Marina pode ser a primeira presidente negra. De cima do muro será que dá?


De cima do muro será que dá?
size_590_marina-silvaJosé De Andrade me alertou para esta matéria da Reuters publicada na revista Exame, falando da possibilidade de Marina Silva vir a ser a primeira presidente negra do Brasil. Mas pergunto, como o próprio jornalista comenta, como poderá ganhar boa parte deste votos de mais de 50% da população, se ela não toca na questão racial no Brasil?
Na matéria é citado um assessor, que relata este ser o maior mistério da campanha de Marina, não falar da questão racial.
Entre meus amigos do movimento negro, temos mesmo nos perguntado, se votar na Marina, por ela ser negra, não seria lhe dar um cheque me branco, já que ela não fala nem se posiciona sobre a questão, contrariando toda uma nova onda positiva na sociedade brasileira, em que não só os negros e os índios falam abertamente do racismo no Brasil e de como o racismo está entranhado nas relações institucionais, econômicas, políticas, culturais, religiosas e pessoais em nossa sociedade, como também a maioria dos jovens que foram às ruas com dezenas de reivindicações, mas que elevaram a um dos maiores símbolos deste movimento, a denúncia do racismo e violência que atinge as populações de periferia e que tiveram em Amarildo e seu desaparecimento, a sua bandeira maior.
Como já estamos calejados de vermos negros e negras, que ao assumirem uma posição de prominência na sociedade, evitam falar do racismo, e quando abrem a boca, é só para fazer calar os outros negros que se levantam contra o racismo, como o caso de Pelé em relação ao jogador Aranha. Eu e meus amigos ficamos com um pé atrás, pois não queremos que nossa juventude tenha que fazer de novo. todo o trabalho que tivemos nos últimos 40 anos, de convencimento da sociedade em levar em conta as questões raciais nas políticas públicas que sejam implementadas.
Falar só do social, já sabemos, não alcança nossas reivindicações, como nem passa perto de nossa premência principal, que é o fim do genocídio da juventude negra.
Talvez se Marina chegar ao segundo turno, o tema relações raciais e racismo no Brasil, saia da boca da candidata negra. Quem sabe?
Por enquanto é mistério.
Só não concordo com o título da matéria, que não reflete nem a profundidade do texto, nem o fato de muitos negros a apoiarem já de agora, mas que podem mudar no segundo turno, e muitos que não a apoiam, mas que também podem mudar de opinião, dependendo de como o tema das relações raciais e das conquistas já alcançadas pelos negros e negras sejam abordados.
Um fato que me dá otimismo, é que a juventude negra brasileira demonstra no momento uma maior consciência do racismo no Brasil, e também uma maior consciência negra de autoestima, se espalha por todos os segmentos negros nacionais, independentes de seus partidos, posição social, religião e grau de escolaridade e etc.
Sem ter nenhum instituto estatístico que corrobore minha opinião, arrisco a dizer que o voto negro, está cada vez mais desencabrestado. Que tanto Marina, como Dilma corram atrás. Os Gregórios Fortunatos são coisas do passado.‪#‎marcosromaoreflexoes

Leiam a matéria de Paulo Prada

São Paulo – Os brasileiros podem fazer história este mês caso Marina Silva (PSB), uma filha de seringueiros pobres da Amazônia, seja eleita a primeira presidente negra do país. Continuar lendo

Deputados são escolhidos a partir de cálculo da Justiça Eleitoral


Como é eleito um deputado?

indios_votando4Publicado por Sindicato dos Servidores do Poder Judiciário Federal do Estado de Mato Grosso. Compartilhado por Luiz Fernando do Rio de Janeiro.
Saiba como seu voto é calculado e quem você pode ajudar a eleger indiretamente nestas eleições.

por Piero Locatelli – publicado 24/09/2014 04:02 – Fonte: Agência Brasil.

Deputados são escolhidos a partir de cálculo da Justiça Eleitoral

No Brasil, a escolha dos representantes para o poder Executivo, cargos como os de presidente da República e governador, é feita pelo sistema majoritário, baseado em uma conta simples: quem tiver mais votos ganha. Nas eleições para deputado federal, estadual e distrital, no entanto, o sistema é o proporcional, uma forma de escolha que possibilita a eleição de um candidato com poucos votos, enquanto um nome bem votado pode ficar fora do parlamento. Abaixo, entenda como funcionam as eleições proporcionais e saiba onde pode parar o seu voto:

Em quem o eleitor vota?
Cada eleitor vota em um candidato a deputado federal e outro a deputado estadual (ou distrital, se morar no Distrito Federal). Os deputados eleitos não são necessariamente os que têm mais votos, já que a definição passa pelo cálculo de dois números: o quociente partidário e o eleitoral.

Como se calcula quem ganha as eleições?
Primeiro, o total de votos válidos dos eleitores é dividido pelo número de vagas. Este é o chamado quociente eleitoral – ou seja, quanto cada partido ou coligação precisaria de votos para eleger um deputado. Por exemplo: em um estado com dois milhões de votos válidos e vinte vagas para a Assembleia Legislativa, o quociente eleitoral será de 100 mil.

