A invisibilidade da “voz” negra na crise brasileira.


marcha negra de 1988

marcha negra de 1988

por Marcos Romão

Fecham hospitais?

A maioria atingida é a população negra.

Fecham escolas?

A maioria atingida são as escolas de maioria negra.

Fecham as fábricas e empresas?

A primeira parte atingida nas demissões é a parte negra da classe trabalhadora.

Tem protestos?

O que se vê nas fotos é a população negra sindicalizada, estudantil, marginalizada e sem receber salários e tratamento de saúde adequados, levando bombas de gás e balas de borracha e de aço.

E quem nos representa a nós populações negras nestes protestos? Quem aparece na imprensa defendendo a luta negra em todas as frentes?
Quem é que fala para a sociedade em nosso nome, e explica  que “questões de segurança” para nós, são questões de acessos à saúde, educação e principalmente aos meios de comunicação, para dizermos que as soluções de segurança apresentadas tem um perspectiva branca, colonial e opressora, que mantém toda a população negra sob um regime de insegurança, em que o terror de estado representados por suas polícias, recai diretamente sobre os bairros de maioria de população negra? Quem é que fala por nós negras e negros?

De negras e negros ninguém.

Apesar de nós negras e negros, estarmos em todas as frentes de luta contra os males causados por más políticas, que levaram o estado â falência econômica, moral e ética, as negras e os negros que lá estão no meio do burburinho, não tem onde assinar o “ponto negro” de presença. Estamos invisíveis e guetizados de representatividade até nos movimentos sociais.

Por cegueira ou oportunismo dos brancos e muita omissão nossa, viramos apenas azeitonas pretas nos pastéis da lideranças do movimentos sociais, que se promovem e se elegem com os votos de nossos mortos. Sim porque preto morto é bom e dá voto tanto para a direita quanto para a esquerda, mesmo que defendam interesses diferentes e não os coloco no mesmo saco.

Está na hora também de falarmos enquanto coletividade negra para as lideranças dos movimentos sociais que estamos aqui, sabemos o que queremos e que nos respeitem.

Cansei de ouvir relatos, de negras e negros que protestam nas ruas, que cada vez que vão para as ruas, aparecem logo ongs e “comandos” partidarizados brancos ou pretos, querendo assumir a direção da ação, botando suas bandeiras nas mãos e botons nos peitos dos negros e negras. além de quererem dar lições e determinar quem fala ao microfone.

Estou cansado de ouvir negras e negras que protestam e que tem que implorar espaço para que as famílias negras que tiveram seus filhos assassinados, possam falar por si mesmas nos palcos dedicados às lutas pelos direitos humanos.

Exigimos respeito, compadres!

Amarildo sumiu?

Cláudia Silva Ferreira foi executada através de tiro e arrastamento pelas ruas puxada por um camburão?

Roberto Silva de Souza, de 16 anos, Wilton Esteves Domingos Júnior, de 20 anos, Carlos Eduardo Silva de Souza, de 16 anos, Wesley Castro Rodrigues, de 25 anos e Cleiton Correa de Souza, 18 anos, foram executados pela PM com 111 tiros?

A sociedade brasileira e mundo se chocaram e se indignaram com estas mortes, que representam apenas a ponta do iceberg de um genocídio da população negra e principalmente de  jovens, que terá repercussão nos futuro dos índices demográficos da população negra brasileira, pois quem cuidará nas velhice das mães e pais que ficaram órfãos de seus filhos?

Mas quem falou nestas tragédias em nome de nós, as negras e  os negros do Rio de Janeiro?

Ninguém. Nenhuma negra ou negro falou em nosso nome, que tenha tido repercussão estadual,  nacional e internacional  e, que demonstrassem que nós podemos falar por nós mesmos.

Não é que nós negras e negros não estejamos protestando, não me entendam mal. Saiba quando abrimos a boca

Grupos e coletivos negros foram na Rocinha apoiar a família de Amarildo.

Grupos e coletivos negros e a velha guarda negra,subiram o morro da Congonhas em solidariedade à família de Cláudia da Silva Ferreira.

Com algumas e alguns militantes negras e negros da velha guarda, centenas de jovens de coletivos negros do Hip Hop, do samba e das artes negras, encheram as ruas de Madureira e também foram ao Palácio Guanabara protestar contra o morticínio.

Manifestação de protesto no Palácio Guanabara contra a execução de 5 jovens negros em Costa Barros-foto Jose Andrade

Manifestação de protesto no Palácio Guanabara contra a execução de 5 jovens negros em Costa Barros-foto Jose Andrade

Mas o que aparece na imprensa?

O que aparece são setores de partidos e Ongs brancas nacionais e internacionais, que prestam sua solidariedade para a população negra, mas que vão além do que lhes diz respeito e literalmente abusam ao falar por nós, pois ainda não estamos presos!

Não nos consultam até porque ou não nos acham, ou não nos dão importância, ou por que acham que estamos órfãos de representatividade, ou que  nós mesmos nos fazemos de bobos e nos permitimos ser massa de manobra. Inocentes prá lá de inuteis.

A iniciativa do Conselho de Defesa do Negro, Cedine, em conversar diretamente com o “Chefe de Estado” do RJ, na última segunda-feira, 21 de dezembro,  é ainda consultiva, vamos tateando e nos afirmando para nos fazermos respeitados tanto pelo governo, como também pelo movimento social, que pensa que está na casa do Pai João. Saiba mais

O Conselho de Defesa do Negro do Estado do Rio de Janeiro-Cedine- ao fazer 15 anos de existência, só terá visibilidade e força própria e independente se a coletividade negra lhe der sustentação, assim como também se os organismos de representação, formados por negros e negras no governo, tomarem consciência que estão ai para darem apoio à coletividade negra e não para calá-las por interesses partidários.

Uma ação coletiva só acontecerá quando cada um tiver consciência do seu papel e agir de forma democrática, transparente, sinergética e compartilhada para barrar o racismo e estancar o sangramento de nosso povo negro.

