos em licitações fraudulentas. É aí que está o problema político-institucional.

A eleição na Câmara dos Deputados, na qual o PT foi alijado da Mesa e das principais comissões, revela que esse sistema de poder está à beira do colapso. O PMDB está enredado na Operação Lava-Jato, mas não tem um centro de comando, nem as mesmas responsabilidades do PT. Essa fissura é a primeira onda de um tsunami que pode varrer o Congresso e a Esplanada dos Ministérios quando os nomes de autoridades e políticos envolvidos no escândalo forem revelados.

A vaca tussiu


Por Rui Martins, de Genebra

Rui Martins

Rui Martins

Faz duas semanas, não consigo escrever minha coluna para o Direto da Redação. Aparentemente, assunto não falta. Os jornais europeus dão destaque e publicam artigos sobre a corrupção no Brasil, considerada algo digno do livro de recordes Guiness.E, para os jornalistas autores desses artigos (seriam golpistas europeus?), não resta dúvida sobre o envolvimento da presidente Dilma Roussef, “pois tinha sido ministra das Minas e Energia, tinha sido presidente do Conselho da Petrobras e foi chefe da Casa Civil”. Pior ainda, alguns colegas e correspondentes ousam tocar na figura do ex-presidente Lula, insinuando estar também metido nessa história de escândalo da Petrobrás, chamado de Petrolão por analogia com outro escândalo mixuruco, denominado mensalão.

Mas quando decido, enfim, escrever, resolvo abrir alguns sites e blogs de companheiros de esquerda e outros de petistas, num esforço para saber se toda essa onda ou tsunami, em vias de envolver o Alvorada e terminar a temporada de Dilma, é verdade ou mera intriga (e que intriga), da oposição.

Alguns dos nossos melhores colunistas nos poucos jornais de esquerda, gente que sempre li com respeito, garantem  e jurariam em nome de deus, se nele acreditassem, ser tudo um golpe montado pela direita, pelos tucanos, pela grande imprensa para tirar Dilma do poder e enfraquecer o PT. Em outras palavras, seria uma tentativa de golpe! Ufa, sinto um certo alívio…

Como me intriga o fato do principal responsável pelo escândalo ser um juiz, me garantem ser alguém comprometido com os tucanos e que não devo levar nada a sério. Todas essas prisões de empreiteiros são parte de um complô para tirar a esquerda do poder na América Latina. E me aconselham a usar minha arte e verbo em favor da combatida presidente, que agora ninguém mais chama de presidenta.

“O que você deveria fazer agora, mesmo porque anda mal informado por viver na Suíça, influenciado por aquela mentalidade moralista calvinista, é telefonar para o seu xará Falcão e lhe prestar solidariedade”. Por falar nisso, me lembram, que nunca telefonei para o José Dirceu, mesmo se haviam me aconselhado, para lhe prestar solidariedade.

“Nós gostamos de você, gostamos desse seu lado de jornalista independente, mas por via das dúvidas não republicamos mais seus artigos na nossa quase centena de blogs, que muitos dizem serem chapas-brancas, mas não são não”, me asseguram.

É verdade, no meu livro sobre Maluf, corrupção e contas secretas, que o Luiz Fernando Emediato teve aquela ótima inspiração de entitular “Dinheiro sujo da corrupção”, em 2005, eu não colocava em dúvida o mensalão mas fazia vista grossa e justificava como “financiamento de partido”, coisa praticada dentro de certas medidas por muitos partidos europeus e, de certa forma, método legal usado na Suíça, onde, no dizer do amigo Jean Ziegler, o Parlamento é colonizado pelos banqueiros, laboratórios farmacèuticos, empresários e, poderíamos acrescentar, empreiteiros… Essa colonização, através da oferta de cargos de vice-presidente de conselhos de administração, é uma maneira indireta de comprar o voto de deputados e senadores.

