“Isso não é um golpe de estado”


le monde

Charge publicada no jornal Le Monde Diplomatique

Não faltam meios, faltam as mensagens.

Erdogan para dar um contra-golpe na Turquia só precisou de um celular, que transmitiu sua voz e imagem.

Sua mensagem foi retransmitida em poucos minutos por milhares de vozes de Muazins do alto de minaretes.

Ela foi escutada em todas as esquinas do país. Funcionou a alta tecnologia digital, combinada com o antigo gogó replicado. 

Em 15 minutos, milhões de pessoas nas ruas barraram o poder de fogo dos tanques de guerra.

Se a democracia falada via celular por Erdogan, era a mesma democracia defendida pelos milhões de cidadãos que foram as ruas, é outra conversa.

A comunicação aconteceu em segundos, pois o que o mandatário falou, era o que estava na boca do povo.

Minaretes e celulares foram apenas os canais-instrumentos de transmissão de um conteúdo legítimo da expressão popular.

No Brasil não temos esta constelação, temos uma rede de comunicação autárquica, auto-suficiente em si mesma, que produz a realidade problema, e encontra a solução para os problemas que ela mesma cria, que nada tem a ver com a nossa realidade cotidiana.

Assim assistimos mudanças de governos, em que se troca seis por meia dúzia, na qual  os atores da novela burlesca são os mesmos, como dramas televisivos, que assistíamos quando crianças.

Agora estão um pouco mais velhos e com botox, mas sempre os mesmos vestais em branco já encardido, com suas purezas cerzidas.

Dramaturgos gregos tiram os chapéus diante da montagem de nossa tragédia à brasileira.

Foram dantescos os momentos que presenciamos, cheiramos e sentimos em 2013 e 2014, quando  milhares de brasileiros envoltos em nuvens de gás lacrimogêneo, levavam tiros de borracha e aço, cacetadas em todas as partes do corpo, sendo presos e torturados durante a prisão, sob os olhos estendidos de cidadãos-celulares.

Apanhavam da polícia dos governadores do PT, PMDB e PSDB porque gritavam: O Sistema está Falido.

Foram fantásticos e surpreendentes, os momentos que assistimos em 2015, quando outra parte da população brasileira foi às ruas de verde e amarelo, conclamados pela Poderosa, e foi recebida a cada domingo de braços abertos, pelas polícias dos mesmos governadores das porradas nos outros, que agora abriam para eles passagem, para que gritassem:

O Sistema está Falido.

Foi dantesco em 2016, quando assistimos centenas de deputadoss, que como num palco de bêbados em um cabaré de madrugada, vociferarem ódio contra tudo e todos que que caracterizassem a diversidade do Brasil.

Eles gritavam: Nós Somos a Família. O Sistema não está falido. O Sistema Somos Nós. Nossas famílias, amigos e cachorros.

Foi como em uma comédia Bufa de fim de feira de gado,  assistirmos o arauto da execução perguntar, mata ou não mata a Rainha, quando todo o público já sabia, que ela era a peça da vez no ritual do sacrifício para manter a vida longa do sistema. 

O presidente do senado-teatro sorri enigmático, enquanto o novo presidente se zanga, ao ver que a cortina do sistema não fecha, pois já não mais existe.

No Brasil, o Tigre de Papel morde e deixa marcas indeléveis em nossa dignidade cidadã.#marcosromaoreflexoes

Por Marcos Romão
Ao invés de fortalecer a transmissão da informação através de canais horizontais feita por cidadãos e cidadãs em todo o país, através de rádios e tvs comunitárias associadas a canais abertos de rádio e televisão do sistema nacional de comunicação do Sistema EBC, os governos até agora apostaram em “comissários”, que com seus blogs e canais nas redes sociais, buscaram se contrapor à poderosa rede Globo, usando os mesmos métodos de propaganda, marquetagem e maquiagem de notícias utilizados pela “Poderosa”.

Cuidaram da água suja das narrativas com contra narrativas não tão limpas e,  esqueceram-se do “Bebê-Informação” que estava na bacia, quando chegaram na beira do Rio Planalto Central, cheio de futricas boiando.

Dançaram feio e só restaram palavras de ordens vazias, distante que ficaram da população. Pois má informação ou propaganda ideológica, acabam convencendo  os autores, que o que inventaram é que é a realidade.

A população brasileira recebeu nos últimos meses uma dose cavalar de informação não filtrada. Isto é bom demais.

