Falece Eliane Borges, a Mãe da Internet Preta do Brasil. Ela criou no ano 2000 a “Lista de Mulheres Negras” do Yahoo


Por Marcos Romão

Casseta, acabo de receber a notícia via Berlim, do Ras Adauto, que Eliane Borges faleceu. Procurei o perfil no Facebook de minha amiga e li a notícia confirmada por seu irmão Elieser Borges.

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Em um momento em que saber lidar com a internet e os instrumentos digitais, é tão importante para garantir através de comunicção rápida, a sobrevivência física, espiritual, cultural e mental das mulheres negras, dos jovens e dos homens negros do Brasil, é sempre bom lembrar para quem acha que acaba de inventar a roda, o papel, que teve esta ainda jovem mulher na construção das redes sociais na internet do Brasil. Eu sempre a denomino, como a MÃE DA INTERNET PRETA DO BRASIL!

Eliane Borges com seus Deuses das Comunicações, abriu as portas do 3º  Milênio para milhões de negras e negros no Brasil.

Sem o domínio deste meio de comunicação digital, digo que não teríamos conquistado as COTAS para negros e índios no STF em 2012. Digo também que sem o conhecimento compartilhado dos instrumentos digitais, que as nossas conexões geraram, seriam 10 vezes mais, os jovens negros assassinados pelos esqudrões da morte racistas do Brasil.

Eu estava em Hamburgo no ano 2000, montanto da Rede Rádio Mamaterra na internet, quando Ras  Adauto me falou que tinham uma jovem negra no Rio que montara um grupo na internet chamado “Lista de Mulheres Negras“, para contatos entres ativistas negras no Brasil e no mundo.

Me mandei para o Brasil e conversei com ela. Neste momento nasceu uma conexão Brasil Alemanha, qu foi peça fundamental, para milhares de contatos e ações de ativista negras e negros do Brasil e do mundo.
A rede de cidadania e comntra o racismo,  Rádio Mamaterra deve muito a ela. Hoje que a internet  entrou na vida de todas e todos, nós negras e negros do Brasil e do mundo, devemo homenagerar Mãe Negra da Comunicação Digital no Brasil.

Foi via “Lista de Mulheres Negras” criada por Eliane Borges, que junto com Sandra Bello e Ras Adauto, fizemos uma das maiores campanhas mundiais, de apoio ao Conselho de Brasileiros no Mundo, do qual eu fui eleito o primeiro representante, dos brasileiros na Alemanha eleito online, junto aos governos do Brasil e da Alemanha, que teve como um dos maiores resultados o Acordo Internacional de Previdência Social, que garante da contagem de serviço para fins de aposentadoria, para todas e todos os brasileiros da Alemanha, que são a maioria mulheres e entres as mulheres, a mioria que trabalha na Alemanha, são mulheres negras.

Através da “Lista de Mulheres Negras”, pude manter o contato com o Brasil, e ministrar para todo o Brasil, as experiências acumuladas pelo Sos Racismo do IPCN, que tive que abandonar à pressas ao fugir do Brasil em 1989. Salvei da morte física pegando o avião, e salvei-me da morte cultural, espiritual e política, me associando à inciativa de Eliane Borges.

Eliane Borges, meu muito obrigado, meus mais de vinte anos de trabalhador na Alemanha, estão contando para minha futura aposentadoria. Com os seus contatos, pude pude também recriar o Sos Racismo Brasil online.

Para você um parágrafo escrito sobre você, por Adriana Baptista na Mamapress,  numa festa da Fundação Palmares:
Morri de inveja do modelito e acessórios da Eliane Borges!!!! Era uma mistura de vermelho com azul, batom combinando com o colar… uma coisa! (amiga, me diz aonde vc compôs esse visual!).”

Que os caminhos no Orum iluminem as nossas comunicações na Terra.

A seguir a postagem no pefil de Eliane Borges, feita por seu irmão Elieser Borges, nos comunicando seu falecimento em Santa Catarina:

Eliane Borges vive!

