Negro doutor barrado em hotel “vira” neurocientista com dreads e três dentes de ouro


por Rosane Aurore e Marcos Romão

Será que o porteiro do hotel Tivoli Mofarrej na capital paulista, pediu para o neurocientista Carl Hart abrir sua boca e mostrar seus dentes, antes dele entrar no recinto para dar sua conferência?

“Carl Hart é negro e veio a São Paulo palestrar sobre a guerra às drogas e como ela é usada para marginalizar e excluir parte da população. Antes de se tornar um cientista respeitado, com três pós-doutorados, e um dos maiores nomes sobre o estudo de drogas, era usuário de crack. Ele decidiu tornar-se especialista nos efeito do crack para entender como a droga tinha destruído sua comunidade. E virou um neurocientista, com seus dreads e os três dentes de ouro.”

A notícia começou na redação da mídia Justificando, espalhando-se viroticamente nas redes sociais. Blogs e portais repetiram a matéria da discriminação racial, sofrida pelo negro Carl Hart, na capital paulista no hotel Tivoli Mofarrej.  Agora todos sabemos que Carl Hart tem dentes de ouro e cabelos dreads.  Mais um caso de racismo”cosmético”, segundo a visão tradicional brasileira.

Estamos mais uma vez diante do sensacionalismo e indignação para inglês ver, como no caso de discriminação sofrida em 1950, no Rio de Janeiro, pela negra americana, a  bailarina, coreógrafa e educadora e ativista pelos direitos civis Katherine Dunham, que foi impedida de se hospedar no Hotel Serrador. O caso gerou na época até a criação da lei Afonso Arinos, que penalizava o racismo como contravenção.  Afonso Arinos morreu em 1990 sem nunca ter visto alguém ser penalizado por esta lei. Saiba mais sobre a lei 1390.

A notícia vale pelo exótico, o ressaltar a descrição “neurocientista, com seus dreads e três dentes de ouro”, joga para escanteio sua principal acusação contra o racismo brasileiro. Acusação feita na lata para os ouvintes de sua palestra no hotelTivoli Mofarrej, que pagaram jetons de ouro para escutá-lo, escutar sua visão contrária às políticas adotadas em relação à drogas e que causa a morte violenta em sua guerra, de milhares de jovens negros no Brasil.

Carl Hart olhou para a platéia, repleta de pessoas que decidem sobre vida e morte de negros no Brasil e, perguntou para uma platéia só de brancos:
“Olhem para o lado, vejam quantos negros estão aqui. Vocês deviam ter vergonha”

Carl Hart não é qualquer acadêmico como os que vivem nas “Torres de Marfins” universitárias brasileiras, nem é um “gringo” que confunde Buenos Ayres com Conceição de Mato Dentro. Carl é um acadêmico e ativista, ele quer salvar vidas.

Antes de dar suas palestras a peso de ouro para os especialistas em “enxugar” gelo e suas política erráticas de “guerra às drogas”, Carl Hart conversou com a comunidade negra brasileira e interessados que não podem pagar nem são convidados para estes seminários exclusivos.

Ele sabe muito bem que ele é  um negro com visão global da questão, que atinge todos os continentes, mas os que mais sofrem em todos os continentes com as políticas adotadas contra as drogas,  são os grupos vulneráveis da sociedade, pobres, negros e todos os excluídos. Para os que estão em perigo da adição, ele apresenta a alternativa da inclusão na sociedade e, não na execução sumária como é de costume no Brasil.

Ao contrário do que a imprensa brasileira tentou fazer com Katherine Dunham, que de coreógrafa, ativista pelos direitos civis, especializada em antropologia da dança e virou “bailarina”, que na imprensa ninguém sabe de “que dança”, e da forma como Carl Hart está sendo descrito, é preciso saber que está cada vez mais difícil invisibilizar o racismo contínuo e estrutural e a luta contra ele, e que  os movimentos pelos direitos dos discriminados veem o racismo como questão global e atuam internacionalmente há décadas.

A todos os jovens jornalistas do Brasil, recomendamos que prestem atenção para não caírem nas armadilhas da individualização e escamoteação do racismo no Brasil, descrevendo-os como fatos episódicos.

Não ter nenhum negro na platéia da conferência de Carl Hart  sobre um  problema que atinge em maior grau a população negra brasileira,  é  que é o tema e o escândalo.

Ainda não vimos publicado nenhum desagravo ao Carl Hart, assinado pelos especialistas presentes na conferência. Bota vergonha nisto!