 

O assassino na sala de jantar. A situação degradante da PM Brasileira


por Jose Ricardo D´Almeida

Os PMs, sendo ouvidos pelos deputados no novo BEP Foto: reprodução

Os PMs, sendo ouvidos pelos deputados no novo BEP Foto: reprodução

A situação da polícia militar no Brasil é tão degradante e desesperadora que além de nos aterrorizar, ela nos envergonha como cidadãos.
E não só a nós, mas também, a seus familiares e amigos que vivem constrangidos sob essa mácula de uma polícia assassina de pretos e pobres.
Sabemos que existem muitos policiais também mortos covardemente como fazem seus colegas de farda.
Como também sabemos que uma possível maioria de policiais vivem sob a opressão de uma minoria violenta e corrupta que se mantém ativa sob o terror que promovem junto aos seus.
Não é humanamente possível que esses policiais assassinos retornem para suas familias e comunidades sob aplauso com essas mortes de inocentes que promovem.
Não e possível que possam levar uma vida civil sem contaminar seu ambiente social com sua loucura e seu racismo.
Entretanto, esse conflito entre loucura e sanidade que ajuda a explicar esse comportamento assassino é instrumental do poder que o tolera e promove, já que os governantes pouco ou nada fazem para mudar esse cenário.
Por outro lado, atentemos que os políticos que aplaudem e estimulam essa praticas tem sido eleitos com os votos das comunidades que sofrem mais diretamente com esse horror.
Essa é a eficácia do racismo e da violência que ele legítima, as próprias vítimas provém seus algozes.
Isso precisa mudar, essa festa dos horrores da PM precisa acabar.
Só depende de nós deixarmos de ser tolerantes com a violência e o racismo.
‪#‎nospornos‬

#somostodosxuxa no dia Nacional da Consciência Negra e de Zumbi dos Palmares: a Globo e a consciência do poder branco:


foto ripada por José Ricardo de Almeida

foto ripada por José Ricardo de Almeida

por marcos romão– rede rádio mamaterramamapress

A Globo e seu sistema,  desde a sua instalação no Brasil, tem declaradamente, um projeto ideológico de análise da questão racial brasileira.

Seus mentores intelectuais interpretam o mundo, como aquele mundo de 1930, em que acreditava-se numa tal “mistura de sangue” como a solução para o racismo no Brasil e no mundo.

Em 1930 esta visão de que no “sangue” estaria o caráter e, com sua mistura formaria-se o “homem novo”, era até progressista e revolucionária de certa forma, em relação às idéias eugênicas européias  que predominavam na época, que afirmavam que a “mistura de sangue” degenerava o homem e vis a vis a humanidade.

As duas premissas estão erradas pois, sangue não tem “caráter” , nem ideologia e é todo da mesma cor, o vermelho. Pele sim tem cor e faz a diferença e, que diferenças trágicas para os povos não brancos.

Acontece que a Globo com suas novelas, programas infantis e jornais nacionais, é a maior difusora da ideologia, que afirma que a tal “mistura de sangue” acaba com racismo. O sistema Globo é o maior difusor desta ideologia do ” Racismo à Brasileira”,  mas não é seu produtor principal.

A produção desta visão e interpretação racista de uma tal de “mistura de sangue”, como solução para a violência e genocídio cordial do negro brasileiro, está instalada e enlatada nos ministérios de educação e cultura e nas universidades e escolas, dos anos 30 para cá sem exceção.

Todos os ministros da cultura e da educação, até os que se dizem negros, batem no peito diante dos microfones e, dizem que são o fruto deste tal de “sangue misturado” do negro, do índio e do branco. Este é um dos mais poderosos mecanismos, que o “poder branco” de produção do pensamento encontrou, para esconder debaixo do tapete e tornar palatável, o genocídio continuado do negro e do índio brasileiro.

Esta máquina colonial negadora do negro e do índio, está instalada no âmago dos ministérios de produção da “visão ideológica” do Brasil baseada no “Mito das 3 Raças” e, incluo neste rol,  os ministérios de progaganda, informação e comunicação, desde o DIP do Getúlio até a Secom de hoje em dia, uma das maiores financiadoras da máquina de produção de pesadêlos platinados para os povos negros e indígenas brasileiros.

A Globo como boa empresa produtora de sonhos, com o faro para descobrir onde está o dinheiro para os financiamentos de suas máquinas de ilusões, transformou-se assim de 1864** para cá,  com invenção de suas “xuxas”, “pica-paus amarelos” e outras produções esbranquiçadas, no grande departamento de propaganda, informação e formação de cabeças racistas e neoracistas, diluidoras e escamoteadoras do enfrentamento, mais que necessário e, combate ao racismo que destrói a mente de todos nós brasileiros.
Quando ouço cabecinhas inteligentes a dizer,  #somostodosmisturados, #temostodoscumpénacazinha e #somostodoshumanos, só tenho a dizer:

Lavaram legal as nosssas cabeças e #somostodosxuxa

Nota da Redação:

Este artigo-líbelo foi inspirado no atiçamento, das perguntas trazidas pelo meu amigo professor da Rede Pública do Rio de Janeiro Eduardo Papa

** Correção: A data é 1964, ano de instalação da ditadura militar. Acontece que eu estava incorporado entre outros pelo Luiz Gama, na hora em que baixou o artigo. Descobri a falha, graças a um dos Cambonos e Zeladores da Mamapress, Luiz Augusto Gollo.(MR)

Operação Black Machine III da Polícia Civil mata garoto de 12 anos em subúrbio do Rio


Esta é a matéria que acaba de sair nos jornais do Rio de Janeiro

Garoto de 12 anos é um dos mortos em ação da Polícia Civil na Zona Norte do Rio A operação chama-se “Black Machine III”

Pura ironia do genocídio dos jovens negros no Brasil

Veja osvídeos: http://extra.globo.com/casos-de-policia/garoto-de-12-anos-um-dos-mortos-em-acao-da-policia-civil-na-zona-norte-do-rio-16202724.html#ixzz3adz67OXv

Marcos Nunes

Um garoto de 12 anos foi um dos mortos numa operação da Polícia Civil no Morro do Dendê, na Ilha do Governador, Zona Norte do Rio, nesta terça-feira. Gilson Costa era estudante e estava no 6º ano da Escola Municipal Dunshee Abranches, também na Ilha. O menino estava com o carregador Wanderson Jesus Martins, de 22 anos, outro morto na ação. Segundo relatos de testemunhas, ambos iam comprar pão numa padaria quando ouviram tiros. Eles então correram e acabaram sendo baleados. Ainda de acordo com as testemunhas, as balas teriam partido de policiais.