Ninguém me puxou as orelhas por acreditar no mensalão, que para os fiéis petistas era explicado como sórdida mentira da grande imprensa. Vi mais tarde que meu colega Paulo Moreira Leite chegou até a publicar um livro provando não ter havido mensalão, por não haver provas e ser tudo baseado numa tal teoria jurídica do domínio do fato, de origem teutônica e aplicada pelo ex-ministro irascível do STF, Joaquim Barbosa. Não li o livro do PML para ver como se prova o contrário do óbvio e, cheguei mesmo a crtiicar o Quincas Barbosa, nobody is perfect.

Também ninguém deixou de me telefonar e de compartilhar meus artigos, quando dei a bronca (quem sou eu?) ao ver Lula levando Haddad para cumprimentar Maluf. Era normal, eu tinha perdido meu emprego na CBN por falar das contas do Maluf na Suíça (o Heródoto Barbeiro pode jurar que não) e, de repente, aquele para quem eu tinha pedido um terceiro mandato, recupera o homem das contas secretas suíças. Ou eu sou ingênuo ou virei mesmo um calvinista aqui na Suíça!

“Tá certo, Rui, mas você não entendeu, foi para termos mais tempo na televisão”, me explicaram. Opa, simples demais, e eu não tinha pensado… Não engoli, não concordei, mas fiquei quieto. Não sei como o Haddad administra, parece não ter nada a ver com Maluf e, como já virei um tanto europeu e ecologista, sou fã das suas ciclovias e de suas faixas exclusivas para o transporte público. Se sua chefe maior, lá em Brasília, desse também valor à ecologia, e por tabela à proteção das florestas e dos nossos índios contra o agronegócio, eu não teria preferido votar na Marina.
Mas entendi que, em política, segundo me disseram, era preciso fazer acordos para se poder chegar aos objetivos a alcançar. Tudo bem, valeu pelas ciclovias e pelos ônibus, mesmo se eu não faria aquela foto…

Vou no site 247, que pelo jeito deve  ser a Voz do Brasil na Internet, em busca de um argumento que me libere a alma e me dê uma ajuda para entender esse angú de caroços. Então, me explicam, editores e os bloguistas, ser tudo uma armação golpista, ninguém roubou ninguém, os delatores são uns mentirosos industriados pelos tucanos. A Dilma é uma santa, basta se olhar para ela para ver. Isso é tudo obra desse juiz Sérgio Moro, que não tem nada a ver com a Operação Mãos Limpas do juiz Falcone contra a Máfia italiana.

Encontro uns amigos petistas – “Mas não há provas Rui, são só delações, o foco agora devem ser as terceirizações que vão afetar os trabalhadores”. Mas, leio logo depois, as delações podem fazer parte do processo jurídico porque ajudam a encontrar as provas e os culpados, como escreveu o mal afamado Quincas Barbosa.

Ninguém mais fala nas terceirizações, porém aqui na Europa, depois de explicarem como o governo usava da Petrobras na distribuição de propinas e se assustarem com o volume de dinheiro usado, falam agora na inflação brasileira e a imagem do Brasil no mundo financeiro, econômico e político parece ser agora a mesma daqueles 7 a 1.

Alguns bancos suíços também já confirmaram depósitos de denunciados, porque estão numa fase de querer limpar a barra e acabar com aquela fama de serem cavernas de Ali Babá. Então, não são mais denúncias sem prova, mas por que continuam querendo a pele do juiz Sérgio Moro se, na verdade, ele está levantando o tapete de algo inimaginável? Essa batelada de gente sendo presa não é uma brincadeira, meteram mesmo a mão e logo onde? Na Petrobras, que cinicamente dizem querer proteger mas, que, por culpa deles e não de outros, se fragilizou e, quando essa tempestade passar, poderá ser sacrificada!

