COTAS? É na lei ou na marra. Tá na hora dos acadêmicos se descolonizarem!


Por Marcos Romão

COTAS?

Já que apesar de ser lei, ainda tem gente que quer dar uma de João sem Braço e vir cheios de senões bondosos e capciosos, sigo falando:

Têm sido muito oportunas as visões que falam da falta de acesso à educação de qualidade, que nós negros  somos impedidos de termos desde criancinhas.
Eu acrescento, tipo de ensino, o que é ensinado, e que visão de país sobre o que é conhecimento intelectual e o que é ser acadêmico, precisam ser urgentemente levadas em conta.

Vejam, porque é que nós negros nos últimos 20 anos estamos levando em relação aos brasileiros brancos, uma vantagem relativa em relação ao nosso pequeno número, quando comparamos o amplo acesso de negros brasileiros, aos doutorados nas universidades europeias, com o funil racista intelectual brasileiro?

Nós negros teríamos uma maior Capacidade? Não.

schoko-bananen-kranz

Bolo de chocolate com bananas, concentrado nas mão dos brancos neocolonialistas das academias

 

Capacidade maior ou menor são quesitos individuais, que só interessam a pessoa em causa e não ao conjunto da sociedade.
A resposta, ou as respostas são múltiplas.

Começa que na Alemanha e na França por exemplo, esta coisa de QI (quem indica) é reduzida.
Além do mais, a medição da capacidade do pretendente à vaga, é feita levando em conta, o perfil de vida, o discernimento da sociedade, a aplicabilidade e interesse social do que o cara pretende em sua tese.
De engenharia à medicina, passando pelas ciências sociais a visão do ensino no Brasil, é uma visão de produzir conhecimento para uma elite e, excluir desta produção todos que possam trazer um diferencial. Temos uma visão colonial da academia que se reproduz até o ensino básico.

Assim a segregação começa desde o banco da escola. 99,9% dos amigos que eu consultei, que tiveram a chance como eu de frequentarem as escolas de elite do Brasil, se sentiram segregados desde a primeira série primária ou já no jardim de infância. 

Tínhamos que ser os supra sumos da inteligência, não podíamos dar mole, pois os olhares condoídos dos professores, diziam sem falarem,  quando errávamos uma questão:

” sempre fazem na saída”.

Íamos para as escolas com uma vassoura e papel higiênico para limpar por onde passávamos, para não deixar dúvidas sobre nossa merda de MÉRITO E CAPACIDADE.

Outro fator que leva à universidade é o convívio social, com um meio que estimule a garotada e até os velhos…

Minha geração pertence aquela em que toda a família de negros se juntou, para que UM PRÍNCIPE OU UMA PRINCESA entrasse na universidade.

Hoje tenho o maior orgulhoso de dizer que toda a minha família que veio depois, está na universidade ou já pegou o canudo, como meu falecido pai, que numa inversão do “antes que veio depois”, teve a COTA DO CRÉDITO UNIVERSITÁRIO( EMPRÉSTIMO)) para concluir seu sonhado curso de direito.

Toda a minha família me garantiu meu pedaço de bolo ou cotas, e por obrigação e reconhecimento eu repassei o meu pedaço multiplicado para ela.

Como filho de branco médico, “naturalmente” vira médico e ao terminar a faculdade já tem consultório e clientela cativa das COTAS DO PAI.

O que queremos agora, é ter uma ação coletiva que bote muita gente para sentar na mesas do poder e nas salas de operação, para que quando acordemos da anestesia provocada pela violência racial em que o país está e que nos fez apelar para a OPERAÇÃO COTAS DE EMERGÊNCIA, vejamos que estamos na terra com médicos multicoloridos, e não no céu só com anjo branco.

‪#‎marcosromaoreflexoes‬

Quando dois jovens de peles pretas pintam em branco a suástica nazista na estátua de Zumbi dos Palmares


por marcos romão

Mais dois racistas se mostram “arrependidos” depois que viram a merda que fizeram.racistas zumbi

Parece que virou moda, ser racista, cometer atos racistas e fascistas, e depois dizer, “desculpem, foi de mau jeito”.
Não lamento nada, nem abono o fato de eles serem dois homens de pele preta. Eles têm que pagar na justiça.
Vi muito bem os que pixaram. Como mesmo sem ver sei quem mata pretos em nome da sociedade em nosso Estado do Rio, muitos homens de pele preta.
Não considero que estejamos mal o tomarmos conhecimento desta triste realidade.
Pelo contrário estamos apenas vendo escancarado, que o buraco do racismo contra os negros é mais embaixo do parece a dualidade brancoXpreto.
Estamo vendo que o racismo contra “ser negro” se entranhou de tal forma em nossa sociedade, que jovens homens de pele preta matam pretos em nome da ordem do Caveirão, ou suicidam-se com spray branco pintando suásticas em suas próprias caras em nome da ordem de sei lá quem. E sabem o que estão fazendo.

Para combater o racismo é necessário olhar para toda sociedade, independente da cor do racista contra o povo negro. Cor da pele não é nenhum passaporte de anjinho. Racista tem que ser punido exemplarmente. E basta.‪#‎marcosromaoindignação

Ps: Não tenho nenhuma vontade de encontrar essas pessoas negras que pixaram a suástica nazista na estátua de Zumbi dos Palmares, assim como não tenho também nenhuma vontade nem paciência mental pois iria vomitar, para conversar com os dois jovens PMs de peles pretas, que filmados por si mesmos através das câmaras do carro policial que dirigiam, transportavam para a execução dois jovens negros, um dos quais escapou para contar.
Gostaria entretanto de saber o que eles pensam, eles, estes homens jovens de pele preta, que nem trinta anos possuem e que tem prazer de matar outros jovens ou destruir seus símbolos de dignidade e autoestima.
Gostaria de saber se eles refletem ou elocubram alguma coisa em suas cabeças, sobre a razão dos seus atos.
Gostaria de saber o que pensam, para quem sabe encontrar um método de ação para barrar estes terríveis atos racistas antes que aconteçam;
É muita morte física e mental dos jovens negros que acontece. Não posso ficar impassível diante deste horror genocida do jovem negro no Brasil.
Combater o racismo é uma questão nacional.

assistam o vídeo da prisão e confissão

Racismo nas altas esferas, quem tem medo de um negro que sabe? Professor Kabengele Munanga quebra o silêncio acadêmico.


por marcos romão

Professor Kabengele Mulanga

Professor Kabengele Munanga

O Professor  Kabengele Munanga foi preterido na seleção dos 59 estudiosos que foram beneficiados pela bolsa do programa “Professor Visitante Nacional Sênior ” da Capes.

