‘Abaixa a bola, pobre, negra’, afirma mulher durante discussão em shopping center no Rio de Janeiro


Nota e correção da Mamapress

ao escutar o vídeo com um som mais aprimorado, pudemos ter mais clareza, qual foi a frase discriminatória completa, confirmem.(MR)

POR RAPHAEL KAPA

reblogado de O Globo

RIO – “Quem é você minha filha? Abaixa a bola, pobre. Abaixa a bola, pobre”. Filmado em uma creperia de um shopping na Barra da Tijuca, uma discussão entre duas mulheres está ganhando repercussão nas redes sociais. Principalmente porque, durante o bate boca, uma delas tenta se impor chamando a outra de pobre, dizendo que mora num triplex, que trabalha há 40 anos no Aeroporto Internacional e que pode dar emprego aos funcionários da loja onde tudo ocorreu.

O GLOBO entrou em contato com um dos clientes presentes no local. Ele contou não saber o que começou a discussão, mas disse que a mulher com tom ameaçador parecia estar, a todo momento, tentando provocar uma briga com a outra. “Vai encarar?”, disse ela diversas vezes. Para assistir ao vídeo, clique aqui.

Já outro frequentador afirma que a discussão começou quando a mulher que tentou se impor perguntou se incomodaria colocar o carrinho de bebê, onde estava sua filha, entre duas mesas. O garçom teria afirmado que aquele local era para passagem mas que existia uma mesa vaga, do lado de fora, que teria espaço para ela se acomodar com sua filha. Ao começar a reclamar sobre a situação, a outra cliente, que viria a ouvir insultos, teria comentado em sua mesa que a mulher era louca. Ao escutar o comentário, a discussão foi iniciada.

Nenhuma das duas envolvidas foi identificada até o momento. Nas imagens, percebe-se que a outra cliente, sentada a sua mesa, evita brigar, limitando-se a rebater o tom ameaçador com palavras. “Tenho medo de maluco”, diz. Ao ouvir isso, a mulher de pé passa a gritar e gesticular energicamente. “E eu tenho medo de pobre”, responde ela. “Quem é você minha filha? Abaixa a bola pobre. Abaixa a bola pobre. Vai chamar (o gerente)? Vai ousar? Você pode dar emprego para ela (para a atendente que foi requisitada para chamar o gerente)? Eu posso! Você pode?”.

Em sua mesa e tentando comer, a mulher que sofria ataques verbais bateu palmas e, ironicamente, deu “parabéns”.

A resposta, novamente, veio imediata:

“Palmas para você também, ridícula, pobre. Eu não sou rica, sou consciente, o que você deveria ser, como pobre. Ridícula. Ridícula. Ridícula. Porque eu sou classe dominante e fico revoltada. Você é uma idiota”.

Segundo Ana Letícia, proprietária do Crepelocks, estabelecimento onde ocorreu a discussão, o caso foi atípico e a mulher encontrava-se transtornada.

– Eu não estava mais no local mas minha gerente me ligou para pedir autorização para chamar a segurança. Segundo relatos dos funcionários, a cliente não consumiu nenhuma comida, somente bebida. Perguntei se tinha ocorrido algum problema com o serviço ou algum desentendimento com outro cliente mas parece que ela ficou transtornada por um motivo bobo e apresentava estar fora de si.

Ao final do vídeo, uma outra mulher tenta retirá-la do local o que foi negado com um “não tem problema, eu sou psicóloga também” para o riso de quem estava presente.

Quando reparou que estava sendo filmada, o alvo das ofensas mudou. O grupo que filmava passou a ser alvo de insultos homofóbicos.

A história, porém, continuou por mais tempo, de acordo com Ana Letícia. Mais insultos e ofensas foram proferidas até os seguranças do shopping chegarem para tentar, com muita resistência, retirá-la da loja. Mesmo assim, repetidas vezes a cliente voltou com a justificativa que não tinha pago a conta e era, mais vezes, requisitada a se retirar.

Do Original: http://oglobo.globo.com/sociedade/abaixa-bola-pobre-afirma-mulher-durante-discussao-em-shopping-center-no-rio-13218736#ixzz37BL9wTTL

Racismo contra aluna negra e bolsista na faculdade de arquitetura da PUC-Campinas


Única mulher, negra e bolsista da PUC-Campinas no curso de Arquitetura e Urbanismo entre 200 alunos, narra sina de perseguições e ofensas racistas dentro da universidade de Campinas

Prezada Sthefanie, nossa solidariedade do Sos-Racismo aqui do Rio de Janeiro.
Você está no caminho certo em tornar público o seu caso, que demonstra o poder do racismo institucional.
Este caminho longo de sofrimento que você passou e passa deve ser reverberado para todos os cantos do país e do mundo.
Muita gente já passou por isto calada, e até hoje paga psicanalistas, para descobrir onde errou para ser massacrada sistematicamente em sua humanidade por racistas dentro da universidade.
Alunos, professores, administradores e direção desta faculdade são agentes e cúmplices deste crime de racismo continuado e inafiançável contra você e toda pessoa negra do Brasil.
Você deve continuar nesta faculdade, pois é a sua vontade e direito.
Este lugar é seu e temos que fazer piquetes presenciais e virtuais para lhe garantir a sua integridade pessoal. O corpo e a alma das pessoas são intocáveis. Além dos ataques racistas você está sendo vítima de tortura psicológica e mental!#marcosromaoreflexoes

Única mulher, negra e bolsista da PUC-Campinas no curso de Arquitetura e Urbanismo entre 200 alunos narra sina de perseguições e ofensas racistas dentro da universidade

Por Stephanie Ribeiro

fonte Blogueiras Negras

Não é de hoje que discutimos o papel do negro nas universidades, erram os que pensam que o assunto é cotas, mas sim a forma como as universidades se preparam pra receber alunos negros, porque independente da que estamos falando, quando o assunto são as grandes universidades brasileiras, públicas ou particulares o acesso de negros é restrito, umas nem aderir a cotas raciais tiveram coragem de fazer, porém não assumem também que são um ambiente branco e elitizado. Por trás de toda uma película acadêmica de local “universal” se esconde o racismo da Casa de Engenho, e parece que ninguém tem muita vontade de quebrar essas barreiras. Mas se engana quem pensa que não vamos resistir, invadir e ocupar esses espaços que são nossos também. Se o Brasil existe, ele deve muito a nós, ao nosso trabalho não valorizado, a nossa luta que a mídia não mostra, e a nossa inteligência também, que não é aproveitada porque nos segregam e excluem.  Porém o problema só aumenta quando se é MULHER e NEGRA, a luta é duas vezes maior e as agressões tem mais do que uma motivação.

