EU-COVEIRA


Foto de Gilza Marques.

Gilza Marques

 

EU-COVEIRA

 Ontem eu saí com minha esposa, um amigo e seu namorado pra jantar. Foi uma noite muito agradável, conversamos sobre muitas coisas. Dois casais negros apaixonados. Estava feliz.

Chego em casa e dou de cara com a notícia: minha cidade está imersa em sangue mais uma vez. Mais um chacina provocada pela polícia em Salvador, dessa vez em Valéria. 6 irmãos caídos. Outros tantos desaparecidos.
SC e SP registram casos de extermínio sumário de irmãos haitianos. Fui dormir. Não dormi.
Curiosa, abri minha TL e fui olhar quem estava comentando os casos. 3 pessoas. Anotei.
Enquanto isso, seguem as batalhas de divas pra ver quem tem o afro mais alto, os comentários sobre a novela da globo que falou de racismo, as defesas ao governo dilma (em minúsculo) e ao pt, a notícia de que o Olodum (o combativo Olodum) está em parceria com Rui Costa, o comandante da polícia mais assassina do Brasil. A mesma polícia que exterminou 12 irmãos em fevereiro no Cabula e foi absolvida numa sentença relâmpago pouco comentada. Os negros do PT, os negros da esquerda, seguem calados.
Eu desejo que o espírito de Toussaint L’Ouverture tome conta de nós. Eu desejo que o espírito de Toussaint L’Ouverture tome conta de nós, porque realmente está difícil.
Talvez os negros haitianos tenham muito o que nos ensinar. Talvez a gente aprenda, com eles, a pelo menos cantar um dos hinos da Revolução de São Domingos: “Ê! Ê! Bomba! Heu! Heu!/ Canga, bafio, té! Canga, mouné de lé!/ Canga, do ki la!/ Canga, li!****”
Soube, a uns dias, que haverá uma reforma administrativa no governo federal. Os 39 ministérios serão reduzidos a 20. E eu estou desejando, do fundo do meu coração, que a SEPPIR acabe.
Eu desejo que a SEPPIR acabe (e há de acabar!) pra ver se o movimento negro toma um rumo. Pra que a gente pare de vender nossa dignidade por meia dúzia de D.A.S.. Por alguns milhões de reais caídos das mesas dos senhores da supremacia branca. Quem acompanha de perto, como eu acompanho, sabe o que tem acontecido. A Esplanada dos Ministérios é o lugar mais sujo do Brasil. ISSO INCLUI A SEPPIR.
A esse momento político do país (golpe, contragolpe, PT, PSDB) eu daria o nome de crise da brancura. São 500 anos da brancura no poder. E o máximo que eles conseguiram fazer foi isso aí. Patéticos. Direita ou esquerda, governos civis ou militares, colônia, império, ditadura ou república, eis a grande obra da supremacia branca. Se teve ou não teve roubo na Petrobrás, não me interessa. Esse dinheiro, pra meu povo, nunca chegou. O meu povo segue nas valas.
Não temos o que comemorar. Não temos do que nos orgulhar. 8% de negros das universidades, meia dúzia de negros doutores, um estatuto da igualdade racial não aplicado. É esse o nosso grande legado? Fala-se de empoderamento. De que poder estamos falando, afinal, se nem poder de decidirmos sobre nossas vidas nós temos? É tudo uma grande ilusão festiva.
Sigo na minha sensação de impotência. Na vontade de voltar pra Bahia, minha pequena África, e de lá exercer o único papel que a militância negra que não se vendeu por cargos e editais, consegue exercer: o de coveiros. Enterrando nossos irmãos e irmãs aos gritos de REAJA! Cultivando o ódio, e aprendendo com quem, assim como eu, não tem vergonha de dizer que o ódio é um combustível de luta. Que não existe integração num país que nunca nos quis. Que todos os nossos problemas se derivam indiscutivelmente da questão racial, a maior opressão da terra. E que a gente precisa parar de pensar enquanto minoria, porque nós somos uma maioria, ainda que exilada. Eu quero falar de poder negro.
Com o espírito de Licutã, Zeferina, Toussaint L’Ouverture, Assata Shakur, Sundiata Acoli e tantos outros, sigo, com alguns poucos, na nossa função de coveiros. Coveiros dos corpos arrastados, abortados, fuzilados, espancados, amarrados, escarnados, assassinados, encarcerados.
Eu, coveira insubmissa, sigo na minha função cantando: “Ê! Ê! Bomba! Heu! Heu!/ Canga, bafio, té! Canga, mouné de lé!/ Canga, do ki la!/ Canga, li!”
Até um dia. Até um dia. Mesmo que eu não veja esse dia.
‪#‎reajaouserámorto‬
‪#‎reajaouserámorta‬

Quilombolas se encontram no Rio de Janeiro. 12 anos e só 112 quilombos titulados: O que fazer?


convocação
Um grupo de quilombolas da Frente Quilombola, convocou para a próxima sexta-feira, 23 de janeiro uma reunião nacional, na OAB-RJ, para discutirem a atual situação dos quilombos e quilombolas no Brasil.

OAB/RJ – Av. Marechal Câmara, 150 – Rio de Janeiro – RJ – CEP: 20020-080 – Fones: (21) 2730-6525 / (21) 2272-6150

Segundo relatório do Governo Federal de maio, 2014, apenas 207 das 2197 comunidades foram reconhecidas até então. O que dificulta em muito o atendimento aos benefícios sociais.

No Brasil 75% dos Quilombolas vivem em extrema pobreza:

Das 80 mil famílias quilombolas do Cadastro Único, a base de dados para programas sociais, 74,73% ainda viviam em situação de extrema pobreza em janeiro desde ano, segundo o estudo do programa Brasil Quilombola, lançado ontem (6) pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir). Entre cadastrados ou não, os quilombolas  somam oficialmente , 1,17 milhões de pessoas e 214 mil famílias. Saiba mais à respeito
“A questão básica para nós é a titulação da terra, sem ela não somos ninguém, não somos nada”, afirma José Antônio Ventura, quilombola da Frente Nacional em Defesa dos Territórios Quilombolas e um dos puxadores da reunião que irá acontecer. Segundo os quilombola até agora só 112 quilombos receberam o título que legalizam as suas terras

Ao contrário dos Povos Indígenas, que mal ou bem tem a Funai para centralizar suas demandas, e contam com visibilidade e apoio nacional e internacional em suas demandas. Os quilombolas precisam percorrer um tortuoso caminho, por no mínimo 11 ministérios, secretarias e fundações à nível de ministérios, governos estaduais e municipais, além dos donos de terra no parlamento, para conseguirem o “PAPEL DE DONOS DE SUAS TERRAS”.

