O Estopim. Um filme que começa com Amarildo e ainda não terminou.


Publicado no Youtube em 19 de abril de 2015
Amarildo sendo torturado-encenação

                        Amarildo sendo torturado (encenação)

O assassinato do ajudante de pedreiro Amarildo, após uma sessão de tortura por parte de policiais da UPP da Rocinha em julho de 2013, trouxe à tona fundamental discussão sobre a política de segurança pública do Rio de Janeiro. Esse é o mote do documentário O Estopim, de Rodrigo Mac Niven, que usa o caso de Amarildo como pano de fundo para falar sobre a militarização do projeto de governo e denuncia o que vem acontecendo na rotina das comunidades cariocas desde a implantação das UPPs.

Com cenas de ficção vividas pelo ator Brunno Rodrigues na pele do Amarildo, o documentário tem como fio condutor o líder comunitário da Rocinha Carlos Eduardo Barbosa, o Duda, amigo da família do ajudante de pedreiro. Meses antes do desaparecimento de Amarildo, no dia 14 de julho de 2013, Duda já havia denunciado ao Ministério Público os abusos policiais na comunidade. Até hoje, ele luta para que outros casos como este não voltem a acontecer.

A história de vida e coragem do líder comunitário foi o que motivou Rodrigo Mac Niven, diretor e roteirista, a fazer o filme. “A coragem da família e dos amigos de Amarildo se transformou em símbolo de resistência e luta da sociedade civil contra a violência do Estado. O caso Amarildo foi o estopim não apenas para a mobilização de outras comunidades, mas principalmente para expor as fragilidades de um projeto de segurança pública militarizado. Essa história precisava ser retratada”, afirma Rodrigo Mac Niven.

O Estopim foi realizado em menos de um ano, desde a pré-produção até a finalização, de forma independente e colaborativa. Os cerca de 40 profissionais envolvidos foram convidados pelo diretor e aceitaram entrar no projeto por entenderem a importância da discussão proposta no documentário.

Anúncios

Uma carta pra Elizabeth ” Amarildo”


por Fabiana Melo Souza

Uma carta pra Elizabeth.

Elisabeth

Elisabeth

Estou na Rocinha editando na Tv Tagarela, um dos lugares onde me sinta mais em casa e protegida. Não sei se a família do pedreiro Amarildo pensa assim. É por isso que neste 1 ano de seu assassinato eu quero escrever não sobre ele, mas sua esposa, Elizabeth.

Temo por uma tragédia presente: a condenação em vida desta mulher devido ao nosso conservadorismo vulgar.
Quais são as acusações? Uso de drogas ilícitas, some e deixa os filhos sozinhos e ainda dizem que está namorando. Mas pra mim, a verdadeira acusação é de traição.

Mas quem ou o quê Elizabeth traiu? Ela traiu o nosso conservadorismo. Ao invés de se agarrar na imagem de uma sofredora cândida, essa mulher escolhe seguir seus vícios. Eu, que também tenho os meus, sei muito bem o que é agarrar neles como alternativa à este mundo que insiste em nos encaixar em uma única forma de viver.

No mais, que viúva é essa que não tem nem o direito de velar o corpo de seu marido. Cadê? Aonde está? O que aconteceu? Se esta questão me atormenta, o que dizer de Elizabeth que além de viver em luto ainda convive com o título “a mulher do Amarildo” como uma sombra que nunca mais deixará de segui-la.

Meu pai é pedreiro e mora na Rocinha, segundo ele não tem lugar melhor, mas assim como o Amarildo podia ser meu pai, Elizabeth poderia ser eu, e hoje, certamente, eu estaria vivendo sem paz, sem conseguir tomar uma cerveja pra esquecer, vitima dos olhares acusadores da boa sociedade.

Quem condena em vida Elizabeth condena todas nós, mulheres que vivemos à espreito da próxima acusação: a de ter provocado o abuso com a roupa curta, de ter respondido o marido/irmão/pai/filho e apanhado por isso ou mesmo, de ser condenada à imoralidade por outras mulheres: quem respeita uma mulher que vive na rua bebendo, transando, vivendo …
A família de Amarildo não foi destruída pelas drogas, imoralidade ou falta de “respeito”. mas sim por seu assassinato, só que agora, muitos usam a imagem e corpo de Elizabeth pra justificarem a falta de crença no mundo. Batem no peito com orgulho e dizem “não tem jeito mesmo”, não adianta lutar.

