“INJÚRIA RACIAL” equivale a crime de racismo: imprescritível


A Mamapress publica agora, o terceiro de uma série de artigos sobre as mudanças que aconteceram e que influenciarão os julgamentos de racismo e injúria racial, a partir da decisão do STJ de 1º de outubro de 2015, que tem suas interpretações esclarecidas ao considerar, que o ato de “injúria racial” também é racismo.

“Esse crime, por também traduzir preconceito de cor, atitude que conspira no sentido da segregação, veio a somar-se àqueles outros, definidos na Lei 7.716/89, cujo rol não é taxativo”, afirmou Maranho, sendo seguido pelos demais ministros da 6ª Turma.

“Ninguém, senão a vítima de uma ofensa racial com alusão ao conceito racista do estigma da inferiorização humana, tem idéia da violência psicológica das tais injúrias, em especial nos jovens e crianças ainda não equipados mentalmente para o enfrentamento da sociedade racista. A baixa estima, a evasão escolar, a marginalização e a busca de refúgio em alucinógenos são efeitos colaterais das ofensas racistas.” Do autor.

Como quase passou despercebida esta decisão,  e atos racistas estão aumentando tanto na vida real das pessoas, como nas redes sociais e meios de comunicação. talvez até pelo fato, de “injúria racial” ser considerado um delito menor, prescritível e com condenações risíveis, que agridem mais as vítimas  e pune os racistas, com multas do valor de uma bolsa-família. A Mamapress incia agora a publicação de artigos passados que recolhemos na internet, que poderão servir aos grupos antirracistas, ao advogados e juízes e aos delegados de polícia como informações jurídicas atualizadas,  para que possam agir na coibição do racismo, seja em que forma se apresente.

 

Por J. Roberto Militão

fonte CGN

J. Roberto Militão

J. Roberto Militão

Uma vitória extraordinária na luta contra o racismo: o delito de ´iNJÚRIA RACIAL´ é uma espécie do gênero ´racismo´, portanto, imprescritível e não afiançável conforme a nova jurisprudência do STJ.

Ninguém, senão a vítima de uma ofensa racial com alusão ao conceito racista do estigma da inferiorização humana, tem idéia da violência psicológica das tais injúrias, em especial nos jovens e crianças ainda não equipados mentalmente para o enfrentamento da sociedade racista. A baixa estima, a evasão escolar, a marginalização e a busca de refúgio em alucinógenos são efeitos colaterais das ofensas racistas.

Esse excelente artigo abaixo contextualiza a recente decisão do STJ – Superior Tribunal de Justiça (o órgão máximo de interpretação das leis) a injúria racial (a ofensa pessoal tipo “preto burro”) também é igualado ao crime de racismo, previsto no art. 5º, XLII da Constituição Federal de 1988 e na Lei Federal 7716/89 – a ´Lei CAÓ´ de autoria do jornalista e Deputado Constituinte Carlos Alberto CAÓ de Oliveira = PDT/RJ e que regulamentou pela primeira vez no Brasil, o racismo como crime, logo após a promulgação da Carta Cidadã de 1988.

Acontece que desde a vigência da lei quase nunca foi efetivamente aplicada pois as autoridades policiais, Juízes e Tribunais vinham decidindo que a ´injúria racial´, não se configurava no crime de racismo, conforme a lei constitucional – e que seria um ´delito menor´, sem as cláusulas de imprescritível e inafiançável.

Numa tentativa de dar eficácia à lei de punição ao racismo, em 1997 o então Deputado PAULO PAIM-PT/RS conseguiu aprovar projeto de lei, tipificando a injúria raical, introduzida no art. 140, 3º do Código Penal.

Novamente as autoridades passaram a desclassificar toda denúncia de racismo para o delito do tipo ´injúria racial´, do art. 140 do CP. Não consideravam a injúria racial como ´racismo´ e passaram a não aplicar o rigor da lei 7716/89, e com penas brandas ou alternativas (cestas básicas) o racismo no Brasil continua sendo prática recorrente e impune.

Doravante não podem mais decidir neste sentido!

Por conseguinte e analogia o crime de ´injuria racial´ (art.140, 3º do CP) passam também a serem inafiancáveis. Ou seja, doravante, quem os praticar se preso em flagrante pelo delito de ofensa racial, não será facultado ao delegado nem ao Juiz a fixação de fiança para responder em liberdade.