Eu sou estudante e bolsista de Arquitetura e Urbanismo, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, aonde eu sofro perseguição por conta das minhas ideias, defesas e focos. Não achei que seria assim, não acreditei que além de elitizado e branco, o ambiente também seria conformado e moralista, alguns assuntos só podem ser ditos baixinho e com determinados alunos, porque outros vivem numa bolha de ignorância que é praticamente impossível de ser estourada e o racismo é evidente, não é à toa que negros só são maioria na faxina e não na sala de aula.

O que acontece é que eu represento algo provocativo naquele local, e junto com as ideias que eu tenho a situação é maior, mesmo que eu só queira ir lá e ser uma Arquiteta e Urbanista, eu incomodo, e isso começou a dar indícios quando o meu Facebook começou a se tornar assunto, eu não podia postar nada que ia contra a “moral e bons costumes” que virava assunto de corredor, até ai eu aceitei, o problema é que isso começou a resultar em agressões ainda mais quando eu expus que era feminista, ao ponto de pixarem meu armário da faculdade com a frase “Não ligamos para as bostas que você posta no Facebook”, sendo que essa rede social tem ferramentas que permitem não só excluir como bloquear usuários que te incomodam. Ou seja, é muito fácil não me ter nessa rede, mas parece que não é essa opção que resolveram tomar, preferiram mensagens anônimas e vário in box como os a seguir:

(Imagem: Reprodução/Facebook)

(Imagem: Reprodução/Facebook)

(Imagem: Reprodução/Facebook)

(Imagem: Reprodução/Facebook)

E assim foi 2012, quando procurei a secretária pra falar sobre meu armário disseram que não podiam fazer nada e que as câmeras não gravavam e que eu deveria dar nomes se quisesse que algo fosse feito, com o fim do ano nas férias eu ainda recebia algumas mensagens, me perguntando o porquê de não ir nas festas, o que me fez começar a ter receio de frequentar tais festas, porque se essas pessoas me zoavam no corredor, me mandavam esses in box, e pixavam meu armário, o que não poderiam fazer comigo se eu estivesse numa festa sozinha? Então não frequento e não pretendo ir nas festas da minha faculdade.

Início de 2013, eu estava no segundo ano da faculdade, e comecei a fazer alguns trabalhos em grupos, duplas e por ai vai, o que aconteceu é que no primeiro semestre uma pessoa que dizia ser minha amiga, no meio de um trabalho disse: “Não quero ser racista, mas já perceberam como negros normalmente fedem mais que brancos, tem um cheiro mais forte.” Ei fiquei em choque, as pessoas concordaram com aquilo, e eu ali, pra completar essa pessoa disse “Mas você Ste é diferente, é cheirosa.”

Eu entendi a gravidade dessa frase só depois de um tempo e foi agressivo pra mim, as pessoas que diziam ser minhas “amigas” não entenderam a minha reação, nem a minha indignação, sendo que no segundo semestre em outro trabalho, em determinado momento alguém disse “somos todos iguais” e a mesma pessoa da frase acima esfregou a mão da própria pele e disse “menos a Stephanie.” Olha isso foi visto como brincadeira de mau gosto pelos demais, por mim foi visto como Racismo, e sim isso é racismo.

O que posso deixar claro é que dessas pessoas, eu resolvi me afastar foi um processo complicado, porque era gente que eu via como amigo, mas acho que não posso ser próxima de quem acha que é piada racismo. Além do mais, ouve uma briga na faculdade, onde um namorado de uma aluna, invadiu o local e agrediu um aluno. Diante desse fato, um dos seguranças de PUC, se manifestou com a seguinte frase “Quem devia ter apanhado era essa menina.” O fato é que independente do porquê da briga, independente de quem fez algo ou não, agressão é intolerável a agressão a mulher num país com números como o nosso, e isso não devia nem ter sido cogitado por quem devia zelar pela nossa segurança.  Quando eu manifestei minha opinião sobre a fala do tal segurança. Meu Facebook foi novamente invadido pelos alunos da Faculdade de Arquitetura da Pontifícia Universidade Católica, dessa vez defendendo agressão a mulher. Sim, eles defenderam que dependendo da justificativa uma mulher poderia ser agredida.

Meu post foi esse:

(Imagem: Reprodução/Facebook)

Que resultaram nos seguintes comentários dos alunos, destacados em preto:

SR 8

SR 6SR 7

Esses foram os comentários dos alunos diante o machismo, da fala do segurança, eles não só colocaram que havia um contexto, como deram a entender que bater em mulher é uma “solução” viável as vezes. Para piorar novamente invadiram meu facebook, mesmo alguns que já estava bloqueados, usavam o facebook de amigos para manifestar ódio, inclusive me ameaçar de agressão caso não ficasse quieta:

(Imagem: Reprodução/Facebook)

Enfim, essa história passou e eu vi até pessoas que se diziam minhas “amigas” ficando do lado desses determinados alunos que estavam não só defendendo agressão como me ameaçando.

Finalmente 2013 acabou, eu comecei a dar indícios de tristeza e ficar muito deprimida. Às vezes eu preferia me trancar na minha casa e chorar a ir a aula, ninguém entendia e nem eu.

Começou 2014, agora estou no terceiro ano, me afastei dos “amigos” citados, me afastei de várias coisas que me faziam mal, sim, cada vez mais sozinha. Me sentindo estranha naquele lugar, eu escuto que sou a maior racista comigo mesma, que deveria trocar de curso, pois levo tudo pro social, então deveria fazer ciências sociais. E assim fui levando esse começo de semestre, até que um professor numa determinada aula disse:

“Até você que tem a pele mais escurinha, consegue perceber diferentes cores de luz na sua pele.”

Enfim, eu desmoronei.

Eu não tenho vontade de ir na aula, não tenho vontade de conversar com as pessoas, eu quero ficar em casa chorando. Eu me encontro triste, comecei terapia, e a psicóloga só conseguiu dizer que eu era racista comigo mesma e que eu estava no curso errado, porque a universidade não vai mudar por mim.

E mais uma vez essa semana mostraram como o mundo é estranho, primeiro ironia lidando com o assunto sério que são vagas com definição de gênero.

(Imagem: Reprodução/Facebook)

Claro que ninguém achou isso idiota, só “uma piada”, claro que quando eu falei que é desnecessário, que eu não gostei, quando eu falo tudo que eu acho desse mundo branco/elitista/reaça, surge um moço pra dizer “Relaxa e Goza”, ai o cara da frase, me manda “Calar a boca.” e sim, o outro me zoa falando “faz print” e pra finalizar uma menina branca diz ” Stephanie, calma, eu sempre leio seus posts e tento entender seu ponto de vista, mas não tem um pouco de vitimismo de sua parte tbm?… Não me xinga, não me chame de “branca” e que eu não sei pelo q vc passa, eu já sofri MUITO preconceito tbm, mas de outras formas….Enfim, se quiser podemos conversar, mas pra ja, vamos com calma que ninguém está te atacando!”

