Suprapartidarismo como forma de combate ao racismo


Protesto em frente ao Colégio Internacional Anhembi Morumbi manifestou apoio a estagiária que acusa a diretora da escola de racismo-2011 foto Marina Morena Costa

Protesto em frente ao Colégio Internacional Anhembi Morumbi manifestou apoio a estagiária que acusa a diretora da escola de racismo-2011 foto Marina Morena Costa

por Humberto Adami

do original: Afrobrasileiros nossa voz

Cada vez mais percebo que a partidarização como combate ao racismo é um mal em si mesmo, multiplicadora da ausência de quadros relevantes. Afasta pessoas, torna vítimas do racismo, cegas em si mesmas.

O fato de pertencer a um partido político, coisa tão simples que ocorre com a assinatura de uma ficha de filiação, não deveria separar pessoas em grupos ou nichos. Ou se assim o fizesse, deveria existir para reunir pessoas e não para separá-las.

Não é que os partidos políticos não devam e não possam participar de tal debate, ao contrário. Mas discriminar outros discriminados porque são de outros partidos, ou privilegiar só aqueles da agremiação partidária é algo que torna suspeita, as atividades e sentimentos de tal pessoa. Não é aceitável que se privilegie os negros do PT, porque são do PT ou do PSDB ou do PMDB ou do PSTU ou do PSOL, ou de qualquer partido. Há um limite que tenho observado e que não deveria ser ultrapassado.

Na época da Ministra Matilde Ribeiro, essa atitude fez existir duas marchas Zumbi dos Palmares + 10. O ano era 2005. A marcha dos sem partidos, no dia 16 e a marcha dos com partido, no dia 22. Perderam todos. Os espaços políticos foram diminuídos, e o espetáculo de desagregação foi o já comum antes visto. Apesar disso, alguns não aprenderam e seguem colocando partidos políticos à frente da própria luta contra o racismo. Não penso e não ajo assim.

As balas perdidas que atingem pobres e pretos não indagam a que agremiação política estes pertencem. É uma pena que tais espaços anexos aos partidos (já que todos eles, quase sempre, não fazem parte da direção do mesmo), não sejam usados indistintamente, em prol do combate ao racismo. Enquanto partidos políticos tem ido regularmente ao STF contra cotas, quilombolas, feriado de Zumbi dos Palmares e PROUNI, não se vê tais estruturas partidárias atuarem em auxílio de seus mandatos parlamentares para proliferaram a agenda positiva do Movimento Negro. Como se vê, ausentes os partidos políticos dos grandes julgamentos do STF, na questão racial.

Em outros assuntos, os partidos políticos ajuízam ações, contratam advogados, fazem a diferença. Veja-se a questão da Liberação da Maconha. Quando eu trabalhei como Ouvidor da SEPPIR, tentei bastante que os colegas partidários levassem seus partidos ao apoio formal das ações judiciais. Eles, no entanto, entendiam que: 1) não era o caminho 2) que contribuía para a judicialização, embora o partido que judicializava não perguntasse nada para os demais 3) que colocava em risco as decisões políticas 4) que o Direito está à reboque das transformações da sociedade. Um deles quando conseguiu que o partido decidisse ir à juízo, o fez sem se atentar às regras da Advocacia e perdeu o prazo de ingressar com a ação. Muito feio, um vexame.

Por causa disso tudo, sempre me pauto pela forma suprapartidária de atuar, garantindo espaço a todos. Não vejo como o combate ao racismo se intensificar, enquanto tais ponderações não forem um mantra. Daí porque muitas atuações de combate ao racismo não ultrapassam o adjetivo de “periféricas”. É nesse sentido que tenho entendido como deva ser a atuação da Comissão Nacional da Verdade da ESCRAVIDÃO NEGRA no Brasil, do Conselho Federal da Ordem dos Advogados. A OAB é de todos os brasileiros.

