Jovens negros solidários com jovens negras que reagiram contra racistas no banheiros da USP-Ribeirão Preto


O Brasil passa por um novo momento, somos outro tipo de juventude do movimento negro. Na época de nossos mães e pais, avôs e avós, lutava-se para ter direito ao ensino básico, ao emprego digno, a salários melhores, a moradias, a respeito, a não segregação dos espaços sociais, tentava-se sobreviver. Quantos de nós pretos e pretas somos as primeiras gerações a frequentarem um ensino superior, a trabalharmos como gestores, a propormos projetos, eventos e atividades? Queremos nossa cidadania por inteiro. Temos direito a esse país. Somos descendentes daqueles que deram seu sangue, seu suor, sua vida, sua emoção, sua cultura por esse país chamado Brasil.

O que seria do Brasil sem os africanos? Foram mais de 6 milhões traficados forçadamente para cá. Abriu-se estradas, construiu-se igrejas, levantou-se prédios públicos, arou-se o campo, tocou-se o gado, animou-se os eventos festivos e tudo mais. 127 anos se passaram após a abolição, do desfecho nefasto da escravização no Brasil e ainda somos as primeiras gerações a entrarem na universidade.

Nós não precisamos pedir nada, nós viemos por que é nosso direito, nós viemos propor, nós viemos transformar essa sociedade. Cansa-nos as abordagens policiais truculentas e genocidas, cansa-nos o maus tratamento nos médicos e nos trabalhos de parto, cansa-nos a sub-representação política e econômica, cansa-nos a história racista que nos é contada nas escolas, cansa-nos os preconceitos diretos e indiretos por causa da nossa pele, da nossa cor.

O desabafo agressivo na USP foi contra tudo isso, foi contra pretensas pessoas educadas e brancas que covardemente escreveram palavras racistas no banheiro, contra os casos de racismo que explodem em diversas universidades do Brasil, por causa da nossa pele, da nossa cor.

Nós apoiamos as jovens da Faculdade de Direito da USP – Ribeirão Preto, pois não acreditamos que elas tenham sido racistas, ou praticaram racismo reverso, justamente porque racismo ao reverso não existe. Racismo, na nossa concepção filosófica e jurídica emana de um determinado poder e tem base consuetudinária. O poder emana das pessoas brancas, que são os símbolos da opressão na nossa sociedade. Esse poder dominante, quase que por “osmose reversa” considera os pretos e pretas dessa sociedade, pessoas incapazes, entre outros adjetivos pejorativos.

Os costumes da nossa sociedade são os fatos crescentes e latentes de preconceito contra pessoas de cor. Basta procurar nos Boletins de Ocorrência, nos Jornais, como existe milhares de casos de agressões racistas contra o preto e a preta, seja na escola, seja no banco, seja na universidade, seja no mercado de trabalho, sejam em qualquer ambiente social no Brasil. Os casos contra os brancos são ínfimos. Ou seja, racismo advém de uma supremacia branca que domina o país.

Foram 400 anos de trabalhos forçados como escravizados no país. Até hoje nenhuma reparação foi feita. Não distribuíram terras para os “negros” como fizeram para muitos imigrantes. Não abriram postos de trabalhos exclusivos para os “negros” como fizeram para os imigrantes. Os negros saíram da escravidão com uma mão na frente e outra atrás.

As riquezas do açúcar, do café, do algodão, da borracha, do ouro e pedras preciosas, do cacau, foram todas transferidas para os brancos, sem indenização alguma para os pretos. Isso não é vitimização. Os ancestrais dos descendentes de brancos nesse país cometeram o maior crime que se poderia cometer na face da Terra. São os maiores criminosos impunes. Não podem recusar, porque nós somos as testemunhas vivas do sequestro, do estupro, da pilhagem, da crueldade, do assassinato, que os brancos promoveram na face da Terra.

São os maiores criminosos impunes. Não podem recusar, porque nós somos as testemunhas vivas do sequestro, do estupro, da pilhagem, da crueldade, do assassinato, que os brancos promoveram na face da Terra. O Brasil como pessoa jurídica carrega consigo a culpa de todas as atrocidades e tem uma dívida histórica com negros. Não é vitimismo, somos vítimas mesmo! É por isso que os racistas nos devem até a alma!

 

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