A mãe do estudante se desespera ao saber da morte do filho
A mãe do estudante se desespera ao saber da morte do filho Foto: Rafael Moraes / Extra

Por causa das mortes, moradores fizeram um protesto na Estrada da Cacuia. O comércio fechou as portas. A mãe de um garoto que estuda na mesma sala que Gilson conversou com o EXTRA e disse estar indignada com o que aconteceu durante a operação da Polícia Civil. De acordo com ela, que pediu para não ser identificada por medo de represálias, o garoto era muito tranquilo:

– A mãe dele é empregada doméstica e vive para trabalhar. Está arrasada, coitada. Esse menino era muito bom e calmo.

A mãe de Gilson é amparada
A mãe de Gilson é amparada Foto: Rafael Moraes / Extra

A assessoria de imprensa da Polícia Civil informou que a investigação sobre as mortes ficará a cargo da Divisão de Homicídios (DH). Equipe da especializada já fez uma perícia no local onde os dois foram baleados. Caso haja necessidade, ainda de acordo com a assessoria, uma reprodução simulada do fato poderá ser feita.

Sobre a operação, a assessoria informou que se tratou de uma ação para cumprir mandados de busca e apreensão: “Policiais da Corregedoria Interna da Polícia Civil (COINPOL) realizam, na manhã desta terça-feira, a operação Black Machine III, que visa cumprir mandados de busca e apreensão em várias comunidades da Ilha do Governador. A ação acontece nas comunidades do Dendê, Barbante, Bancários, Boogie Woogie, entre outras localidades da região. Nas duas operações anteriores foram apreendidas cerca de 650 máquinas de jogos de azar. Quatrocentos policiais participam da ação, que tem apoio de agentes da Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE) e de unidades do Departamento Geral de Polícia Especializada (DGPE), além de policiais militares”.

Um morador mostra a foto de Wanderson
Um morador mostra a foto de Wanderson Foto: Rafael Moraes / Extra
A carteira de trabalho do carregador
A carteira de trabalho do carregador Foto: Rafael Moraes / Extra

operação Black Machine III

Sou mãe de filho morto, dona!


por Arísia Barros

Monumento da Mãe Preta Foto: Diadorim Ideias/Isabela Kassow

Monumento da Mãe Preta
Foto: Diadorim Ideias/Isabela Kassow

Ela senta do meu lado, no banco do ponto de ônibus, e pergunta:

– Não é a senhora aquela dona que apareceu no jornal da televisão falando sobre  a morte de negros?

Sim- respondi- sou eu. E fico matutando sobre o poder massificador da mídia.

Ela vai falando sem reticências:- Eu sei do que a senhora fala, mataram meu filho e quase ninguém chorou pela morte dele. Eu que sou a mãe, sei a falta que ele vai fazer na minha vida. Era o meu único filho homem, dona. A polícia diz que ele era traficante, mas, eu disse e continuo dizendo que isso é mentira.

Meu menino era trabalhador, me ajudava com os irmãos e estudava a noite e quando aescola não estava em greve, não perdia uma aula. Precisava ver que letra bonita ele tinha.

Era cheio de sonhos, o meu menino, queria ser advogado. Dizia que ia defender-de graça- todos os pobres da grota que  a gente mora.

Lá na grota falta tudo, Dona, água, muitas vezes  falta comida e quase sempre falta sossego, quando a gente fica sem as coisas para dar os filhos  o juízo queima e dá uma  agonia… Aí quando meu filho me via aperreada arrumava uns bicos, além do trabalho de entregador: limpava chão,  recolhia lixo só para arrumar uns trocados e  me vê feliz.

Toda vizinhança conhecia meu filho e  pode falar a mesma coisa dele.

Era um menino de ouro, o homem da casa, e agora sou mãe de um filho morto.

Mataram meu filho, Dona, porque ele era preto e morava na Grota, até tapa na cara levou e depois  encherem de tiro.

Interrompo o desabafo-relâmpago e pergunto-lhe: Quantos anos tinha seu filho?

– Ia fazer 14 agora em maio- responde.

As lágrimas secas transbordavam no tremor da voz daquela senhora, que  após o desabafo, apressou-se- enxugando as lágrimas com as costas das mãos- para apanhar o  coletivo que a levaria à casa. Deu-me  um ligeiro   aceno e partiu.

A máquina genocida em Alagoas continua moendo os corpos invisíveis dos pretos, preferencialmente nas senzalas urbanas!

O racismo aprisiona. O racismo fere. O racismo mata.

Sou mãe de filho morto, dona!

fonte:Raízes da África

Foi Genocídio, afirma presidente alemão, Gauck, ao falar do Massacre do Povo Armênio em 1915.


stambul / Berlin / Yerevan (AP) –

fonte DPA- Tradução Marcos Romão

Gauck dpa Britta Petersen

Gauck dpa Britta Petersen

Os comentários do presidente Joachim Gauck Federal sobre o “genocídio” contra os armênios desencadeou uma crise diplomática com a Turquia. “O povo turco não esquecerá nem perdoará as declarações do presidente alemão Gauck”, afirmou em nota o Ministério das Relações Exteriores, em Ancara,nesta noite de sexta-feira.

Turquia reagiu fortemente contra as palavras de Gauck: Ele não tem nenhum poder, de culpar a nação turca, por um fato que os fatos históricos e jurídicos desmentem, continua oi comunicado do Ministério do Esxterior. O governo alertou para o “impacto negativo a longo prazo” nas relações turco-alemãs.

Gauck fala de genocídio

Volkermord=genocído

                                                                            Volkermord=genocído

“A Alemanha foi co-responsável pelo massacre dos  Armênios de 100 anos atrás.

Disse Gauck, ao referir-se pela primeira vez clara e literalmente, sobre o massacre de cerca de 1,5 milhão de armênios durante a Primeira Guerra Mundial, como genocídio na quinta-feira à noite.
O chefe de Estado deixou de lado as preocupações sobre o fato de que a classificação dos antigos acontecimentos como o genocídio, poderia prejudicar as relações com a Turquia.

