A Anja Negra de Berlim. A Yalorixá Mãe Beata de Yemanjá


Anja Negra de Berlim-Babalorixá Beata de Yemanjá-foto Yone Guedes

Anja Negra de Berlim-Babalorixá Beata de Yemanjá-foto Yone Guedes

por Marcos Romão

Foi um arraso. O Babalorixá de Berlim, Murah Soares confeccionou as Asas de Anjo, para que Mãe Beata cumprisse seu desejo de criança, que não pode sair aos sete anos de idade vestida de anjo na procissão de sua cidadezinha no Recôncavo Baiano.
” Onde já se viu anjo preto”, vociferou sua professora, quando Beata se apresentou para ser Anja, e vestir as asas que sempre vira seu pai fazer para a escola, como era tradição do “Fazedor de Asas de Anjo” do vilarejo.
Seu pai sempre dizia, enquanto ela brincava com as asas que seu pai fabricava no quintal: ” Assim que você entrar na escola e aprender a ler, vai poder também sair de “Anja dos Céus” na procissão da igreja.
Ledo engano. Beata teve que esperar mais de 70 anos para completar seu sonho de criança.
Mãe Beata contou sua história de menina para milhares de alemães, nos palcos de Hamburgo e Berlim. Ela estava ao lado de Tereza Santos, Othella Dallas na peça Olhos D´Água, dirigida e contracenada por Ismael Ivo.
Elas contavam as histórias de 3 mulheres negras e suas sagas oriundas dos sequestros transatlânticos, que os povos de África foram submetidos e suas vidas de mães de santo, intelectuais e artistas vencedoras e carregadoras das tradições e memórias de seu povo negro na Diáspora Negra.
Ras Adauto embarcou na ideia, convocou a falecida fotógrafa negra Yone Guedes, me desbanquei de Hamburgo e fomos em caravana para a praça onde fica o “Anjo de Berlim”.
Estava frio, mas aquela senhorinha aspergia calor em volta de felicidade. A polícia passou umas duas vezes, mas foi adiante diante daquela inusitada aparição, uma Anja Negra no coração de Berlim, a capital em que foi assinado o Tratado de divisão de destroçamento de África e seus povos na Conferência de Berlim em 1885.
Todos levitamos, foi provado que o mundo dá voltas e o que é da mulher o bicho não come.
Meninas eu vi!
‪#‎rominapowerreflexoes‬

Anja Negra de Berlim-Babalorixá Beata de Yemanjá-foto Yone Guedes

Anja Negra de Berlim-Babalorixá Beata de Yemanjá-foto Yone Guedes

Anja Negra de Berlim-Babalorixá Beata de Yemanjá-foto Yone Guedes

Anja Negra de Berlim-Babalorixá Beata de Yemanjá-foto Yone Guedes

Anja Negra de Berlim-Babalorixá Beata de Yemanjá-foto Yone Guedes

Anja Negra de Berlim-Babalorixá Beata de Yemanjá-foto Yone Guedes

Anja Negra de Berlim-Babalorixá Beata de Yemanjá-foto Yone Guedes

Anja Negra de Berlim-Babalorixá Beata de Yemanjá-foto Yone Guedes

“As Divas Negras no Cinema Negro Brasileiro” e a “kineasta” inglesa Vik Birbeck


MAIS UM RESGATE DO ACERVO CULTNE

Vik Birkbeck no Flash de Amaury Jr falado sobre o seu documentário “AS DIVAS NEGRAS DO CINEMA BRASILEIRO”

por Marcos Romão
Vik Birbeck eu poderia dizer, é a mulher inglesa que renasce no berço do movimento negro e no movimento indígena contemporâneo brasileiro.

divas-vikChegou ao Brasil em pleno governo Geisel em 1975.

A partir de 1981, já lado de seu então companheiro Adauto dos Santos, o conhecido cineasta e jornalista Ras Adauto que hoje vive em Berlim, Vik Birbeck imergiu com sua câmera no invisível mundo negro e indígena no Brasil.

