PRESIDENTE DA FEDERAÇÃO ESTADUAL DOS QUILOMBOLAS DENUNCIA PREFEITO DE SALVATERRA POR TENTATIVA DE ATROPELAMENTO E AMEAÇA DE MORTE


Paulo Quilombola-Salvaterra, Ilha do Marajó

Paulo Quilombola-Salvaterra, Ilha do Marajó

Paulo Marcelo Braga
Salvaterra, Ilha do Marajó, Pará 06/04/2016

No início desta noite, na 6 rua de Salvaterra, às proximidades do Banco Bradesco, o Sr. Paulo Oliveira, Presidente da FEDERAÇÃO DOS QUILOMBOLAS DO ESTADO DO PARÁ, caminhava com sua esposa e sua filha de menor idade, quando o carro de propriedade do prefeito Valentim Lucas de Oliveira quase atropelava a família quilombola.

Segundo Paulo, o acusado político Valentim teria dado ré no veículo na tentativa de consumar o atropelamento. Com a esquiva dos transeuntes, o prefeito teria descido com um objeto semelhante a uma “arma de fogo” e proferido uma petulante AMEAÇA DE MORTE ao denunciante.

Diante da violência sofrida, Paulo se dirigiu com urgência para a delegacia a fim de registrar a ocorrência devida contra Valentim.

socorroEm companhia de parte de sua confraria, o prefeito também se deslocou para a delegacia onde já havia feito a denúncia de que o líder quilombola estadual, acompanhado de um “pseudo Procurador Federal”, estavam adentrando em repartições municipais sem autorizações legais.

A Guarnição da Polícia Militar esteve presente na delegacia, manteve a ordem no local e evitou o tumulto entre o representante estadual dos Quilombolas e o prefeito municipal.

Segundo Narha Oliveira Diretora etno-cultural da entidade quilombola: “Quem está na cidade é o PROCURADOR FEDERAL PATRICK MENEZES COLARES, com o objetivo de inspecionar cada escola e posto de saúde quilombola, por motivo de denúncias encaminhadas ao Ministério Público Federal”.

Paulo Oliveira já informou o fato a Paulo Maldos, Secretário Nacional de Direitos Humanos e deverá registrar a ocorrência na corregedoria de Polícia Civil, além de procurar a Superintendência da Polícia Federal em Belém, para solicitar a devida providência para resguardar sua vida da violência da AMEAÇA DE MORTE que teria sido proferida pelo prefeito.

Nota da Mamapress:

Através dos grupos em contato com o SOS RACISMO BRASIL,  observamos uma crescente onda de violência contra quilombolas e camponeses por todo o Brasil.

À falta de um comando central devida à crise política no país, pequenos ditadores, às vezes prefeitos, à vezes juízes, quase sempre com policiais a serviço de poderosos grileiros locais de terra,  ameaçam, prendem espancam ou matam as lideranças das pequenas organizações de quilombolas e camponeses locais, que ousam contrariar os interesses latifundiários dos pequenos grandes ditadores locais, ao exigirem o cumprimento das leis e da Constituição. que lhes que deveriam assegurar os seus direitos em um estado democrático.

A Mamapress, está fazendo contatos com as agências de notícias nacionais e internacionais, para que desmandos como o que está acontecendo em Salvaterra, na Ilha do Marajó, sejam denunciados e cheguem ao grande público.

 

Quilombolas se encontram no Rio de Janeiro. 12 anos e só 112 quilombos titulados: O que fazer?


convocação
Um grupo de quilombolas da Frente Quilombola, convocou para a próxima sexta-feira, 23 de janeiro uma reunião nacional, na OAB-RJ, para discutirem a atual situação dos quilombos e quilombolas no Brasil.

OAB/RJ – Av. Marechal Câmara, 150 – Rio de Janeiro – RJ – CEP: 20020-080 – Fones: (21) 2730-6525 / (21) 2272-6150

Segundo relatório do Governo Federal de maio, 2014, apenas 207 das 2197 comunidades foram reconhecidas até então. O que dificulta em muito o atendimento aos benefícios sociais.

No Brasil 75% dos Quilombolas vivem em extrema pobreza:

Das 80 mil famílias quilombolas do Cadastro Único, a base de dados para programas sociais, 74,73% ainda viviam em situação de extrema pobreza em janeiro desde ano, segundo o estudo do programa Brasil Quilombola, lançado ontem (6) pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir). Entre cadastrados ou não, os quilombolas  somam oficialmente , 1,17 milhões de pessoas e 214 mil famílias. Saiba mais à respeito
“A questão básica para nós é a titulação da terra, sem ela não somos ninguém, não somos nada”, afirma José Antônio Ventura, quilombola da Frente Nacional em Defesa dos Territórios Quilombolas e um dos puxadores da reunião que irá acontecer. Segundo os quilombola até agora só 112 quilombos receberam o título que legalizam as suas terras

Ao contrário dos Povos Indígenas, que mal ou bem tem a Funai para centralizar suas demandas, e contam com visibilidade e apoio nacional e internacional em suas demandas. Os quilombolas precisam percorrer um tortuoso caminho, por no mínimo 11 ministérios, secretarias e fundações à nível de ministérios, governos estaduais e municipais, além dos donos de terra no parlamento, para conseguirem o “PAPEL DE DONOS DE SUAS TERRAS”.

Os latifundiários e os fazendeiros do agronegócio, contam com a força do dinheiro representados na CNA ( Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil). Quilombolas dependem do favor de Ongs e apoiadores individuais, e principalmente do movimento negro, do qual eles fazem parte, para conseguir um mínimo para a sua sobrevivência.

Ação  de Inconstitucionalidade de 2004 (Adin 3239/2004),  impetrada pelo DEM , comandado à época pelo senador corrupto e associado à máfia Demóstenes Torres, praticamente paralisou a titulação dos quilombos no Brasil desde então. O ex-senador corrupto, com sua iniciativa, colocou em dúvida a própria existência dos quilombos.
A ascensão da ex-presidente do CNA, Kátia Abreu para o posto de ministra da agricultura no novo governo Dilma, acendeu as luzes de alarme no meio quilombola. Apesar das várias organizações de defesa dos quilomboala já existentes, sentem a necessidade de criarem uma organização que tenha juntos ao governo brasileiro, à OIT e outros organismos internacionais o mesmo peso que tem as organizações dos grandes donos de terra.