Assim, os praticantes desses crimes de violação da dignidade humana da vítima, responderá ao processo preso. Uma grande conquista no combate ao racismo!

Saiba mais

Leia sobre o caso Heraldo Pereira Versus Paulo Amorim que deu origem à decisão do STJ

Quando as vítimas falam: Os parentes dos 5 mortos em Costa Barros vão para a Central do Brasil


Familiares dos 5 jovens negros assassinados pela PM em Costa Barros em manifestação na Central do Brasil. foto: José Andrade

Familiares dos 5 jovens negros assassinados pela PM em Costa Barros em manifestação na Central do Brasil. Foto:Jose Andrade

por Bruno Rico

Essa foto resume bem o ato desta quinta-feira, que foi realizado na Central do Brasil. Mais uma vez os pais das vítimas tiveram voz, falaram para a imprensa, falaram para a população, choraram, desabafaram e viram que não estão sozinhos, por mais que o governo insista em tratá-los como nada.

Se o seu Natal vai ser de boa com a sua família, bom pra você; mas esses pais irão passar sem seus filhos, que foram assassinados pelo Estado e ignorados pela grande maioria da sociedade, e eu nem preciso dizer o porquê.

Aprendi que na vida cada um luta pelo que acredita, e eu tenho várias lutas, e essa sempre será uma delas, dar voz pra quem é sempre silenciado.

Essa semana descobri que eu sou do Psol, hoje descobri que sou do PV, e que recebi dinheiro de partido político para fazer o ato de Madureira, depois eu vou procurar essas carteirinhas e esse dinheiro, talvez eu tenha perdido aqui em casa.

Esses boatos só mostram que estou no caminho certo, pois estou incomodando muita gente que não acredita em uma luta apartidária, independente e totalmente do povo, pelo povo, essa galera tá queimando a língua; Eu quero é mais, cada um nasce com uma missão, a minha é incomodar!

Hoje eu recebi os cumprimentos do Seu Carlos, pai do menino Carlinhos, menino de 16 anos, morto na chacina de Costa Barros, ele disse pra eu continuar na luta, continuar puxando esses atos, pois o governador só atendeu os familiares por causa desta mobilização social, e ele fechou falando que está comigo porque eu estou com ele; e ouvir isso de um pai que acabou de perder um filho, da forma que perdeu, é sem palavras.

Muito obrigado a quem esteve presente. Em Janeiro teremos algo grande, já estamos nos organizando para fazer um evento impactante e conscientizador, pois a luta jamais poderá parar, o povo preto continuará morrendo, o favelado continuará morrendo, e se a gente não gritar, ninguém vai fazer isso pela gente. Por isso que é nós por nós, sempre.
Nem um passo para trás, nem para tomar impulso.

Nota do redator da mamapress:

Não esmoreça caro Bruno Rico, meu coração está consigo e todos os pais e mães que perderam seus filhos vítimas da brutalidade policial. A saúde e o meu tratamento tem impedido que esteja com vocês cerrando fileiras nas ruas. Em janeiro espero estar com vocês. Acompanho e apoio cada passo desta luta de forma virtual na Mamapress, que defende a luta autônoma e independente de nossas populações. Delanir CerqueiraCarlos JuniorJosé De Andrade e Adelia Azevedo tem me botado a par desta brava luta.
Você está no caminho certo, nosso povo, os pais e as mães estão no caminho certo. Só serão ouvidos se falarem por si mesmos, sem tutelas e sem “aparelhamentos”. Quem quiser ajudar que ajude, mas no apoio e na retaguarda e não no se apropriarem para outros fins, das bandeiras de nosso povo violentado.

O xixi de um neurocientista negro e o racismo à brasileira


por marcos romão

Publicado originalmente em 30.8, no meu perfil do facebook, em comentário sobre que tipo de situação racista aconteceu com o neurocientista Carl Hart em São Paulo.