Nota atualizada

Após a notícia que o neurocientista Carl Hart teria sido barrado, notícia que inclusive a Mamapress comentou,  página Fluxo no Youtube  divulgou um vídeo/entrevista em que Carl esclareceria a situação. O Globo replicou  o material do “Fluxo”, com a manchete “ Neurocientista americano nega ter sofrido discriminação racial em hotel“.

Nas duas matérias Carl Hart releva o fato acontecido consigo e,  o considera de menor importância, além de afirmar  que o entrevistador do Blog Justificando, teria tirado suas declarações do contexto, associando erradamente o incidente acontecido, com o que falou em sua conferência. Assim como o que falou para o repórter sobre o que percebeu sobre as situação de isolamento em que os negros no Brasil.

O blog que publicou a matéria inicial, postou a entrevista feita com Carl Hart falando sobre o incidente ocorrido na entrada do hotel.

Como a nossa preocupação na Mamapress é esclarecer o máximo possível os/as nossos leitores/as, e sabedores de que tudo que tenha a ver com noticiar sobre racismo no Brasil, tem que se pisar em ovos, pois nem tudo é o que parece, e o que é dão sempre um jeito de deixar de ser. Para nós o que está claro é que Carl Hart não foi barrado na entrada do hoetel Tivoli Mofarrej. O que lá se passou ele mesmo em entrevista conta.

Trazemos assim os dois vídeos para que nosso/as leitores/as possa tirar suas conclusões:

Atentado à bala contra migrantes em frente à Igreja do Glicério fere 5 em São Paulo. Não foram socorridos. Após denúncias, Direitos Humanos de SP encontra e encaminha imigrantes haitianos feridos ao Hospital


por marcos romão

A Mamapress acompanha desde sábado 1 de de agosto, denúncias de migrantes de países africanos que vivem na cidade de São Paulo. Nosso colaborador Aristóteles Kandimba  informara ao Sos Racismo Brasil, que tem a Mamapress como canal de comunicação, que 5 imigrantes haitianos teriam sido vítimas de um atentado xenófobo e terrorista à bala em frente à Igreja do Glicério em São Paulo, ponto de encontro de migrantes em busca de empregos e contatos para se adaptarem ao novo país em que vivem.

Em um primeiro momento as notícias pareciam absurdas, pois além de serem atacados à bala por um brasileiro, os haitianos não foram atendidos pelos hospitais que procuraram.

O atentado terrorista xenófobo contra imigrantes haitianos

Um brasileiro desconhecidos desceu de seu carro atirando no grupo concentrado em frente à igreja, enquanto berrava: ” vocês estão roubando emprego de brasileiros”. Depois entrou no carro e fugiu calmamente, segunda testemunhas aturdidas com o acontecimento.

Após esforços do Conluta que criou uma entidade de socorro aos migrantes, as autoridades paulistas assumiram o caso, que merece apuração em dois níveis, o de xenofobia aleatória e o de racismo intitucional. Primeiro o atentado em si contra migrantes estrangeiros, que até o momento não mereceu uma linha sequer nos noticiários da grande imprensa, e o segundo o racismo institucional, em que deve se apurado a responsabilidade dos hospitais que não prestaram socorro às vítimas conforme relatado a seguir no jornal online do Conlutas.

A Mamapress considera que o Movimento Negro como um todo e os brasileiros em geral precisam tomar conhecimentos destas barbaridades e exigir das autoridades medidas de proteção aos imigrantes que procuram o Brasil para viver com suas famílias.

A matéria do Conlutas

O coordenador de Políticas para Migrantes, da Secretaria do Município, Paulo Illes, confirmou agora à noite que os quatro feridos estavam com as balas em seus corpos;

Há uma suspeita de que um quinto haitiano veio a falecer, informação ainda não confirmada

 

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Com a notícia divulgada no site da CSP-Conlutas de atentado contra imigrantes haitianos em São Paulo no último sábado, as autoridades responsáveis pelos Direitos Humanos, da prefeitura de São Paulo, iniciaram uma busca pelos feridos e conseguiram encontrar os quatro em suas respectivas casas.

O coordenador de Políticas para Migrantes, da Secretaria do Município, Paulo Illes, confirmou agora à noite que os quatro feridos estavam com as balas em seus corpos, fato relatado pela equipe do SAMU que foi buscá-los.