Confudiram Anistia Ampla Geral e Irrestrita, com esquecimento do passado e violações generalizadas no presente


A Anistia Ampla Geral e Irrestrita foi confundida com esquecimento e apagamento da história das crueldades e barbaridades conexas, cometidas no período da Ditadura Civil-Militar que imperou no Brasil durante 21.
Muitos de seus agentes, não só os torturadores, mas mentores, colaboradores, dedo-duros e informantes estão hoje no poder e nas suas franjas menos visíveis.
O esquecimento do passado condena toda a geração atual, a conviver com pessoas que até hoje mantém uma vida dupla. Que são clandestinas de si mesmas, que posam de democratas, vestem cargos públicos e dão conselhos para a sociedade, mas que escondem seus passados fascistas e que nunca foram chamados à responsabilidade.
A lei do silêncio que se abateu na sociedade brasileira pós-anistia, permitiu que a máquina do terror e violações da pessoas humanas, ganhasse novas formas, se espalhasse por todos os setores da sociedade, e criasse toda uma cultura de aceitação da violência por todos nós, das torturas e execuções em nome do Estado, praticadas por alunos, dos “doutores da violência” formados no período da ditadura.
Hoje, os métodos da ditadura civil-militar são aplicados nas periferias brasileiras. O vídeo “Em busca da Verdade” é para mim menos que uma viagem ao passado, e mais um desafio a debruçarmos nas causas da guerra silenciosa que vivemos hoje no Brasil. Mudaram os protagonistas, mas os papéis continuam os mesmos. ‪#‎marcosromaoreflexoes‬

Foto de Senado Federal.

Escrúpulos de consciência ou os fins justificam os meios.


Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense – 20/09/2015

As investigações da Operação Lava-Jato desnudam uma crise ética que coloca em xeque o próprio governo Dilma Rousseff. Revelou-se o esgotamento de um modelo de financiamento dos partidos

Políticos profissionais, em sua maioria, são pragmáticos ao extremo e não estão entre os seres mais escrupulosos. Em O Príncipe, Nicolau Maquiavel dizia que a legitimação do poder, fundamental para a conquista e a preservação do Estado, depende muito desse pragmatismo e da falta de escrúpulos: “Quando um príncipe deixa tudo por conta da sorte, ele se arruína logo que ela muda. Feliz é o príncipe que ajusta seu modo de proceder aos tempos, e é infeliz aquele cujo proceder não se ajusta aos tempos.”

Na construção do Estado moderno, a forma como a “virtú” foi colocada em prática em nome do governo passou ao largo de valores cristãos e da moral. “Não cabe nesta imagem a ideia da virtude cristã que prega uma bondade angelical alcançada pela libertação das tentações terrenas, sempre à espera de recompensas no céu. Ao contrário, o poder, a honra e a glória, típicas tentações mundanas, são bens perseguidos e valorizados. O homem de virtú pode consegui-los e por eles luta.”

Escrúpulos de consciência costumam ser deixados de lado quando o que está em jogo é a preservação do poder. “Um príncipe não deve, portanto, importar-se por ser considerado cruel se isso for necessário para manter os seus súditos unidos e com fé. Com raras exceções, um príncipe tido como cruel é mais piedoso do que os que por muita clemência deixam acontecer desordens que podem resultar em assassinatos e rapinagem, porque essas consequências prejudicam todo um povo, ao passo que as execuções que provêm desse príncipe ofendem apenas alguns indivíduos.”

Daí surgiu a interpretação de que os fins justificam os meios, que às vezes parece ser uma regra de ouro dos políticos, somente confrontada pelo fato de que, numa sociedade democrática, a “ética das convicções” – que leva os políticos a não medirem esforços para alcançar seus objetivos – deve ser contida pela “ética da responsabilidade”. Nesse sentido, na interpretação de Max Weber, um dos pais da sociologia moderna, caberia à burocracia assegurar a legitimidade dos meios aos quais recorrem os políticos.

A História do Brasil coleciona exemplos dessa prática. “Às favas, senhor presidente, neste momento, todos os escrúpulos de consciência”, disse o então ministro do Trabalho e da Previdência Social, Jarbas Passarinho, durante a reunião ministerial que decidiu editar o AI-5, em 1968, durante o governo Costa e Silva. A frase foi modificada na ata sem prejuízo de sentido (as “favas” foram trocadas pela conjugação verbal “ignoro”). Desnecessário tecer mais detalhes sobre as consequências da decisão, que assinalou o endurecimento do regime militar, que durou até 1985.

O caso do mensalão e, agora, o escândalo da Petrobras, num contexto histórico completamente diferente – perseguidos com base no AI-5 é que estão no governo –, são também uma demonstração de que os escrúpulos de consciência foram deixados de lado no exercício do poder. O esquema montado na petroleira estatal para financiar campanhas eleitorais do PT, PMDB e PP, segundo o Ministério Público Federal, não tem precedentes: dezenas de políticos estão sendo investigados, executivos e donos de empreiteiras, e altos funcionários da empresa foram presos e estão sendo condenados. O projeto de perpetuação no poder derivou para a grande roubalheira.

