Mais uma vez Fortaleza: Hoje fui violentada pela polícia.


Nota da mamapress: Desde o caso Mirian França, jovem mulher negra que ficou detida 30 dias no Ceará, por suspeitas infundadas, que temos alertado as jovens negras que por um motivo outro precisam passar pelo aeroporto e rodoviárias de Fortaleza, que tenham em mãos sempre um telefone de amigos que possam contatar as autoridades locais como defensoria pública, ou organismos de Direitos Humanos e de Defesa dos negros contra o racismo.

O  Sos Racismo Brasil, parceiro da Mamapress, informa que irá entrar em contato com a defensoria pública de Fortaleza, para que seja feita uma campanha no Estado do Ceará, de informação no Ceará, para informar que mulheres negras, usam também avião para trabalharem e fazerem turismo. E que suas aparências que podem parecer “estranhas” nas terras do Ceará, hoje já são comuns em todos os aeroportos do Brasil e do mundo.

“Sofrendo horrores por saber o terror pelo qual a queridíssima Cris Faustinopassou no nosso Aeroporto treinado para fazer revista vexatória em mulheres de pele preta, cultura indígena e “jeito de pobre”. Essa maravilhosa mulher não é uma mula que carrega drogas. Ela é sim, uma guerreira que carrega muito conhecimento, muito amor e muita luta por cada aeroporto por onde passa. Leva consigo tanto conhecimento e luta que esse cabra metido a letrado jamais teria porque pelo jeito o que ele sabe é o que precisou “estudar para passar num concurso da polícia federal”. Não aprendeu a ter respeito. Não aprendeu o que é racismo. Mas nossa Cris sim, e ela sabe muito bem. Porque não são somente as leituras que ela traz. São as vivências, a garra e a força das mulheres que, assim como ela, sabem o que é sofrer na pele (e por causa da pele) esse tipo de violência. Crisinha, meu amor. Tamo contigo. Conta com a gente. Mexeu com uma, mexeu com todas.” Mensagem das mulheres de Fortaleza através de Sheryda Lopes

Por Cris Faustino

do original em Combate ao Racismo Ambiental

Revista vexatória

Revista vexatória

Porque compartilhar é preciso, necessário e ajuda a sobreviver.

Hoje, 24 de setembro/2015, desembarquei por volta de 8:30 (voo 4764 da TAM. Noite inteira de viagem) no Aeroporto Internacional Pinto Martins em Fortaleza. Retornava de Manaus, de um encontro com algumas das minhas companheiras da Articulação de Mulheres Brasileiras. O desembarque doméstico estava interditado e os passageiros seguiram pelo desembarque internacional. Eu não havia embarcado bagagem, pois como era viagem rápida, levei poucas coisas e sinto muita satisfação em não ter que ficar esperando malas na esteira. Que fácil estava a vida naquele momento de cansaço.

Porém fui retida na porta de saída pela Polícia Federal: um policial me fez uma série de perguntas, de onde eu vinha, o que fui fazer lá, e para onde eu ia agora. Respondi todas, numa boa. Ele me pediu documento e solicitou que eu aguardasse ao lado. Perguntei o que estava havendo, ele, relutante, disse que era uma operação da Polícia Federal. Perguntei se podia ir ao banheiro, ele e outro, ao que parece, subalterno, não permitiram. Tudo bem. E com aquela sensação desconfiada de racismo, imaginei mais ou menos: ‘de rotina’. Ok. Segura a onda.

O meu voo estava lotado. No entanto notei que em meio a muitas outras pessoas, somente eu havia ficado retida. Eles perguntavam qualquer coisa para as outras e as liberavam. Sou feminista militante com cara misturada de negra e índia, luto todos os dias e muito veementemente contra o racismo. Conheço essa chaga, essa desgraça humana, não só na minha vida, mas na de todas as pessoas iguais a mim, com quem convivo, ou não. Minha consciência negra, então não pôde se conter, e perguntei para um dos policiais (o subalterno, que estava mais próximo): por que somente eu estou retida? Ele disse que eu deveria perguntar ao outro, o que havia me abordado primeiro, que era o chefe da operação, ou sei lá que diabo de patente racista esse senhor representa.

O fato é que perguntei ao tal sujeito, por que só eu estava retida. Ele então me respondeu o seguinte: que eu tinha que estudar muito, fazer um concurso para polícia, pra eu saber porque estava retida! Eu fiquei em choque, e o que pude dizer pra ele, já bastante nervosa e irônica, foi o seguinte: é muita cidadania que eu mereço de sua parte! Ele fingiu que não ouviu. Mas ouviu, eu sei que ouviu porque eu disse exatamente para ele ouvir e olhando em sua cara. E sei que ele sabe o que eu estava dizendo.

Fiquei aturdida, liguei pra uma companheira de trabalho e relatei o fato, falando em voz alta e emitindo meu ponto de vista, para que, de alguma forma, eles soubessem, que eu sabia exatamente o que se passava: entre todas as aquelas pessoas, ‘brancas, lindas e arrumadas’, eu era a única suspeita, com minhas roupas coloridas, meu cabelo preso num penacho indígena, minha pele preta e meu jeito, certamente de ‘pobre’, não dona de drogas, mas ‘avião’ ou ‘mula’! Porque eles sabem exatamente a quem de fato pertencem as drogas ilícitas. Fiquei ligando para algumas pessoas, enquanto o tal chefe, ou sei lá o que, racista da polícia me rodeava, falando ao telefone. Eu queria que eles soubessem que eu não estava com medo deles! Que eu sabia que o fundamento do procedimento deles é racista, racista, muito racista, racista até a última ponta! Aquelas pessoas não têm nada pessoal contra mim, na verdade é provável que eles nem me considerem pessoa, e aí é que está o ponto.