Eles foram levados ao Hospital Tatuapé, onde os membros da USIH estão indo para pegar todas as informações necessárias para abertura de inquérito policial. Até o presente momento foram registrados apenas dois Boletins de Ocorrência no 8º Distrito.

Atentado contra imigrantes

A USIH (União Social dos Imigrantes Haitianos), entidade responsável por organizar as lutas dos haitianos no Brasil, recebeu uma denúncia de que vários imigrantes haitianos foram vítimas de um crime, na noite de sábado (1).

Segundo informações dos próprios imigrantes à entidade, um veículo parou em frente ao local onde eles estavam concentrados, na região do Glicério, centro de São Paulo, e um homem gritou de dentro do carro que eles estariam “roubando os empregos dos brasileiros”. Então, com uma arma em punho, começou a disparar em direção ao grupo.

Foi informado que quatro deles ficaram gravemente feridos, e há uma suspeita de que um quinto veio a falecer.

O mais chocante é que eles não conseguiram atendimento médico nos hospitais e tiveram que voltar para casa com seus ferimentos em aberto.

A USIH e a CSP-Conlutas vão buscar se reunir com as autoridades na próxima semana para tomar todas as medidas necessárias sobre esse caso e outros que estão ocorrendo. O senador Paulo Paim (PT), que realizou uma audiência pública sobre a situação dos haitianos, nesta semana (veja aqui), também foi acionado para ajudar no caso.

– Saiba mais: Conlutas

Casos atuais de atentados contra imigrantes haitianos:

Haitiano é baleado em Rio Grande

Haitiano é esfaqueado por adolescentes em Curitiba

Show com “zoo humano” banido em Londres, vem para São Paulo


Uma performance artística polêmica com atores negros em um "zoológico humano" foi cancelada em Londres depois de protestos realizados na terça-feira, na sua noite de abertura.

Uma performance artística polêmica com atores negros em um “zoológico humano” foi cancelada em Londres depois de protestos realizados setembro. 2014, na sua noite de abertura.

No evento artístico, chamado Exhibit B, os atores apareciam em jaulas e presos a correntes para tratar das “repugnantes atitudes referentes à raça durante a era colonial”.( fonte BBC)

No entanto, os manifestantes consideraram a performance ofensiva e racista.

Já desde 2012, quando foi apresentada em Berlim na Alemanha,  que a peça do sul-africano Brett Bailey, causa polêmica e protestos das comunidades  negras e africanas na Europa. Os Afro-alemães assim a consideraram:

“A produção de “Exhibit B” é baseada em sua implementação na tradição colonial racista: a questão dos negros e pessoas de cor. Apesar das supostas intenções anti-racistas, Brett Bailey reproduz com o seu trabalho, a ideia dos africanos como objetos de entretenimento, conforto ou, como utilizado neste caso, a formação da “consciência” de pessoas brancas. ”

Brett Bailey pretende fazer trazer sua Performance ” Zoológica Humana” para o Brasil em 2016, e acabou nesta semana o processo de artistas negros, com conhecimentos básicos de inglês, para participarem com atores “mudos” da peça.

Dois episódios marcaram nas últimas semanas as relações das produções artísticas brasileira e a utilização do chamado “Black Face”, ou apropriação da cultura negra e suas simbologias, quando possíveis intenções antirracistas dos autores, mais revelam e reforçam o racismo mesmo que “desapercebido” dos autores do que esclarece a sociedade sobre o racismo e a necessidade de combatê-lo.

O autor de Exhibit B, foi perguntado em uma entrevista para o “Die Zeit” alemão, se o que ele estaria fazendo não seria, uma espécie de Pipi Show ( voyerysmo) para mexer com o sentimento de “vergonha” do branco.
Para os afro-alemães, ele apenas estaria repetindo os antigos zoológicos coloniais, com povos de África trazidos para Hamburgo, para agradar a burguesia branca local, só que desta vez para explorar o sentimento de culpa, mas mantendo os negros como sempre no papel de “Objetos Mudos”, passíveis de piedade, e só.

Manifestantes consideraram que a mostra ofensiva e 'cumplíce de racismo'

Manifestantes consideraram que a mostra ofensiva e ‘cumplíce de racismo’

De Paris a brasileira Fabiana Bruna Souza nos envia sua visão do que está se passando na Europa em relação à esta Performance e apela:

« Exhibit B » no BRASIL NÃO!!!

