Carta de amor às minhas gentes brasileiras.


Niterói, 14, Sexta-feira da Paixão de Abril 2017

Carta de amor às minhas gentes brasileiras.

Inicialmente me apresento:

Sou um intelectual negro brasileiro de 64 anos de idade.  A maioria de minhas amigas e amigos negras e negros, com quem comecei a fazer meu Brasil de todas as gentes na década de 70,  estão mortos de susto, bala ou vício e nunca gozarão de aposentadoria nem do Brasil que nós sonhamos.

Repetindo o ativista negro Hélio Santos, eu sou um espermatozóide negro que deu certo e sorte, em chegar ao tempo de vislumbrar gozar a lei do sexagenário.

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Marcos Romão com sua Vuvuzuela no Mar Báltico

Eu sou a soma de todas essas gentes e de todas as pessoas que conheci e convivi no Brasil e no mundo. Sou o que nós fizemos e humilde, como um garoto que nasce todos os dias, bato a cabeça para tudo de bom que aprendemos a fazer de bom por nossas gentes.

Por ser um homem negro brasileiro, que conseguiu chegar vivo aos 64 de idade, com uma sobrevida da minha dignidade, graças a solidariedade de pessoas em três continentes, me sinto sinto responsável e na obrigação de informar ao meu único neto e a todos os brasileiros e brasileiras, que pode-se continuar a amar as nossas gentes, sem necessitar de maracutaias e destruir os sonhos que temos quando jovens, por conta de se chegar à velhice de forma compassiva e afirmando que o mundo da política é em si corrupto e nada se pode fazer contra a maré, pois só camarão que não nada,  é que a água leva.

Em junho de 2013 a nação brasileira saiu às ruas num arroubo de orgulho e autoestima, para afirmar o que queria para todas as gentes de todas os gêneros, cores, religiões e classes.

A grande lista de reivindicações ainda estão escritas nas cartolinas improvisadas e as demandas são milhares. Em resumo nós queremos tudo.

Nós as gentes brasileiras, queremos um tudo que é quase nada.

Queremos um tudo que se resume à queremos respeito, cidadania e dignidade humana.

Em junho de 2013, milhões de pessoas em todos o estados dos Brasil foram para as ruas sabendo o que queriam. Queríamos e queremos uma mudança total, no sistema de representação das gentes brasileiras, para a tomada das decisões do rumos da nação.

Em junho de 2013 conseguimos depois de 513 anos dizer nas ruas, que nós queremos ser finalmente um povo sem segregações internas, que nos alijem do saber para onde levam o Brasil e, em que todos participem do poder de decidir sobre o que é melhor para todos e todas.

Em junho de 2013, as gentes brasileiras demonstraram com o exemplo dos centavos, que nos vinte centavos que as empresas de transportes do Brasil levavam, estava a raiz do cancro corrompedor do projeto de nação brasileira, em que o mais simples representante eleito, que é um vereador, assim como os juízes e procuradores, já têm garantida ao assumirem um posto, as suas primeiras propinas, que o viciarão até chegarem ao senado, ao STF ou à presidência da república.

Em junho de 2013 todos pudemos ver, que os vinte centavos, estavam sendo retirados da saúde, da educação, do saneamento básico e dos investimentos essenciais da nação e colocados nas mãos e bolsos de uma camarilha com verniz de direita ou de esquerda, mas que de político nada tinham e sim de ladrões e estelionatários da pior espécie.

A reação ao grito desconfiado de nossas gentes, dos até então governadores só suspeitos de ladroagem, foi terrível. Os governadores com suas polícias e milícias baixaram o cassete na população, a chamando de terrorista.

De junho de 2013 para cá, nós as gentes brasileiras, só estamos levando porrada, nas ruas e assistindo a constituição sendo rasgada a toda hora, por juizes do supremo, pela grande imprensa e por parlamentares que deveriam defendê-la.

De 2013 para cá, nós as gentes brasileiras estamos sangrando sob a vigência de uma república ditatorial casuística e mediática, sustentada pelas tropas de governadores presos ou com os pés na prisão, e pela tropas especiais de uma Brasília acéfala, sem legitimidade e sem rumo.