O encontro promete ter discussões políticas acirradas, sobre os pró e os contra de tal iniciativa. Veja documento contra a iniciativa Manifesto da Frente Nacional Quilombola

Nós da Rede Radio Mamaterra e da Quigeral, desejamos que este encontro ajude aos quilombolas a saírem da invisibilidade que os mantém na extrema miséria e sem serem ouvidos pelos governos Federal, Estaduais e Municipais.

Torcemos para os quilombolas consolidem o protagonismo de suas lutas e que junto com seus apoiadores, cheguem a um consenso de como levar adiante a luta pelos títulos de suas terra,  valorização e reconhecimento de suas culturas ancestrais.

O que tem a ver movimento negro e quilombola com o caso de racismo no procedimento de detenção de Mirian França?


Fotos Flavio Barcellos de Carvalho- Quilombo Marambaia

Fotos Flavio Barcellos de Carvalho- Quilombo Marambaia

Marcos Romão
Gostaria de ressaltar o papel das redes sociais e do trabalho coordenado entre ativistas do movimento negro e quilombola na área jurídica e de comunicação e seus congêneres do movimento social consagrados às defesa dos direitos humanos, e com a defensoria pública do Ceará, para sobretudo proteger e salvaguardar os direitos de Mirian França, e proteger a privacidade de sua família:
Foram passos que ao fim, que espero exitoso, deste trágico desenrolar, anotados e descritos, poderão servir para no futuro atendermos de forma cada vez mais eficiente, casos de racismo e violação de direitos fundamentais das pessoas negras ou de quem procure o MN para pedir socorro:
1- Foi fundamental que desde o início amigas da pessoa em questão, foram para Fortaleza e desde o primeiro momento, além de procurarem as autoridades de defesa, e grupos de direitos humanos, e principalmente cuidaram para que Mirian recebesse todos os dias material de higiene pessoal e alimentos e soubesse que do lado de “fora”, haviam pessoas interessadas por ela. (este é um velho método das mulheres negras do Brasil, que correm para as portas de delegacias, e acampam, para que os policiais tenham o mínimo de “cuidado” ao tratarem de suas filhas e filhos sob custódia da justiça.)
2- Foi fundamental que as amigas de Mirian mantiveram contato via redes sociais com a família de Mirian( mãe, tia primas) e assim ganhassem legitimidade e força no grito que lançaram através de um evento nas redes sociais. link aqui
3- Como são métodos novos de defesa da cidadania e direitos humanos, que estão sendo lançados via redes sociais, por conta da experência nos casos Vinicius Romão e Goleiro Aranha. Formou-se pequenos subgrupos fechados de especialistas em direito e comunicação, que ao rastrearem todas as notícias agiu em três frentes.
a- desconstrução do assassinato moral que a imprensa e as autoridades policiais, estavam fazendo contra a imagem de Mirian e de sua família. (filha mentirosa e mãe que acusa o caso como racismo).
b- Para evitar os famosos bois na linha que estes casos geram, e que alimentam o lado abutre de uma certa imprensa, foram feitos contatos inbox e telefônicos ou por emails com todas as iniciativas, que visassem apoiar Mirian e sua família, fossem grupos do movimento social, do MN, de direitos humanos, parlamentares e etc. Assim foi construída uma parede de proteção tanto para Mirian quanto para sua mãe. Em um caso anterior, todo o trabalho quase foi por água abaixo, quando a pessoa libertada foi “sequestrada” por uma emissora de TV, que praticamente “ditou” seus depoimentos, quase tirando a questão principal—RACISMO—da jogada.
c- criação de um grupo que envolve profissionais voluntários na área psicossocial para acompanhar a família de Mirian. Através do princípio que nenhum caso vai adiante se as pessoas diretamente envolvidas estão psicologicamente sem força. ( mais uma velha tradição das mulheres negras de favela, que diz, “mãe é quem está mais perto”).
Não vou me estender aqui, mas gostaria que minhas amigas e amigos do MN e do movimento social, que tudo isto é resultado de um trabalho coletivo em que idiossincrasias e opiniões pessoais são superadas, por temos um objetivo único, que é tirar uma vítima do racismo das mãos de um estado algoz. Reitero também que todos os envolvidos na defesa de Mirian e sua família, compreenderam que o fato é político em si, e assim evitamos todos e todas, repetir o velho chavão de que “é sempre assim e nada pode mudar”. Acreditamos no lema de 88, “VAMOS MUDAR”.
Todo este caso, além de outras consequências positivas, ressalto três que devemos ter maior atenção.

Fotos Flavio Barcellos de Carvalho- Quilombo Marambaia

Fotos Flavio Barcellos de Carvalho- Quilombo Marambaia

1-  As pessoas no Brasil estão tomando consciência de forma rápida, que o racismo vem ganhando novas formas de se apresentar, os racistas perderam a vergonha e estão escancarando. Setores do movimento negro, que botaram a luta contra o racismo durante os últimos 20 anos debaixo do tapete por conveniências religiosas partidárias, ideológicas ou simplesmente por cansaço, precisam repensar, pois são seus filhos e filhas que são agora a bola da vez, e estão morrendo e sendo violentados como patinhos na lagoa.

2- pela primeira vez um representante de uma Defensoria Pública, a do Ceará, aponta jurídica e publicamente durante um processo que o sistema judicial, é inquisitorial e feito para prender pretos, e pobres. ( isto está dito num processo e não numa tese acadêmica) por isto ele está sob ameaça de agressões físicas.
3- Mesmo que sendo uma iniciativa pequena o movimento negro e o movimento quilombola, falou com uma só voz. Pode ser o início de uma junção de algo que nunca deveria ter sido burocráticamente separado. Somos negros e negras em várias frentes, mas temos um objetivo comum que é combater o racismo.
Que os e as nossos e nossas antigas relembrem disto pois a juventude está esperando a nossa palavra, sem chororô.
ASÈ
Marcos Romão

Desde 2012 ,o DEM, partido do senador cassado Demóstenes Torres, quer interromper titulação de terras quilombolas.


Fotos Flavio Barcellos de Carvalho- Quilombo Marambaia

Fotos Flavio Barcellos de Carvalho- Quilombo Marambaia

por marcos romão

Para Luiz Sacopã, presidente da Associação dos Remanescentes de Quilombos do Rio de Janeiro e do Quilombo Urbano do Sacopã, na Lagoa Rodrigo de Freitas. o julgamento de amanhã, 3 de dezembro de 2014, é uma verdadeira faca no peito para milhares de quilombolas em todo o país, “não querem mais uma vez aceitar quem nós somos, remanescentes de quilombos que nos auto reconhecemos. Nós sabemos quem somos. O Estado Brasileiro  precisa finalmente reconhecer que nós existimos, afinal teve ou não teve escravidão no Brasil? Estamos há mais de cem anos de pé em nossas terras, não podemos dormir. Toda hora chega um grileiro querendo pegar nossas terras”, afirma indignado o septuagenário Luiz Sacopã, que sonha em ver o dia em que seus netos e netos de todos os quilombolas sejam reconhecidos pelo estado Brasileiro.

