Preta, comunista, libertária e lésbica: É muita ousadia de Angela Davis.


por marcos romão

No artigo, que acabo de receber de minha amiga Shirley Souza, sobre Angela Davis,  com o título “Onde foi parar Angela Davis, a pantera negra mais famosa da história? Caçada pelo FBI, mas amada pelos Beatles e Rolling Stones nos anos 70, a pantera negra Angela Davis não renega o passado conturbado nem deixa de lado velhos hábitos combativos,  em suas posições nos anos 70 e 80 podemos ver muitas das perguntas que temos hoje sobre movimentos sociais, movimentos libertários, revoluções e ideologias, e todas as camisas de forças que já existiam nos 70.

Como se dizia em 70 “sapatão e comunista libertária” era abuso demais. Quem já a curtia por “dentro” assim como curtia a Escola de Frankfurt que Angela influenciou ao contrário de “aprender”, morria de rir dos “machos revolucionários” que a achavam um enigma financiada por Moscou. Angela foi uma das minhas musas políticas, cabeçais e corporais!
Sua opção pelo “Black Party” “nem integracionista nem segregacionista” ainda é queimada na fogueira dos inquisidores “doutores dos significados” da luta negra mundial.
Angela antecipou em si todas as contradições com que hoje a sociedade e os movimentos de auto afirmação, emancipação e libertação estão vivendo e se embananando, luta social versus processo libertário, que no artigo está resumido no parágrafo:
“Meu objetivo sempre foi encontrar pontos entre as ideias e derrubar os muros. E os muros derrubados se transformam em pontes”. Inimigo, o raivoso Louis Farrakhan, chefe da Nação do Islã que organizou a Marcha do 1 Milhão em 1995, acusou Angela de ser lésbica. Por isso não. Em 1997, na revista Out, ela declara: “Sim, sou lésbica”.
Em 2014 vamos viver muitas discussões parecidas no Brasil…Afinal como ela disse na entrevista e ao vivo aqui na Bahia:
“Diante da observação de que uma coisa inacreditável aconteceu, a eleição de um negro para a Presidência dos Estados Unidos, ela modera o entusiasmo. “Hoje, ninguém na Casa Branca parece se preocupar com o fato de que 1 milhão de negros estão nas prisões americanas.”

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Ela adotou o penteado dos rebelados no Quênia e fez do penteado afro um símbolo do orgulho negro
Foto: Melloul/ Corbis/ Latinstock

Leia o artigo citado:

Angela Davis é uma mulher muito digna, e também muito bonita, uma mulher de 70 anos. É professora de filosofia na Universidade de Santa Cruz, que fica entre São Francisco e Monterey, na Califórnia. Está tranquila. Ensina a seus estudantes as teorias de Karl Marx, Herbert Marcuse, Mikhail Bakunin. Quando substituímos o penteado comportado de hoje pelo black power, que se parece com uma formidável auréola negra no meio da qual estava encaixado um rosto bastante puro, então lembramo-nos de seu nome. Essa professora já idosa de Santa Cruz chama-se Angela Davis. Há 40 anos, ela foi uma das pessoas mais célebres do mundo. Uma das mais detestadas. Uma das mais admiradas.

Deus ou Diabo

O mundo se dilacerava em torno de Angela. Em Paris, 100 mil pessoas desfilavam na rua gritando seu nome, atrás de Jean-Paul Sartre e do poeta Louis Aragon. Na Inglaterra, os Beatles e os Stones entusiasmavam as multidões cantando “a pantera negra”. Na mesma época, nos Estados Unidos, o presidente Richard Nixon a amaldiçoava. Ronald Reagan, governador da Califórnia, tentou expulsá-la para sempre de qualquer universidade do estado. O chefe do FBI, Edgar J. Hoover, lançava suas tropas para caçá-la e jogá-la em uma prisão de isolamento absoluto. Essa era Angela Davis: um Diabo ou um Bom Deus. Hoje, quase meio século depois, ela não renegou nada. Está intacta.

Ela nasceu em 1944, em Birmingham, no Alabama. Não é um bom lugar para nascer quando se é negra. A América daquela época, pelo menos o sul, odiava os negros: rixas, linchamentos, Ku Klux Klan. Os pais de Angela faziam parte da pequena burguesia – o pai era professor de história na escola secundária, mas recebia tão pouco que pediu demissão para abrir um posto de gasolina; a mãe ensinava na escola primária. Eram comunistas. Moravam no bairro de Dynamite Hill. Por que esse nome? Os brancos não aceitavam que negros se instalassem próximos a eles. De tempos em tempos, as casas explodiam.

Aos 12 anos, Angela participa do boicote a um ônibus que praticava segregação. Dois anos mais tarde, graças a uma bolsa, ela vai para Nova York e continua seus estudos em um liceu de esquerda chamado Little Red School House. A moça é brilhante. Radicaliza-se. Entra na Universidade de San Diego, na Califórnia, e ali começa a militar contra a Guerra do Vietnã. Primeira prisão.

Mas é um pouco solitária. Mesmo nos movimentos negros não encontra seu lugar. Eram duas as tendências dominantes: uns sonhavam com revoltas negras hiperviolentas, como as de Watts ou as de Detroit. Do outro lado, Martin Luther King, personagem suave e brilhante, preferia “o integracionismo”. Angela rejeita as duas posições. A única saída que ela vê é o marxismo, a luta política cujo horizonte apenas o socialismo ilumina. Mas a maioria de seus amigos negros rejeita o marxismo, tido como “doutrina de homem branco”. Além do mais, ainda que Angela Davis seja marxista, ela não deseja aderir ao comunismo oficial. Continuar lendo