Pra você Elizabeth, meu carinho e meu abraço. Só nos resta suportar e seguir. Como uma entidade certa vez me disse “a terra é redonda e é feita pra girar”. Aguente, espere um pouco. Seguirei com você.
Amarildo. Presente.

Pelo fim da tortura no Brasil!


por ,  do original Ninja

‘Vocês deviam todos morrer’ diz PM para repórter NINJA presa. Leia o relato completo

Karinny Magalhães durante transmissão ao vivo na Abertura da Copa do Mundo em Belo Horizonte. Foto: Maria Objetiva

Karinny Magalhães durante transmissão ao vivo na Abertura da Copa do Mundo em Belo Horizonte. Foto: Maria Objetiva

Com cara na parede, mãos imobilizadas para atrás do corpo, ouvia aquela voz, que já tinha me xingado algumas vezes, justificar o porquê de tanta agressividade e ódio: – Vocês são o câncer do mundo, deviam todos morrer.

Dia 12 de junho. O ato que marcou a abertura da Copa na capital mineira foi campo de luta e resistência em todo país. Em Belo Horizonte os participantes concentraram-se na Praça 7 e antes mesmo do início da manifestação foram abordados pela PM de forma truculenta durante o procedimento de revista. Iniciamos a transmissão por volta de 12h, quando vários movimentos já estavam reunidos no local. A passeata percorreu as ruas de Belo Horizonte até chegar a praça da liberdade, onde o relógio da FIFA – monumento que fazia a contagem regressiva dos dias para o evento – permanecia isolado e escoltado pela tropa de choque da Polícia Militar.

Na chegada ao relógio, a tropa nos atacou com balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo. Ficou claro o nível de despreparo, ou talvez a má intenção da PM mineira, que usou a força e praticou uma violência desmedida para “manter a ordem” de uma manifestação que até então era totalmente pacífica. Após o ataque, os grupos que participavam do ato se dispersaram, e foram divididos pela policia. Não consegui encontrar os membros da equipe de cobertura do NINJA e segui transmitindo o confronto da tropa de choque contra os manifestantes, que neste momento já eram minoria em relação ao contigente policial.

A violência começou a se intensificar entre PM e manifestantes, mas segui transmitindo ao vivo e narrando os acontecimentos, fazendo o que estava lá para fazer.

Segui um longo trajeto entre a Praça da Liberdade e a Praça Raul Soares e ao chegar na Av. Paraná 10 policiais correram para me imobilizar junto a outras pessoas que eu não conhecia. Depois de ser imobilizada fui alvo de agressão física e verbal. Tapas na cara, golpes de cassete na perna e nas costas – foi esse o protocolo da Polícia Militar ao fazer a abordagem.

No áudio da transmissão ouve-se facilmente ofensas machistas direcionadas à mim. Sou mulher, sou ativista, sou mídia e sou livre. Estava no direito de cumprir o meu trabalho documentando o que via nas ruas.

Fui conduzida à um posto policial próximo ao local que fui abordada com mais 3 pessoas. Chegando no local, mais agressão. Tapas, chutes, pancadas de cassetes e dessa vez até cuspe para nos dar as boas vindas. Quando me identificaram como a narradora do live, me tomaram o celular que estava transmitindo. Mandaram eu fazer o desbloqueio do celular para a “averiguação” do aparelho, mas como eu não sabia a senha, pois o celular era de outra NINJA, fui isolada do grupo e colocada sobre uma mesa, onde 05 políciais – homens e mulheres – que me bateram para forçar que eu dissesse a senha.

