Tia Eron e os “Pastores” da esquerda


Por Marcos Romão

Certa vez, caro amigo Valmiro Oliveira Nunes,*** uma velha raposa política, democrata empedernida como eu. Me falou que o exercício da democracia é como escovar os dentes, só se aprende os escovando todos os dias.Tia Eron

Temos realmente um quadro lamentável de mandatários no congresso, nas câmaras estaduais e municipais, como você assevera e acrescenta que “somente o exercício da política e da democracia, em linhas gerais, poderá melhorar a qualificação do Congresso.”
Vou além. Já são 26 anos que a sociedade discutiu distribuição ou não dos bens produzidos e ou acumulados pela economia. Se discutiu muito, mas só lá em cima.

Pouco se discutiu sobre cidadania e participação popular não conduzida de cima para baixo.
Resultado é que temos uma esquerda de soldadinhos de cartilhas e uma direita de paus mandados de cabrestos, que quando abrem a boca, de um lado e de outro, causam a vergonha da nação, tal a mediocridades de argumentos e distância da realidade daqui de baixo que apresentam.

Sofremos nos últimos 26 anos a deterioração da cultura de discussão democrática. A demonização do adversário político nos botou neste beco sem saída.
Esta anomia ou falta de comando político central, que aconteceu paulatinamente até chegar ao ponto de termos um “ex-governo” ao lado de um “quase governo”. Libera a olhos vistos, o que há de mais retrógrado no país a nível dos costumes e ações de ódio, como assassinatos de jovens negros, massacres de povos indígenas e violência generalizada de norte à sul contra as mulheres.

O locus onde acontecem todas estas violências e negação da cidadania, são os municípios.

A mesma prática corrupta levada a cabo na Petrobrás, assistimos em todos o municípios do Brasil com suas secretarias com poder de compra. Ao olharmos os cartéis milionários dos empresários de ônibus, podemos sentir onde aperta o nosso calo econômico nos “coletivos” lotados.

Como discutir os cortes federais na economia, se estamos dominados e medrosos nos municípios, exatamente nas nossas paradas de ônibus, filas de postos de saúde e de guichês de pagamentos de salários que atrasam?

Fora Temer, fora Dilma, fora Renan ou fora Cunha são temas que passam ao largo, quando se sai de casa nos horários de trégua entre o Caveirão e o Tráfico.
Desaprendidos de nossas cidadanias, estamos aqui em baixo levando porrada e morrendo sem saber para onde ir.

Precisamos voltar a conversar sobre quais são nossas necessidades prementes e o que queremos.

São 26 anos que os movimentos sociais estão sendo engabelados, cooptados e aparelhados pelos partidos políticos.
É deste castelo de cartas que precisa cair, que falo. E para isto o Movimento Negro e os Movimentos sociais precisam conversar com todo mundo. Até com tia Eron, que segundo notícias de jornais, era madeira mandada até ontem, quando deu seu grito de libertação, mesmo que momentâneo e individual.
Temos que parar de sermos “pastores” de esquerda apontando o dedo para deus e o mundo.

 

*** Valmiro Nunes é um velho amigo jornalista e ativista do Movimento Negro e membro da Cojira.

Nos últimos 40 anos temos conversado sobre os caminhos para a democracia brasileira e a vida dos negros e todos os cidadãos brasileiros para além da sobrevivência física.

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Um bom corte


martelo da justiçaQue tal fazer a conta do fim da imunidade tributária para entidades religiosas, privilégio garantido, mas questionado?

por ana Ana Maria Machado

Alguma coisa acontece no coração do Brasil. Municípios remotos estão dando lições ao país.

Em Aparecida de Goiânia, um casal tinha dificuldades para trabalhar, por não ter quem cuidasse dos filhos, esperando vaga em creche desde que nasceram. Resolveu acreditar na Justiça. Entrou com um processo para que a lei fosse cumprida. Deu certo. A juíza mandou a prefeitura pagar creche particular para os meninos. O exemplo vingou. Vizinhos pediram o mesmo. Eram oito mil famílias esperando vaga no município. Outras cidades das redondezas estão seguindo o exemplo. Provocaram uma explosão imobiliária na área da pré-escola. O resultado é que nunca se construiu tanta creche tão rapidamente na região.