Isso que eu estou passando é o que acontece quando uma mulher NEGRA E FEMINISTA, entra na universidade, num curso elitizado. Eu conquistei esse espaço eu não posso abandonar uma coisa que as pessoas como eu não tem acesso. Arquitetura e Urbanismo e pra gente como eu, não só pra ficarem falando em palestras como objeto de estudo, não só pros alunos usarem nós como temas de iniciação cientifica, Arquitetura e Urbanismo é pra ser cursada por gente como eu, Arquitetura e Urbanismo tem que chegar nas pessoas como eu, tem que atingir, tem que mudar a vida delas.

Pode ser Universidade pública ou privada elas devem conscientizar alunos, que tragam o Movimento Negro e o Movimento Feminista pra dentro de seus campus. Porque desde quando passamos a ter alunos medíocres e não formadores de opinião dentro dos jovens de 20 e poucos anos? Desde quando a Universidade se tornou um local de oprimir e não de lutar?

Enquanto tiver aluno bolsista passando fome pra fazer faculdade. Não me calarão.

Enquanto tiver aluno sem ter onde dormir pra fazer faculdade. Não me calarão.

Enquanto nos mulheres estivermos ganhando menos que homens. Não me calarão.

Enquanto nos mulheres estivermos sujeitas a agressão e estupros. Não me calarão.

Enquanto o meu canteiro de obras for mais negro que minha sala de aula. Não me calarão.

Enquanto o Brasil não superar os quase 400 anos de escravidão. Não me calarão.

Enquanto eu for a única mulher, negra e bolsista da Pontifícia Universidade Católica no curso de Arquitetura e Urbanismo do meu ano que tem mais de 200 alunos. Não me calarão.

Dione Mariano o homem negro morador de rua é o réu da vez. Como no caso Vinícius Romão, primeiro prendem depois investigam.


por marcos romão e sandra martins

Design feito Gá

Design feito Gá

Inocente ou culpado, o procedimento da polícia para prender o homem negro, Dione Mariano, foi igual ao do Vinícius Romão, primeiro prendem depois investigam.
O que está acontecendo com este rapaz, está sendo acompanhado? Está sendo torturado e mal tratado? Está sendo acompanhado pela defensoria pública?
Acho melhor que para ajudar à polícia do Meyer e Todos os Santos, todos nós negros do Rio de Janeiro façamos uma fila em frente à delegacia. Quem sabe assim eles acham um milhão de negros culpados por viverem nesta cidade do Apartheid?

“E o erro continua. A policia “investigou” e encontrou este suspeito – usuário de cocaína e morador de rua – que levou os agentes de segurança publica até seus objetos de uso pessoal.
Lá, os policiais “acharam” uma arma dentro de um tênis. O rapaz assumido usuário de drogas afirmou que a arma não era dele e que os policiais a plantaram.
Estes apresentaram o rapaz como o bandido-facínora-ladrão negro como o réu.
Só que um detalhe: sem reconhecimento da vítima e sem investigações apuradas sobre possíveis denúncias de pequenos furtos praticadas por ele na região, mas sem que houvesse registros infracionais sobre o rapaz.
A policia aposta que não haverá comoção por ser “mais um negro sem ‘pedigree’. Assim todos viveriam felizes para o todo sempre.
Fim”

Racismo nas altas esferas, quem tem medo de um negro que sabe? Professor Kabengele Munanga quebra o silêncio acadêmico.


por marcos romão

Professor Kabengele Mulanga

Professor Kabengele Munanga

O Professor  Kabengele Munanga foi preterido na seleção dos 59 estudiosos que foram beneficiados pela bolsa do programa “Professor Visitante Nacional Sênior ” da Capes.

Kabengele havia aceito a sondagem da Professora Georgina Gonçalves dos Santos, para atuar na jovem Universidade do Recôncavo Bahiano -UFRB-, através de uma posssível bolsa de pesquisador visitante nacional sênior da CAPES. Kabengele foi preterido, foi desmeritado na alta esfera de decisão, na cúpula do poder que decide no Brasil, quem foi, é e será beneficiado por bolsas para aprender ou distribuir seus conhecimentos.

Segundo palavras do Professor José Jorge de Carvalho, Coordenador do INCTI, em seu documento em apoio à Kabengele para reivindicar a bolsa:

“Com toda sua clareza do intelectual militante e engajado e sua posição político-ideológica a respeito da inclusão dos negros e indígenas no ensino superior, docência e pesquisa, talvez Kabengele fosse o único estudioso negro ou um dos pouquíssimos pesquisadores negros a concorrer a essa bolsa. Por coincidência, esse único negro foi o menos qualificado, por comparação. Estranha e triste coincidência!”

Kabengele quebra o silêncio em uma área extremamente delicada que é área de financiamento da produção intelectual do conhecimento no Brasil. Poucos ou nenhum negro ou negra brasileira, pode se arriscar ou se arriscou na área acadêmica, à questionar o possível racismo que nós da Mamapress, consideramos estar entranhado no meio acadêmico brasileiro, racismo que se tornaria visível, diante de qualquer pesquisa séria feita por qualquer aprendiz de Ciências Sociais. O endocolonialismo ou sub-colonialismo interno consegue no Brasil ser mais branco e europeu do que os europeus desejaram na década de 30, e hoje, graças as deuses africanos, esqueceram e mudaram.

Ao contrário da falácia que o negro precisa estudar para ter o seu lugar na sociedade, nós da Mamapress afirmamos, quanto mais o negro souber, em qualquer área, mais ele será uma ameaça e mais ele será discriminado.

Tomamos a liberdade de publicar a Carta Aberta do Professor Kabengele Munanga:

CARTA ABERTA DO PROFESSOR KABENGELE MUNANGA

Permitam-me, primeiramente, quebrar meu silêncio, começando por desejar-lhes um feliz 2014, repleto de sucessos e realizações.
Agradeço a solidariedade e o pronto recurso feito por vocês junto à CAPES através da Reitoria da UFRB diante da omissão do meu nome entre os 59 estudiosos beneficiados pela bolsa do programa “Professor Visitante Nacional Sênior (cfr. Edital 28 de 2013)”.
Geralmente, levo tempo para me manifestar em situações aparentemente urgentes como essa que acabamos de viver. Isto é uma das minhas características que, acredito, se não for uma qualidade, é um defeito incorrigível, pois faz parte da minha pequena natureza humana. Creio, agora, que já tive bastante tempo para refletir sobre o acontecido.
Relembrando como todo começou, estava eu na véspera da minha aposentadoria compulsória na USP que aconteceu em novembro de 2012, quando a colega e amiga Professora Georgina Gonçalves dos Santos, me sondou sobre a possibilidade de ser convidado da UFRB através da bolsa de pesquisador visitante nacional sênior da CAPES. Sem hesitação, aceitei imediatamente e desde então comecei a recusar outros convites que me foram dirigidos depois. Tinha e tenho a convicção de que poderia ser mais útil para uma nova universidade como UFRB do que para as universidades mais velhas que possuem um quadro de pesquisadores e docentes mais estruturado.
Elaborei então uma proposta do programa de atividades a serem desenvolvidas, de acordo com as instruções contidas no Edital 28 do PVNS, proposta esta que foi enriquecida e consolidada pelas sugestões dos colegas Osmundo Pinho e Georgina Gonçalves dos Santos e em última instância pela própria Pró-Reitora de Pesquisa e Pós-Graduação da UFRB, a Professora Ana Cristina Firmino Soares.
Acreditávamos que essa proposta era exequível, de acordo com a demanda do CAHL da UFRB e da minha experiência acumulada durante 43 anos como pesquisador e docente. Uma experiência começada em 1969, na então Universidade Nacional do Zaire, onde fui o primeiro antropólogo formado, passando pela Universidade Católica de Louvain (Bélgica) e pelo Museu real da África Central em Tervuren (Bruxelas), Universidade Cândido Mendes, Rio de Janeiro (visitante), Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Universidade de São Paulo (1980-2012), Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, Moçambique (visitante) e Universidade de Montreal, Canadá, como Professor associado convidado para orientação de teses (2005-2010). Sem deixar de lado os cargos de direção na USP, como Diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia (1983-1989), Vice-Diretor do Museu de Arte Contemporânea (2000-2004), Diretor do Centro de Estudos Africanos (2006-2010) e participação em diversos conselhos, como o Conselho Universitário da USP etc. Orientei dezenas de teses e dissertações, entre as quais algumas premiadas como a tese de José Luís Cabaço, que ganhou Prêmio da ANPOCS, e recentemente a tese de Pedro Jaime Coelho Jr., que ganhou prêmio de melhor tese em Ciências Humanas, destaque USP 2013.
Modéstia à parte, sem “me achar” e sem exibição, pensava que com toda essa experiência poderia servir para uma nova universidade em construção como a UFRB. Lamento que o sonho não deu certo!
Pelo parecer da Comissão Julgadora (Edital 28- 2013), nosso programa foi deferido e recomendado à bolsa com certo elogio, classificando-me na Categoria I dos pesquisadores do CNPQ. Foi, se entendi bem, na última instância que fomos preteridos, em comparação com os demais deferidos. Em outros termos, tenhamos a coragem de aceitá-lo, nosso programa e meu CV foram considerados inferiores para sermos incluídos entre os 59 bolsistas aprovados.
Por que então tantas lamentações, pois não somos os primeiros, nem os últimos a serem preteridos? Os recursos perpetrados junto à CAPES por outras universidades mostram que outros e outras colegas não contemplado/as pela bolsa não são menos qualificado/as que Kabengele. No entanto, vale a pena, apesar da consciência, divagar um pouco sobre os critérios de comparação, pois foi por ela que fomos eliminados. Pois bem, é possível comparar propostas diferentes sem antes estabelecer entre elas um denominador comum? Qual foi esse denominador? As regras do jogo de comparação não parecem claramente definidas; a subjetividade e a objetividade dos julgadores parecem se misturar. Claro, não há nenhum demérito aos colegas cujos projetos foram beneficiados pelas 59 bolsas atribuídas. Os especialistas da Física Quântica não têm dúvida sobre a subjetividade do observador pesquisador no momento em que ele começa a interpretar cientificamente os fenômenos da natureza por ele obsevados.
Na esteira do raciocínio do Professor José Jorge de Carvalho, Coordenador do INCTI, em seu documento em apoio a mim para reivindicar a bolsa, com toda sua clareza do intelectual militante e engajado e sua posição políico-ideológica a respeito da inclusão dos negros e indígenas no ensino superior, docência e pesquisa, talvez eu fosse o único estudioso negro ou um dos pouquíssimos pesquisadores negros a concorrer a essa bolsa. Por coincidência, esse único negro foi o menos qualificado, por comparação. Estranha e triste coincidência!
Minha consideração especulativa poderia ser enquadrada no chamado discurso da vitimização, o que pouco me importa, pois já estamos acostumados. No entanto, os que detêm o poder de nomear os outros, ou seja, de nos nomear, são os mesmos que nos julgam, pois fazem parte do binômio saber/poder muito bem caracterizada na visão foucaultiana (Ver Michel Foucault). Neste sentido, os argumentos aparentemente científicos escondem uma relação de poder e autoridade difícil de transformar. Por isso, eu nutri certo sentimento de pessimismo que me faz acreditar que o recurso da UFRB e o apoio dos colegas não surtirão efeito de reversão da decisão da CAPES, no sentido de dar outra bolsa além das 59 concedidas. Ou seja, o recurso da UFRB e o documento de apoio do Professor José Jorge de Carvalho, coordenador do INCTI, assinado por demais colegas têm menos probabilidade de ser atendida positivamente.
Por isso, sem esperar o fechamento esperado, sinto-me no momento na simples obrigação moral de agradecer o recurso da UFRB e o apoio de vários colegas encabeçado pelo amigo e companheiro de luta, o Professor José Jorge de Carvalho. Estarei sempre disposto a colaborar com a UFRB, através de convite para participar dos seminários, proferir conferência e palestras, participar de comissões julgadoras de mestrado etc., como já o venho fazendo.
Meu muito obrigado,
Kabengele Munanga

Histórico da situação explicada em carta de solidariedade do historiador Jacques Depelchin:

O Professor Kabengele Munanga FOI EXCLUÍDO de uma seleção para professor visitante da UFRB( Universidade Federal do Recôncavo da Bahia).
Por que tanto medo do Professor Kabengele Munanga? Por que tanta raiva contra alguém que contribuiu tanto na partilha dos seus saberes? Para as pessoas pouco informadas, o Professor Kabengele Munanga se destacou na sua carreira acadêmica na USP.