Com sua câmera nos ombros documentou que se passava no Brasil da abertura, como ela própria fala, “abertura” do Geisel. Imergiu e ficou e, só vai na Inglaterra de visita.

Criou com Ras Adauto a empresa de produção de vídeos “Enugbarijô Comunicações”, e circularam como peixes dentro d´água, pelos movimentos sociais, principalmente dos negros e dos indígenas no Brasil.

Teve assim a oportunidade de participar e ser uma das principais motoras e testemunhas dos documentários, que retratam as ações artísticas, culturais e políticas dos negros e dos índios do Brasil, numa época em que nem se sonhava que um dia surgiria “smartphones”.

As televisões, o o cinema apresentavam, como ainda apresentam o negro e índio como personagens de coro grego, que mudos ficam, ao fundo dos nos eventos sociais, culturais e políticos do país e nos teatros e filmes da vida.

Grandes manifestações sociais que eclodiam pelo país na década de 80, não apareciam nas telinha globais, mas Vik e Adauto, como era conhecido o casal de jovens cineastas na época, lá estavam imersos no seio do movimento negro com as câmaras nos ombros e nas mãos, sempre remando contra o vento do “mainstream”  visual brasileiro predominantemente branco.

Ouso até dizer que sem o trabalho de documentação do protagonismo negro, realizado por Vik&Adauto, que vem sendo resgatado pela inciativa negra, “Acervo Cultine”, nossos netos digitalizados de hoje poderiam dizer que estaríamos contando lorotas. Pois até hoje a história da movimentação política dos negros no Brasil, não é relatada nas resenhas anuais que as TVs  apresentam em suas retrospectivas de ano novo. Mesmos nos nossos tradicionais rituais de oferendas à Yemanjá no Ano Novo, a cada ano ficamos cada vez mais desaparecidos.

Sem esta dupla e todos os fotógrafos e cineastas negros e negras das décadas anteriores, seríamos uma lenda e, sem ironias, as negras  e os negros do Brasil não passariam de “Fada Morgana inglesa”.

Tristes trópicos em em que até os ingleses veem o racismo que o branco brasileiro recusa ver.

Quem estava por trás das câmaras, finalmente apareceu.

O Acervo Cultne nos resgata em 2015 um vídeo com uma entrevista dada por Vik Birbeck, para Amaury Jr em 1989 .

É uma joia da história do processo de documentação sobre o que negras e negros faziam na década de 80 e antes. Fala do documentário internacionalmente premiado, “As Divas Negras no Cinema Negro Brasileiro”, em que as protagonistas são artistas negras do cinema e do teatro que desde a década de 50 se projetaram no cenário artístico nacional e internacional, mas que ao contrário das artistas brancas, vivem em sua maioria no ocaso e no esquecimento, salvo raras exceções.

Em suas palavras Vik afirma na entrevista em 89: ” Ruth de Souza” foi a pioneira no cinema nacional. Levou o cinema brasileiro para fora, ganhou em Cannes o prêmio de melhor atriz com “Sinhá Moça” em 1953, projetou-se nos anos 50 e 60, e agora está relegada a papéis pequenos em novelas, e isto é um absurdo, pois ela é tão atriz como Fernanda Montenegro…”

A história de Vik Birbeck e de seu olhar de mulher inglesa imersa na cultura indígena e negra do Brasil, é um retrato de como um olhar sobre a realidade brasileira, que torna invisível o protagonismo dos negros e dos índios, pode se descolonizar e mostrar o que está na cara e que ninguém vê na “TELINHA”.

Na própria entrevista podemos perceber o “incômodo” demonstrado pelo entrevistador branco brasileiro, menos familiarizado do que a cineasta já abrasileirada, com a realidade das negras e dos negros no Brasil.

Para termos uma visão melhor da importância que Vik Birbeck e de Ras Adauto tiveram para manter a memória e tornar visível o protagonismo de negras e negros no Brasil na história artística, cultural e política do Brasil, apresentamos aqui na Mamapress, “As Divas no Cnema Negro Brasileiro”, em cinco episódios digitalizados e  divulgados pelo Acervo Cutine,coordenado pelo também cineasta e ativista negro Asfilófio de Oliveira Filho, mais conhecido como Don Filó.