Carl Hart 2015

Carl Hart 2015-foto internet

Não vi o Carl Hart, em nenhuma das entrevistas dadas, minimizar o problema/incidente ocorrido com ele em um hotel de São Paulo e que ganhou manchete nacional.
Nas duas entrevistas que ele deu, ele apenas coloca em seu ponto de vista a dimensão do incidente ocorrido com ele, e a dimensão e gravidade da questão racial brasileira.
As interpretações das mídias é que ficaram ao gosto do freguês/jornalista.
O Globo interpreta com a manchete, “ Neurocientista nega ter sofrido discriminação racial em hotel“, o blog “Justificando” iniciou a série de “interpretações”, dizendo que ele foi “barrado” no hotel, afirmação que depois o blog atenuou.
Temos neste incidente além do fato racista em si, que foi o comportamento de um segurança que ele nem percebeu, o “antirracismo solidário”, mas precipitado do blog “Justificando”, ao colocar o Carl como vítima de uma coisa que não aconteceu da forma descrita como “barrado” e, o “racismo de apagamento dos fatos” típico da nossa mídia”, que antes de ir fundo em qualquer apuração, escreve de cara a velha frase,” não houve discriminação”.
Carl relata sua surpresa ao sair do banheiro, quando foi abordado por pessoas que vierem lhe pedir desculpas.
Neste momento deve ter acendido o sinal de alarme que todo negro possui em qualquer lugar do mundo, quando acontecem casos relacionados com a sua cor. Para ele foi uma coisa pequena, um “pequeno incidente”, disse o cientista.
Para um negro brasileiro que circule nesta áreas nobres, isto não teria acontecido, pois acostumados que estamos com o racismo à brasileira, teríamos falado antes com o porteiro ou recepcionista, ou cumprimentado qualquer cão de guarda e feito um sinal de que estávamos apertados e por isso estávamos com pressa para fazer xixi, pois somos domesticados no Brasil a antecipar e evitar problemas que envolvam “impedimentos” raciais.
Ao contrário de minimizar o problema, creio que conscientemente, Carl demonstrou o racismo estrutural e onipresente do Brasil. Onde nós negros e negra temos sempre que pensar duas vezes onde e quando vamos mijar nas áreas nobres das cidades brasileiras.

Negro doutor barrado em hotel “vira” neurocientista com dreads e três dentes de ouro


por Rosane Aurore e Marcos Romão

Será que o porteiro do hotel Tivoli Mofarrej na capital paulista, pediu para o neurocientista Carl Hart abrir sua boca e mostrar seus dentes, antes dele entrar no recinto para dar sua conferência?

“Carl Hart é negro e veio a São Paulo palestrar sobre a guerra às drogas e como ela é usada para marginalizar e excluir parte da população. Antes de se tornar um cientista respeitado, com três pós-doutorados, e um dos maiores nomes sobre o estudo de drogas, era usuário de crack. Ele decidiu tornar-se especialista nos efeito do crack para entender como a droga tinha destruído sua comunidade. E virou um neurocientista, com seus dreads e os três dentes de ouro.”

A notícia começou na redação da mídia Justificando, espalhando-se viroticamente nas redes sociais. Blogs e portais repetiram a matéria da discriminação racial, sofrida pelo negro Carl Hart, na capital paulista no hotel Tivoli Mofarrej.  Agora todos sabemos que Carl Hart tem dentes de ouro e cabelos dreads.  Mais um caso de racismo”cosmético”, segundo a visão tradicional brasileira.

Estamos mais uma vez diante do sensacionalismo e indignação para inglês ver, como no caso de discriminação sofrida em 1950, no Rio de Janeiro, pela negra americana, a  bailarina, coreógrafa e educadora e ativista pelos direitos civis Katherine Dunham, que foi impedida de se hospedar no Hotel Serrador. O caso gerou na época até a criação da lei Afonso Arinos, que penalizava o racismo como contravenção.  Afonso Arinos morreu em 1990 sem nunca ter visto alguém ser penalizado por esta lei. Saiba mais sobre a lei 1390.

A notícia vale pelo exótico, o ressaltar a descrição “neurocientista, com seus dreads e três dentes de ouro”, joga para escanteio sua principal acusação contra o racismo brasileiro. Acusação feita na lata para os ouvintes de sua palestra no hotelTivoli Mofarrej, que pagaram jetons de ouro para escutá-lo, escutar sua visão contrária às políticas adotadas em relação à drogas e que causa a morte violenta em sua guerra, de milhares de jovens negros no Brasil.