“Para quem não sabe, o mais conhecido internacionalmente como artista racista Brett Bailey, criou uma peça hedionda, condenada na Inglaterra e aqui na França; Após varias manifestações da população negra local em Londres, o povo negro conseguiu a anulação da pseudo peça, aqui em Paris, aconteceram vários confrontos com a polícia local,  participei dessas manifestações e vivi a violência do confronto, sentindo na pele como a politica francesa trata as manifestações da sua população negra : com repressão e violência.

A peça se chama « Exhibit B » e cria, “quadros vivos” de seres humanos negros em posição de inferioridade, sem voz, na posição de objetos.

Esses “quadros vivos” recriam cenas extremamente dolorosas da história da diáspora africana, e exibe o negro como coisa, da mesma velha maneira que nossos antepassados sofreram durante todo o período colonial : coisas em um zoológico humano, coisas de um show de horrores.”

“A CONVOCAÇÃO DE ARTISTAS NEGROS BRASILEIROS”

Brett Bailey, diretor teatral sul-africano, faz audição para escolher elenco brasileiro

10 de junho de 2015Sem categoria

Fonte: https://www.facebook.com/MostraInternacionaldeTeatroSP?fref=ts

A Mostra Internacional de Teatro de São Paulo – MITsp, fará uma audição para escolher atores negros para o espetáculo que será apresentado na MITsp 2016.

Vejam abaixo o comunicado.

Brett Bailey, diretor teatral sul-africano, faz audição para escolher elenco brasileiro.

O diretor sul-africano Brett Bailey fará uma audição com atores brasileiros nos
dias 23 e 24 de junho de 2015, na Oficina Cultural Oswald de Andrade, em São Paulo, para
montagem de espetáculo inédito no Brasil, que será apresentado na MITsp – Mostra Internacional
de Teatro de São Paulo, em março de 2016.
Serão escolhidos 14 atores (entre homens e mulheres) e as inscrições serão no período de 10 a 19 de junho
de  2015, pelo email secretaria@mitsp.org – com envio de currículo e fotos. Os selecionados
para a audição serão contatados por email no dia 21 de junho.

Requisitos necessários: a montagem requer atores e atrizes negros, com idade superior a 20 anos
e com conhecimentos básicos de inglês.

 

 

ASSURBANIPAL, O HERÓI DO MASSACRE DE MAIO 2006 EM SÃO PAULO


ASSURBANIPAL, O HERÓI

 reblogado da revista forum
Assurbanipal, o herói

Dez de julho de 2014 – o dia em que a vítima cansou de ser vítima. A data, que se fez histórica, ficará marcada pelo julgamento em que as forças se inverterem. Quando o menino da periferia, alvo fácil do policial militar encapuzado, apontou o dedo para o seu algoz e o levou à condenação. A Justiça paulista reconhece que houve envolvimento de PMs nos “Crimes de Maio de 2006” 

Por Igor Carvalho, com colaboração de Anna Beatriz Anjos

Angela Maria, mãe de Murilo, antes de entrar no Fórum de Santana. "“É a primeira vez que vou ver o homem que provavelmente assassinou meu filho” (Foto: Igor Carvalho)

Passava das 15h30 do último dia 8 de julho. O sofá está enorme, acomoda apenas Angela Maria Moraes Ferreira. Na sua frente, o almoço. Na TV, a histeria de Galvão Bueno. Nas ruas, pessoas apressadas e gritos ensaiados. Na memória, Murilo de Moraes Ferreira. Assim como na maioria das casas brasileiras, Angela parou para ver a seleção nacional contra a Alemanha, pela semifinal da Copa do Mundo, mas apenas para cumprir um rito. O ato burocrático a faz lembrar do filho. “Ele estaria adorando ver esse campeonato aqui, hoje estou pensando muito no Murilo e na falta que ele faz.”

A acachapante derrota brasileira em campo em nada alterou a rotina de Angela, que seguiu se preparando para a jornada mais “dolorosa da vida”, como definiu. No dia 10 de julho, às 9h30, começaria o Júri Popular do cabo Alexandre André Pereira da Silva, da Polícia Militar de São Paulo, acusado de executar seu filho no dia 16 de maio de 2006, durante a série de assassinatos que ficou conhecida como “Crimes de Maio” e que culminou na morte de 493 pessoas entre os dias 12 e 20.

Na véspera do julgamento, encontros com a assistente da acusação, a defensora pública Maíra Diniz, e a promotora Cláudia Ferreira Mac Dowell, responsável pelo processo, para preparar o depoimento de Angela diante do Júri Popular e mais uma vez estudar o caso. “É a primeira vez que vou ver o homem que provavelmente assassinou meu filho”, resumia a mãe de Murilo.

