OBSERVAÇÕES DE UMA TESTEMUNHA OCULAR DA HISTÓRIA SOBRE A MANIFESTAÇÃO DE 28-04-17


ASSEMBELIAPor Silas Ayres, Cientista Social, 72 anos, carioca do subúrbio, morador da Glória

Desculpem pelo textão, mas não teve jeito.
Em primeiro lugar, foi uma manifestação mais do que justa. Não se pode ficar vendo um governo participante, em sua grande maioria, de todas as maracutaias ocorridas nos últimos anos dar uma de salvador da pátria, às custas dos mais pobres do Brasil. As tais maracutaias nos levaram talvez a
maior crise depois da República Velha.
Em segundo lugar, não é hora das centrais sindicais (também em sua grande maioria nada fizeram diante do descalabro econômico e social) fazerem showmício como forma de protesto. Protesto é nas ruas.
Com este sentimento fui para a Assembleia Legislativa, junto com alguns companheiros da velha guarda (com alguns mais jovens) dar apoio, quase moral, aos que organizaram o ato de repúdio às últimas medidas deste governo.
O bom destas manifestações é o reencontro de velhos amigos, ainda com energia para enfrenta os discursos intermináveis, mas definidores da situação da conjuntura atual. Foi muito bom encontrá-los.
A programação era de sair da Assembleia rumo à Candelária, depois pegar a Avenida Rio Branco e chegar à Cinelândia para o ato das centrais sindicais. Diante da precariedade da condição das nossas colunas, rsrsrrs a nossa opção foi irmos direto para a Cinelândia, quando os manifestantes iniciaram a marcha.

A NOVA RETIRADA DE LAGUNA

PRIMEIRA ETAPA
Mal tínhamos caminhado uns 50 metros, ouvimos a primeira bomba. O grupo, diante da correria devido ao forte cheiro de gás, se dispersou. Alguns entraram no edifício central, outros rumaram para a Cinelândia e alguns voltaram para ver se encontravam os retardatários. Encontrando-os fomos sob forte cheiro de gás lacrimogêneo até a estação do metrô da Carioca, onde alguns com saúde mais delicada foram colocados no metrô e os outros seguiram para a Cinelândia, ouvindo as bombas que pareciam andar junto com os manifestantes em retirada. Chegamos ao Verdinho, onde estavam os primeiros dos nossos retirantes. Doidos para um chope para relaxar, sentamos, por muito pouco tempo, pois a PM já cercava toda a praça.
SEGUNDA ETAPA
A PM chegou com tudo, disposta acabar, com mais bombas, a concentração na frente da Câmara de Vereadores. Pagamos (afinal somos cidadãos honestos) e tentamos sair pelas ruelas adjacentes à praça. Não deu, o cerco já era grande, retrocedemos e pegamos o passeio público em direção à Lapa.
O ar se tornava irrespirável.
Nos refugiamos no restaurante Ernesto, tradicional no acolhimento de pessoas que fogem da repressão, desde da jornada de junho de 2013. Quando o clima lá fora esquentou mais ainda, dezenas de pessoas foram acrescentadas aos que lá já estavam. Talvez por serem bens jovens, instalou-se certo pânico, mas que foi debelado pela intervenção brilhante da nossa companheira L.M. que botou ordem no terreiro.
Lá de dentro, víamos pessoas correndo e ouvíamos os barulhos das bombas. De repente, vimos um ônibus arder (o trânsito estava totalmente parado), outros ônibus em fila começaram também a pegar fogo. Logo, um dos ônibus em frente ao Ernesto explodiu. O cheiro de gás começou a ficar insuportável, além do calor do ônibus incendiado ameaçar a estourar os vidros das janelas do restaurante. O dono, muito solidário, deu-nos uma rota de fuga por uma porta dos fundos. Pegamos a Joaquim Silva.
TERCEIRA ETAPA
Saímos cautelosamente e fomos em direção à Glória. Informações nos chegavam dizendo que a PM já estava lá, mas mesmo assim seguimos até a Rua Faro, quando fomos impedidos de continuar devido a várias bombas lançadas da Rua da Glória. Recuamos, mas as bombas já caíam também na nossa retaguarda. Para dezenas de pessoas que tentavam sair daquele inferno, só restou procurar abrigo no Motel Viña Del Mar. O espanhol, o gerente, dono, não sei, muito atencioso, nos deixou entrar, só fechando a porta quando não mais havia alguém na rua. Ficamos lá até os barulhos das bombas diminuírem.
QUARTA ETAPA.
Voltamos para Joaquim silva, pegamos a Conde Lages, a Rua da Glória, passando por muitos carros da PM (depois soube que os PMs dispersaram o pessoal que bebia na calçada do restaurante Vila Rica) e chegamos, finalmente, na Taberna da Glória, o último refúgio dos moicanos, depois de mais de quatro horas sob forte repressão. Recebidos pelo coro malicioso: chegou o pessoal do motel. Depois de tudo isso, não havia mais nada a não ser dizer: garçom uma cerveja, desce duas, desce mais.
Taberna cheia dos “sobreviventes”, ainda teve a oportunidade, ao ver passar um comboio da tropa de choque, de gritar: Não acabou, não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da Polícia Militar!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s