Depois de me ‘amornar’, eu pensava que seria liberada, mas não. Eles me levaram numa sala e fizeram a revista vexatória, aquela a qual as mulheres negras são subtidas nas unidades prisionais. Posso dizer que já passei por centenas de situações racistas manifestas, mas nunca havia experimentado tamanho constrangimento e humilhação! Tudo era quase inacreditável, não fosse eu quem sou, e eles que são, nos lugares que ocupamos! Gritei muito, dizendo todas as coisas que vinham na minha cabeça dominada pela indignação: instituição racista! Polícia racista! Por que não revistam brancos, arrumadinhos e ricos? Que eu sou militante de direitos humanos, que sei da realidade da população negra e indígena. Que eles não têm vergonha de serem racistas e tudo o mais… na tensão do momento, nem me lembro quantas palavras e frases consegui elaborar! Imagino que toda raiva histórica, da escravização aos presídios, tomou conta de mim! Descontrolei. Não estava disposta a ser razoável, nem com todos os riscos que corria. Os policiais subalternos estavam entre constrangidos e robóticos! A policial que me fez a revista, em sua imensa branquitude, acho que nunca tinha visto uma preta com raiva. No fim da revista, perguntei entre ódio, ironia e voz alta, olhando bem para ela: cadê o flagrante?

Ela e nenhum deles não tinham sequer a decência de me olhar na cara!

Um quarto policial revistou, sem muita segurança, notei, minhas bolsas! Nesse ínterim eu disse pra ele, quase numa boa, que pessoas brancas também traficam e são donas das drogas. Ele, que é branco, disse que não era racismo, que eles revistavam até alemães e que ele mesmo tinha sangue negro. Inocente? Perverso? Ridículo? Ou simples mal informado? Não sei, mas disse que ele poderia até ter sangue negro, mas eu tinha a pele preta e sabia exatamente o que tudo isso significava.

Saí chorando e sofrendo muito, não só por mim, mas por todas as pessoas negras que diuturnamente são humilhadas e destratadas: pelas mulheres, pelos homens, adolescentes e crianças, que diferente de mim, sequer têm forças para gritar a violência praticada pela instituição policial, uma personificação do racismo brasileiro. Nessas horas de racismo manifesto, que é uma representação também da vida cotidiana e das estruturas de desigualdades e discriminações, é como se toda essa gente estivesse representada em cada um de nós que sofremos. Isso não é indiferente na composição de nosso ser e das nossas vontades profundas, e talvez nem precisem ser politizadas para dar o troco.

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Pedrina de Deus escreve sobre o 25 DE JULHO. DIA DA MULHER NEGRA LATINO- AMERICANA E CARIBENHA.


 

25 DE JULHO.
DIA DA MULHER NEGRA LATINO- AMERICANA E CARIBENHA.

Pedrina de Deus

Pedrina de Deus

por Pedrina de Deus

O 25 DE JULHO é uma data para estimular a reflexão da situação específica de exploração da mulher negra na America Latina e Caribe. Toda busca de um caminho de mudanças inclui conhecer a história e aprofundar a reflexão libertadora sobre a opressão cultural, social, política e econômica, para não se chegar a práticas frágeis e discursivas que só rompem com a dependência material e extrínseca. Um segmento particular do contingente de oprimidos chegou ao final do século XX carregando o peso milenar da exploração: AS MULHERES NEGRAS.

A América Latina é formada por 21 países do continente americano que falam espanhol, português, francês e idiomas derivados do latim, além de 11 territórios e dos países do Caribe. O continente integra o contexto cultural que se convencionou chamar America Latina em conseqüência da expressão usada por Michel Chevalier em 1836 para designar uma área geográfica vítima da mesma degradação econômica e social em detrimento da sua história, cultura e identidade.
Esgotada a exploração do ouro das civilizações pré-colombianas, do pau-brasil, da cana de açúcar, da borracha, do cacau, do café, etc. que transformaram o mediterrâneo em canal de saída de riquezas e entrada de escravidão na América Latina e Caribe, as elites dominantes e seus descendentes passaram a extrair riqueza do trabalho humano com mais intensidade. Um segmento particular desse contingente chegou ao final do século XX carregando o peso milenar da exploração: AS MULHERES NEGRAS.

Os regimes de exploração econômica e social são ainda mais brutais com as MULHERES NEGRAS. Alvo fácil da ideologia de inferioridade racial e sexual, amontoadas em periferias urbanas, convivendo na extrema pobreza com má nutrição, violência doméstica e sexual, educação com valores machistas e natalidade em condições precárias, a maioria dessas mulheres perde a capacidade de reação, o que significa seqüelas gravíssimas para o futuro das novas gerações e o futuro de seus respectivos países.

Educação escassa, saúde fragilizada, trabalho quase inexistente, biotipo inferiorizado e com seu papel social considerado de pouca importância, a maioria delas chega a primeira década do Século XXI cada vez mais abandonada e com poucas possibilidades de reação, pois o fardo de uma economia perversa recai sobre elas de maneira esmagadora. O resultado para a MULHER NEGRA LATINO-AMERICANA E CARIBENHA é uma extrema pobreza associada à escassez de educação e saúde gerando um ciclo de subserviência que parece não ter fim, mesmo com as lutas de libertação e emancipação de seus povos.

Este fato foi denunciado em 25 DE JULHO DE 1992 no 1º Encontro de Mulheres Afro-Latino Americanas e Afro-Caribenhas realizado em Santo Domingos, República Dominicana. A data foi então definida como o MARCO INTERNACIONAL DA LUTA E RESISTÊNCIA DA MULHER NEGRA contra a falta de oportunidades e direitos fundamentais. O 25 de julho é importante para a MULHER NEGRA porque significa visibilidade e uma possibilidade de resposta das mulheres (que são a base de sustentação do desenvolvimento) ao massacre étnic

Mirian França libertada: Redes sociais pesaram na balança da justiça.


por marcos romão

As redes sociais mobilizadas por amigas e  e a mães de Miriam França, tiveram um papel fundamental nas ações que para que o processo de apuração do assassinato no Ceará, voltasse ao seu leito normal nas ações investigativas da polícia, nas decisões judiciais e na cobertura da imprensa. O leito dos direitos constitucionais reza que todo cidadão suspeito de ter cometido algum crime. tem a presunção de sua inocência até que se prove o contrário.
As violações destes direitos fundamentais são corriqueiras, e fazem superlotar as prisões de pobres e pretos, que sequer a oportunidade de serem ouvidos por um juiz a tem. Mesmo depois de meses ou anos.