Em Santo Antônio da Platina, no Paraná, os moradores não acharam justo que os vereadores tivessem aumentado os próprios salários. Começaram a fazer pressão para que as câmaras municipais reduzissem sua remuneração. A notícia não dá detalhes de suas ações, a gente fica sem saber exatamente o que a população fez. Mas foi muito convincente, porque deu certo: os vereadores recuaram e desistiram do autoaumento, considerado desnecessário pelos eleitores. Diante disso, um município da vizinhança tratou de fazer o mesmo. Como fogo morro acima em dia de ventania, o exemplo se alastrou rapidamente pelo estado, de Jacarezinho a tantas outras cidades cujos edis exorbitaram, na opinião do eleitorado. Numa, o padre pregou contra o aumento, no sermão de domingo. Em outra, um estudante começou um movimento, convocando manifestações pela internet. Esta semana, já são 28 cidades paranaenses vivendo experiências semelhantes. Ali mesmo no Sul, jornais do interior gaúcho acompanham o fenômeno, o noticiam com atenção, e semeiam a ideia. E no interior de São Paulo, se noticia que há ações semelhantes em Avaré, em Ourinhos, em Botucatu, em Mauá da Serra.

Em Araras, no Rio Grande do Norte, um lugar bem pequenino e de poucos habitantes, há um fenômeno diverso: muitos casos de uma doença genética rara, que causa tamanha intolerância à luz solar que se torna impossível trabalhar durante o dia. Alguns moradores entraram com pedidos de aposentadoria pelo INSS. Como as solicitações foram negadas, recorreram à Justiça Previdenciária. O juiz foi até lá, estudou o caso e mandou pagar, assegurando o direito dos trabalhadores. Fez mais: montou um plantão no local, para dar a orientação e cobertura necessária. O episódio não é isolado. Há hoje 43 mil ações judiciais de pacientes em andamento em São Paulo e 42.300 no Rio, buscando garantir tratamento do SUS.

O que significa isso? Será que o simples fato de sentir que a Justiça pode ir além de blá-blá-blá e realmente funcionar está levando os cidadãos a buscar a garantia de seus direitos? Efeito secundário de figuras de juízes confiáveis terem substituído ícones de abuso? Sai alguém como o juiz Lalau e entra Joaquim Barbosa no imaginário popular. Sai o juiz que se apossou dos carros aprendidos de Eike Batista e entra o juiz Sérgio Moro. Esses novos exemplos se somam à ação do Procon e exercem um papel pedagógico, na medida em que reconciliam o brasileiro com o respeito à lei e promovem um crescimento da noção de cidadania, bem como da fé na democracia.

Dá até esperança de que o país esteja mudando para melhor em termos de consciência popular. Prova disso foi a mobilização que resultou na Lei da Ficha Limpa, por mais que os passos de sua implementação e regulação tenham sido lentos, em relação à urgência dos que assinaram a petição para que ela existisse.

Agora, duas mobilizações parecidas começam seu longo processo de multiplicar apoios. Uma é a campanha do Ministério Público Federal, propondo Dez Medidas Contra a Corrupção. Pode ser acessada na página <www.combateacorrupcao.mpf.br>.

Outra é um projeto de iniciativa popular que já recolheu mais de 20 mil assinaturas e chegou ao Senado, onde está na Comissão de Direitos Humanos. Propõe o fim da imunidade tributária para as entidades religiosas, um tipo de privilégio tradicionalmente garantido, mas questionado por muitos. Pelo número de apoios, agora a Casa está obrigada a decidir se isso vira um projeto de lei ou não. Foi uma proposta iniciada por um cidadão comum, por meio do Portal e-Cidadania, e foi angariando partidários pela internet. Quando se discute um orçamento deficitário e a necessidade de cortes, é uma boa sugestão para o Congresso, que há pouco aprovou a MP 668, com um aumento dessas isenções e perdão de multas a igrejas. Que tal fazer a conta? É um bom corte.