Os reflexos do escândalo estão em toda parte. As investigações da Operação Lava-Jato desnudam uma crise ética que coloca em xeque o próprio governo Dilma Rousseff. Do ponto de vista institucional, revelou o esgotamento de um modelo de financiamento da grande política nacional e dos seus principais partidos. O Supremo Tribunal Federal (STF) de quinta-feira passada, por 8 votos a 3, que declarou inconstitucionais normas que permitem a empresas doar para campanhas eleitorais. A decisão do STF não proíbe que pessoas físicas doem às campanhas. Pela lei, cada indivíduo pode contribuir com até 10% de seu rendimento no anterior ao pleito, o que não está regulamentado e beneficia quem já está no poder.

Mas voltemos aos escrúpulos de consciência. Parece que a presidente Dilma Rousseff também está mandando-os às favas no ajuste fiscal. Depois de o governo defender uma lei que permita a entrada no país de recursos depositados ilegalmente no exterior – isto é, dinheiro acumulado ilicitamente, das mais diversas formas, como tráfico de drogas, contrabando e desvio de recursos públicos –, o Palácio do Planalto avalia aprovar uma lei legalizando o jogo do bicho, os bingos e a instalação de cassinos, como forma de aumentar a arrecadação. Ou seja, mais uma vez, os fins justificariam os meios

Psiquiatra é condenado a pagar indenização por preconceito racial


A justiça é lenta mas está caminhando. São necessários exemplos para acabar com a impunidade de quem comete atos racistas no Brasil.

De acordo com os autos, no dia 29 de abril de 2012, no Shopping Liberty Mall - Cine Cultura, em Brasília/DF, o réu proferiu, na presença de várias pessoas, palavras ofensivas à honra subjetiva da vítima, consistente na utilização de elementos da raça e da cor.

De acordo com os autos, no dia 29 de abril de 2012, no Shopping Liberty Mall – Cine Cultura, em Brasília/DF, o réu proferiu, na presença de várias pessoas, palavras ofensivas à honra subjetiva da vítima, consistente na utilização de elementos da raça e da cor.

Segunda-Feira, Dia 07 de Setembro de 2015

Em sessão de julgamento realizada na tarde de quarta-feira, (2/9), a 5ª Turma Cível do TJDFT confirmou sentença da 12ª Vara Cível de Brasília que condenou o psiquiatra Heverton O. de C. Menezes  a pagar indenização por danos morais no valor de R$ 50 mil, por ofender atendente de cinema, utilizando elementos de raça e cor. A decisão foi unânime.
De acordo com os autos, no dia 29 de abril de 2012, no Shopping Liberty Mall – Cine Cultura, em Brasília/DF, o réu proferiu, na presença de várias pessoas, palavras ofensivas à honra subjetiva da vítima, consistente na utilização de elementos da raça e da cor. A autora afirma que, no referido dia, trabalhava normalmente, como atendente de caixa do cinema, tendo o réu exigido que fosse atendido com preferência aos demais clientes, em face do início da sua sessão, às 15h. Alega que, educadamente, orientou-o a esperar na fila, pois os outros clientes também iriam assistir à mesma sessão. Inconformado, o réu disse que ela estava sendo “muito grossa com ele”, passando a proferir declarações racistas, tais como “o seu lugar não é aqui, lidando com gente, por isso você é dessa cor. Você deveria estar na África cuidando de orangotangos.” Diante disso, a vítima ficou sem reação e começou a chorar, permanecendo inerte por todo tempo.
O réu, por sua vez, alega que a autora negou-lhe atendimento preferencial, infringindo o disposto no art. 3º, parágrafo único, da Lei 10.741/2003. Argumenta que continuou tentando o aludido atendimento, negando qualquer preconceito de raça. Sustenta que não teria havido dano moral, mas mero desentendimento com a atendente do cinema.
Para o desembargador relator, afirmações do réu, constantes dos autos, “retratam um descaso reiterado com os direitos fundamentais alheios e, via de consequência, com a justiça. Esse comportamento reprovável demanda a necessidade de que haja uma firme e urgente resposta do Poder Judiciário em favor da parte considerada vulnerável da relação, no caso em exame, a apelada/autora, atacada verbalmente em seu local de trabalho com expressões desrespeitosas que a inferiorizavam em decorrência da cor da sua pele”.
O magistrado segue destacando que “a postura agressiva do apelante/réu, que, aborrecido com uma situação cotidiana, desferiu palavras desrespeitosas contra a apelada/autora com a intenção de desvalorizá-la em decorrência da cor da sua pele e características físicas, é inadmissível e completamente reprovável no atual Estado Democrático de Direitos que vivenciamos, devendo ser repreendida pelo Poder Judiciário”, visto que “o preconceito racial, entendido como uma ideologia que preconiza a hierarquização dos grupos humanos em função de sua cor, raça ou etnia, atribuindo a determinada categoria características que a inferiorizam, deve ser combatido e enseja reparação por danos morais”.
No caso em tela, o Colegiado entendeu que o quantum indenizatório fixado na 1ª Instância (R$ 50 mil) está adequado, diante da conduta reprovável do réu que, “sendo profissional da área médica – psiquiatra – que lida com os mais variados traumas, distúrbios e preconceitos, deveria ser exemplo moral de conduta e não disseminador de preconceito racial”. A esse valor deverão ser acrescidos juros e correção monetária.
Processo: 2012.01.1.101087-5 APC
Na esfera penal, Heverton O. de C. Menezes foi condenado pela 3ª Turma Criminal do TJDFT pelo crime de injúria racial, em 2/10/2014, à pena de 1 ano e 4 meses de reclusão em regime aberto e 12 dias-multa. O réu recorreu da sentença.
Em tempo:
No crime de racismo, o ofensor visa a atingir um número indeterminado de pessoas, enquanto na injúria racial ele atinge a honra de determinada pessoa, valendo-se de elementos referentes à raça, cor, etnia, religião, origem ou à condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência.
Processo: 2012.01.1.075815-7 APR
        Fonte: Da redação (Justiça em Foco), com TJDFT.