Os latifundiários e os fazendeiros do agronegócio, contam com a força do dinheiro representados na CNA ( Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil). Quilombolas dependem do favor de Ongs e apoiadores individuais, e principalmente do movimento negro, do qual eles fazem parte, para conseguir um mínimo para a sua sobrevivência.

Ação  de Inconstitucionalidade de 2004 (Adin 3239/2004),  impetrada pelo DEM , comandado à época pelo senador corrupto e associado à máfia Demóstenes Torres, praticamente paralisou a titulação dos quilombos no Brasil desde então. O ex-senador corrupto, com sua iniciativa, colocou em dúvida a própria existência dos quilombos.
A ascensão da ex-presidente do CNA, Kátia Abreu para o posto de ministra da agricultura no novo governo Dilma, acendeu as luzes de alarme no meio quilombola. Apesar das várias organizações de defesa dos quilomboala já existentes, sentem a necessidade de criarem uma organização que tenha juntos ao governo brasileiro, à OIT e outros organismos internacionais o mesmo peso que tem as organizações dos grandes donos de terra.

O encontro promete ter discussões políticas acirradas, sobre os pró e os contra de tal iniciativa. Veja documento contra a iniciativa Manifesto da Frente Nacional Quilombola

Nós da Rede Radio Mamaterra e da Quigeral, desejamos que este encontro ajude aos quilombolas a saírem da invisibilidade que os mantém na extrema miséria e sem serem ouvidos pelos governos Federal, Estaduais e Municipais.

Torcemos para os quilombolas consolidem o protagonismo de suas lutas e que junto com seus apoiadores, cheguem a um consenso de como levar adiante a luta pelos títulos de suas terra,  valorização e reconhecimento de suas culturas ancestrais.

Julgamento da ADI 3239 sobre Terras Quilombolas, é adiado para 10 de dezembro, o Dia Internacional dos Direitos Humanos.


STF Supremo Tribunal Federal, adia sessão de julgamento da ADI 3239, para a data 10.12.2014.

por Humberto Adami

Caros amigos, seguem as fotos com o advogado Marcus Vinicios Furtado, presidente do Conselho Federal da OAB, que se reuniu ontem, 03.12, com alguns dos amigos da corte na ADI 3239 – sobre demarcação de terras quilombolas. Na ocasião, reafirmou a Comissão Nacional da Verdade sobre a Escravidão Negra no Brasil, confirmando-me na presidência. Estávamos acompanhados do Sr. Presidente do Sindicato dos Bancarios dos DF, Eduardo Araujo; Sr. José Ventura, coordenador nacional da Frente Nacional Quilombola; do Sr. Antônio Gomes, tecnico educacional autor da polêmica sobre o livro “Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato”; da Sra. Graça Nzinga, militante nacional histórica do movimento negro e Instituto Nzinga; da Sra. Cida Santos, do quilombo dos Ventura, de Patos de Minas. Presente mais cedo, o advogado Marcelo Dias, coordenador nacional do MNU Movimento Negro Unificado. Em seguida, todos fomos ao STF Supremo Tribunal Federal, para a sessão de julgamento da ADI 3239, que restou adiada ao fim do dia para a data 10.12.2014.

A sessao para julgamento de ADI tem de ter 8 ministros como quorum minimo. Como Gilmar e Fux sairam ontem, Celso Mello e Toffoli não estavam, a sessão passou a não ter quorum .

Ademais, há uma fila de processos, que entram em julgamento. Estava claro que não haveria tempo hoje para julgar todos, ficando para quarta, dia 10.

Como a Presidente da Republica, sabe-se lá porque, ainda não indicou o substituto do Ministro Joaquim Barbosa, o tribunal trabalha com um a menos .

Se não for julgado na próxima  quarta, deve ficar para o ano que vem.

Humberto Adami Advogado e Mestre em Direito. IARA Instituto de Advocacia Racial e Ambiental Vice Presidente da Comissão Nacional de Igualdade – CFOABcfoab 2 cfoab1

ADIN Quilombola dia 3 de dezembro. CFOAB-Conselho Federal da OAB dispõe sala para advogados, quilombolas e entidades de defesa se reunirem


"FotosO advogado Humberto Adami, do IARA-Instituto de Advocacia Racial eAmbiental, informa através da Mamapress, que as organizações e entidades que foram aceitas como “amicus curia”, amigos da corte.  Irão se reunir neste dia 3 de dezembro na CFOAB-Conselho Federal da OAB para se prepararem e deliberarem as estratégias finais para o julgamento da ADI 3239. saiba mais.

Em Porto Alegre, segundo o advogado e ativista do movimento negro e quilombola, Onir Araujo, os quilombolas estarão durante o julgamento, em vigília em frente do Palácio Piratini. Quilombolas do entorno de Brasília, com de Calunga e de Paracatu. No Rio de Janeiro  representantes dos quilombos do RJ, estarão também em vigília no Quilombo do Sacopã, sede da Associação dos Remanescentes dos Quilombola do Estado do Rio de Janeiro. No país, milhares de quilombolas passarão o dia em espectativa assistindo ao julgamento atravé da TV Brasil.

A redes negras e étnicas de Comunicação, Rádio Mamaterra, o Sos Racismo Brasil, a TV Quilombos Gerais, a Movimento&Mídia, a Afropress, Aldeia Maracanã, Geledés e muito mais estarão também de prontidão para acompanharem este julgamento crucial para os quilombolas brasileiros, que se arrasta desde 2012. saiba mais

ADI 3239: reuniao dos amigos da corte no Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil no  03 de dezembro às 11horas.