Sacopã diz que os quilombolas vão estar presentes no julgamento, representados pelos Quilombos em torno de Brasília, como Calunga e Paracatu. ” vocês sabem como é, os poderosos ficam entrando na justiça contra a gente porque sabem que não temos dinheiro para estarmos nos deslocando para Brasília a cada julgamento, querem nos vencer pelo cansaço. É uma luta desigual, pois os milhares de quilombolas gostariam de estar presentes, para que nos vendo, os juízes saibam que existimos”.

A página da Comissão Pró-Índio publicou em sua página:

O julgamento pelo STF está previsto na agenda de 3 de dezembro. Entenda o que está em jogo.

A Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 3239 voltou à pauta de julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) da próxima quarta-feira, 3 de dezembro.

A ADI 3239 foi proposta em 2004 pelo então Partido da Frente Liberal – atual Partido Democratas (DEM) – objetivando a declaração de inconstitucionalidade do Decreto n.º 4.887/2003 que regulamenta o procedimento para a titulação as terras ocupadas por comunidades dos quilombos.

A ADI faz parte de uma ofensiva de interesses conversadores que tentam obstaculizar a efetividade do direito dos quilombolas à propriedade de suas terras.  A eventual declaração de inconstitucionalidade do decreto pode agravar um cenário que já é bastante preocupante. Até hoje, somente 5,7% das famílias quilombolas no Brasil contam com terras tituladas e dessas algumas apenas parcialmente regularizadas.Os mais 1.400 processos em curso no Incra podem ficar paralisados no vácuo das regras para continuidade dos procedimentos.

Já em 2012 o deputado federal do PT-BA,Luiz Alberto, declarava:

” a Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin), proposta pelo Democratas, que será julgada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na tarde desta quarta-feira (18). A medida da legenda tem como alvo o decreto que rege a titulação dos territórios quilombolas no Brasil e foi classificada como “um retrocesso das conquistas do país” pelo parlamentar. “A Adin interposta pelo DEM, partido do senador Demóstenes Torres, quer interromper o direito das comunidades quilombolas. Espero que o Supremo garanta as conquistas, o direito histórico e inalienável das comunidades quilombolas do nosso país”, afirmou. A Adin questiona o princípio do autorreconhecimento para identificação de quilombolas, a possibilidade de a comunidade apontar os limites do seu território e a previsão de pagamento de indenizações.

Artigo relacionado: Com a faca no peito

Na página do Instituto Socioambiental temos o relato do que aconteceu no julgamento iniciado em 2012, que foi interrompido:

Peluso considerou inconstitucional o decreto que regulamenta a

regularização fundiária dos territórios quilombolas.

O julgamento foi suspenso em seguida, após pedido de vista da ministra Rosa Weber

Em julgamento iniciado ontem (18/4), no STF (Supremo Tribunal Federal), em Brasília, o

desembargador Cezar Peluso, relator da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 3239,

proposta pelo partido DEM (Democratas), votou pela anulação do Decreto nº 4.887/2003,

que regulamenta e viabiliza a demarcação e titulação dos territórios quilombolas. Fez no

entanto uma ressalva: os títulos expedidos antes do fim do julgamento devem ser

considerados válidos.

Peluso acolheu a tese defendida pelo DEM e afirmou que o decreto padece de uma série de

inconstitucionalidades. Considerou que o artigo 68 do ADCT (Ato das Disposições

Constitucionais Transitórias), que determina o reconhecimento da propriedade definitiva e a

emissão dos títulos respectivos aos remanescentes das comunidades quilombolas, não pode

ser regulamentado por decreto presidencial, mas apenas por lei.

Contrariando manifestação anterior o relator também considerou inconstitucional o

critério da “autoidentificação” para o reconhecimento das comunidades remanescentes de

quilombos. Para Peluso, caberia a lei específica oferecer parâmetros históricos e

antropológicos para a identificação dessas comunidades.

Autodefinição

O critério da autoidentificação está previsto no artigo 2º do Decreto 4.887/2003 e no

artigo 1º da Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho),que

estabelece tal critério como fundamental para identificar os sujeitos de sua aplicação

(povos indígenas e tribais, dentre os quais os quilombos).

Segundo esse critério, entende­-se pertencente a determinado grupo étnico todos aqueles

que esse mesmo grupo reconheça como dele fazendo parte, independentemente, por

exemplo, de critérios genéticos ou de antiguidade. Faz parte de uma comunidade

quilombola todos que nela vivam e por ela sejam aceitos como tal, independentemente

de, por exemplo, ser descendente direto da família que a fundou séculos atrás. Nas

palavras de Manuela Carneiro da Cunha (Os Direitos do Índio: Ensaios e Documentos.

Brasiliense, São Paulo. 1987, p. 111):

“A antropologia social chegou à conclusão que os grupos étnicos só podem ser

caracterizados pela própria distinção que eles percebem entre eles próprios e os outros

grupos com os quais interagem. (…) E, quanto ao critério individual de pertinência a tais

grupos, ele depende tão­ somente de uma autoidentificação e do reconhecimento pelo

grupo de que determinado indivíduo lhe pertence.”

Argumentações contraditórias

O voto do relator foi precedido de diversas falas de advogados das partes, incluindo aí

diversas organizações sociais que entraram na causa para defender um ou outro lado.

Um dos pontos centrais levantados pelos que defendem a inconstitucionalidade do decreto

diz respeito à necessidade de desapropriação. Para o advogado do DEM, Carlos Bastide

Horbach, não poderia haver desapropriação, pois a própria Constituição já teria outorgado

às comunidades quilombolas a propriedade das terras que ocupavam em 05/10/1988, data de

promulgação do texto constitucional. Peluso reforçou essa tese, dizendo que haveria, no

caso, uma espécie de “usucapião presumido”, o que dispensaria a desapropriação.

Essa argumentação, que contraria as bandeiras históricas do próprio DEM – defensor árduo

da propriedade privada – e dos demais interessados na queda do decreto, foi levantada na

ação para inviabilizar a demarcação de novas terras, ao impedir que, por meio do pagamento

pelo valor da terra, o Estado possa pacificar uma situação de conflito social surgida com a

titulação de uma área quilombola sobre uma fazenda reivindicada por um terceiro.