O xixi de um neurocientista negro e o racismo à brasileira


por marcos romão

Publicado originalmente em 30.8, no meu perfil do facebook, em comentário sobre que tipo de situação racista aconteceu com o neurocientista Carl Hart em São Paulo.

Carl Hart 2015

Carl Hart 2015-foto internet

Não vi o Carl Hart, em nenhuma das entrevistas dadas, minimizar o problema/incidente ocorrido com ele em um hotel de São Paulo e que ganhou manchete nacional.
Nas duas entrevistas que ele deu, ele apenas coloca em seu ponto de vista a dimensão do incidente ocorrido com ele, e a dimensão e gravidade da questão racial brasileira.
As interpretações das mídias é que ficaram ao gosto do freguês/jornalista.
O Globo interpreta com a manchete, “ Neurocientista nega ter sofrido discriminação racial em hotel“, o blog “Justificando” iniciou a série de “interpretações”, dizendo que ele foi “barrado” no hotel, afirmação que depois o blog atenuou.
Temos neste incidente além do fato racista em si, que foi o comportamento de um segurança que ele nem percebeu, o “antirracismo solidário”, mas precipitado do blog “Justificando”, ao colocar o Carl como vítima de uma coisa que não aconteceu da forma descrita como “barrado” e, o “racismo de apagamento dos fatos” típico da nossa mídia”, que antes de ir fundo em qualquer apuração, escreve de cara a velha frase,” não houve discriminação”.
Carl relata sua surpresa ao sair do banheiro, quando foi abordado por pessoas que vierem lhe pedir desculpas.
Neste momento deve ter acendido o sinal de alarme que todo negro possui em qualquer lugar do mundo, quando acontecem casos relacionados com a sua cor. Para ele foi uma coisa pequena, um “pequeno incidente”, disse o cientista.
Para um negro brasileiro que circule nesta áreas nobres, isto não teria acontecido, pois acostumados que estamos com o racismo à brasileira, teríamos falado antes com o porteiro ou recepcionista, ou cumprimentado qualquer cão de guarda e feito um sinal de que estávamos apertados e por isso estávamos com pressa para fazer xixi, pois somos domesticados no Brasil a antecipar e evitar problemas que envolvam “impedimentos” raciais.
Ao contrário de minimizar o problema, creio que conscientemente, Carl demonstrou o racismo estrutural e onipresente do Brasil. Onde nós negros e negra temos sempre que pensar duas vezes onde e quando vamos mijar nas áreas nobres das cidades brasileiras.

Negro doutor barrado em hotel “vira” neurocientista com dreads e três dentes de ouro


por Rosane Aurore e Marcos Romão

Será que o porteiro do hotel Tivoli Mofarrej na capital paulista, pediu para o neurocientista Carl Hart abrir sua boca e mostrar seus dentes, antes dele entrar no recinto para dar sua conferência?

