A Ausência de Técnicos Negros no Futebol


por Hélio Santos

do original Brasil de Carne e Osso

A afirmação absurda do senhor Carlos Caetano Bledon Verri, treinador da seleção brasileira, conhecido por Dunga – apelido, aliás, mais do que pertinente a essa figura – trouxe de volta a mim um questionamento que fiz no final dos anos 1990, quando escrevi o ensaio “A busca de um caminho para o Brasil”. Na ocasião, tive de fazer uso de um subcapítulo inteiro para abordar o racismo no futebol brasileiro.

dunga-final

Na época questionei: “por que no país do futebol negro os técnicos eram todos brancos?” Para mim, mais importante do que a estapafúrdia fala de Dunga, cabe o questionamento-título dessa crônica. Muitos comentaristas e esportistas dizem que Dunga é burro. Esta não é a verdade completa. Burro e teimoso foi o Felipão, com a sua estratégia de jogo em 2014, ao permitir que o grupo de jogadores acreditassem que a “união” do grupo fosse suficiente para vencer pragmáticos alemães e holandeses, detentores de táticas e práticas bem urdidas por seus treinadores. O Dunga é diferente, ele não é burro, mais, sim, muito burro, o que é fatal. A ênfase é algo fundamental quando se faz análise de qualquer tipo.

A dificuldade de Dunga não é só com as palavras, na eliminação da seleção brasileira para a fraca equipe do Paraguai, mas determinada e melhor postada psicologicamente em campo do que a do Brasil, ele retirou Robinho – um batedor de pênaltis, quando já se percebia que a partida seria decidida assim. Não só colocou novatos, como os escolheu para bater os pênaltis decisivos que foram desperdiçados pelos dois que entraram no final. Trata-se de um Dunga – com o respeito que me merece o nanismo – de fato muito burro.

Sei que alguns poderão dizer: todo torcedor brasileiro se mete a dar palpites – agora até o Helio Santos. Pois é, mas sou de fato um “torcedor brasileiro”…

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Lima – foto divulgação.

Nessa lenga-lenga quero colocar mais uma vez o dedo na ferida do racismo institucional brasileiro – essa sim minha especialidade. Aonde estão esses super-craques, como Jairzinho, Zé Maria, e Wladimir? Mais: onde estão os cerebrais jogadores como Mengálvio, Lima e Paulo Cesar Caju. Estes três últimos eram jogadores que atuavam sem bola e que funcionavam taticamente de forma brilhante. Pergunto: por que não estão treinando grandes equipes de futebol? Há vários outros ex-jogadores negros no anonimato. Depreende-se que para jogar os negros se destacam, para treinar equipes, não!

Felipão foi um zagueiro do tipo que metia um bico na bola e ela ia parar fora do campo. Sem técnica alguma. Hoje é estrategista do nosso futebol.

Andrade, negro, jogador vitorioso em campo, em 2009 dirigiu o Flamengo que se sagrou campeão brasileiro e se tornou o primeiro técnico negro a vencer um campeonato daquele porte.

Nós, simples mortais que amamos o futebol, não temos a menor ideia do que se passa nos bastidores do mundo da bola. Técnicos são afilhados da cartolagem que é branca e bem-nascida e em sua larga maioria corrupta, como se revelou recentemente.

Jairzinho

Jairzinho

A chamada imprensa esportiva também deixa a desejar: faz e participa de lobbies e é tendenciosa ao analisar o que acontece. Quem tiver dúvida sobre esse viés, veja como os comentaristas tratam os casos de racismo que acontecem no futebol. São analfabetos em Brasil, em nossa história, em nossas práticas discriminatórias e em minha opinião de amante do futebol são fracos também na própria análise do esporte. Sim – há algumas exceções. Boas exceções: Junior e Tostão são dois bons exemplos. Vejo futebol pela TV e há muito tempo corto o som do aparelho, pois não suporto mais as obviedades repetidas à exaustão, além de erros crassos.

Portanto, a estúpida fala de Dunga, deveria ser uma oportunidade para que os amantes do futebol: a “bagatela” de 200 milhões de brasileiros, fizessem um imenso ruído contra os absurdos que acontecem no principal esporte do país, os quais assistimos inertes.

Temos um ex-presidente da CBF preso na Suíça sob graves acusações, para vergonha de todos nós. O futebol, juntamente com a música, são as únicas áreas em que o negro no Brasil tem tido oportunidade. Somos considerados em todo o mundo centros de excelência nessas duas áreas. Todavia, o mesmo não se dá noutros setores, como na política, na economia, na literatura. Não ganhamos até hoje um prêmio Nobel sequer!