Cidadãs e cidadãos através da redes sociais, apoiados pelas Mídias Independentes, tornaram evidente que não é exceção e sim a regra de que todo suspeito é culpado até que prove a sua inocência e que é necessário mudar todo o sistema, que se tornou um labirinto judicial em que juízes assoberbados, não tem mais diante de si em suas mesas pessoas humanas, mas sim números processuais, em que na falta crônica de defensores públicos em todo país, os desafortunados e sem cidadania plena são condenados à prisões “provisórias” perpétuas. Sim pois um dia na prisão, sem ser ouvido ou ter acesso a um defensor, é para o prisioneiro inocente uma eternidade, em que mesmo que solto um dia, ficará marcado por toda a sua vida.

Bajonas Teixeira de Brito Junior no Observatório da Imprensa, nos fala de um confronto nas mídias, que teria sido evidenciado no caso Míriam. Nós da Mamapress, da Rede Rádio Mamaterra e do Sos Racismo Brasil,  que acompanhamos este caso desde o início, e já o fazemos há anos, e atuamos  inclusive, nos rumorosos casos Vinicius Romão e Cláudia Ferreira, somos da opinião que não existe uma contradição entre a mídia independente e as redes sociais versus a chamada “grande imprensa”. Para nós o que existe é um crescente aumento da consciência cidadã, em sua repulsa e não aceitação que assassinatos de jovens negros, estupros de mulheres, prisões de inocentes são coisas “normais” para serem consumidas todas manhã enquanto tomamos café assistindo televisão, lendo jornais, ou escutando rádio antes de sairmos para trabalhar.
Este despertar da consciência também atinge aos jornalista, sejam autônomos ou que trabalhem em empresas jornalísticas. As redes sociais estão reforçando o trabalho de jornalismo investigativo, copiar e colar está virando tiro no pé para as grandes empresas jornalísticas, e estas empresas precisam retomar seu compromisso com a verdade, ou continuarão dando tiros nos próprios pés e perdendo credibilidade, ao replicarem e compartilharem, de ouvir falar, preconceitos, pré-julgamentos e condenações prévias de suspeitos presumivelmente inocentes. Isto é  bom para os jornalismo, isto é bom para os jornalistas. Os jornalista em todos as áreas, estou percebendo isto, estão como diria Hegel, crescendo da “consciência em si”, em que são “umbigo” do mundo”, ensimesmados, “selfies” mesmos, quando aparecem mais do que as próprias notícias, e expressam mais as suas opiniões do que a das vítimas publicizadas, para uma consciência para si, quando o outro, cidadão ao seu lado conta. Tem peso valor e dignidade.
Isto é muito bom também para os policiais investigadores, para os promotores e juízes, que ao serem agentes de um sistema processual falho, estão condenados a cometerem erros todo o tempo. A consciência cidadã e seus alertas, vai ajudar muitos funcionários públicos da justiça, a poderem dormir sem sentimentos de culpa e também, reduzir o número de cínicos e resignados, por acharem que tudo sempre foi assim, que sentados em suas togas, executam em nome do Estado que somos todos nós, sentenças discriminatórias e eliminadoras da dignidade humana de todos nós.
Toda esta ação é simplesmente boa demais para todos os cidadãos e cidadãs do Brasil e seus mandatários nestes casos, que são as Defensorias Públicas. Defensorias Públicas que são precárias na maioria dos estados brasileiros e que devemos apoiar para que cresçam e sejam continuem independentes para nos representar, pois ao fim e ao cabo, nós somos os mandantes desta prerrogativa constitucional, que é ser defendido pelo estado, mesmo quando acusamos o Estado, e não temos posses para as custas processuais.

Para exemplificar a ação deste primeiro poder que é a cidadania exercida nas redes sociais, sob o manto e proteção da Constituição Democrática de 1988, que garante a liberdade de opinião e expressão, escolhi este comentário na Mamapress, enviada por Sandra Domingues, uma cidadã brasileira, que como Mirian França lembra que todos nós queremos justiça para Gaia Molinari, A primeira e principal vítima desta grande crueldade que mobilizou a nação. Sandra Domingues participa de um grupo, em que pessoas de todo o país se comunicam pedindo socorro contra injustiças na justiça. Parabéns.

Sandra Domingues é uma pessoa, que através de uma postagem na Mamapress demonstrou solidariedade à Miriam França e pergunta:

“Gostaria que a “justiça” do Ceará explicasse por que a Miriam França estava presa sem provas, por ter tido contradições em seu depoimento e a Cristiane Renata Coelho, assassina do pequeno Lewdinho, apesar de todas as provas, laudos, contradições, continua livre, leve e solta!”

Queremos Justiça por Gaia e Lewdinho!”

Lewdinho é como é conhecido os sub-tenente Francileudo Bezerra Severino (vejam o caso). Preso no Ceará, quando estava em coma, por suspeita em ter assassinado seu filho e depois ter tentado suicídio com chumbinho.
O caso lembra as investigações “apressadas”, feitas no caso Gaia Molinari, em que Mirian França foi logo acusada do crime e presa sem indícios e provas consistentes segundo o juiz  José Arnaldo dos Santos Soares, que decidiu pela revogação da prisão após analisar informações enviadas pela Polícia Civil.

Sandra Domingues é mais uma cidadã brasileira engajada na busca da justiça. As redes sociais estão permitindo que as pessoas que se levantam contra as injustiças no país se conheçam e reforcem o trabalho de formiga de cada uma.

A Rede Rádio Mamaterra e o Sos Racismo Brasil, acredita no trabalho de pessoas como Sandra Domingues e apóia e compartilha seu trabalho, como foi no caso em que Mirian França teve seus direitos civis violados, e nossa rede desde o início entrou em contato com a família de Mirian, através de sua mãe Valdicèia França, e suas amigas e amigos que correram para ajudá-la.

Muitas injustiças estão sendo cometidas em todo o Brasil. São tantas, que já urge o momento em que a sociedade brasileira repense como um todo seu sistema de aprisionamentos em que mais de 250 mil presos e presas como suspeitos de algum crime, aguardam meses ou anos como o caso de Hércules Menezes Santos no Rio de Janeiro.(veja o caso) E outros milhares com culpa comprovada andam soltos em nossas cidades.