“Carl Hart é negro e veio a São Paulo palestrar sobre a guerra às drogas e como ela é usada para marginalizar e excluir parte da população. Antes de se tornar um cientista respeitado, com três pós-doutorados, e um dos maiores nomes sobre o estudo de drogas, era usuário de crack. Ele decidiu tornar-se especialista nos efeito do crack para entender como a droga tinha destruído sua comunidade. E virou um neurocientista, com seus dreads e os três dentes de ouro.”

A notícia começou na redação da mídia Justificando, espalhando-se viroticamente nas redes sociais. Blogs e portais repetiram a matéria da discriminação racial, sofrida pelo negro Carl Hart, na capital paulista no hotel Tivoli Mofarrej.  Agora todos sabemos que Carl Hart tem dentes de ouro e cabelos dreads.  Mais um caso de racismo”cosmético”, segundo a visão tradicional brasileira.

Estamos mais uma vez diante do sensacionalismo e indignação para inglês ver, como no caso de discriminação sofrida em 1950, no Rio de Janeiro, pela negra americana, a  bailarina, coreógrafa e educadora e ativista pelos direitos civis Katherine Dunham, que foi impedida de se hospedar no Hotel Serrador. O caso gerou na época até a criação da lei Afonso Arinos, que penalizava o racismo como contravenção.  Afonso Arinos morreu em 1990 sem nunca ter visto alguém ser penalizado por esta lei. Saiba mais sobre a lei 1390.

A notícia vale pelo exótico, o ressaltar a descrição “neurocientista, com seus dreads e três dentes de ouro”, joga para escanteio sua principal acusação contra o racismo brasileiro. Acusação feita na lata para os ouvintes de sua palestra no hotelTivoli Mofarrej, que pagaram jetons de ouro para escutá-lo, escutar sua visão contrária às políticas adotadas em relação à drogas e que causa a morte violenta em sua guerra, de milhares de jovens negros no Brasil.

Carl Hart olhou para a platéia, repleta de pessoas que decidem sobre vida e morte de negros no Brasil e, perguntou para uma platéia só de brancos:
“Olhem para o lado, vejam quantos negros estão aqui. Vocês deviam ter vergonha”

Carl Hart não é qualquer acadêmico como os que vivem nas “Torres de Marfins” universitárias brasileiras, nem é um “gringo” que confunde Buenos Ayres com Conceição de Mato Dentro. Carl é um acadêmico e ativista, ele quer salvar vidas.

Antes de dar suas palestras a peso de ouro para os especialistas em “enxugar” gelo e suas política erráticas de “guerra às drogas”, Carl Hart conversou com a comunidade negra brasileira e interessados que não podem pagar nem são convidados para estes seminários exclusivos.

Ele sabe muito bem que ele é  um negro com visão global da questão, que atinge todos os continentes, mas os que mais sofrem em todos os continentes com as políticas adotadas contra as drogas,  são os grupos vulneráveis da sociedade, pobres, negros e todos os excluídos. Para os que estão em perigo da adição, ele apresenta a alternativa da inclusão na sociedade e, não na execução sumária como é de costume no Brasil.

Ao contrário do que a imprensa brasileira tentou fazer com Katherine Dunham, que de coreógrafa, ativista pelos direitos civis, especializada em antropologia da dança e virou “bailarina”, que na imprensa ninguém sabe de “que dança”, e da forma como Carl Hart está sendo descrito, é preciso saber que está cada vez mais difícil invisibilizar o racismo contínuo e estrutural e a luta contra ele, e que  os movimentos pelos direitos dos discriminados veem o racismo como questão global e atuam internacionalmente há décadas.

A todos os jovens jornalistas do Brasil, recomendamos que prestem atenção para não caírem nas armadilhas da individualização e escamoteação do racismo no Brasil, descrevendo-os como fatos episódicos.

Não ter nenhum negro na platéia da conferência de Carl Hart  sobre um  problema que atinge em maior grau a população negra brasileira,  é  que é o tema e o escândalo.

Ainda não vimos publicado nenhum desagravo ao Carl Hart, assinado pelos especialistas presentes na conferência. Bota vergonha nisto!

