Parem de falar besteiras sobre a História dos Africanos e Afro-brasileiros,


Por Rosiane Rodrigues

rosiane rodriguesNão tenho mais nenhuma paciência para quem se arvora a falar sobre a História dos africanos e afro-brasileiros sem saber o que está dizendo. Não me interessa se o ‘falador’ em questão o faz por deficit cognitivo ou desonestidade intelectual. Já aviso que não sou obrigada. Hoje, precisei escutar que ‘negros escravizavam outros negros’ de um professor universitário. Me contorci em cócegas, mas tive a oportunidade de indicar livros para que este senhor, pastor evangélico que realiza ‘diálogos interreligiosos’ para promover a liberdade religiosa (GARGALHADAS!), assuma que tem um projeto claro – branco, hegemônico – de disputar os fatos da História e a visão sobre (e do) mundo.

Então, vamos lá: a escravidão é um fenômeno político que remonta aos primórdios da humanidade. Houve várias formas de escravidão – por dívida, por guerras e, até mesmo, pessoas que se ofereciam como escravas para que suas aldeias (sociedades) recebessem pagamento e pudessem comprar alimentos. A essência da escravidão está na supremacia entre grupos (mais tarde, estes grupos viraram estados, reinos, nações, povos, etc). Em África, a escravidão ganhou uma viés econômico a partir do século XV, com a promulgação da Bula Papal Romanus Pontifex – que foi a justificativa que a Igreja Católica deu ao reino de Portugal para matar (aqueles que não se convertessem à fé cristã), expropriassem territórios e escravizassem pessoas para servirem de mão-de-obra GRATUITA no Novo Mundo.

Foi a partir do século XV que a escravidão recebeu a sua face mais perversa e cruel – e é a que conhecemos até hoje – que se dá na forma da dominação econômica. É pela dimensão da exploração da mão de obra escrava para geração de riquezas o que faz com que vários grupos do movimento social argumentem ser ela, por si mesma, a base do sistema capitalisma.

Falar sobre a História de milhares de povos africanos – e da história da maioria do povo brasileiro – com achismos e convicções baratas do senso comum é, antes de tudo, de uma irresponsabilidade intelectual sem tamanho, isso sem falar da falta de ética. Só devemos falar sobre o que sabemos, pesquisamos e nos aprofundamos. Não há verdades no mundo das humanidades, mas é fundamental e de bom tom, que indiquemos a nossa platéia, seja ela qual for, as nossas intenções e lugar de fala.

Bibliografia sugerida ao ‘falador’ e a toda platéia:

MEILLASSOUX, Claude. Antropologia da Escravidão. Rio de Janeiro: Zahar, 1995. (Informei ao falador que este é um autor marxista, mas que se deu ao trabalho de descrever as várias formas de escravidão no continente africano. “Caso autores marxistas não sejam de seu agrado”, sugiro também)

OLIVER, Roland. A experiência africana. Rio de Janeiro: Zahar, 1972

GUIMARÃES, Antonio Sérgio A. Preconceito racial: modos, temas e tempos. São Paulo: Cortez, 2008

`Para entender melhor a gênese da escravização que se constituiu para fins comerciais – que se dá a partir da Maldição de Cam – sugiro uma pesquisa densa da área da Linguística:
BOSI, Alfredo. Dialética da Colonização. São Paulo: Cia das Letra, 1992.

Ainda tem também um para quem está iniciando os estudos nessas questões e é voltado para o público jovem:
RODRIGUES, Rosiane. ‘Nós’ do Brasil. São Paulo: Moderna, 2013

Eu li os quatro primeiros e escrevi o último.

Texto da Professora Rosiane Rodrigues

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2 pensamentos sobre “Parem de falar besteiras sobre a História dos Africanos e Afro-brasileiros,

  1. Ótima ponderação a cerca do assunto. Me encontro nesse nivel do debate, se nao tem argumentos nem comece a discussão.
    Obrigado pelos indicativos de leituras.
    Abraços!

  2. Pois é, mas essa folga está muito longe dos nossos sonhos, porque a desinformação é instrumental na exploração do racismo. Esta semana tive que explicar, sem a mesma capacidade da Rosiane, para um engenheiro que os negros lutaram contra a escravidão sim. Um engenheiro formado numa universidade que “não sabe” a história contida, por exemplo, nos livros indicados pela Rosiane e muitos outros.

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