No momento do espancamento, um deles me acertou o lado esquerdo da cabeça. Desmaiei por um tempo. Quando me dei conta, estava acordando à base de mais tapas com os gritos de “Acorda, filha da puta!”, e quando recuperei a consciência, estava novamente junto aos 3 manifestantes que também foram recolhidos. Em seguida, fomos algemados e mantidos de pé por cerca de 2 horas, onde ouvimos calados os xingamentos, recebemos de olho aberto os cuspes e empurrões. Além de ter que aguentar isso, tive que escutar cantadas fajutas que me chamavam de “Gostosa!”, sendo declaradas em baixo tom para que não fosse ouvido por muita gente. Nojo Define!

Depois de consultarem minha ficha no sistema, descobriram que meus pais exercem a função de policiais civis, no Amapá – meu estado natal. Constatado isso, passaram a ironizar a minha participação no ato. Como se a profissão dos meus país fosse um motivo para inviabilizar minhas lutas e o exercício de minha atividade como midiativista.

Somente depois de uma hora e meia reclusa neste posto policial (fato que não consta nos autos do processo) fui conduzida até a “Delegacia da Copa” como se referiam os policiais. A principio, esta delegacia especial foi criada para receber todos os cidadãos que forem presos durante as manifestações. Chegamos por volta de 19h30, e fomos recepcionados por um grupo de advogados voluntários e da defensoria pública que foram muito atenciosos, e nos instruíram e apoiaram o tempo todo. Com a presença dos doutores, o tratamento mudou completamente, a tal ponto que os mesmo policiais que me chamaram de filha da puta, pediram desculpas quando fizeram um pouco de força ao tirar as minhas algemas.

Na delegacia desde o começo da noite, só consegui comer depois que os advogados – que me acompanhavam o tempo todo – conseguiram levar um sanduíche até a sala onde eu estava. Fui agredida por volta das 18h, e mesmo me queixando das dores que sentia logo que cheguei a delegacia, só fui levada ao hospital às 3h da manhã. Felizmente não quebrei nada, o que eu apresentava eram lesões leves, segundo os médicos de plantão. Saindo do hospital fui ao IML fazer o exame de corpo de delito , e quando voltei a delegacia fui encaminhada para prestar depoimento. Na presença de dois advogados, relatei exatamente o que aconteceu, mas mesmo diante do meu relato e da intervenção dos advogados, o delegado afirmou que as declarações dos policiais eram soberanas as nossas e que eu seria presa e indiciada.

Às 5h da manhã, fui oficialmente declarada uma presidiária do estado de Minas Gerais e às 7h cheguei ao CERESP, mas tive que voltar ao IML para fazer o exame de corpo delito, necessário para minha inclusão no presídio, porque o laudo feito anteriormente tinha misteriosamente “desaparecido”. Ao voltar a outra DP para fazer o exame, o segundo médico sequer tocou em alguma região dos machucados pelo meu corpo.

Sem notícias de nada do que estava acontecendo, da mobilização nas redes e do próprio processo jurídico, ao chegar novamente ao CERESP Centro-Sul, por volta das 9h da manhã, encontrei meus companheiros do Fora do Eixo e o deputado federal Nilmário Miranda, que estavam ali para garantir que os atos de agressão não voltassem a se repetir no presídio.

À tarde, fui levada até ao Ministério Público para prestar depoimento para a Promotora Nívea Mônica na presença do presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-MG, William Santos e da Defensora Pública Fernanda que naquele momento já estavam responsáveis pelo caso e gentilmente me atualizaram do processo judicial em curso. Ao cruzar os corredores do MP pude novamente rever os companheiros da Casa FDE Minas, e mesmo com o coração dilacerado, e o corpo exausto, tive a certeza que existia um cuidado e uma mobilização enorme para que a Justiça fosse feita e eu pudesse sair daquela situação. Este breve contato fez eu sair do MP e voltar para o presídio com a força necessária para dar conta de um dia que ainda seria longo.

Depois de chegar e passar por todos os procedimentos, ali estava eu, encarcerada, de uniforme, numa cela com outras 6 detentas, pensando que agora fazia parte das estatísticas. Durante todo o dia não foi possível para de imaginar que esse era só mais um caso de injustiça, como centenas e centenas de outros escondidos e invisibilizados. O conforto que tinha ao lembrar das pessoas que junto comigo constroem uma rede de comunicação e cultural no Brasil, e buscam a partir dela combater estas mesmas injustiças, misturava-se com a indignação de saber que muitas mulheres que estavam naquela mesma situação que a minha não tem este conforto, e por isso não teriam a mesma sorte.