Carl Hart olhou para a platéia, repleta de pessoas que decidem sobre vida e morte de negros no Brasil e, perguntou para uma platéia só de brancos:
“Olhem para o lado, vejam quantos negros estão aqui. Vocês deviam ter vergonha”

Carl Hart não é qualquer acadêmico como os que vivem nas “Torres de Marfins” universitárias brasileiras, nem é um “gringo” que confunde Buenos Ayres com Conceição de Mato Dentro. Carl é um acadêmico e ativista, ele quer salvar vidas.

Antes de dar suas palestras a peso de ouro para os especialistas em “enxugar” gelo e suas política erráticas de “guerra às drogas”, Carl Hart conversou com a comunidade negra brasileira e interessados que não podem pagar nem são convidados para estes seminários exclusivos.

Ele sabe muito bem que ele é  um negro com visão global da questão, que atinge todos os continentes, mas os que mais sofrem em todos os continentes com as políticas adotadas contra as drogas,  são os grupos vulneráveis da sociedade, pobres, negros e todos os excluídos. Para os que estão em perigo da adição, ele apresenta a alternativa da inclusão na sociedade e, não na execução sumária como é de costume no Brasil.

Ao contrário do que a imprensa brasileira tentou fazer com Katherine Dunham, que de coreógrafa, ativista pelos direitos civis, especializada em antropologia da dança e virou “bailarina”, que na imprensa ninguém sabe de “que dança”, e da forma como Carl Hart está sendo descrito, é preciso saber que está cada vez mais difícil invisibilizar o racismo contínuo e estrutural e a luta contra ele, e que  os movimentos pelos direitos dos discriminados veem o racismo como questão global e atuam internacionalmente há décadas.

A todos os jovens jornalistas do Brasil, recomendamos que prestem atenção para não caírem nas armadilhas da individualização e escamoteação do racismo no Brasil, descrevendo-os como fatos episódicos.

Não ter nenhum negro na platéia da conferência de Carl Hart  sobre um  problema que atinge em maior grau a população negra brasileira,  é  que é o tema e o escândalo.

Ainda não vimos publicado nenhum desagravo ao Carl Hart, assinado pelos especialistas presentes na conferência. Bota vergonha nisto!

Nota atualizada

Após a notícia que o neurocientista Carl Hart teria sido barrado, notícia que inclusive a Mamapress comentou,  página Fluxo no Youtube  divulgou um vídeo/entrevista em que Carl esclareceria a situação. O Globo replicou  o material do “Fluxo”, com a manchete “ Neurocientista americano nega ter sofrido discriminação racial em hotel“.

Nas duas matérias Carl Hart releva o fato acontecido consigo e,  o considera de menor importância, além de afirmar  que o entrevistador do Blog Justificando, teria tirado suas declarações do contexto, associando erradamente o incidente acontecido, com o que falou em sua conferência. Assim como o que falou para o repórter sobre o que percebeu sobre as situação de isolamento em que os negros no Brasil.

O blog que publicou a matéria inicial, postou a entrevista feita com Carl Hart falando sobre o incidente ocorrido na entrada do hotel.

Como a nossa preocupação na Mamapress é esclarecer o máximo possível os/as nossos leitores/as, e sabedores de que tudo que tenha a ver com noticiar sobre racismo no Brasil, tem que se pisar em ovos, pois nem tudo é o que parece, e o que é dão sempre um jeito de deixar de ser. Para nós o que está claro é que Carl Hart não foi barrado na entrada do hoetel Tivoli Mofarrej. O que lá se passou ele mesmo em entrevista conta.

Trazemos assim os dois vídeos para que nosso/as leitores/as possa tirar suas conclusões:

O preço do sucesso para os negros


O episódio lamentável do esdrúxulo caso de racismo cometido contra Maria Julia Coutinho – a Maju – deve ser visto em sua exata dimensão. O destaque de negras e negros incomodam. A comunicadora Maria Julia tornou-se uma febre televisiva. Conquistou um estupendo sucesso numa área cinzenta dos noticiários – com o perdão do sentido duplo da palavra – em que a mesmice é a marca, que é a da informação do tempo. A criatividade, carisma e beleza de Maju fizeram com que O Jornal Nacional – principal programa da Rede Globo – passasse a ter como atração a comunicadora que fala da previsão do tempo!