Na sexta-feira, o Parlamento Alemão (Bundestag) ratificou o comentário do presidente.

“O que aconteceu no meio da Primeira Guerra Mundial no Império Otomano, sob os olhos do mundo, foi um genocídio”, disse Norbert Lammert Bundestag Presidente (CDU). Porta-vozes de todos as frações políticas corroboraram esta afirmação. A chanceler Angela Merkel (CDU) e ministro das Relações Exteriores, Frank-Walter Steinmeier (SPD)não deram declarações..

A República Sul Caucasiana da Armenia relembrou juntamente com chefe do Kremlin Vladimir Putin e o presidente francês, François Hollande as atrocidades. Em Jerusalém, Beirute e Istambul, houve cerimônias de solidariedade.

O governo federal apelou no 100º aniversário da expulsão e massacre dos armênios pelo Império Otomano, para a reconcialiação entre a Turquia e Armênia. O porta-voz do governo Steffen Seibert disse que a Alemanha iria apoiar ambos os lados para uma aproximação;

Os massacres no Império Otomano começaram em 24 de abril de 1915, com a prisão de centenas de intelectuais em Constantinopla (Istambul), que pouco depois foram executados.

Na luta contra a Rússia Christã, o governo otomano acusou os armênios em terem feito um acordo com o inimigo.
De acordo com estimativas,  morreram entre de 200 mil 1,5 milhão de pessoas. A Turquia como o Estado sucessor do Império Otomano rejeita o termo genocídio.

Com o debate, a política alemã se despediu da adotada pela prática uual, em evitar o temo “genocídio” para não atrapalhar suas relações com a Turquia. Merkel e Steinmeier seguiram o debate no Bundestag sentados nas bancadas do governo. Ainda antes do recesso de verão.o Parlamento deseja aprovar uma declaração sobres as atrocidades cometidas.

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan expressou suas condolência aos descendentes das vítimas. “Neste dia, que tem um significado especial para os nossos cidadãos armênios, eu penso em todos os armênios otomanos com respeito, que perderam suas vidas nas condições da Primeira Guerra Mundial”, explicou.

“Eu expresso meus pêsames para os seus filhos e netos.” No contexto dos massacres ele falou de “tristes acontecimentos”

Fugitivos armênios na Síria 1915

Fugitivos armênios na Síria 1915 dpa Library of Congress

Para Brasília, só com passaporte


A proposta inconstitucional da redução da maioridade penal vai mostrar quem é mais corrupto: se o povo ou o Congresso

No filme Branco Sai, Preto Fica, em cartaz nos cinemas do Brasil, para alcançar Brasília é preciso passaporte. O elemento de ficção aponta a brutal realidade do apartheid entre cidades-satélites como Ceilândia, onde se passa a história, e o centro do poder, onde a vida de todos os outros é decidida. Aponta para um apartheid entre Brasília e o Brasil. Ao pensar no Congresso Nacional, é como a maioria dos brasileiros se sente: apartada. O Congresso mal iniciou o atual mandato e tem hoje uma das piores avaliações desde a redemocratização do Brasil: segundo o Datafolha, só 9% considera sua atuação ótima ou boa, 50% avalia como ruim ou péssima. É como se houvesse uma cisão entre os representantes do povo e o povo que o elegeu. É como se um não tivesse nada a ver com o outro, como se ninguém soubesse de quem foram os votos que colocaram aqueles caras na Câmara e no Senado, fazendo deles deputados e senadores, é como se no dia da eleição tivéssemos sido clonados por alienígenas que elegeram o Congresso que aí está. É como se a alma corrompida do Brasil estivesse toda lá. E, aqui, o que se chama de povo brasileiro não se reconhecesse nem na corrupção nem no oportunismo nem no cinismo.

Há, porém, uma chance desse sentimento de cisão desaparecer, e o Brasil testemunhar pelo menos um grande momento de comunhão entre o Congresso e o povo. Alma corrompida com alma corrompida. Cinismo com cinismo. A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara pode decidir, nesta semana, pela admissibilidade da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 171/93. Ela reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos. Se isso acontecer, a proposta, que estava engavetada desde o início dos anos 90, terá vencido uma barreira importante e seguirá seu caminho na Câmara e no Senado. Diante do Congresso mais conservador desde a redemocratização, com o crescimento da “bancada da bala”, formada por parlamentares ligados às forças de repressão, há uma possibilidade considerável de que seja aprovada. E então o parlamento e o povo baterão com um só coração. Podre, mas uníssono.

A redução da maioridade penal como medida para diminuir a impunidade e aumentar a segurança é uma fantasia fabricada para encobrir a verdadeira violência. Segundo o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), dos 21 milhões de adolescentes brasileiros, apenas 0,013% cometeu atos contra a vida. Mas são eles que estão sendo assassinados sistematicamente: o Brasil é o segundo país no mundo em número absoluto de homicídios de adolescentes, atrás apenas da Nigéria. Hoje, os homicídios já representam 36,5% das causas de morte por fatores externos de adolescentes no país, enquanto para a população total corresponde a 4,8%. Mais de 33 mil brasileiros de 12 a 18 anos foram assassinados entre 2006 e 2012. Se as condições atuais prevalecerem, afirma o Unicef, até 2019 outros 42 mil serão assassinados no Brasil.

Quem está violando quem? Quem não está protegendo quem? Quem deve ser responsabilizado por não garantir o direito de viver à parte das crianças e dos adolescentes?

Há uma verdade mais dura sobre nós: a da nossa alma corrompida

Ainda assim, mais de 90% dos brasileiros, segundo pesquisa realizada em 2013 pela Confederação Nacional dos Transportes, aprovam que se coloque adolescentes em prisões que violam as leis e os direitos humanos mais básicos, no quarto sistema carcerário mais populoso do mundo, em flagrante colapso e incompetente na garantia de condições para que uma pessoa construa um outro destino que não o do crime. Se aprovada essa violação da Constituição, a segurança não vai aumentar: o que vai aumentar é a violência. E a capacidade da sociedade brasileira de produzir crime disfarçado de legalidade.