Depois, os votos de cada partido ou coligação são divididos pelo quociente eleitoral. Se, no mesmo estado hipotético acima, um partido tiver 400 mil votos, ele irá eleger quatro deputados. Por fim, os quatro deputados mais bem votados do partido ou coligação serão eleitos.

Este sistema causa distorções?
Sim, pois candidatos com muitos votos podem não ser eleitos. Outros, com poucos votos, podem ganhar uma vaga.

Na última eleição, a hoje presidenciável Luciana Genro (PSOL) recebeu 129,5 mil votos para deputado federal pelo Rio Grande do Sul, sendo a oitava mais votada no estado. Genro não conseguiu um lugar entre os 31 deputados do estado, no entanto, e se tornou a candidata mais bem votada do País a não obter uma vaga. Isso ocorreu porque o PSOL não conseguiu atingir o quociente eleitoral do estado, e ficou sem vagas.

Também em 2010, Jean Wyllys (colunista de CartaCapital) foi beneficiado pelo mesmo sistema que prejudicou sua colega de partido. Com 13 mil votos, Wyllys se tornou o deputado federal eleito com a menor proporção de votos do País. O psolista ganhou uma vaga na Câmara graças à votação do seu colega Chico Alencar (PSOL-RJ), que teve 240 mil apoiadores. Com os votos de Alencar, Wyllys e outros, o PSOL-RJ teve direito a duas vagas na Câmara. Como Wyllys foi o segundo mais votado do partido, teve direito a essa vaga.voto-consciente-01

O que é um puxador de votos?
É um deputado que ajuda a eleger outros do seu partido com uma grande votação. Tiririca (PR-SP), por exemplo, recebeu 1,3 milhão de votos na última eleição, um valor bem acima do necessário para ser eleito. Com isso, conseguiu levar à Câmara mais três candidatos de sua coligação.

O efeito dos puxadores, porém, costuma ser hipervalorizado. Levantamento do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP) mostra que apenas 35 dos 513 deputados federais foram eleitos somente com seus próprios votos. Isso significa que conta mais o conjunto de votos nos candidatos do partido do que o efeito de grandes puxadores de votos.

O que é o voto em legenda?
É o voto dado a um partido, e não a um candidato. O eleitor pode escolher votar numa legenda e, desta forma, ajudá-la sem escolher um candidato em específico. Este voto conta para o partido, ou coligação, chegar ao quociente eleitoral.

O que é um suplente?
Se um deputado sai do seu cargo, o primeiro candidato mais votado da coligação assume a vaga. Geralmente a saída do cargo ocorre quando um parlamentar assume ministérios, secretarias ou o Executivo. Apenas em 2013, devido à posse de prefeitos e secretários, 17 deputados suplentes assumiram os mandatos na Câmara no início do ano.

É possível saber quem meu voto está ajudando?
Sim. Deve-se levar em conta os candidatos do partido ou da coligação em que se está votando. Em 2014, por exemplo, o eleitor de São Paulo que votar em um candidato do PT pode ajudar a eleger nomes do PCdoB, porque os dois partidos fizeram uma coligação no estado. Da mesma forma, o eleitor paulista que votar em um candidato do PSDB pode ajudar a eleger nomes do DEM e do PPS, coligados com os tucanos.

Em Minas Gerais, a situação é diferente. O eleitor que votar em um candidato a deputado federal do PT estará ajudando a eleger nomes de toda a coligação: PMDB, PCdoB, PROS e PRB. O eleitor de Minas que apostar em um deputado federal tucano, por sua vez, pode ajudar a eleger candidatos de outros 13 partidos, todos da coligação encabeçada pelos tucanos: PP, DEM, PSD, PTB, PPS, PV, PDT, PR, PMN, PSC, PSL, PTC e SD.

Todas as coligações proporcionais por estado podem ser verificadas no site do Tribunal Superior Eleitoral.

Quantos votos um partido precisa para eleger um deputado?
Depende. Este número varia conforme o número de eleitores do estado, o número de vagas, abstenção dos eleitores e votos que foram anulados. Segundo dados do TSE, nas últimas eleições o maior quociente eleitoral foi em São Paulo. Para eleger um deputado federal, o partido ou coligação teve de alcançar 314.909 votos. Para conseguir um deputado estadual, precisou de 230.585 votos.

Os menores quocientes em 2010 foram os de Roraima, onde os partidos tiveram de somar 27.837 votos para eleger um deputado federal e 9.370 para eleger um estadual.

Um senador é eleito da mesma forma?
Não. Um senador é eleito por voto direto. Caso ele saia do cargo, quem assume é um suplente que foi eleito junto com ele. Os suplentes de cada candidato também podem ser checados no site do Tribunal Superior Eleitoral.

Quais as alternativas para isso?
O sistema proporcional vigente hoje é alvo de diversas críticas, mas há grande variedade de propostas de reformas eleitorais e políticas para mudar este quadro.