Recebi comunicaçao que uma sala estará disponibizada para advogado e entidades dos amigos da corte em 03.12, ‘as 10hs. A ADI trata da inconstitucionalidade do Decreto 4887 que dispoe sobre demarcacoes de terras quilombolas, ja tendo votado o Ministro Cesar Peluso, pela inconstitucionalidade. A Ministra Rosa Weber prosseguira o julgamento. Humberto Adami Advogado e Mestre em Direito. IARA Instituto de Advocacia Racial e Ambiental

“Prezado Dr. Humberto, Comunico que, de ordem do Pres. Marcus Vinicius, este CFAOB disponibilizará sala no 10º andar (Sala de Reuniões dos MVs),no dia 03/12, às 10:00hs, para realização de Reunião com os advogados e representantes das Entidades que acompanham a ADI 3239… Ficamos a seu dispor.”

Desde 2012 ,o DEM, partido do senador cassado Demóstenes Torres, quer interromper titulação de terras quilombolas.


Fotos Flavio Barcellos de Carvalho- Quilombo Marambaia

Fotos Flavio Barcellos de Carvalho- Quilombo Marambaia

por marcos romão

Para Luiz Sacopã, presidente da Associação dos Remanescentes de Quilombos do Rio de Janeiro e do Quilombo Urbano do Sacopã, na Lagoa Rodrigo de Freitas. o julgamento de amanhã, 3 de dezembro de 2014, é uma verdadeira faca no peito para milhares de quilombolas em todo o país, “não querem mais uma vez aceitar quem nós somos, remanescentes de quilombos que nos auto reconhecemos. Nós sabemos quem somos. O Estado Brasileiro  precisa finalmente reconhecer que nós existimos, afinal teve ou não teve escravidão no Brasil? Estamos há mais de cem anos de pé em nossas terras, não podemos dormir. Toda hora chega um grileiro querendo pegar nossas terras”, afirma indignado o septuagenário Luiz Sacopã, que sonha em ver o dia em que seus netos e netos de todos os quilombolas sejam reconhecidos pelo estado Brasileiro.

Sacopã diz que os quilombolas vão estar presentes no julgamento, representados pelos Quilombos em torno de Brasília, como Calunga e Paracatu. ” vocês sabem como é, os poderosos ficam entrando na justiça contra a gente porque sabem que não temos dinheiro para estarmos nos deslocando para Brasília a cada julgamento, querem nos vencer pelo cansaço. É uma luta desigual, pois os milhares de quilombolas gostariam de estar presentes, para que nos vendo, os juízes saibam que existimos”.

A página da Comissão Pró-Índio publicou em sua página:

O julgamento pelo STF está previsto na agenda de 3 de dezembro. Entenda o que está em jogo.

A Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 3239 voltou à pauta de julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) da próxima quarta-feira, 3 de dezembro.

A ADI 3239 foi proposta em 2004 pelo então Partido da Frente Liberal – atual Partido Democratas (DEM) – objetivando a declaração de inconstitucionalidade do Decreto n.º 4.887/2003 que regulamenta o procedimento para a titulação as terras ocupadas por comunidades dos quilombos.

A ADI faz parte de uma ofensiva de interesses conversadores que tentam obstaculizar a efetividade do direito dos quilombolas à propriedade de suas terras.  A eventual declaração de inconstitucionalidade do decreto pode agravar um cenário que já é bastante preocupante. Até hoje, somente 5,7% das famílias quilombolas no Brasil contam com terras tituladas e dessas algumas apenas parcialmente regularizadas.Os mais 1.400 processos em curso no Incra podem ficar paralisados no vácuo das regras para continuidade dos procedimentos.

Já em 2012 o deputado federal do PT-BA,Luiz Alberto, declarava:

” a Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin), proposta pelo Democratas, que será julgada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na tarde desta quarta-feira (18). A medida da legenda tem como alvo o decreto que rege a titulação dos territórios quilombolas no Brasil e foi classificada como “um retrocesso das conquistas do país” pelo parlamentar. “A Adin interposta pelo DEM, partido do senador Demóstenes Torres, quer interromper o direito das comunidades quilombolas. Espero que o Supremo garanta as conquistas, o direito histórico e inalienável das comunidades quilombolas do nosso país”, afirmou. A Adin questiona o princípio do autorreconhecimento para identificação de quilombolas, a possibilidade de a comunidade apontar os limites do seu território e a previsão de pagamento de indenizações.

Artigo relacionado: Com a faca no peito

Na página do Instituto Socioambiental temos o relato do que aconteceu no julgamento iniciado em 2012, que foi interrompido:

Peluso considerou inconstitucional o decreto que regulamenta a

regularização fundiária dos territórios quilombolas.

O julgamento foi suspenso em seguida, após pedido de vista da ministra Rosa Weber

Em julgamento iniciado ontem (18/4), no STF (Supremo Tribunal Federal), em Brasília, o

desembargador Cezar Peluso, relator da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 3239,

proposta pelo partido DEM (Democratas), votou pela anulação do Decreto nº 4.887/2003,

que regulamenta e viabiliza a demarcação e titulação dos territórios quilombolas. Fez no

entanto uma ressalva: os títulos expedidos antes do fim do julgamento devem ser

considerados válidos.

Peluso acolheu a tese defendida pelo DEM e afirmou que o decreto padece de uma série de

inconstitucionalidades. Considerou que o artigo 68 do ADCT (Ato das Disposições

Constitucionais Transitórias), que determina o reconhecimento da propriedade definitiva e a

emissão dos títulos respectivos aos remanescentes das comunidades quilombolas, não pode

ser regulamentado por decreto presidencial, mas apenas por lei.

Contrariando manifestação anterior o relator também considerou inconstitucional o

critério da “autoidentificação” para o reconhecimento das comunidades remanescentes de

quilombos. Para Peluso, caberia a lei específica oferecer parâmetros históricos e

antropológicos para a identificação dessas comunidades.

Autodefinição

O critério da autoidentificação está previsto no artigo 2º do Decreto 4.887/2003 e no

artigo 1º da Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho),que

estabelece tal critério como fundamental para identificar os sujeitos de sua aplicação

(povos indígenas e tribais, dentre os quais os quilombos).

Segundo esse critério, entende­-se pertencente a determinado grupo étnico todos aqueles

que esse mesmo grupo reconheça como dele fazendo parte, independentemente, por

exemplo, de critérios genéticos ou de antiguidade. Faz parte de uma comunidade

quilombola todos que nela vivam e por ela sejam aceitos como tal, independentemente

de, por exemplo, ser descendente direto da família que a fundou séculos atrás. Nas

palavras de Manuela Carneiro da Cunha (Os Direitos do Índio: Ensaios e Documentos.