Outro ponto central da tese dos que defendem a derrubada do decreto diz respeito à

temporalidade da ocupação. Para o advogado da Associação Brasileira de Celulose e Papel –

BRACELPA não se poderia abrir a possibilidade de titulação de terras que, em 1988, não

estivessem ocupadas efetivamente. Para Horbach, admitir que aqueles que não ocupavam as

áreas em outubro de 1988 têm direito à terra, contraria o art. 68 do ADCT. São muitos os

casos, no entanto, de comunidades que, antes dessa data, foram expulsas de todo ou parte de

seus respectivos territórios. Justamente por isso foi incluso na Constituição o texto que

determina ao Estado garantir a titulação das terras. O uso do marco temporal de 1988

significaria, portanto, congelar inúmeras situações de injustiça fundiária.

O advogado da SRB (Sociedade Rural Brasileira) chegou a defender que a figura da

propriedade coletiva, prevista no decreto, é inconstitucional, por não se tratar nem de

propriedade privada, nem pública.

Autoidentificação é constitucional

Em contraponto, o Advogado­Geral da União, Luiz Inácio Adams, defendeu que não é

necessária a aprovação de uma lei pelo Congresso para que o Estado brasileiro possa fazer a

regularização fundiária das terras quilombolas, já que a Constituição é autoaplicável. Além

disso, ressaltou que a autoidentificação não é o único critério para a caracterização e

titulação das comunidades remanescentes de quilombos, havendo vários outros, razão pelaqual 238 pedidos de reconhecimento já foram rejeitados pela Fundação Palmares.

Adams lembrou, ainda, que com base no decreto, 110 títulos definitivos de propriedade foram

emitidos e beneficiaram 11.289 famílias de quilombolas.

O Procurador do Estado do Paraná, que figura como amicus curiae na ação, Carlos Frederico

Marés de Souza Filho, explicou que o estado do Paraná tem interesse no tema porque

transformou o reconhecimento do direito dos seus quilombolas em política de Estado, não

de governo. O procurador ressaltou a importância da terra para as comunidades quilombolas

e que é essencial sua ocupação para a preservação das práticas, usos e costumes dessas

comunidades, que têm na terra o fundamento de sua vida. Segundo ele, a terra não significa

mera propriedade para essas comunidades, representa um conceito anterior à noção de

propriedade. Para Marés, os quilombolas são os “povos invisíveis” que tiveram que se

esconder dos olhares do Estado e da sociedade para garantirsua sobrevivência.

A Vice Procuradora­Geral da República, Deborah Duprat, também defendeu a aplicação do

critério da autoidentificação, pois apenas os próprios quilombolas podem dizer quem é ou

não remanescente de quilombos e afirmou que outro critério, como por exemplo, o genético,

seria inviável para o reconhecimento dessas comunidades. Duprat destacou os tratados

internacionais que regulamentam o tema, dos quais o Brasil é signatário, como o Pacto de

San José da Costa Rica e a Convenção 169 da OIT, que garantem o direito dos quilombolas

ao seu território e o direito de autoidentificação como critério fundamental no

reconhecimento dessas comunidades.

Audiências públicas negadas

Diversas organizações quilombolas e da sociedade civil, admitidas no processo na condição

de amici curiae também se manifestaram em defesa do decreto na tribuna.

O relator manifestou­-se, ainda, quanto aos diversos pedidos de realização de audiências

públicas feitos ao longo do processo e afirmou que considerou desnecessária a realização

das audiências, tendo em vista que os autos estão suficientemente instruídos.

Após o voto do relator, a ministra Rosa Weber pediu vista do processo para poder examinar

com mais profundidade os autos e o julgamento foi suspenso. Não há previsão para que o

julgamento seja retomado.

Não estavam presentes na sessão de julgamento os ministros Joaquim Barbosa, Celso de

Mello e a ministra Cármen Lúcia.

Mais de 500 quilombolas de varias partes do Brasil vieram ao STF ontem para reivindicar

seus direitos e defender a manutenção integral do decreto. Os quilombolas assistiram à

sessão de julgamento e participaram de uma manifestação em frente ao tribunal.

A CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil) e a Associação Brasileira de

Antropologia divulgaram notas em defesa do decreto (Veja aqui e aqui).

A Comissão Pró­Índio do Brasil divulgou nota pública após o julgamento de ontem em

razão de o ministro Cezar Peluso ter citado dados do monitoramento da organização em seu

voto.

 

Após décadas, Quilombolas da Marambaia conseguem acordo com a Marinha Brasileira, que prevê cessão de terra


fonte: A Folha

Um acordo que mobilizou o MPF (Ministério Público Federal), a Marinha do Brasil, o Incra e outras instituições promete por fim a um conflito fundiário que se arrasta por décadas no Rio.

A disputa entre a Marinha e uma comunidade quilombola por uma área na Ilha da Marambaia, no município de Mangaratiba, será alvo de um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) a ser assinado na quinta-feira, dia 27.

Fotos Flavio Barcellos de Carvalho- Quilombo Marambaia

Fotos Flavio Barcellos de Carvalho- Quilombo da Marambaia

O acordo define o limite máximo das áreas que poderão ser tituladas em nome da comunidade, excluindo todas as que a Marinha considerou necessárias para suas atividades militares. Não haverá, por outro lado, sobreposição entre as terras que serão demarcadas e áreas de preservação ambiental.

De acordo com o MPF o TAC é uma inédita tentativa de conciliar os diversos direitos e interesses públicos envolvidos na ilha: segurança nacional, meio ambiente, moradia e preservação da identidade étnico-cultural.
O acordo também assegura o acesso dos moradores aos serviços de saúde, educação e transporte proporcionados pela Marinha na ilha. Aprovado pela comunidade da Marambaia e por todos os órgãos federais envolvidos, o TAC se tornará efetivo depois de homologado pelo Tribunal Regional Federal da 2ª Região.

Pelo acordo, o Incra terá o prazo de 270 dias para concluir o processo de reconhecimento e titulação da comunidade. Se o Incra considerar o grupo como remanescente de quilombo, receberá um título coletivo de propriedade sobre a área.

Se, por qualquer razão, a comunidade não for considerada quilombola, a União lhe concederá o direito real de uso sobre as mesmas terras, de forma a assegurar, em qualquer caso, o direito à moradia e à preservação da sua cultura tradicional do grupo.