Com a inflação, o dinheiro que o pessoal tinha posto na poupança está derretendo, aperta-se o cinto, mudam-se leis previdenciárias, cortam-se bolsas de estudo e faz-se economia na educação quando se dizia na campanha eleitoral que educação seria prioritária. Ninguém se lembra do pré-sal como fonte de gastos na educação. Um banqueiro dirige nossa economia, quando essa nunca foi bandeira e nem programa da esquerda. Pior: dizia-se que a outra candidata faria isso.

O que foi que andaram fazendo para dar tanta zebra? Incompetência? Agora dizem que há uma conexão entre o Petrolão com o Mensalão e tem gente lamentando a prisão do antigo responsável pelo programa nuclear brasileiro, quando se bem me lembro, foram os militares que iniciaram essa história de nuclear, durante a ditadura. O Brasil virou de ponta-cabeça?

E o que eu vou escrever? Que é verdade a corrupção do Petrolão, que em lugar de ser chamado de golpista, o juiz Sérgio Moro está fazenco realmente um trabalho de limpeza como fizera o juiz Falcone, com as Mãos Limpas? Que a maior vítima dessa história vai ser a esquerda, pois o povo vai confundir os ideais da esquerda com os do PT? Que tudo quanto nós louvávamos nestes últimos anos, a inclusão social dos pobres numa sociedade menos desigual, o acesso às universidades para os filhos do povo e um Brasil respeitado lá fora vai ser comprometido?

… Que a vaca tussiu e que vamos todos pro brejo?

Rui Martins, jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, pela recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes. Escreveu Dinheiro Sujo da Corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil, e rádios RFI e Deutsche Welle.
É o Editor do Direto da Redação.

Prá você que morre de saudades da ditadura. 10 casos de corrupção foram listados pela UOL


do original UOL

  • Militares em frente ao Ministério do Exército, no Rio, em 2 de abril de 1964Militares em frente ao Ministério do Exército, no Rio, em 2 de abril de 1964

Os protestos de 15 de março, direcionados principalmente contra o governo federal e a presidente Dilma Rousseff, indicaram a insatisfação de parte da população com os casos de corrupção envolvendo partidos políticos, empresas públicas e empresas privadas. Algumas pessoas, inclusive, chegaram a pedir uma intervenção militar, alegando que essa seria a solução para o fim da corrupção.

Mas será que nesse período a corrupção realmente não fazia parte da esfera política? Apesar da blindagem proporcionada pelas restrições ao Legislativo, Judiciário e imprensa, ainda assim a ditadura não passou imune a diversas denúncias de corrupção.

O UOL listou dez delas, tendo como fonte a série de quatro livros de Elio Gaspari sobre o período (“A Ditadura Envergonhada”, “A Ditadura Escancarada”, “A Ditadura Derrotada” e “A Ditadura Encurralada”) e reportagens da época. O primeiro item que envolve Delfim Netto contém uma resposta do ex-ministro sobre os casos. Veja:

1 – Contrabando na Polícia do Exército

A partir de 1970, dentro da 1ª Companhia do 2º Batalhão da Polícia do Exército, no Rio de Janeiro, sargentos, capitães e cabos começaram a se relacionar com o contrabando carioca. O capitão Aílton Guimarães Jorge, que já havia recebido a honra da Medalha do Pacificador pelo combate à guerrilha, era um dos integrantes da quadrilha que comercializava ilegalmente caixas de uísques, perfumes e roupas de luxo, inclusive roubando a carga de outros contrabandistas. Os militares escoltavam e intermediavam negócios dos contraventores. Foram presos pelo SNI (Serviço Nacional de Informações) e torturados, mas acabaram inocentados porque os depoimentos foram colhidos com uso de violência – direito de que os civis não dispunham em seus processos na época. O capitão Guimarães, posteriormente, deixaria o Exército para virar um dos principais nomes do jogo do bicho no Rio, ganhando fama também no meio do samba carioca. Foi patrono da Vila Isabel e presidente da Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba).