Parte da sensação de que há um exército de crianças e adolescentes perversos, prontos para atacar “os cidadãos de bem”, costuma ser atribuída à enorme repercussão de crimes macabros com a participação de menores de idade. Aquilo que é exceção, ao ser amplificado como se fosse a regra, regra se torna. As estatísticas desmentem com clareza esse imaginário, mas o sentimento, reforçado por parte da mídia, seria mais forte do que a razão. Viraria então uma crença sobre a realidade, manipulada por todos aqueles que dela se beneficiam para justificar seus lucros, seus empregos e sua própria violência, esta sim amparada em números bem eloquentes.

Essa é uma parte da verdade, mas não toda. É a parte da verdade benigna para a sociedade brasileira, que só apoiaria a redução da maioridade penal por ser iludida e manipulada pela mídia ou pelos deputados ou pela indústria da segurança. Manipulada por alguém, um outro esperto e diabólico, que a levaria a conclusões erradas para obter benefícios pessoais ou para corporações públicas e privadas. Seria um alento se essa fosse a melhor explicação, porque bastaria o esclarecimento e o tratamento correto dos fatos, para que a sociedade chegasse a uma análise coerente da realidade e à óbvia conclusão de que a redução da maioridade penal só serviria para produzir mais crime contra os mesmos de sempre.

Os mesmos que clamam pela redução da maioridade penal convivem sem espanto com o genocídio da juventude negra e pobre das periferias

Há, porém, uma verdade mais dura sobre nós. É a da nossa alma apodrecida por um tipo de corrupção muito mais brutal do que a revelada pela Operação Lava Jato, com consequências mais terríveis do que aquela apontada com tanta veemência nas ruas. A cada ano, uma parte da juventude brasileira, menor e maior de idade, é massacrada. E a mesma maioria que brada pela redução da maioridade penal não se indigna. Sequer se importa. No Brasil, sete jovens de 15 a 29 anos são mortos a cada duas horas, 82 por dia, 30 mil por ano. Esses mortos têm cor: 77% são negros. Enquanto o assassinato de jovens brancos diminui, o dos jovens negros aumenta,como mostra o Mapa da Violência de 2014.

Há uma parcela crescente da juventude negra, pobre e moradora das periferias que morre antes de chegar à vida adulta. Num país em que a expectativa de vida alcançou os 74,9 anos, essa parcela morre com idade semelhante à de um escravo no século 19. E isso não causa espanto. Ninguém vai para as ruas denunciar esse genocídio, clamar para que ele acabe. São poucos os que se indignam e menos ainda os que tentam impedir esse massacre cotidiano.

Como é que vivemos enquanto eles morrem? Como é que dormimos com os gritos de suas mães? Possivelmente porque naturalizamos a sua morte, o que significa compreender o incompreensível, que dentro de nós acreditamos que o assassinato anual de milhares de jovens negros e pobres é normal. E, se essa é a realidade, a de que somos ainda piores do que os senhores de escravos, o que essa verdade faz de nós?

Acontece a cada dia. E a maioria das mortes nem merece uma menção na imprensa. Quando eu era repórter de polícia e ligava para as delegacias perguntando o que tinha acontecido nas madrugadas, sempre tinha acontecido, mas era visto como um desacontecido. “Não aconteceu nada”, era a invariável resposta dos policiais de plantão. Tinham morrido vários, mas eram da cota (sim, as cotas sempre existiram) dos que podem morrer. Estas seriam as mortes não investigadas, as mortes que não seriam notícia. Crime que merecia investigação e cobertura, já era bem entendido, era de branco e, de preferência, rico, ou pelo menos classe média. Dizia-se, no passado, que a melhor escola do jornalismo era a editoria de polícia. Era, de fato, a melhor escola para compreender em profundidade as engrenagens que movem a sociedade brasileira, porque já na primeira aula se aprendia que a morte de uns é notícia, a de outros é estatística.

Assim como os senhores de escravos internalizaram que os negros eram coisas, ou, conforme o momento histórico, uma categoria inferior na hierarquia das gentes, mais de um século depois da abolição oficial da escravatura, a sociedade brasileira naturalizou que existe uma parte da juventude negra que pode ser morta ao redor dos 20 anos sem que ninguém se espante. Se de fato fôssemos pessoas decentes, não era isso o que deveríamos estar gritando em desespero nas ruas? Mas nos corrompemos, ou nunca conseguimos deixar a condição de corruptos de alma.

Em vez disso, clama-se pela redução da maioridade penal, para colocar aqueles que a sociedade não protege cada vez mais cedo em prisões onde todos sabem o quanto é corriqueira a rotina de torturas e estupros, sem contar a superlotação que faz com que em muitas celas seja preciso alternar os que dormem com os que ficam acordados, porque não há espaço para todos ficarem deitados. Como se já não soubéssemos que as unidades que internam adolescentes infratores, contrariando a lei, são na prática prisões, infernos em miniatura, com todo o tipo de violações dos direitos mais básicos. Alguém, nos dias de hoje, pode alegar desconhecer que é assim? E então, como é possível conviver com isso?

O debate na Comissão de Constituição e Justiça desceu a níveis de cloaca

Em 24 de março, no debate sobre a redução da maioridade penal na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, o deputado “delegado” Éder Mauro (PSD-PA) afirmou, conforme cobertura do portal jurídico Jota no Twitter: “Não podemos aceitar que, assim como o Estado Islâmico, que mata sob a proteção da religião, os menores infratores, bandidos infratores, menores desse país, matam sob a proteção do ECA”. Como uma asneira desse porte não vira escândalo? Comparar a lei que ampara as crianças e os adolescentes com as (des)razões alegada pelo Estado Islâmico para decapitar e queimar pessoas é uma afronta à inteligência, mas a discussão na Câmara sobre um tema tão crucial desce a esse nível de cloaca. A sessão foi encerrada depois de um bate-boca em que foi preciso separar outros dois deputados. E, assim, o Estatuto da Criança e do Adolescente, uma das leis mais admiradas e copiadas no mundo inteiro, mas que infelizmente até hoje não foi totalmente implementada, é colocada na mesma frase que o Estado Islâmico. Colegas me sugeriram que não deveria dar espaço a uma declaração e a um deputado desse calibre, mas ele está lá, eleito, bem pago e vociferando bobagens perigosas no parlamento do país. É preciso levar muito a sério a estupidez com poder, uma lição que já deveríamos ter aprendido.