Minha declaração de amor as gentes brasileiras é por estarem mantendo a calma diante deste caos e, por não estarem partindo para uma guerra que não interessa às gentes brasileiras, pois a guerra contra as gentes brasileiras já está acontecendo em cada bairro e em cada esquina do Brasil, que vive uma ditadura difusa, em que só o nosso bom relacionamento com os vizinhos, podem nos garantir a vida e o olhar da janela sem levar um tiro…
Os canalhas querem e fazem a guerra, onde faturam e nos matam. Nós as gentes brasileiras queremos finalmente a paz, que nos traga cidadania e dignidade.

Minha declaração de amor é para as gentes originárias da Terra Pindorama, quilombolas e sem terra, que esperam dede 1988 que a constituição seja cumprida e tenham suas terras regularizadas e demarcadas e, que aguentam e resistem ao agronegócio com seus capangas, juízes e pesticidas e,  às megalônicas e faraônicas obras de Belo Monte e outras do tipo, em que a esquerda anacrônica desenvolvimentista imita a direita caquética, também defensora de um desenvolvimento insustentável.

Minha declaração de amor é para as gentes negras, que vêem sangrar ao milhares, a sua juventude nas ruas e escolas das periferias, vítima de uma política nacional racista e corrompida, que arrasa com o sistema único de saúde e pauperiza as universidades federais, agora que com as cotas, alguns negros conseguiram entrar.

Minha declaração de amor é para as gentes mulheres, que resistem com dignidade, à avassaladora onda de violência estimulada por parlamentares defensores do estupro e da tortura dentro do recanto do lar. E amor, respeito e dignidade vai para essas gentes mulheres, que como Cláudias são arrastadas por camburões até a morte, ou a  adolescente Maria Eduarda morta dentro da escola que frequentava.

Declaro meu amor aos velhos que lutam. Que vão para as ruas tomar porradas juntos com os jovens e, que não resignaram diante das filas dos hospitais públicos sucateados, das pensões não recebidas e das migalhas de benefícios cortados por uma canalha, que tem nosso dinheiro guardado em contas secretas, até em Singapura.

Declaro meu amor aos homossexuais, às lésbicas e a todos os gêneros de pessoas, que estão sendo perseguidas pelos moralistas em todos os cantos do país, e ousam confrontar-se com um sistema cultural brasileiro, masculino, heterossexual, branco e moralista.

Declaro meu amor a todas estrangeiras e estrangeiros que buscam o paraíso no Brasil e, aqui deparam com o xenofobismo tosco e racista, em que somente o migrante branco europeu é bem recebido pelas instituições e mesmo assim ficam, porque se sentem acolhidos por nossas gentes brasileiras.

Minha grande declaração de amor é para as gentes jovens brasileiras, que me dão razão de viver ao vê-las enfrentarem os escrachos feitos pelas polícias e Caveirões e que veem a morte diante dos olhos, a cada tique do dedo nervoso do policial abandonado à própria sorte.

Me dá uma grande febre de amor quando deparo com uma jovem ou um jovem, que apesar da lavagens cerebrais recebidas através das redes de televisão, pastores e grupos de extrema direita, ainda apostam e acreditam em uma sociedade multiétnica, com equidade e onde todos tenham o mesmo direito de exercerem suas qualidades e diferenças.

Amo enfim, todas e todos os defensores das liberdades democráticas, que estão sendo perseguidos pelas máfias travestidas de partidos políticos que tomaram de assalto o Planalto Central e não possuem a mínima legitimidade para nos governarem.

Declaro meu grande amor à possibilidade, em que mesmo com toda a informação cruel que estamos recebendo, possamos juntar todas as nossas gentes, para finalmente sermos um povo, em que cada gente proteja a outra gente.

Daí então vamos voltar a ter autoestima e a gostar de sermos brasileiras e brasileiros novamente.

Passaremos a  proteger e regulamentaremos a nossa constituição de 1988 e, protegeremos todas e todos os cidadãos discriminados e perseguidos até a morte por suas cores, religiões, gêneros, sexo, credo políticos e opiniões.

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