Em fins de 2013 se aposentou e aceitou o convite para lecionar como Prof. Visitante Sênior na jovem universidade federal do Recôncavo da Bahia(UFRB) Baiano -UFRB. Para isso, se candidatou para uma bolsa da CAPES, Edital 28 de 2013, na Categoria de PVNS Apesar de um parecer favorável e elogioso recomendando a outorga da Bolsa pleiteada, a sua candidatura foi rejeitada, levando a um protesto de vários acadêmicos, incluindo professores da UFRB. Numa carta aberta, agradecendo este ato de solidariedade, o Professor Kabengele Munanga explica historiando o processo em que se deu o que lhe aconteceu (veja anexo em baixo)
Aqui, gostaria de levantar uma pergunta: alguém teria medo do Professor Kabengele Munanga e de onde viria? A necessidade de refletir sobre isso é urgente, não só para os Afro-Brasileiros, mas também para todos os Brasileiros que entendem e agem como membros duma só humanidade, pois o contexto global em que vivemos hoje, exige, com urgência, essa afirmação.
No seu livro Pele Negra, mascaras brancas, Frantz Fanon discute esta questão do medo (pp. 125-6, Edufba, Salvador 2008), focando sobre aspetos bem conhecidos pelos sobreviventes dos legados acumulados da escravidão atlântica e da colonização. Infelizmente, o próprio Fanon não entra na discussão sobre como ele superou o medo.
O medo dos adversários do Prof Kabengele Munanga é o produto, indireto, da serenidade e da franqueza com que ele tem abordado assuntos incomodantes da sociedade Brasileira, em volta das raízes do racismo, das sugestões sobre como solucionar as injustiças cumulativas herdadas dessas violências contra as partes discriminadas da humanidade.
Esse medo, quer da vitima, quer de quem tem medo da resistência das vitimas, nunca é de bom conselho. O medo dos gerentes dum sistema prisional tem uma explicação, mas, como é sobretudo visceral, a explicação a partir da razão não se aplica. Porque, como sempre aconteceu em outros casos históricos, os administradores do sistema não são preparados para enfrentar quem deveria se submeter à suas ordens, mas que, em vez, se levanta e argumenta a partir da sua consciência e com eloqüência e sabedoria uma saída honrosa para todos. Para os gerentes dum sistema injusto, as vitimas tem que se calar. Ir na contra mão dessa ordem informal é geralmente caracterizado de “impertinência” e, por isso, tem que ser punido.
Os administradores/gerentes dum legado histórico profundamente injusto tem dificuldades em parabenizar o Professor Kabengele Munanga decidir, no fim da sua careira, na pratica, dar uma lição de como corrigir as conseqüências, no nível do ensino superior, duma injustiça sistêmica contra as descendentes e os descendentes da escravidão.
Não é difícil imaginar o que se passa na mente dos adversários do Professor Kabengele Munanga. Na peça de teatro Et les chiens se taisaient, Aimé Césaire ilustrou como o rebelde escravo enfrentou o dono, no próprio quarto dele. O que aconteceu ao Professor Kabengele Munanga pode ser lido como a continuação do comportamento típico dos dominantes quando enfrentam um caso de rebeldia contra injustiça: o rebelde tem que ser punido, na medida do possível, duma maneira exemplar (leia severamente) para que outros rebeldes potenciais não sejam encorajados em imitá-lo. Historicamente, os exemplos individuais e coletivos abundam: Kimpa Vita, Zumbi, Geronimo, Abdias Nascimento, Toussaint-l’Ouverture, Cuba, Haiti, Patrice Lumumba, Amilcar Cabral, Salvador Allende, Cheikh Anta Diop, Nelson Mandela, Samora Machel, Thomas Sankara, Steve Biko, Chris Hani, Aristide, para não mencionar mais.
O Professor Kabengele Munanga, de origem Congolesa, nação de Kimpa Vita, Patrice Lumumba e outras e outros, na mente dos seus adversários, por definição, não tem direito à palavra, muito menos quando a sua fala/escrita acaba dando uma lição contundente de como superar legados históricos seculares, no Nordeste Brasileiro, para que qualquer Brasileir@ possa pensar, sonhar, e conseguir ser uma estrela, um craque intelectual.
Desde já, agradecemos a coragem do Professor Kabengele Munanga por ter continuado trilhando os caminhos das benzedeiras e dos benzedeiros sobre os quais o grande autor Ghaneense, Ayi Kwei Armah escreveu com tanta eloquencia no seu livro de ficção The Healers.

Em solidariedade,
Jacques Depelchin
Historiador
Salvador-Bahia

Prefeita de Traipu Maria da Conceição Tavares, manda parar Banda na festa Quilombola para o “Senhor dos Pobres”.


por Manuel Oliveira, Traipu, Alagoas, Brasil.
Presidente da Associação Clube Jovem Senhor dos Pobres de Traipu

Manuel Oliveira

Manuel Oliveira

Falta de vergonha na cara a Prefeita de Traipu Maria da Conceição Tavares, chamar a Guarda e a Policia Militar que deveria esta dando proteção ao cidadão para mandar parar uma Banda que estava animando as Festividades de Senhor dos Pobres, alegando politicagem no Quilombo Mumbaça.
É bom lembrar que não é a Primeira vez que esta Prefeita faz isto não contra o Quilombo Mumbaça, desrespeitando os artigos 15 e 16 da Constituição Federal, já que se trata de Cultura e, as festividades de Senhor dos Pobres que não tem nada haver com a política local.
Só que ela se esquece que Mumbaça além de ser Quilombo tem o Estatuto da Igualdade Racial que defende nossos Direitos, além da Convenção 169.
O sargento que comandava ao mandar parar a Banda, chegou inicialmente ainda grosseiro com o Líder da Instituição Local e Coordenador das Comunidades Negras e Coordenador da CONAQ NACIONAL em Alagoas, que alegava que teria comunicado das Festividades ao ministério Público e à Polícia Civil e Militar além do Juiz e, eles nem queriam ouvir.
Após um boa conversa mandaram ao mesmo buscar os documentos que comprovasse as informação e a lei que ampara a cultura Brasileira dos Quilombolas que é uma festa com tradição de Anos.
Além do vexame e a vergonha que o líder teve de enfrentar, eles ainda chegaram mandar ele se calar. É claro que alegava que o Terreno que é da Igreja era da Prefeitura e ai fica a pergunta o Terreno é da Igreja ou da Prefeitura como eles falaram?
É claro que o Terreno é da Igreja, mas o chefe da Guarda, senhor Humberto insistiu para que a polícia mandasse a Banda parar e aí após verem a documentação ele mandaram continuar.
Além do constrangimento com o líder quilombola e é claro o desrespeito a população e aos visitantes que vêm todo ano ao Quilombo Mumbaça, é claro que como sempre, que quem manda na Polícia nem é a Justiça é mas sim a Prefeita, porque se chama pra guarnição ninguém vem, mas para servir a politicagem sim.
Nesse país de Mãe preta e Pai João a injustiça continua e quem tem o direito termina usurpado, só que o Sargento vendo o constrangimento causado ao líder e sua comunidade, falou que uma reunião tem que ser feita para poder ver os Direitos dos Quilombolas melhores e vocês que agora veem essa matéria compartilhe e peçam para os Quilombos serem respeitados, pois a Eescravidão acabou e a prefeita de Traipu ainda acha que somos escravos.

Igreja de Traipu, Alagoas

Igreja de Traipu, Alagoas

Em Londres, Joaquim Barbosa falou para a Afropress: “A discriminação racial e o racismo são as questões mais sérias a serem discutidas no Brasil.