Vamos gritar em uníssono em resposta ao Dunga: Por que ex-jogadores afrodescedentes não estão treinando grandes equipes? Vamos bater esse bumbo. Quem sabe os próprios interessados, os ex-jogadores negros, comecem também a falar. O Movimento Social Negro Brasileiro enfrentou muita gente da mídia televisiva para que os talentos negros fossem para a frente das câmeras – e são tantos hoje. A televisão vem ficando mais bonita e diversa, mas precisa ficar ainda mais.

Paulo Cesar Caju

Paulo Cesar Caju

Quem sabe o futebol brasileiro sai do lodaçal em que se encontra com essa iniciativa? Vamos – negros e brancos – continuar lutando para colocar nosso País numa rota mais civilizada e justa. Levamos as ações afirmativas (cotas) às universidades públicas, agora vamos fazer o mesmo com os concursos e precisamos imediatamente cessar o extermínio de jovens negros – essa última tarefa é para “ontem”.

Percebam todas e todos: é uma pauta heterodoxa; mas temos fôlego. Temos todas e todos demonstrado isso ao longo dos últimos 35 anos.

Leiam também: O sadomasoquismo do “branco” Dunga: “Negro gosta de apanhar”.

Pai do MC Criolo preso por “sequestrar” filho menos escurecido no hospital


criolo e seu pai

Ao lado do pai, Cleon Gomes, o rapper Criolo (Kleber Cavalcante Gomes), nascido na Favela das Imbuias, zona sul de São Paulo, fala sobre desigualdade social e racial, sobre a falta de perspectiva dos jovens da periferia, preconceito e racismo. E conta como seu pai, ao levá-lo para ser socorrido num hospital após um acidente doméstico, foi acusado pelos próprios funcionários do hospital de tê-lo sequestrado.

Reprodução da entrevista de Claudia Belfort e André Caramante da Ponte Jornalismo
Imagens e edição: Gabriel Uchida e Leonardo Lepri

por marcos romão

Quando vejo o grande compositor, cantor e MC, Criolo ao lado de seu pai, penso que poderia ser meu filho mais velho, o Jorge Samora, levam o mesmo jeito.

Sermos pais ou mães negros e negras de filhos mais ou menos escurecidos não é mole não.
Vivemos um momento crucial em nossa sociedade. Avanços democráticos e melhorias sociais e econômicas são visíveis em todo o país, ao menos no crescimento da população que pode consumir. Ao mesmo tempo vemos o aumento vertiginoso da violência em nossas cidades grandes, médias e pequenas e um número de assassinatos que atingiu um caráter de endemia social.

Neste quadro de violência vertiginosa em que vivemos, nós pais e mães negros, ou pais e mães brancos de filhos e filhas negras, vivemos uma tensão especial. Nossos filhos e filhas são o alvo principal dos atos violentos que lhes custam a vida, ou sequelas psicológicas indeléveis, provocadas pelo racismo de que são vítimas ou são testemunhas e com as quais eles elas vivem por toda a vida, como uma bomba de tempo que pode eclodir em depressões, suicídios ou atos violentos contra si e contra a sociedade.

Criolo falou de sua vivência e cruel experiência com o racismo ao lado de seu pai. Está aí um caminho que todos podemos seguir. Discutir o racismo em todos os lugares, tirá-lo de debaixo do tapete, mostrar onde existe e como agem os racistas e combatê-los.

Valeu Criolo! Tem que falar, falar junto do pai é mais amor ainda. Tem que falar do racismo, tem que falar toda hora para mudar o que está aí. ” Quanto mais a gente ganha, mas sofre por ver os outros por aí…” Falou crioulo! É nas conversas de família, no trabalho, nas escolas, nas igrejas e nas quebradas. São em todos os lugares que devemos falar do racismo e da divisão estilo apartheid que vivemos no Brasil. A benção ao teu pai!

Para seguir o exemplo de Criolo e seu pai, conto aqui uma das”vivências”, enquanto pai preto de filhos pretos mais e menos escurecidos:

RTEmagicC_BlaualgenKinderAmWasser.jpg (1)Certa vez, eu estava em um parque com minhas duas filhas gêmeas e caçulas. Estavam com três anos de idade. Foram fazer xixi atrás de um arbusto, enquanto eu fiquei de guarda. Passou um homem fazendo “jogging” que me olhou com espanto.

Meia hora depois, o parque muito frequentado por estudantes de países africanos, estava cercado por policiais. Minha filhas haviam voltado para brincar nos balanços e a uns trinta metros de distância, podíamos ver que os estudante eram recolhidos pelos policiais e colocados sentados no chão próximo a um lago, com as mãos para trás algemadas. Fiquei curioso, estariam procurando drogas?