“Quem é o comando? O comando é nóis” 

O Júri Popular formado no Fórum de Santana sentenciou, após 12 horas de depoimentos e debates, que o cabo Alexandre André Pereira da Silva é o assassino de Murilo, filho de Angela. Desta forma, a Justiça paulista reconhece, depois de oito anos, que houve envolvimento policial nas chacinas que vitimaram 493 civis nos “Crimes de Maio”, tese defendida por diversos movimentos sociais, entre eles as “Mães de Maio”.

Há o risco de que o cabo André, como é conhecido entre seus pares, seja o único homicida identificado e condenado entre todos que atuaram no maio de 2006. “Nós precisamos saber quem matou nossos filhos. A história dos ‘Crimes de Maio’ começa a ser contada agora, já conhecemos um assassino. Essa impunidade tem me matado um pouco mais a cada dia que passa”, desabafou Débora Silva Maria, fundadora das “Mães de Maio.”

Em parceria, a Clínica Internacional de Direitos Humanos da Faculdade de Direito de Harvard e a ONG Justiça Global produziram um estudo profundo sobre os fatídicos 12 dias de maio que pararam o estado.“São Paulo sobre achaque: Corrupção, Crime Organizado e Violência Institucional” é um levantamento que analisa as 493 mortes e atribui a agentes da Polícia Militar a responsabilidade pelo assassinato dos civis.

Em quatro passos, a pesquisa explica como agiam os agentes da Polícia Militar. Primeiro, eles espalham um toque de recolher; depois, escolhem os alvos; em seguida, os encapuzados atacam; por último, PMs chegam ao local do crime e destroem as provas.

Murilo é fruto da lógica atestada pelos estudiosos de Harvard e pela Justiça Global, que é reafirmada nas ruas. Às 22h50 do dia 16 de maio de 2006, o filho de Angela estava com mais cinco amigos na esquina da rua Ramiz Galvão com a avenida Sanatório, no Jardim Brasil, zona norte de São Paulo. Neste local, funcionava um estacionamento e lava rápido, onde Murilo trabalhava.

Cartaz com a imagem de Murilo, em protesto das Mães de Maio (Foto: Flickr/Vereda Estreita)

“Ele estava saindo do trabalho, trabalhava até tarde sempre, era o último a sair do estacionamento e depois ficava conversando um pouco mais com os amigos na calçada. Eu, em casa, estava preparando a janta dele”, se recorda Angela.

Pelos jovens reunidos na calçada, naquela noite do dia 16 de maio, passaram seis ou oito motos. Os motoqueiros seguiram até o final da rua Ramiz, onde puderam tirar os capacetes e colocar toucas ninjas por baixo, em seguida recolocaram os capacetes e voltaram até a esquina onde estava o grupo. Quando se aproximaram, gritaram: “Quem é o comando? O comando é ‘nóis’”. Em seguida, dispararam sua covardia bélica, provocando a morte de Murilo de Moraes Ferreira, Felipe Vasti Santos de Oliveira e Marcelo Heyd Meres.

Sobrevivendo no inferno 

Essa história narra o destino de apenas três entre os 493 mortos. Mas ela só veio à tona porque Assurbanipal, que estava junto às vítimas no momento do ataque, sobreviveu. “Sem ele, esse Júri Popular não teria acontecido. Estou muito aliviada, mas o colocarei em minhas orações daqui pra frente, sabemos o risco que sua vida corre agora”, afirmou a defensora Maíra Diniz, se referindo a Assurbanipal.

O pai de Marcelo Heyd Meres, que não quis se identificar, se rendeu à importância da testemunha para o processo. “Só sei quem matou meu filho porque esse menino arruinou sua vida para que a morte de três amigos não fosse em vão”, declarou. “O Alexandre só foi condenado hoje porque o Assurbanipal deu um depoimento forte e convincente sobre os fatos que ocorreram naquela noite, emocionando o Júri e mostrando seu compromisso com a verdade”, disse a promotora Cláudia Ferreira Mac Dowell, que durante a audiência sentenciou: “Assurbanipal é um herói.”

Ameaçado e levando uma vida nômade, Assurbanipal troca frequentemente de residência. A partir do instante que decidiu testemunhar contra o policial que chacinou seus amigos, já sabia que sua vida seria de privações.