Vamos ficar enxugando gelo enquanto não reavaliarmos e mudarmos todo os sistema judiciário, que presume a culpabilidade dos suspeitos e não sua inocência. Quanto mais pobre e mais preto for, e se for mulher e preta pior ainda,  fica muito difícil sair do labirinto prisional, depois que alguém cai nas malhas das investigações malfeitas e ordens de prisão sem os prisioneiros tenham acesso à advogados e família, e uma imprensa apressada que parece mais interessada em divulgar .

ATUALIZANDO O CASO: 13/01/2015

Juiz revoga prisão temporária de farmacêutica Mirian França

O juiz José Arnaldo dos Santos Soares, da comarca de Jijoca de Jericoacoara, revogou a prisão temporária da farmacêutica Mirian França, 31, suspeita de matar a italiana Gaia Molinari, no dia 25 de dezembro. A decisão ocorreu na manhã desta terça-feira, 13.

O magistrado decidiu pela revogação da prisão após analisar informações enviadas pela Polícia Civil. De acordo com a decisão, a farmacêutica não poderá se ausentar do Ceará pelo prazo de 30 dias.

Ao analisar o caso, o juiz alegou que que as contradições apresentadas em depoimento não seriam suficientes para a prisão. Além disso, apontou inexistência de razões fundamentadas que comprovem autoria ou participação da farmacêutica no crime. O magistrado levou em consideração que a carioca possui profissão definida, endereço fixo e não tem antecendentes criminais.

Suspeita de participação no assassinato, Mirian França é carioca e não possui antecedentes criminais. Doutoranda da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no Instituto de Microbiologia, possui graduação em Farmácia e mestrado no curso de Ciências, também pela UFRJ.

Fonte: O POVO

“…Contudo…gostaria que a “justiça” do Ceará explicasse por que a Miriam França estava presa sem provas, por ter tido contradições em seu depoimento e a Cristiane Renata Coelho, assassina do pequeno Lewdinho, apesar de todas as provas, laudos, contradições, continua livre, leve e solta!”

Queremos Justiça por Gaia e Lewdinho! Sandra Domingues

Convocação aos antirracistas do Ceará e do Brasil: Liberdade para a Pesquisadora Acadêmica Mulher Negra Mirian França!


por marcos romão

fonte: facebook e Congresso em Foco

#LibertemMiriamFrança é o hashtag de apoio à jovem negra Miriam França

Grupo de Apoio à Miriam França: Facebook Mirian França

Miriam França grupo de apoio

Presa como suspeita de assassinato no Ceará, desde o dia 26 de dezembro, a jovem negra e acadêmica da UFERJ, no Rio de Janeiro, Mirian França, só agora no início do ano encontra a solidariedade de pessoas, que buscam acionar organismos de combate ao racismo e de direitos humanos que a atendam e acompanhem o seu caso, para evitar que violações aos direitos humanos e pré-julgamentos racistas possa acontecer, como já está acontecendo na grande imprensa nacional e italiana.
Para quem conhece a Itália e a forma com que a imprensa italiana cai como abutre em seus noticiários, quando comentam “casos” que envolvam  mulheres negras latino-americanas e sobretudo mulheres negras brasileiras, que são de cara consideradas “putanas”. a situação da jovem Miriam não é das melhores para provar sua inocência.

Enquanto sua família não tem acesso a ela, pois seu celular foi desligado, e até agora nenhum advogado se pronunciou em sua defesa, a polícia do Ceará já conta até com um ajudante da polícia italiana na “investigação do caso”, se existe algum convite oficial e diplomático para a atuação deste policial estrangeiro, ou se ele apenas está passando férias como turista comum em JIJOCA DE JERICOACARA, a mamapress não conseguiu até agora encontrar nenhuma informação a respeito.

Sabido é, que a região é uma das regiões preferidas e dominadas pela “Máfia Italiana” e seus tentáculos turísticos no litoral brasileiro. A brutalidade e da força utilizada no assassinato de Gaia Barbara Molinari, indicam que Gaia foi morta por um homem forte ou por duas pessoas, além do mais há indícios de que houve luta.

Mirian é uma pessoa franzina e até agora a polícia do Ceará não apresentou fatos, como marcas no corpo, que apontem Miriam França como a assassina. Enquanto isto os jornais italianos esmiuçam sua vida e publicam matérias da imprensa abutre cearense, com fotos e slides-show sobre a vida de Mirian França.

Inocente ou culpada., Mirian França já está condenada pelo racismo mundial. Sobre máfias e policiais semi-oficiais italianos em nossas praias, só a polícia federal deve saber. Brasileira e negra que se vire, mesmo em seu país. Suspeito homem e italiano, já está livre e deve ter escafedido há muito tempo. Isto é o Brasil Internacional.

“GAIA, UCCISA IN BRASILE: DUBBI SULL’AMICA ARRESTATA.
“È RIPARTITA SENZA DENUNCIARE LA SCOMPARSA”-

 

Italina.Miriam França exposta

Miriam França exposta

Um amigo seu publicou no dia 30 no Facebook:
“Toda minha atenção, preocupação e solidariedade estão para a Mirian Franca nos últimos dias… Presa injustamente, mas já condenada pela opinião popular machista e racista, que foi conduzida pelo jornalismo tosco desse país.
Gostaria de pedir um apelo a todos que conhecem a Mirian que nos ajudem a desconstruir essa ideia ridícula, que a mídia vem incitando, de que a minha amiga é uma criminosa… Não acreditem nesse jornalismo global barato e sensacionalista. Mirian é inocente e está sendo usada para maquiar a incompetência da polícia do Ceará”

 

Miriam França ao fundo

Miriam França ao fundo

Ficamos aliviados sabermos através do grupo CRIOLA, que a ativista negra,  Vilma Reis, tenha informado que advogados foram acionados para se inteirarem dos fatos e procedimentos da prisão, da jovem acadêmica negra Mirian França de Melo, presa por suspeita de assassinato no Ceará.