2 – A vida dupla do delegado Fleury

Folhapress

Sérgio Paranhos Fleury

Um dos nomes mais conhecidos da repressão, atuando na captura, na tortura e no assassinato de presos políticos, o delegado paulista Sérgio Fernandes Paranhos Fleury foi acusado pelo Ministério Público de associação ao tráfico de drogas e extermínios. Apontado como líder do Esquadrão da Morte, um grupo paramilitar que cometia execuções, Fleury também era ligado a criminosos comuns, segundo o MP, fornecendo serviço de proteção ao traficante José Iglesias, o “Juca”, na guerra de quadrilhas paulistanas. No fim de 1968, ele teria metralhado o traficante rival Domiciano Antunes Filho, o “Luciano”,  com outro comparsa, e capturado, na companhia de outros policiais associados ao crime, uma caderneta que detalhava as propinas pagas a detetives, comissários e delegados pelos traficantes. O caso chegou a ser divulgado à imprensa por um alcaguete, Odilon Marcheronide Queiróz (“Carioca”), que acabou preso por Fleury e, posteriormente, desmentiu a história a jornais de São Paulo. Carioca seria morto pelo investigador Adhemar Augusto de Oliveira, segundo o próprio revelaria a um jornalista, tempos depois.

Os atos do delegado na repressão, no entanto, lhe renderam uma Medalha do Pacificador e muita blindagem dentro do Exército, que deixou de investigar as denúncias. Promotores do MP foram alertados para interromper as investigações contra Fleury. De acordo com o relato publicado em “A Ditadura Escancarada”, o procurador-geral da Justiça, Oscar Xavier de Freitas, avisou dois promotores em 1973: “Eu não recebo solicitações, apenas ordens. (…) Esqueçam tudo, não se metam em mais nada. Existem olheiros em toda parte, nos fiscalizando. Nossos telefones estão censurados”.

No fim daquele ano de 1973, o delegado chegou a ter a prisão preventiva decretada pelo assassinato de um traficante, mas o Código Penal foi reescrito para que réus primários com “bons antecedentes” tivessem direito à liberdade durante a tramitação dos recursos. Em uma conversa com Heitor Ferreira, secretário do presidente Ernesto Geisel (1974-1979), o general Golbery do Couto e Silva – então ministro do Gabinete Civil e um dos principais articuladores da ditadura militar – classificou assim o delegado Fleury, quando pensava em afastá-lo: “Esse é um bandido. Agora, prestou serviços e sabe muita coisa”. Fleury morreu em 1979, quando ainda estava sob investigação da Justiça.

3 – Governadores biônicos e sob suspeita

Em 1970, uma avaliação feita pelo SNI ajudou a determinar quais seriam os governadores do Estado indicados pelo presidente Médici (1969-1974). No Paraná, Haroldo Leon Peres foi escolhido após ser elogiado pela postura favorável ao regime; um ano depois, foi pego extorquindo um empreiteiro em US$ 1 milhão e obrigado a renunciar. Segundo o general João Baptista Figueiredo, chefe do SNI no governo Geisel, os agentes teriam descoberto que Peres “era ladrão em Maringá” se o tivessem investigado adequadamente. Na Bahia, Antônio Carlos Magalhães, em seu primeiro mandato no Estado, foi acusado em 1972 de beneficiar a Magnesita, da qual seria acionista, abatendo em 50% as dívidas da empresa.

4 – O caso Lutfalla

Estadão Conteúdo

Paulo Maluf

Outro governador envolvido em denúncias foi o paulista Paulo Maluf. Dois anos antes de assumir o Estado, em 1979, ele foi acusado de corrupção no caso conhecido como Lutfalla – empresa têxtil de sua mulher, Sylvia, que recebeu empréstimos do BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento) quando estava em processo de falência. As denúncias envolviam também o ministro do Planejamento Reis Velloso, que negou as irregularidades, e terminou sem punições.

