O malandro branco carioca e seu racismo globalizado


Girls laugh as they wait for their ballet class to start at the 'Ballet Santa Teresa' academy in Rio de Janeiro.

O malandro branco carioca é daquele tipo de gente, que chega numa escola de samba, com dois pauzinhos nas mãos, fica acompanhando a bateria e depois de um ano já é diretor de harmonia.

Assim funciona a exploração da alma negra da cidade, que os intelectuais apelidaram de “apropriação cultural”.
Isto até poderia acontecer uma vez ou outra, o que não seria tão grave, não houvesse o apoio sistemático desde 1964 feito intencionalmente pela Globo, para amorenar lusitanamente e até clarear brasilianamente, a “alma negra” artística da cidade e de todo o país.

Esta “cariocalição” do negro simbólico apresentado nos palcos sempre por bem clarinhos, também é abaianado e pode ser estendido a cada estado do Brasil. Na Bahia com tantas mulheres negras cantoras, elas são representadas por clarinhas, quase brancas ou brancas. No Rio de Janeiro, sambeiros da zona sul ocupam todo o espaço no “mercado negro” e já não vê mais, nem tocadores de surdo ou foliões negros no lado nobre do túnel. Repete-se ao infinito o mesmo fenômeno de branquização da música negra, feita bossa nova com seus poetas brancos de “almas negras”.

É uma máquina de trituração do negro e seus símbolos.

Estourou nas mãos de Fabiana Cozza, a bomba da raiva acumulada durante décadas, causada por esta segregação e afastamento cultural e geográfico dos negros de cada cidade e estado do Brasil.
Fabiana a mulher negra de pele clara respondeu de forma corajosa aos gritos de alerta de seus amigos, e espero que não leve em conta, textos desaforados que invadiram sua privacidade de mulher negra.
Claro que deve estar com o coração dilacerado com a polêmica, que muitos descuidados levaram para o lado pessoal. Mas por ser uma mulher negra, tomou a posição que poucos brancos tomariam, renunciou à representação do papel de Ivone Lara nos palcos. Ela resolveu enfrentar de frente o racismo e suas nuances no teatro e no mercado de trabalho do Brasil.
Em um país que quanto mais retinto for a pessoa negra, mais ela será segregada cultural, racial e geograficamente na vida cotidiana e principalmente no mercado de trabalho, estamos diante de uma dilacerante discussão que envolve a todos nós brasileiros:

Qual o papel do que antigamente se chamava “mulato” na perpetuação ou superação do racismo à brasileira?

O que faremos todos para superar o dilema do racismo caseiro, que toda família brasileira com pais de diferentes cores tem que enfrentar toda a sua vida?

Tema sempre embaixo do tapete, o racismo e suas representações simbólicas, dilaceram a vida de cada pai, mãe e parentes de filhos e filhas de diferentes tons de pele negra, pois cada mãe sabe em silêncio, que seus filhos mais pretinhos serão barrados na festa chamada racismo brasileiro, enquanto seus filhos e filhas mais clarinhos terão mais chances de arranjarem um trabalho, ou passarem incólumes por um bloqueio policial.
Quem se espanta com o tema “racismo escalonado” e, o considera um absurdo ou racismo de negros contra negros, precisa olhar em volta, perscrutar os corações das famílias e amigos em volta.

Estamos diante de mais um tabu quebrado, que é o racismo submerso da vida cotidiana, das relações de trabalho, pessoais, de amizade e amor.
A discussão está apenas se espalhando, muitos espelhos serão quebrados e muitas almas ficarão por um tempo dilaceradas. Mas discutir o racismo escalonado na vida de todos os brasileiros, é tão necessário quanto beber água.

Estamos diante de um sistemático modelo de convivência racial, em que o ficar calado, é o melhor instrumento para a perpetuação do racismo.

O caso Fabiana, não é um caso pessoal, é apenas a ponta da ferida de uma sociedade, com um carnegão estruturado por baixo de toda pele do corpo, que até agora só os negros e os índios veem. Apesar de todos os brancos fingirem não ver.

Está na hora dos brancos e “mulatos” à moda antiga, assumirem as suas responsabilidades em suas ações e relações que perpetuam e alimentam o racismo no Brasil.

Ao invés de considerarem absurda esta discussão, do por que os negros, reclamam de colocarem negros de pele clara no papel de negros retintos, deveriam se fazer a pergunta que fez o músico e pesquisador Antônio José do Espírito Santo:
“É uma questão óbvia – e séria.
É teatro! É imagética a simbologia.
Me deem uma boa justificativa, para uma artista com perfil de branca, num país tão marcado pelo racismo, representar a negra Ivone Lara.
Porquê? Para quê?”

Em tempo:

Meu amigo Almir Mavigner, o artista plástico que deu a ideia e executou o projeto de dona Nilse Silveira, junto com Ivone Lara, é negro e mora em Hamburgo. Colocaram um artista branco, para representá-lo no filme brasileiro sobre Nilse da Silveira. Que foi recentemente lançado nos cinemas do Brasil.
Que imagem negra podemos então apresentar para nossas crianças e para nós mesmos?

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