Documentário “As Divas Negras do Cinema Brasileiro” produzido pela Enugbarijô Comunicações em 1989.

Entrevistas e performances com atrizes negras de cinema, teatro e televisão que narram suas vidas, carreiras, discriminações e lutas no mundo artístico brasileiro. Estrelando as atrizes Zezé Motta, Ruth de Souza, Léa Garcia, Zenaide Zen e Adele Fátima, além da ativista Lélia Gonzáles.

Direção:Vik Birckbeck e Ras Adauto

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Parte 4

Parte 5

A Morte de minha Avó no meu Carnaval de Menino!


máscara de morcegopor Ras Adauto

Foi num sábado de carnaval de manha que a minha avó Maria de Lourdes caiu mortinha na sala dos aposentos da Cabeça de Porco em que morávamos em Cascadura. Eu teria 5 anos de idade e nunca mais me esqueci do filme que passou na minha frente naquele dia.

Minha mãe aos berros com as vizinhas que acorreram para ajudar. E eu e minha irma sem entender patavinas do que estava acontecendo.

Vestiram minha Avó na melhor de suas roupas e a colocaram em cima da mesa cercada com 4 velas.

E eu não entendia porque a minha avó estava ali deitada e não terminava a minha fantasia de Morcego que ela estava fazendo para mim e que me vestiria no domingo de Carnaval.

Começou a chegar gente. Vieram os urubus da Funerária “Boa Viagem” trazer o caixão da morta e chegou meu pai do trabalho e trazendo a minha máscara de Morcego.

E durante aquele sábado todo, um povaréu se instalou na casa e fizeram o gurufim.

Mas eu rondava a mesa onde minha avó estava deitada, perguntando quando ela terminaria a minha fantasia, pois o meu pai já tinha trazido até a máscara. E por que a fantasia estava lá na máquina e ela ali deitada sem fazer nada?

Minha mãe tentou me explicar que a “vovó tinha ido para o céu e não podia mais fazer a minha fantasia”.

Fiquei pelos cantos emburrado até o dia seguinte na saída do enterro.

Domingo de Carnaval – Antes do enterro sair, corri até o portão, pois havia chegado o coche para levar a minha avó embora. Era um coche todo dourado e roxo, puxados por dois cavalos magníficos, um preto e um branco, com rédeas douradas, roxas, brancas e pretas e com estrelas prateadas nas testas.

Veio um berreiro lá de dentro da casa e surgiram vários homens, com meu pai à frente, carregando o caixão da morta. Passaram por mim no portão e quando iam colocar o caixão vinha vindo um bloco de sujo todo animado pela rua Felício. Quando viram o caixão sendo colocado no coche, pararam a fuzarca e ficaram em silencio. Os que tinham chapéus, tiraram e ficaram parados até o coche se movimentar. Aí, alguém deu um apito e um bumbo bateu três vezes e voltou a fuzarca. E lá se foram eles, o Cortejo fúnebre e o Cortejo momesco descendo à rua Felício até sumirem lá embaixo.

Voltei para dentro de casa e coloquei a minha máscara de Morcego e retornei para o portão. Mas era uma folia sem graça naquele domingo cheio de Carnaval.

Isso foi há 60 anos atrás, na Rua Felício 33, em Cascadura.

Negra Panther.

imagem/art: “máscara da fantasia de morcego”

“O Barao de Itararé e o perigo, a sedução e a resistência da imprensa independente!”


por Ras Adauto

Aos meus amigos e amigas jornalistas Independentes!

barão de itararé

Barão de Itararé

Para mim, o famoso “Barão de Itararé” foi o maior sátiro do jornalismo brasileiro.

O “Barão de Itararé” era o avatar do jornalista Apparício Fernando de Brinkerhof Torelly, nascido no Rio Grande do Sul em 1895.

Ele comentava assim sobre as suas origens: “Sou uma autêntica Liga das Nações”. Apparício era filho de brasileiro com uruguaia, neto de americano, descendente de russos com índia charrua, parente de italianos.