Brasiliense, São Paulo. 1987, p. 111):

“A antropologia social chegou à conclusão que os grupos étnicos só podem ser

caracterizados pela própria distinção que eles percebem entre eles próprios e os outros

grupos com os quais interagem. (…) E, quanto ao critério individual de pertinência a tais

grupos, ele depende tão­ somente de uma autoidentificação e do reconhecimento pelo

grupo de que determinado indivíduo lhe pertence.”

Argumentações contraditórias

O voto do relator foi precedido de diversas falas de advogados das partes, incluindo aí

diversas organizações sociais que entraram na causa para defender um ou outro lado.

Um dos pontos centrais levantados pelos que defendem a inconstitucionalidade do decreto

diz respeito à necessidade de desapropriação. Para o advogado do DEM, Carlos Bastide

Horbach, não poderia haver desapropriação, pois a própria Constituição já teria outorgado

às comunidades quilombolas a propriedade das terras que ocupavam em 05/10/1988, data de

promulgação do texto constitucional. Peluso reforçou essa tese, dizendo que haveria, no

caso, uma espécie de “usucapião presumido”, o que dispensaria a desapropriação.

Essa argumentação, que contraria as bandeiras históricas do próprio DEM – defensor árduo

da propriedade privada – e dos demais interessados na queda do decreto, foi levantada na

ação para inviabilizar a demarcação de novas terras, ao impedir que, por meio do pagamento

pelo valor da terra, o Estado possa pacificar uma situação de conflito social surgida com a

titulação de uma área quilombola sobre uma fazenda reivindicada por um terceiro.

Outro ponto central da tese dos que defendem a derrubada do decreto diz respeito à

temporalidade da ocupação. Para o advogado da Associação Brasileira de Celulose e Papel –

BRACELPA não se poderia abrir a possibilidade de titulação de terras que, em 1988, não

estivessem ocupadas efetivamente. Para Horbach, admitir que aqueles que não ocupavam as

áreas em outubro de 1988 têm direito à terra, contraria o art. 68 do ADCT. São muitos os

casos, no entanto, de comunidades que, antes dessa data, foram expulsas de todo ou parte de

seus respectivos territórios. Justamente por isso foi incluso na Constituição o texto que

determina ao Estado garantir a titulação das terras. O uso do marco temporal de 1988

significaria, portanto, congelar inúmeras situações de injustiça fundiária.

O advogado da SRB (Sociedade Rural Brasileira) chegou a defender que a figura da

propriedade coletiva, prevista no decreto, é inconstitucional, por não se tratar nem de

propriedade privada, nem pública.

Autoidentificação é constitucional

Em contraponto, o Advogado­Geral da União, Luiz Inácio Adams, defendeu que não é

necessária a aprovação de uma lei pelo Congresso para que o Estado brasileiro possa fazer a

regularização fundiária das terras quilombolas, já que a Constituição é autoaplicável. Além

disso, ressaltou que a autoidentificação não é o único critério para a caracterização e

titulação das comunidades remanescentes de quilombos, havendo vários outros, razão pelaqual 238 pedidos de reconhecimento já foram rejeitados pela Fundação Palmares.

Adams lembrou, ainda, que com base no decreto, 110 títulos definitivos de propriedade foram

emitidos e beneficiaram 11.289 famílias de quilombolas.

O Procurador do Estado do Paraná, que figura como amicus curiae na ação, Carlos Frederico

Marés de Souza Filho, explicou que o estado do Paraná tem interesse no tema porque

transformou o reconhecimento do direito dos seus quilombolas em política de Estado, não

de governo. O procurador ressaltou a importância da terra para as comunidades quilombolas

e que é essencial sua ocupação para a preservação das práticas, usos e costumes dessas

comunidades, que têm na terra o fundamento de sua vida. Segundo ele, a terra não significa

mera propriedade para essas comunidades, representa um conceito anterior à noção de

propriedade. Para Marés, os quilombolas são os “povos invisíveis” que tiveram que se

esconder dos olhares do Estado e da sociedade para garantirsua sobrevivência.

A Vice Procuradora­Geral da República, Deborah Duprat, também defendeu a aplicação do

critério da autoidentificação, pois apenas os próprios quilombolas podem dizer quem é ou

não remanescente de quilombos e afirmou que outro critério, como por exemplo, o genético,

seria inviável para o reconhecimento dessas comunidades. Duprat destacou os tratados

internacionais que regulamentam o tema, dos quais o Brasil é signatário, como o Pacto de

San José da Costa Rica e a Convenção 169 da OIT, que garantem o direito dos quilombolas

ao seu território e o direito de autoidentificação como critério fundamental no

reconhecimento dessas comunidades.

Audiências públicas negadas

Diversas organizações quilombolas e da sociedade civil, admitidas no processo na condição

de amici curiae também se manifestaram em defesa do decreto na tribuna.

O relator manifestou­-se, ainda, quanto aos diversos pedidos de realização de audiências

públicas feitos ao longo do processo e afirmou que considerou desnecessária a realização

das audiências, tendo em vista que os autos estão suficientemente instruídos.

Após o voto do relator, a ministra Rosa Weber pediu vista do processo para poder examinar

com mais profundidade os autos e o julgamento foi suspenso. Não há previsão para que o

julgamento seja retomado.

Não estavam presentes na sessão de julgamento os ministros Joaquim Barbosa, Celso de

Mello e a ministra Cármen Lúcia.

Mais de 500 quilombolas de varias partes do Brasil vieram ao STF ontem para reivindicar

seus direitos e defender a manutenção integral do decreto. Os quilombolas assistiram à

sessão de julgamento e participaram de uma manifestação em frente ao tribunal.

A CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil) e a Associação Brasileira de

Antropologia divulgaram notas em defesa do decreto (Veja aqui e aqui).

A Comissão Pró­Índio do Brasil divulgou nota pública após o julgamento de ontem em

razão de o ministro Cezar Peluso ter citado dados do monitoramento da organização em seu

voto.

 

126 anos de abolição para começar a libertação: Quilombo do Sacopã recebe 23/9 Título Definitivo de Propriedade de suas terras!


libertação-do-sacopã11

126 anos de abolição para começar a libertação

Quilombo do Sacopã vai receber Título Definitivo de Propriedade de suas terras!