Resolvi perguntar aos policiais o que estava acontecendo, me apresentei, disse que eu estava ali com minhas crianças, e queria saber se havia perigo em lá estar, já que eles faziam um operação que já contava com 20 policiais e 4 carros patrulhas, além de duas motos ocupando o parque.
O comissário me explicou que haviam recebido a denúncia de um possível sequestro de duas criancinhas menos escurecidas por um homem negro, que as haviam levados para trás dos arbustos.

Neste momento minha filhas vieram correndo e já me agarraram nas pernas gritando, “o que houve papai!”. Foi uma troca de olhar rápida entre mim e o chefe da operação “Caça Africano”. Os dois compreendemos no mesmo momento o terrível engano que estava se passando.

Desfeita a operação como todos os estudante soltos, caminhei com minhas filhas para sair do parque por um portão lateral.
Neste momento quase aconteceu uma morte. Uma patrulha que passava pela rua lateral do parque com muitas árvores em volta, viu a mim e as minhas filhas. Jogaram o carro encima de mim, que estava com uma das filhas no colo, quando uma soldada desceu com a pistola engatilhada apontando para minha cabeça.

Foi o momento em minha vida em que senti um medo que eu não conhecia, o medo de ver o medo que aquela jovem soldada demonstrava ao me ver como negro sequestrador.
Gelado e e quase paralisado, vendo a outra filha já agarrada nas pernas da policial, num gesto instintivo para proteger seu pai sobe ameaça de uma arma. Só tive tempo de me atirar contra a porta do carro imprensando a policial, enquanto o seu companheiro de patrulha, mais “calmo”, apontava a arma para mim e minhas filhas.

Também pela primeira vez na vida, senti alívio ao escutar os berros de um policial. O comissário que observava a cena de longe, gritava para a patrulha: “Para, para, o cara é inocente, foi um engano”.
ps: fiquei meses respondendo a um processo por agressão a um policial, que foi arquivado. A polícia não me forneceu o nome do denunciante, que também nunca mais vi no parque em que eu ir sempre passear com minhas filhas.

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UFRGS: Matricule a Domingas!!! Xenofobia e Racismo. Pacote anticonstitucional completo


 Lei Caó: Art. 1º Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.

 por Thales Bouchaton ***

DomingasNão é surpresa que injustiças acontecem seguidamente por esse país, principalmente quando se tratam de pessoas oriundas de setores da sociedade que são historicamente marginalizados, como negros e pobres. Porém, um fato ocorrido na URFGS está no meu TOP FIVE das barbaridades jurídicas que já vi o poder público cometer contra um cidadão/cidadã.

A estudante Domingas Mendes, da Guiné-Bissau, e que reside legalmente no Brasil, teve sua matrícula indeferida para o curso de Serviço Social da UFRGS, pois em uma bizarra interpretação da Lei de Cotas, entendeu a instituição por não aceitar o ingresso da estudante porque ela não fez o ensino médio em uma escola do Brasil. Porém, fui dar uma olhada na referida lei e ela não fala em nada disso e sim em “escolas geridas pelo Poder Público”, não especificando se essa escola é brasileira ou não.

Será que para a UFRGS só existe “poder público” no Brasil? Não existe Estado na Guiné-Bissau? A própria UFRGS aceitou a isenção da inscrição da Domingas no vestibular por ela ter estudado em escola pública.

No meu entendimento, a dona UFRGS violou de morte o art. 5 da Constituição Federal, que veda a distinção de qualquer natureza entre brasileiros e estrangeiros. Também não foi minimamente atendido o princípio da proporcionalidade, sendo que essa decisão não pode nem ser chamada de positivista, pois nem a lei fornece qualquer fundamento para a decisão controversa que a UFRGS tomou. E pior, utilizou de argumentos jurídicos totalmente controversas para gerar uma injustiça. Para não dizer outra coisa..

Abaixo, segue a manifestação da Domingas sobre o episódio:

“Obrigada a todas e todos que se juntaram de alguma forma à luta para que eu consiga ingressar na UFRGS. Agradeço cada manifestação de indignação e apoio! Enfrentar uma situação de discriminação racial é muito difícil e doloroso, e quando se está fora do seu país é ainda mais sofrido. De todo modo, quero registrar algumas coisas: Para não deixar ninguém com margem de dúvida, antes da inscrição para o vestibular, li todo o Edital e estudei a lei de cotas. Como não há nada escrito em ambos os lugares que me impedisse de ingressar por essa lei – que é importante que se diga ser uma conquista das negras e negros desse país que também escolhi como meu – realizei minha inscrição marcando a opção de cotas para negras e negros. Tanto no Edital quanto na lei não é dito uma vírgula sobre a necessidade de que a escola pública cursada seja brasileira. Fala que escola pública é aquela gerida pelo Poder Público. O Estado do Rio Grande do Sul, através da Secretaria Estadual de Educação, deu parecer favorável como sendo equivalente ao ensino médio brasileiro o que cursei na África, em meu país de origem Guiné-Bissau, um dos mais pobres do continente, e entreguei esse documento para a Universidade. A UFRGS quer dar a entender que onde estudei não se enquadra como “escola pública” e usam o argumento que para ser pública precisa ser de responsabilidade do Poder Público, portanto brasileiro. Ora, quer dizer que para a UFRGS Poder Público só existe no Brasil?! Ou que meu país não tem Poder Público?! Que não temos Estado?! Tudo bem que em relação ao Brasil o capitalismo guineense está mais na periferia ainda, porém não ao ponto de sermos ainda um conjunto de tribos ou mesmo colônia! Além disso, na inscrição do Vestibular, consegui isenção e toda minha documentação entregue e homologada deixa claro isso. Então, como a UFRGS aceita minha inscrição na opção de cotas com isenção sabendo que caso eu passasse não seria aceita?! Acharam que por eu ser africana não teria condições de passar?! Quero registrar que não sou contra que haja critérios para seleção, pois se trata de uma lei para restaurar distorções históricas que minha gente sofre até hoje, afinal não temos culpa por nos escravizarem! Sou Afro (originária), vivendo no Brasil, passando pelas mesmas dificuldades que meu povo negro trabalhador passa, e as vezes até pior, como ta acontecendo agora com a UFRGS ou em experiências de emprego que já tive. Eu, como muitos outros africanos, passamos por isso frequentemente e temos que lidar quase que diariamente com extremas burocracias como as da UFRGS para ter acesso ao mínimo de cidadania. Vale ressaltar que a vice-reitora de graduação, em entrevista à rádio gaúcha (12/2), disse que a decisão é criteriosa, que não podem abrir precedentes (de que tipo?!) e que não se tratava de uma decisão segregacionista e discriminatória. Como “prova” ela disse que a UFRGS recebe muitos intercambistas africanos e que os guineenses são a maioria inclusive. O que essa senhora esqueceu de dizer é que há mais ou menos apenas 15 guineenses na Universidade! Isso mesmo, QUINZE! E esta senhora acha muito! São 15 em um universo de quase 40 mil estudantes! O Edital e a lei de cotas exige que tem que ser preto e pobre. Sou preta, pobre, trabalhadora e comprovei isso! Outro elemento que quero chamar a atenção é a declaração do MEC sobre meu caso, também em entrevista para a rádio gaúcha. Conforme o Ministério da Educação as Universidades tem autonomia na definição do ingresso de seus estudantes em casos como o meu. Portanto, isso mostra que a alegação da UFRGS se trata de discriminação e segregação, pois não está previsto na lei nacional que escola pública precisa ser brasileira! Isso é uma política excludente da UFRGS para uma lei que se pretende o contrário: incluir e garantir cidadania! Eu tive que me esforçar muito para prestar este vestibular. Passei fome, precisei da ajuda de amigos e camaradas, tive que estudar matérias que nunca vi na vida e outras que não via tinha mais de oito anos, aprendi sobre a história do Brasil e do Rio Grande do Sul e até mesmo enfrentar gente oportunista e cínica que tentou provocar minha deportação. Apesar disso tudo, de nadar o tempo todo contra a maré, consegui passar no vestibular, mas agora a UFRGS não me aceita, me causando enorme desgaste psíquico e emocional! Para eu ser trabalhadora para vender minha força de trabalho a preço barato é permitido. Todavia, eu qualificar minha força de trabalho e, assim, poder ter uma vida um pouquinho melhor não pode! Por todo o constrangimento e desgaste que estou sendo obrigada a passar por conta de uma decisão xenofóbica da UFRGS quero repetir meu profundo agradecimento pela camaradagem e solidariedade de todos que de alguma forma estão tentando me ajudar. Como dizem meus irmãos de classe trabalhadora: FIRME!”

Em repúdio a essa decisão, alunos do serviço social da UFRGS estarão realizando o ato “Matriculem Domingas Mendes”, na próxima segunda-feira, 23, às 14h, no DECORDI/UFRGS, Campus Central.

 

***Thales Bouchaton

Advogado, graduado pela PUC-RS. Flamenguista doente, carioca de Porto Alegre, Balneário Pinhalense de coração.