A CNBB, a OAB e outras entidades propõe que o eleitor vote primeiro em um partido e, posteriormente, escolha um candidato daquela legenda. As diversas propostas de reforma política apresentadas pelo PT na última década também pedem a chamada votação em lista.

O PSDB, por sua vez, defende uma mudança na divisão geográfica dos eleitores para o chamado voto distrital. Na proposta tucana, os estados seriam divididos em diversas partes, e cada distrito escolheria somente um candidato. Parte do partido defende o sistema misto, onde alguns dos candidatos seriam escolhidos por distritos e outros continuariam no modelo atual.

Eleições: Com unhas e dentes


por Luiz Carlos Azedo

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Quem quiser que se engane, o PT utilizará todos os meios disponíveis para se manter no poder. Isso inclui a máquina federal, com seus “aparatos ideológicos”; os sindicatos e demais organizações sociais; toda sorte de aliados (PMDB, PTB, PR, PP, PSD, PCdoB e outros); o dinheiro das grandes empresas financiadas pelo BNDES e por aí vai.É bom lembrar que a presidente |Dilma Rousseff; o presidente do PT, Rui Falcão, e muitos dos integrantes do estado-maior da campanha do PT vêm de correntes políticas que atribuem o sucesso do golpe militar de 1964 ao fato de o presidente João Goulart, que foi deposto, e o líder comunista Luiz Carlos Prestes não terem reagido aos militares para manter o poder. Desconsideram a correlação de forças políticas e sociais à época, mais favorável aos golpistas.

Por que razão agora, então, entregariam a rapadura para uma candidata como Marina Silva (PSB), apoiada por dois pequenos partidos de esquerda, o PSB e o PPS, sem recorrer a todos os recursos que têm à mão para desequilibrar o jogo eleitoral a favor da preservação do poder?

Embora estejamos numa democracia, que prevê a alternância de poder, todos os ingredientes de uma disputa política como a que ocorreu em 1964 estão presentes: a mentira, a calúnia, as intrigas, os preconceitos, as ideologias, os acordos espúrios, os grandes grupos econômicos, a imprensa, as idiossincrasias dos candidatos…

Marina Silva facilitou o jogo de Lula e Dilma ao confinar sua campanha eleitoral aos ambientes fechados e perder o foco do debate sobre a mudança. Acabou por se enredar em temas que interessam mais ao mercado do que aos eleitores, como a autonomia do Banco Central e a manutenção do tripé da política de estabilização: meta de inflação, cambio flutuante e superávit fiscal.

O candidato do PSB, Aécio Neves, por sua vez, resolveu poupar o inimigo principal ao atacar Marina Silva. Luta para não virar suco, depois de se desidratar eleitoralmente em razão do “tsunami” causado pela morte do ex-governador Eduardo Campos. Involuntariamente ou não, o tucano ajudou Dilma a estancar sua queda nas pesquisas, mas não conseguiu se recuperar eleitoralmente.

Com a oposição dividida, Dilma tem fortes possibilidades de entrar na disputa de segundo turno como favorita; se isso não ocorrer, corre risco de perder a reeleição, o que será um vexame diante dos meios que mobiliza. Hoje, Marina ainda é a favorita.

Pesquisa

A presidente Dilma Rousseff ampliou para nove pontos sua vantagem sobre Marina Silva, no primeiro turno, segundo a pesquisa Vox Populi divulgada nesta segunda-feira. Ela tem 36%, contra 27% de Marina e 15% de Aécio Neves.

Na simulação de segundo turno, a situação é de empate técnico. Marina Silva tem 42% e Dilma apresenta 41%. Praticamente não houve alteração em relação à pesquisa anterior, quando Dilma tinha 36%, Marina 28% e Aécio 15%.

NEM A ENTRADA DE UMA CANDIDATA NEGRA, QUEBRA O SILÊNCIO EM TORNO DO RACISMO NAS ELEIÇÕES 2014


O que está em jogo nessas eleições é a real perspectiva de avançarmos na emancipação da população negra cujos passos decisivos foram dados de 2003 para cá. E tudo o que conquistamos até aqui em termos de políticas públicas é fruto de muita luta histórica dos movimentos negros organizados

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Por Flávio Passos*

No final deste texto, reapresento uma breve postagem do Facebook quanto ao silêncio em torno do racismo e as eleições 2014. A candidata Marina Silva, por ser negra e pelo seu passado de luta na esquerda, falha ao não pautar a questão racial. Mas, falham também as demais candidaturas com possibilidades.

Mesmo em um ano tão difícil, com Cláudias da Silva Ferreira e Geovanes Santana sendo vítimas cotidianas do racismo institucionalizado armado, o silêncio permanece.

Mesmo com Aranhas e Tingas agredidos por torcedores racistas, nenhuma palavra de solidariedade por parte das candidaturas majoritárias. Nem com relação a passar a ser considerado crime de racismo situações que tratadas apenas como “injúria racial”.