A Guerra da Independência americana começou com uma rebelião contra o imposto do chá. A Inconfidência Mineira reagia à cobrança de taxas altíssimas. A Revolução Francesa é filha dos impostos elevados para pagar gastos do governo e da nobreza (que, como o clero, tinha isenção fiscal). Pelo menos Dilma deu sinais de juízo, recolhendo o balão de ensaio da CPMF.

Com alguma coisa acontecendo no coração do Brasil, é melhor não brincar com fogo.

Ana Maria Machado é escritora

publicação original: http://oglobo.globo.com/opiniao/um-bom-corte-17411784#ixzz3l0cq88yN

Linchamento em Copacabana: policial assiste e historiador salva ladrão de morte iminente


por marcos romão

Li hoje na Coluna do Ancelmo.

Linchamento em Copa

Um ladrão estava encurralado na Rainha Elizabeth com Nossa Senhora de Copacabana, sábado, 18h30m. Ensanguentado, levava porrada de saradões, mulheres, velhos. De passagem, o historiador Joel Rufino, 74 anos, exibiu a carteira de diretor de comunicação do TJ e impediu o massacre. Um policial civil armado assistia sem se meter.

Nota da Mamapress: É tudo uma questão de olhar e cidadania.

Nosso amigo, o historiador Joel Rufino dos Santos não poderia fazer por menos, ao se ver diante de uma cena de barbárie perpetrada por uma corja de rufiões saradões e senhoras “de classe”, que sob o olhar complacente e incentivador de um policial civil, linchavam um ladrão em plena Princesinha do Mar,  como o bairro de Copabacana é chamada pelos poetas:

Joel Rufino reagiu. Interferiu, se meteu no meio do banho de sangue e salvou a vida do rapaz. Impediu com seu ato de coragem civil, mais uma execução sob tortura em praça pública de uma pessoa humana em nosso país.

Todos nós sabemos os riscos pessoais que corre qualquer cidadão, ao enfrentar uma turba enfurecida desejosa de fazer justiça com as próprias mãos. A maioria das pessoas prefere passar ao largo para não ter aborrecimentos.

A sociedade brasileira, apesar dos avanços econômicos, ficou muito a dever ao aprendizado para a cidadania e a defesa dos direitos humanos.

Mesmo com seus 74 anos de idade e seu corpo franzino, Joel Rufino agiu sem olhar os riscos que corria. É uma exemplo a ser seguido  por todos os jovens que não desejam se omitir diante de cenas de barbárie que testemunhem.

Com um simples gesto, perigoso, mas singelo, meu amigo Joel, trás um alento para todos nós brasileiros e brasileiras, que ainda acreditamos que a dignidade e a integridade de cada cidadão, infrator ou não, é para ser respeitada e protegida.

Vale à pena ser gente brasileira, quando temos amigos com esta coragem carinhosa para com todos que nos cercam. (Marcos Romão, pela Redação).

Saiba um pouco mais sobre o cidadão Joel Rufino dos Santos:

Historiador Joel Rufino dos Santos

Historiador Joel Rufino dos Santos

Filho de pernambucanos, Joel nasceu no ano de 1941 em Cascadura, subúrbio carioca.

Desde criança se encantava com as histórias que a sua avó Maria lhe contava e as passagens da Bíblia que ouvia. Junto com os gibis, que lia escondido de sua mãe, esse foi o tripé da paixão literária do futuro fazedor de histórias. Seu pai também teve um papel nessa formação, presenteando-o com livros que Joel guardava em um caixote.

Ainda jovem, mudou-se com a família para o bairro da Glória e pouco depois entrou para o curso de História da antiga Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil, onde começou a sua carreira de professor, dando aula no cursinho pré-vestibular do grêmio da Faculdade.

Convidado pelo historiador Nelson Werneck Sodré  para ser seu assistente no Instituto Superior de Estudos Brasileiros ( ISEB ), lá conviveu com grandes pensadores, e foi um dos co-autores da História Nova do Brasil, um marco da historiografia brasileira.

Com o golpe de 1964, Joel, por sua militância política, precisou sair do Brasil, asilando-se na Bolívia, depois no Chile. Com o exílio, não só interrompeu a sua vida acadêmica, como também não participou do nascimento do seu primeiro filho, que se chama Nelson em homenagem ao seu mestre e amigo.