Os manifestantes de 15 de março, que protestaram contra a corrupção, tiraram selfies com uma das polícias que mais mata no mundo

É verdade que “a carne mais barata do mercado é a carne negra”. É o que descobriu Alan de Souza Lima, de 15 anos, em fevereiro, na favela de Palmeirinha, em Honório Gurgel, subúrbio do Rio. Morreu com o celular na mão, e só por isso deixou de ser apenas estatística para virar narrativa, com nome e sobrenome e uma história nos jornais. Alan estava conversando com mais dois amigos e gravava um vídeo no celular. Acabou documentando a sua agonia, depois de ser baleado pela polícia. Como de hábito, a corporação alegou o famoso “confronto com a polícia”, o argumento padrão com que a PM costuma justificar sua assombrosa letalidade, uma das campeãs do mundo. E de imediato acusaram os três de estarem armados e de resistirem à prisão. Mas Alan morria e gravava. A gravação, que foi para a internet, mostrava que não resistiram. Chauan Jambre Cezário, de 19 anos, foi baleado no peito. Ele vende chá mate na praia e sobreviveu para dizer que nunca usou uma arma. A culpa dos garotos era a de viver numa favela, lugar onde a lei não escrita, mas vigente, autoriza a PM a matar. No vídeo há uma frase que deveria estar ecoando sem parar na nossa cabeça. Quando um dos policiais pergunta aos garotos por que estavam correndo, um deles responde:

– A gente tava brincando, senhor.

A frase deveria ficar ecoando na nossa cabeça até que tivéssemos o respeito próprio de nos levantarmos contra o genocídio cotidiano de parte da juventude do Brasil.

A gente tava brincando, senhor. E então o senhor atirou. Feriu. Matou.

Aqueles que foram para as ruas bradar contra a corrupção tiraramselfies com uma das polícias que mais mata no mundo. Só a Polícia Militar do Estado de São Paulo, governado há mais de 20 anos pelo PSDB, matou, em 2014, uma pessoa a cada dez horas. Se os manifestantes que tiraram selfies com a PM no protesto de 15 de março na Avenida Paulista admiram a corporação pela eficiência, precisamos compreender o que esses brasileiros entendem por corrupção, no sentido mais profundo do conceito.

Numa pesquisa da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), intitulada “Desigualdade Racial e Segurança Pública em São Paulo”, as pesquisadores Jacqueline Sinhoretto, Giane Silvestre e Maria Carolina Schlittler chegaram a conclusões estarrecedoras. Pelo menos 61% das vítimas mortas por policiais são negras. E mais da metade tem menos de 24 anos. Já 79% dos policiais que mataram são brancos. O fator racial é determinante: as ações policiais vitimam três vezes mais negros do que brancos. As mortes são naturalizadas: apenas 1,6% dos autores foram indiciados como responsáveis pelos crimes. É a Polícia Militar a responsável por 95% da letalidade policial no estado de São Paulo.

Em fevereiro, a PM de Salvador executou 12 jovens no bairro de Cabula. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis. Sete. Oito. Nove. Dez. Onze. Doze.

O que o governador da Bahia disse, depois dos corpos tombados no chão pela polícia que comanda? A comparação jamais deve ser esquecida. Depois de parabenizar a PM, Rui Costa (PT-BA) comparou a posição do policial diante de suspeitos a de “um artilheiro em frente ao gol, que tenta decidir, em alguns segundos, como é que ele vai botar a bola dentro do gol, pra fazer o gol”. Rui Costa foi aplaudidíssimo.

O futebol continua dizendo muito sobre o Brasil: botar uma bala no corpo de um negro é o mesmo que fazer gol, diz o governador baiano

É isso. Enfiar uma bala no corpo de jovens negros e pobres das periferias é fazer como a Alemanha no icônico 7X1 contra o Brasil: “botar a bola dentro do gol”. E isso dito não nos tempos de Antônio Carlos Magalhães, o poderoso coronel da Bahia, mas pelo governador do Partido dos Trabalhadores, supostamente de esquerda. O futebol continua dizendo muito sobre o Brasil.

É por isso que, no filme Branco Sai, Preto Fica, quem é negro e pobre precisa de passaporte para entrar em Brasília. O título do filme é a frase berrada pela polícia ao invadir um baile no “Quarentão”, na Ceilândia, na noite de 5 de março de 1986, onde jovens dançavam, depois de passar a semana ensaiando os passos. A PM entrou gritando: “Puta de um lado, Veado do outro. Branco sai, Preto fica”. Quase três décadas depois, Marquim do Tropa e Shockito são atores interpretando em grande parte o seu próprio papel. Marquim para sempre numa cadeira de rodas pelo tiro que levou, Shockito com uma perna mecânica depois de ter perdido a sua pisoteada por um cavalo da polícia. Resultado do Branco Sai, Preto Fica daquela noite. Sem passaporte para fora do massacre porque, na condição de pretos, eles ficaram.

Branco Sai, Preto Fica tem sido descrito como uma mistura especialmente brilhante entre documentário e ficção científica, com nuances de humor. Ganhou o prêmio de melhor filme no Festival de Brasília de 2014 e chegou há pouco aos cinemas do país. Para mim, o filme de Adirley Queirós se iguala, na potência do que diz sobre o Brasil e na forma criativa como diz, às dimensões do já mítico Bye Bye Brasil, de Cacá Diegues. São filmes que falam de Brasis diferentes, em momentos históricos diferentes, e, também por isso, falam do mesmo Brasil.

É do futuro, do ano de 2073, que vem outro personagem, Dimas Cravalanças, cuja máquina do tempo é um contêiner. A Ceilândia do presente lembra, sem necessidade de nenhum esforço de produção, um cenário pós-apocalíptico. Cravalanças tem a missão de encontrar provas para uma ação contra o Estado pelo assassinato da população negra e pobre das periferias. A voz que o orienta do futuro alerta: “Sem provas, não há passado”.