HISTÓRICO

A Ilha da Marambaia pertenceu ao Comendador Breves, conhecido traficante de escravos, que a usava para “engorda” dos negros que trazia da África, antes de comercializá-los. Com o fim da escravidão, descendentes destes ex-escravos permaneceram na ilha, ocupando a terra de forma tradicional e trabalhando como pescadores artesanais.

Na década de 70, a ilha, que tinha sido adquirida pela União, passou a ser usada como área de treinamento pelos fuzileiros navais e surgiram alguns conflitos fundiários entre os antigos moradores e a Marinha, que administra a área.

Nota da Mamapress do Sos Racismo  Brasil, da Quilombos Gerais e da Radio Mamaterra:

É apenas mais um passo para a concórdia, este acordo na disputa entre a Marinha e uma comunidade quilombola por uma área na Ilha da Marambaia, no município de Mangaratiba. O TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) a ser assinado na quinta-feira, dia 27 , precisará ser respeitado e a subsequente titulação das terras quilombolas na Ilha da Marambaia, merecem um tratamento célere dos outros ógãos da república.

A renovação de suas casas, o que até agora é proibido pela Marinha, precisa ser retomada. O direito de ir e vir e de aportar seus próprios barcos é fundamental, pois são mantidos dependentes da lancha da marinha, que presta um serviço de favor, nem sempre de boa vontade. Frequentar escolas e universidades no continente, tem sido um verdaeiro martírio diário para os jovens quilombolas.

Os últimos 4 anos do governo Dilma, os quilombolas e indígenas foram mantidos a pão e água. Seus processos de reconhecimento e  titulação das terras, andaram a passos de cágado. Perseguições de fazendeiros em todo o país foi a tõnica. Até o Quilombo do Sacopã, na cidade do Rio de Janeiro quase foi despejado por tramóias judiciárias, de juízes mancomunados com grileiros urbanos. As comunidades quilombolas do Rio dos Macacos e da Ilha da Marambaia, têm como opositores a Marinha Brasileira que pareceu até agora desconhecer o artigo 68* da Consituição Federal que reconhece os direitos quilombola. Os quilombolas viveram tempos bicudos no governo que se encerra.

A sociedade civil e os movimentos sociais precisam estar atentos para que os direitos à cidadania dos Quilombolas brasilieros sejam respeitados.

Parabéns Diogo Tristão, procurador da Procuradorial Geral da República no Rio de janeiro, transmita meus parabéns a todos que colaboraram. Parabéns aos funcionários do Incra que ajudaram, na pessoa de Miguel Pedro Alves e parabéns à comunidade quilombola da Marambaia, que tem aguentado com estoicismo e bravura todas as humilhações ocorridas ao longo desta luta pelos seus direitos. Salve a Associação dos Quilombolas da Marambaia, Salve a Associação dos Quilombolas do RJ, quem deram respaldo ao povo da Marambaia

 

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*TÍTULO X
ATO DAS DISPOSIÇÕES CONSTITUCIONAIS TRANSITÓRIAS
Art. 68. Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos

Único Quilombo da Zona Sul do Rio recebe portaria do INCRA e celebra com a tradicional feijoada com pagode


por Caetano Manenti
Fonte  do “reblog” : Jornalismo em Pé

depoimento luiz“Um sorriso neeeegro

um abraço neeeegro

traaaaaz felicidade

Foi com o verso de Dona Ivone Lara na garganta e com um enorme sorriso negro no rosto que Luiz Sacopã descarregou tantas horas de emoções. Minutos antes, o líder da Família Pinto me admitia, num misto de sinceridade e galhofa, que passara a noite anterior com receio da plena resiliência de sua saúde. Afinal, tratava-se da véspera de um dia aguardado por ele há 72 anos — ou desde que nasceu, como o filho mais novo de Manoel Pinto Jr, o precursor desta longa história.

 Em 1929, cansado de perambular com sua mulher e seus filhos em busca de trabalho em fazendas do interior do Rio e de Minas, o lavrador Manoel chegou ao Rio de Janeiro, mais precisamente à região que fica na margem nordeste da Lagoa Rodrigo de Freitas. Deixara em Nova Friburgo sua mulher, Eva, que servia às famílias ricas da Serra.

Onde se estabeleceu na cidade do Rio, Manoel encontrou — em vez de um ambiente prestigiado e valorizado, como agora é o trecho que fica entre o bairros de Copacabana e do Humaitá — apenas poucas casas pequenas e muitos terrenos baldios. Foi a antropóloga Eliane Cantarino O’Dwyer, da Universidade Federal Fluminense, quem estudou a origem dos Pinto. Em seus trabalhos, ela relata que Manoel passou a trabalhar para a família Darke de Matos, dona de quase toda aquela área entre o Morro da Catacumba e a Fonte da Saudade. Primeiro, como faxineiro e jardineiro, depois, como guardião da mansão enquanto a matriarca Astréia viajava para Niterói ou para os Estados Unidos.

Com a valorização da área na década de 30, Astréia criou a Incorporadora Darke — certamente, para lucrar com a expansão imobiliária e construções de novas ruas. Foi neste contexto que, em 1939, Manoel passou a trabalhar na abertura da Ladeira Sacopã, um sinuoso caminho íngrime que escala o Morro da Saudade como uma serpente desde a rua Fonte da Saudade, principal do bairro à época.

Mais seguro com a situação no Rio, Manoel trouxe Eva e seus cinco filhos para perto de si. Descrita como mulher trabalhadora e agregadora, Eva ajudava no orçamento da casa com a venda de quentinhas para a multidão de operários que erguiam a emergente construção civil da região. Assim, estabeleceram morada no mesmo terreno onde, 75 anos depois, nesta terça-feira, 23 de setembro de 2014, seu filho Luiz cantava pagode e comia feijoada.

O casal Manoel Pinto e Eva Manoela da Cruz divide a moldura pregada à parede da cozinha do Quilombo Sacopã.

7 DÉCADAS E 5 ANOS DE INCERTEZAS

Não é uma linha reta, de paz e tranquilidade, que liga as obras da rua de 1939 ao pagodão de 2014. A história da família Pinto em um dos redutos mais grã-finos do Rio de Janeiro registra centenas de desvios e curvas tão imprevisíveis quanto as da própria Ladeira Sacopã. Logo nos primeiros anos no local, Manoel e Eva completaram com mais dois a prole de sete filhos. A maioria trabalhou desde jovem — com frequência, servindo às famílias ricas do bairro.

