Se a Cidade Alta tem um nome hoje, ela se chama Medo


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NOTA DA MAMAPRESS: Já é sabido que desde o desaparecimento brutal de Amarildo de Souza, que levou à condenação de 12 policiais militares envolvidos na morte sem corpo de Amarildo, que a desconfiança e o medo da população de favelas e comunidades tem aumentado a um ponto de destruição quase que irreversível, de boas relações entre cidadãos de favelas e a polícia militar.
Violências da PM  acontecem já há tempos.

Desde que inauguraram uma política de UPPs nas comunidades, que a princípio foi exitosa, o fato desta política de repressão, não ter sido acompanhada de ações sociais e de valorização da cidadania, de forma que se criasse um tripé auto-sustentável e duradouro de integração das favelas e comunidades na vida cidadã da cidade. A violência e ação repressiva da PM, só aumentou em Acari, Morro do Alemão do Alemão que tomamos como exemplos, onde ocorreram fatos recentes, como a morte da uma jovem dentro da escola em que estudava e,  o assassinato frio de dois jovens feridos e rendidos por dois policiais,  que foi filmado e visto pelo Brasil e o mundo. 

Com a violência policial a desconfiança em relação à PMRJ, da população das comunidades e favelas só aumentou. A ação da PM nas demonstrações populares desde 2013, com repressão excessiva, e que culminou no último 28 de abril, quando populares pacíficos  foram atacados, perseguidos, machucados e presos, sem avisos prévios, como numa ” BLITZKRIEG” alemã (guerra relâmpago-Tr. Red), só fez estender para a toda a cidade o clima de medo e desconfiança de toda a cidade em relação à PMRJ.

É necessário cabeça fria para se avaliar como todos nós do Estado do Rio de Janeiro chegamos a este ponto de violência.
O pequeno soldado da PM, que foi tão incentivado até com ganhos extras na instalação das UPPs, se sente agora abandonado ao deus dará, largado em “containers”, em que muitos nem telefone, nem internet tem, e quando muito, possuem um banheiro apresentável e com água.
Os cidadãos e cidadãs do asfalto, se sentem abandonados, quando leem o noticiário sobre o aumento da violência, que muitas vezes sentem na pele, ao perderem seus carros e parentes.
Mas quem está verdadeiramente abandonado hoje à noite e todos os dias, são os moradores de favelas e comunidades em todo o estado do Rio em menor ou maior grau.
Jornalistas e cidadãos do asfalto vão dormir enquanto os moradores de favelas e comunidades, permanecem lá sob ameaça e reféns de uma violência sem fim.

Os chefes dos comandos, não importam se estão nas prisões, também leem jornais, e se duvidarmos, têm redes de “Zaps” na internet, mais rápidas que as dos grandes meios de comunicação, que não pagam direito seus repórteres, que tem que usar pré-pagos para se comunicarem com seus “Smartphones”.

Eles sabem se aproveitar dos momentos de crise para expandirem seus negócios.

Todos os jornais deram que nesta madrugada, a Cidade Alta pediu socorro. Depois do caso Amarildo, é a primeira vez que ouvimos nos últimos tempos, que mesmo sob risco, uma comunidade chamou polícia. Isto é um fato inteiramente novo. 

Mas isto pode ter consequências para os moradores de lá, que passam a noite sozinhos e sem a proteção, nem da polícia nem o testemunho dos helicópteros das televisões.

A sociedade fluminense precisa repensar coletivamente sobre como parar esta guerra, que começou em 2013, que já deixou incontáveis mortos e feridos nas favelas e comunidades, mas que só agora todos tomamos conhecimento no asfalto.

Se a Cidade Alta tem um nome hoje, ela se chama Medo.

Anotado por Marcos Romão

Por um interlocutor anônimo por razões óbvias

Mamapress: Salve amigo, estamos recebendo mensagens daí,  desde a madrugada desta

Interlocutor: À noite surgiu rumores que a C.A. seria atacado pelo CV, para retomar o controle do território. A noticia se espalhou pela vizinhança e os moradores se recolheram. Por volta das 1:30h ouvia-se tiros esparsos, porém, por volta das 2:00h os tiros passaram a ser mais intensos, tivemos certeza que era a invasão ocorrendo quando passamos a ouvir sons de tiros diferentes, o que demonstra o uso de diversas armas ao mesmo tempo, ouvimos também muitas explosões.

Mamapress: manda a informação que transformamos em texto relato.

Interlocutor: Os sons dos tiros ficaram mais perto da minha casa. A cada tiro, sentimos as janelas e as paredes tremerem, procuramos o local mais protegido da casa.

Mamapress: Tenta lembrar de tudo, principalmente das sensações durante a ameaça mais direta na noite.

Interlocutor: Apagamos todas as luzes, passamos a ouvir vozes de homens ao lado de fora, na rua.

Mais tiros, minha esposa colocou as mãos nos ouvidos da minha neta, para que não ficasse tão assustada quanto nós.

Mamapress: Já ouvimos isto de outras áreas, deve ter sido brabo mesmo.

A nossa maior preocupação era que algum tiro atingisse a parede, perfurasse e atingisse alguém da família.

Todos deitaram no chão, o sentimento de impotência e fragilidade nestes momentos é muito grande

Imaginávamos que alguém poderia arrombar a porta na fuga trocando tiros e ferindo a família.

Os toques das mensagens dos grupos do zap não paravam, eram amigos querendo saber se a minha família estava bem, uma vez que pelo movimento do pessoal lá fora,  tinha vezes que minha casa ficava na linha de tiro.

Os amigos nos grupos moram em diversas partes da Cidade Alta e nas favelas satélites, cada um relatava os fatos ocorridos perto de suas casas.