A Comissão da Verdade da Democracia vai investigar os crimes cometidos pelo Estado

Só na ficção para responsabilizar o Estado pelo genocídio cotidiano da juventude pobre e negra? Quase sempre, sim. Mas algo se move na realidade, com pouco apoio da maioria da sociedade e escassa atenção da mídia. No fim de fevereiro, foi instalada na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo a Comissão da Verdade da Democracia “Mães de Maio”. Sua criação é uma enormidade na história do Brasil, um marco. Depois de apurar os crimes da ditadura, uma comissão para investigar os crimes praticados pelo Estado na democracia. Em busca de provas no passado recente para que tenhamos um futuro.

“Mães de Maio”, que empresta o nome à comissão, é um grupo de mulheres que perderam seus filhos entre 12 e 20 de maio de 2006, quando uma onda de violência tomou São Paulo a partir de confrontos da polícia com o crime organizado. Foram 493 mortes neste período, pelo menos 291 delas ligadas ao que se convencionou chamar de “crimes de maio”. Pelo menos quatro pessoas continuam desaparecidas. Edson Rogério, 29 anos, filho de Debora Maria da Silva, líder do “Mães de Maio”, foi executado com cinco tiros. A suspeita é de que os autores do assassinato sejam policiais. Segundo Debora, seu filho gritava antes de ser morto: “Sou trabalhador!”. Seu assassinato segue impune. Edson morreu na mesma rua que, como gari, havia varrido pela manhã.

Nem as centenas de assassinatos de maio de 2006, nem as mortes aqui relatadas ocorridas há pouco, exemplos do genocídio cotidiano, moveram sequer um milésimo da revolta provocada por crimes com a participação de menores em que foram assassinados brancos de classe média ou alta. Seria demais esperar que um assassinato fosse um assassinato, independentemente da cor e da classe social? Menos que isso é aceitar que a vida de uns vale mais do que a de outros, e que essa hierarquia é dada pela cor da pele e pela classe social. Se é assim que você compreende o valor de uma pessoa, diga o que você é diante do espelho. Não para o mundo inteiro, para você mesmo já basta.

Sim, esse Congresso comandado por dois políticos investigados por corrupção é, ressalvando as exceções, que também existem, uma vergonha. Mas minha esperança é que, no que se refere à proposta inconstitucional da redução da maioridade penal, o Congresso seja melhor do que o povo brasileiro. Tenha grandeza histórica pelo menos uma vez e diga não a nossas almas tão corrompidas.

Enquanto isso se desenrola em Brasília, vá ver Branco Sai, Preto Fica. Ao sair do cinema, você saberá que um jovem, quase certamente negro, morreu assassinado no Brasil enquanto você estava lá.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficçãoColuna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos e do romance Uma Duas. Site:descontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter:@brumelianebrum

Brasil reconhece extermínio da juventude negra em audiência na OEA


Nota da Mamapress
O senhor Breno Costa representante interino do Brasil junto à OEA, se excedeu ao dar sua opinião pessoal em uma ressalva, na qual subestima a capacidade da busca de diálogo que os representantes dos jovens negros assassinados pelo Estado Brasileiro, tem tido durante todos este anos, e não sendo ouvidos, recorrem à OEA para finalmente serem ouvidos pelo ESTADO BRASILEIRO.
O senhor Breno, cometeu um ato falho que vemos ser repetido pelas autoridades brasileiras, quando se pronunciam sobre o genocídio do jovem negro brasileiro.
O pronome “NÓS” quando se refere pessoalmente ao Estado Brasileiro, é um “NÓS”, dos brancos no poder que ele subjetivamente representa, e se trai em seu preconceito senhorial, ao jogar para cima dos peticionários, a pecha de criarem um clima belicoso, de uma guerra que o ESTADO BRASILEIRO trava contra a parte negra de seu povo.
Ao Fazê-lo logo depois das palavras contundentes de Hamilton Borges, representante do movimento negro, membro do grupo “Reaja ou Será Morto”, o  senhor Breno, representante do Estado Brasileiro, demonstrou mais uma vez a incapacidade e má vontade de se enfrentar a questão do genocídio do jovem negro de frente. ( vide minuto do vídeo a partir de 18:00 min)
Ao atrasar as palavras do senhor Ronaldo Crispim, representante negro da SEPPIR ( enviado do Brasil especialmente para debater a questão em nome do Estado Brasileiro), o senhor Breno Costa revelou que mesmo dentro do governo do Brasil, quando o assunto é racismo, tanto o respeito ao protocolo de uma audiência como esta, quanto da diplomacia interna entre as representações ministeriais, não são levados em conta. Deixando a muitos que assistiram a audiência, a sensação de que a “cordialidade” do racismo à brasileira é que impera.
Em nome da Mamapress e do Sos Racismo Brasil, reiteramos ao representante do Estado Brasileiro, que nós negros e negras e demais peticionários pela vida dos jovens das periferias, civis ou policiais, não somos os inimigos do Brasil, apesar de assim termos sido tratados pelas suas palavras fora de hora. Marcos Romão ( vide minuto do vídeo a partir de 26:00 min.)

– Relatora da OEA diz que redução da maioridade penal é retrocesso.

aud1Nesta sexta-feira, 20/03, em audiência temática na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA) sobre assassinato de jovens negros no Brasil, representantes do Governo brasileiro admitiram o cenário de extermínio no país.

O Secretário de Políticas de Ações Afirmativas da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Ronaldo Crispim Sena Barros, assumiu que “o Governo Federal avalia que parte da elevada taxa de homicídio dos jovens negros deve ser atribuída ao racismo”. O país registra homicídio de 30 mil jovens por ano, segundo dados do Mapa da Violência 2014, dessas mortes quase 80% das vítimas eram negras.

Embora tenha reconhecido o extermínio, durante a audiência, realizada à pedido da Anced/Seção DCI – Associação Nacional dos Centros de Defesa dos Direitos da Criança e Adolescente, o Estado se calou quando foram apresentadas graves denúncias de violações de direitos humanos relacionadas ao sistema socioeducativo, como os casos nos estados do Maranhão, Ceará e Pernambuco, que envolvem desde adolescentes feridos com armas de fogo dentro das unidades, incluindo maus tratos e torturas.