O Movimento Social e toda a sociedade civil estão convidados para este grande dia da verdadeira abolição/libertação do Quilombo do Sacopã

ÁGUA MOLE EM PEDRA DURA, TANTO BATE ATÉ QUE FURA…

Luiz Sacopã recebeu na semana passada, a informação da presidência do INCRA, que no próximo dia 23 de setembro, as autoridades de Brasília, irão entregar pessoalmente o Título Definitivo de Propriedade da área reconhecida como Quilombo Urbano do Sacopã.
“20 anos de sofrimento e perseguições para termos simplesmente, o que sempre foi nosso. Não sei se me alegro ou se me revolto, por termos esperado tanto tempo e passado por tantas ameaças e sofrimentos.” Afirma Luiz Sacopã, o presidente da Associação Quilombola que defende os interesses das famílias que lá vivem.
Luiz também se lembra de “Tia Neném” sua irmã mais velha (foto ao lado da bandeira do Brasil) que passou para toda a família o espírito de luta quilombola.
Tia Neném faleceu de infarte do coração em março de 2007, pouco depois de uma discussão com o vizinho e desembargador Duarte do TJ-RJ e outros condôminos dos prédios que invadiram e tomaram 2/3 da área pertencente à famíla.
Já são 40 anos que o processo de usocapião, de toda esta área de 23 mil metros quadrados corre na justiça.
Graças à Constituição de 1988, que garante as terras Quilombolas, as famílias do Quilombo do Sacopã, vão receber neste dia 23 de setembro o título que garante a propriedade de 1/3 do terreno, o que equivale a cerca de 7 mil m2, depois da usurpação e grilagem dos poderosos dentro do Tribunais de Justiça do Rio de Janeiro.
Em 2013 um dos desembargadores envolvidos na perseguição aos direitos do Quilombo do Sacopã, Roberto Wider, foi aposentado compulsoriamente por venda de sentenças e corrupção em cartórios.
DEPOIS DISTO TUDO VAMOS FESTEJAR!
A FAMOSA FEIJOADA ESTÁ GARANTIDA!

Brazil’s ‘Quilombo’ Movement May Be The World’s Largest Slavery Reparations Program


por Roque Plana

reprodução do original: Huffingtonpost

This article is the first in a two-part series about Brazil’s quilombo movement.

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Luiz Pinto, who has been fighting eviction for decades, at home with his dog. (Carolina Ramirez/The Huffington Post)

When Luiz Pinto was growing up, his parents wouldn’t let the family talk about slavery. The issue raised ugly memories.

Pinto’s grandmother was born into slavery. She threw herself into a river before Pinto was born, taking her own life after the son of a wealthy, white landowner raped her. The subjects of slavery and racism became taboo in the Pinto household, a sprawling set of orange brick homes perched on a hilltop where Rio de Janeiro’s famed statue of Christ the Redeemer is visible in the distance through the trees.

“I only knew her from photographs,” says Pinto, a 72-year-old samba musician.

These days, Brazil’s legacy of slavery takes up much of Pinto’s time. He travels across the state of Rio de Janeiro and back and forth to the capital in Brasília, more than 700 miles away, to lobby for the land rights of people who live in communities said to be founded by runaway slaves. Such communities are known in Portuguese as “quilombos.” According to Brazilian law, residents of quilombos have a constitutional right to land settled by their ancestors — and that right, though rarely fulfilled, is quietly revolutionizing the country’s race relations.

In the past year, as all eyes turned toward Brazil in anticipation of the World Cup, international media offered ample coverage of the country’s staggering inequality. Reports have highlighted the stark contrast between Brazil’s hardscrabble slums and its glittering soccer stadiums. What has received less attention is the civil rights movement gradually gaining momentum throughout the country.

Brazil imported more slaves from Africa between the 16th and 19th centuries than any other country in the Americas. In 1889, it became the last nation in the Western Hemisphere to outlaw the institution. Today, more people of African descent live in Brazil than in any country in the world besides Nigeria. People of color make up 51 percent of Brazil’s population, according to the most recent census.

By and large, black Brazilians live in the worst housing and attend the poorest schools. They work the lowest-paid jobs, and they disproportionately fill the jail cells of the world’s fourth largest prison system. This lopsided state of affairs, Afro-Brazilian intellectuals and the country’s social scientists largely agree, is a result of racial discrimination with roots in the country’s history of slavery.

Brazil has never experienced anything akin to the U.S. civil rights movement or South Africa’s anti-apartheid struggle. But the quilombo movement, while still in its infancy, is challenging Brazil’s deeply ingrained racial inequality. Ratified in 1988 after a two-decade-long military dictatorship, Brazil’s constitution states that residents of quilombos are entitled to a permanent, non-transferable title to the land they occupy — something analogous to the United States’ Native American reservations, minus the self-government.

Now, more than 1 million black Brazilians are calling upon the government to honor their constitutional right to land. Among them are Luiz Pinto and his family, who have fended off decades of eviction attempts and managed to remain ensconced in their quilombo, known as Sacopã, in a neighborhood gentrified long ago by wealthier, whiter Brazilians.

The situation in Brazil stands in stark contrast to that of the United States, where, as the author Ta-Nehisi Coates pointed out in a widely read cover story for The Atlantic this May, Congress has repeatedly refused to pass a bill calling for a simple public study on the impact reparations would have on the descendants of slaves. The idea that the U.S. government would even consider handing thousands of tracts of land to black communities is unthinkable.

Few Brazilian conservatives find the idea appealing, either. Many of them have scorned the quilombo movement as an affront to property rights and have tried to overturn the law in court. And despite drafting the quilombo law in the first place, the Brazilian government has been so slow to hand over land titles to the communities in question that many applicants wonder if they’ll ever receive them.

Though they face an uncertain future, Brazil’s quilombos nevertheless contain the seeds of what may well become the most ambitious slavery reparations program ever attempted.

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Luiz Pinto at home in quilombo Sacopã. (Carolina Ramirez/The Huffington Post)

Palm trees and towering condominiums flank the cobblestone road that leads to quilombo Sacopã. New Kias and Volkswagens line the street, while gated parking lots protect more valuable SUVs. Virtually none of the residents of this section of Rio de Janeiro’s Lagoa neighborhood, with the exception of the Pinto family, are black.

There was a time when only black people lived on the forested hillsides of Sacopã, huddled together in makeshift houses of mud and bamboo. Pinto’s grandparents traveled to the city by river with roughly 150 other ex-slaves in the late 19th century, he says, and settled among the local indigenous people, far away from the bustling city center to the north or the middle-class residential areas that would later envelop them.