Kabengele havia aceito a sondagem da Professora Georgina Gonçalves dos Santos, para atuar na jovem Universidade do Recôncavo Bahiano -UFRB-, através de uma posssível bolsa de pesquisador visitante nacional sênior da CAPES. Kabengele foi preterido, foi desmeritado na alta esfera de decisão, na cúpula do poder que decide no Brasil, quem foi, é e será beneficiado por bolsas para aprender ou distribuir seus conhecimentos.

Segundo palavras do Professor José Jorge de Carvalho, Coordenador do INCTI, em seu documento em apoio à Kabengele para reivindicar a bolsa:

“Com toda sua clareza do intelectual militante e engajado e sua posição político-ideológica a respeito da inclusão dos negros e indígenas no ensino superior, docência e pesquisa, talvez Kabengele fosse o único estudioso negro ou um dos pouquíssimos pesquisadores negros a concorrer a essa bolsa. Por coincidência, esse único negro foi o menos qualificado, por comparação. Estranha e triste coincidência!”

Kabengele quebra o silêncio em uma área extremamente delicada que é área de financiamento da produção intelectual do conhecimento no Brasil. Poucos ou nenhum negro ou negra brasileira, pode se arriscar ou se arriscou na área acadêmica, à questionar o possível racismo que nós da Mamapress, consideramos estar entranhado no meio acadêmico brasileiro, racismo que se tornaria visível, diante de qualquer pesquisa séria feita por qualquer aprendiz de Ciências Sociais. O endocolonialismo ou sub-colonialismo interno consegue no Brasil ser mais branco e europeu do que os europeus desejaram na década de 30, e hoje, graças as deuses africanos, esqueceram e mudaram.

Ao contrário da falácia que o negro precisa estudar para ter o seu lugar na sociedade, nós da Mamapress afirmamos, quanto mais o negro souber, em qualquer área, mais ele será uma ameaça e mais ele será discriminado.

Tomamos a liberdade de publicar a Carta Aberta do Professor Kabengele Munanga:

CARTA ABERTA DO PROFESSOR KABENGELE MUNANGA

Permitam-me, primeiramente, quebrar meu silêncio, começando por desejar-lhes um feliz 2014, repleto de sucessos e realizações.
Agradeço a solidariedade e o pronto recurso feito por vocês junto à CAPES através da Reitoria da UFRB diante da omissão do meu nome entre os 59 estudiosos beneficiados pela bolsa do programa “Professor Visitante Nacional Sênior (cfr. Edital 28 de 2013)”.
Geralmente, levo tempo para me manifestar em situações aparentemente urgentes como essa que acabamos de viver. Isto é uma das minhas características que, acredito, se não for uma qualidade, é um defeito incorrigível, pois faz parte da minha pequena natureza humana. Creio, agora, que já tive bastante tempo para refletir sobre o acontecido.
Relembrando como todo começou, estava eu na véspera da minha aposentadoria compulsória na USP que aconteceu em novembro de 2012, quando a colega e amiga Professora Georgina Gonçalves dos Santos, me sondou sobre a possibilidade de ser convidado da UFRB através da bolsa de pesquisador visitante nacional sênior da CAPES. Sem hesitação, aceitei imediatamente e desde então comecei a recusar outros convites que me foram dirigidos depois. Tinha e tenho a convicção de que poderia ser mais útil para uma nova universidade como UFRB do que para as universidades mais velhas que possuem um quadro de pesquisadores e docentes mais estruturado.
Elaborei então uma proposta do programa de atividades a serem desenvolvidas, de acordo com as instruções contidas no Edital 28 do PVNS, proposta esta que foi enriquecida e consolidada pelas sugestões dos colegas Osmundo Pinho e Georgina Gonçalves dos Santos e em última instância pela própria Pró-Reitora de Pesquisa e Pós-Graduação da UFRB, a Professora Ana Cristina Firmino Soares.
Acreditávamos que essa proposta era exequível, de acordo com a demanda do CAHL da UFRB e da minha experiência acumulada durante 43 anos como pesquisador e docente. Uma experiência começada em 1969, na então Universidade Nacional do Zaire, onde fui o primeiro antropólogo formado, passando pela Universidade Católica de Louvain (Bélgica) e pelo Museu real da África Central em Tervuren (Bruxelas), Universidade Cândido Mendes, Rio de Janeiro (visitante), Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Universidade de São Paulo (1980-2012), Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, Moçambique (visitante) e Universidade de Montreal, Canadá, como Professor associado convidado para orientação de teses (2005-2010). Sem deixar de lado os cargos de direção na USP, como Diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia (1983-1989), Vice-Diretor do Museu de Arte Contemporânea (2000-2004), Diretor do Centro de Estudos Africanos (2006-2010) e participação em diversos conselhos, como o Conselho Universitário da USP etc. Orientei dezenas de teses e dissertações, entre as quais algumas premiadas como a tese de José Luís Cabaço, que ganhou Prêmio da ANPOCS, e recentemente a tese de Pedro Jaime Coelho Jr., que ganhou prêmio de melhor tese em Ciências Humanas, destaque USP 2013.
Modéstia à parte, sem “me achar” e sem exibição, pensava que com toda essa experiência poderia servir para uma nova universidade em construção como a UFRB. Lamento que o sonho não deu certo!
Pelo parecer da Comissão Julgadora (Edital 28- 2013), nosso programa foi deferido e recomendado à bolsa com certo elogio, classificando-me na Categoria I dos pesquisadores do CNPQ. Foi, se entendi bem, na última instância que fomos preteridos, em comparação com os demais deferidos. Em outros termos, tenhamos a coragem de aceitá-lo, nosso programa e meu CV foram considerados inferiores para sermos incluídos entre os 59 bolsistas aprovados.
Por que então tantas lamentações, pois não somos os primeiros, nem os últimos a serem preteridos? Os recursos perpetrados junto à CAPES por outras universidades mostram que outros e outras colegas não contemplado/as pela bolsa não são menos qualificado/as que Kabengele. No entanto, vale a pena, apesar da consciência, divagar um pouco sobre os critérios de comparação, pois foi por ela que fomos eliminados. Pois bem, é possível comparar propostas diferentes sem antes estabelecer entre elas um denominador comum? Qual foi esse denominador? As regras do jogo de comparação não parecem claramente definidas; a subjetividade e a objetividade dos julgadores parecem se misturar. Claro, não há nenhum demérito aos colegas cujos projetos foram beneficiados pelas 59 bolsas atribuídas. Os especialistas da Física Quântica não têm dúvida sobre a subjetividade do observador pesquisador no momento em que ele começa a interpretar cientificamente os fenômenos da natureza por ele obsevados.
Na esteira do raciocínio do Professor José Jorge de Carvalho, Coordenador do INCTI, em seu documento em apoio a mim para reivindicar a bolsa, com toda sua clareza do intelectual militante e engajado e sua posição políico-ideológica a respeito da inclusão dos negros e indígenas no ensino superior, docência e pesquisa, talvez eu fosse o único estudioso negro ou um dos pouquíssimos pesquisadores negros a concorrer a essa bolsa. Por coincidência, esse único negro foi o menos qualificado, por comparação. Estranha e triste coincidência!
Minha consideração especulativa poderia ser enquadrada no chamado discurso da vitimização, o que pouco me importa, pois já estamos acostumados. No entanto, os que detêm o poder de nomear os outros, ou seja, de nos nomear, são os mesmos que nos julgam, pois fazem parte do binômio saber/poder muito bem caracterizada na visão foucaultiana (Ver Michel Foucault). Neste sentido, os argumentos aparentemente científicos escondem uma relação de poder e autoridade difícil de transformar. Por isso, eu nutri certo sentimento de pessimismo que me faz acreditar que o recurso da UFRB e o apoio dos colegas não surtirão efeito de reversão da decisão da CAPES, no sentido de dar outra bolsa além das 59 concedidas. Ou seja, o recurso da UFRB e o documento de apoio do Professor José Jorge de Carvalho, coordenador do INCTI, assinado por demais colegas têm menos probabilidade de ser atendida positivamente.
Por isso, sem esperar o fechamento esperado, sinto-me no momento na simples obrigação moral de agradecer o recurso da UFRB e o apoio de vários colegas encabeçado pelo amigo e companheiro de luta, o Professor José Jorge de Carvalho. Estarei sempre disposto a colaborar com a UFRB, através de convite para participar dos seminários, proferir conferência e palestras, participar de comissões julgadoras de mestrado etc., como já o venho fazendo.
Meu muito obrigado,
Kabengele Munanga