Amigo. precisamos muito conversar, pois precisamos muito de gente de cabeça fria e responsável no Sos Racismo para lidar com a situação grave de ameaça direta que as comunidades com maioria de negros e pobres vivem.

Esta localidade tem cerca de 100 mil moradores, 5 escolas públicas, 2 colégios estaduais, um supermercado, umas 7 padarias, muitos bares, salões de beleza e corte de cabelo, lanchonetes e mercearias, armarinhos e lojas de roupas, umas 15 igrejas evangélicas, 1 igreja católica e 2 centros de candomblé.

Mamapress: Casseta! Esta visão ninguém mostra nos jornais!

Enquanto um falava que o filho estava chorando com medo, outros relatavam o choro das esposas e mães das crianças assustadas.

Mamapress: Vamos publicar somente as partes que não coloque ninguém em perigo.

Interlocutor: Quando um falava que na sua parte os tiros cessaram, outros relatavam e postavam que os tiros aumentaram na sua localidade

Conhecidos das favelas de Parada de Lucas informavam que tiros eram trocados lá também, o mesmo na favela Divinéia, Pica Pau e Cinco Bocas.

Muitos clamavam no zap por Jesus e outros por Deus.

Não só eu, mas todos os chefes de famílias e donas de casas afirmavam que estavam aterrorizados.

Nos diversos grupos do zap, havia momentos que ouvíamos motos e carros passando em alta velocidade.

As vezes ouvíamos os sons do motor e rangidos de lataria característicos dos Caveirões, depois alguém confirmava a subida da polícia, mas outros relatavam que mais de 100 bandidos armados subiam a rua principal da C.A., porém, os tiros não cessaram.

Por volta das 6:00 horas os tiros foram diminuindo.

Mas retornaram e permaneceram até as 10:00 horas da manhã, com a intervenção de um enorme helicóptero da policia.

A maior parte do comércio permaneceu fechado. Poucos se aventuraram a sair somente para trabalhar. Pessoas armadas e até feridas circularam durante todo o dia pelas ruas, o que provocava pânico nos moradores saindo ou retornando para casa. A impressão era que alguém o tivesse perseguindo e fôssemos alvo de tiros no confronto, bem como alguém ferido resolver entrar a força e se abrigar na nossa casa.

Só vimos a policia pela TV, mas na Cidade Alta não.

Interlocutor: Por volta das 16 horas, ninguém nas ruas, só quem vinha do trabalho, alguns moradores procurando a única padaria que ousou ficar aberta para comprar pão, pois não se sabe se será possível fazer isso ao amanhecer.

Os pães franceses se esgotaram e os pães de forma também. Andando nas ruas, pode-se visualizar diversos furos de tiros de várias espessuras nas paredes dos prédios, carros perfurados e muito medo na localidade, porque muitos moradores foram vistos conversando com pessoas da facção rival que expulsou a que está tentando retornar.

Pois estes mandaram uma lista daqueles de quem eles  se vingariam quando retornassem.

Tememos um banho de sangue.

Interlocutor: Algumas famílias já desceram com malas a Cidade Alta.

São famílias de bandidos que eram de uma facção e pulou (passou) para a outra. São famílias de pessoas estimadas na comunidade, mas por causa do envolvimento de parentes, correm o risco de serem mortos.

Interlocutor: A tristeza e o temor não é só por causa da minha vida e da minha família e amigos que nunca tiveram na família alguém envolvido, mas pela vida de gente honesta, que cresceu junto, brincou, trabalhou, solidarizou que correm o risco de perder os bens a a vida, sem ter nenhum amparo da segurança estatal.

Interlocutor: Esses são os temores de todos.

Mamapress: precisamos muito conversar, pois precisamos muito de gente de cabeça fria e Interlocutores que descrevam a vida real das famílias que tem que enfrentar todo dia situações de guerras como estas.

Interlocutor: Esta localidade tem cerca de 100 mil moradores, 5 escolas públicas, 2 colégios estaduais, um supermercado, umas 7 padarias, muitos bares, salões de beleza e corte de cabelo, lanchonetes e mercearias, armarinhos e lojas de roupas, umas 15 igrejas evangélicas, 1 igreja católica e 2 centros de candomblé.

Mamapress: Casseta! esta visão ninguém mostra nos jornais!

Interlocutor: Desde que houve a tomada do território do CV pelo TC de Lucas, há 6 meses, a localidade nunca mais foi a mesma, há muito medo por toda a parte, pois ataques repentinos e tiroteios se tornaram frequente e a morte de inocentes também!

Crianças não mais brincam nas ruas e Jovens não mais se reúnem em grupos de conversas, os casais não mais namoram nos cantos e quem gosta de fazer lanche com a família não sai mais.

Os boêmios locais não se atrevem a tomar a sua cerveja e cantarolar e dançar além das 20:00h.

Em razão disso tudo, da falta de segurança e instabilidade da paz, e por consequência o pouco movimento de pessoas nas ruas, muitos comerciantes fecharam as suas portas e muitos ficaram desempregados neste momento de crise geral.

Se a Cidade Alta tem um nome hoje, ela se chama Medo.

Interlocutor: Acho que é tudo que eu pude passar no momento.
Todos trancados em casa. Ninguém nas ruas, nem os policias policiam;
Sensação de cidade fantasma
Isso é tudo por hoje…Até agora.
Mamapress: Boa sorte na noite, que sua família se mantenha protegida e não aconteça nada. Mantenha-nos informados.

 

 

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Um pensamento sobre “Se a Cidade Alta tem um nome hoje, ela se chama Medo

  1. Pingback: A crise quando vem, pega todo mundo, inclusive o crime | Mamapress

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