Carta ao meu amigo Wilson: Cotas valem à pena para toda a sociedade brasileira.


Por Marcos Romão

Meu amigo Wilson Keiiti Hayashida me pergunta em particular. em meu perfil no Facebook:

“Me responda sinceramente, caro Romão: Você é a favor ou contra as cotas raciais? Porque?”

Ao que respondo: É uma pesquisa, ou uma pergunta pessoal, caro amigo Wilson?

“Os dois, eu particularmente sou contra porque acho que o fato de determinar cota já é discriminação.”

Resolvo responder em público, pois desde 1988, vivemos aos trancos e barrancos na construção de uma democracia brasileira, que inclua a todos, e no nosso caso específico majoritário e universal, que inclua negros e indígenas nos processos de decisões dos destinos da nação brasileira

A discriminação nas relações sociais sempre existe, basta olhar em volta e vermos que somos todos diferentes. Agora tornar este discriminar, que é o classificar, o ver o diferente, em algo positivo é que são elas, em uma sociedade montada econômica, cultural, religiosa e socialmente na discriminação negativa de índios, negros e estrangeiros que não sejam europeus.

As cotas existem desde  o Brasil colônia, para pretos e índios a escravidão, para os outros, filhos de europeus, a cota da liberdade. Na república, as cotas de cidadania eram dadas aos alfabetizados, até quando os analfabetos, a maioria pretos, passaram a ter o direito de voto somente em 1985. O voto do analfabeto foi paradoxalmente defendido tanto por João Goulart, quanto Castelo Branco, que encontraram resistência e não levaram o projeto de “cotas”  de votos para os analfabetos adiante.

Cotas para empregos para negros começou com a lei dos 2/3 e a CLT, que garantia esta parcela de empregos para brasileiros natos, aí pretos passaram a poder ter trabalho e não só biscates (década de 30 e 40).

No caso dos migrantes japoneses, eles sofreram o pão que o diabo amassou durante a II Guerra, mas as cotas que receberam anteriormente garantiram as suas sobrevivências, pois tinham direito à posse de terras, como outros migrantes.

O mito da democracia racial brasileira, sempre escondeu que as melhores cotas foram sempre quase 100% para descendentes de europeus no Brasil.

O que fazemos desde a Frente Negra dos anos 30, é junto com o índios buscarmos a nossa parte nas cotas.

Só na minha faculdade na década de 70, éramos negros e índios apenas meia dúzia de 3 ou 4, éramos os cotistas escolhidos por nossas famílias, que tudo sacrificavam para que entrássemos nas faculdades.

De lá para cá lutamos para que o ESTADO BRASILEIRO reconheça o nosso direito às cotas também.

Como resultado desta luta, tenho o maior prazer de quando vou dar palestras em universidades, em ver dezenas de alunos negros e alguns indígenas na platéia de alunos.

Ver negros se formando em medicina, ainda me causa espanto. Tudo isto é resultado de cotas. Pois as nossas cotas foram recusadas desde o fim da escravidão. Os escravocratas não nos deram nem os direitos(cotas) trabalhistas.

Até hoje os filhos dos escravocratas fazem corpo mole com os direitos-cotas trabalhistas das empregadas domésticas.

Visto isto meu caro amigo, luto pelo direito de cotas, como uma necessidade premente para o resgate de milhões de negros e indígenas brasileiros, sem a inserção pela lei, teremos que esperar mais um século, o que será uma perda enorme pára todos os que vivem no Brasil.

Continuemos pensando.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s