Temos reiterado a necessidade primária de possuirmos advogados e ativistas voluntários em todos os estados do Brasil, que possam acompanhar in loco, o que se passa no momento de prisões de negros e negras no Brasil

O advogado Sergio Abreu toca no assunto, quando pergunta onde estão as pessoas que possam aompanhar no momento em que ocorrem prisões de “suspeitos” negros ou negras em todo o Brasil.

Nos últimos meses temos agilizado via página SOS Racismo Brasil, vários atendimentos de casos de forma não burocráticas, quando orientamos sobre como devem acontecer os primeiros socorros, no momento em acontecem detenções ou discriminações raciais nos estados do Brasil. Este trabalho inicial é feito por voluntários que nos acompanham nas redes sociais.

Isto serve de base para posteriores ações jurídicas de autoridades ou órgãos de governo competentes.

Nossa experiência destes dois anos no Brasil, nos fez ver que este trabalho de primeiros-socorros, não é trabalho para “escoteiros” e discursos nas redes sociais, pois é exatamente a fase de “instrução processual”, que ferra a nossa gente negra, vítima de preconceitos locais ou nacionais como foi o caso de Vinicius Romão, preso por 16 dias porque o policial pegou o primeiro preto que apareceu pela sua frente, depois da ocorrência de um assalto no bairro em que Vinicius morava. ( vide matéria)

Depois que um “suspeito” entra na malha da máquina judicial fica muito difícil de consertar, como no caso Liberdade PARA Rafael BRAGA, em que tanta gente de boa se meteu, mas que ele dança o tempo todo por migalhas e vacilos, que não aconteceriam se recebesse boa orientação no momento da prisão, ou da liberdade provisória, em que permitiram e publicaram uma foto, que aos olhos da justiça algoz pareceu provocação e violação de sua condição sub-judice. (leia mais sobre o caso Rafael Braga)

Tornar o fato político, como “político” desde o início, faz um barulho que é necessário, mas não cuidar desta fase de instrução, só faz a coisa ficar no barulho e nossa gente mofar na prisão.
Gente disposta como Jurema Werneck do Criolae Sergio Abreu é o que precisamos todos nos tornar, precisamos denunciar e acompanhar os casos até o fim.

Até agora não obtivemos contatos do Ceará mas entraremos em contato com os grupos que conheçemos por lá.
O princípio de um Sos, que é “primeiro-socorro”, é primeiro soltar quem for vítima de arbitrariedades ou incompetência policial. e somente  depois fazer ilações sobre os males do capitalismo e do racismo, pois ninguém gosta de teorizar dentro da cadeia. Mamapress Rede Radio Mamaterra e Sos Racismo Brasil.

Bajonas Teixeira de Brito Junior é doutor em Filosofia, está fazendo sua parte, que é esmiuçar e divulgar as incoerências e possíveis arbitraridades ocorridas na prisão da jovem negra e acadêmica, Márcia França, aqui vai o seu artigo.

Dúvidas sobre a prisão da jovem negra no Ceará

Bajonas Teixeira de Brito Junior

Uma jovem negra, Mírian França, doutoranda em farmácia na UFRJ, que passava férias no Ceará, foi presa como suspeita do assassinato de uma turista italiana. Tudo indica que está sendo usada como um bode expiatório para salvar os lucros da indústria turística do Ceará, já que o crime obteve repercussão internacional e poderia reduzir o fluxo de turistas do exterior. Querem mostrar que existe polícia competente e rápida. Mas os fatos indicam o contrário. A delegada responsável pelo pedido de prisão não dá qualquer justificativa plausível para essa medida. Além de tudo, Mirian deixou o local, a praia de Jericoacoara, no dia 24 de dezembro, por ter passagem comprada com antecedência para retornar a Fortaleza, de onde iria para outra praia, Canoa Quebrada. Acredita-se que o crime ocorreu no dia 25. O jornal O Globo, em matéria da sua equipe no Ceará, chega a afirmar: “O crime ocorreu no último dia 25, na praia de Jericoacoara, distante 300 km de Fortaleza”. Ora, como nessa data Mirian estava em Fortaleza, não poderia ter sido incriminada. E mais: o crime exigiu muita força física, houve luta e resistência da parte da vítima. Mírian, franzina, não poderia ter feito isso. E se fizesse teria muitas marcas no corpo.

A delegada soluciona a contradição de forma simples: diz que ao menos duas pessoas participaram do crime. Ou seja, Mirian teria um cúmplice. Ocorre que Mírian, além de ter uma biografia incompatível, não tinha conhecidos nem contatos na região. Nada deixa vislumbrar que a jovem tenha recebido apoio jurídico da defensoria pública do Ceará, nenhum advogado fala por ela. Ao que tudo indica foi conduzida pela polícia militar para depor, pelas mãos de um coronel que já emitiu várias afirmações preconceituosas contra a jovem (Diz, por exemplo, que ligou diretamente para a jovem no dia 26, e que percebeu que ela estava num “ambiente de festa”. Certamente, ela estava na praia de Canoa Quebra, de férias e no período de alta estação. Nessa época, como o coronel deveria saber, funciona no seu estado uma indústria turística muito festiva). A família da jovem não recebeu qualquer informação, e o seu telefone celular foi desligado não se conseguindo mais contato com ela. Presa ilegalmente, caluniada, mantida incomunicável e, provavelmente, não em prisão especial, como teria direito pelos títulos universitários. É uma pesquisadora de alto nível em farmácia e química, mas a imprensa, primeiro no Ceará e, em seguida, no resto do país, a denomina apenas como “a carioca”. Em momento algum ela é apresentada como pesquisadora, acadêmica, autora de diversos artigos científicos. Seria isso, talvez, incompatível com ser negra? É importante sublinhar que “carioca” é um termo pejorativo e muito negativo nas áreas de turismo do Nordeste.

Enviamos o artigo publicado hoje no Congresso em Foco e os convocamos para questionarem a arbitrariedade desses atos como mais um crime contra os negros e, em particular, as mulheres negras. O artigo detalha as dúvidas envolvidas no caso. Abaixo foto de Mirian.

para ler o artigo de Bajonas Teixeira de Brito Junior

Obs: Essa mensagem segue com cópia para a Defensoria Pública Geral do Estado do Ceará. Ficaremos na expectativa de suas ações para dirimir as dúvidas relativas ao caso.