5 – As mordomias do regime

Em 1976, as Redações de jornal já tinham maior liberdade, apesar de ainda estarem sob censura. O jornalista Ricardo Kotscho publicou no “Estado de São Paulo” reportagens expondo as mordomias de que ministros e servidores, financiados por dinheiro público, dispunham em Brasília. Uma piscina térmica banhava a casa do ministro de Minas e Energia, enquanto o ministro do Trabalho contava com 28 empregados. Na casa do governador de Brasília, frascos de laquê e alimentos eram comprados em quantidades desmedidas – 6.800 pãezinhos teriam sido adquiridos num mesmo dia. Filmes proibidos pela censura, como o erótico “Emmanuelle”, eram permitidos na casa dos servidores que os requisitavam. Na época, os ministros não viajavam em voos de carreira, e sim em jatos da Força Aérea.

Antes disso, no governo Médici já se observavam outras regalias: o ministro do Exército, cuja pasta ficava em Brasília, tinha uma casa de veraneio na serra fluminense, com direito a mordomo. Os generais de exército (quatro estrelas) possuíam dois carros, três empregados e casa decorada; os generais de brigada (duas estrelas) que iam para Brasília contavam com US$ 27 mil para comprar mobília. Cabos e sargentos prestavam serviços domésticos às autoridades, e o Planalto também pagou transporte e hospedagem a aspirantes para um churrasco na capital federal.

6 – Delfim e a Camargo Corrêa

Leticia Moreira/Folha Imagem

Delfim Netto

Delfim Netto – ministro da Fazenda durante os governos Costa e Silva (1967-1969) e Médici, embaixador brasileiro na França no governo Geisel e ministro da Agricultura (depois Planejamento) no governo Figueiredo – sofreu algumas acusações de corrupção. Na primeira delas, em 1974, foi acusado pelo próprio Figueiredo (ainda chefe do SNI), em conversas reservadas com Geisel e Heitor Ferreira. Delfim teria beneficiado a empreiteira Camargo Corrêa a ganhar a concorrência da construção da hidrelétrica de Água Vermelha (MG). Anos depois, como embaixador, foi acusado pelo francês Jacques de la Broissia de ter prejudicado seu banco, o Crédit Commercial de France, que teria se recusado a fornecer US$ 60 milhões para a construção da usina hidrelétrica de Tucuruí, obra também executada pela Camargo Corrêa. Em citação reproduzida pela “Folha de S.Paulo” em 2006, Delfim falou sobre as denúncias, que foram publicadas nos livros de Elio Gaspari: “Ele [Gaspari] retrata o conjunto de intrigas armado dentro do staff de Geisel pelo temor que o general tinha de que eu fosse eleito governador de São Paulo”, afirmou o ex-ministro.
Outro lado: Em relação às denúncias que envolvem seu nome nesse texto, o ex-ministro Delfim Netto respondeu ao UOL: “Trata-se de velhas intrigas que sempre foram esclarecidas. Nunca tive participação nos eventos relatados”.

7 – As comissões da General Electric

Durante um processo no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) em 1976, o presidente da General Electric no Brasil, Gerald Thomas Smilley, admitiu que a empresa pagou comissão a alguns funcionários no país para vender locomotivas à estatal Rede Ferroviária Federal, segundo noticiou a “Folha de S.Paulo” na época. Em 1969, a Junta Militar que sucedeu Costa e Silva e precedeu Médici havia aprovado um decreto-lei que destinava “fundos especiais” para a compra de 180 locomotivas da GE. Na época, um dos diretores da empresa no Brasil na época era Alcio Costa e Silva, irmão do ex-presidente, morto naquele mesmo ano de 1969. Na investigação de 1976, o Cade apurava a formação de um cartel de multinacionais no Brasil e o pagamento de subornos e comissões a autoridades para a obtenção de contratos.