Mesmo com as manifestações racistas contra o programa “Mais Médicos”, mesmo com tudo que o racismo é no cotidiano de nossa sociedade, é como se vivêssemos em outro país. A pauta racial é tabu eleitoral.

Mesmo com os alarmantes indicadores sociais de institutos de pesquisa mostrando a condição desigual da população negra na participação de nosso desenvolvimento, é como se fôssemos apenas frias estatísticas.

Mesmo com milhares de jovens negros sendo mortos anualmente num genocídio nada silencioso, nenhum candidato ou candidata se posiciona, nem com a mínima indignação.

Mesmo com três conferências nacionais de igualdade racial realizadas nos últimos dez anos, suas propostas não são priorizadas de forma explícita nos programas.

Mesmo com os onze anos da SEPPIR, os oito anos de SEPROMI na Bahia, a criação do Sistema Nacional de Políticas de Igualdade Racial (SINAPIR) e os organismos de igualdade racial em todas as esferas de governo, inclusive em centenas de municípios, como Vitória da Conquista, não dizer de sua importância e da necessidade de se transformar a SEPPIR em ministério é ratificar a sua condição de política adjunta.

Mesmo com doze anos de não aplicação adequada da 10.639/03 (lei que obriga a inclusão da história e da cultura africanas e afro-brasileiras nos currículos escolares), o silêncio só faz aumentar esse descaso.

Mesmo com o Estatuto da Igualdade Racial aprovado há quatro anos, ninguém se lembra da necessidade de sua efetivação. Estar nos programas de governo exige também o debate durante a campanha.

Mesmo com as cotas tendo promovido uma revolução no perfil do alunado do ensino superior, falar sobre negritude ainda é “perigoso” para os pragmáticos elaboradores de campanha eleitoral.

Mesmo com toda intolerância religiosa contra milhares de comunidades de fé que são os terreiros das religiões de matrizes africanas, o que temos visto é uma ameaça ao estado laico, com o silêncio frente ao projeto, nada silencioso, de se instaurar no país uma ditadura cristã de perseguição à diversidade religiosa.

Nenhum candidato à majoritária citou a Marcha Contra o Genocídio da População Negra. Ela aconteceu no Brasil, há duas semanas.

Ninguém fala dos indígenas. Nem dos quilombolas. Falar de indígenas e quilombolas é falar de terra. E terra é o que mais mata neste país.

O cúmulo desse silêncio é que a campanha alcançou trinta dias e nem, ao menos, a palavra racismo aparece em algum discurso. Nem igualdade racial. Alguns falam timidamente em “igualdade social”. A própria imprensa, a oficial, a burguesa ou mesmo a alternativa não tem pautado a questão racial.

O que acontece? Nosso racismo continua sendo esse reflexo dessa esquizofrenia social, pois mesmo reconhecendo a sua existência, ele é negado enquanto prática cotidiana. Um crime perfeito o qual, além de criminalizar a própria vítima, ainda se silencia sobre o destino de milhares de corpos negros.

Ou o silêncio seria porque, como alguns costumam alegar que “falar de negro (entenda-se racismo) tira voto?” Mas tira voto de qual eleitor, do racista? Falar sobre tira voto ou promove a consciência negra?

Quem é a maioria dos beneficiários de programas sociais do governo federal, como PROUNI, PRONATEC, SISUTEC, MINHA CASA, MINHA VIDA, MINHA CASA MELHOR, BOLSA FAMÍLIA, PAA, PRONAF e COTAS NAS UNIVERSIDADES? Tais programas tão intragáveis pela burguesia racista.

A mesma burguesia que nunca reclamou do programa “CIÊNCIA SEM FRONTEIRAS”, um programa tão assistencial quanto os demais, mas cujo público, pelos critérios de seleção, é formado por 95% de brancos.

Qual seria a reação dessa mesma “elite branca” se os próximos governos enviassem centenas de jovens negros e pobres para cursarem medicina em Cuba (melhor educação e medicina do mundo, segundo a ONU) ou abrissem aqui turmas especiais para milhares de estudantes da periferia e da zona rural cursarem medicina no Brasil para termos, daqui a quinze anos, as comunidades pobres e negras tendo atendimento com médicos vindos das suas próprias comunidades e famílias?

A ditadura da meritocracia não permite nem mesmo cogitar uma possibilidade dessas. Seria mexer de vez no maior símbolo da supremacia branca brasileira. Nos governos de Lula e Dilma temos dado passos significativos na democratização e num projeto de desenvolvimento sem racismo, inclusive no acesso de pobres e negros ao curso de medicina.

O que está em jogo nessas eleições é a real perspectiva de avançarmos na emancipação da população negra cujos passos decisivos foram dados de 2003 para cá. E tudo o que conquistamos até aqui em termos de políticas públicas é fruto de muita luta histórica dos movimentos negros organizados.

Então, pior que a questão racial ser tratada como um tabu ou uma ameaça definitiva aos privilégios brancos deste país desigual é ela não ser compreendida pelo eleitorado, negro ou não negro, como a questão principal a ser resolvida por todos nós na construção de nossa frágil democracia.