Por volta das 2 da manhã, quando já pensava que passaria a noite na prisão, fui chamada e avisada que seria solta. Ao sair, e novamente reencontrar meus parceiros de vida e retornar a Casa Fora do Eixo Minas é que tive consciência de todo o movimento e de toda a mobilização em torno da minha liberdade. Mais do que nunca tive a certeza que mesmo com as injustiças ainda prática das contra novas formas de vida e organização, eu estava no lugar certo, com as lutas certas.

Tenho que agradecer muito a todos os que se mobilizaram, em especial aos fora do eixo e ninjas espalhados pelo Brasil e pelo mundo. Tenho a plena convicção, que mesmo com toda a tentativa de impor o medo, a coragem de todas estas pessoas juntas são de extrema importância para que possamos seguir lutando contra o machismo, injustiças, desigualdades e pelos direitos fundamentais da liberdade de imprensa e a possibilidade de termos uma nova policia, desmilitarizada e cidadã.

Nota da Mamapress: Desde o caso Amarildo que ganhou notoriedade mundial no auge das demonstrações de 2013, o Brasil toma conhecimento através do noticiário diário, que a tortura voltou a fazer escola no sistema policial brasileiro. Já não são casos fortuitos ou extremos de exceção, mas evidências de que cada recruta das PMs do Brasil recebe treinamento de tortura, aplicando na prática durante a repressão e prisões nas manifestações.

Com método, os recrutas e os experientes revezam-se todo o tempo nas distribuição de porradas e aplicações de gases de pimenta em corpos imobilizados. A tortura começa em público no momento da prisão, continua no transporte dos presos quando ocorrem ameças e mais porradas, que podem durar horas no trajeto de 1 km até alguma delegacia.

Em delegacias ou presídios “especiais”, denúncias revelam a existência de salas, em que mais uma vez os “recrutas” se revezam com profissionais na aplicação de tortura.

O objetivo principal é quebrar psicologicamente a resistência e dignidade moral dos presos, como faziam os Doi-Code e as Casas da Morte organizadas pelo Coronel Malhães.

A preparação dos recrutas torturadores deve acontecer em um momento anterior. Devem receber instruções dos capitães, orientados por especialistas de polícia dos EUA, França e Alemanha ( pelo noticiário podemos observar que a lista de “técnicos de segurança” que visitam o Brasil no momento é enorme). Nestas instruções, devem receber orientações que jornalistas, advogados, ativistas de direitos humanos e manifestantes são os inimigos, são o lixo e a doença e o câncer da sociedade e que devem ser eliminados.

O método do revezamento dos recrutas durante os espancamentos tem um objetivo. Tornar a todos cúmplices da tortura. Mesmo quem não participa torna-se cúmplice. Todos escutam os gritos dos torturados e o barulho surdo das pancadas.

No “Container” e seu entorno em que Amarildo foi  morto sob tortura, todos e todas as policiais de plantão, ouviam os gritos e gemidos de Amarildo.

O Brasil está institucionalizando e popularizando a tortura durante um regime democrático. Está acontecendo uma institucionalização, disseminação  e banalização da tortura que somente temos conhecimento acontecer em regimes extremamente ditatoriais.

Ou acordamos ou seremos todos vítimas. (MR)

Amarildo, vítima da violência do Estado. Diz Siro Darlan


por  Siro darlan

Esse artigo foi publicado no Jornal do Brasil, mas estou reproduzindo aqui( no Facebook), em razão das criticas injustas que está sofrendo a partilha do produto do leilão em benefício da Família do Amarildo. Foi adquira uma casa para a família por 50 mil reais e o restante 200 mil, descontados os impostos devidos, foi destinada a ong IDDH, cujos profissionais se dedica a defesa dos perseguidos políticos das manifestações sociais e no auxílo das famílias dos 5000 desaparecidos do Rio de Janeiro, e assim a destinação da verba não fica restrita a uma única família.

Amarildo, vítima da violência do Estado.
Siro Darlan, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e Membro da Associação Juízes para a Democracia.

