Currículo escolar se faz com todo mundo.


Por marcos romão

Meu amigo Silas Ayres, cientista social e com larga experiência prática e teórica na área de ensino, postou no Facebook o próprio currículo escolar dos anos 50 e 60, no ensino denominado fundamental, que teve oscilação entre 12 e 15 matérias ministradas por ano escolar.

Crítico das novas propostas de mudanças curriculares, jogadas no ar pelo ministério da educação, ele nos diz:

“Para a reformulação do ensino médio (é preciso mesmo uma mudança na sua estrutura) tem que se sair da esfera política partidária que só pensa em receber votos nas eleições, além de se combater o corporativismo que se mobiliza neste momento.”

E reforça:

“Eu ainda sou da ideia da Maria Yedda ( secretária de educação no governo Brizola no RJ): se der uma boa educação humanista, geral, o aluno tirará de letra o que vier pela frente, ainda mais num sistema rodo robotizado como o sistema capitalista atual.”

Aproveitei para relatar para meu amigo, a experiência que tive como migrante na Alemanha, ao poder participar e influenciar não só no sistema de ensino, mas principalmente, na educação escolar de minhas filhas gêmeas na cidade de Hamburgo.

oferta-de-cursos-rudolf-rossSabe Silas Ayres eu sei que as coisas estão muito ruins na área de educação no Brasil. Fiquei escandalizado com o estado das escolas públicas em que fui dar conferências desde que voltei ao Brasil em janeiro de 2013. Faltava de tudo. De material a disciplinas, que não eram ministradas por faltar contratação de professores, ou não chamarem quem aguarda vagas.
Só uma coisa me tem admirado até hoje: não tem uma conferência que eu dê numa escola em que o interesse dos alunos não seja enorme.
Mesmo quando termina um horário de um professor e eles tem que ir para uma outra turma, a garotada fica perguntando interessada, perdem recreio e quase sempre eu tenho que pedir arrego e dizer que acabou a palestra, pois estou morto de fome e preciso também fazer xixi.
Repito. O interesse em aprender é enorme por parte dos alunos!
Mas o que fazer se falta tudo e a carga horária real é ínfima?


