Procissão de santo e festa de caboclo


De alguma forma, os índios derrotados pelos fiéis do santo acabaram vencendo

Por Luiz Antônio Simas

sc3a3o-sebastic3a3o-flechasSão Sebastião é o padroeiro do Rio de Janeiro. Um padroeiro que ressalta, em larga medida, as incongruências, potências e desafios da cidade. Ele, afinal, participa da vitória dos portugueses sobre os índios tupinambás, aliados dos franceses, que habitavam a macaia carioca. Reza a tradição que o santo foi visto de espada na mão, ao lado da turma de Estácio de Sá, lutando na Guanabara. A cidade, fundada em março de 1565 para garantir o território português, para expulsar os franceses e para liquidar os índios rebeldes, cismou que tinha que ser francesa no início do século 20. A Reforma Passos derrubou cortiços e promoveu a “higienização” — eu uso a terrível expressão da época — social das ruas do Centro, em nome de projeto civilizatório de recorte europeu que sonhava com a Paris nos trópicos. O Rio expulsou os franceses para um dia tentar ser francês, ao menos do ponto de vista simbólico.

Mas como o Rio de Janeiro não é mesmo para principiantes, o negro centro-africano, banto, chegou um dia às nossas praias e conseguiu, mesmo sendo brutalmente escravizado, impor sua cultura — potente, transformadora e transformada — em contato com o caldo cultural das ruas cariocas. A partir do século 19, chegaram os iorubás. Resumo da ópera: o mesmo São Sebastião que combateu os índios acabou sincretizado nas macumbas cariocas com o inquice Mutalambô e o orixá Oxóssi, deuses caçadores das florestas africanas que viraram protetores dos caboclos do Brasil. Oxóssi e Mutalambô são donos da flecha. Sebastião sofreu o suplício sendo flechado.

Hoje, Dia de São Sebastião, é dia de as umbandas e os omolokôs cariocas celebrarem os caboclos de Oxóssi. É dia de Seu Tupinambá baixar na guma, com seu grito de índio que não enverga. Sebastião é santo padroeiro porque abençoou a vitória portuguesa contra os índios. Sebastião virou Oxóssi por obra, subversão e graça da nossa gente, nas esquinas cariocas. Os caboclos baixarão nos nossos terreiros. Tupinambá trabalhará com o seu cocar de bugre velho curador.

O padroeiro abençoou os portugueses na guerra contra os índios tamoios e acabou sincretizado com um orixá que protege a falange dos índios. Que São Sebastião seja lindamente celebrado em sua procissão e cerimônias oficiais. Mas eu desconfio que, de alguma forma, os índios derrotados pelos fiéis do santo acabaram vencendo. São eles, os tupinambás trucidados ontem, que dançam hoje nos terreiros do Rio. O dia é de São Sebastião e é deles também. O dia é nosso e, cá pra nós, entender essa cidade não é mole.

E-mail: luizantoniosimas67@gmail.com

Niterói a campeã do Apartheid no Brasil.


fonte: Mapa da Segregação Racial no Brasil

fonte: Mapa da Segregação Racial no Brasil

por marcos romão
Adoro minha cidade Niterói, mas me sinto ainda aos 62 anos de idade, como um estrangeiro, ao caminhar por determinados bairros e ambientes da cidade. Tem espaços então, em que pareço um pingo de cafe em um balde de de leite. saiba mais
É como diz meu amigo advogado da OAB, “Niterói a cidade segregada por interioranos que vieram para a província com suas mentalidades”.
São os interioranos descendentes de escravocratas, que criam muros e ainda dominam as mentes, que estabelecem o racismo geográfico e ambiental e o tratamento diferenciado das pessoas, em nossa cidade de sorriso cínico.
Niterói, a cidade em que o preto tem que saber o seu lugar, ou então ir fazer compras dos outro lado da avenida principal que dá para as Barcas na Praça Araribóia, chamada Amaral Peixoto( o almirante branco), onde pode se sentir mais à vontade e encontrar-se com os negros de São Gonçalo a caminho do trabalho na cidade do Rio de Janeiro.
Aliás, aproveito para perguntar aos meus conterrâneos papa-goiabas:
Alguém por aí conhece algum nome de rua de Niterói que tenha o nome de um negro ou uma negra. afinal o primeiro deputado federal negro do Brasil foi Claudino José da Silva do Morro do Estado? De índio eu sei que tem, mas isto não conta, pois todos já foram expulsos da cidade que os Temiminós fundaram.
Fonte: Mapa da Segregação Racial no Brasil