Três décadas se passaram, e os anos 70 trouxeram consigo as reais ameaças à família. A Prefeitura iniciou uma nova fase de urbanização na zona sul da cidade. Muitas favelas, como a da Catacumba, e famílias pobres sem registro adequado da terra onde moravam foram despejadas para a zona oeste da cidade, com a construção de conjuntos habitacionais da Cidade de Deus e da Vila Kennedy. Sem temperamento para enfrentamentos, era provável que o patriarca Manoel, ainda vivo, perdesse a propriedade onde crescera sua família.

Edifício Chácara Sacopã

Em 72, a ameaça ganhava concreto e massa corrida. O Edifício Chácara Sacopã fincou seus pilotis de sustentação dentro das terras ocupadas pela família pinto. Dois anos depois, mais disputa: subiu o muro de contenção do edifício Lagoa Azul, também dentro da área. E pior: a Prefeitura do Rio com auxílio da Polícia Militar iniciou um processo de desintrusão, nome que se dá a retirada de alguém que se apossou ilegalmente de uma propriedade.

Foi a senha para Manoel ceder aos apelos de seus filhos já adultos e ingressar na Justiça com uma longa ação de usucapião da área. O imbróglio passa então ao Judiciário, mas será através da música e da comida que a família Pinto vai conseguir fama e prestígio para montar sua fortaleza.

É aí que dois dos filhos de Manoel e Eva tornam-se os novos protagonistas desta trama. Maria Laudelina Freitas é o nome de batismo da falecida Tia Neném. O apelido virou lenda no número 250 da Ladeira Sacopã. Um imenso retrato dela serviu de moldura para a cerimônia desta semana.

Quilombolas dançam à frente do retrato de Tia Neném, falecida em 2006.

Tia Neném desde criança queria ser cantora. A beleza de sua voz é lembrada com a mesma nostalgia da sua capacidade de luta. Ao contrário da amiga Elza Soares, Tia Neném não seguiu carreira profissionalmente. Dona Eva, sua mãe, não gostava da ideia. Neném virou, então, cabeleireira e ainda ajudava Dona Eva na cozinha da pensão, que seguia fundamental para o balanço da família, produzindo quentinhas para alimentar os operários de uma segunda leva de urbanização no bairro. Porém, mesmo se dividindo entre as panelas e as tesouras, Neném nunca se afastou do microfone, do samba, do pagode e, consequentemente, das feijoadas.

Já era década de 80 quando Tia Neném, com apoio de seu irmão mais festeiro, o também músico Luiz, escreveu o capítulo que pode ser considerado o mais importante para a resistência da família no local até hoje. Neném e Luiz lançaram o espaço “Só na lenha Pagode”. O Samba da Sacopã virou febre entre artistas e descolados da zona sul do Rio de Janeiro. Em seu auge, entre 1983 e 1986, chegavam a ser comercializados por noite, 100 caixas de cerveja e 1.200 caldinhos de feijão, numa festa que ia até às 5h da manhã do dia seguinte. Naquela época, o Pagode recebia até 350 pessoas, o que requeria quase 32 pessoas trabalhando, contando a família e os músicos. As informações são de outro estudo importante desta história, umadissertação de pós-graduação da advogada Patrícia Mendonça de Castro Maia.

Quase trinta anos depois José Cláudio, filho de Tia Neném, ex-jogador de futebol do São Cristóvão, tem certeza que o decreto do INCRA tem, em seu DNA, o som do pandeiro e a beleza das artes.

— A arte sempre foi um momento mágico para a nossa sobrevivência aqui. Minha mãe deixou a bagagem da arte. A arte é atípica. E o nosso resultado de hoje é da arte, é atípico. Se fosse pelo poderio econômico, a gente não conseguiria. Se não fosse a abertura da arte, a possibilidade de receber as pessoas, a gente não chegaria até aqui. O encontro deixou isso aqui mais forte. Depois vieram os intelectuais, professores da UFF, da UFRJ e da PUC. (José Cláudio Freitas, filho da Tia Neném)

NEM TUDO É FESTA NO PAGODE DO QUILOMBO

Se a confusão do repique e do tantã — aromatizada pela linguicinha e pelo paio — criava amizades dentro da propriedade, fora dela, o clima com a vizinhança só piorava. O desassossego criou fortes inimizades na ladeira. É o que revela outro símbolo importante da família Sacopã, Bráulio Nazaré, ex-remador da seleção brasileira, morador do local há 58 anos, do tempo em que “nem havia o Túnel Rebouças e que a Lagoa chegava até a Fonte da saudade”.Bráulio é considerado da família Pinto, mas é descendente natural de uma família ainda mais antiga na região. Nesta terça, Bráulio, que só consegue andar com auxílio de muletas, não cabia de felicidade em seu corpo forte de ex-atleta. Me aproximei dele após ouvi-lo gritar: “A família Sacopã é foda!!”

— Peço desculpas por essa primeira impressão. Mas minha família está aqui há 105 anos. Tentaram tirar a gente daqui inúmeras vezes.

— Quem tentou?

— Tem um condomínio aqui em cima chamado Chácara. Tem um outro prédio chamado 110 — esse grande aqui, que é feito dentro do nosso território. Tem um prédio chamado 250 e tem um senhor ali que é desembargador que é o calo do nosso pé. Ele é um racista e é doido para tirar a gente daqui.

Bráulio se referia ao desembargador Antonio Eduardo Duarte. Foi com surpresa que Antonio Eduardo atendeu a minha ligação telefônica nesta quarta-feira. Perguntei se ele sabia do que havia se passado na tarde anterior ao lado de seu apartamento, uma ruidosa festa de celebração de todo o movimento negro fluminense.

— Não… Passei o dia hospitalizado, cheguei agora há pouco. Diarréia…

— Queria saber sua posição sobre o decreto do INCRA.

— Não posso. Me retirei do caso porque meu condomínio é parte.

— E como vizinho? Gostaria de falar o que pensa?

— Não, não gostaria.

O tom lacônico do desembargador ao telefone até poderia ser decorrência do problema estomacal, mas, certamente, indicava muito mais. Indicava a perda — pelo menos momentânea — de uma antiga queda de braço entre o desembargador e os quilombolas.

Durante os anos 90 e a primeira década deste século, a brisa gostosa sob a sombra da Mata Atlântica preservada deu lugar ao medo sempre iminente da expulsão. O problema com a vizinhança — que reclamava do barulho e da atividade comercial na área — tornou-se também uma disputa com a Prefeitura. Tudo porque, influenciado pelas diretriz da ECO 92, o prefeito Marcelo Allencar criou, naquele mesmo ano, uma Área de Proteção Ambiental no Morro da Saudade. Agora a propriedade da família Pinto sera parte do Parque Municipal José Guilherme Merchior — até hoje, o parque é desconhecido dos cariocas, com pouca ou nenhuma iniciativa de visitação turística.