Histórico da situação explicada em carta de solidariedade do historiador Jacques Depelchin:

O Professor Kabengele Munanga FOI EXCLUÍDO de uma seleção para professor visitante da UFRB( Universidade Federal do Recôncavo da Bahia).
Por que tanto medo do Professor Kabengele Munanga? Por que tanta raiva contra alguém que contribuiu tanto na partilha dos seus saberes? Para as pessoas pouco informadas, o Professor Kabengele Munanga se destacou na sua carreira acadêmica na USP.

Em fins de 2013 se aposentou e aceitou o convite para lecionar como Prof. Visitante Sênior na jovem universidade federal do Recôncavo da Bahia(UFRB) Baiano -UFRB. Para isso, se candidatou para uma bolsa da CAPES, Edital 28 de 2013, na Categoria de PVNS Apesar de um parecer favorável e elogioso recomendando a outorga da Bolsa pleiteada, a sua candidatura foi rejeitada, levando a um protesto de vários acadêmicos, incluindo professores da UFRB. Numa carta aberta, agradecendo este ato de solidariedade, o Professor Kabengele Munanga explica historiando o processo em que se deu o que lhe aconteceu (veja anexo em baixo)
Aqui, gostaria de levantar uma pergunta: alguém teria medo do Professor Kabengele Munanga e de onde viria? A necessidade de refletir sobre isso é urgente, não só para os Afro-Brasileiros, mas também para todos os Brasileiros que entendem e agem como membros duma só humanidade, pois o contexto global em que vivemos hoje, exige, com urgência, essa afirmação.
No seu livro Pele Negra, mascaras brancas, Frantz Fanon discute esta questão do medo (pp. 125-6, Edufba, Salvador 2008), focando sobre aspetos bem conhecidos pelos sobreviventes dos legados acumulados da escravidão atlântica e da colonização. Infelizmente, o próprio Fanon não entra na discussão sobre como ele superou o medo.
O medo dos adversários do Prof Kabengele Munanga é o produto, indireto, da serenidade e da franqueza com que ele tem abordado assuntos incomodantes da sociedade Brasileira, em volta das raízes do racismo, das sugestões sobre como solucionar as injustiças cumulativas herdadas dessas violências contra as partes discriminadas da humanidade.
Esse medo, quer da vitima, quer de quem tem medo da resistência das vitimas, nunca é de bom conselho. O medo dos gerentes dum sistema prisional tem uma explicação, mas, como é sobretudo visceral, a explicação a partir da razão não se aplica. Porque, como sempre aconteceu em outros casos históricos, os administradores do sistema não são preparados para enfrentar quem deveria se submeter à suas ordens, mas que, em vez, se levanta e argumenta a partir da sua consciência e com eloqüência e sabedoria uma saída honrosa para todos. Para os gerentes dum sistema injusto, as vitimas tem que se calar. Ir na contra mão dessa ordem informal é geralmente caracterizado de “impertinência” e, por isso, tem que ser punido.
Os administradores/gerentes dum legado histórico profundamente injusto tem dificuldades em parabenizar o Professor Kabengele Munanga decidir, no fim da sua careira, na pratica, dar uma lição de como corrigir as conseqüências, no nível do ensino superior, duma injustiça sistêmica contra as descendentes e os descendentes da escravidão.
Não é difícil imaginar o que se passa na mente dos adversários do Professor Kabengele Munanga. Na peça de teatro Et les chiens se taisaient, Aimé Césaire ilustrou como o rebelde escravo enfrentou o dono, no próprio quarto dele. O que aconteceu ao Professor Kabengele Munanga pode ser lido como a continuação do comportamento típico dos dominantes quando enfrentam um caso de rebeldia contra injustiça: o rebelde tem que ser punido, na medida do possível, duma maneira exemplar (leia severamente) para que outros rebeldes potenciais não sejam encorajados em imitá-lo. Historicamente, os exemplos individuais e coletivos abundam: Kimpa Vita, Zumbi, Geronimo, Abdias Nascimento, Toussaint-l’Ouverture, Cuba, Haiti, Patrice Lumumba, Amilcar Cabral, Salvador Allende, Cheikh Anta Diop, Nelson Mandela, Samora Machel, Thomas Sankara, Steve Biko, Chris Hani, Aristide, para não mencionar mais.
O Professor Kabengele Munanga, de origem Congolesa, nação de Kimpa Vita, Patrice Lumumba e outras e outros, na mente dos seus adversários, por definição, não tem direito à palavra, muito menos quando a sua fala/escrita acaba dando uma lição contundente de como superar legados históricos seculares, no Nordeste Brasileiro, para que qualquer Brasileir@ possa pensar, sonhar, e conseguir ser uma estrela, um craque intelectual.
Desde já, agradecemos a coragem do Professor Kabengele Munanga por ter continuado trilhando os caminhos das benzedeiras e dos benzedeiros sobre os quais o grande autor Ghaneense, Ayi Kwei Armah escreveu com tanta eloquencia no seu livro de ficção The Healers.