Noticias no G1 sobre o caso

Mais sobre o tema

Racismo contra aluna negra e bolsista na faculdade de arquitetura da PUC-Campinas


Única mulher, negra e bolsista da PUC-Campinas no curso de Arquitetura e Urbanismo entre 200 alunos, narra sina de perseguições e ofensas racistas dentro da universidade de Campinas

Prezada Sthefanie, nossa solidariedade do Sos-Racismo aqui do Rio de Janeiro.
Você está no caminho certo em tornar público o seu caso, que demonstra o poder do racismo institucional.
Este caminho longo de sofrimento que você passou e passa deve ser reverberado para todos os cantos do país e do mundo.
Muita gente já passou por isto calada, e até hoje paga psicanalistas, para descobrir onde errou para ser massacrada sistematicamente em sua humanidade por racistas dentro da universidade.
Alunos, professores, administradores e direção desta faculdade são agentes e cúmplices deste crime de racismo continuado e inafiançável contra você e toda pessoa negra do Brasil.
Você deve continuar nesta faculdade, pois é a sua vontade e direito.
Este lugar é seu e temos que fazer piquetes presenciais e virtuais para lhe garantir a sua integridade pessoal. O corpo e a alma das pessoas são intocáveis. Além dos ataques racistas você está sendo vítima de tortura psicológica e mental!#marcosromaoreflexoes

Única mulher, negra e bolsista da PUC-Campinas no curso de Arquitetura e Urbanismo entre 200 alunos narra sina de perseguições e ofensas racistas dentro da universidade

Por Stephanie Ribeiro

fonte Blogueiras Negras

Não é de hoje que discutimos o papel do negro nas universidades, erram os que pensam que o assunto é cotas, mas sim a forma como as universidades se preparam pra receber alunos negros, porque independente da que estamos falando, quando o assunto são as grandes universidades brasileiras, públicas ou particulares o acesso de negros é restrito, umas nem aderir a cotas raciais tiveram coragem de fazer, porém não assumem também que são um ambiente branco e elitizado. Por trás de toda uma película acadêmica de local “universal” se esconde o racismo da Casa de Engenho, e parece que ninguém tem muita vontade de quebrar essas barreiras. Mas se engana quem pensa que não vamos resistir, invadir e ocupar esses espaços que são nossos também. Se o Brasil existe, ele deve muito a nós, ao nosso trabalho não valorizado, a nossa luta que a mídia não mostra, e a nossa inteligência também, que não é aproveitada porque nos segregam e excluem.  Porém o problema só aumenta quando se é MULHER e NEGRA, a luta é duas vezes maior e as agressões tem mais do que uma motivação.

Eu sou estudante e bolsista de Arquitetura e Urbanismo, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, aonde eu sofro perseguição por conta das minhas ideias, defesas e focos. Não achei que seria assim, não acreditei que além de elitizado e branco, o ambiente também seria conformado e moralista, alguns assuntos só podem ser ditos baixinho e com determinados alunos, porque outros vivem numa bolha de ignorância que é praticamente impossível de ser estourada e o racismo é evidente, não é à toa que negros só são maioria na faxina e não na sala de aula.

O que acontece é que eu represento algo provocativo naquele local, e junto com as ideias que eu tenho a situação é maior, mesmo que eu só queira ir lá e ser uma Arquiteta e Urbanista, eu incomodo, e isso começou a dar indícios quando o meu Facebook começou a se tornar assunto, eu não podia postar nada que ia contra a “moral e bons costumes” que virava assunto de corredor, até ai eu aceitei, o problema é que isso começou a resultar em agressões ainda mais quando eu expus que era feminista, ao ponto de pixarem meu armário da faculdade com a frase “Não ligamos para as bostas que você posta no Facebook”, sendo que essa rede social tem ferramentas que permitem não só excluir como bloquear usuários que te incomodam. Ou seja, é muito fácil não me ter nessa rede, mas parece que não é essa opção que resolveram tomar, preferiram mensagens anônimas e vário in box como os a seguir:

(Imagem: Reprodução/Facebook)

(Imagem: Reprodução/Facebook)

(Imagem: Reprodução/Facebook)

(Imagem: Reprodução/Facebook)

E assim foi 2012, quando procurei a secretária pra falar sobre meu armário disseram que não podiam fazer nada e que as câmeras não gravavam e que eu deveria dar nomes se quisesse que algo fosse feito, com o fim do ano nas férias eu ainda recebia algumas mensagens, me perguntando o porquê de não ir nas festas, o que me fez começar a ter receio de frequentar tais festas, porque se essas pessoas me zoavam no corredor, me mandavam esses in box, e pixavam meu armário, o que não poderiam fazer comigo se eu estivesse numa festa sozinha? Então não frequento e não pretendo ir nas festas da minha faculdade.

Início de 2013, eu estava no segundo ano da faculdade, e comecei a fazer alguns trabalhos em grupos, duplas e por ai vai, o que aconteceu é que no primeiro semestre uma pessoa que dizia ser minha amiga, no meio de um trabalho disse: “Não quero ser racista, mas já perceberam como negros normalmente fedem mais que brancos, tem um cheiro mais forte.” Ei fiquei em choque, as pessoas concordaram com aquilo, e eu ali, pra completar essa pessoa disse “Mas você Ste é diferente, é cheirosa.”

Eu entendi a gravidade dessa frase só depois de um tempo e foi agressivo pra mim, as pessoas que diziam ser minhas “amigas” não entenderam a minha reação, nem a minha indignação, sendo que no segundo semestre em outro trabalho, em determinado momento alguém disse “somos todos iguais” e a mesma pessoa da frase acima esfregou a mão da própria pele e disse “menos a Stephanie.” Olha isso foi visto como brincadeira de mau gosto pelos demais, por mim foi visto como Racismo, e sim isso é racismo.