Voltando ao Brasil, viveu semi-clandestino, e foi preso 3 vezes. Na última , cumpriu pena no Presídio do Hipódromo ( 1972-1974 ). As cartas, muitas, que escreveu para Nelson, foram, mais tarde, publicadas no livro “Quando eu voltei, tive uma surpresa”, considerado o melhor do ano(2000 ) para jovens leitores.

Com a aprovação da Lei da Anistia, foi re-integrado ao Ministério da Educação e convidado a dar aulas na graduação da Faculdade de Letras e posteriormente na pós-graduação da Escola de Comunicação, UFRJ. Obteve, da Universidade, os títulos de “ Notório Saber e Alta Qualificação em História” e “ Doutor em Comunicação e Cultura”.  Recebeu também,  do Ministério da Cultura, a comenda da Ordem do Rio Branco, por seu trabalho pela cultura brasileira.

Como escritor, Joel é plural. Escreveu inúmeros livros para crianças, jovens e adultos. Ficção e não ficção. Ensaios, artigos , participação em coletâneas. Recebeu, como autor de livros para crianças e jovens, vários prêmios, tendo sido finalista do Prêmio Hans Christian Andersen, considerado o Nobel da literatura infanto-juvenil.

Joel  é casado com Teresa Garbayo dos Santos, autora do livro “Conversando com casais grávidos”. Nelson e Juliana são os seus filhos. Eduardo, Raphael, Isabel e Victoria, os netos queridos. (fonte: Página Joel Rufino dos Santos)

Governo do RJ condenado a indenizar manifestante. A cidadania vence contra a manipulação de agentes infiltrados nos protestos. 


por marcos romão

A decisão da juíza condenando o Governo do RJ a pagar indenização ao manifestante de rua Bruno Telles, apesar da quantia irrisória, assume um imenso valor para a democracia neste dia 31 de março. Ela dá, ainda que tarde, razão a todos os que foram as ruas protestar e foram condenados e violentados pela polícia do Estado,  muitas vezes com o incentivo e beneplácito da grande imprensa.

Em julho de 2013 o estudante Bruno Ferreira Teles foi preso pela Polícia Militar, acusado de arremessar um coquetel molotov contra a barreira de policiais postados em frente ao Palácio Guanabara. Sua prisão foi filmada por jornalistas ativistas.

Bruno Telles-foto da internet

Bruno Telles-foto da internet

O vídeo lançado na Internet minutos após o atentado que Bruno era acusado, mostrava um homem correndo de uma dezena de policiais, sofrendo uma série de tiros de pistola de choque elétrico, e mesmo quando caído e imobilizado, mais descargas de choques elétricos foram desferidas contra ele.

Observem a cena da prisão de Bruno Telles a partir de 5:15 minutos

Ao conceder a indenização, a juíza responsável afirmou: “que o combate à situação de tumulto não autoriza que a polícia tenha atuação imprudente”. Em nota da  assessoria de imprensa, nesta terça-feira, 31.3, o governo do RJ afirmou não ter sido ainda notificado.

Com esta sentença a juíza, nos traz um exemplo de como a nossa Constituição de 1989 é tão cara e importate para a defesa da cidadania.

O Rio de Janeiro, senão todo o Brasil, viveu naquele mês um verdadeiro “Estado de Exceção”, em que governadores emitiram ordens que permitiram aos seus policiais agirem à revelia do “Estado de Direito”, tudo que se movesse nas ruas era inimigo. Se o governador do Rio alegou à época desconhecer, que haviam políciais secretos (P2) infiltrados nas manifestações, então a situação era pior do que “Estado de Exceção”, era a anarquia e o caos comandado por forças policiais, que antes haviam jurado defender a Constituição e a vida de todos os cidadãos.