8 – Newton Cruz, caso Capemi e o dossiê Baumgarten

Paula Giolito /Folhapress

Newton Cruz

O jornalista Alexandre von Baumgarten, colaborador do SNI, foi assassinado em 1982, pouco depois de publicar um dossiê acusando o general Newton Cruz de planejar sua morte – segundo o ex-delegado do Dops Cláudio Guerra, em declaração de 2012, a ordem partiu do próprio SNI. A morte do jornalista teria ligação com seu conhecimento sobre as denúncias envolvendo Cruz e outros agentes do Serviço no escândalo da Agropecuária Capemi, empresa dirigida por militares, contratada para comercializar a madeira da região do futuro lago de Tucuruí. Pelo menos US$ 10 milhões teriam sido desviados para beneficiar agentes do SNI no início da década de 1980. O general foi inocentado pela morte do jornalista.

9 – Caso Coroa-Brastel

Delfim Netto sofreria uma terceira acusação direta de corrupção, dessa vez como ministro do Planejamento, ao lado de Ernane Galvêas, ministro da Fazenda, durante o governo Figueiredo. Segundo a acusação apresentada em 1985 pelo procurador-geral da República José Paulo Sepúlveda Pertence, os dois teriam desviado irregularmente recursos públicos por meio de um empréstimo da Caixa Econômica Federal ao empresário Assis Paim, dono do grupo Coroa-Brastel, em 1981. Galvêas foi absolvido em 1994, e a acusação contra Delfim – que disse na época que a denúncia era de “iniciativa política” – não chegou a ser examinada.

10 – Grupo Delfin

Denúncia feita pela “Folha de S.Paulo” de dezembro de 1982 apontou que o Grupo Delfin, empresa privada de crédito imobiliário, foi beneficiado pelo governo por meio do Banco Nacional da Habitação ao obter Cr$ 70 bilhões para abater parte dos Cr$ 82 bilhões devidos ao banco. Segundo a reportagem, o valor total dos terrenos usados para a quitação era de apenas Cr$ 9 bilhões. Assustados com a notícia, clientes do grupo retiraram seus fundos, o que levou a empresa à falência pouco depois. A denúncia envolveu os nomes dos ministros Mário Andreazza (Interior), Delfim Netto (Planejamento) e Ernane Galvêas (Fazenda), que chegaram a ser acusados judicialmente por causa do acordo.

Chacina de Belém-A nova fronteira da morte ao vivo anunciada nas redes sociais.


reblogado da UOL

“A noite de terça-feira pra mim foi terrível”, disse à BBC Brasil um morador do bairro do Guamá, em Belém (Pará), que pediu para não ser identificado.

Naquela noite, dez pessoas foram mortas em bairros da periferia após a morte do cabo da Polícia Militar Antonio Marcos da Silva Figueiredo, 44 anos. A polícia investiga se os assassinatos estão conectados.

“Eu estava no ônibus quando minha irmã me ligou avisando que era para eu ter cuidado ao entrar pro nosso bairro, pois tinham matado um policial. Tinham mandado um áudio [com a voz de um suposto policial militar] pelo Whatsapp, [dizendo] que não era para ficar ninguém nas ruas, pois eles estavam atirando em quem estivesse nas esquinas ou tivesse cara de suspeito.”

Entre os mortos há um adolescente de 16 anos que levava a namorada para casa, um cobrador de van de 20 anos e um deficiente físico de 27 anos, que trabalhava em um supermercado. De acordo com a Polícia Civil, pelo menos sete mortes têm características semelhantes.

Em um bairro mais afastado da região onde aconteceram os assassinatos, o estudante João Batista Xavier, de 19 anos, também recebeu de amigos, pelo aplicativo Whatsapp, a mensagem de áudio alertando que moradores dos bairros do Guamá, de Canudos e de Terra Firme não saíssem de suas casas.