Em solidariedade,
Jacques Depelchin
Historiador
Salvador-Bahia

Igualdade Racial como tática de luta contra o racismo – resposta a Yedo Ferreira


Edson França e Marcelo Dias

Muitas vezes quando um matemático foge do campo da lógica e utiliza a História (como ciência) para fundamentar e exemplificar seu argumento é desastre na certa, pois invariavelmente não tem método ou não acumulou mérito para tal. É chocante, senão revoltante ler uma narrativa histórica – cujo principal personagem foi uma pessoa negra – que infantiliza dirigentes políticos de processos revolucionários que marcaram a história do negro na humanidade. Parece coisa de branco racista, pois expressa uma concordância com aqueles que advogam a inferioridade da raça negra.

Não profane a história e contribuição dos povos negros

Verificamos no texto “igualdade Racial – Tragédia e Farsa” uma profusão tão grande de erros na analise de processo histórico que nos leva a imaginar que ou o autor é rigorosamente limitado e inconsistente teoricamente, fez o que sabia fazer, ou subestimou as capacidades analíticas dos leitores. Estão longe de serem inocentes, boçais, confiarem nos agressores e serem iludidos lutadores como Patrice Lumumba – principal liderança na luta pela descolonização do Congo enfrentou o imperialismo e o saque de riquezas das grandes potências ocidentais, se alinhou com a antiga União Soviética e obteve apoio de nações e instituições anticoloniais. Lumumba e líderes africanos como Dedan Kimathi (Quênia), Modibo Keita (Mali), Murtala Mohamed (Nigéria), Amilcar Cabral (Guiné Bissau), Samora Machel (Moçambique), Eduardo Modlane (Moçambique), Thomas Sankara (Bokina Faso), Chris Hana (África do Sul), Stve Biko (África do Sul) pagaram com a vida a luta que conduziram contra o racismo e pela descolonização africana. Segundo Carlos Moore em A África que incomoda: “Entre 1957, data da independência do Gana, e 1987, data do assassinato do último dirigente declaradamente pan-africaista, Thomas Sakara, trinca e cinco dirigentes africanos nacionalistas e pan-africanistas foram assassinados” (grifo do autor), Moore cita entre as vítimas Patrice Lumumba. As potências colonialistas utilizaram todos os meios para impedir a autodeterminação dos povos africanos os homicídios das principais lideranças anticoloniais se constituem no processo de violência política mais grave dirigida contra nações, por isso consideramos uma desonestidade teórica atribuir inocência e credo no agressor a causa do assassinato de um líder que, no contexto da Guerra Fria, mobilizou a nação, angariou apoios, pegou em armas para libertar seu país.

Toussaint Loverture – de escravo a principal condutor da Revolução Haitiana, o mais bem sucedido levante escravo que a humanidade conheceu, enfrentou e derrotou o exército de Napoleão, na época o mais poderoso do mundo, até hoje o povo haitiano paga alto o peço pela ousadia de ter enfrentado e derrotado o colonialismo racista e escravocrata das potencias coloniais (França, Inglaterra e Espanha). A Revolução Haitiana é considerada um momento decisivo da história dos africanos nas Américas, mais ainda, a saga dos escravos, descalços, maltrapilhos, famintos e desarmados em combate heroico contra os mais poderosos exércitos coloniais do mundo, abriu os olhos das elites crioulas sobre a impotência das metrópoles coloniais em manter sob seu jugo as nações que se formavam em toda América. O Haiti inaugura um processo de independência que varreu todo o Novo Mundo. É inadmissível atribuir boçalidade a Toussaint Loverture principal protagonista desse processo.

Lucas Dantas, Manoel Faustino, Luiz Gonzaga e João de Deus – quatro negros revolucionários da Revolta de Búzios ou Conjuração Baiana, a mais consequente e popular revolta anticolonial e antiescravista do período de dominação portuguesa. Inspirados na revolução haitiana tinham em sua plataforma o fim da escravidão, igualdade social e igualdade civil. O tema da igualdade sempre questionou a opressão e a injustiça, bem como moveu ideários revolucionários. Os conjurados foram denunciados, aprisionados e enforcados em praça pública. Esse episódio simboliza mais um capítulo da sistemática reação negra contra a opressão do Estado escravista e colonizado. Não há negros inocentes e boçais em condução de processos de enfrentamento com o poder, todos os líderes de Búzios foram hábeis políticos, lideranças incontestes dos africanos e afro-baianos, enfrentaram, conduziram a heroica luta contra dominação escravocrata e colonial.

De modo que o texto “Igualdade Racial como Tragédia ou farsa” de Yedo Ferreira do ponto de vista histórico é uma vergonha! Puro diletantismo, que não leva a nada, utilizou exemplos inconsistentes, provocadores e divisionistas para questionar a estratégia que o movimento negro vem perseguindo. Não merece respeito e atenção porque deseduca, aliás, todos os que profanam a história do negro, dá juízo errôneo e impróprio sobre nosso passado, desrespeita a memória negra universal, dado o fato que idade não é passaporte para o bem ou para o mal, não sabemos se Yedo Ferreira erra por ignorância ou má fé, no entanto o erro merece nosso repúdio!