Arte sobre foto contida nadissertação da advogada Patrícia Mendonça de Castro Maia.

Arte sobre foto contida nadissertação da advogada Patrícia Mendonça de Castro Maia.

Agora dentro de um parque, a utilização da propriedade se restringia cada vez mais. Um mandado judicial de 1996 determinou a remoção das ferramentas da oficina de automóveis que funcionava então no local, dos
instrumentos musicais e da cozinha industrial. Até mesmo os portões do espaço foram lacrados. Alegando que as casas dos Pinto eram construções irregulares em uma área de proteção ambiental, um decreto municipal decidia pela demolição das casas.

Recorrendo sempre a instâncias superiores, a família Pinto brigou no Tribunal de Justiça do Rio e até mesmo no Supremo Tribunal Federal. Nesta jornada inglória, tinham sempre embaixo do braço o artigo 68 da Constituição de 1988. Agora, o texto serve como boas-vindas à propriedade.

Em 2002, a família Pinto venceu disputa por usucapião da propriedade. Em 2003, no entanto, o TJ/RJ reverteu a decisão. Ainda neste mesmo ano, operde-e-ganha teve um novo capítulo fundamental. Logo em seu primeiro ano como presidente, Lula regulamentou, através do decreto 4887, o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades de quilombos.

Um dos passos essenciais deste procedimento era a certidão de autorreconhecimento quilombola. No começo do novo século, a família Pinto tinha orgulho (e também interesse) na afirmação de sua história, inclusive daquelas partes onde seus antepassados eram cativos, mas nem sempre foi esse sentimento que vigorou por ali. De acordo com o que Luiz — agora conhecido como Luiz Sacopã — disse para a antopóloga O’Dwyer, seus pais, Manoel e Eva, não gostavam nem mesmo de tocar no assuntoescravidão. Nascido na propriedade, Luiz descobria o passado de seus avós apenas através de conversas roubadas por detrás da porta. Talvez por isso, não se saiba ao certo quem foi o último escravo da família Pinto. Manoel, pelo menos formalmente, não foi, afinal, nascera em 1900. Provavelmente, os pais de Manoel e Eva nasceram sob a égide da Lei do Ventre Livre.

Em 2005, a família recebeu da Fundação Cultural Palmares o título decomunidade quilombola. Ainda falta, porém, a titulação definitiva da terra. O tão sonhado documento só poderia chegar após a publicação de uma outra portaria do INCRA, que assegurava como propriedade da Família Pinto uma área de 6,4 mil metros quadrados.

Foi esse documento do INCRA que o servidor Richard Torsiano trouxe debaixo de sua axila esquerda nesta terça-feira.

Richard, diretor de Ordenamento da Estrutura Fundiária do INCRA, usou seu sotaque de Penápolis, no interior de São Paulo, para explicar por que estava com os olhos tão brilhantes naquela ensolarada tarde.

— Não há como não se emocionar com essa celebração que se faz hoje. Todo o cidadão brasileiro — estando ou não no serviço público — que conheça minimamente sua história tem que reconhecer o valor do seu povo. O povo negro, para mim, é quem deveria ter sido mais valorizado por sua história, porque foi nas costas do povo negro que esse país se desenvolveu. (Richard Torsiano, diretor de Ordenamento da Estrutura Fundiária do INCRA)

Ele não perdeu o tom histórico da sua fala nem mesmo ao explicar toda a dificuldade que ainda a família Pinto deve enfrentar para receber a posse definitiva da terra.

— Nós precisamos avançar para a regularização fundiária efetiva, através de uma articulação com a Prefeitura e com a Câmara de Vereadores, porque aqui ainda é um parque. Neste parque, nós vamos ter que operar um processo de desafetação para titulação definitiva da comunidade. (Richard Torsiano, diretor de Ordenamento da Estrutura Fundiária do INCRA)

Trocando em miúdos: a família ainda não tem a posse do terreno, mas agora tem um sentimento assossegado de que não será retirada dali. Um reversão da situação, num país como o Brasil, nunca pode ser descartada, mas é profundamente improvável.

A festa para celebrar o momento não foi modesta, mais de 300 pessoas apareceram, embora sem presença da imprensa comercial. Todo o Movimento Negro foi chamado. Representantes de mais de 20 comunidades quilombolas do interior do Estado participaram. Era uma tarde histórica para aquelas pessoas. Nas palavras de Bráulio, “o dia mais feliz” da vida dele. Na cerimônia de entrega do documento, as falas eram interrompidas com ruidosos aplausos ou ainda com saudações de origem africana. O dono da festa, Luiz Sacopã, se manteve saudável e emocionou a todos com o seu discurso.

É um prazer enorme recebê-los aqui neste momento em que o impossível acontece. Eu me lembro que, há aproximadamente dois anos, nós estávamos sendo aqui acorrentados por uma iniciativa judicial. Ficamos dentro do nosso quilombo durante dez dias, cerceados de nosso direito de ir e vir. Jamais poderia passar pela cabeça de todo esse povo quilombola que hoje nós estaríamos aqui para celebrar esse grande feito que, simplesmente, significa uma vitória do fraco contra o forte. Mesmo com a força da especulação imobiliária, com seu poderio econômico, com seu tráfico de influências e maracutaias junto à ala podre do Judiciário, eles perderam.

— Hoje, meu povo, emocionadamente, eu posso dizer: aqui eu nasci, aqui eu criei e aqui eu morrerei! Obrigado!

(Luiz Sacopã, líder do Quilombo Sacopã)

Richard, do INCRA, encerrou os discursos, antes de entregar a Luiz Sacopã a cópia da página 73 da terceira seção do Diário Oficial da União do dia anterior. Grafado com caneta marca-texto estava um parágrafo, que “reconhece e declara como terras da Comunidade Remanescente de Quilombolas do Sacopã (família Pinto) a área de 0,6404 hectare, situada no município do Rio de Janeiro.”

Já era perto das 14h30. Não havia mais como segurar, o povo negro e os não-negros que também lutam pelo povo negro queriam comemorar. Impedidos pela justiça de promover pagode sob aquelas telhas de amianto desde 2011, a Comunidade Sacopã matava a saudade do jongo, das danças africanas e, especialmente, do pagode e da feijoada.

