A VELHINHA QUE SABIA TUDO DE COMUNISMO


 Por  José Sergio Rocha

djanira
(Na ilustração, os Operários, de Tarsila do Amaral)

No dia 7 de março de 1990, liguei para Osvaldo Maneschy, ex-colega e amigo dos tempos do JB da Condessa. Ele já atendeu o telefone adivinhando o que eu queria:

– Já sei Tás querendo carona amanhã para o cemitério! Morreu o Prestes, né? Que merda, hein? Tantos filhos das putas (só o Maneschy coloca plural nesta expressão carinhosa) no mundo e vai morrer logo o velho Prestes! Puta que pariu!!!

Apesar da torrente de palavrões, todos foram ditos em voz baixa, sumida, quase chorosa, como se já estivesse no velório. Sim, meu amigo Maneschy não estava praguejando. Os palavrões foram vertidos como lágrimas.

Maneschy não é daqueles pedetistas que tinham adesivo do Brizola no vidro traseiro do carro até hoje. Colocou também no dianteiro e no retrovisor, no bolso da camisa e em cada porta de sua casa.

Quando Brizola morreu, pegou o avião seguinte ao que levou o corpo do líder trabalhista a São Borja. Mas nunca digam ao Maneschy que o Brizola morreu. Desde que tal fato foi noticiado na imprensa, ele atribui a “falsa informação” a uma campanha promovida por “interesses transnacionais”.

Voltando ao dia 7/3, assim como eu, ele já tinha compromisso para o dia seguinte: acompanhar a última marcha do Cavaleiro da Esperança. A bordo da hoje aposentada Brasília amarela, ou melhor sépia, chegamos ao São João Batista lotado de gente, cheio de velhos e novos militantes comunistas, inclusive alguns que o expulsaram da Secretaria Geral do Partidão.
Teria sido uma cerimônia singela, sofrida e austera, última homenagem ao velho combatente, se não fossem as intervenções de uma senhora de oitenta e poucos anos.
Alguns discursos foram ouvidos por nós, que estávamos a poucos metros da sepultura, sempre acompanhados pelo refrão “De Norte a Sul/ De Leste a Oeste/ O povo inteiro grita/ Luiz Carlos Prestes!”.

Como de praxe, começou a chamada de alguns nomes de comunistas já falecidos, muitos deles assassinados pelo regime militar:

– Orlando Bonfim!

– PRESEEENTE! – respondeu aquele povo todo, em uníssono.

– Davi Capistrano!

– PRESEEENTE!

– Luís Inácio Maranhão!

– PRESEEENTE!

Até agora, nomes conhecidos. Foi então que as surpresas começaram. A velhinha puxou da memória mais nomes:

– Olga Benário! – berrou a senhora, de aspecto humilde, aquela Pasionária, quem sabe uma militante dos anos 40-50 esquecida de todos.

– PRESEEEENTEEEE! – este foi o mais emocionado dos coros. Jamais alguém lembrara da primeira companheira do Prestes e mãe de sua primeira filha, Anita Leocádia.

Uma explicação: nos atos públicos durante a ditadura, era comum se fazer a chamada dos mortos. Dependendo da manifestação, eram citados apenas os militantes assassinados durante o período militar. A alemã e judia Olga Benário, primeira companheira de Prestes, morrera num campo de concentração na Europa, com a conivência do Estado Novo getulista.

No entanto, já não vivíamos sob ditadura em 1990 e a grande figura de Olga Benário se tornara mais conhecida de todos, desde a publicação da biografia escrita por Fernando Morais. Pensando bem, já que aquele era o enterro de um combatente de duas ditaduras, nada mais justo do que acrescentar ao listão nomes antigos como o de Olga.
Os sorrisos se abriram. Como é que ninguém havia pensado nisso antes? A velhinha, de voz poderosa, prosseguiu:

– Serafim de Oliveira!

– PRESEEENTE!

– Manuel da Silva!

– PRESEEENTE!

– Francisca de Souza!

– PRESEEENTE!

Os comunas mais antigos se entreolhavam. Tinham a mesma idade da puxadora do coro ou quase, e pareciam constrangidos. Quem eram essas pessoas que nem mesmo eles conheciam? Seria a velhinha tão das antigas e importante que lembrava até dos codinomes do tempo do Getúlio?

Na dúvida, todos diziam:

– PRESEEENTE!

Mas tinha gente segurando o riso e soprando baixinho no ouvido dos outros:

– Kananga do Japão…

Tava explicado: tirando Olga Benário, revivida na novela “Kananga do Japão” por Betina Viany, os demais eram personagens (fictícios) do núcleo dos comunistas da novela exibida na época pela TV Manchete.

A cerimônia foi encerrada logo em seguida. E a “veterana comunista” foi tirada de cena pelo neto, que se desculpou:

– É que a vovó não perde um capítulo!

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