 

A MÍDIA PROPAGA O RACISMO E OS ACADÊMICOS SILENCIAM


O PAPEL DA MÍDIA NA DIFUSÃO DO RACISMO E O SILÊNCIO ACADÊMICO

Por: Danilo Santos

FONTE: Blog Camanducaia

Discutir o racismo no Brasil é muito complicado. Complicado porque falta muita seriedade no debate entre o público leigo, público tanto passivo quanto ativo às práticas discursivas do racismo. No meio acadêmico a discussão é riquíssima no sentido de trazer à tona novas abordagens e reinterpretações sobre o nosso passado colonial escravocrata. Mas o debate perde em qualidade quando o tema “racismo” se fecha, se isola nas comunidades acadêmicas. Quando isso acontece, o alcance dos discursos racistas por parte das camadas conservadoras é muito maior sobre a sociedade. Há necessidade dos pesquisadores acadêmicos democratizarem os frutos das suas pesquisas nas mídias mais acessíveis e em linguagens acessíveis aos leigos. Se isso não acontecer, discursos preconceituosos dos Danilos Gentilis serão mais receptivos, alimentando as práticas racistas que vemos na atualidade.

Um dos principais argumentos dos racistas, é o de que no Brasil não existe racismo. Para eles, o que existe é um “coitadismo exacerbado” que vê racismo em tudo. Para construírem tal argumento, utilizam o famoso bordão: “Mas que mal há em chamá-lo de macaco? Me chamam de palmito e eu nem ligo.” É o que dizem os Gentilis. O que eles ignoram é o fato de que a ideologia inerente à animalização do negro, foi um fator determinante para legitimar a escravidão dos negros africanos desde os tempos em que aquele continente se viu sob o jugo do império islâmico. Até nos escritos gregos da Antiguidade, principalmente nos escritos de Hipócrates e Galeno, ambos, médicos, o negro africano é representado analogicamente à condição animal. Mas vou simplificar e falar mais da construção da identidade nacional na perspectiva oficial para mostrar o quanto é equivocado o argumento de que não há mal algum em denominar um negro de “macaco” e o que isso implica na prática.

daniel gentil

Quando se deu a Abolição, em 13 de maio de 1888, Joaquim Nabuco disse que as conseqüências de mais de 300 anos de cativeiro perdurariam por 100 anos. Passaram-se os 100 anos e as conseqüências ainda perduram. Nabuco errou no cálculo, infelizmente. Mas o que Nabuco realmente quis dizer? A quais conseqüências ele se refere? Acredito que o maior visionário e que respondeu a essa pergunta, foi Machado de Assis. Machado de Assis dizia que o negro, após a Abolição, não conquistaria plena liberdade porque continuaria excluído do projeto de construção da identidade nacional. Dizia que as estruturas opressivas aos escravos se (res)significariam na opressão e exclusão dos “cidadãos negros”. A República prometia em seu discurso a elevação de todos os homens à categoria de “cidadão”. Isso no discurso. Na prática os negros continuaram relegados à condição de sub-humanos. Se antes havia a figura do capitão do mato, na República teríamos a figura do agente policial à caça de “vagabundos”.

Sem direito à terra e expulsos das grandes fazendas, a massa de ex-escravos ocupariam os centros urbanos. Sem emprego, exerceriam o trabalho informal, à mercê da repressão policial. Nas antigas fazendas, no lugar do negro vieram os europeus brancos. Enquanto vinham europeus, a entrada de africanos no país passou a ser proibida. A estratégia oficial era o branqueamento do país. O governo brasileiro até bancava a viagem de negros que quisessem voltar à África. A Educação Eugênica vigorava nos currículos escolares, ensinando aos cidadãos brancos a superioridade da “raça”. Os escritores que tentavam dar uma identidade nacional ao Brasil, bebiam na fonte de escritores europeus que difundiam uma concepção determinista evolucionista das raças. Neste sentido, para Karl Von Martius e Varnhagen, historiadores do Império, o entrave para o desenvolvimento do Brasil era a raça negra.

Para se ter uma idéia da força dessa ideologia, empresto a análise feita pelo professor Eduardo França Paiva sobre a pintura abaixo.

branco e negros

O nome da pintura já nos diz muita coisa. Portanto, iniciaremos pela análise do mesmo. Cã foi o filho de Noé que foi repreendido pelo pai por ter visto o patriarca nu. Na tradição lendária judaica, por essa falta cometida, os descendentes de Cã foram amaldiçoados à escravidão, os Canaanitas. Mas na Bíblia não diz nada sobre a cor da pele desses descendentes, e mais, os Canaanitas não eram do continente africano, mas sim vizinhos dos Hebreus no Oriente Médio. Mas de onde Marco Feliciano tirou a idéia de que eram os negros africanos os amaldiçoados? Aí que entra outro personagem na História: o Islã. Na versão lendária do Islã, os africanos seriam os descendentes amaldiçoados de Ham, outro filho de Noé. Foram os muçulmanos que deram essa versão para legitimar a escravidão na África já no califado Abássida. Como o Islã dominou a Península Ibérica, da qual faz parte Portugal, os portugueses se apropriaram dessa versão muçulmana para legitimar a escravidão africana nas suas colônias.