Amad@s amig@s

Aqui quem escreve é o irmão de Eliane, Eliezer, que mora em Curitiba. Eliane e nossos pais estavam aqui em casa, desde dezembro, para continuidade de seu tratamento, em razão de melhores condições logísticas para que pudéssemos lhe dar assistência e aconchego familiar. Quis o destino que esse período fosse breve, embora tenha sido intenso e tenha unido ainda mais a família, da mais jovem (Beatriz, minha filha) ao mais idoso (Egydio, nosso pai). Recriamos um núcleo familiar cheio de amor e carinho, que ela retribuía com sua perseverança, seu sorriso, seu eterno esforço de não nos preocupar tanto.
Comovidos e agradecidos com as centenas de manifestações de carinho, de amigos e familiares de nossa querida Eliane Borges da Silva, todos destacando a pessoa serena, solidária e generosa que era, agora que tivemos acesso ao seu computador decidimos utilizar esse espaço para preservação de sua memória e para compartilhar palavras e imagens que temos recebido por múltiplas fontes. Eliane tinha uma extensa rede de relacionamentos, no Brasil inteiro, e mesmo no exterior. Não consigo dar conta, especialmente neste momento difícil, de dar a eles (que tentam entrar em contato) a merecida atenção. Creio que aqui fica mais fácil de preservar os contatos, centralizar as informações, compartilhar boas lembranças. Isso conforta a todos nós e certamente ameniza a nossa dor.
Eliane teve uma vida muito feliz (do primeiro ao último dia de vida), cercada de familiares e amigos que verdadeiramente a amavam. Recebeu conforto, amparo e solidariedade em todos os momentos de sua existência (nos bons – e formam muitos – e no desconforto dos últimos anos) e, por isso, vamos fazer um esforço para mais celebrar sua inesquecível existência do que lamentar nossa muito dolorosa perda.
Amanhã, dia 30/04, domingo, às 18 horas, participaremos de uma missa de sétimo dia, aqui em Curitiba, na Igreja São Francisco de Paula, na rua Desembargador Mota. Na terça feira, dia 02 de maio, eu, pai e mãe seguimos para o Rio de Janeiro. De lá sairemos apenas no dia 10, carregando a mudança para o Curitiba, onde já havíamos alugado um apartamento – com a concordância e o entusiasmo da Lili – exatamente em frente ao prédio onde moro.
A nova morada, uma extensão de nossa casa, estava entre um dos últimos projetos da Lili, que agora daremos continuidade com nossos pais, que também necessitam de acolhimento, cuidados e assistência. Desde logo, deixamos à disposição de todos vocês nossas casas em Curitiba, para quando quiserem nos visitar, e lembrar de tantos momentos felizes que passamos com a Eliane. Não nos abandone. Aqui às vezes faz frio, mas o calor humano (especialmente com Dona Gildete presente, com seu Egydio em sua serena sabedoria, e com a chama de Eliane eternamente acesa) acalentará todos vocês.
Vamos marcar uma missa, no domingo seguinte, dia 7 de maio, numa igreja em Copacabana (a confirmar local e horário), onde poderemos receber o abraço de tantos amigos e familiares que lamentaram não ter tido a oportunidade de fazê-lo, por ocasião do falecimento. Será também uma oportunidade de agradecer a todos vocês, familiares e amigos, que tanto nos apoiaram, em todas as horas. E durante a semana em que estaremos no Rio, em meio à inevitável resolução de pendências burocráticas e operacionais, estaremos em nosso apartamento da Santa Clara para um abraço aos que lá desejarem ou puderem nos encontrar.
Por favor, fiquem à vontade para aqui compartilhar depoimentos, registros e imagens em homenagem à inesquecível Eliane Borges. Será uma forma de lembrar que Eliane ainda vive, nos corações e nas mentes de todos nós.
Um abraço afetuoso a todos vocês.