Diferença sim, desigualdade não!

A luta política sempre tem determinações dadas pela correlação de forças, pelos sujeitos envolvidos, pelos interesses em disputa, pela cultura, lugar e tempo históricos, conjuntura e outros elementos. De modo que não combatemos com as armas que desejamos e nem sempre numa batalha ganha atingimos 100% dos nossos objetivos. Devemos agir a partir de um cenário concreto, quando o idealismo dirige a tática e a estratégia tornamos agentes sem capacidade de atuar sobre os fatos e sujeitos disfuncionais para construção de projetos alternativos.
Diante disso, consideramos que o movimento negro está no caminho correto, embora haja poderosos obstáculos que precisamos superar. A busca pela igualdade (econômica, social, política, civil) entre os seres humanos continua sendo uma grande utopia, um ideário perseguido por povos, Estados e nações há várias gerações, nós negras e negros brasileiros, especialmente a militância, deve ter como perspectiva na luta para construção de uma nova sociedade a igualdade nos quatro planos acima descritos.

Diferença sim, desigualdade não! Por isso propomos políticas de igualdade racial como forma de combater o racismo, é uma estratégia circunscrita para conjuntura atual, tem caráter temporário, por que sabemos que não superaremos as enraizadas desigualdades sócios políticas e econômicas entre negros e brancos só no plano da política pública, será necessária a ascensão do negro ao poder. A política de igualdade racial representa uma tática diferente das perseguidas até então pelo movimento social negro, ao invés de focar na criminalização da prática do racismo, e aprisioná-lo no campo das relações interpessoais, ou seja, entre os indivíduos: o racista e sua vítima; intervimos nos resultados sociais, políticos e econômicos decorrentes do impacto do racismo, propondo medidas que promovam a população negra.

Através de sua negação lutamos contra a desigualdade, compreendemos como Clóvis Moura, que o racismo tem sentido político e ideológico, visa dominar povos, nações e classe social, vai para além do caráter etnicorracial, conforme Yedo Ferreira e seus asseclas defendem. Em última instância, a luta contra o racismo exige uma luta contra os que se beneficiam do trabalho, da mais valia produzida pela população negra, 50,6% dos brasileiros. Esse é o sentido que tem orientado a estratégia atual da maioria do movimento negro brasileiro e tem produzido resultados positivos, mais destacadamente, com a inclusão de negros nas universidades; proliferação de estruturas de igualdade racial em espaços da sociedade civil e governos; aperfeiçoamento da legislação de igualdade racial. Esses resultados somados não podem ser ignorados, se não tivermos capacidade de reconhecer os avanços e pactuar novas metas não sairemos do lugar. Não estamos entre aqueles que consideram que o movimento negro não avançou nos últimos dez anos, bem como não estamos entre aqueles que compreendem que a situação social, econômica e política da população negra está boa.

Respeito a diversidade e unidade na luta deve prevalecer

Compreendemos que os movimentos sociais e políticos não se constituem em espaços monolíticos, ao contrário, enriquecem com a diversidade de ideias – desde que não sejam antagônicas. Nosso desafio no movimento negro é construir unidade com diversidade e lutas comuns. No entanto, Yedo Ferreira aprisionado em tempo e espaço distintos, munido de narrativas equivocadas ou mal intencionadas, desprovido de uma compreensão mais profunda dos significados e sentidos que balizam a atual estratégia do movimento negro, se valendo de uma condição que ancestralmente respeitamos: a idade; prepara um texto confuso, ofensivo a duas lideranças negras e com claro objetivo de impor uma polêmica artificial, que só serve ao seu ego.

Atacar de forma pessoal a nós militantes de décadas do movimento negro e militantes históricos de nossos partidos é uma tentativa de atacar todos os negros e negras do PT e do PCdo B e isto repudiamos com toda a nossa força. Somos contra o canibalismo político que tanto encanta nosso detrator.

Este senhor há muito tempo se coloca contra as políticas de ações afirmativas, contrapondo-as a luta por REPARAÇÃO, equívoco grave e primário, pois elas podem se constituírem em medidas reparatórias.

Este senhor encara a militância branca de esquerda, socialista, revolucionária, humanitária como adversária ou inimiga do movimento negro, ainda que a história de todas as lutas da diáspora africana e dos povos africanos contaram com aliança de brancos que se contrapuseram a dominação racial e de classe. Por isso, a consideramos aliadas fundamental para a luta contra o RACISMO, POR AÇÕES AFIRMATIVAS E POR REPARAÇÕES. Subscrevemos a assertiva de Solano Trindade: “Negros opressores em qualquer parte do mundo não são meus irmãos”.

Assinam

Edson França
Presidente Nacional da União de Negros Pela Igualdade – UNEGRO
Diretor de Cultura da União das Escolas de Samba Paulistana – UESP

Marcelo Dias
Presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB/RJ
Militante do Movimento Negro Unificado / MNU/RJ

Propaganda de escravidão no Brasil: Ministério Público Federal admoesta Mercado Livre para tomar medidas que coíbam práticas discriminatórias.


por marcos romão

Segundo a TV Justiça o Ministério Público de Brasilia recomendou à página Mercado Livre, que retire imediatamente todo e qualquer anúncio de caráter preconceituoso e discriminatório e informe aos usuários que este tipo de prática é crime e que aprimore o aplicativo DENÚNCIA, o aplicativo de proteção do site. De forma que ao acolher uma denúncia, seja registrado no site e informado ao usuário as providências adotadas.

negro a venda

Nós da Mamapress estamos batendo nesta tecla já faz tempo, ao dizermos que é enxugar com o gelo perseguir práticas racistas se as instituições públicas e privadas, não as coíbem nem tem mecanismos de controle e educacionais para impedir que aconteçam.

Um jovem, já descoberto e apreendido pela polícia colocou um anúncio na página oficial do Mercado Livre, ofertando negros para a venda.

Usuários d página alertaram a Mamapress que espalhou na rede este crime. No país vários grupos tiveram a iniciativa de acionar a justiça para que tomasse providências.