E, se estamos a menos de um mês do primeiro turno e continuo a insistir: ainda está em tempo de enegrecermos o processo, o debate, as pautas, as prioridades, os programas, as plataformas, a propaganda de TV, etc. E isso só acontecerá a partir da pressão da sociedade civil organizada. Nunca foi diferente.

Afinal, nós, pretos e pardos, somos 53% da população brasileira, e o Brasil ainda está muito longe de garantir a cidadania plena para negros e negras. Independente da cor do candidato, essa pauta não é problema de movimento negro. É desafio de cada pessoa comprometida com a justiça social neste país.

Sendo candidatura de esquerda, não cabe o silêncio quanto à questão racial. E, sendo da direita, no caso de Aécio, ou, no caso de Marina que, mesmo sendo negra, caminha a passos largos para um “endireitamento” de suas propostas, não se espera nenhum discurso em favor da população negra. Seria incoerência, do começo ao fim.

O Brasil precisa avançar em democracia e também no combate ao racismo e às suas consequências!

*Flávio Passos, militante negro da Rede EDUCAFRO, mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP, assessor técnico de Igualdade Racial na Prefeitura de Conquista, professor de Sociologia e Filosofia no Colégio Carlos Santana, em Belo Campo, concursado.

Cínica e cruel, a neutralidade de Merval Pereira e o “efeito manada” na sucessão.


por Fernando China

Fernando China

Fernando China

A se tirar pelo o que é escrito na Coluna do jornalista Merval Pereira, no O Globo de hoje, 22/ago, sobre a pessoa de Marina Silva e a sua candidatura à presidência, pode-se imaginar o pânico que se instalou no comando da campanha do PSDB à presidência, a partir da divulgação da pesquisa do Data Folha. Segundo essa pesquisa, se a eleição fosse hoje Aécio Neves não iria para o segundo turno e, na simulação de segundo turno, Marina Silva, com 47% das intenções de votos, venceria a eleição, ficando Dilma com 43%.
Merval passa recibo desse estado de pânico ao afirmar, referindo-se a candidatura de Marina Silva, sua “incapacidade de organização demonstrada ao não obter o registro a tempo e hora de registrar-se  a eleição presidencial, o que só conseguiu graças à “providência divina””. Em seguida, tenta se mostrar imparcial, mas de fato desqualifica a candidatura de Dilma, indicando ter existido “um excesso de zelo provocado por interesses políticos dos tribunais eleitorais, notadamente o da região do ABC, área de influência de Lula, para barrar Marina logo na largada”. Mais a frente escreve: “ (…). “Mas se a Rede tivesse sido menos amadora no recolhimento de assinaturas e mais profissional nos cuidados jurídicos, não teria dado pretextos para a impugnação”.
Meus comentários:

(1) Merval tirou, propositalmente, o foco dos cartórios e o colocou nos tribunais, que não são a mesma coisa, pois, de fato, o “crime” se deu nos cartórios, onde os índices de rejeição das fichas apresentadas pelo partido Rede foram incompreensivelmente elevados (50%, 60% etc.), quando se sabe que não ocorreu o mesmo nível de rejeição, nos mesmos cartórios do ABC, por exemplo, com as fichas apresentadas pelo SOLIDARIEDADE, partido de Paulinho, da Força Sindical. Atribuir, como faz Merval, a suposto amadorismo do recolhimento das fichas a causa para esses elevadíssimos índices de rejeição, sem a indicação por parte dos cartórios de quais foram os motivos para essas rejeições, além de puro cinismo, chega a ser cruel e não tem nada de imparcial e

(2) Pior, Merval “esqueceu” de escrever na sua Coluna que em razão desse não fornecimento dos motivos dessas rejeições, por parte dos cartórios, é que Marina se viu impedida de entrar com os recursos e assim perdeu o prazo limite de registro do partido REDE.

Conclusão. É evidente que intenção de voto é uma coisa e voto na urna é outra. Contudo, o indisfarçável desespero da Coluna, como reflexo do comando tucano, decorre do pavor à formação do possível fenômeno, muito conhecido no meio político, do “efeito manada”. Como os meus amigos e amigas do FB são pessoas bem informadas, não há necessidade de explicar o estrago que o “efeito manada” gera nos apoios e acordos feitos pelas candidaturas antes de seu surgimento e consolidação. Isto é, a desconstrução desses apoios e acordos. As duas próximas rodadas de pesquisas poderão indicar se esse tsunami já está em andamento ou não. Aguardemos. Mas, o que já se pode verificar é que do ponto de vista da politicagem estão querendo abater a tiros o avião da Marina Silva. Quem observar verá!

Pré-sal brasileiro é ouro em pó, diz Carlos Lessa em entrevista para IHU Online. Vou lá para a Barra ficar em frente ao hotel de terno preto.


