Eleições 2016: Mulheres surpreendem oligarcas e são as mais bem votadas em Niterói e Belo Horizonte


Por Marcos Romão

Pode até não parecer nada, mas as únicas duas vereadoras mulheres, eleitas para a Câmara Municipal de Niterói, são ativistas sociais, pelas causas das minorias majoritárias e pelos direitos humanos das mulheres, dos negros, dos Lgbts e dos excluídos. São elas Taliria Petrone (Psol) e Verônica Lima (Pt).

O curto espaço de tempo e as novas regras eleitorais, que impedem o financiamento de empresas aos e às candidatas aos cargos de vereança, surpreenderam tradicionais campeões de votos fisiológicos em muitas cidades do Brasil.

Ainda é cedo para avaliar as mudanças que aconteceram nas câmaras municipais no país. Se houve avanços para a cidadania, ou se a onda de conservadorismo venceu, será um levantamento a ser feito por muitos analistas nos quase 6000 municípios brasileiros.
Seguindo a linha da minha amiga jornalista de Niterói, Sandra Martins, me arrisco a dar um “pitaco” sobre o quadro do resultado eleitoral de nossa cidade sorriso, que acaba de dar uma renovada com a mudança de 38% dos vereadores da cidade.

O tradicional e conservador jornal da cidade, “O Fluminense” , publica a respeito da eleição de Talíria Petrone, mulher negra e ativista dos movimentos em defesa das minorias, uma matéria que é quase a revelação de um susto e surpresa jornalística, sobre o que se passou em uma cidade, que nos últimos 2 anos, vê crescer a pressão de grupos fundamentalistas e religiosos com tendências de extrema direita, e que possuíam porta-vozes na câmara de vereadores da cidade, que bloqueavam todas as tentativas legislativas, em manter Niterói uma cidade plural nas questões de gênero e tolerante entre as religiões. Há dois meses foi aprovado por maioria uma lei que proíbe os professores tocarem na temática gênero nas escolas da cidade:

“Niterói já sabe quem serão os seus 21 representantes para os próximos quatro anos, a partir de 2017, quando começará a próxima legislatura. A surpresa ficou por conta da força feminina de Talíria Petrone, do PSOL, eleita com 5.121 votos válidos, sendo a mais votada da cidade. Além da professora novata no pleito, oito novos nomes foram escolhidos pelos niteroienses, o que apresentou 38% da renovação no Legislativo. 

Nomes tradicionais do legislativo niteroiense, como professor Paulo Henrique (PPS), com sete mandatos no Legislativo e José Vicente Filho (PRB), com 10, ficaram de fora.”

A surpresa para quase todo o espectro político de Niterói, da eleição de Talíria Petrone, que com seus mais de 5 mil votos, foi a mais bem votada da cidade, pode ser um reflexo de mudanças na forma de conquistar não só os votos, mas principalmente convencer os eleitores, de quem os representará nos assuntos que tocam suas vidas. Vidas e modos de vida, que importam e que para os políticos tradicionais não contam.
Creio que a qualidade, respeito, respeito à inteligência e percepção do eleitor do que está em jogo com o seu voto, por parte dos políticos em relação às pessoas que neles votam, é o fator novo que foi apresentado nestas eleições municipais.
Os e as eleitoras, já não se contentam mais com uma bica colocada pelo vereador, querem saber do conteúdo e qualidade da água que vai chegar ao seu copo. E na política, a água da bica, é o que o candidato ou candidata “pensa de verdade”. O que se cobra no momento é confiabilidade.

Não faço aqui uma análise definitiva e fazedoras de regras marqueteiras, como costumam fazer os analistas de pesquisas eleitorais, me dedico mais a entender o que se passa na cabeça do eleitor e da eleitora, que escolhe uma jovem neófita em política parlamentar, como a mais bem votada, em uma cidade tradicionalmente conservadora.
Nos últimos dois meses vi esta candidata andando a pé pela cidade com um grupo pequeno de ativistas. Carregavam suas bandeirinhas e paravam para conversar com as pessoas. Carregavam uma arma que eu gosto. Uma cartilha fininha, que falava de direitos e deveres sociais de negros, mulheres, lgbts, jovens, idosos e todos os cidadãos, que querem ser ouvidos.

Vestiam roupas alegres, a maioria de sandálias, cabelos afros, cabelos ruivos, roupas coloridas e acima de tudo uma vontade de conversar. O que mais me surpreendia, é que estavam sempre prontos para escutar. Parecia que o único compromisso na agenda era ter tempo para ouvir a eleitora e o eleitor.

Não optei por votar nela, por já ter minha candidata também negra, em nenhum momento e em nenhuma das vezes que esbarrei com este pessoal, fosse de manhã na porta do hospital em que ia me tratar, ou nas Barcas ou no Campo de São Bento. Vi que mais que meu voto, elas e eles tinham prazer em conversar e influir nos seus destinos.

Isto me despertava sempre uma grande simpatia e não me deixava zangado, como quando eu era atropelado por candidatos que queriam me empurrar santinhos de devoção.

Creio que este método cara a a cara, seja um jeito que as pessoas estão precisando, pois além de respeito, demonstra carinho e solidariedade com as agruras que cada um vive, pois como dizia Gonzaguinha em sua canção, ” A gente não quer viver só de saúde, a gente quer carinho e atenção.”

Poder ser apenas um fenômeno passageiro, o que não acredito que seja, mas a notícia que outra candidata negra e ativista dos movimentos sociais, Áurea Carolina, arrasou ao receber o maior número de votos em Belo Horizonte, cidade irmã de Niterói em conservadorismo. Me desperta para pensar, que por aí esteja um bom caminho para se conquistar cidadania, carinho e respeito. Coisas mínimas para os lá de cima, mas que decidem pela vida e pela morte dos aqui embaixo.

O Sos Racismo Brasil se sente representado!

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