Fidel, como Mandela, continuará vivo enquanto houver algum povo subjugado no mundo.


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foto: Russia Insider

 

Por Filipe Juliano*

Fidel Castro venceu o imperialismo norte-americano nas barbas do Império. Cuba restou sozinha após o fim da Guerra Fria e ainda hoje vive em estado permanente de guerra, ameaçada pela única grande potência do mundo. O bloqueio, a vigilância constante, a ameaça de sabotagens e atentados, a ocupação em Guantánamo são fatos desta guerra. Fidel, desde os anos 60’s, escapou de mais de 600 tentativas de assassinato. Venceu invasões, guerrilhas e outras várias agressões à Cuba. Isto obviamente com o sacrifício e o protagonismo de boa parte do povo cubano. A maior parte destas agressões é da conta das ditas democracias ocidentais.

Fidel foi responsável por um Estado revolucionário implacável com contra-revolucionários? Comandou um Estado totalitário que perseguiu gays e impediu direitos e liberdades garantidas para uma parte da população de alguns países ocidentais? Sim. Assassino e totalitário como, em sua medida, são ou foram todos os Estados. Contraditoriamente, se há um pouco de democracia na América Latina muito se deve agradecer a sua iniciativa, que abrigou e formou centenas de ativistas latino americanos.

Todos sabemos que Cuba conseguiu erradicar a fome, o analfabetismo, a desnutrição infantil, etc. etc. etc. E isto apesar do bloqueio e da satelitização pela URSS – um termo estelar para a colonização no bloco socialista. O bloqueio: o isolamento econômico que é causa da penúria cubana, talvez seja, também, principal causa de sua vitória contra as mazelas que ainda temos aqui.

O embargo americano só pode ser comparado na história ocidental ao isolamento bicentenário do Haiti depois de ter derrotado todas — TODAS — as potências europeias da época. Com a ressalva de que Cuba recebe humanitariamente os restos de frango, pele, pé e pescoço de alguns países ricos. O Haiti nem isso. A normalização das relações com os EUA poderá ser o último capítulo da vitoriosa história cubana que começa com a sua independência da Espanha e depois do próprio EUA. Cuba poderia estar colonizada pelos americanos como Porto Rico até hoje está.

A cara dos detratores de Fidel fica nítida em seus argumentos, ou na falta deles. Quando se ataca o regime cubano pouco se fala do que talvez seja o seu maior problema: o racismo. Cuba, apesar de negra, não possui negros em altos postos. Não é necessário dizer que os negros estão lá mais vulneráveis à pobreza e à violência estatal. Muito semelhante ao Brasil na distribuição do poder, no imaginário, e na violência contra a cultura e autonomia negra.

No entanto, e pra complicar tudo de vez, foi Fidel quem abrigou várias lideranças negras e pan-africanas. Huey Newton, fundador do Partido dos Panteras Negras, fugiu para Cuba quando esteve em perigo. Eldridge Cleaver também. Angela Davis e Stokely Carmichael tiveram muito apoio lá. Assata Shakur, importante ativista negra e americana dos anos 70’s e a mulher mais procurada pelo FBI, vive em Cuba desde a década de 80: desde então nunca dormiu duas noites no mesmo lugar.

Cuba encarou o colonialismo na África em Cabo Verde, Argélia, Congo, Benin, nas duas Guinés e foi fundamental para impedir o avanço do Apartheid sul-africano pela África austral. Mandela venceu o Apartheid de dentro de uma solitária porque a África do Sul e os belos países que a apoiavam já haviam perdido em Angola, Zâmbia, Namíbia.

Aí está uma das poucas figuras de vulto e importância mundial comparável a Fidel Castro: Nelson Mandela. Dois libertários que após campanhas guerrilheiras vitoriosas – Fidel no MJ26 e Mandela como fundador e principal figura do MK – se tornaram grandes estadistas e que como tais não resolveram todos os problemas de seus países, mas se colocaram a frente da liberação dos povos. Fidel, como Mandela, continuará vivo enquanto houver algum povo subjugado lutando por sua liberdade no mundo.

 

*Filipe Juliano – antropólogo

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