A ouvidoria da Seppir-Presidência, entrou em contato com os responsáveis da página Mercado Livre, que forneceu os dados necessários para que fosse localizado e iniciado um processo de punição do criminoso, além de publicar um nota de repúdio ao ato racista. Em resposta, a página Mercado Livre, publicou uma nota dizendo que cumpriu o pedido judicial e só:

A nota da Seppir-Pr-

“É inconcebível e inaceitável a tentativa de desumanização da população negra, enquadrando seus indivíduos como mercadoria e remetendo os mesmos de volta à escravidão”, diz Carlos Alberto de Souza e Silva Junior, ouvidor da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial.

Segundo a secretaria, não haverá punições ao Mercado Livre. Em nota, o site de vendas afirmou que repudia o anúncio.

A nota do Mercado Livre

“O Mercado Livre informa que entregou, após notificação oficial, os dados cadastrais e de acesso do usuário anunciante às autoridades competentes para que o autor seja investigado. O anúncio foi retirado do ar na segunda-feira, dia 6, assim que denunciado pelos próprios usuários do site”, diz o site.”

A Mamapress não se conformou com o fato da página Mercado Livre tirar o corpo fora de suas responsabilidades e apesar de parabenizar a rápida ação da Seppir-Pr, lembrou que a página Mercado Livre também tinha suas responsabilidades nas manifestações racistas que ocorrem em suas página:

A Mamapress parabeniza a ação rápida da Ouvidoria da SEPPIR e alerta para que na pressa, não se isente a página Mercado Livre de toda a culpa. Que a página faça um pedido de desculpas públicas em seu sítio principal  e crie mecanismos para que  usuário possa denunciar de pronto anúncios discriminatórios de quaisquer matizes. Seria uma punição mínima, por ter relaxado de forma continuada nas suas obrigações com o consumidor, pois o anúncio só foi retirado do ar na data em que o próprio anunciante racista marcara. Nós considerávamos enganosa a nota da página Mercado Livre ao afirmar que possuía um aplicativo de denúncia.

“O anúncio foi retirado do ar assim que denunciado pelos próprios usuários do site, conforme nossas regras e, também, pela inadequação completa aos Termos e Condições de Uso do Mercado Livre. Todos os anúncios publicados no site possuem um botão de Denúncia para que qualquer pessoa possa apontar práticas irregulares ou que causem algum dano aparente”.

A Mamapress lembra que em nenhum de seus botões de reclamação é oferecida a possibilidade de se reclamar do conteúdo ofensivo e discriminatório das ofertas. Limitando-se a oferecer possibilidades de reclamações sobre problemas comerciais, e nada que fale de produtos ou textos discriminatórios e ou racistas.

Nós da Mamapress, um portal antirracista que acredita na defesa da cidadania, nos sentimos contemplados pelas recomendações legais do MPF à página Mercado Livre. Já na em nossa edição de 7 de janeiro, um dia depois do anúncio de venda de negros sair do ar ,alertávamos sobres sobre as responsabilidades da página Mercado Livre, que se cúmplice não o foi, pelo menos facilitou o crime de racismo por parte do jovem.

Nós acreditamos nas transformações de nossa sociedade e das instituições. Consideramos o racismo um mal impregnado em nossa sociedade e que cada cidadão   e cada instituição contribui para que o racismo se perpetue. Esta máquina de perpetuação do racismo precisa ser abolida e banida através da consciência de cada um e ações exemplares de instituições judiciárias, e todas as instituições governamentais e privadas.

Ao admoestar a Página Mercado Livre, o MPF deu um exemplo de nova visão de como se combate o racismo, os preconceitos e as discriminações. Não são só os porteiros dos prédios ou  os atendentes de lojas e bancos que devem ser punidos quando acontece um caso de discriminação, mas os responsáveis por estes espaços. Não é só um soldado que mata um jovem negro como se matasse um cachorro com raiva que deve ser punido, mas todo o comando que o formou e adestrou para ser racista.

Histórico dos alerta da Mamapress recomendando ações institucionais educativas para coibir mais este caso de racismo:

6 de janeiro 2014: https://mamapress.wordpress.com/2014/01/06/mercado-livre-vai-para-o-index-do-boicote-popular-faz-propaganda-racista-continuada-e-anuncia-venda-de-meninas-e-meninos-negros-por-1-real/

7 janeiro 2014: https://mamapress.wordpress.com/2014/01/07/negros-seres-humanos-um-pouco-da-historia-mundial-recente-dos-mercados-livres-para-escravizar/

16 de janeiro 2014: https://mamapress.wordpress.com/2014/01/11/identificado-autor-oferta-de-negros-com-diversas-utilidades-para-a-venda-na-pagina-mercado-livre/

Nova direção do Shopping Itaquera vê Rolezinho como chance para mudar. Alckmim confirma presença.


por marcos romão

Depois de reunir-se com a Consultoria Internacional para a Globalizão- CIG, com sede nos EUA, o  novo diretor-chefe do Shopping Center de Itaquera José da Silva,39, um pernabucano de Garanhuns, já pode ver com bons olhos o Rolezinho anunciado pra o próximo dia 29 de fevereiro, que irá acontecer no mesmo Shopping Center que provocou tantas  manchetes negativas nos últimos dias.

O que o convenceu, disse  José da Silva, foi a possibilidade de quadriplicar as vendas no final de semana e já perguntou aos Roladores se podem repetir a ação pelo menos a cada 15 dias.

Anunciada no Facebook antes de ontem, já são 53351 pessoas que confirmaram presença.  José da Silva demonstrou segurança ao atender o telefonema da Secretaria de Segurança paulista, preocupada com o desenrolar do rolezinho:

Disse José da Silva para o secretário: “Tem problema não, mandar polícia só se for para vir com a família fazer compras e que venham de civil, vestimentas adequadas eles podem pedir emprestado aos filhos. Vai ser tudo uma maravilha”.