Os compositores Fernando Magarça e Bernine, poetas sociais das comunidades do Rio de Janeiro cantam na voz de Zeca Pagodinho que “Se pinta uma “intera”/ É o primeiro a por a mão no bolso./ Se um vizinho ao lado está passando/ Por má situação/Ele faz um mutirão e ajeita a situação”. Como resultado da violência policial a comunidade da Rocinha viu-se atingida pela falta que faz um chefe de família que deixa viúva e seis filhos.
Sensível a o luto dessa família Paula Lavigne e Caetano Veloso abriram as portas de sua casa para um gesto de solidariedade ímpar promover um jantar leilão objetivando fazer uma “intera” para ajeitar a situação. O sucesso da iniciativa despertou a inveja e mexeu com a imobilidade social do crítico economista do Instituto Liberal.
Por não ter aceitado o convite para o jantar estendido a todos os “homens de boa vontade” falou do que não viu condenando a ação dos “artistas e intelectuais” a quem chama de “radicais chiques”, os quais atenderam ao chamado de suas consciências para um gesto que deveria ser comum na humanidade: a solidariedade entre os irmãos de uma mesma cidade.
Critica a necessária publicidade do evento, como se não tivesse gozado de meia página de jornal para despejar seu veneno crítico, mencionando a Sagrada Escritura, a mesma que tornam bem-aventurados “os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”, assim como “os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus”. O Evangelho diz ainda que os filhos das trevas são mais espertos que os filhos da luz.
Invejoso, sugere que não viu um único evento beneficente organizado em prol dos policiais mortos em serviço. Trata-se uma boa ideia que deveria ser patrocinada por seu idealizador. Portanto mãos as obras. Mais ação e menos crítica aos que fazem é bem mais eficaz. Pode aproveitar e promover outro jantar para patrocinar a defesa dos policiais torturadores que maculam a imagem de uma corporação secular agredindo cidadãos inocentes, forjando flagrantes a batendo em professores.
A crítica ideológica contida em seu artigo é, na verdade uma contradição com sua proposta liberal já que procura desmerecer a ação de artistas e intelectuais que muito fizeram na reação à violência sofrida pela Nação com a quebra dos princípios democráticos que nos impuseram uma sangrenta ditadura militar.
Finalmente encerro com a lição dos poetas comunitários que a comunidade da Vieira Souto entendeu, mas nem todos tem a mesma sensibilidade: “Então por que essa gente que tem/ Não aprende a lição/ Com essa gente que nada tem/Mas tem bom coração”.

Nota da Mamapress

Fomos chamados à atenção para este assunto através da nota do Juiz João Baptista Damasceno, que emitiu a seguinte análise sobre o Juiz Siro Darlan: “O Desembargador Siro Darlan  é uma daquelas pessoas que a ocupação de um cargo de cúpula não encastela e afasta da realidade. Ele tem os pés no chão e sua cabeça jamais estará nas nuvens.
Vale a pena lê-lo”

Nós da Mamapress somos solidários com todos que são solidários com as vítimas das injustiças e violência cometidas pelo Estado.

Pai Que todo o país pense em Amarildo como o representante do Pai que dá à pátria o nome de pátria


por caetano veloso
Este artigo pela urgência replicamos na mamapress sem pedir licença(marcos romão)

2013081176109.jpg-GUQ18RMST.1

O desaparecimento de Amarildo Dias de Souza, depois de ter sido levado à UPP da Rocinha, é o acontecimento mais impactante nesse período de eventos marcantes na cidade. É, na verdade, dilacerante saber que um pai de família sumiu sem que autoridades que o levaram tenham apresentado explicações para o fato, apenas porque isso seria tido como natural no ambiente onde ele vivia. Quando multidões de jovens saem às ruas para exigir responsabilidade de seus governantes, ter a polícia admitindo ocorrência tão terrível é sinal de que as partes da nossa sociedade vinham mesmo se comunicando muito insatisfatoriamente entre si. O cuidado extremo deveria pautar as ações policiais. Mas não. Além dos abusos exibidos na repressão às passeatas, o desrespeito à vida dessa família grita que a brutalidade contra os cidadãos pobres não quer nem mesmo fingir que se envergonha de perpetuar-se.