“The quilombos became favelas,” Pinto says, referring to the slums that surround Rio and many other major Brazilian cities.

Developers razed much of Sacopã in the 1970s, when Rio’s growing middle and upper classes pushed into the neighborhood and sent land values skyrocketing. Local authorities expelled or relocated virtually all the black residents, most of whom were considered squatters, from Sacopã’s hillsides, clearing the way for high-rise condominiums populated by wealthier, paler-skinned Brazilians.

Pinto’s nephew, José Claudio, now 50, was 12 years old the first time the authorities visited quilombo Sacopã and threatened to kick the family out because they couldn’t prove ownership of the land. Two military police trucks rolled into the driveway. The cops said the family’s houses would be demolished.

A lucky connection allowed the Pinto family to escape eviction. It happened that the family’s lawyer was married to a high-ranking military officer. In the days of Brazil’s military dictatorship, which lasted from 1964 to 1985, the order of a general carried far more weight than a stack of legal documents.

“I’ll never forget it,” José Claudio told The Huffington Post. “The subtenente, or whoever was in charge of the troops, saluted him and he said: ‘No one’s getting kicked out of here.’ That was our first victory.”

The security afforded by the family’s loose connection to the general lasted only as long as the military dictatorship itself. In 1986, a year after Brazil’s return to democracy, the cops came back to Sacopã, and this time they stayed. For one year, local authorities stationed two round-the-clock policemen outside Sacopã and locked the kitchen shut to keep the Pinto family from hosting parties or playing live music.

“They chained us up here,” José Claudio said, rattling a rusted lock that still dangles from the kitchen window. “We couldn’t do anything.”

Today, visitors to the neighborhood might not even notice the Pinto family’s cluster of houses, hidden behind a towering condo, if not for the sign in the driveway declaring the community’s constitutionally protected status as a quilombo.

The property received quilombo certification in 2004 after undergoing a lengthy application process with the federal government. Instead of trying to kick them out, the authorities now guarantee the group’s right to stay while the government carries out the work of demarcating the land. Still, as is the case with the vast majority of Brazil’s quilombos, a complicated bureaucratic system has prevented the Pintos from receiving the title to their land.

“Nothing happens,” Pinto says. “The headway we’ve made for quilombo land rights in this country is practically nil.”

Without a land title, the Pintos live in a state of limbo, the threat of eviction looming constantly.

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José Claudio Pinto holds the lock that was once used to keep the windows of quilombo Sacopã’s kitchen shut. (Carolina Ramirez/The Huffington Post)

Most Brazilians familiar with the term “quilombo” associate it with the country’s past rather than its present. The word has been in use for hundreds of years, dating back to the colonial period — roughly the sixteenth century through 1825 — when runaway slave settlements dotted the Brazilian countryside. The most famous of those settlements, Palmares, grew to more than 15,000 inhabitants and lasted nearly a century before the Portuguese destroyed it in 1694.

Though the term faded from use during the early 20th century, by the 1950s, advocates trying to lend momentum to a nascent black Brazilian civil rights effort began to resurrect it.

The symbolic power of the quilombo appealed to former Congresswoman Benedita da Silva. In 1986, after Brazil’s military dictatorship ended, da Silva was one of 11 Afro-Brazilians among the 594 members of Congress electedto draw up the country’s new founding document. She managed to convince a body of lawmakers composed largely of light-skinned men to lay the framework for a modern-day, Brazilian version of “40 acres and a mule.”

Under da Silva’s law, quilombo members own their land outright. They pay no rent and no one, no matter how rich, can legally kick them out (with the exception of the federal government, which is currently fighting eminent domain battles in the courts with at least two certified quilombos, whose respective claims overlap a Navy base and a space station).

The key to da Silva’s success was the law’s innocuous phrasing. It specifies that descendants of residents of the quilombos have a right to a permanent title to the land they occupy. But the term “quilombo” was left legally undefined for years, implying that it would be necessary for any such community to be able to trace its direct lineage to a runaway slave settlement. Most of the assembly members who voted for da Silva’s article likely viewed it as a symbolic gesture that would affect only a handful of communities.

It didn’t work out that way. In 2003, the left-wing government of President Luiz Inácio “Lula” da Silva expanded the legal definition of the term “quilombo,” issuing a presidential decree that categorized quilombo descendants as an ethnicity. Under Brazilian law, people have the right to define their own ethnicity for the purposes of social policy. With Lula’s new rule, virtually any black community could become certified as a quilombo if a majority of its residents decided to.

When Lula’s decree was issued in 2003, there were 29 recognized quilombos in Brazil. As of 2013, that number had swelled to more than 2,400, comprising more than 1 million people, with hundreds more communities applying that have yet to be recognized.

The government has certified quilombos in all but two of Brazil’s 26 states, from the tropical north to the industrialized south. There are quilombos that encompass thousands of people and quilombos that consist of just a few extended families. There are quilombos in the cities, quilombos along the countryside, quilombos on islands and quilombos in the rainforest. The land claimed by these communities totals about 4.4 million acres, according to the Brazilian federal government — an area roughly the size of New Jersey.

Asked if she knew her proposal would be applied so extensively, da Silva said that was always her intention.

“Of course — that’s what we were working for,” da Silva told HuffPost. “[The article] wasn’t born just because I was at the Constitutional Assembly. It was born because there existed and continues to exist a black movement that includes academics, includes quilombolas, the universities — all dedicated to validating black people’s land rights.”

Yet the Brazilian government has shown little sign that it will deliver the land titles promised by the constitution any time soon. Itamar Rangel of the National Institute for Colonization and Land Reform, the federal agency that carries out quilombo land titling, says the constant delays owe to the necessity of negotiating a settlement and indemnification with property holders. “Brazilian law defends the property rights of any citizen,” Rangel told HuffPost. “Carrying out this policy won’t be cheap.”

As of this year, only 217 quilombos have received land titles. The Brazilian government issued only three land titles in 2013, and another three the year before that — the lowest annual number since 2004.

“The quilombo movement is poorly prepared,” José Arruti, an anthropologist at the State University of Campinas who studies quilombos, told HuffPost. “Their communities began to organize and to understand the political game a very short time ago.”