Perseguindo um rosto

Quando os encapuzados começaram a disparar suas armas, três jovens conseguiram escapar para dentro do estacionamento. O primeiro se alojou no banheiro, que ficava nos fundos. O outro buscou abrigo dentro de um dos carros. O terceiro, Assurbanipal, subiu no telhado. De lá, observou quando alguns dos assassinos entraram no local buscando pelos que haviam fugido.

Do alto do telhado, a testemunha viu quando o cabo André entrou no estacionamento e levantou o capacete, o apoiando na testa e deixando o rosto à mostra. A falta de visão periférica e de iluminação no local forçaram o policial militar a se despir da covarde fantasia de assassino oculto. O gesto foi fatal.

Sem tempo para empreender mais mortes, os homicidas fugiram. Os sobreviventes saíram de seus esconderijos e partiram antes da chegada da polícia ao local. Dois deles nunca quiseram falar sobre o assunto, negando que tivessem visto qualquer evidência que colaborasse com a investigação. O outro, Assurbanipal, perseguiu aquele rosto por oito anos.

Às 9h30 do dia 10 de julho de 2014, ele prestou seu depoimento e mais uma vez não hesitou diante da indagação sobre quem seria o homem que revelou seu rosto no estacionamento: Era o cabo André.

Assurbanipal nunca terá sua identidade revelada. A alcunha roubada do nome de um rei dos assírios é o que constará nos autos do processo. Enquanto depôs, o público e imprensa não foram autorizados a ficar no plenário. Revelou seu rosto aos sete jurados, ao advogado de defesa Eugênio Carlo Balliano Malavasi, ao juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo, além da promotora Cláudia e da defensora Maíra. Em seguida, partiu. Provavelmente nunca poderá narrar sua epopeia e propagar seu feito. Graças a sua coragem, três famílias sabem quem é um dos assassinos de seus filhos, mas só três, entre 493.

O cabo André

No banco dos réus, o cabo André se manteve impávido durante as 12 horas do julgamento. Não reagiu nem mesmo quando foi duramente afrontado pela promotora. Entre as noites dos dias 16 de maio de 2006 e 10 de julho de 2014, Alexandre André conseguiu uma promoção, abandonando a patente de soldado e assumindo a condição de cabo. A evolução profissional veio apesar do processo que ele já respondia na Justiça pela chacina dos três jovens do Jardim Brasil.

O policial foi alvo ainda de diversas ocorrências administrativas que demonstram seu descaso com o ofício. Entre os motivos para os processos internos estão o abandono de uma viatura sob sua responsabilidade; a não devolução de uma arma ao batalhão; a realização de uma abordagem sem registro; o comparecimento a uma ocorrência com troca de tiros somente uma hora depois de ter sido acionado para que fosse ao local; e o uso de uma moto com a placa levantada, para evitar que fosse identificada.

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A chacina do Jardim Brasil também foi alvo de um processo no Conselho de Disciplina da Polícia Militar, instaurado para analisar a conduta de policiais com mais de dez anos serviço, como o cabo André. O policial foi inocentado pela PM por falta de provas, com a ressalva de que o depoimento de Assurbanipal deveria ser colhido com “reservas”.

As provas apresentadas no processo do Conselho de Disciplina, assim como as testemunhas, foram as mesmas trazidas ao Júri Popular no último dia 10 de julho. Para Ariel de Castro Alves, advogado membro do Movimento Nacional de Direitos Humano, e, à época dos crimes, secretário-geral do Conselho Estadual da Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe), é comum que haja uma investigação seletiva dentro da PM. “Até por conta da questão corporativa. Eles acabam priorizando investigar as mortes dos seus membros, no caso das polícias Civil e Militar, do que investigar as mortes de pessoas comuns, de civis.”

Alves explica que as investigações dos “Crimes de Maio” foram prejudicadas por uma série de outros fatores. “Praticamente em todos os casos, as perícias foram inviabilizadas”, ressalta. “O Instituto de Criminalística não chega na hora dos crimes, às vezes chega um dia depois, ou muitas horas depois. Tudo isso, a simulação de que estão socorrendo a pessoa, de que houve resistência”, afirma.

“Além de que é corrente a questão de que quem pratica crime encapuzado e usando luvas jamais vai ser identificado, a não ser que um dos coautores denuncie, porque as testemunhas não vão identificar, as vítimas que sobrevivem também não”, destaca. Ele ainda relembra o problema das testemunhas: “Elas se sentem coagidas, pressionadas, amedrontadas. Muitas que até em um primeiro momento prestam depoimento na Polícia Civil, depois mudam de casa, somem, não são mais encontradas para prestar depoimento. Exatamente pelas intimidações, pelo medo que têm de ser a próxima vítima, de ser alvo de queima de arquivo. Isso tudo vai contribuindo para garantir a impunidade, tanto nos casos de 2006, tanto nos outros que envolvem policiais civis, militares e grupos de extermínio.”