Por  do Brasil de Carne e Osso 

Foto divulgação/ TV Globo: Maju Coutinho

Para quem conhece Maria Júlia desde a adolescência como eu o seu sucesso seria questão de tempo. Este ataque poderia ser letal caso ela não fosse filha de quem é. Seus pais, amigos meus de longa data, são educadores e ativistas. São daqueles ativistas sóbrios e firmes em suas posições, mas proativos e muito focados na educação, como professores que são. Portanto, ela soube desde sempre, com os pais que tem, dos meandros do racismo brasileiro. Vai tirar de letra essa estupidez, pois tem autoestima positiva e pleno conhecimento da causa dos ataques sofridos: seu sucesso espetacular! Menos mal. Sua carreira que é sucesso desde a TV Cultura vai continuar em ascensão.

Comentaram comigo a respeito dos ataques e, confesso a vocês, não me dei ao trabalho de lê-los. Me horrorizam as frustrações de pessoas adoecidas. Não se trata de fuga, mas sim de um tipo de compreensão que há muito tempo tenho sobre o funcionamento da discriminação racial aqui em nosso injusto país.

Portanto, estou tranquilo quanto à Maria Julia – filha de um casal de amigos queridos. Entretanto, vou aproveitar para analisar este episódio – que não é um fato isolado – em “sua exata dimensão”.

De início, gostaria de fazer uma advertência aos meus leitores: esse tipo de agressão contra negros de sucesso deverá aumentar. Em meados dos anos 1990, quando coordenava um Grupo de Trabalho encarregado de colocar na agenda pública as políticas afirmativas para negros, dentre os diversos debates sobre os impactos estratégicos positivos que o Brasil teria com aquelas políticas – fato hoje comprovado por diversos estudos –, especulávamos sobre o fato de que ainda teríamos no futuro uma onda de racismo explícito. Sim; porque racismo à brasileira sempre se teve: todos negam serem racistas e todos conhecem diversas pessoas racistas! Uma verdadeira “obra prima” da hipocrisia nacional. Aquela especulação se convalida a cada vez mais.

Todavia, o que especulamos há cerca de 18 anos atrás naquele Grupo de Trabalho precursor foi sobre os efeitos das políticas afirmativas num país racista, em virtude da emergência de negros em destaque: diretores de grandes corporações, juízes, políticos, profissionais liberais, reitores, cientistas e profissionais do mundo da comunicação, dentre outros.

Vivemos num país em que a filha de um governador negro foi agredida e empurrada por um casal para fora do elevador social de um prédio de luxo. O fato se deu em Vitória, capital do Espírito Santo, em 1993. Para os agressores “uma empregadinha” não podia estar ali. Aliás, a ideia de elevador social e de serviço é um escândalo “apartheista” que resiste bravamente aqui em pleno século 21.

Foto divulgação: Benedita da Silva

A ex-governadora e ex-favelada, hoje deputada federal, Benedita da Silva, pagou o seu preço (muito caro) quando governou o Rio de Janeiro. Celso Pitta, quando prefeito da maior cidade da América do Sul, foi tratado por entrevistadores de TV como marginal fosse. Joaquim Barbosa, que nunca foi conservador, pelo contrário, ao ser considerado como o brasileiro mais influente, apontado como provável presidente da república, pediu aposentadoria, quando dispunha de um bom tempo para se manter no STF – local onde todo jurista sonha estar e permanecer… Quando presidente da Suprema Corte sofreu agressões explícitas; inclusive em solenidades públicas, como na Câmara dos Deputados.

Foto divulgação: Joaquim Barbosa

Negros e negras que se destacam, em qualquer contexto, correm riscos no Brasil. Nossos erros e eventuais falhas contam contra nós negros – sim. Mas contam menos do que o nosso sucesso. Este último costuma ocasionar mais danos para nós do que os primeiros. Por isso, os ataques à nossa Maju não representaram para mim algo inusitado. Lamentável – sempre –; mas previsível para quem se dedica a decifrar o “brasil de carne e osso”.

Não sou uma Cassandra que crê que tudo vai piorar sempre. Acredito num futuro em que medidas como as previstas pela Lei 10639/2003 possam fazer com que a diversidade étnico-racial brasileira seja utilizada como um trunfo; um valor estratégico invejado por outras nações.

