A felicidade com um cozido de galinha depois de achar a Farmácia Cristal


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Por Marcos Romão

Quando jovem de idade, jamais teria imaginado sair alegre de uma farmácia, como se estivesse inebriado feito nos tempos em que eu frequentava discotecas.
Sim porque no centro de minha cidade de Niterói, pipocam novas farmácias com música ambiente, ar refrigerado com toda a sorte de ofertas, que o jovens de mais idade precisam para terem um conforto, em um mundo em que o SUS se desmantela.

Nas drogarias empoderadas, podemos encontrar de remédios para para pressão alta, a fraldas geriátricas e ofertas de compostos vitamínicos, que dizem que é bom até para Donald Trump e Michel Temer.
Nas portas tem sempre um rapaz de voz melodiosa, que anuncia, que hoje está em oferta, um composto de “carqueja com gingobiloba” e mel puro de abelha, que levanta até defunto no Planalto Central.

É tiro e queda, como se falava antigamente antes que os tiros causassem quedas reais.

Pois aconteceu que eu tivesse uma estada triunfal, a la Caubi Peixoto, na nova farmácia de nome Cristal na rua principal do centro de minha cidade.

Foi uma semana de exames médicos. Na segunda no Hospital Clementino Fraga no Fundão. Fiquei 2 dias irradiado e feito um Buda Iluminado, com a medicação para fazer a cintilografia óssea. Saí de casa às 6 da manhã e cheguei mareado em casa à 4 horas da tarde.

Quarta-feira, saí de casa novamente com o sol nascendo, desta vez tinha que ir até o Hospital Silvestre, lá em Santa Tereza, numa viagem ônibus, barcas e de novo ônibus. O que já está me viciando.

Quando chegava no centro de Santa Teresa, recebo um “zapzap” do médico da equipe responsável pelo meu futuro transplante de fígado, que informava que ele acabara de entrar na sala de operações para um transplante, que acontece sempre quando menos se espera.

Respirei aliviado, pois não teria que passar pela zona de guerra, que é no momento o triângulo composto pelas favelas da Coroa, do Fallet e da Mineira. Não tinha avisado minha companheira Ortrun sobre o perigo, e foi bom assim, já que não teríamos mais que passar por lá.

Descemos no Largo do Guimarães, pegamos um bonde novinho em folha e demos uma de turistas por alguns minutos.

Foi um passeio agradável, com direito a um bate-papo, com o motorneiro, o Ronaldo que eu conhecera 30 anos atrás, quando levava Jorge e Rita no bonde. Agora felizmente o bonde de Santa Teresa voltou e ele transporta meu netinho Inácio, filho da Rita, que sempre adorou o bonde desde criancinha.1-bonde

Na estação da Carioca, fizemos nosso pequeno almoço, com o cuscuz e a salada de frutas que trouxéramos de casa, pois com os preços que comer na rua estão, é melhor pro bolso e prá saúde andar de marmita, nestas peregrinações que sou obrigado a fazer para me tratar.

Depois de caminhar até a Praça XV, pegamos as barcas de volta para Niterói, pois já estava cansado. Tinha ainda que comprar o remédio para me preparar para a colonoscopia, que faria na quinta-feira de manhã.

Ia ser jogo rápido, pensei. Meus amigos e amigas já haviam me doado a verbinha para o anestesista, que descobri que se paga por fora e em dinheiro, pois não aceitam cartão, e sem pagar não rola nenhum procedimento médico. Além do mais, minha irmã já se prontificara a ir comigo como acompanhante, já que Ortrun não podia faltar ao trabalho.

Fui na farmácia indicada atrás do laxante, com cinquentinha no bolso, prá resolver a questão, ir prá casa e sentar no vaso até o dia seguinte.

Aí começou o drama. Não tinha o infusão Manitol na primeira farmácia. Fui noutra e noutra, e nada. O sol esquentava, a fome apertava e não podia nem comer um pastel ou tomar um refrigerante. Jejum absoluto era recomendado para o exame no dia seguinte.

Fomos em uma farmácia de manipulação. Gentis as moças nos atenderam. Conversaram com a farmacêutica.  Disseram que pela urgência, o remédio ficaria pronto às 3 da tarde. Minha pressão já estava subindo, minhas receitas caíram no chão, quando pensei que ia ter que perambular faminto por duas horas na cidade mais barulhenta do Brasil.

Me acalmei e falei, que tudo bem, que aviasse a receita e perguntei quanto era.

_” 147,50 reais”, respondeu sorrindo a atendente.

Minha companheira ao lado não se aguentou e ainda bem que falou em alemão:

_”Was fur eine Scheisse , denken die, da du einen goldenen Arsch hast?”.

O que mais ou menos dá para traduzir para:

_”mas que merda ela pensam que você tem um cu de ouro?”

Relaxei o que pude, disse que iria procurar um pouco mais, que se não achasse, voltaria.

Nunca ouvira falar de uma farmácia chamada Cristal, como também estava escrito nas instruções, mas noutra farmácia, uma vendedora me falou deste nome também e que ficava na Avenida Amaral Peixoto.

Resolvi andar pela avenida catando o Manitol na farmácia Cristal, quando vi um velho conhecido, o Saul, do tempo de liceu, a conversar com um camelô que vendia balas caseiras. Ele não sabia, mas o camelô disse que poderia ser uma das duas novas farmácias recém-inauguradas, quase no final da avenida.1-camelo

Não deu outra, achamos a tal farmácia Cristal, uma loja pequena com remédios até no telhado, que não lembrava nenhum desses modernos supermercados ou lojas de souvenirs, que viraram as atuais drogarias.

Um simpático atendente, me respondeu:

_”Manitol 20%? Sim, temos”.

Quase caí no chão, quando ele me disse que custava 14,00 reais cada frasco. Eu precisava comprar três.4-farmacia-cristal

Com os cem reais que além de não ter, não gastei, fiquei tão contente, que a fraqueza passou. Fiz o exame no dia seguinte com o intestino limpinho, e para alegria de todos meus familiares de amigos. O tumor canceroso de reto retirado em 2010, não retornara.
Posso dizer para vocês que eu estava com “ele” literalmente na mão, durante toda a semana.

Para fechar a semana econômica-medicinal, na noite de quinta-feira, quando minha companheira chegou do trabalho, esperava por ela um cozido de frango sem pururucas, mas com banana da terra e muito legumes, que eu preparara depois de fazer uma feirinha  com os trocadas que restara, da economia feita na ida a uma farmácia barateira, que me deixou num “barato total”, como se eu tivesse ido a uma discoteca popular.

Prometi ao Luciano que me atendeu, e à “Promoteur de Vendas” muito simpática, que assim que tivesse um tempo, iria fazer um clip de propaganda da farmácia na TV da Rua, da Rede Mamaterra.

Já tenho até um slogan:

“Quando três negros  vestidos de azul se encontram na farmácia Cristal, a vida fica mais azul até no hospital”.

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