"Mães de Maio" comemoram a condenação do cabo André na frente do Fórum de Santana (Foto: Igor Carvalho)

O julgamento

Na plateia do auditório estavam as famílias das vítimas e outras mães que perderam seus filhos nos “Crimes de Maio”. Porém, o público, assim como a imprensa, só acompanhou o Júri Popular depois que Assurbanipal, a mãe de Murilo, Angela Maria, e a soldado feminina Patrícia Aparecida Ferreira dos Santos Souza depuseram.

Ao todo, foram ouvidas cinco testemunhas. Também fundamental para a condenação do cabo André foi o depoimento da soldado Patrícia, que sustentava o álibi do réu. Segundo a versão apresentada pela dupla, ambos realizaram patrulha juntos durante a noite do dia 16 de maio, desde as 22h até as 6h. Os dois negam que tenham passado pela esquina da rua Ramiz Galvão com a avenida Sanatório naquela noite.

Porém, a promotora apresentou um relatório de serviço motorizado (RSM), produzido pela PM, apontando as equipes que trabalham nas viaturas e a escalca com os agentes de plantão. No dia 16 de maio de 2006, de acordo com o documento, o cabo André estava na viatura 05435, enquanto Patrícia estaria nas ruas com o carro 05434. Porém, uma refação manual do RSM mostra ambos trabalhando juntos na viatura 05430, o que para a promotoria se configurou numa “tentativa de se forjar e acobertar o acusado”.

Eugênio Carlo Balliano Malavasi, advogado de defesa, alegou que a prática é comum. “Na preleção, que é a conversa que o comandante tem com sua equipe antes que saiam às ruas, é normal que se troquem as equipes e a alteração é registrada manualmente, não há computador dentro das viaturas”, argumentou.

A dupla seguia sustentando que não esteve no Jardim Brasil na noite do dia 16 de maio de 2006. Porém, mais uma vez a promotoria os colocou diante de uma contradição. O boletim de ocorrência registrado na noite da chacina aponta que a viatura guiada pela soldado Patrícia levou Felipe Vasti Santos de Oliveira, uma das vítimas, para o Hospital São Luiz Gonzaga. O documento cita nominalmente a policial como condutora do veículo.

Quando intimado a falar, o cabo André negou todas as acusações e não conseguiu explicar as contradições. “Eu não fiz isso, não é do meu feitio fazer isso. Nunca precisei disso, estou na PM há 25 anos para proteger as pessoas, não para tirar vidas.”

Durante o Júri Popular, Cláudia Ferreira Mac Dowell teve uma atuação que impressionou os presentes, principalmente quando se dirigia ao réu. “Ele não representa a Polícia Militar, é um mau policial, esse homem é um executor”, gritou apontando o dedo para o cabo André, que tentava driblar seu olhar, em vão. Sobre a PM, a promotora disse: “Não é confiável, eles são corporativistas e forjam provas. Procurou-se dar sustentação a um álibi forjado.”

Cláudia lembrou o “Massacre do Carandiru” para apoiar sua tese. “Era comum, há 20 anos, ouvir que  ‘mataram pouco, deviam ter matado mais’. Porém, recentemente, foram julgados os policiais envolvidos naquele episódio e foram todos condenados. A violência policial não é mais tolerada”, afirmou a promotora.

O relógio quase apontava 20h quando Alexandre André Pereira da Silva ouviu que foi considerado culpado pelo Júri Popular e que não pode mais ocupar cargos públicos, se afastando assim da PM, além de cumprir 36 anos de prisão pelas mortes de Murilo de Moraes Ferreira, Felipe Vasti Santos de Oliveira e Marcelo Heyd Meres.

Imediatamente, Malavasi recorreu da decisão. “Condenaram um inocente. As provas apresentadas não são aptas para uma condenação”, defendeu o advogado, que vai tentar levar o caso ao Tribunal de Justiça de São Paulo pedindo a anulação do júri. Dessa forma, o cabo André segue livre até que os recursos possíveis sejam analisados.

