Reflexão sem cólera


Por Marcos Romão

Tem horas que me pergunto se a nossa falha política secular que nos mantém invisíveis e sem poder, não seria o fato de ficarmos esperando por reconhecimento.
Isto cria amargor, como escuto em muitos relatos de negros e de índios.
Nós podemos e fazemos o melhor que podemos em todos os campos da vida.
Alguns de nós até superam em muito em seus feitos a média geral da nação.

“NO BRASIL, MINHAS DUAS MEDALHAS DE OURO VALEM LATA”, AFIRMOU ADHEMAR FERREIRA DA SILVA AO FIM DA VIDA. vide texto completo

Esta expressão amarga da vida do criador da “Volta Olímpica”, em Helsinque 1952, Adhemar Ferreira da Silva, bicampeão olímpico em salto triplo, me impressionou em minhas buscas do porquê, em uma nação majoritariamente negra, os negros não conseguem arranhar o poder político, sequer na Roma Negra Salvador, sendo governados por um caldo neocolonial branco, desde a fundação da república e fim da escravização forçada.

A espera de reconhecimento do senhorzinho branco, nos aprisiona eternamente, na síndrome de que só somos alguém quando eles nos veem, no bem e no mal.
Arrebentar esta corrente do eterno segundo lugar da vida, para mim só é possível quando nos reconhecermos coletivamente entre nós mesmos enquanto cidadãos livres.
Aí cada indivíduo que é cada pessoa negra, liberado desta prisão do olhar do capataz branco, que o vigia a cada passo em todos os campos de sua existência, poderá desabrochar em sua capacidade criativa.
Este poder individual do que nós somos e podemos, será assim conquistado, quando pararmos de gastar energias em esperar reconhecimento dos que levam vantagem com o sistema racista por serem brancos.
O poder racista vive da potencialização da relação sadomasoquista dos que levam vantagens com o racismo poroso do Brasil, com os que são contínua e secularmente discriminados. Mesmo quando se abrem para um diálogo, perguntam se não estamos querendo demais.
E este querer demais, que para o negro e o indígena no Brasil, é simplesmente querer ser si-mesmo, é um desejo demasiado torturante para o branco, que ao não nos enxergar, não enxerga a si mesmo.

O branco no Brasil que não nos enxerga, está fora do mundo. Ele não se relaciona com o mundo.

A forma que este branco encontra de se achar próximo ao mundo da realidade cotidiana em que todos vivemos, é uma forma chupante, vampiresca mesmo. Se relaciona com o mundo como um dependente do esforços, da dor, do sofrimento, da alegria e do amor quente como um sangue que o outro produz.
Reconhecer a si mesmo, é então para o índio e o negro no Brasil, um soco no espelho na imagem que eles têm de nós, os não existentes.

Como nos contos de terror, vampiro não se vê no espelho, assim o branco não nos vê, ao também não poder se olhar no espelho.
Por isso precisam nos instruir e nos orientar, e até nos obrigar a sermos como uma imagem deles, que encha o espelho da vida que eles não dominam e não possuem.

Esta relação sadomasoquista estabelecida pelo poder branco, com os negros e índios no Brasil, faz com que os negros e índios percam um tempo danado, em agradarem os desejos dos brancos, sem que nunca lhe restem tempo nem para saberem de seus próprios desejos, e muito menos para satisfazerem-se.

Sexta-feira deve ter chegado um dia à conclusão, que fazia tudo na ilha, e que não precisava mais do Robson Crusoé para nada.adhemar

Neste momento ele deve ter quebrado o espelho da dependência com o colonizador, que o o refletia como um eterno incapaz, sempre em busca da gratidão e do reconhecimento do senhorzinho, de que ele fazia tudo certinho e com esforço sobre humano, enquanto o cara deitava na rede e bebia água de coco.

Deve ter sido um momento de crise existencial enorme para Robson Crusoé, ainda mais quando não temos notícias de que havia algum terapeuta na ilha, que lhe confirmasse a suspeita que tinha, que Sexta-feira, agora com um nome e um eu para si que recuperara , passara a ser um “racista ao contrário”.

Vejo toda uma geração de negros e negras no Brasil, hoje com uma quantidade mais considerável de universitários, diante deste dilema da invisibilidade, que os faz aplicar  a maior parte de seu tempo e energia em entender, porque o branco brasileiro se comporta dessa maneira especialmente perversa, que faz o racismo brasileiro nas palavras, creio que de Kabengele, o crime perfeito, em que a vítima é sempre apontada como a autora do crime.

Como Sísifo que ao empurrar a pedra até quase o pico da montanha do racismo, esta nova geração de negros e negras questionadoras da monstruosidade do racismo, a veem rolar de volta ao pé da montanha, e recomeçam do zero, o movimento de empurrar o racismo até o alto da montanha para poder jogá-lo no abismo da história.

Repetem assim o movimento de Zumbi, que volta atrás nas portas de Recife, e que vem sendo repetido a cada geração, desde as lutas pelo fim da escravização forçada, até a refrega pela conquistas de ações afirmativas por parte da nação e estado brasileiro. A sociedade branca tem sempre uma crise, quando a pedra do sistema racista está quase chegando ao topo da visibilidade para todos. Foi assim com a peste “negra” que emparedou Zumbi e Dandara no século XVII e, está sendo assim em 2016, quando a caixa “preta” das maracutaias, quando aberta, diz que ainda não chegou a hora dos pretos exercerem o seu poder de cidadão.

Mas será que esta nova geração de negras e negros capazes de exercer os seus poderes de forma coletiva, que já são uma massa considerável, irá se resignar e aceitar ser reprimida e “genocidada” como foram as gerações anteriores?

Será que esta nova geração de negras e negros, vai aceitar morrer como gado em matadouro, para que as futuras gerações contem seus feitos de mártires heróicos, que chegaram até ao salão de jantar da casa grande, mas que nada comeram, pois a festa da democracia racial havia acabado, como num sonho virtual olímpico em que saltamos, mas quando chegamos no alto, vemos que tiraram a barra e ficamos no ar a explodir como bolhas de sabão das bossas novas brancas?

Pressinto e ouço vozes, que no Brasil, nós negros e índios, estamos a caminho de darmos um salto quântico em nossas consciências, são apenas premonições das esfinges que ausculto.

As esfinges dizem que nós apenas queremos tudo.

Dizem que para termos tudo, temos que ser nós “eus” mesmos.
Dizem que somente quando formos nós mesmos poderemos nos relacionar com os outros e com a realidade que vivemos, e não com a falsa realidade projetada pelos que acham que detém a chave das correntes mentais que nos detém em nossos caminhos.

A chave para sair da ilha-prisão está com a gente e não com o Robson Crusoé.

Não precisamos com nosso espírito samaritano, nos condoermos com a dor que o branco sentirá com a sua perda de nós.

Nesta ilha chamada Brasil, já tem terapeuta suficiente para atender qualquer branco, que sofra da síndrome de abstinência, pela falta do espelho que os fazem bonitos, ao nos carimbarem como inferiores incapazes.

É óbvio também que teremos muitos negros e índios em crise por falta de um dominador. Mas que não se grile, nós negros e índios já temos uma escola terapêutica de 516 anos de conhecimento, para cuidar de quem manifestar desejo de ajuda.
‪#‎marcosromaorelexoes‬
ps: reflexão com uma ou outra pincelada de Kierkegaard, em Gesameltwerke, de Gutersloh, além de uns cascudos epistemológicos de Guerreiro Ramos

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Um pensamento sobre “Reflexão sem cólera

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