O bairro de Laranjeiras em torno do Palácio do Governado transformou-se durante um ou dois meses, no símbolo de um “Estado de Terror e Guerra Interna”, que no futuro as crianças da vizinhança, que a tudo assistiam de sua janelas, ou as que a tudo assistiram através dos “Smartfhones”, nas mãos de uma imprensa alternativa, poderão dizer, que viveram, pelo menos por um breve período de tempo, o “Estado de Exceção”, do qual seus pais e avós falavam que sofreram.
No vídeo que circulou na época logo depois do atentado contra policiais com coquetel molotov, apesar dos desmentidos do Comando da Secretaria de Segurança, ficou claro para o público, que os dedos de mão de agentes provocadores estavam por trás dos atentados e com cheiro de gasolina.

Assim relatou na época a “Tribuna de Hoje“, a versão da PM:

 “Polícia Militar divulgou na quinta-feira (25) um vídeo em que rebate acusações de que um P2 (policial sem farda, infiltrado) jogou um coquetel molotov contra uma barreira da própria polícia no início dos confrontos que marcaram um protesto perto do Palácio Guanabara, na segunda-feira (22), na Zona Sul do Rio.

A acusação ganhou força a partir de terça (23) com vídeos e relatos publicados nas redes sociais. Um dos vídeos, feito pela polícia, mostra uma pessoa jogando o coquetel. Outros vídeos sugerem que a pessoa que jogou o coquetel é a mesma que passou por uma barreira policial sem ser barrada e sugerem que essa pessoa seria policial.

No vídeo divulgado pela PM nesta quinta (assista acima), a polícia argumenta que as pessoas que aparecem nos vídeos que circularam nas redes sociais não jogaram o coquetel.

O vídeo não indica quem teria jogado o coquetel, mas, segundo a PM, é suficiente “para descartar a participação de policiais no ato”.

No novo vídeo, é apontado que um dos homens que acende o coquetel está usando uma pulseira no punho direito e tem tatuagem no mesmo braço. A mesma cena mostra outro rapaz, com o coquetel molotov, vestindo uma camiseta preta. Essa camiseta tem uma estampa diferente da que é usada por um dos policiais militares, segundo a corporação. A PM também destaca que o policial do serviço de inteligência não tem tatuagem.”

Segundo o Jornal O Globo online 31 de março de 2015, o governo do Estado do Rio foi condenado pelo Tribunal de Justiça a pagar indenização de R$ 15 mil ao jovem Bruno Ferreira Telles, de 27 anos, preso sob suspeita de jogar bombas em PMs durante um protesto em julho de 2013. O processo criminal contra Bruno foi arquivado no dia 29 de julho do mesmo ano, sete dias após a prisão.
Na mesma matéria o Globoa afirma, ” No dia seguinte à prisão, o “Jornal Nacional” mostrou com exclusividade que, segundo o inquérito, o depoimento de um PM contrariava o que diziam as polícias Civil e Militar para justificar a prisão, de que ele teria sido detido sob posse do artefato.”

Nós da Mamapress, temos colaboradores jornalistas que atuam na grande mídia e na mídia alternativa, lembramos que os fatos não podem ser distorcidos, mesmo quase dois anos depois.

A Globo e outras grande mídias condenaram Bruno Telles de antemão, depois voltaram atrás, ao tomarem conhecimento das evidências trazidas pela mídia alternativa
Bruno Telles, foi salvo pela ação rápida da imprensa alternativa, que se mobilizou contra o Estado de Exceção que o governador Sérgio Cabral queria instalar no RJ, inclusive com a tentativa de criação da Comissão Especial de Investigação de Atos de Vandalismo em Manifestações Públicas (CEIV), que foi apelidada como o AI-5 do Cabral.
A grande imprensa também foi rápida ao reconhecer que estava condenando Bruno Telles por antecipação e andando na contra-mão, ao repetir sem analisar os “comunicados oficiais da policia”.

Quase ao mesmo tempo em que Bruno Telles foi preso, aconteceu a prisão do ninja Felipe Peçanha no dia 22 de julho. Ele cobria os protestos na sede do governo do Rio, o Palácio Guanabara, e foi acusado de “incitar a violência”. Depois de ter se negado a parar de filmar os protestos após o pedido de um policial militar, Felipe foi preso com um outro ninja e libertado horas depois, encontrando do lado de fora um grupo de pessoas que gritava: “Ninja! Ninja!”.