A ruptura da complacência com a impunidade à violência policial foi comemorada pela acusação. “As condenações do Carandiru e a condenação do Alexandre André são um novo paradigma. A sociedade paulista já demonstrou nas manifestações desde junho do ano passado que não tolera mais essa polícia violenta”, afirmou a defensora Maíra Diniz.

O pai de Marcelo afirmava estar aliviado com o fim da “batalha”. “Foram oito anos. Um está condenado, mas e o resto? Acabou nossa vida, nos tiraram nossa alegria.” Para Angela, “nada trará de volta o Murilo”, mas a condenação do cabo André mostra que “não somos malucos de ficar dizendo que foram policiais que fizeram isso, que tiraram nossos filhos.”

Ao final, Cláudia anunciou que irá recorrer da pena, pois a achou “branda demais” e demonstrou pessimismo sobre novas condenações no caso dos “Crimes de Maio”. “Esse foi o primeiro e talvez seja o único”. A promotora lamentou a diminuição do valor da vida nas periferias. “Não são três trastes, ou três desconhecidos, foram três seres humanos.”

Aquele maio 

São Paulo, que nunca para, parou em maio de 2006. Seguidos toques de recolher, ruas vazias, policiais sendo assassinados e civis, chacinados, em esquinas de periferias.

Segundo o relatório “São Paulo sob achaque”, o Primeiro Comando da Capital (PCC) resolveu atacar instalações da Polícia Militar, Guarda Civil Metropolitana e Bombeiros.  Estavam insatisfeitos com as condições dos presídios, com a extorsão praticada por policiais que cobravam propinas e ameaçavam familiares de membros do grupo e com o sequestro de um sobrinho de Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola.

Após o indulto do dia das Mães, que se inicia no dia 12, começaram os ataques. Nas primeiras 48 horas de ofensiva do PCC, 40 agentes de segurança do Estado morreram. Porém, até dia 20, quando se encerra a onda de violência, seriam apenas mais três, totalizando 43 mortes.

Por outro lado, no que é classificado pela promotora Cláudia como “o revide da Polícia Militar”, morreram 493 civis, em circunstâncias e lógicas que se repetem. A periferia é o alvo preferencial, grupos reunidos em esquinas ou bares, os assassinos encapuzados, a rapidez com a que viaturas da PM aparecem após os atentados e os relatos de alteração da cena do crime.

Corpos chegavam e eram empilhados na central do Instituto Médico Legal (IML), ao lado do Hospital das Clínicas. “O que mais me chocou foi uma mãe, que não sei nem quem é, que foi para lá para reconhecer ou tirar o filho, não sei. Ela saiu, prendia o choro, a boca dela tremia, ela tremia inteira. Peguei na mão dela – uma senhora bem simples -, e falei: “Chora, é seu filho. Chora que vai melhorar. Ela falou: ‘Não posso’.  O medo dela, sabe qual era? Tinha carro de polícia lá na porta.  ‘Se eles me veem chorando, eu tenho mais 3 em casa. Eles matam os outros’”, relata Rose Nogueira, que organizou o livro “Crimes de Maio” a partir das apurações realizadas pela comissão de investigação independente – articulada por ela junto a várias entidades da sociedade civil -, e que, à época dos ataques, presidia o Condepe.

O medo dos policiais era compartilhado pelos familiares de vítimas. No dia 16 de maio, Vera Lúcia dos Santos perdeu a filha, Ana Paula, de 20 anos, e a neta Bianca, que nasceria no dia seguinte. “A cesárea estava marcada para o dia seguinte. Ela saiu com o marido para comprar leite, pois estava com vontade de tomar vitamina”. Segundo relatos de testemunhas, durante o caminho, na cidade de Santos, homens se aproximaram e atiraram contra Ana e o companheiro, Eddie Joey Oliveira. Ana tentou tirar o capuz de um dos atiradores e ouviu: “Filho de bandida, bandido é”. Logo em seguida, sua barriga foi alvo de diversos disparos. Os três morreram.

“Eu tenho medo de polícia até hoje, é horrível isso”, afirma Vera Lúcia, que pode ter razão no receio. Os pesquisadores de Harvard e da Justiça Global escutaram o então diretor do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), Marco Antonio Desgualdo, que não tem dúvida em afirmar: “Eram PMs [que praticavam as chacinas]”. Ainda no mesmo relatório, outro diretor do DHPP, Domingos de Paula Neto, aponta:  “A maioria das chacinas em São Paulo são praticadas por policiais militares da ativa.”

(Crédito da foto de capa: Reprodução)