José da Silva, disse que estava bastante cético com esta tal de “Política de Desescalação e Inclusão do Consumidor Unido”- PEDICU- para os iniciados em gestão empresarial moderna, mas que se convenceu como migrante que também foi, quando os consultores explicaram o que Obama fez para acabar om o problema dos migrantes: “Vejam vocês, repetiu José, eles explicaram que os “Roladores Periféricos” são iguais aos migrantes na América, eles gostam da gente e juntam todo o dinheirinho que tem para viverem e consumirem entre nós, porque não aproveitá-los para que consumam e nos tragam lucros? Foi o que o tal de Obama fez, legalizou os caras e tá chovendo dinheiro na economia americana com este sangue novo”.

“Estamos é claro organizando um plano de emergência para atendermos tanta gente ao mesmo tempo”, repete José com entusiasmo, “vamos instalar caixas de som no entorno, com Funk da Periferia entrecortada de Música Charme, para manter calmo os ânimos. Teremos mostruários de todas as lojas no estacionamento para quem não conseguir entrar ou preferir ficar dando seu rolezinho do lado de fora.

Conversei com a Cruz Vermelha e eles vão instalar banheiros e um hospital de campanha para atenderem as necessidade de nossos clientes roladores. As lojas de alimentação também terão barracas do lado de fora e oferecerão “menús-rolés” a preços módicos. Todos os lojistas entraram em acordo e vamos aceitar todas as formas de pagamento, tiquetes-alimentação, crédito consignado para filhos de professores e funcionários da prefeitura, vale-transporte, cartão bolsa-família e até de cartão de bolsistas da CAPPES, afinal dinheiro não tem cor nem instrução, chegamos todos à conclusão”.

Hiato

Hiato

Olhando diretamente para mim José da Silva, que antes havia trocado olhares cúmplices comigo e depois se revelou um leitor assíduo da Mamapress e, por isto sabia que eu gostava de boas idéias, falou na coletiva em primeira mão:” Pois é, acabei de ter uma reunião com o Alckmim, é o Geraldo, que eu acho um nome mais popular tipo Maracanã dos tempos antigos, ele abriu aqueles olhos quando falei do Obama e dos migrantes nos EUA, e sobre a caixa de impostos que aumentaria para o estado de São Paulo.

Claro que ele cheirou votos também, afinal é a moeda dos políticos. Pediu-me então que organizasse a ida dele pessoalmente ao rolezinho. É. sem palanques, ele iria com os parentes, caminharia como o mais comum dos mortais e cortaria com alguns funqueiros a fita simbólica dos novos tempos”.

Me despedi e prometi voltar dia 30 de fevereiro, não sem antes garantir uma entrevista exclusiva com José da Silva. Falei com ele em “off”, “cara se o negócio que você está planejando der certo, já estou vendo você e o Geraldo serem indicado para o Prêmio Nobel da Paz, pela contribuição dada ao fim do Apartheid no Brasil.”