A decisão da juíza condenando o Governo do RJ a pagar indenização ao manifestante de rua Bruno Telles, apesar da quantia irrisória, assume um imenso valor para a democracia neste dia 31 de março. Ela dá, ainda que tarde, razão a todos os que foram as ruas protestar e foram condenados e violentados pela polícia do Estado, muitas vezes com o incentivo e beneplácito da grande imprensa.
Esquecemos todos o assunto coquetel Molotov. Apenas Rafael Braga, que nem manifestar, manifestou, está preso por conta de uma “perigosa bomba” feita com Pinho Sol. Outros aguardam julgamento por formação de quadrilha, quando na realidade se reuniam mais para falarem de seus sonhos políticos
Todos eles e todos nós éramos inocentes e não sabíamos, que estava em marcha uma máquina de repressão para criminalizar todo cidadão e cidadã que protestasse, fosse nas ruas fosse nas redes sociais.
A martelada da juíza é a grande resposta da democracia, ao arbítrio de pequenos Bonapartes, que enlouquecem enquanto governadores.

Que grupos ou que serviços secretos, jogaram as bombas de coquetel Molotov nos policiais naquela noite, não interessa a mais ninguém

Joaquim Barbosa sobre o racismo: diplomacia brasileira “é muito discriminatória”


Em nossa linha de conversar sobre o racismo no Brasil sem subterfúgios nem desculpas esfarrapadas, a Mamapress reitera a sua posição de o racismo no Brasil vai aparecer e se evidenciar cada dia mais. Vai aparecer não pelo racismo de agora ser maior ou menor do que antes. Mas sim porque os discriminados não estão mais engolindo as desculpas esfarrapadas dos racistas que sempre alegam que têm um pé na cozinha quando querem esconder os crimes racistas que cometem.
Já temos toda uma geração de empregadas domésticas que exigem seus direitos trabalhistas. Temos toda uma geração de trabalhadores negros que, que já não mais aceitam que seus companheiros brancos ganhem mais e sejam sempre promovidos na frente deles. Já temos toda uma geração de intelectuais formados lá fora que podem sustentar de igual para igual com os intelectuais brancos as discussões e reivindicações trazidas pelos 53% da população não branca. Infelizmente maioria destes intelectuais formados em todas as disciplinas, foram formados lá fora, pois aqui no Brasil, a academia reservou aos negros e indígenas estudarem os negros e indígenas, viramos uma disciplina.
Queremos mais, queremos estar no poder em todas as instituições. Temos homens e mulheres negras e indígenas de todas as idade preparados para esta tarefa, e não me venham com esta velha história que precisamos esperar os investimentos em educação para termos igualdade. Dou meu exemplo pessoal: Em minha experiência profissional no Brasil, a maioria da pessoas brancas a quem eu fui subordinado, não tinham o preparo que eu tinha, hoje a maioria é rica e senta em Brasília enquanto eu… tive minha carreira de sociólogo de tal forma bloqueada que tive que sair do país em 1989.
Quantas vezes tive que pedir à uma funcionária negra, com 30 anos de serviços sem nenhuma promoção, que tivesse a gentileza de “escolarizar” a loura que iria ser chefe dela no secretariado, que nem um memorando escrever o sabia, mas como branca representaria melhor a recepção no gabinete do chefão branco?
As discussões à cerca do racismo que sempre foram colocadas debaixo do tapete, e estavam reduzidas aos circuitos do movimento negros e grupos discriminados como os grupos mulheres, indígenas e LGBT, viraram questão nacional desde as manifestações de junho de 2013.
O desaparecimento depois de torturado do corpo de Amarildo levaram os jovens de classe média das grandes cidades do Brasil que sempre viveram nos condomínios e escolas segregadas, ao descobrirem que estavam sendo tratados como negros pelas policias estaduais especializadas em maltratarem, torturarem e eliminarem negros na história do Brasil.
A perversidade do sistema racista e de apartheid que sustenta e mantém uma elite branca ou esbranquiçada no Brasil, saiu de suas margens de só atacar os guetos e hoje estende suas garras a todos os cidadãos e os perseguem mesmo dentro de seus computadores.
Fomos todos nivelados por baixo, fomos todos nivelados pela discriminação antes reservadas aos negros e indígenas.