 

O racismo cordial nos apelidos: O nome da jornalista do “Tempo” é MARIA JULIA COUTINHO


foto gripada de vídeo no youtube

foto gripada de vídeo no youtube

por marcos romão

Quando um apelido deprecia a sua qualificação profissional:

Sei, que é carinhoso, mas a marca do apelido fica no currículo.

Hoje e dia, até jogador de futebol não aceita mais ser chamado de “Cafuné e, pensando na carreira, adota logo um nome duplo e fidalgal- Rodolfo Valentyno, Cristiano de Almeyras e por aí afora. As grandes marcas gostam. Se tiver um “y” no meio ajuda na promoção.

Quando usam apelido, os jogadores da seleção escolhem um codinome, que ressalte suas qualidades, como o fez o exemplar ” Dadá Maravilha”, que só com o alcunha deixava os goleiros embasbacados e a bola entrava.

” Apelido cola para a vida” diziam minha mãe Aurore Florentine e minha avó Georgina Aurore, ” apelido é coisa prá dentro de casa e prá amigos íntimos”, sempre repetiam mãe Flór e vó “Jogina”, sem “gue” e nem “erre”, na minha compreensão de menino.

Por isso nunca aceitei nem na escola, nem no trabalho, que professores e “chefias” me chamassem de apelidos.
Professor ou “chefia” que nos chama por um apelido, nos bota na gaveta que eles nos querem por toda uma vida.

É “condenação perpétua” a ficar no lugar que eles nos reservam.

Isto para discriminado/as no país da dissimulação racista, mantém suas carreiras e ascenções profissionais no limbo, dos sempre elogiados mas nunca promovidos ou aceitos integralmente nos ambientes de trabalho.

É uma cadeia espiritual e cultural racista, que nem babalorixá, padre, pastor, ou psicanalista resolvem.

O silêncio agradecido a que se obriga a vítima do racismo amoroso e cordial, curva o cangote do “abraçado/a” para toda uma vida.

Vejo isto todo dia nos escritórios empresariais, departamentos universitários, departamentos de limpeza urbana, palcos artísticos e, por tudo quanto é canto. Negros e negras trabalhando 30 anos e consolados nos seu cafres, ao verem a troca de seus chefes, sempre de outra cor, que já chegam sabendo o apelido do diligente e simpático negros ou negras que entendem de tudo na “seção”, mas nunca saem do lugar que os apelidos e o racismo lhes reservou.

É o racismo cordial que se manifesta de forma tão penetrante, que apelidadores e apelidados ficam condenados, como água e azeite, a viverem “misturados” se se tocarem nas almas por toda uma vida.

A confiança desconfiada é a marca cruel desta relação, que perpassa a vida de todos os brasileiros e brasileiras das camas ao trabalhos, que vivem em um país em que o racismo não é falado nem enfrentado.

Assim como a psicóloga Rosane Aurore do Sos Racismo Brasil reitera, o nome da jornalista é MARIA JULIA COUTINHO.

Imaginem o “William Bonner “entrevistando o finado “Roberto Pisani Marinho”:
No ar e cheio de intimidades, ao passar as mão nas bochechas do fidalgo Roberto, lhe pergunta:

” E aí “Marinheiro”, cumé que tá o TEMPO?”.

O apelidador teria sua carreira cortada antes mesmo de dizer uma segunda frase em cadeia nacional.

Saiba mais sobre a origem do apelido ” Maju” : ” Chico Pinheiro levou uma bronca por me apelidar, diz “Maju” Coutinho.

O racismo escancarado no Brasil e a reflexão do Sos Racismo Brasil em sua atuação nas redes sociais