9 de novembro de 1989. Preguiçosos, indolentes, pouco afeitos ao trabalho, incapazes, sem iniciativa, era assim que eram chamados os “Ossis”, os “nordestinos” da Alemanha


Berlin-Wall9 de novembro de 1989

por marcos romão
Preguiçosos, indolentes, pouco afeitos ao trabalho, incapazes, sem iniciativa, era assim que eram chamados os “Ossis”, os “nordestinos” da Alemanha.
Convidado a falar em 1994 na Universidade de Hamburgo sobre os mecanismos de instalação do racismo no Brasil.

Os estudantes se espantaram que eu tenha dedicado 2/3 de minha conferência a descrever o que eu havia lido e observado nas relações entre os dois lados alemães, então unificados.

Comecei falando de um médico alemão ocidental, que me falara que os “Ossis” do leste alemão( Ost=leste), tinham uma pele mais branca e amarelada por terem recebido pouco carinho nas creches que existiam para todas as crianças na DDR-Alemanha Oriental, e que provavelmente seus males de barriga eram causados pelo fato de fazerem cocozinho em banheiros coletivos em que todos ficavam de frente para o outro ferindo a privacidade infantil.
Segui relatando que eu tinha sido testemunha ocular de talvez o maior êxodo expulsório da história mundial, em que de um dia para o outro, 16 milhões de pessoas mudaram de país e ideologia nacional sem sairem de suas moradas. De “Ossis” e comunistas, passarem a ser ocidentais e capitalistas com 100 marcos de presente para começarem a vida.
Perguntei aos estudantes e professores se eles, nascidos e criados livres no ocidente alemão, podiam imaginar o deus nos acuda silencioso que se passou em cada família dos libertados de lá, quando viram que caiu o muro. Se poderiam  enquanto ocidentais e nascidos “livres”, se colocarem nas peles de cada Ossi, quando viram suas redes de vida e sobrevivência desmancharem, e cairam na selva do capitalismo individualista.

Só um velho professor, disse que sim, pois sua familia teve que sair durante a guerra de sua região, e os avós piraram, o pai sumiu e sua mãe levou uma vida amargurada.
Falei dos estudantes sobre o que eu lia nas manchetes de jornais. Que os alemães orientais eram pouco empreendedores, que iriam acabar com a economia da Alemanha e correrem para a a ajuda social, algo como “bolsa família” de lá. Que os alemães orientais eram pouco afeitos à inventividade e por aí afora.
Foi uma hora de conversa sobre a Alemanha, ficaram chocados em estarem vendo pela primeira vez o que estava na cara. O nascimento de um novo racismo entre eles.
Na útima meia hora da palestra ficou fácil para mim explicar como se engendrou o racismo no Brasil.
Preguiçosos, indolentes, pouco afeitos ao trabalho, incapazes, sem iniciativa, assim eram chamados os índios quando os europeus chegaram ao Brasil.
Preguiçosos, indolentes, pouco afeitos ao trabalho, incapazes, sem iniciativa, assim foram chamados os negros libertos em 1888.
Perguntei aos participantes do papo, que agora já não eram mais platéia, se eles podiam se colocar na pele de um negro brasileiro recém liberto, que nem um centavo de marco recebeu para viver no novo país que era o mesmo que ele nascera.
25 anos depois da queda do muro, os alemães começam a criar equipes de profissionais nas áreas sociais, para superarem o fosso de visão de mundo e psicológico entre as duas Alemanhas unidas no papel. Já tem até uma dama de ferro Ossi, a Angela Merkel, mas ainda não chegaram juntos. Nesta semana mesmo se discute se pode haver uma coalizão em Brandenburgo entre os Sociais Democratas e o partido Link, que é um partido formado por pessoas do antigo sistema.
O alemão oriental, se quiser ter sucesso na sua nova pátria, é obrigado a viver e se comportar como ocidental. Toda a cultura que acumulou ou joga fora, ou esconde. Não pega bem mostrar o que realmente é.
No Brasil a mesma coisa, para ser um bom negro brasileiro. Se é obrigado a esquecer que é negro e nordestino. Apagar o sotaque se for possível.
2014 o muro caiu lá e aqui. Seus fantasmas estão presentes, atuam e crescem enquanto não se conversa sobre o assunto.