Pré-sal brasileiro é ouro em pó. Entrevista especial com Carlos Lessa

Fonte: IHU On Line, 21/10/2013

“Se o preço do barril de petróleo extraído continuar sendo o do padrão da Organização dos Países Exportadores de Petróleo – OPEP, de cem dólares, no campo de Libra teremos algo em torno de quatro trilhões de reais em vinte anos de produção”, estima o economista.

Foto: pontocriticogmr.blogspot.com

Confira a entrevista.

O governo federal brasileiro optou por leiloar o campo de Libra, a maior reserva petrolífera brasileira, por duas razões: “uma delas é geopolítica, ou seja, o país quer aparecer ao capital financeiro mundial como bem comportado. Para quê? Para atrair mais capital de curto prazo para o Brasil. A segunda razão é manter a política do tripé que foi instalada pelos tucanos e preservada pelos governos Lula e Dilma”, avalia o economista Carlos Lessa em entrevista concedida àIHU On-Line por telefone.

Lessa questiona o argumento da presidência da Petrobras, de que a empresa não tem capital financeiro para explorar o campo de Libra. “A Petrobras foi sendo espremida pelo governo nos últimos anos. O caixa da empresa era próximo a 70 bilhões de reais; hoje está reduzido a seis ou sete bilhões. (…) Mais do que isso: o Tesouro Nacional não queria construir o trem bala?  Quer construir essa obra e não tem recurso para tocar para frente um campo de petróleo, que irá dobrar as reservas brasileiras? Nenhum país do mundo faz partilha de um campo já conhecido”. E dispara: “O argumento da Graça(Graça Silva Foster) é sem graça. É uma desgraça. Não consigo entender como isso está acontecendo se a presidente Dilma disse, em discurso quando candidata à presidência da República, que não iria privatizar o pré-sal”.

De acordo com o economista, a venda financiada de automóveis financia o consumo da gasolina no país, porque a Petrobras tem prejuízo com a venda nacional. Apesar disso, enfatiza, o governo não irá alterar o valor do produto. “Se mexer nisso perde a eleição, porque todas as famílias se endividaram comprando automóvel, e se o preço da gasolina pular para cima, Dilma não se reelege. Então, o governo tem de estabilizar a economia de qualquer jeito, mesmo que tenham que entregar a herança, ou seja, o pré-sal”.

Carlos Lessa é formado em Ciências Econômicas pela antiga Universidade do Brasil e doutor em Ciências Humanas pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Campinas (Unicamp). Em 2002, foi reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e, em 2003, assumiu a presidência do BNDES.

               Foto: www.aepet.org.br

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Economicamente, o que as reservas do pré-sal representam para o Brasil, especialmente o campo de Libra?  Qual é o valor econômico desses poços?

Carlos Lessa – Se o preço do barril de petróleo extraído continuar sendo o do padrão da Organização dos Países Exportadores de Petróleo – OPEP, de cem dólares, no campo de Libra teremos algo em torno de quatro trilhões de reais em vinte anos de produção. Além disso, o campo de Libra equivale a 60% das reservas que têm as quatro maiores petroleiras do mundo, em torno de 25 milhões de barris cada uma delas. Espera-se que o campo de Libra venha a gerar em torno de 14 a 15 milhões de barris de petróleo.

Petrobras, no Brasil todo, não chega a ter 14 milhões de barris. Então, só o campo de Libra dobra as reservas da empresa. Portanto, retirar a Petrobras desse processo de exploração do campo de Libra é um crime que lesa a pátria, porque este é um recurso absolutamente estratégico, o qual converte o Atlântico Sul, do ponto de vista geopolítico, em uma zona muito delicada, por uma razão muito simples: os EUA consomem, por ano, 27 a 28% da produção de petróleo do mundo inteiro, porque a produção petrolífera do país é insignificante. Hoje os EUA são um país sem petróleo, mas o maior consumidor do produto. Portanto, o petróleo do Atlântico Sul é a saída para eles. Mas imagina o Brasil entregando a sua riqueza estratégica maior de uma forma servil? O petróleo que tem no pré-sal é o melhor tipo de óleo do mundo, enquanto o petróleo da Venezuela, que é muito abundante, é pesado. Então, o pré-sal brasileiro é ouro em pó.

IHU On-Line – Quais são as razões que fizeram o governo optar pelo Leilão de Libra?

Carlos Lessa – As razões são falta de brasilidade e coragem. Agora, as razões formais levantadas são outras. A primeira delas é que os 15 bilhões a serem recebidos dos grupos que participarão da concessão do leilão representam mais que o dobro das reservas de caixa da Petrobras. A empresa foi descapitalizada ao longo dos últimos oito anos por conta de uma política suicida de vender a gasolina dentro do país a um preço menor do que o preço que o país importa. A Petrobras só se mantém lucrativa porque descobre poços e reavalia reservas, porque a gasolina dá prejuízo.