Eliane Borges.jpg

Eliane Borges

E a postagem do Parceiro da Mamaterra, jornalista Ras Adauto, que nos resume a importância que teve Eliane Borges entre todos nós brasileiros e brasileiras do mundo:

A ativista preta que me salvou do sufoco da distancia
Hoje cedo lendo coisas no facebook encontrei uma notícia que me deixou muito triste. O falecimento de Eliane Borges no Rio de Janeiro.
Eliane foi muito e muito importante para mim e muita gente. Pra mim, especificamente, pois me salvou de uma situação perturbadora e angustiante que me encontrava quando resolvi ficar morando em Berlin em 2000.
Eu não poderia deixar a Katharina sozinha aqui com o Leon recém nascido e me picar fora. Não. Fechei o círculo e corremos atrás para montar a nossa família. Até aí muito bem.
E foi aí que minhas angústias começaram. Não foram as questões de todo um processo de adaptação e integração que eu teria que passar num país completamente desconhecido e avesso do meu, uma língua maluca e complicada que eu tinha que aprender o mínimo pelo menos e como arrumar trabalho numa situação dessa em terras estrangeiras. Não. O que me angustiou era como eu iria me comunicar e ficar atento aos movimentos que eu fazia parte no Brasil, movimento negro e indígena, movimentos culturais artísticos, etc. E agora, Adauto?. Isso me deixava em pane. Ficar telefonando, impossível. Como eu iria me comunicar com tudo isso?
Estávamos naquela fase da “santa internet”, dos e-mails. E um dia recebi um e-mail de alguém me falando de um “grupo de mulheres negras” no yahoo, o grupo de mulheresnegras@ yahoo.com. Aquele caiu como uma bomba em mim. Mas eu fiquei quase 10 dias pensando em pedir uma inscrição no grupo. Isso porque eu sempre tive a posição de não querer interferir de maneira nenhuma em grupos, organizações ou movimentos de mulheres; só se me convidam ou solicitam em alguma coisa e mesmo assim fico respeitando os espaços e só me pronuncio, quando se precisa. E foram 10 dias de grandes ansiedades, nao dormia nem direito. Até que um dia resolvi tentar alguma gesto em direção e escrevi uma notinha tímida, pedindo a minha inscrição no grupo. No mesmo dia veio uma resposta bonita e incentivadora da gerenciadora do grupo, Eliane Borges, aprovando a minha entrada no grupo.
E foi aí que se abriu um mundo todo de pessoas que eu já conhecia do movimento negro do RJ e tantas outras mais que eu não conhecia, como Deise Benedito, Edna Roland (da Fala Preta), Alzira Rufino (Casa de Cultura Mulheres de Santos) e uma infinidades de ativistas e militantes em todo o pais. A partir todo dia eu recebia dezenas de notícias sobre tudo o que estava acontecendo com as mulheres negras e com o movimento negro como um todo. A caixa de pandora tinha sido aberta, aquela bendita caixa preta que me salvou do estresse e me aproximou, mesmo longe dos movimentos que eu pertencia no Brasil.
Quando fui ao Brasil, fiz questão de encontrar com a Eliane e abraca-la fortemente (ele ficou até espantada com o minha euforia) e disse para ela que naquele momento de minha vida ela era uma das pessoas mais importantes, pois tinha me tirado de um problema enorme de comunicação. E sempre que podia quando ia ao Rio, fazia questão de encontrar com ela. Ou mandava mensagens pela internet.
Hoje soube que ela faleceu e me entristeceu muito. Uma perca muito grande para todo o movimento de mulheres negras e dos movimentos anti-racistas no Brasil.
E ademais Eliane era uma grande intelectual e doutora em Educação.
Como disse uma vez a ativista Tereza Santos (também já falecida): tem sempre uma mulher negra abrindo os caminhos. Eu acredito nisso. E Eliane Borges foi uma dessas. Temos que lembrar e contar sempre de nossas histórias
Vá em paz, querida! Muito obrigado por tudo eternamente,
negra panther

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Um pensamento sobre “Falece Eliane Borges, a Mãe da Internet Preta do Brasil. Ela criou no ano 2000 a “Lista de Mulheres Negras” do Yahoo

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