Analisando agora a pintura em si, a mulher mais negra é a alegoria dos descendentes de Cã e do passado colonial. Não esqueçamos que a pintura é de 1895, já na República. Portanto, ela nos diz muito sobre o ideal de nação da oficialidade do poder. No centro, há a moça mulata, filha da velha negra. A mulata já sofreu o processo de mestiçagem. O homem, mais branco, é a analogia do típico italiano camponês. A criança, já de pele totalmente branca, é a analogia do futuro. Um futuro em que não haveria mais negros por conta do processo de mestiçagem. O futuro da República e do desenvolvimento. A velha negra levanta as mãos aos céus se redimindo, agradecendo aos céus por não legar um futuro negro à nação. A criança faz um sinal de “Abenção”, que remete ao Cristianismo primitivo, como se quisesse dizer “Amém”.

Como podemos ver, numa só pintura analisada, podemos sintetizar vários discursos dos intérpretes não só do Império, como também dos posteriores à Abolição. De fato, essa ideologia de exclusão do negro na formação da nação por meio da mestiçagem, já que acreditavam que quanto mais mestiçagem mais branca seria a Pátria, refletiu na exclusão do negro na conquista pela cidadania.

Só para citarmos como exemplo como se deu essa exclusão, basta uma simples abordagem sobre a Revolta da Vacina, ocorrida na cidade do Rio de Janeiro em 1904. A República vinha com a promessa de modernizar e isso implicaria reformas urbanas. É quando o pais quer se mostrar desenvolvido aos olhos do mundo. Como vimos que desenvolvimento era sinônimo de branqueamento, tendo como espelho a Europa, especialmente a Paris da Bélle Epocque, não seria bem quisto um Rio de Janeiro cujo centro urbano transbordava negros para todo lado. Nos diários de viajantes da época há relatos de abominação à cidade por conta da grande quantidade de negros.

documento

Os negros eram descritos como “fezes sociais” nos relatórios de polícia. Os responsáveis pelo atraso, pela desordem. Aí que a política higienista de Oswaldo Cruz caiu como uma luva para expulsar os negros do centro da cidade. Durante a matança de negros pela polícia, nos relatórios oficiais os negros eram rebaixados às doenças contagiosas as quais a reforma higienista se propunha a neutralizar. Os que conseguiram sobreviver, ocuparam os morros, que hoje são as favelas. Outros foram colocados em porões de navios e asfixiados com cal e mandados para trabalhos forçados na Amazônia. Muitos nem sobreviveram à viagem.

Excluídos do projeto de nação, os negros não tiveram acesso a direitos sociais básicos que lhes proporcionassem ascensão social. Não conseguiam trabalhos formais, eram em sua maioria analfabetos e por serem analfabetos, não tinham nem direito ao voto. Então, temos que vasculhar o passado e ver quais as conseqüências desse passado no nosso presente. Ao negar a humanidade de um ser Humano, chamando-o de macaco, estamos trazendo à tona um discurso utilizado por centenas de anos para legitimar a segregação e a exclusão. Esse discurso preconceituoso reflete nos dados estatísticos sobre repressão policial, defasagem educacional, desigualdade social. Reflete na dificuldade de lutar pelos direitos políticos e sociais. Não adianta dizermos que não há racismo quando no Brasil a pobreza, o analfabetismo e os cemitérios têm como cor dominante a cor negra.

Está mais do que na hora dos acadêmicos e pesquisadores envolvidos com os temas relacionados ao racismo tomarem os espaços dos propagadores conservadores. É inadmissível que sujeitos como Danilo Gentili permaneçam à vontade para difundir o racismo sem respostas à altura da sua audiência. Ao acadêmicos, peço que deixem essa redoma universitária de congressos e seminários, e venham para a rua. Ocupem os jornais mais populares, as rádios, os canais de TV. Fiquem cara-a-cara com a sociedade e dialoguem numa linguagem acessível. De nada adianta escrevermos somente para revistas científicas se tais mídias não chegam às mãos daquele aluno de Ensino Médio que assiste pela TV a difusão do racismo velado e hipócrita. Se tal iniciativa não partir daqui de baixo, não vai partir nem de Globo, nem de SBT e nem de nenhuma mídia de grande audiência, uma vez que tal iniciativa afeta diretamente os interesses dos que se mantém no privilégio rebaixando os demais pela cor da pele.