Os marqueteiros já estão a buscar “narrativas” que expliquem porque nos informaram falsamente , que dava para escovar os dentes com um dentifrício que não estava dentro do tubo informativo.

A informação não está no Planalto Central, a informação sobre o que vivemos e o que queremos, está nas ruas em nossas esquinas.

O maior problema de comunicação que temos, não é a “Poderosa”, mas a impossibilidade de comunicação entre as esquinas do país. O problema não é a falta de comunicação, mas o invólucro do conteúdo do que está sendo comunicado.

A repressão que se abateu por parte da Anatel sobre as rádios e tvs comunitárias, fazem parte de um sistema, que não só que impediu e  impede a população de se informar, mas que principalmente impede a população de expressar suas demandas, desejos e opiniões.

A “Poderosa” e os Blogueiros “Alternativos” da contra narrativa, e que até ontem eram financiados, operam com o mesmo material, as futricas palacianas, que nem de perto tem a ver com a vida cotidiana da população brasileira.

Na maioria das vezes trocam a absoluta falta de informação  por informação nenhuma. É um nada vezes nada, que só aumenta a ignorância geral, e afasta cada vez mais o povo brasileiro da participação das decisões políticas.

Antes de perdermos o poder de nosso voto, e a possibilidade de sermos informados, perdemos o poder de informarmos o que queremos.
Perdemos através das porradas, bombas de gás, balas de borracha nas zonas das elites e balas de aço nas periferias.

Um jornalista não precisa de um grande jornal para transmitir o que houve na sua esquina, basta dar uns passos e passar a informação para a próxima esquina e lá encontrar uma parceria que leve a voz dos outros adiante. Jornalista não é gestor, jornalista é um contínuo, um despachante.

Sacar que esta é a realidade que vivemos não é de hoje, que a mídia em geral não está transmitindo o que o cidadão fala em cada esquina, pode facilitar encontrar caminhos, para chegarmos a um jornalismo, em que a informação correta sobre os anseios de um povo, é o meio de se estabelecer a democracia, e não um fim para quando chegarmos a um estado democrático.

CARTA DE TEMER A DILMA Publicada na Coluna do Moreno


do Original Coluna do JORGE BASTOS MORENO 07/12/2015 22:56
dilma-temer

 

 

 

 

 

 

 

 

São Paulo, 07 de Dezembro de 2.015.

Senhora Presidente,
“Verba volant, scripta manent”.
Por isso lhe escrevo. Muito a propósito do intenso noticiário destes
últimos dias e de tudo que me chega aos ouvidos das conversas no Palácio.
Esta é uma carta pessoal. É um desabafo que já deveria ter feito há
muito tempo.

Desde logo lhe digo que não é preciso alardear publicamente a
necessidade da minha lealdade. Tenho-a revelado ao longo destes cinco anos.
Lealdade institucional pautada pelo art. 79 da Constituição Federal. Sei quais
são as funções do Vice. À minha natural discrição conectei aquela derivada
daquele dispositivo constitucional.

Entretanto, sempre tive ciência da absoluta desconfiança da senhora
e do seu entorno em relação a mim e ao PMDB. Desconfiança incompatível
com o que fizemos para manter o apoio pessoal e partidário ao seu governo.
Basta ressaltar que na última convenção apenas 59,9% votaram pela aliança.
E só o fizeram, ouso registrar, por que era eu o candidato à reeleição à Vice.

Tenho mantido a unidade do PMDB apoiando seu governo usando o prestígio
político que tenho advindo da credibilidade e do respeito que granjeei no
partido.