Outro ponto abordado na audiência foi o desarquivamento da PEC 171/93, que prevê a redução da maioridade penal, medida claramente contrária aos direitos humanos das crianças e adolescentes. A relatora para criança e adolescente da OEA, Rosa María Ortiz, ressaltou a necessidade do governo brasileiro em adotar medidas efetivas para evitar esse grande retrocesso. “Em lugar de retroceder, é necessário progredir na proteção dos direitos, sobretudo dos jovens, sobretudo dos jovens negros”, afirmou.

Além do encarceramento em massa de jovens negros no sistema socioeducativo, as organizações destacaram a necessidade de aprovação do PL 4471 que extingue o auto de resistência, principal argumento da polícia brasileira para assassinar jovens negros, principalmente nas periferias. Rosa-Marie Belle Antoine, relatora para os direitos das populações afrodescendentes, lembrou das recomendações já feitas pela ONU sobre a Polícia Militar e a institucionalização do racismo no Brasil e questionou quais as estratégias práticas que o Estado apresenta para reduzir as violações. A relatora, disse ainda para o Governo Brasileiro que “reconhecer o problema é uma coisa, evitar é outra”.

As organizações pediram à CIDH que reforce as recomendações do fim da polícia militar, pelo fim dos auto de resistência e contra a redução da maioridade penal.

Participaram da audiência representantes da Anced/Seção DCI, Justiça Global e Campanha Reaja ou Será Morta/ Quilombo X.

 

Assista também o vídeo apresentado no início da audiência com o depoimento de mães que tiveram seus filhos vitimados pela violência do Estado:

Tirem as crianças da rua. Grita uma mãe desesperada, diante do jovem negro baleado ao brincar na porta de casa


por marcos romão com reprodução de matéria da Guadalupe Newa.

As redes sociais e a imprensa alternativa nos tem trazido relatos de uma guerra que acontece a poucos quilômetros da Zona Sul do Rio de Janeiro. GUADALUPE NEWS conseguiu um vídeo exclusivo do momento  em que Chauan Jambre Cezário, 19 anos, foi baleado no peito, quando brincava com seu amigos e teve seu coleguinha Alan Souza de Lima, 15 anos, ajudante de pedreiro, assassinado pelas balas de policiais, que depois forjaram a apreensão de armas e drogas que estariam nas mãos dos meninos que brincavam de filmagem com o celular de Chauan. Além do celular que gravou o momento candente em que os jovens foram baleados, os jovens nã portavam nada. Estavam de mão vazias.

São imagens e áudios chocantes em que um jovem negro pede a Deus para perdoar os seus pecados diante da morte. Vizinhos e crianças gritam, mães desesperadas perguntam por seus filhos. Não é nenhuma cena dos guetos nazistas da II Guerra Mundial. É Rio de Janeiro pouco depois do carnaval.

Adriana Baptista, jornalista da Mídia&Movimento, parceira da Mamapress, é vizinha do acontecimento e nos manda um relato urgente da notícia que recebe via redes sociais. Redes Sociais com Brasileiros em Berlim, Estocolmo, Londres, Bruxelas, Maré, Alemão, Palmeirinha e algures que não domem mais. O Estado Brasileiro está em guerra contra o nosso jovem negro brasileiro. A ONU e o mundo precisam saber. É preciso parar este sangramento!
Mãe, como nós de um jovem negro, Adriana nos envia esta mensagem:

“Meus amigos, minhas amigas se é que é possível um bom dia. ..Hoje eu acordei com uma bala no peito! E foi a polícia que deu!
Esses jovens brincavam na porta de casa, numa comunidade aqui perto, quando a polícia chegou atirando. Reparem que eles estava filmando suas brincadeiras e um dos jovens acabou produzindo provas sobre mais uma ação militar covarde e despreparada. Morreu o jovem Alan e um outro sobreviveu e ainda foi preso!
Até quando?
Gente foi feito pra viver!
Justiça seja feita!
Valeu Marcos Romao e Sandra Coleman pelo alerta. Isso aconteceu do meu lado e não havia me ativado aos fatos.”

fonte: Guadalupe News

23 de fevereiro de 2015

Vídeo exclusivo do momento dos disparos da PM que matou um e feriu outro na Palmeirinha

Na madrugada do dia 21 de outubro, policiais do 9º BPM estiveram na comunidade da Palmeirinha, em Guadalupe, dois jovens foram baleados, Alan Souza de Lima, 15 anos, não resistiu e Chauan Jambre Cezário, 19 anos, foi baleado no peito e passa bem.
Os policiais alegam que os jovens foram alvejados em confronto e eram suspeitos de participar do tráfico na comunidade. Por outro lado, familiares, amigos e testemunhas afirmam a inocência, Alan era ajudante de pedreiro e Chauan vendia mate na praia, a comunidade estava sem energia elétrica, estavam conversando no portão de uma casa com outros dois amigos, quando foram alvejados pelos policiais. Confira mais detalhes em: http://goo.gl/x1i7OY.

A Guadalupe News conseguiu com exclusividade um vídeo registrado pelo celular do Alan, que mostra os jovens conversando, logo após os disparos efetuados pelos policiais:

Chauan foi levado sob custódia para o Hospital Carlos Chagas, em Marechal Hermes, ficou algemado na maca e não foi operado, um médico teria dito que não seria feito de imediato pois não havia tanta urgência, a bala está alojada no peito mas não há risco de vida, nesta segunda, 23 de fevereiro, por volta das 6h da manhã o jovem foi solto, a família está em busca de um hospital para realizar a operação. Chauan responderá as acusações da PM em liberdade. Familiares e amigos criaram uma página numa rede social em defesa do jovem, veja em: https://www.facebook.com/ChauanJambreINOCENTEChauan
Muitos nos questionaram sobre uma parte da imagem estar embaçada, estamos fazendo uma cobertura exclusiva sobre o caso, devido a presença de menores no vídeo, tivemos que usar este recurso, quanto ao que tinham nas mãos, fizemos uma análise. Visualize abaixo:

Análise do que os jovens tinham nas mãos (Foto: Guadalupe News)

Análise do que os jovens tinham nas mãos (Foto: Guadalupe News)