Quando eu estava num xadrez da Polícia do Exército, durante o governo militar, no quartel de Deodoro, ouvi diversas vezes, à noite, gritos e gemidos estarrecedores, não raro seguidos de comandos de emergência, “traz a padiola”, os urros da vítima dando lugar, depois de uns segundos de silêncio terrível, à azáfama dos algozes. Eu estava entre presos políticos (Gil, Ferreira Gullar, Antonio Callado, Paulo Francis, Perfeito Fortuna eram alguns deles) e havia uma ordem de não nos molestar, agredir ou ferir. Os companheiros de xadrez (estávamos divididos em dois grupos, cada um numa cela) diziam que aqueles gritos podiam ser de outros presos políticos, trazidos de diferentes quartéis, os quais não seriam, como nós, meros artistas, intelectuais e estudantes acusados de subversão, mas ativistas ligados à luta armada. No entanto, a hipótese mais resistente (talvez contando com coisas entreouvidas aos carcereiros) era a de que fossem “criminosos comuns”, gente pobre dos subúrbios e das favelas a sofrerem aqueles maus tratos (alguns pareciam perder a vida nessas sessões).

Desde então fiquei com uma ideia da sociedade brasileira que eu não seria capaz de conceber antes. Estivera sempre entre pessoas que queriam lutar contra a desigualdade. Mas eu vinha de uma cidade pequena e calma, sem ninguém muito rico nem muito pobre. Numa região úmida e fértil, na saída de um rio, não se viam pessoas passando fome. Havia os loucos de rua: eram achincalhados pelas crianças e tratados com condescendência pelos adultos. Na cadeia municipal às vezes ia parar um ladrão, um suspeito de crime passional cometido na área rural, uns moleques que brigavam embriagados. Pertencendo a uma baixa classe média de uma cidade em que os extremos não eram evidentes, concebíamos a disparidade social quase abstratamente. Meu pai tinha amigos de esquerda, a maioria vivendo em Salvador e todos com formação intelectual sólida. Havia um comunista que me comovia: era um barbeiro, mulato claro, alto, de origem claramente popular. Na verdade, era o único, em minha cidade, de quem se dizia pertencer ao Partido Comunista Brasileiro. Drogas, só em filmes americanos e em lendas que rodeavam a fama de grandes músicos de jazz não brasileiros e, entre os nossos, a de Orlando Silva e Lúcio Alves. A possibilidade de que, no quartel da PE, gente pobre pudesse estar sendo espancada me levou à sensação amarga quase traduzível pelo “odeio o Brasil” que, dolorosamente, nomeou um artigo de Francisco Bosco não faz muito tempo.

Mas o Brasil da violência cruel contra cidadãos indefesos é mesmo digno de ser odiado. Sem alguma fúria e certa gravidade não estaremos nem mesmo pensando sobre o Brasil. Essa lição que aprendi em Deodoro, em 1968, nunca foi esquecida. E seu sentido vem à tona diante de um caso como o de Amarildo, um ajudante de pedreiro, conhecido pelos vizinhos como homem muito trabalhador, pai de seis filhos, que sumiu, repito, ao ser levado para a UPP da Rocinha. E justo nesse julho. E logo numa UPP. É doloroso que os mínimos movimentos que sugerem ação eficaz do estado na sociedade se exponham assim como que a clamar por revolta. Há umas quase injustiças históricas na situação densa que estamos vivendo. Mas trata-se de outra coisa. Trata-se de termos carregado desde sempre males muito profundos, e quando eles esboçam se expressar formam zonas de desacertos, sensação de desperdício, incômodo dobrado.

As lojas, a mídia, o povo, todos celebram neste domingo o Dia dos Pais. Que todo o país pense nesse pai de seis como o representante do Pai que dá à pátria o nome de pátria.

Temos de encarar o problema da injustiça. O Brasil luminoso só surgirá se superarmos o que somos. É o nome de Amarildo que devemos repetir para todos e para cada um de nós mesmos.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/pai-9461101#ixzz2biHYkuaI
© 1996 – 2013. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.