Quase que ao mesmo tempo os brasileiros descobrem que têm um juiz negro na maior corte do país, juiz de carreira e que chega ao topo, elevando-se à categoria de ser o único e primeiro negro no Brasil a assumir esta posição no Brasil. Este exemplo nos nivelou por cima a todos o negros no Brasil. Em um país em que nós negros e indígenas somos segregados em tudo, descobrimos que também podemos entrar na máquina responsável por nos manter através da lei longe da propriedade e dos bens econômicos do Brasil. De nela entrar e transformá-la pode ser um passo. Esta possibilidade remota dede mudar o sistema judiciário que manda para as prisões  medievais milhares de negros, assusta. Assusta a simples possibilidade de negros julgarem e assim também brancos irem para a cadeia. Pela primeira vez então os brancos da elite brasileira, muitos deles que já passaram pelos porões da ditadura, se lembram e derramam lágrimas de crocodilos, sobre as condições desumanas em que vivem milhares de negros encaixotados em porões em que a tortura é o simples ir para lá. A justiça brasileira ao condenar alguém não o pune por seus mau-feitos, mas sim pela sua cor e condição econômica. Mandar alguém pobre e preto para a prisão no Brasil para simples averiguação, é dar a pena de morte ou tortura perpétua. A única saída para esta pessoa é baixar a cabeça ou se tornar fera para massacrar e cortar cabeças de outros iguais.

Todos estes acontecimentos que vivemos nos últimos dois anos são momentos emblemáticos, que escancaram para todos o Brasil racista que só inglês podia ver.

Vivemos um momento chave em nosso país que pode influenciar e propiciar a mudança da mentalidade racista de todos nós brasileiros. Está na hora de termos solidariedade um com os outros e reconhecermos que o sistema de apartheid racial e econômico no Brasil, nos atinge a todos e à nossas famílias. Que está nos destruindo a todos

A entrevista do RFI com o Ministro Barbosa, revela um ministro do STF, também preocupado com esta questão. O próprio STF com esmagadora maioria de brancos quatrocentões, em decisão memorável reconheceu a dívida do Brasil para com os negros e indígena e homologou em 2012 as cotas como constitucionais.

É essa discussão que nos interessa e nos interessa fazê-la com responsabilidade, pois estamos todos sentados em um Barril de Pólvora evidenciado pelo genocídio de nossa juventude negra, que precisa ser finalmente enfrentado.
O linchamento que alguns setores da sociedade fazem atualmente do Ministro Joaquim Barbosa, é por nós considerado como uma fuga da discussão do racismo institucional que perpassa toda a nossa sociedade desde o alto escalão de Brasilia, passando pela composição racial dos quadros que comandam as redações de nossos veículos de comunicações, até as chefias de cozinha nos grandes clubes e hotéis.
Enfrentamos o racismo em todas as esquinas, este é o fato. (Marcos Romão- editor da Mamapress)

Artigo nos  de Lúcia Müzel, que nos foi enviado pelo advogado Humberto Adami

Joaquim Barbosa sobre o racismo: diplomacia brasileira “é muito discriminatória”

Lúcia Müzell fonte: RFI

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa STF

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa
STF

Em 1993, quando deixou Paris com um título de doutor recém-conquistado na Universidade Panthéon-Assas, Joaquim Benedito Barbosa Gomes não imaginaria que, quase 20 anos depois, seria o primeiro negro a assumir a presidência do Supremo Tribunal Federal. A nomeação, entretanto, é uma exceção em um país onde o racismo se esconde atrás de piadas e os negros permanecem longe de ter acesso às mesmas oportunidades que os brancos, apesar de comporem a maioria da população. Em entrevista exclusiva à RFI, Barbosa afirma que um dos piores exemplos é a face brasileira no exterior: a diplomacia, segundo ele, ainda “é muito discriminatória”.
Durante sua curta passagem por Paris, na semana passada, o presidente do STF foi recebido como convidado de honra no Conselho Constitucional francês, uma das instituições de maior prestígio do país. Poucos minutos antes de embarcar em um trem rumo a Londres, onde cumpre a segunda etapa de compromissos oficiais na Europa, ele conversou com a RFI.