A Petrobras não pode entrar como concorrente na exploração do campo de Libra, porque quem descobriu o campo foi a própria empresa. Esse campo já havia sido cedido a uma concessionária estrangeira, que o devolveu porque não encontrou nada. A Petrobras tem uma vantagem enorme em relação a todos os outros concorrentes: ela tem a melhor sinergia possível do Atlântico, tem uma equipe de geólogos altíssima e, por isso mesmo, é alvo de espionagem sistemática. Essa onda de espionagem denunciada recentemente tinha duas questões prioritárias: fiscalizar a Petrobras e também as relações do Brasil com a Bolívia e a Venezuela.

É óbvio que o Brasil tem como financiar a exploração de Libra, e não precisa colocar o campo a funcionar imediatamente. O país precisa aumentar a produção de petróleo, mas não precisa aumentar muito. O fato é que é um crime a Petrobras descobrir o campo de Libra e ter de partilhar a exploração. Soube que o Ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, disse que o Brasil tem de fazer partilha, porque 1% das ações da Petrobras está em mãos de empresas estrangeiras, já que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso as vendeu na Bolsa de Nova York. Só que o contra-argumento é o seguinte: ao entregar Libra, o Brasil está entregando 100% do petróleo na mão dos estrangeiros. O argumento do ministro Lobão é maluco. Aí se diz que o Brasil reservou poderes para fiscalizar a exploração através da Petrosal. Mas quem será o presidente da Petrosal? Como o Brasil perde o seu futuro econômico sem sequer haver uma consulta à população?

IHU On-Line – Mas o argumento da presidência da Petrobras é de que a empresa não tem condições financeiras de explorar o campo de Libra. Qual é a situação financeira da Petrobras? 

Carlos Lessa – Não é verdade. O capital da Petrobras foi sendo espremido pelo governo nos últimos anos. O caixa da empresa era próximo a 70 bilhões de reais; hoje está reduzido a seis ou sete bilhões. Mas, apesar disso, o Brasil tem reservas colossais, como o Banco Central, de 300 milhões de dólares. Mais do que isso: o Tesouro Nacional não queria construir o trem bala?  Quer construir essa obra e não tem recurso para tocar para frente um campo de petróleo que irá dobrar as reservas brasileiras? Nenhum país do mundo faz partilha de um campo já conhecido. O país poderia fazer uma concessão caso quisesse ser um país petroleiro, mas eu pessoalmente quero dizer que não há pior destino nacional do que ser exportador de petróleo. Basta olhar pelo mundo o que acontece com esses países: são sociedades atrasadas, com desequilíbrios sociais brutais, gastam boa parte do que ganham com armamento, enfrentam guerras religiosas e são objeto de intervenção de outros Estados, como Iraque, Líbia.

IHU On-Line – Então, o que o Brasil deve fazer com essas reservas?

Carlos Lessa – O Brasil tem que controlar seus recursos estratégicos, independente de qualquer coisa, e não basta ter controle apenas em cima de uma Petrosal. O argumento da Graça (Graça Silva Foster) é sem graça. É uma desgraça. Não consigo entender como isso está acontecendo se a presidente Dilma disse, em discurso quando candidata à presidência da República, que não iria privatizar o pré-sal.

Economicamente, a postura do governo é uma besteira. Nenhum país exportador de petróleo conseguiu se dar bem na história mundial, com exceção da Noruega. O Brasil deve explorar essas reservas no ritmo em que a Petrobras consiga explorar, ou seja, capitalizar a empresa para isso. Como capitalizar? Há várias maneiras. Deixa eu ser Ministro da Fazenda por um mês para ver como se capitaliza a Petrobras. Como ela está com uma imensa reserva de petróleo, devem ter muitos grupos financeiros dispostos a se associarem a ela.

IHU On-Line – E a empresa deve buscar alguma parceria financeira? 

Carlos Lessa – Não seria necessário, pelo seguinte: a Petrobras não pode se comprometer a investir 50 milhões de dólares a mais, considerando os programas que ela já está executando. Mas se ela começar a encontrar petróleo – e ainda vai encontrar mais petróleo rapidamente, e Libra deve estar produzindo muito em dois, três anos -, seu valor será multiplicado. E a Petrobras não precisa voltar todo o campo de produção imediata, ela precisa ter um ritmo de extração que corresponda à necessidade brasileira de desenvolvimento. Ou seja, gerar emprego para todos os brasileiros, melhorar as condições habitacionais, melhorar o sistema educacional, que está uma porcaria, fazer a cobertura médica. A realização de todos os nossos sonhos depende de o nosso país crescer 5, 6, 7% ao ano. Com a Petrobras, a economia do petróleo e um pouco de competência, o Brasil cresce sem dificuldade nenhuma.

IHU On-Line – Voltando às razões que fizeram o governo optar pelo leilão de Libra, concorda que motivos econômicos por conta das contas externas foram determinantes para a decisão?

Carlos Lessa – Este governo opta pelo leilão por duas razões: uma delas é geopolítica, ou seja, o país quer aparecer ao capital financeiro mundial como bem comportado. Para quê? Para atrair mais capital de curto prazo para o Brasil. A segunda razão é manter a política do tripé que foi instalada pelos tucanos e preservada pelos governos Lula e Dilma.