PESSOAS SÃO ASSASSINADAS EM BELÉM APÓS MORTE DE PM

assista a reportagem

“Eu fiquei sabendo da morte do policial no meu grupo da faculdade no Whatsapp. Depois, recebi o áudio de três pessoas diferentes. Fiquei com bastante medo. Amigos que moram nesses bairros já receberam mensagens como essas antes, de pessoas ligadas ao crime. Mas eu moro do outro lado da cidade, é a primeira vez que vejo algo assim.”

As aulas da Universidade Federal do Pará, que fica entre os bairros afetados, na mesma rua onde morreu o cabo da PM, foram canceladas na quarta-feira e, na quinta-feira, ainda havia menos alunos do que o normal no campus, segundo Xavier.

O caso expõe o crescente uso do aplicativo de mensagens instantâneas mais popular do Brasil por grupos em ambos os lados da lei. Atualmente, o Whatsapp já é utilizado por polícias em pelo menos 15 Estados, além do Distrito Federal, para receber denúncias de cidadãos e compartilhar informações dentro da corporação.

Investigações em todo o país, por sua vez, têm revelado o uso do aplicativo por facções criminosas. Segundo reportagem do jornal “O Globo”, traficantes no Estado do Rio de Janeiro também estão usando mensagens de áudio para impor toques de recolher a moradores durante brigas entre facções ou confrontos com a polícia.

‘Questão de segurança’

Desde a noite de terça-feira até o dia seguinte, hashtags como #ChacinaemBelém, #Belém e #Guamá estavam entre os assuntos mais populares do Twitter brasileiro. Após a morte do cabo Figueiredo, mensagens e boatos se espalharam rapidamente via Whatsapp e redes sociais por toda a cidade, falando sobre uma possível chacina nos bairros periféricos.

“A morte do policial aconteceu por volta das 20h e em seguida começaram a se espalhar as informações no Whatsapp, os áudios. As primeiras mensagens que eu recebi foram por volta das 22h30. Os portais de notícias na internet só confirmaram a morte do PM por volta da meia-noite”, disse Xavier.

A mensagem de áudio do suposto policial, à qual a BBC Brasil teve acesso, dizia: “Senhores, sério, façam o que for preciso, mas não vão para o Guamá, não vão para o Canudos, nem para a Terra Firme hoje à noite. É uma questão de segurança dos senhores, tá? Mataram um policial nosso e vai ter uma limpeza na área. Ninguém segura ninguém, nem coronel das galáxias. Os meninos estão soltos. E, por favor, fiquem em casa, não vão para a rua, não fiquem em esquinas”.

Pelo Twitter, moradores também reproduziam o que diziam ser mensagens postadas por policiais militares no Twitter e no Facebook. Em uma mensagem, um sargento da PM convoca outros a “dar uma resposta” ao crime naquela noite. O policial, no entanto, nega ter incitado ações ilegais.

De acordo com o tenente-coronel Leno Carmo, porta-voz da Polícia Militar do Pará, a corregedoria investiga a autoria das mensagens – algumas das quais já teriam sido deletadas, mas continuaram a ser replicadas nas redes sociais.

“Estamos primeiro analisando o fato, se realmente a autoria dessas mensagens foi de policiais ou de um fake [usuário falso] usando o nome de um policial. E também se o conteúdo dessas mensagens contribuiu de alguma forma para alguma ação policial fora dos limites legais”, disse à BBC Brasil.

Informações e boatos

Para o morador do Guamá que deu seu depoimento sobre a noite de terça-feira à BBC Brasil, o aplicativo também foi uma forma de se comunicar com amigos sobre a situação no bairro.

“Ao chegar em casa trancamos tudo e ficamos apreensivos. De repente muitas motos começaram a passar na frente de casa com homens de preto, encapuzados e fortemente armados atirando para o alto e a esmo. Ouvimos muitos tiros. Tenho vários amigos em outras ruas aqui do Guamá, nós ficávamos trocando fotos, vídeos e áudios pelo Whatsapp”, afirmou.