Alberto Castro, correspondente de Afropress em Londres

Londres – O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Joaquim Barbosa, disse nesta quinta-feira (29/01), em palestra no Kings College, de Londres, que a discriminação racial e o racismo são as questões mais sériaa a serem discutidas no Brasil e que enfrentar o problema é condição fundamental “se o país quiser ser respeitado como um player importante entre as nações do mundo”.

”É preciso fazer algo para incluir negros no mainstream da sociedade”, advertiu frisando que “o Brasil nunca tratou a sério esse assunto”. Na sua ótica, ”a única medida séria nos últimos 10 anos foram as cotas, mas elas não resolvem o problema”, observou salientando que o maior problema para a solução desse problema reside na educação.

A resposta do ministro aconteceu ao responder a uma pergunta colocada por Alberto Castro, correspondente de Afropress em Londres, que acompanhou a palestra realizada para uma platéia interessada que lotou os 250 assentos do auditório Edmond J. Safra, do King’s College, da Universidade de Londres.

”A grande maioria dos brasileiros que sofrem as consequências de uma educação paupérrima é a dos negros que vivem nas favelas, que e têm os piores trabalhos, os piores salários, cerca de 50% da média das pessoas brancas”, disse em tom de denúncia. ”Todos os indicadores mostram que esse é um dos problemas-chave na política brasileira”, informou opinando que ”essa é uma questão geradora de controvérsias sobre a qual é urgente um debate público sério”.

Veja, na íntegra, e com exclusividade o relato do correspondente de Afropress e suas impressões sobre a palestra do ministro – o primeiro negro a assumir a chefia do Poder Judiciário no Brasil:

Os 250 assentos do auditório Edmond J. Safra, do King’s College, Universidade de Londres, foram ontem (29/01) insuficientes para acomodar o grande número de estudantes, professores, brazilianistas e também alguns imigrantes brasileiros que se apresentaram para assistir à palestra proferida por Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), o que fez com que parte dos interessados se contentassem em seguir o evento por viodelink numa sala para onde foram encaminhados.

Na sua intervenção, de cerca de uma hora e meia, Barbosa fez uma avaliação histórica do STF apontando algumas das maiores mudanças sofridas pela instituição na década passada, dando exemplo de alguns dos casos mais emblemáticos ali tratados.

Todavia, desde o início, foi notório que a audiência, que escutou atentamente o palestrante, estava muito mais interessada em ouvir da atual estrela do Judiciário e da política brasileira, tido por muitos como herói devido ao seu papel no já histórico caso ”mensalão”, as suas opiniões sobre assuntos mais comuns que afetam a sociedade brasileira.

Candidatura

Eis algumas das questões mais pertinentes, a começar a que se tornou recorrente: “vai o senhor candidatar-se a presidência do Brasil?”

”Nunca fui um político e nem nunca fui filiado a um partido, nem mesmo na universidade. Nunca tive militância política”. Começou por responder fazendo uma breve pausa para concluir: “Não. Eu realmente quero ser um homem livre de novo, ter vida privada e menos exposição do que tenho agora”.

A uma pergunta sobre o fato de ser um liberal e progressista mas, paradoxalmente, ser adorado pelos conservadores replicou: ”Sou uma pessoa muito cautelosa. Faço o que penso ser certo. Tenho décadas de experiência na academia e nos tribunais. Pesquiso e aplico as regras da lei e esse é o meu guia para fazer o que tem que ser feito. Se as pessoas liberais ou conservadoras gostam, ok. Se não gostam, não me importa”, enfatizou.

Prisões

Questionado sobre o estado lamentável em que se encontram as prisões brasileiras e sobre os mais recentes casos trágicos no Maranhão disse: “As prisões são um problema muito sério no Brasil. No ano passado eu fiz visitas a presídios. O que posso dizer é que horror é a palavra mais adequada para qualificar as prisões brasileiras”. Para o magistrado, a questão a ser colocada seria: ”porque essa situação é tão absurda?” A resposta está, no seu entender, no fato de as prisões no Brasil serem primeiramente um assunto de responsabilidade estadual.

”O Governo federal joga um papel menor ao ajudar os Estados a construir prisões com uma mínima dignidade para os prisioneiros”, esclareceu para logo depois criticar o desinteresse dos políticos: ”Eles não se importam com esse problema, porque ele não lhes dá retorno político, votos. Essa é a razão porque as prisões estão nesse estado”, afirmou, lembrando que ”o problema não é novo, acontece em todo o Brasil e não apenas as prisões do Maranhão se parecem com um inferno”, esclareceu. Lembrou ainda que em alguns Estados as prisões são controladas por duas das maiores facções criminosas brasileiras como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho.”Esta é a realidade”, admitiu.

Fundamentalismo religioso

Questionado sobre a perigosa ligação entre política e religião no Brasil e sobre se o país caminha em retrocesso para um fundamentalismo religioso, disse: ”Não diria que caminhamos para uma espécie de fundamentalismo religioso embora haja um número crescente de deputados sendo eleitos devido a sua filiação religiosa. Por enquanto não me parece que os grupos religiosos constituam uma ameaça séria. Mas esse é um assunto igualmente sério”, advertiu.

Mas foi talvez o tema colocado pela Afropress que mereceu do presidente do STJ uma maior profundidade, frontalidade e, dir-se-ia mesmo, denúncias nas suas análises. Provavelmente por estar perante uma audiência internacional de estudantes, acadêmicos e jornalistas, e também diaspórica brasileira, audiência quase totalmente branca. Uma questão intrigantemente quase ignorada pelos correspondentes da mídia brasileira que cobriram o evento.

Tratou-se da pergunta sobre avaliação que ele fazia do racismo e da discriminação racial na sociedade brasileira e sobre as medidas até agora tomadas pelos governos brasileiros para atacar o problema. Barbosa começou por dizer que, para ele, esse era o tópico mais sério a ser tratado  no Brasil. O país tem, na sua opinião, uma tarefa muito séria na resolução desse problema ”se quiser ser respeitado como um player importante”, alertou, assinalando que a população negra (pretos e pardos) constitue de 50 a 51% do total da população brasileira, a maioria, segundo dados oficiais.

Inclusão de negros

”É preciso fazer algo para incluir negros no mainstream da sociedade”, advertiu frisando que “o Brasil nunca tratou a sério esse assunto”. Na sua ótica, ”a única medida séria nos últimos 10 anos foram as cotas, mas elas não resolvem o problema”, observou salientando que o maior problema para a solução desse problema reside na educação.

”A grande maioria dos brasileiros que sofrem as consequências de uma educação paupérrima é a dos negros que vivem nas favelas, que e têm os piores trabalhos, os piores salários, cerca de 50% da média das pessoas brancas”, disse em tom de denúncia. ”Todos os indicadores mostram que esse é um dos problemas-chave na política brasileira”, informou opinando que ”essa é uma questão controversial que urge  um debate público sério”.