Isso tudo não gerou confiança em mim, Gera desconfiança e
menosprezo do governo.
Vamos aos fatos. Exemplifico alguns deles.
1. Passei os quatro primeiros anos de governo como vice
decorativo. A Senhora sabe disso. Perdi todo protagonismo político que
tivera no passado e que poderia ter sido usado pelo governo. Só era
chamado para resolver as votações do PMDB e as crises políticas.
2. Jamais eu ou o PMDB fomos chamados para discutir
formulações econômicas ou políticas do país; éramos meros acessórios,
secundários, subsidiários.
3. A senhora, no segundo mandato, à última hora, não
renovou o Ministério da Aviação Civil onde o Moreira Franco fez
belíssimo trabalho elogiado durante a Copa do Mundo. Sabia que ele
era uma indicação minha. Quis, portanto, desvalorizar-me. Cheguei a
registrar este fato no dia seguinte, ao telefone.
4. No episódio Eliseu Padilha, mais recente, ele deixou o
Ministério em razão de muitas “desfeitas”, culminando com o que o
governo fez a ele, Ministro, retirando sem nenhum aviso prévio, nome
com perfil técnico que ele, Ministro da área, indicara para a ANAC.
Alardeou-se a) que fora retaliação a mim; b) que ele saiu porque faz
parte de uma suposta “conspiração”.
5. Quando a senhora fez um apelo para que eu assumisse a
coordenação política, no momento em que o governo estava muito
desprestigiado, atendi e fizemos, eu e o Padilha, aprovar o ajuste fiscal.
Tema difícil porque dizia respeito aos trabalhadores e aos empresários.
Não titubeamos. Estava em jogo o país. Quando se aprovou o ajuste,
nada mais do que fazíamos tinha sequencia no governo. Os acordos
assumidos no Parlamento não foram cumpridos. Realizamos mais de
60 reuniões de lideres e bancadas ao longo do tempo solicitando apoio
com a nossa credibilidade. Fomos obrigados a deixar aquela
coordenação.
6. De qualquer forma, sou Presidente do PMDB e a senhora
resolveu ignorar-me chamando o líder Picciani e seu pai para fazer um
acordo sem nenhuma comunicação ao seu Vice e Presidente do Partido.
Os dois ministros, sabe a senhora, foram nomeados por ele. E a
senhora não teve a menor preocupação em eliminar do governo o
Deputado Edinho Araújo, deputado de São Paulo e a mim ligado.
7. Democrata que sou, converso, sim, senhora Presidente,
com a oposição. Sempre o fiz, pelos 24 anos que passei no Parlamento.
Aliás, a primeira medida provisória do ajuste foi aprovada graças aos 8
(oito) votos do DEM, 6 (seis) do PSB e 3 do PV, recordando que foi
aprovado por apenas 22 votos. Sou criticado por isso, numa visão
equivocada do nosso sistema. E não foi sem razão que em duas
oportunidades ressaltei que deveríamos reunificar o país. O Palácio
resolveu difundir e criticar.
8. Recordo, ainda, que a senhora, na posse, manteve reunião
de duas horas com o Vice Presidente Joe Biden – com quem construí
boa amizade – sem convidar-me o que gerou em seus assessores a
pergunta: o que é que houve que numa reunião com o Vice Presidente
dos Estados Unidos, o do Brasil não se faz presente? Antes, no episódio
da “espionagem” americana, quando as conversar começaram a ser
retomadas, a senhora mandava o Ministro da Justiça, para conversar
com o Vice Presidente dos Estados Unidos. Tudo isso tem significado
absoluta falta de confiança;
9. Mais recentemente, conversa nossa (das duas maiores
autoridades do país) foi divulgada e de maneira inverídica sem nenhuma
conexão com o teor da conversa.
10. Até o programa “Uma Ponte para o Futuro”,
aplaudido pela sociedade, cujas propostas poderiam ser utilizadas para
recuperar a economia e resgatar a confiança foi tido como manobra
desleal.
11. PMDB tem ciência de que o governo busca
promover a sua divisão, o que já tentou no passado, sem sucesso.
A senhora sabe que, como Presidente do PMDB, devo manter
cauteloso silencio com o objetivo de procurar o que sempre fiz: a unidade
partidária.

Passados estes momentos críticos, tenho certeza de que o País terá
tranquilidade para crescer e consolidar as conquistas sociais.
Finalmente, sei que a senhora não tem confiança em mim e no
PMDB, hoje, e não terá amanhã.

Lamento, mas esta é a minha convicção.

Respeitosamente, \ L TEMER
A Sua Excelência a Senhora
Doutora DILMA ROUSSEFF
DO. Presidente da República do Brasil
Palácio do Planalto
Brasília, D.F.

Chame o Lula!


Carlos Azedo
Correio Braziliense – 07/07/2015

O povo assiste “bestificado” à alta da inflação, ao desemprego e ao escândalo da Petrobras. Mas há uma grande manifestação “Fora, Dilma!” convocada pelas redes sociais

A presidente Dilma Rousseff convocou ontem uma reunião de líderes e presidentes de partidos da base aliada para uma demonstração de que não existe uma crise política, muito menos a sua iminente deposição por uma conspiração envolvendo líderes da base aliada e da oposição, como foi amplamente especulado no fim de semana.