Apparício era amigo de Vila Lobos; foi modelo do pintor Portinari, sócio do grande magnata das mídias brasileiras, pré Roberto Marinho, Assis Chateaubriand; Apresentou e foi o responsável pelo casamento da escritora Zélia Gatai com Jorge Amado; Vereador pelo Partido Comunista em 1947; Um inimigo mortal da ditadura de Getúlio Vargas; preso pela polícia política de Vargas foi torturado e conviveu com o escritor Graciliano Ramos nos porões-presídio da Ilha Grande; Virou personagem do livro de Jorge Amado, “Os Subterrâneos da Liberdade”, romance político do escritor baiano, que descreve o período sombrio da Ditadura de Getúlio Vargas.

Mas a grande façanha de Apparício foi a criação de um Pasquim perturbador e que foi um dos instrumentos mais críticos na época da Ditadura varguista: o jornal Satírico “A MANHA”.

Totalmente independente e sem nenhum compromisso ideológico, a não ser a luta pela democracia e a liberdade de expressão e de imprensa. Quando foi preso, o policiais da ditadura VARGAS, entraram na sua sala, no jornal humorístico “A MANHA” e deram-lhe uma surra. O jornal foi empastelado e a maquinaria destruida. Quando foi solto colocou uma placa na porta, que ficou a sua maior tirada humorística na história: “ENTRE SEM BATER”.

O título de BARÃO (de Itararé) foi publicado em um jornal carioca no dia 5 de dezembro de 1930, como se fosse um decreto presidencial , com estudo genealógico, brazão de nobreza, uma máscara contra gases e o mau hálito e um machado pingando sangue, com os dizeres: “Não se Trata de Sopa”.

Deixou uma frase cunhada para colocar em sua lápide quando fosse enterrado:
“O que se leva da Vida é a Vida que se leva”.todo homen que se vende itararé

Uma das frases do Barão que hoje pensei, quando meditava sobre a convulsão politica no Brasil nesse momento e as denúncias de corrupções dos dois lados que disputam a presidencia foi a seguinte:

“Há mais coisas no ar, além dos aviões de carreira”.

Essa tirada o Barão foi usada para definir a situação esquisita daquele momento do ditador dos pampas, Getúlio Vargas.

Algumas frases do Barao de Itararé:

“Os homens nascem iguais, mas no dia seguinte já são diferentes.”

“Neurastenia é doença de gente rica. Pobre neurastênico é malcriado.”

“Pobre, quando mete a mão no bolso, só tira os cinco dedos.”

“O banco é uma instituição que empresta dinheiro à gente se a gente apresentar provas suficientes de que não precisa de dinheiro.”

“Devo tanto que, se eu chamar alguém de “meu bem”, o banco toma!”

“A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana.”

“O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato.”

“A moral dos políticos é como elevador: sobe e desce. Mas em geral enguiça por falta de energia, ou então não funciona definitivamente, deixando desesperados os infelizes que confiam nele.”
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uiico barao itararé

Se fosse vivo hoje, com a sua sátira cortante e bem apimentada de crítica humorística, talvez Apparício, ou melhor do independente e debochado midiático “Barao de Itararé” certamente escreveria o seguinte, repetindo uma das suas famosas tiradas.:

“Há mais coisas no ar, além dos aviões “com carreiras”.

(e acrescentaria uma pequena nota embaixo: “quem entende de “brilho” sabe de que “helicóptero de carreiras” estamos falando”) .

O “Barao de Itararé nasceu no Rio Grande do Sul em 29 de janeiro de 1895; e veio a falecer no Rio de Janeiro em 27 de novembro de 1971. Podemos dizer que esse pioneiro do jornalismo humorítico e sátiro é ancestral de humoristas como Milor Fernandes, Ziraldo, Ykenga, Jaguar, Henfil e toda aquela turma que gravitou durante o momento da Ditadura Militar dos anos 60/70 nas abas do nanico “O Pasquim”.

O “Barao de Itararé” é Nóis!”

Negra Panther.