Frontalmente culpa a elite branca pela inexistência desse debate na sociedade brasileira ao afirmar categóricamente que  ”os brancos brasileiros não gostam de debater o assunto. Acham-no enfadonho. Para eles não é ok discuti-lo”, lamentou.

”Quando uma pessoa sensível chega pela primeira vez ao Brasil, a primeira coisa que nota é a ausência de negros em trabalhos de prestígio, de boa posição em empresas, na TV. Valha-me Deus!, a TV brasileira parece ser da Dinamarca”, brincou seriamente arrancando sorrisos dos presentes. ”Esse é um assunto  muito sério”, voltou a salientar concluindo que o mesmo merece ser tratado urgentemente ”porque quanto mais pessoas estiverem incluídas na economia melhor o país se torna”.

Solidariedade

Momento de humanidade e solidariedade do magistrado tido como implacável no combate contra a corrupção e contra as injustiças sociais aconteceu quando ouviu atentamente o testemunho de um compatriota a quem foi recusado visto de refugiado no Reino Unido por ter sofrido ameaças de assassinato no Brasil. ”A ameaça de assassinato não me surpreende. Recentemente  tivemos o assassinato de uma juíza no Rio de Janeiro. Temos alguns casos de assassinatos de jornalistas, não nas grandes cidades, mas em pequenas cidades e nas áreas periféricas do Brasil. O Brasil tem uma cultura de violência”, enfatizou lembrando que o país teve séculos de escravidão. O  presidente do STF aproveitou o tema para voltar a tocar na questão do racismo no Brasil recordando que ”as vítimas mais frequentes da violência são os jovens negros”.

”Lamento muito o que sucedeu consigo mas você é um afortunado por ter conseguido sair. Muitas pessoas em situação similar não têm essa escolha. Continuam sendo subjugadas, ameaçadas e eu diria que muitos casos de ameaça não são do conhecimento público. Se alguma coisa acontece na periferia do Brasil nesse sentido você não toma conhecimento”, lembrou. ”Espero que você seja capaz de voltar ao Brasil e, por enquanto, ir para um outro Estado. Saia das pressões locais e estabeleça-se num outro Estado. Desejo sorte na sua luta”, disse humano e solidário.

A palestra terminou com fortes aplausos e Joaquim Barbosa, qual estrela de cinema, mal teve tempo de respirar e viu-se logo rodeado de um punhado de gente cumprimentando-o e pedindo um momento de foto com ele para a posteridade. ”Tirei a foto com o meu herói”, disse-me no final um jovem branco radiante.

Afropress 8 anos de mídia étnica, parceira da Rede Radio Mamaterra.

Joaquim Barbosa sobre o racismo: diplomacia brasileira “é muito discriminatória”


Em nossa linha de conversar sobre o racismo no Brasil sem subterfúgios nem desculpas esfarrapadas, a Mamapress reitera a sua posição de o racismo no Brasil vai aparecer e se evidenciar cada dia mais. Vai aparecer não pelo racismo de agora ser maior ou menor do que antes. Mas sim porque os discriminados não estão mais engolindo as desculpas esfarrapadas dos racistas que sempre alegam que têm um pé na cozinha quando querem esconder os crimes racistas que cometem.
Já temos toda uma geração de empregadas domésticas que exigem seus direitos trabalhistas. Temos toda uma geração de trabalhadores negros que, que já não mais aceitam que seus companheiros brancos ganhem mais e sejam sempre promovidos na frente deles. Já temos toda uma geração de intelectuais formados lá fora que podem sustentar de igual para igual com os intelectuais brancos as discussões e reivindicações trazidas pelos 53% da população não branca. Infelizmente maioria destes intelectuais formados em todas as disciplinas, foram formados lá fora, pois aqui no Brasil, a academia reservou aos negros e indígenas estudarem os negros e indígenas, viramos uma disciplina.
Queremos mais, queremos estar no poder em todas as instituições. Temos homens e mulheres negras e indígenas de todas as idade preparados para esta tarefa, e não me venham com esta velha história que precisamos esperar os investimentos em educação para termos igualdade. Dou meu exemplo pessoal: Em minha experiência profissional no Brasil, a maioria da pessoas brancas a quem eu fui subordinado, não tinham o preparo que eu tinha, hoje a maioria é rica e senta em Brasília enquanto eu… tive minha carreira de sociólogo de tal forma bloqueada que tive que sair do país em 1989.
Quantas vezes tive que pedir à uma funcionária negra, com 30 anos de serviços sem nenhuma promoção, que tivesse a gentileza de “escolarizar” a loura que iria ser chefe dela no secretariado, que nem um memorando escrever o sabia, mas como branca representaria melhor a recepção no gabinete do chefão branco?
As discussões à cerca do racismo que sempre foram colocadas debaixo do tapete, e estavam reduzidas aos circuitos do movimento negros e grupos discriminados como os grupos mulheres, indígenas e LGBT, viraram questão nacional desde as manifestações de junho de 2013.
O desaparecimento depois de torturado do corpo de Amarildo levaram os jovens de classe média das grandes cidades do Brasil que sempre viveram nos condomínios e escolas segregadas, ao descobrirem que estavam sendo tratados como negros pelas policias estaduais especializadas em maltratarem, torturarem e eliminarem negros na história do Brasil.
A perversidade do sistema racista e de apartheid que sustenta e mantém uma elite branca ou esbranquiçada no Brasil, saiu de suas margens de só atacar os guetos e hoje estende suas garras a todos os cidadãos e os perseguem mesmo dentro de seus computadores.
Fomos todos nivelados por baixo, fomos todos nivelados pela discriminação antes reservadas aos negros e indígenas.

Quase que ao mesmo tempo os brasileiros descobrem que têm um juiz negro na maior corte do país, juiz de carreira e que chega ao topo, elevando-se à categoria de ser o único e primeiro negro no Brasil a assumir esta posição no Brasil. Este exemplo nos nivelou por cima a todos o negros no Brasil. Em um país em que nós negros e indígenas somos segregados em tudo, descobrimos que também podemos entrar na máquina responsável por nos manter através da lei longe da propriedade e dos bens econômicos do Brasil. De nela entrar e transformá-la pode ser um passo. Esta possibilidade remota dede mudar o sistema judiciário que manda para as prisões  medievais milhares de negros, assusta. Assusta a simples possibilidade de negros julgarem e assim também brancos irem para a cadeia. Pela primeira vez então os brancos da elite brasileira, muitos deles que já passaram pelos porões da ditadura, se lembram e derramam lágrimas de crocodilos, sobre as condições desumanas em que vivem milhares de negros encaixotados em porões em que a tortura é o simples ir para lá. A justiça brasileira ao condenar alguém não o pune por seus mau-feitos, mas sim pela sua cor e condição econômica. Mandar alguém pobre e preto para a prisão no Brasil para simples averiguação, é dar a pena de morte ou tortura perpétua. A única saída para esta pessoa é baixar a cabeça ou se tornar fera para massacrar e cortar cabeças de outros iguais.