Década encoberta


por Fernanda Castro

Dez anos depois da adoção do ensino de história e cultura africanas no ensino fundamental e médio, muitas escolas ainda resistem à adoção da lei, seja por preconceito racial e religioso, seja pela falta de formação docente
extraído da Revista Educação  e do blog Negrojorgen
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Há dez anos, os movimentos sociais ligados à questão racial ganhavam uma luta de séculos: levar para a escola a contribuição africana na formação da identidade brasileira. A adoção da Lei 10.639/03, que instituiu a obrigatoriedade do ensino sobre história e cultura afro-brasileira nos currículos do ensino fundamental e médio representou uma conquista. Mas, uma década depois, o balanço continua preocupante.
“Há avanços, mas se esperava um maior número de escolas e professores aplicando a lei”, diz Petronilha Silva, relatora das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais, publicada um ano depois da promulgação da lei. Não há dados precisos sobre quantos dos mais de cinco mil municípios brasileiros colocaram a lei em prática. Mas movimentos sociais ligados ao tema estimam que, na melhor das hipóteses, esse número chegue a 10%.
De acordo com Petronilha, estudos mostram que, embora tenha aumentado o número de professores envolvidos, são poucas as escolas que incluem a história e a cultura africanas e afro-brasileiras em seus currículos. Além disso, também há a tendência de abordar os temas ainda de forma pontual, em datas comemorativas da abolição da escravatura, em maio, e no dia da consciência negra, em novembro.
 Do lado das conquistas, há consenso de que a lei abriu caminhos para que a temática africana ganhasse visibilidade dentro do ambiente escolar, ampliasse a quantidade e a qualidade desses temas nos materiais didáticos, e aumentasse a oferta de linhas de pesquisas, especializações e cursos voltados para a história africana. Por outro lado, a visibilidade também descortinou resistências. De acordo com o Ministério Público Federal, durante o período foram identificados 93 autos extrajudiciais que versam sobre a não aplicação da lei em vários estados do país.
mat5Tensão na religião
É na intolerância religiosa que a lei encontra seu maior obstáculo. Há relatos de que em escolas particulares, em especial as de origem confessional, há recusa em adotar a lei, por relacionar os temas africanos à “macumba”.
Em 2010, a Relatoria do Direito Humano à Educação, ligada à Unesco, investigou a intolerância às religiões de matriz africana no ambiente escolar. Foram registrados casos de bullying, manifestações preconceituosas e impedimento de usar símbolos. “Com a lei, o limite entre uma prática religiosa e cultural fica completamente confuso. Já presenciei escolas que diziam ser preciso acabar com a aula de capoeira”, diz Rosana Heringer, atual relatora da Unesco.
A intolerância religiosa, por sua vez, comumente mascara outra questão: o racismo. “As religiões negras, e tudo o que fosse considerado modos de cultura e de vida negra, foram perseguidas no contexto de escravização. Durante muito tempo essas práticas tiveram de ocorrer escondidas e longe dos centros urbanos, dos centros de valorização”, contextualiza Suelaine Carneiro, educadora, integrante da organização Geledés – Instituto da Mulher Negra e assessora da relatoria à época do estudo.
Rosana diz que no caso do racismo, de fato, as vítimas potenciais da intolerância religiosa são estudantes que praticam religião de matriz africana. “Essas são as religiões mais perseguidas no Brasil. É muito difícil trabalhar este tema, principalmente num contexto de uma escola ou professor que tenha uma religião dominante, seja a católica ou a evangélica.”
Responsável pelo suporte e treinamento em escolas à época da adoção da lei, a educadora Andreia Lisboa de Sousa, hoje doutoranda em educação na Universidade do Texas (EUA), lembra que o ensino religioso não está previsto na lei. “É importante destacar que a lei não propaga as religiões de matrizes africanas, mas propõe compreender, de forma ampla, os aspectos históricos e contemporâneos da história e cultura africana e afro-brasileira.”
mat4O que ensinar
De qualquer forma, o que ensinar continua sendo um assunto delicado. “A escola e os currículos escolares que tenham um conceito de sociedade branca têm matado a identidade de muitas crianças, fazendo com que elas adotem uma identidade que talvez seja oposta à delas”, pontua a professora Petronilha Silva. Ela defende, porém, que isso não significa reduzir a história a apenas um grupo étnico. “Esta política não deve superar uma política educacional eurocentrada para priorizar uma política afrocentrada. O que ela quer é que todas as etnias sejam igualmente respeitadas.”
A lei prevê que o conteúdo programático deve incluir o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional. É clara, ainda, no que diz respeito a quando ensinar: os conteúdos devem ser ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de educação artística, literatura e história brasileira. Rosana exemplifica. “A lei prevê questões ligadas ao debate do Brasil como uma sociedade multicultural, além de perspectivas variadas sobre questões da história do Brasil e da cultura brasileira, não baseando o país como uma matriz cultural primordialmente europeia.”
A educação para as relações etnorraciais é outra vertente a ser enfrentada. “Precisamos ver como nós, negros, brancos, indígenas e imigrantes em geral, nos relacionamos e produzimos desigualdade na sociedade para pensar ações para mudar isso”, diz Jaqueline Lima Santos, assessora do programa Diversidade, Raça e Participação da ONG Ação Educativa.
Para Petronilha, a escola ainda padece das influências históricas de seu surgimento, no âmbito da lógica colonizadora do século 16. “Trazida por jesuítas, a escola tinha o objetivo de tornar povos nativos cristãos e socializá-los para o trabalho. Até hoje, os estudantes continuam sendo convencidos a se comportarem como se fossem brancos. Eles são treinados a se comportarem, pensarem e defenderem grupos sociais que se opõem ao seu próprio grupo social”, disse a professora durante uma palestra no TED UFF, no Rio de Janeiro, no ano passado.
No âmbito desse debate, a necessidade de discutir esses temas pode, ao final, mudar o próprio ambiente escolar. “A lei veio para balançar os alicerces que a gente tinha de uma educação baseada em uma escola voltada para um modelo de criança”, diz Míghian Danae, professora de educação infantil na rede municipal de São Paulo e doutoranda em Educação na USP.
 Andreia Lisboa concorda. “Até agora, todos os modelos de representação eram unidimensionais e isso não é democrático. Nas minhas viagens pelo país pude ver que o racismo existe; apesar das diferenças regionais ele está enraizado na nossa sociedade.”
Ainda o racismo
De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a população negra é maioria no Brasil. Na pesquisa, 97 milhões de pessoas se declaram negras e 91 milhões de pessoas se declaram brancas. Ainda assim, não são raros os relatos de racismo no ambiente escolar.
mat2Ao se encontrar com a mãe de um menino de 5 anos, Andreia ouviu o relato de que a criança chorava com frequência ao voltar da escola. Ele dizia que queria mudar de cor: “virar” branco. Desde muito pequeno, se julgava feio e queria pertencer a outro grupo étnico: os colegas faziam graça do seu cabelo. “Ele estava aprendendo que ser negro é ruim e ser branco é bom”, diz Andreia.
Para a pesquisadora, uma das análises mais equivocadas em casos como este é concluir que a própria criança está sendo racista. “Esta tem sido a análise de 99% dos professores com quem atuei nos programas de capacitação. Trata-se de uma análise errônea, racista e equivocada, que existe na mentalidade de muitos professores. Ela culpa a criança e tira a responsabilidade da escola, dos adultos e da mídia, que só mostram um modelo branco a ser seguido”, diz.
Cinco anos antes do surgimento da Lei 10.639, a educadora Eliane Cavalleiro detectou a existência de racismo velado em salas de aula da educação infantil. A pesquisadora percebeu que as crianças negras muitas vezes ficavam de fora de brincadeiras com representações de papéis de mãe e filha, por exemplo, por causa da diferença racial. “O modo como os professores concebem o cotidiano escolar e as relações interpessoais nele estabelecidas dificulta a percepção dos conflitos étnicos e, inclusive, a realização de um trabalho sistemático que propicie a convivência multiétnica, já que para elas esses problemas inexistem”, afirma Eliane, em dissertação defendida na faculdade de Educação da USP.
O racismo velado, portanto, ainda precisa ser enfrentado, inclusive pelos professores. “O racismo existe e está na sala de aula. O que eu vejo é que pela formação dos professores há uma despreocupação em relação ao tratamento de temas e situações do cotidiano ligadas ao racismo”, diz Marise de Santana, coordenadora do Grupo de Pesquisa Educação e Relações Étnicas: Saberes e Práticas do Legado Africano e Indígena – ODEERE.
O caso do menino expõe não só a desigualdade racial nas escolas, como também a falta da abordagem de heróis negros, seja nos livros infantis trabalhados nas escolas, como também em todo o currículo, como propõe a lei. “A gente sabe que houve avanços importantes no material didático, está melhor hoje do que alguns anos atrás. Mas esse ainda não se tornou um conteúdo amplamente trabalhado dentro da escola”, diz Rosana.
De qualquer forma, mesmo não abrangendo a educação infantil, a lei está começando a afetá-la. “Nessa etapa, a leitura em sala de aula sempre foi feita a partir de clássicos europeus. Agora vemos que essa ideia de clássico remete a uma cultura que não é a nossa e começa a ser contestada, assim como começa a ser contestado o modelo de educação para um único modelo de criança”, diz Míghian Danae.
Influência no Enem
Diante da resistência das escolas em aplicar a Lei 10.639, o Ministério Público Federal instituiu um grupo de trabalho em Educação. A estratégia atual é, em consonância com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), incluir questões sobre história da África e dos povos indígenas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). O objetivo é induzir as escolas a abordar o tema em seus currículos, ou ao menos serem pressionadas pelos próprios alunos a fazê-lo. No último Enem, aplicado em outubro, seis questões versaram sobre o tema. O objetivo é chegar de cinco a oito questões por Exame.