O fim da Lei Caó


Casos recentes de racismo levam a defesa de lei mais severa para punir preconceito

Projeto que revoga a atual Lei Antirracismo para estabelecer regras mais duras está pronto para votação no Plenário da Câmara dos Deputados.

 28/02/2014

Reportagem – Ana Raquel Macedo
Edição – Marcos Rossi

Arquivo/Alexandra Martins
Henrique Afonso
Henrique Afonso, relator do projeto na Comissão de Direitos Humanos: lei atual não teve a eficácia esperada.

Ator negro permanece preso por duas semanas no Rio de Janeiro após ser acusado erroneamente de roubo. Manicure negra em Brasília é ofendida por cliente que se recusa a ser atendida por ela. Cobradora de ônibus negra é xingada na capital federal. São casos recentes de racismo que viraram manchete e reacenderam a discussão sobre a legislação brasileira a respeito do tema.

Há 25 anos, o País definiu o crime de racismo, indicado na Constituição, como inafiançável e imprescritível (Lei 7.716/89). Ao longo dos anos, a norma passou por modificações, ampliando as possibilidades de enquadramento na prática criminosa, caracterizada, por exemplo, pelo impedimento de acesso de alguém a algum serviço ou estabelecimento ou, ainda, pela incitação à discriminação por raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.

Na Câmara dos Deputados, está pronta para votação em Plenário proposta que pretende instituir uma nova lei contra o racismo e outros casos de preconceito, mais severa (PL6418/05 e apensados). Pelo relatório do deputado Henrique Afonso (PV-AC) aprovado em dezembro de 2013 pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias, ficaria revogado também artigo do Código Penal sobre injúria racial, cuja prática, diferentemente do crime de racismo, não é inafiançável e imprescritível.

A ideia é que tanto a injúria quanto a apologia ao racismo passem a ser enquadradas como discriminação resultante de preconceito de raça, cor, religião, sexo, aparência, condição social, descendência, origem nacional ou étnica, idade ou condição de pessoa com deficiência. A pena é de reclusão de um a três anos, passível de acréscimo de um terço.

Arquivo/Gustavo Lima
Luiz Alberto
Luiz Alberto reclama que há juízes que abrem outro tipo de ação penal em casos de racismo.

Para Henrique Afonso, a lei atual não atingiu a eficácia esperada. Opinião compartilhada pelo presidente da Comissão Nacional de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Wadih Damous. “A lei atual foi uma grande conquista na época em que foi editada. Pela primeira vez, aprovou-se uma lei que reprovava a prática de atos racistas. Infelizmente, as manifestações de racismo – inclusive manifestações acirradas – recrudesceram ao longo desses anos ao invés de diminuírem. De forma que a constatação é de que a lei não atende mais aos reclamos de uma reprimenda mais forte a manifestações racistas”, ressalta.

Postura firme
O coordenador da Frente Parlamentar Mista pela Igualdade Racial e em Defesa dos Quilombolas, deputado Luiz Alberto (PT-BA), não vê, contudo, necessidade de mudança da lei, mas, sim, de postura nas instituições brasileiras. “Esse conjunto de eventos que vem ocorrendo no Brasil demonstra que a legislação só precisa ser aplicada conforme foi aprovada. Por exemplo: para um preso em flagrante delito por crime de racismo, não cabe fiança. É imprescritível. É inafiançável. Mas o juiz trata de outra maneira, concede fiança, abre outro tipo de ação penal. Portanto, destoa do objetivo da legislação atual.”

Luiz Alberto argumenta que o sistema racial brasileiro é de tal forma complexo que o próprio Estado, muitas vezes, estimula práticas racistas, ao invés de coibi-las.

Íntegra da proposta:

Reportagem – Ana Raquel Macedo
Edição – Marcos Rossi

A reprodução das notícias é autorizada desde que contenha a assinatura ‘Agência Câmara Notícias

Vinícius Romão, ou quando é que o crioulo dança?


por marcos romão

A Mamapress/Sos Racismo, ou outros grupos antirracistas devem ir em socorro de quem não tem consciência racial e nem de que está sendo discriminado?

Minha resposta pessoal é por princípio sim.

Se alguém se afoga na água pulo atrás, não me interessa se a pessoa deseja morrer.

foto montagem a partir do facebook

foto montagem a partir do facebook

Vamos a este caso exemplar do Vinícus Romão.