O que posso deixar claro é que dessas pessoas, eu resolvi me afastar foi um processo complicado, porque era gente que eu via como amigo, mas acho que não posso ser próxima de quem acha que é piada racismo. Além do mais, ouve uma briga na faculdade, onde um namorado de uma aluna, invadiu o local e agrediu um aluno. Diante desse fato, um dos seguranças de PUC, se manifestou com a seguinte frase “Quem devia ter apanhado era essa menina.” O fato é que independente do porquê da briga, independente de quem fez algo ou não, agressão é intolerável a agressão a mulher num país com números como o nosso, e isso não devia nem ter sido cogitado por quem devia zelar pela nossa segurança.  Quando eu manifestei minha opinião sobre a fala do tal segurança. Meu Facebook foi novamente invadido pelos alunos da Faculdade de Arquitetura da Pontifícia Universidade Católica, dessa vez defendendo agressão a mulher. Sim, eles defenderam que dependendo da justificativa uma mulher poderia ser agredida.

Meu post foi esse:

(Imagem: Reprodução/Facebook)

Que resultaram nos seguintes comentários dos alunos, destacados em preto:

SR 8

SR 6SR 7

Esses foram os comentários dos alunos diante o machismo, da fala do segurança, eles não só colocaram que havia um contexto, como deram a entender que bater em mulher é uma “solução” viável as vezes. Para piorar novamente invadiram meu facebook, mesmo alguns que já estava bloqueados, usavam o facebook de amigos para manifestar ódio, inclusive me ameaçar de agressão caso não ficasse quieta:

(Imagem: Reprodução/Facebook)

Enfim, essa história passou e eu vi até pessoas que se diziam minhas “amigas” ficando do lado desses determinados alunos que estavam não só defendendo agressão como me ameaçando.

Finalmente 2013 acabou, eu comecei a dar indícios de tristeza e ficar muito deprimida. Às vezes eu preferia me trancar na minha casa e chorar a ir a aula, ninguém entendia e nem eu.

Começou 2014, agora estou no terceiro ano, me afastei dos “amigos” citados, me afastei de várias coisas que me faziam mal, sim, cada vez mais sozinha. Me sentindo estranha naquele lugar, eu escuto que sou a maior racista comigo mesma, que deveria trocar de curso, pois levo tudo pro social, então deveria fazer ciências sociais. E assim fui levando esse começo de semestre, até que um professor numa determinada aula disse:

“Até você que tem a pele mais escurinha, consegue perceber diferentes cores de luz na sua pele.”

Enfim, eu desmoronei.

Eu não tenho vontade de ir na aula, não tenho vontade de conversar com as pessoas, eu quero ficar em casa chorando. Eu me encontro triste, comecei terapia, e a psicóloga só conseguiu dizer que eu era racista comigo mesma e que eu estava no curso errado, porque a universidade não vai mudar por mim.

E mais uma vez essa semana mostraram como o mundo é estranho, primeiro ironia lidando com o assunto sério que são vagas com definição de gênero.

(Imagem: Reprodução/Facebook)

Claro que ninguém achou isso idiota, só “uma piada”, claro que quando eu falei que é desnecessário, que eu não gostei, quando eu falo tudo que eu acho desse mundo branco/elitista/reaça, surge um moço pra dizer “Relaxa e Goza”, ai o cara da frase, me manda “Calar a boca.” e sim, o outro me zoa falando “faz print” e pra finalizar uma menina branca diz ” Stephanie, calma, eu sempre leio seus posts e tento entender seu ponto de vista, mas não tem um pouco de vitimismo de sua parte tbm?… Não me xinga, não me chame de “branca” e que eu não sei pelo q vc passa, eu já sofri MUITO preconceito tbm, mas de outras formas….Enfim, se quiser podemos conversar, mas pra ja, vamos com calma que ninguém está te atacando!”

Isso que eu estou passando é o que acontece quando uma mulher NEGRA E FEMINISTA, entra na universidade, num curso elitizado. Eu conquistei esse espaço eu não posso abandonar uma coisa que as pessoas como eu não tem acesso. Arquitetura e Urbanismo e pra gente como eu, não só pra ficarem falando em palestras como objeto de estudo, não só pros alunos usarem nós como temas de iniciação cientifica, Arquitetura e Urbanismo é pra ser cursada por gente como eu, Arquitetura e Urbanismo tem que chegar nas pessoas como eu, tem que atingir, tem que mudar a vida delas.

Pode ser Universidade pública ou privada elas devem conscientizar alunos, que tragam o Movimento Negro e o Movimento Feminista pra dentro de seus campus. Porque desde quando passamos a ter alunos medíocres e não formadores de opinião dentro dos jovens de 20 e poucos anos? Desde quando a Universidade se tornou um local de oprimir e não de lutar?

Enquanto tiver aluno bolsista passando fome pra fazer faculdade. Não me calarão.

Enquanto tiver aluno sem ter onde dormir pra fazer faculdade. Não me calarão.

Enquanto nos mulheres estivermos ganhando menos que homens. Não me calarão.

Enquanto nos mulheres estivermos sujeitas a agressão e estupros. Não me calarão.

Enquanto o meu canteiro de obras for mais negro que minha sala de aula. Não me calarão.

Enquanto o Brasil não superar os quase 400 anos de escravidão. Não me calarão.

Enquanto eu for a única mulher, negra e bolsista da Pontifícia Universidade Católica no curso de Arquitetura e Urbanismo do meu ano que tem mais de 200 alunos. Não me calarão.

Racismo no Ponto Frio do Plaza-Niterói: O dia da Mulher de uma Negra que luta por seus direitos.


por marcos romão

thayna-frioThayná Trindade, jovem mulher negra de 25 anos, mãe de um bebê com poucos meses de idade, foi discriminada racialmente no dia 26.02, por um vendedor da Loja Ponto Frio, no Shopping Plaza de Niterói.

Procurou o gerente da loja e não o achou. Solidariedade de outros funcionários com sua dor e sofrimento também não encontrou. Um passante que assistira a situação racista que vivia, ofereceu ajuda à Thayná, moradora do Rio que passeava em Niterói.