A feijoda do Sacopã é cozinhada no forno à lenha.

Os Filhos de Gandhi celebraram com os quilombolas.

Emocionado, LUIZ SACOPÃ cantou sambas e pagodes clássicos e também apresentou os sambas escritos por ele para o seu bloco de carnaval.

MAYUMI SONE é presidente do Instituto de Terras e Cartografia do Estado do Rio e foi celebrada como peça fundamental da luta dos povos quilombolas no Rio de Janeiro.

IVONETE SILVA DE MENDONÇA, presidente do Conselho de Entidades Negras do Interior do Estado do Rio de Janeiro, destacou a luta dos não-negros na causa negra.

LUIZ SACOPÃ recebeu das mãos do diretor de Ordenamento da Estrutura Fundiária do INCRA, RICHARD TORSIANO, a cópia do Diário Oficial da União de 22/09/201

A risonha Dona Uia, quilombola de Búzios.

— Para mim, hoje é um dia feliz. Saber que é mais um passo que estamos dando. Estamos sendo mais reconhecidos e estamos perto da titulação. Eu sou de Búzios e vim de Búzios para ajudar. Para a gente, é uma alegria muito grande, hahahaha!

— Qual o seu nome?

— Me chamam de Uia, mas meu nome mesmo é muito feio: A-ri-val-di-na! Mas como? Eu não sei o porquê! Então já cresci com o nome de Uia! Hahahaha!

A feijoada estava deliciosa, mesmo que não tenha caído muito bem na barriga do repórter.

— Vem, vem para a foto! Só as princesas quilombolas!

“Neste momento, não tenho nem explicação para poder expressar o que estamos sentindo. Eu acho que a gente só vai mesmo se situar amanhã ou depois, quando olhar pro Cristo e pensar: “nós estamos aqui, estávamos e vamos estar”.
(JORGE ANTÔNIO MONTEIRO, morador da localidade há 60 anos, um dos responsáveis pelo feijão)

2015 PT NA OPOSIÇÃO?


pt na oposiçãoPor Luiz Carlos Gá

Eu gostava mais do PT no tempo das brigas com Brizola, do tempo do “Sapo Barbudo”, mesmo lembrando que foi o PT que combateu os CIEPS para não ter que assumir um “BRIZOLÃO PETISTA”. Uma vaidade desastrosa! Não é não?

Gostava mais assim mesmo, pelo menos a gente confiava no Partido dos Trabalhadores, naquela época não morria 715 homens negros, entre 12 e 25 anos todo mês como agora.

No Rio, elegemos Benedita da Silva, “A Mulher Negra e Favelada”, Elegemos Edson Santos, Carlos Santana, Jurema Batista, Marcelo Dias e pensávamos que tingiríamos o congresso, e as câmaras estaduais e municipais com a nossa tinta preta. Ledo engano!

Gostava das bandeiras com grandes estrelas vermelhas, dos sindicatos sempre a frente, defendendo os trabalhadores e do povo na rua, era muito melhor. Fazer o que?

Aí foram aparecendo os “traidores” (saiu do PT passa a ser traidor inexoravelmente), dos que eu me lembro: Chico Alencar, Luiza Erundina, Luciana Genro, Eloisa Elena (expulsa), Gabeira, e a própria Marina Silva, não necessariamente nessa ordem, mas inegavelmente pessoas de bem, pessoas honestas.

Sai a dignidade e entra as péssimas companhias e, a convite do próprio PT trocam-se o bom pelo podre: José Sarney, Michel Temer, Renan Calheiros, Henrique Alves, Collor de Melo, mais recentemente Sérgio Cabral e Bispo Macedo passaram a fazer parte desse grupo seleto.

Quanto custaria esses acordos com essas “ratazanas goela larga”? Nenhum orçamento suporta isso e sobra para quem mesmo? Para a negrada certamente não, e o racismo estará a postos para controlar esses agora que somam 53% da população. Um aumento sintomático e promissor. Aguenta coração!

As estatísticas oficiais não conseguem esconder que nesse período petista, estão diminuindo os assassinatos dos brancos e aumentando os assassinatos dos negros, o que caracteriza uma intenção macabra num silêncio sepulcral e comprometedor.

Gosto mais do tempo da Marina e, fico imaginando o PT reconstruindo-se, repensando-se, expurgando os bandidos palacianos. Fico imaginando o PT confessando o mensalão e pedindo desculpas ao povo brasileiro pelo festival de racismo contra Joaquim Barbosa, “negro ingrato e traidor filho da puta”, não é isso?

Sobre os projetos sociais era de se esperar, graças a Deus! O PT sempre foi bom nisso, é imbatível para cuidar do social. A já pensou se ele não tivesse promovido esses avanços todos? Seria muito pior, confesso.

Só que para a comunidade negra isso não basta, o que precisamos e queremos vai muito além de bolsas disso ou daquilo. Nossas demandas estão reprimidas há séculos com necessidades ultra específicas que passam ao largo do desejo e da compreensão do PT. Um dia eles entenderão, porque serão obrigados, mas vão demorar muito, até que eles descubram que existem outras verdades além da deles, vai levar muito tempo.

A gente é que não está mais a fim de esperar, está bom de falta de respeito.
Certamente que isso serve para qualquer partido, mas foi o PT que prometeu dignidade e depois de 12 anos nos enfia “Paulo Maluf Ficha Suja” por nossa goela a baixo. Definitivamente não merecemos isso!

O perigo é o PT ganhar essa eleição agora sem um bom puxão de orelhas.

Bastava incluir as questões étnicas negras em todas as agendas possíveis e imagináveis, mesmo sem soluções concretas, um leve encaminhamento, um empurrãozinho de nada e, em dez anos esse Brasil passaria da 85ª posição no ranking mundial de IDH para a 10ª ou até a 5ª. A história já demonstrou a nossa capacidade de trabalho.

O PT teve 12 anos para fazer isso e não fez porque não quis, e que se danem os demais partidos que também não fizeram, essa era a promessa depois do FHC, esse era o compromisso por mais que isso não tenha sido explicitado. A questão racial é explícita em si, não há a menor possibilidade de democratizar a felicidade brasileira como um todo sem esse recorte. Sem isso o Brasil estará fadado a ser o país das desigualdades e o PT tem muita dificuldade para enxergar isso, má vontade é a expressão correta.

Fico imaginando o PT na oposição, fiscalizando o governo da primeira presidenta negra em todas as Américas.

Gostava mais do PT do tempo da Marina Silva. Por que não Marina?
Luiz Carlos Gá