Sábado, dia 22.02,

No final da noite, Francisco Chaves, branco, jornalista colaborador da Mamapress/Sos Racismo atual e apoiador na maioria dos casos de racismo que atuei desde 1972, me ligou P da vida, pois acabara de tomar conhecimento através de seu filho, que Vinícius Romão seu vizinho que conhecia desde criança,  estava preso fazia um tempo e apesar do esforço dos amigos, seu pai Jair
Romão não queria divulgação do fato pois havia sido orientado a não “enrolar” mais ainda mais a vida do filho, que estava sendo processado, mas caso inocente a justiça
seria feita…Assim disse a polícia e que ele o pai deveria tirar uma carteirinha para visitar o filho que lhe telefonara no dia seguinte depois de preso.

Conversando ao telefone com o Marcelo Chaves, filho e meu amigo, vi o seu desespero, por não saber o que fazer com a posição a seu ver “temerosa” e “receosa” do pai Jair Romão que lembro não é meu parente.

Francisco Chaves, para saberem, atua em foto jornalismo investigativo e acompanhou o nosso amigo comum,Tim Lopes durante anos, já havia me passado que suspeitava que o tal “detetive’ que prendera o Vinícius era o mesmo que atuava nas horas vagas na segurança de lojas e prédios da área.

Juntando as coisas nesta troca de telefonemas e sabendo que o pai era coronel reformado do exército, como do exército são muitas famílias da vizinhança.  Vimos que ao ser identificado, “o tal negão”, o policial viu que  o Vinícius era filho de militar Isto ajudou o rapaz negro a escapar de algo que poderia ter sido muito pior.

Como o perfil traçado do rapaz resumia-se ao que me disseram ser uma pessoa desligada, que gostava de caminhar com seu” walkman” no ouvido ao voltar do trabalho, depois das 10 da noite pelas ruas do Meyer.
Juntei o dele ao perfil das dezenas de garotos negros da classe média que tem dançado  feito patinhos na lagoa no país, que tomei conhecimento nos dois últimos anos em que voltei ao Brasil. Foram casos atendidos por nós e que por receio das famílias não foram divulgados apesar de resolvidos.
Chegamos às 11:30 de sábado– depois de troca de conversa entre Francisco Chaves, Marcelo Chaves e agregado à discussão oadvogado da CIR-OAB, Tito Mineiro— Resolvemos os 4 botar a boca no trombone utilizando todos os contatos que tivéssemos, pois o risco que o rapaz corria  de mofar na prisão era imenso e nem ele nem seu pai sabiam da gravidade, e só no transcorrer deste processo todos nós poderemos saber, talvez, tudo o que está por trás deste caso.

Considerado um caso de alto risco, seus amigos(do Vinícius) resolveram passar por cima dos “receios”  da família e começaram a falar oficialmente como “grupo de amigos do ViníciusRomão”.

Algumas horas depois o caso  atingiu a grande imprensa.

Boa parte do que escrevi aqui, Muitos de vocês já leram os resultados desta ação de centenas de milhares de pessoas pelo Brasil e mundo afora, que culminou na liberdade provisória do Vinícius, e os detalhes das internas policiais vocês provavelmente lerão no futuro. Pois as pessoas da vizinhança estão revelando o que sabem.

Em tempo: O Vinícius foi libertado graças à pressão da mobilização nas redes sociais. No Alvará de Soltura, não consta a retratação da testemunha, que só aconteceu depois.

Em resumo eu diria, quer ajudar alguém? Procure conhecê-lo. Quer ajudar o povo negro brasileiro?
Jogue fora o ideal do colonizador do negro “bom” e do negro “mau” pois isto é neoracismo.  Pois estamos diante de um sistema racista feito para prender e aprisionar negros e pobres quase negros, quando não os matam antes.

São ações que talvez ajudem a descolonizar a mentalidade salvacionista e idealista branca pintada de preta que muito negro tem, que não é a predominante, mas  noto que está ganhando força entre a classe média do Movimento Negro, que distante da realidade em que vivem os seus filhos, parece que esqueceram que a relação entre jovens negros e a polícia está igualzinha a quando éramos jovens, “vacilou, dançou”.

Como é que nossos garotos vão enfrentar o racismo se nós mesmos não os ensinarmos, que eles vivem em um sistema racista que não é cor de rosa Ipod, e que se não acordarem vão dançar feio?

Muita gente ao ver as entrevistas que ele está dando para a rede Globo, se pergunta, como é que o Vinícius e seu pai não estão vendo ou falando do racismo que finalmente todo o Brasil viu?

Não me espanto, no meu trabalho conheço tantos Vinícius Romãos, uns dentro e outros fora das prisões.

Aşé para todos, acabo de ganhar mais um parente, que nem me conhece, mas sei que como todos os meus garotos quer é viver a felicidade!