Na semana passada, enquanto os jornalistas brasileiros aguardavam o senhor em um café na praça da Sorbonne, um garçom francês, negro, reconheceu o seu nome e sabia quem o senhor era. O senhor já é reconhecido no exterior?
Eu sempre tive o hábito de parar na praça da Sorbonne, não somente para tomar um café mas para estudar. Eu gostava de ficar ali. Mas em relação a um garçom ter me reconhecido, isso representa o fato de que os negros se reconhecem em qualquer lugar do mundo. Eles se reconhecem uns nos outros.

A sua carreira é de exceção no Brasil: um negro de origem humilde que chega à presidência do STF. Hoje, foram implantadas as cotas, por exemplo, entre outras ações para integrar melhor os negros na sociedade, inclusive em altos cargos. O senhor acha que a situação melhorou?
As coisas melhoraram um pouco nestes últimos 20 anos. Mas eu acho que nós ainda precisamos de bastante cotas em diversas áreas, porque 50 ou 51% da população é formada por negros. Entretanto, eles ainda se encontram em situações de inferioridade, sofrem discriminação, conseguem empregos ruins. No Brasil, nós não vemos os negros em cargos de direção nas empresas, ao contrário de outros países. A nossa diplomacia é formada em 99% por brancos e é muito discriminatória. Ou seja, ainda temos muito a fazer. Muito mesmo.

Na Europa, essa pouca representação dos negros nos altos cargos no Brasil, um país tão miscigenado, causa estranheza. O senhor acha que o Brasil é um país racista?
É um país onde o racismo é latente. Não é explícito: é latente. Ele é disfarçado, e se mostra nas situações nas quais os negros são excluídos. Quando alguém é surpreendido em um ato racista, ele muda de discurso, faz como se não fosse nada, diz que era uma brincadeira, reafirma que o país é uma mistura de raças, lembra que tem uma tia negra. Porém, em tudo aquilo que conta de verdade, na economia, nas posições de comando, os negros são excluídos.

Recentemente, a ministra francesa da Justiça, Christiane Taubira, foi alvo de vários ataques racistas. O senhor se encontrou com ela na semana passada. Vocês conversaram sobre este assunto?
Sim, nós falamos. Eu acho isso vergonhoso para a França. Uma mulher com muitas qualidades, como a ministra da Justiça Taubira, ser alvo de atos de machismo e de racismo. Nós estudamos na mesma faculdade de Direito em Paris, Panthéon-Assas, embora não tenhamos nos conhecido na época. Ela estudava em Assas e eu fazia o doutorado em Panthéon. E nós conversamos sobre incidentes racistas que nós dois tivemos na época. Houve brigas envolvendo a extrema-direita no campus, coisas assim. Eu acho tudo isso assustador. Porém, na França pelo menos existe o debate, enquanto, no Brasil, tudo fica escondido. Tudo fica como se fosse uma brincadeira. As medidas necessárias [contra o racismo] não são tomadas. O assunto é tratado com superficialidade. O assunto não é levado a sério, e este é o problema.

Durante as manifestações do ano passado, o senhor era visto como um ídolo. O seu nome era evocado para a presidência da República. Nos últimos meses, entretanto, o senhor virou alvo da imprensa, como por exemplo sobre o pagamento de diárias durante a sua viagem à Europa. Como o senhor sentiu essa mudança?
Isso não me incomoda. Isso faz parte do caráter um pouco provinciano do debate público no Brasil. Eu gostaria de debater as coisas sérias. É isso que me interessa. Mas tem uma certa imprensa sem escrúpulos no Brasil, pessoas pagas por fundos governamentais e que só querem saber de me atacar, mas eu só faço o meu trabalho. Faço o meu trabalho e não estou nem aí para essas pessoas.

Questionar a sua honestidade o incomoda?
São os brasileiros que devem dizer se sou honesto, e não estes maus-caracteres.