Pela manhã, reuniu a coordenação de governo e escalou o vice-presidente Michel Temer para dar uma inédita entrevista coletiva no Palácio do Planalto, cuja principal afirmação foi a seguinte: “Não temos crise política, porque significaria o fato de o governo não ter apoio do Congresso Nacional. (…) Vocês veem que temos tido apoio do Congresso”, disse. “Brincadeira!”, diria o falecido Bussunda.

Segundo Temer, tanto a Câmara quanto o Senado aprovaram as medidas provisórias que compõem o ajuste fiscal, proposto pelo Executivo para reduzir gastos e reequilibrar as contas da União. “Eu faço distinção do interior da palavra crise, que é usada muito genericamente, quando tem crise econômica, crise política. O que não se quer é crise institucional”, disse o vice-presidente.

Nada disso impediu que, nos bastidores do Congresso, circulasse a estória de que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva estaria se preparando para assumir a Casa Civil e Temer, a pasta da Justiça, no lugar do petista José Eduardo Cardozo. Boatos são cada vez mais frequentes em Brasília.

Políticos do primeiro time costumam ser ardilosos, estrategistas, dissimulados e frios. Michel Temer encabeça a lista de caciques do PMDB com esse perfil. Não costuma cair com o barulho das balas, nem dá ponto sem nó. Hoje, é o principal fiador do que ainda resta de governabilidade para Dilma Rousseff.

Não foi muito diferente o comportamento de outros vices que assumiram a Presidência, como Café Filho (PSP), após o suicídio de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954, e Itamar Franco, com a renúncia de Fernando Collor de Mello, em 2 de outubro de 1992, antes de o Congresso aprovar seu impeachment. Em ambos os casos, houve muito povo na rua.

Duas táticas

 Por enquanto, apesar das manifestações de junho de 2013 e de 15 de março deste ano, o povo assiste “bestificado” à alta da inflação, ao desemprego e ao escândalo da Petrobras. Mas há uma grande manifestação “Fora, Dilma!” convocada pelas redes sociais para 16 de agosto, que pode ser engrossada pelos partidos de oposição. E existe, de fato, uma ampla articulação política para que o vice Michel Temer assuma o poder, no lugar de Dilma Rousseff, que já conta com a simpatia de setores importantes do empresariado e do Congresso.

Os líderes do PMDB tentam convencer Temer de que não há outra alternativa, porque a petista não teria mais condições políticas de liderar o país. Argumentam que a presidente chegou a um ponto sem retorno em termos de desaprovação popular e perda de credibilidade. O impeachment de Dilma pelo Congresso dependeria da rejeição de suas contas de 2014 pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e de uma condenação das “pedaladas fiscais” no atual mandato, o que configuraria crime de responsabilidade.

A oposição ganhou força porque o PT se opõe cada vez mais ao ajuste do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e o PMDB resolveu mitigar as medidas do arrocho fiscal. Com isso, a situação da economia se agravou. Além disso, as investigações da Lava-Jato atingiram o Palácio do Planalto, abalando ainda mais a imagem da presidente da República. Não há, porém, unanimidade quanto ao impeachment.

O PSDB aposta na impugnação da eleição de Dilma Rousseff por abuso de poder econômico e financiamento ilegal de campanha, uma vez que as contas de campanha de Dilma Rousseff ainda não foram aprovadas e serão julgadas brevemente, em meio às denúncias de que teria recebido dinheiro sujo da corrupção na Petrobras. Nesse caso, novas eleições teriam que ser convocadas, no prazo de 60 dias, com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), assumindo o governo provisoriamente.

Essa proposta é criticada por setores do establishment, que temem as incertezas de uma eleição disputada a toque de caixa por Aécio Neves (PSDB), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Marina Silva (Rede). Preferem que Temer assuma e forme um governo de salvação nacional, sem os petistas, para enfrentar a crise e conduzir o país até as eleições presidenciais de 2018.

Diante dessas articulações, a presidente Dilma Rousseff resolveu reforçar a articulação política com os ministros Gilberto Kassab (Cidades), do PSD; Aldo Rebelo (Ciência e Tecnologia), do PCdoB; e Jaques Wagner (Defesa), do PT; além do líder do governo no Senado, o senador Delcídio Amaral (PT). Só falta mesmo convocar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que também ficaria blindado em relação ao juiz federal Sérgio Moro, de Curitiba, o ferrabrás da Operação Lava-Jato.