Corpo ainda não identificado encontrado em vala na Rocinha. Não se sabe se é Amarildo.


por marcos romão em colaboração com o time de plantão do Ninja- fotos Antonio Golgenstein

Recebemos agora via rede Ninja o telefonema de Antônio Golgenstein, da Associção de Moradores da Rocinha, que nos informou que acaba de ser encontrado um corpo em adiantado estado de putrefação na Rocinha. Tres ninjas já se dirigem para o local. Aguardemos todos!

corpo-encontrado corpo-encontrado-2

CHEGA NÃO QUEREMOS MAIS BRINCAR DE BANDIDO E MOCINHO – FAMÍLIA DE NEGROS NA ROCINHA BUSCA O CORPO DO PEDREIRO


José dos Santos Oliveira
CHEGA NÃO QUEREMOS MAIS BRINCAR DE BANDIDO E MOCINHO 
 – FAMÍLIA DE NEGROS NA ROCINHA BUSCA O CORPO DO PEDREIRO –
pão de açucarMeus companheiros e  minhas companheiras do Movimento Negro do Rio de Janeiro, não dá mais para ficar brincando de bandido e mocinho, quando os bandidos são sempre os nossos. Na brincadeira bandido tem cor, condição social e padrão definido. Somos nós, a grande maioria de negros e pardos e independente da condição social e intelectual.
Esta questão é por demais complicada e traz no seu bojo uma situação inadmissível, que é sempre vista por setores mais conservadores da sociedade, como justificada. ” Os meios justificam o fim ” das ações criminosas covardemente  praticadas, não importa quem seja a vítima.
Entendo que além da Defensoria Pública, a OAB RJ, através das Comissões de Direitos Humanos. Segurança Pública e Igualdade Racial, deveria se fazer presente, assim como, brilhantemente se fez representar nos casos mais emblemáticos referentes às prisões relacionadas com os recentes atos de violência e vandalismo praticados durante as justas e legítimas manifestações.
Não podemos nós, Movimento Negro do Rio de Janeiro, CIR OAB RJ e a sociedade civil organizada, deixar de acompanhar junto com o Ministério Público e a Defensoria Pública.,  as diligências e investigações para esclarecimento destes gravíssimos fatos ocorridos na Rocinha.
Não queremos saber se o homem desaparecido tinha ou não participação no comércio ilegal de drogas da Rocinha. Isto pouco importa neste momento. O que o Movimento Negro do Rio de Janeiro e o conjunto da sociedade civil organizada quer saber onde está o pedreiro Amarildo de Souza,
O que a família do pedreiro Amarildo de Souza, a Defensoria Pública, a OAB RJ, através da Comissões de Direitos Humanos. da Comissão de  Segurança Pública e da omissão da Igualdade Racial – CIR OAB RJ, onde está o corpo de Amarildo de Souza, e quais razões e os autores da sua morte.
A questão colocada é esta. Ou vale tudo para todo mundo,  ou precisa-se estabelecer um  novo pacto de responsabilidade social entre a sociedade civil organizada e os diferentes cidadãos e cidadãs deste Estado. Não podemos continuar nós cidadão e cidadãs, negros, negras, pardos e pardas, moradores de comunidades, sendo números interessantes somente para depositar os votos nas urnas.
É preciso dizer à esta sociedade racista, machista, injusta social, política e financeiramente que não queremos esta política de segurança pública racista e incompetente,   nos vem sendo imposta a centenas de anos. Nós queremos propor e participar juntamente  com o conjunto da sociedade civil organizada,  das políticas de segurança públicas, objetivando o atendimento do cidadão e cidadão das diferentes áreas do Rio de Janeiro. Precisamos urgentemente dizer que não é esta a polícia que que queremos. O Movimento Negro e a Sociedade Civil organizada do Rio de Janeiro, quer trazer à discussão a desmilitarização da Polícia Militar e formação de uma polícia civil uniformizada e com formação para defesa do cidadão e não do Estado ou de governantes.
José dos Santos Oliveira
 Diretor Executivo do CEPERJ
   Coordenador do Fórum
 Criminal Racismo é Crime.
Consultor p/ Segurança Pública
        do COMDEDINE
  Conselheiro do CEDINE