por marcos romão

social-network-mapTexto para reflexão sob nossa participação no caso Mirian França e outros
O que tem a ver movimento negro e quilombola com o caso de racismo no procedimento de detenção de Mirian França?
Gostaria de ressaltar o papel das redes sociais e do trabalho coordenado entre ativistas do movimento negro e quilombola na área jurídica e de comunicação e seus congêneres do movimento social consagrados à defesa dos direitos humanos, e com a defensoria pública do Ceará, para, sobretudo proteger e salvaguardar os direitos de Mirian França, e proteger a privacidade de sua família.
Foram passos que ao fim, que espero exitoso, deste trágico desenrolar, anotados e descritos, poderão servir para no futuro atendermos de forma cada vez mais eficiente, casos de racismo e violação de direitos fundamentais das pessoas negras ou de quem procure o MN para pedir socorro:
1- Foi fundamental que desde o início amigas da pessoa em questão, foram para Fortaleza e desde o primeiro momento, além de procurarem as autoridades de defesa, e grupos de direitos humanos, principalmente cuidaram para que Mirian recebesse todos os dias materiais de higiene pessoal, alimentos, e, soubesse que do lado de “fora”, havia pessoas interessadas por ela. (este é um velho método das mulheres negras do Brasil, que correm para as portas de delegacias, e acampam, para que os policiais tenham o mínimo de “cuidado” ao tratarem de suas filhas e filhos sob custódia da justiça.)
2- Foi fundamental que as amigas e amigos de Mirian mantiveram contato via redes sociais com a família de Mirian (mãe, tia, primas) e assim ganhassem legitimidade e força no grito que lançaram através de um evento nas redes sociais. link aqui
3- Como são métodos novos de defesa da cidadania e direitos humanos, que estão sendo lançados via redes sociais, por conta da experiência nos casos Vinicius Romão e Goleiro Aranha. Formaram-se pequenos subgrupos fechados de especialistas em direito e comunicação, que ao rastrearem todas as notícias agiu em três frentes:
a- desconstrução do assassinato moral que a imprensa e as autoridades policiais estavam fazendo contra a imagem de Mirian e de sua família, (filha mentirosa e mãe que acusa o caso como racismo).
b-  para evitar os famosos bois na linha que estes casos geram, e que alimentam o lado abutre de uma certa imprensa, foram feitos contatos inbox e telefônicos ou por emails com todas as iniciativas, que visassem apoiar Mirian e sua família, fossem grupos do movimento social, do MN, de direitos humanos, parlamentares e etc. Assim foi construída uma parede de proteção tanto para Mirian quanto para sua mãe. Em um caso anterior, todo o trabalho quase foi por água abaixo, quando a pessoa libertada foi “sequestrada” por uma emissora de TV, que praticamente “ditou” seus depoimentos, quase tirando a questão principal—RACISMO—da jogada.
c- criação de um grupo que envolve profissionais voluntários na área psicossocial para acompanhar a família de Mirian. Através do princípio que nenhum caso vai adiante se as pessoas diretamente envolvidas estão psicologicamente sem força. (mais uma velha tradição das mulheres negras de favela, que diz, “mãe é quem está mais perto”).
Não vou me estender aqui, mas gostaria de dizer às minhas amigas e amigos do MN e do movimento social, que tudo isto é resultado de um trabalho coletivo em que idiossincrasias e opiniões pessoais são superadas, por termos um objetivo único, que é tirar uma vítima do racismo das mãos de um estado algoz.

Reitero também que todos os envolvidos na defesa de Mirian e sua família, compreenderam que o fato é político em si, e assim evitamos todos e todas, repetir o velho chavão de que “é sempre assim e nada pode mudar”. Acreditamos no lema de 1988: “VAMOS MUDAR”.
Todo este caso, além de outras consequências positivas, ressalto três que devemos ter maior atenção:

1- As pessoas no Brasil estão tomando consciência de forma rápida, que o racismo vem ganhando novas formas de se apresentar, os racistas perderam a vergonha e estão escancarando.

Setores do movimento negro, que botaram a luta contra o racismo durante os últimos 20 anos debaixo do tapete por conveniências religiosas, partidárias, ideológicas ou simplesmente por cansaço, precisam repensar, pois são seus filhos e filhas que são agora a bola da vez, e estão morrendo e sendo violentados como patinhos na lagoa.
2- Pela primeira vez um representante de uma Defensoria Pública, a do Ceará, aponta jurídica e publicamente durante um processo que o sistema judicial, é inquisitorial e feito para prender pretos, e pobres. (isto está dito num processo e não numa tese acadêmica) por isto o defensor permaneceu sob ameaça de agressões físicas.

3- Mesmo sendo uma iniciativa pequena o movimento negro e o movimento quilombola, falou com uma só voz. Pode ser o início de uma junção de algo que nunca deveria ter sido burocraticamente separado.

Somos negros e negras em várias frentes, mas temos um objetivo comum que é combater o racismo.
Que os e as nossos e nossas antigas relembrem disto pois a juventude está esperando a nossa palavra, sem chororô.
ASÈ
Marcos Romão