Todos estes acontecimentos que vivemos nos últimos dois anos são momentos emblemáticos, que escancaram para todos o Brasil racista que só inglês podia ver.

Vivemos um momento chave em nosso país que pode influenciar e propiciar a mudança da mentalidade racista de todos nós brasileiros. Está na hora de termos solidariedade um com os outros e reconhecermos que o sistema de apartheid racial e econômico no Brasil, nos atinge a todos e à nossas famílias. Que está nos destruindo a todos

A entrevista do RFI com o Ministro Barbosa, revela um ministro do STF, também preocupado com esta questão. O próprio STF com esmagadora maioria de brancos quatrocentões, em decisão memorável reconheceu a dívida do Brasil para com os negros e indígena e homologou em 2012 as cotas como constitucionais.

É essa discussão que nos interessa e nos interessa fazê-la com responsabilidade, pois estamos todos sentados em um Barril de Pólvora evidenciado pelo genocídio de nossa juventude negra, que precisa ser finalmente enfrentado.
O linchamento que alguns setores da sociedade fazem atualmente do Ministro Joaquim Barbosa, é por nós considerado como uma fuga da discussão do racismo institucional que perpassa toda a nossa sociedade desde o alto escalão de Brasilia, passando pela composição racial dos quadros que comandam as redações de nossos veículos de comunicações, até as chefias de cozinha nos grandes clubes e hotéis.
Enfrentamos o racismo em todas as esquinas, este é o fato. (Marcos Romão- editor da Mamapress)

Artigo nos  de Lúcia Müzel, que nos foi enviado pelo advogado Humberto Adami

Joaquim Barbosa sobre o racismo: diplomacia brasileira “é muito discriminatória”

Lúcia Müzell fonte: RFI

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa STF

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa
STF

Em 1993, quando deixou Paris com um título de doutor recém-conquistado na Universidade Panthéon-Assas, Joaquim Benedito Barbosa Gomes não imaginaria que, quase 20 anos depois, seria o primeiro negro a assumir a presidência do Supremo Tribunal Federal. A nomeação, entretanto, é uma exceção em um país onde o racismo se esconde atrás de piadas e os negros permanecem longe de ter acesso às mesmas oportunidades que os brancos, apesar de comporem a maioria da população. Em entrevista exclusiva à RFI, Barbosa afirma que um dos piores exemplos é a face brasileira no exterior: a diplomacia, segundo ele, ainda “é muito discriminatória”.
Durante sua curta passagem por Paris, na semana passada, o presidente do STF foi recebido como convidado de honra no Conselho Constitucional francês, uma das instituições de maior prestígio do país. Poucos minutos antes de embarcar em um trem rumo a Londres, onde cumpre a segunda etapa de compromissos oficiais na Europa, ele conversou com a RFI.

Na semana passada, enquanto os jornalistas brasileiros aguardavam o senhor em um café na praça da Sorbonne, um garçom francês, negro, reconheceu o seu nome e sabia quem o senhor era. O senhor já é reconhecido no exterior?
Eu sempre tive o hábito de parar na praça da Sorbonne, não somente para tomar um café mas para estudar. Eu gostava de ficar ali. Mas em relação a um garçom ter me reconhecido, isso representa o fato de que os negros se reconhecem em qualquer lugar do mundo. Eles se reconhecem uns nos outros.

A sua carreira é de exceção no Brasil: um negro de origem humilde que chega à presidência do STF. Hoje, foram implantadas as cotas, por exemplo, entre outras ações para integrar melhor os negros na sociedade, inclusive em altos cargos. O senhor acha que a situação melhorou?
As coisas melhoraram um pouco nestes últimos 20 anos. Mas eu acho que nós ainda precisamos de bastante cotas em diversas áreas, porque 50 ou 51% da população é formada por negros. Entretanto, eles ainda se encontram em situações de inferioridade, sofrem discriminação, conseguem empregos ruins. No Brasil, nós não vemos os negros em cargos de direção nas empresas, ao contrário de outros países. A nossa diplomacia é formada em 99% por brancos e é muito discriminatória. Ou seja, ainda temos muito a fazer. Muito mesmo.

Na Europa, essa pouca representação dos negros nos altos cargos no Brasil, um país tão miscigenado, causa estranheza. O senhor acha que o Brasil é um país racista?
É um país onde o racismo é latente. Não é explícito: é latente. Ele é disfarçado, e se mostra nas situações nas quais os negros são excluídos. Quando alguém é surpreendido em um ato racista, ele muda de discurso, faz como se não fosse nada, diz que era uma brincadeira, reafirma que o país é uma mistura de raças, lembra que tem uma tia negra. Porém, em tudo aquilo que conta de verdade, na economia, nas posições de comando, os negros são excluídos.

Recentemente, a ministra francesa da Justiça, Christiane Taubira, foi alvo de vários ataques racistas. O senhor se encontrou com ela na semana passada. Vocês conversaram sobre este assunto?
Sim, nós falamos. Eu acho isso vergonhoso para a França. Uma mulher com muitas qualidades, como a ministra da Justiça Taubira, ser alvo de atos de machismo e de racismo. Nós estudamos na mesma faculdade de Direito em Paris, Panthéon-Assas, embora não tenhamos nos conhecido na época. Ela estudava em Assas e eu fazia o doutorado em Panthéon. E nós conversamos sobre incidentes racistas que nós dois tivemos na época. Houve brigas envolvendo a extrema-direita no campus, coisas assim. Eu acho tudo isso assustador. Porém, na França pelo menos existe o debate, enquanto, no Brasil, tudo fica escondido. Tudo fica como se fosse uma brincadeira. As medidas necessárias [contra o racismo] não são tomadas. O assunto é tratado com superficialidade. O assunto não é levado a sério, e este é o problema.

Durante as manifestações do ano passado, o senhor era visto como um ídolo. O seu nome era evocado para a presidência da República. Nos últimos meses, entretanto, o senhor virou alvo da imprensa, como por exemplo sobre o pagamento de diárias durante a sua viagem à Europa. Como o senhor sentiu essa mudança?
Isso não me incomoda. Isso faz parte do caráter um pouco provinciano do debate público no Brasil. Eu gostaria de debater as coisas sérias. É isso que me interessa. Mas tem uma certa imprensa sem escrúpulos no Brasil, pessoas pagas por fundos governamentais e que só querem saber de me atacar, mas eu só faço o meu trabalho. Faço o meu trabalho e não estou nem aí para essas pessoas.

Questionar a sua honestidade o incomoda?
São os brasileiros que devem dizer se sou honesto, e não estes maus-caracteres.