Eu e muitos amigos iremos para a frente do hotel onde será realizado o leilão. Todos estaremos de terno preto e ficaremos lá, de pé, assistindo. Irei lá porque os meus netos foram às manifestações de junho reivindicar um país melhor. Me sinto mal, como idoso, em vender as empresas do Brasil, porque meus netos serão prejudicados.

IHU On-Line – Qual a situação das contas externas do país? Alguns críticos ao Leilão de Libra dizem que o Leilão servirá para melhorar as contas externas. Como avalia esse apontamento?

Carlos Lessa – Não os levo a sério, porque eles querem que o país cresça menos, faça menos obras públicas e que se paguem mais juros para as aplicações financeiras. Na verdade, a única coisa que está salvando o governo Dilmasão alguns projetos importantes que ela encaminhou, mas os empurrou com músculos moles, lentamente.

Hoje, a venda financiada de automóvel subsidia o consumo da gasolina. Sabe que a Petrobras está importando o litro da gasolina a R$ 1,72 e está vendendo a R$ 1,42? Então você acha que o governo vai mexer nisso? Claro que não! Se mexer nisso perde a eleição, porque todas as famílias se endividaram comprando automóvel, e se o preço da gasolina pular para cima, Dilma não se reelege. Então, o governo tem de estabilizar a economia de qualquer jeito, mesmo que tenham que entregar a herança, ou seja, o pré-sal.

IHU On-Line – Há alguns anos havia um entusiasmo em relação aos rumos da economia brasileira por conta do crescimento de 7% do PIB. Hoje, fala-se em declínio. O senhor concorda com essa análise? Quais as razões?

Carlos Lessa – Quem tinha essa expectativa? Eu nunca tive! Eu sempre chamei o crescimento brasileiro, nos últimos anos, de “voo de galinha”. Nós desperdiçamos a grande chance das matérias-primas de alimentos terem subido muito de preço no início dos anos 2000. Nós tivemos uma bonança externa espetacular, mas ao invés de elevar a taxa de investimento da economia, desperdiçamos isso de mil e uma formas. Mas agora a sociedade está mudando.

Olha, não quero ser profeta de apocalipse, não quero ver as coisas piores do que são; quero apenas dizer o seguinte: o Brasil tinha que estar colocando as barbas de molho em relação à crise mundial. Ela está aí, e não se apresentou toda. Eu estive na Grécia há dez dias e, andando do hotel até o museu, em quatro quarteirões na principal avenida da Atenas moderna, todas as lojas estavam fechadas e quebradas. Havia só uma loja aberta, na qual entrei. Quem me atendeu foi um senhor idoso, dono do estabelecimento. Elogiei a loja e ele informou que não tinha compradores. Também vi em Roma pessoas de terno dormindo na rua. A Europa está em uma situação muito ruim. Para você ter noção, eu vi em Atenas uma reunião de um partido nazista na rua. Eram 40, 50 pessoas reunidas, propondo a violência como solução: violência não se sabe contra quem, nem a favor de quem.

E o Brasil está simplesmente se movendo como se a globalização estivesse indo bem e pudesse dar sustentabilidade ao país. Vou dizer uma coisa: o que mais me escandalizou nessa viagem que fiz é a extensão com que se usa a expressão BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China. Não existe isso, o que existe são quatro países imensos, com problemas muito diferentes e sem nenhuma possibilidade de atuar juntos. Aliás, eu sempre disse isso nos últimos meses, e hoje mesmo os jornais estão dizendo que o Brasil está brigando com a China porque a China está apoiando os Estados Unidos em uma proposta internacional em relação aos serviços. O Brasil e a China são contrários, corretamente. Mas a China é parceira dos Estados Unidos; o que existe no mundo é um G2. Sabe por que o Brasil gosta da ideia de BRIC? Para dizer “olha como sou grande, como sou forte, como sou emergente”. É emergente, mas o PIB brasileiro cai sem parar. O país está desindustrializando.

IHU On-Line – E a razão desse declínio da economia é a desindustrialização?

Carlos Lessa – Esse declínio está relacionado ao fato de o Brasil não ter nenhum projeto nacional, porque adotou a proposta do Consenso de Washington, no período do Collor de Melo, o qual foi mantido pelos tucanos e petistas. Na verdade, o Brasil não tem projeto nenhum, a não ser de se integrar à globalização. Aliás, a sensibilidade financeira brasileira ao que acontece fora do mundo é assustadora. Ontem, as bolsas de valores do mundo subiram, porque teve uma conversa inicial boa entre os republicanos e os democratas. Sabe qual a bolsa que mais subiu? A Bovespa. É a que mais baixa também quando tem qualquer coisa fora. Sabe por quê? Porque o Brasil está inteiramente aberto ao jogo financeiro internacional, e agora vai abrir mão da soberania nacional entregando a maior riqueza do país, ou seja, o monopólio estatal do petróleo que foi mantido pela Constituição de 1988 e foi modificado por uma emenda constitucional, a qual nunca foi submetida a plebiscito popular.