Como não conhecia bem a cidade, a pessoa que se prontificara a ser testemunha, a acompanhou até a 76ª delegacia de polícia e como tinha que voltar ao trabalho, deixou seus dados pessoais e endereço para o registro de ocorrências.

Na delegacia a encaminharam para a DEAM(delegacia das Mulheres), onde conforme nos relatou foi muito bem atendida, pois assim que começou a contar o que acontecera, todas as suas forças minaram e desabou em choro ao lembrar a humilhação que passara  e por não ter recebido nenhum socorro de qualquer funcionário da loja Ponto Frio, presente na hora a agressão. “Alguns ainda riram, relatou”.

Mesmo na boca do carnaval, Thayná não fez por menos, procurou os órgãos competentes e amigos do Movimento Negro que se prestaram à ajudá-la. E botou a boca no trombone, pois como dizia  a cada um, “isto não pode ficar por isso mesmo. Tá todo dia acontecendo e as pessoas discriminadas preferem deixar para lá”.

O processo está andando e a delegacia já intimou a gerência da Ponto Frio a apresentar o nome do suspeito para acareação.

Ao monitorar as redes sociais, o setor de comunicação da Ponto Frio de São Paulo soube do caso e entrou em contato com ela, para que tivesse uma reunião que aconteceu hoje, sábado, 8 de março, o Dia Internacional da Mulher, quando a gerência da região de Niterói e São Gonçalo iria lhe dar conhecimento das providências, que estavam sendo tomadas contra o funcionário, para quem Thayná Trindade pede a demissão.

Nesta reunião com o gerente regional a qual compareceram além do advogado de Thayná, Dr Bruno Alves, representantes de jovens ativistas negras do Rio e a equipe da Ceppir-Niterói, também estiveram presentes pessoas da cidade que vieram demonstrar sua solidariedade contra o racismo.

Para desagrado do grupo, a gerência não estava preparada para receber Thayná e sua comitiva solidária, pois foram atendidos em pé no meio da loja, por falta de uma sala privada. O gerente também não fora informado por São Paulo, que a presença de Thayná era para  ouvir pessoalmente de um representante da Ponto frio local, sobre as providências que estavam sendo tomadas pela empresa em relação ao caso, conforme havia sido combinado por telefone, com a assessoria de comunicação em São Paulo. Equivocadamente o gerente regional pedira, que ela fizesse um relato à mão do que ocorrera para que depois de encaminhada ao setor jurídico, a Ponto Frio pudesse dar uma resposta.

Depois de uma pequena discussão, as dúvidas foram sanadas e Thayná deu um prazo até sexta-feira, 14.03, para que a Ponto Frio lhe desse respostas às suas demandas independente do processo judicial, que em resumo são:

Apuração interna dos fatos.

Nome e medidas tomadas contra o autor do racismo.

Informação sobre treinamento de funcionários e que medidas serão tomadas para que casos humilhantes como o que aconteceu com ela não se repitam e além do fato.

Treinamento especial para os outros funcionários que não lhe prestaram socorro, apesar de terem sido testemunhas da agressão racista que sofreu.

Ficou também acordado com a gerência regional um encontro a ser realizado em outro ambiente, em que será apresentado e discutido com a Ceppir-Niterói, advogados e ativistas contra o racismo um plano para que a loja do Plaza da Ponto Frio tenha mais funcionários negros, e que em todas as lojas seja feito um treinamento especial para que não ocorram caos como estes, e caso ocorram, tenham um plano de atendimento imediato à vitima de racismo.

No meio da reunião também compareceu o administrador do Shopping Plaza Niterói, com quem os representantes da Coordenação de Igualdade Racial de Niterói, juntos com ativistas negros da cidade, aproveitaram para marcar uma reunião, para tratar dos casos de racismo no Shopping, que não são levados às delegacias e para se pensar conjuntamente, em como se incentivar para que mais negros trabalhem nas lojas do Plaza-Niterói, além preparação de treinamentos para que todos os funcionários do Shopping saibam como tratar os clientes de pele negra.SAM_3266

Chegou-se a ter um momento de descontração geral, quando os presentes puderam constatar, o rebuliço causado entre os seguranças, com a presença daquele grupo compacto de mulheres negras, acompanhadas de alguns homens também de pele negra, a caminharem pelo Shopping, pois caso fossem acusados de estarem fazendo um rolezinho, iria custar-lhes 10 mil reais por cabeça.

O caso em matéria publicada no Globo:

“Na última quarta-feira, um passeio pelo Plaza Shopping, em Niterói, terminou de maneira frustrada para a vendedora Thayná Trindade, de 25 anos. A jovem conta que passava em frente à loja Ponto Frio, no 1º piso do centro comercial, quando um dos funcionários começou a fazer comentários preconceituosos sobre seu cabelo.

De acordo com Thayná, o homem, que se identificou apenas como Tito, apontou para ela e disse “tinha que ser! patrocínio da Assolan!”, referindo-se ao seu cabelo estilo black power. Ele teria ainda feito um gesto, passando o dedo sobre as costas das mãos, em menção a cor de pele de Thayná.

Depois dos comentários, a jovem conta que outros funcionários riram da situação. Ela procurou a gerência da loja, mas sem sucesso. Uma testemunha foi com ela até a Delegacia de Atendimento à Mulher de Niterói, onde o caso foi registrado como “injúria por preconceito”. O caso também foi encaminhado para Coordenadoria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da cidade.

Questionada sobre o que teria levado o homem a fazer os comentários preconceitusos, Thayná não tem dúvidas.

– Racismo, o que mais seria? Eu saio por aí rindo de alguém que use um cabelo longo, liso, até as costas? Não né? Faltam ainda debates sérios sobre racismo aqui no Brasil. O povo está acostumado a fechar os olhos para tudo, essa história de um ‘povo miscigenado e feliz’ é mentira! Racismo velado, é isso que acontece aqui. Basta comparar as políticas públicas que acontecem nos Estados Unidos e o que é feito aqui – denuncia a jovem.”

Leia mais: http://extra.globo.com/noticias/rio/jovem-acusa-funcionario-do-ponto-frio-de-racismo-11752208.html#ixzz2vPTzVwYc