Nota atualizada

Após a notícia que o neurocientista Carl Hart teria sido barrado, notícia que inclusive a Mamapress comentou,  página Fluxo no Youtube  divulgou um vídeo/entrevista em que Carl esclareceria a situação. O Globo replicou  o material do “Fluxo”, com a manchete “ Neurocientista americano nega ter sofrido discriminação racial em hotel“.

Nas duas matérias Carl Hart releva o fato acontecido consigo e,  o considera de menor importância, além de afirmar  que o entrevistador do Blog Justificando, teria tirado suas declarações do contexto, associando erradamente o incidente acontecido, com o que falou em sua conferência. Assim como o que falou para o repórter sobre o que percebeu sobre as situação de isolamento em que os negros no Brasil.

O blog que publicou a matéria inicial, postou a entrevista feita com Carl Hart falando sobre o incidente ocorrido na entrada do hotel.

Como a nossa preocupação na Mamapress é esclarecer o máximo possível os/as nossos leitores/as, e sabedores de que tudo que tenha a ver com noticiar sobre racismo no Brasil, tem que se pisar em ovos, pois nem tudo é o que parece, e o que é dão sempre um jeito de deixar de ser. Para nós o que está claro é que Carl Hart não foi barrado na entrada do hoetel Tivoli Mofarrej. O que lá se passou ele mesmo em entrevista conta.

Trazemos assim os dois vídeos para que nosso/as leitores/as possa tirar suas conclusões:

Jorge da Silva, uma ótica negra sobre racismo e segurança pública: “Nós temos um modelo Macabro”.


Por Marcos Romãojorge da silva 2

“O racismo é uma questão política”, afirma o professor Jorge da Silva, “existe um grande perigo em cairmos só nas denúncias do racismo individual. A empregada impedida de entrar pelo elevador social, a apresentadora negra de  tv sendo xingada nas redes sociais”. Para Jorge da Silva nestes casos até os racistas mais conservadores, se indignam com o racismo e postam sua solidariedade com a pessoa discriminada.

Na opinião de Jorge, isto acontece desta forma porque interessa aos racistas como forma de esconder o racismo estrutural, de que fatos racistas como estes acontecem todo dia em todos os prédios do Brasil.

Pode-se falar da apresentadora da Tv Globo que foi discirminada, mas todos se esquecem ou não sabem que quem determina toda a linha editorial  da rede Globo, chama-se Eli Kamel, um declarado opositor das cotas para negros, prossegue Jorge da Silva.

Causa um alvoroço na sociedade o fato do negro Joaquim Barbosa ter ascendido à presidência do STF, com elogios de toda a sociedade, mas ninguém fala que com sua saída, o STF recuperou sua cota racial histórica de 100% de brancos em sua composição. Porque é natural, por que sempre foi assim, porque é assim nossa estrutura racial brasileira, é o que nos relata Jorge com sua longa experiência no studo e combate ao racismo.

Mas Jorge da Silva não para por aí, em só falar das elites brancas que dominam o país, vai mais fundo e crítica a postura de negros que acham que só porque são negros, podem tecer teses sobre o racismo, sem estudar como o racismo funciona e suas origens históricas no Brasil desde a mentira da lei do ventre livre.

“Racismo e segurança não são questões jurídicas e sim políticas, quem faz as leis e determina quais e como serão executadas, não são os negros.

Governadores , secretários de seguranças e  deputados tem repetido ao longo de nossa curta história democrática, que bandido bom é bandido morto, que mulher negra é fábrica de bandidos ou como disse o secretário Beltrame, ao comparar vida de pobres e negros mortos logo após a matança de 19 pessoas no Complexo do Alemão, “que não se pode fazer omelete sem quebrarmos os ovos.”

Neste vídeo temos uma pequena e profunda aula de história e de política brasileira.
Repetindo o que Jorge da Silva diz, aos poucos a sociedade brasileira vai descobrindo que o racismo é uma questão a ser resolvida de forma política. Só falta conhecimento e vontade.

Cultne esteve presente no plenário da CAARJ/OAB com imagens e edição de Filó Filho, registrando a palestra do professor Jorge da Silva que discorreu sobre “Segurança Pública” com casa cheia na sua maioria jovens de várias áreas, em especial a área de Direito.

Jorge Da Silva é Doutor em Ciências Sociais pela UERJ e professor-adjunto da mesma Universidade. Nascido e criado no hoje chamado Complexo de Favelas do Alemão, no Rio, serviu antes à Polícia Militar, corporação em que exerceu o cargo de chefe do Estado-Maior Geral. Foi também secretário de Estado de Direitos Humanos / RJ.