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A sign in at the entrance to Sacopã announces the community’s quilombo status. (Carolina Ramirez/The Huffington Post)

Aguitarist and singer with several records under his belt and a following in Rio, Pinto inherited his vocation from his parents. His father played the cavaquinho, a ukulele variation often used in samba, Brazil’s national music, which evolved out of rhythms brought to the country by African slaves. The songs his mother sang as she hung the laundry to dry remain etched in Pinto’s head.

“She was a domestic artist,” Pinto said, smiling as he recalled a tune his mother wrote about the U.S. moon landing in 1969. “I’ve got a lot of her songs in my repertoire that I play at my shows. She didn’t have the courage to record.”

Music has helped Pinto’s land fight in more ways than one. To receive certification as a quilombo, every community must pass through a multi-step process involving three state agencies and a government-commissioned study conducted by social scientists, who document the cultural and historical characteristics that make for a quilombo-specific ethnicity. For the researchers who filed Sacopã’s anthropological report in 2007, one of those characteristics was its music.

“It’s given me a lot of strength in this struggle,” said Pinto. “Being onstage, you’re being heard by thousands of people, so you can explain your situation.”

Hear Pinto sing his mother’s song above.

The heart of the Pintos’ quilombo is a covered space between the families’ houses, nestled among papaya and palm trees. Here adults gather, children play and food is served on red picnic tables bearing the logo for Itapaiva, a local beer. Some of the most legendary names in Brazilian music — Zeca Pagodinha and Beth Carvalho among them — have performed at the monthly parties Sacopã once hosted.

In recent years, though, the local government has squelched those parties. Neighbors in the towering buildings that flank the quilombo have complained about the noise, and said the parking lot the family sets up to earn extra cash is a violation of zoning laws that restrict businesses in the neighborhood.

The open space that once hosted famous names in Rio’s samba scene now sits idle, animated only on Sundays when the family’s 28 members sit down at the red plastic tables to an afternoon meal of feijoada, Brazil’s national dish, a stew of black beans and pork.

Pinto said it’s unfair that the neighborhood is zoned in favor of his whiter, wealthier neighbors. “The argument they always use against us is that this is a strictly residential area,” he said. “So we can’t do these things. But out there they’ve got bakeries, they’ve got bars. It’s a cowardly way for them to destabilize us so they can kick us out of here.”

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Luiz Pinto and his grandson in the area of their quilombo that once hosted lively parties. Neighbors’ complaints have since shut down the events. (Carolina Ramirez/The Huffington Post)

Former Brazilian Senator Demóstenes Torres of the Demócraticos 25 party, or DEM, ignited a controversy in 2010 when he called Brazil’s history of racial mixing “beautiful” and expressly denied that black women were raped during slavery, even though rape and other forms of abuse during that era are a matter of historical record. (Torres himself has both African and European ancestors.)

Torres’ comments, however inaccurate, gestured toward some widespread beliefs about race in Brazil. Like the United States, Brazil built its early wealth on the backs of African slaves. But historically, interracial relationships have always occurred far more frequently in Brazil than in the U.S., and modern-day Brazil is a largely mixed-race society where the terms “black” and “white” don’t mean quite what they do in the United States.

Similarly to Latinos in the U.S., many Afro-Brazilians view race on a spectrum where skin color is measured by gradation. In 1976, when Brazil’s census first allowed survey respondents to write in their race rather than picking among the four options of white, black, “yellow” (Asian) and “pardo” (mixed race/mulatto), respondents submitted 135 different terms to describe their skin color. The dozens of self-selected shades included “chestnut,” “dark white” and “regular,” as well as descriptions like “black Indian,” “cinnamonish,” “navy blue” and “toasted.”

The Pinto family itself encompasses a panorama of blackness, with both dark-skinned members like Luiz and lighter-skinned members like José Claudio, who nevertheless identifies as black.

“My mother married a white man,” José Claudio said. “So I hear things. Sometimes white people will say, ‘Oh, that black guy,’ I don’t know what. They don’t know that I’m black too.”

Brazil’s widespread mixing of the races underpins the idea, popular in many quarters, that the country is a “racial democracy” in which members of all ethnicities live in harmony.

Social scientists and Afro-Brazilian intellectuals, on the other hand, have long viewed this idea as wishful thinking, pointing to a growing body of socioeconomic studies and statistics to bolster their case.

According to 2011 census figures, the most recent available, some 51 percentof Brazilians identify as either black or mixed-race — terms that Brazilian statistics agencies often group together as simply “black.” Among the poorest 10 percent of the population, 72 percent are black, according to a 2012 study by the Institute of Applied Economic Research. A 2013 study by the same organization found that 70 percent of homicide victims are black, while another study from 2010 found that 60 percent of the prison population is black.

And reality may in fact be even grimmer than those numbers suggest. A revealing 2011 survey of 2,500 Brazilians led by sociologist Edward Telles asked each participant to identify his or her race and state his or her household income and level of education. At the same time, unbeknownst to the person taking the survey, the researcher would use a palette with 11 shades running from off-white to nearly black to identify the respondent’s skin tone.

Ordering the data by self-reported race yielded mixed results. White Brazilians fared better, but there was significant variation in education and income levels for Brazilians of color. Ordering the data by observed skin color, however, showed a sharp, repetitive pattern of inequality in which education and income plummet as the respondent’s skin gets darker.

“Discrimination is pretty clear,” Telles said, explaining that while Brazil never experienced explicit segregation akin to the United States, the country’s history of slavery has molded a society where racism reveals itself socioeconomically. “You wouldn’t think this is a largely black country if you just looked at advertisements and who’s on the TV screen, unless you were watching soccer. If you look at people in the stands at the World Cup, they’re almost all white. How does that compare to the people playing on the field?”

All of this is obvious to José Claudio. “When someone sees a black guy in an imported car, they say ‘Damn, he must be a soccer player or a singer!’” he said. “What was left over for black people was sports and music. No one thinks, ‘Damn, that guy must be a doctor. Maybe he’s a lawyer or a pilot.’”

Such research, however, has yet to convince many on the Brazilian right that reparations are the way to address racism. In 2004, conservative politicians who would later go on to form the DEM sued the Lula da Silva administration to overturn the presidential decree designating quilombos as an ethnicity, accusing the president of illegally bypassing Congress. (A representative DEM representative declined to comment for this article, adding that the party no longer considers the lawsuit a priority.)