Algumas dessas imagens, que mostravam o que seriam alguns dos corpos encontrados separadamente no bairro e a reação de familiares ao encontrá-los, foram publicadas no Twitter. “As que eu publiquei são todas reais, algumas fui eu que tirei. (Descobri que) duas eram fakes (falsas), mas assim que soube eu as apaguei.”

A circulação de imagens falsas e de estimativas de mortos que iam de 35 a cerca de 100 pessoas causaram pânico na população de Belém e serão investigadas, segundo o delegado Samuelson Igaki, da Divisão de Repressão e Prevenção a Crimes Tecnológicos da Polícia Civil paraense.

“A polícia vai realizar todas as investigações necessárias para encontrar quem deu causa e quem propagou essas informações inverídicas, que não refletiram a realidade, como ‘não saiam de suas casas, a cidade está em pânico, a cidade vive uma guerra civil'”, disse à BBC Brasil.

“Algumas fotos de corpos do incêndio da boate Kiss foram compartilhadas como fotos de Belém. Isso é uma falsa comunicação de crime.”

Igaki diz ainda que não tem conhecimento do uso anterior do Whatsapp para toques de recolher impostos por criminosos e afirma que “foi a primeira vez” que a cidade viveu pânico generalizado por causa de mensagens espalhadas através do aplicativo. Ele também recebeu muitas delas em seu celular.

O cabo Figueiredo foi morto a tiros por três homens ainda não identificados. Segundo as autoridades, ele respondia a um processo por homicídio na Justiça comum e estava afastado do trabalho por razões de saúde.

“O clima por aqui ainda é de insegurança total, pois ainda não prenderam os verdadeiros assassinos do policial e enquanto isso não acontecer todos estamos com medo tanto da polícia como dos bandidos”, disse à BBC Brasil o morador do Guamá.

‘Nova fronteira’

O Whatsapp tem cerca de 600 milhões de usuários ativos no mundo, mais de 40 milhões deles no Brasil. Em uma pesquisa com quase 4 mil usuários de smartphones em cinco países, a consultoria britânica OnDevice, especializada no mercado de dispositivos móveis, afirmou que o aplicativo está em 72% dos telefones brasileiros, mais do que qualquer outro do tipo.

Para Carlos Affonso Pereira de Souza, diretor do Instituto Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS), o uso do Whatsapp por criminosos é uma consequência de sua popularidade no país.

“O uso da internet no Brasil migra cada vez mais para o uso de dipositivos móveis, quando, na década passada, o principal instrumento de inclusão foram as lan houses. Se temos uma população que passa boa parte do seu tempo de navegação no celular, é natural que todas as atividade, lícitas ou ilícitas, acabem acontecendo via celular”, disse à BBC Brasil.

A facilidade de atingir instantaneamente um grupo grande de pessoas também é atraente tanto para fins positivos quanto negativos, segundo Souza.

“Por mais que o número de pessoas nos grupos seja limitado, o app faz com que a comunicação seja mais instantânea, diferentemente de um email. Por estar no celular, a pessoa obrigatoriamente vê a mensagem em qualquer lugar. Ele não exige uma conduta ativa dos usuários para receber informação. Além disso, há a facilidade de encaminhar as mensagens. Se você quer atingir um número grande de pessoas, aplicativos como esse são a escolha natural no Brasil.”

No entanto, Souza acredita que a popularidade também faça do Whatsapp uma “nova fronteira da investigação por condutas ilícitas na internet”.

“É uma plataforma que não tem ainda a experiência de decisões judiciais e uma metodologia de investigação da materialidade dos crimes, que já está consolidada nas redes sociais. O Google tem um termo de conduta com o Ministério Público. O Facebook já está acostumado a cooperar com as autoridades para investigar condutas ilícitas. O Whatsapp, embora comprado pelo Facebook, traz novos desafios técnicos.”