Tia Eron e os “Pastores” da esquerda


Por Marcos Romão

Certa vez, caro amigo Valmiro Oliveira Nunes,*** uma velha raposa política, democrata empedernida como eu. Me falou que o exercício da democracia é como escovar os dentes, só se aprende os escovando todos os dias.Tia Eron

Temos realmente um quadro lamentável de mandatários no congresso, nas câmaras estaduais e municipais, como você assevera e acrescenta que “somente o exercício da política e da democracia, em linhas gerais, poderá melhorar a qualificação do Congresso.”
Vou além. Já são 26 anos que a sociedade discutiu distribuição ou não dos bens produzidos e ou acumulados pela economia. Se discutiu muito, mas só lá em cima.

Pouco se discutiu sobre cidadania e participação popular não conduzida de cima para baixo.
Resultado é que temos uma esquerda de soldadinhos de cartilhas e uma direita de paus mandados de cabrestos, que quando abrem a boca, de um lado e de outro, causam a vergonha da nação, tal a mediocridades de argumentos e distância da realidade daqui de baixo que apresentam.

Sofremos nos últimos 26 anos a deterioração da cultura de discussão democrática. A demonização do adversário político nos botou neste beco sem saída.
Esta anomia ou falta de comando político central, que aconteceu paulatinamente até chegar ao ponto de termos um “ex-governo” ao lado de um “quase governo”. Libera a olhos vistos, o que há de mais retrógrado no país a nível dos costumes e ações de ódio, como assassinatos de jovens negros, massacres de povos indígenas e violência generalizada de norte à sul contra as mulheres.

O locus onde acontecem todas estas violências e negação da cidadania, são os municípios.

A mesma prática corrupta levada a cabo na Petrobrás, assistimos em todos o municípios do Brasil com suas secretarias com poder de compra. Ao olharmos os cartéis milionários dos empresários de ônibus, podemos sentir onde aperta o nosso calo econômico nos “coletivos” lotados.

Como discutir os cortes federais na economia, se estamos dominados e medrosos nos municípios, exatamente nas nossas paradas de ônibus, filas de postos de saúde e de guichês de pagamentos de salários que atrasam?

Fora Temer, fora Dilma, fora Renan ou fora Cunha são temas que passam ao largo, quando se sai de casa nos horários de trégua entre o Caveirão e o Tráfico.
Desaprendidos de nossas cidadanias, estamos aqui em baixo levando porrada e morrendo sem saber para onde ir.

Precisamos voltar a conversar sobre quais são nossas necessidades prementes e o que queremos.

São 26 anos que os movimentos sociais estão sendo engabelados, cooptados e aparelhados pelos partidos políticos.
É deste castelo de cartas que precisa cair, que falo. E para isto o Movimento Negro e os Movimentos sociais precisam conversar com todo mundo. Até com tia Eron, que segundo notícias de jornais, era madeira mandada até ontem, quando deu seu grito de libertação, mesmo que momentâneo e individual.
Temos que parar de sermos “pastores” de esquerda apontando o dedo para deus e o mundo.

 

*** Valmiro Nunes é um velho amigo jornalista e ativista do Movimento Negro e membro da Cojira.

Nos últimos 40 anos temos conversado sobre os caminhos para a democracia brasileira e a vida dos negros e todos os cidadãos brasileiros para além da sobrevivência física.

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Um pensamento sobre “Tia Eron e os “Pastores” da esquerda

  1. Excelente texto. A bola está correndo atrás de quem pode tratá-la com carinho e esse é a movimentação negra, pois, como afirmou Neném Prancha (sic), quem desloca (todo dia de ônibus, bicicleta, a pé… para o trabalho) tem preferência!

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