By summer 2010, the lawsuit had made its way up to the country’s Supreme Justice Tribunal, where it has sat waiting for a decision ever since. The suspense weighs like an anvil on people like the Pinto family.
Meanwhile, quilombo certification and land titling continue to inch forward. But overturning Lula’s decree would likely annul them, destroying the movement overnight.

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A view of Rio de Janeiro from the city’s famous Christ the Redeemer statue. (Jamie Squire/Getty Images)

The view of Rio’s Christ the Redeemer statue off in the distance is much clearer from Ana Simas’ fourth-floor apartment at the bottom of the hill. A psychiatrist with pale skin and shoulder-length brown hair, Simas has called the neighborhood of Lagoa home since her birth in 1952.

She seems an unlikely adversary for the Pinto family as they pursue their quilombo land claim. Simas takes pride in her progressive politics. She believes racism permeates Brazilian society. And she’s known the Pintos for decades. When she married her former husband in 1989, a samba musician named Jorge Simas, they held the wedding celebration at the Pinto family home in Sacopã.

But the friendship began to fray in 1999, the year Simas was elected head of the neighborhood homeowners association. Shortly after she took her new position, Pinto walked down to her apartment and asked her to make a statement before the court in support of his family’s land claim under Brazil’s squatter right law, which they were using at the time as a defense against authorities who were trying to evict them.

Simas refused. “It was the first time over the years that I’d known him that I sensed something odd in the way he was behaving,” she said. “It’s not up to me to decide if the land is his. It’s up to him to prove if the land is his and it’s the judge’s job to decide.”

As she took greater interest in the case, she found more reasons to oppose it. The Pinto family’s claim extends across an area designated as a nature reserve, which Simas refers to as “the lung of the Zona Sul,” Rio’s ritzy southern section. In 2005, the homeowners association joined a lawsuit filed by the Public Environmental Ministry against the Pinto family and other alleged squatters, accusing them of damaging the environment.

Simas began to doubt whether Sacopã was a quilombo at all. “I’ve never seen a quilombo that was just one family,” she said. “All the other real quilombos, like the quilombo of Jongo de Serrinha, are many families, not just one.”

Curious for information about Sacopã’s origins, she pulled the wedding certificate for Pinto’s parents from the local archives. “Neither one of them was born there,” she said, producing a photocopy of the document, which identifies the birthplace of both of Pinto’s parents as a Rio suburb called Novo Friburgo. “What were they doing being a quilombo here, if they’re from Novo Friburgo?”

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Ana Simas, head of the Lagoa neighborhood homeowners association, opposes Sacopã’s quilombo certification. (Carolina Ramirez/The Huffington Post)

Simas is not the only one with questions about what does and doesn’t constitute a quilombo. While Brazilian law tends to assign more importance to a group’s culture than to its history, that idea has yet to trickle down to much of the public.

Claudio Girafa, a white, 57-year-old civil engineer who comes to Pinto’s neighborhood on weekends to watch the soccer games at his brother’s apartment, says it’s important to him that quilombos prove their historical roots. “There’s a lot of questioning in the area about whether [Sacopã] was really a quilombo community,” he said. “I’m not against the idea of preserving quilombos in principle, but I think it has to be very well proven because it affects properties that were acquired later.”

The researchers who filed Sacopã’s anthropological report confirming its quilombo status in 2007 were aware that Pinto’s parents had been born in Novo Friburgo. Pinto’s parents lived an itinerant life, traveling from town to town and farm to farm in search of work before settling in the late 1920s on the hill in Lagoa where the family lives today. Pinto’s father was one of the workers who helped construct Rua Sacopã, the road that snakes up the hill.

But Pinto maintains that his grandparents had already arrived in the approximate area by the late 19th century, taking shelter in a cave lying within territory claimed by the quilombo. And while the researchers couldn’t document the presence of Pinto’s family prior to the 1920s, they wrote that the family’s stories “seem to us very likely from the point of view of historical science.”

What mattered for the anthropologists was that the Pinto family’s collective memory pointed to the existence of a group identity informed by a history of escaping slavery — a quilombo ethnicity.

Still, the importance of this kind of group identity can elude some Brazilians who have no personal stake in the quilombo issue. Like many citizens, when asked if Brazil is a racist country, Girafa is quick to say it’s not. But he believes that programs like the quilombo movement and other forms of affirmative action only exacerbate existing racial tensions by committing injustices against whites. “There’s still discrimination, yes,” he said. “But what’s been done has only made things worse.”

Pinto feels differently. For him, racism isn’t just about being eyed suspiciously in rich parts of town, or being told to enter through the back when he knocks on a door because people assume he’s a servant — indignities that many black Brazilians describe experiencing.

Racism for Pinto means that his ancestors were enslaved, and that once they were freed, his grandmother was raped and his parents pushed into a slum. Racism means that after his parents turned that slum into a home, the authorities tried to make him leave, because now white people wanted to live there.

“Racism in Brazil is institutional,” Pinto said. “It’s everywhere. It’s very difficult to confront.”

For his part, Pinto hopes to use the quilombo movement to shed light on the country’s racial inequities. He said he was disappointed by the lack of Afro-Brazilian participation in the protests against government spending on the World Cup over the last year, which were largely led by light-skinned, middle-class residents.

“The quilombo movement is still very timid,” Pinto said. “We’re practically invisible to society. So if we don’t go out now and show our faces in the street, go out and protest, we’re going to be forgotten. We’re already forgotten.”

Instead, the Pinto family protests by continuing to balk in the face of eviction threats and turning down offers of millions of reais, the local currency, to abandon the place they’ve always called home.

But Pinto often feels invisible in his own neighborhood. On a recent walk with his grandson, he said, the two stopped at a plaza for a break. Looking around, Pinto noticed they were the only two black people there.

“I feel racism much more strongly because I’m in a place where only people with money live, and people with money are white,” he said. “What I understand very well is that we’re black people in a place reserved for white people.”

staten islandStudents hold signs during a protest demanding better public services and criticizing massive government spending on the World Cup. Pinto said he was disappointed by the lack of Afro-Brazilian participation in the World Cup protests, which were largely led by light-skinned, middle-class residents. (Evaristo Sa/Getty Images)The reporting for this project was made possible by a Social Justice Reporting for a Global America fellowship from the International Center for Journalists.