Me lembro em 2000, em Hamburgo, quando matriculei minhas duas gêmeas caçulas na 1ª série primária, na escola do centro da cidade, com um dos piores índices de aproveitamento escolar de toda a Alemanha.
Era uma escola com 80% de filhos de migrantes e os alemãezinhos que lá frequentavam eram oriundos de famílias “associais” como chamam por lá, desempregados, mães solteiras e todo tipo de alemão, que marginalizados necessitem de ajuda social para viverem.
Acabara de entrar para dirigir a escola uma senhora com uma proposta revolucionária de escola integral da 8 às 17 horas, com rango “ecobalanceado” para a garotada preparado por uma família turca de pais de alunos, que com esta medida foram os primeiros migrantes com um trabalho na escola, que não fosse só da área de limpeza.
Era um casal porreta, que quando chamavam a atenção de um aluno turquinho mais espiroqueta, os garotos logo obedeciam, para não virarem assunto na Mesquita próxima.
O grande problema na escola era a língua alemã (aqui no Brasil, o grande problema é a língua portuguesa, e como não temos muitos estrangeiros em nossas escolas públicas, creio que aqui o problema de aprendizado da língua portuguesa, deva ser porque nossas crianças são tratadas como estrangeiras em nosso sistema escolar).
Como o problema era a língua alemã, que os alunos filhos de migrantes falavam errado e escreviam pior ainda, a proposta dos professores um ano antes, era criar turmas bilíngues. Não deu certo pois ninguém se matriculou.
Queriam começar com português e turco, mas tanto os migrantes de língua portuguesa como os migrantes de língua turca, não queriam misturar seus filhos com outros migrantes da mesma língua, mas que fossem de outras classes sociais, grupos nacionais ou de outros países, turco não queria ter professor curdo e vice-versa, e brasileiro nenhum queria que o filho aprendesse o português com sotaque de Portugal, ou Angola ou Moçambique.
Silas Ayres, estrangeiro é discriminado em todos os países do mundo, mas só vivendo lá fora para saber como estrangeiro é racista entre si.
Propus um negócio à Frau/dona Buhr, três meses antes de começarem as aulas do novo ano letivo.
Eu não tinha escritório para o meu trabalho de jornalista freelancer. Aluguel no centro de Hamburgo é preço de Avenida Paulista. Então falei com ela, que me cedesse o uso de uma sala 24:00 horas por dia e a chave da escola para que eu montasse meu birô da Rádio Mamaterra e, em troca, eu junto com meu amigo anarquista e migrante português, Luiz Carvalho, e minha amiga Petra Sorge Dos Santos, iríamos lotar a turma bilíngue de português-alemão para começar.
Por incrível que pareça, no país da burocracia, ganhamos uma sala ao lado da direção, com linha telefônica, material de escritório, e computadores.
Saímos pela cidade, visitamos tudo que foi botequim e armazém de migrantes portugueses. Fomos a todas as festas de brasileiros, angolanos, moçambicanos, verdianos e tudo mais que falasse português. Completamos a cota de 50% de crianças filhas de migrantes de língua portuguesa.
Cotas? 50%, que história é essa, você me perguntaria?
Aí estava o segredo do negócio, lhe respondo, pois como migrante eu fiz uma proposta para sairmos do gueto e não para fazermos um gueto de crianças filhas de migrantes especiais. Não, caro Silas Ayres, queríamos que nossas crianças convivessem com 50% de garotada alemã “original”.
Mas o que fazer, se em escolas alemãs com muitos estrangeiros, os pais alemães evitavam matricular seus filhos?
Convoquei o sindicato de jornalistas, do qual eu era um dos diretores para assuntos de língua portuguesa e internacionais. Rodamos tudo quanto era festinha de amigos alemães, atrás de crianças com seis anos, que desejassem “entregar” suas crianças para um experimento bilíngue com outras crianças estrangeiras.
Conseguimos depois de 3 meses formar a primeira turma.
O Consulado português deu a maior força, pois pegou a verba para pagar extra, as aulas particulares dos filhos de seus funcionários e trouxe professores fresquinhos de Portugal para ensinarem nossas crianças (claro que teve funcionário que reclamou por usarem “seu” dinheiro extra, para o bem público, aqui no Brasil até ministro do STF reclama da verba de educação para seus filhos).
Os jornais de direita meteram o pau. Disseram que as crianças iriam sair duplamente analfabetas, em alemão e português, e que no máximo, iriam falar um “michemachi” de língua, mistura de português com alemão.
As crianças responderam que foi uma maravilha ao novo tipo de ensino, pois não tinha criança melhor que a outra, cada uma era especialista na língua de seus pais e adoravam trocar conhecimentos.
Entrava um professor que só falava português, depois uma professora que só falava alemão e as crianças se viravam.
Eu comentava que eram crianças com 2 HDs zerinhos de fábrica, tudo que entrava era apreendido, trabalhado e transformado em sabedoria própria.


E tem mais, para preencher o horário da tarde, a prefeitura da cidade contratou professores de artes, de reforço em matemática e alemão e cada professor explicava em sua língua.
Uma criança de família cigana foi matriculada, pois os pais romenos, queriam um dia migrar para Moçambique, outra criança iraniana também foi matriculada, pois o pai me disse, que já vivia exilado, que queria dar a chance do filho aprender uma terceira língua universal, para quando precisasse um dia trabalhar ou fugir para algum lugar, e o Brasil não seria má ideia.
Falo isto porque este pai iraniano, que falava muito bem alemão e era doutor em física, passou a dar aulas de reforço tanto em matemática quanto alemão para a nossa criançada.
E tem mais ainda, Moema e Papoula passaram a ter aulas de canto com o professor Cysneiros, maestro da Paraíba, migrante em Hamburgo que foi contratado pela escola. Todas as crianças aprenderam a cantar do Pau-no-Gato ao Boi-da-Cara-preta (da forma politicamente correta, é claro).
Professores de capoeira e de samba foram chamados, e Miriam da Silva, foi a professora de dança de São Paulo que ensinou minhas filhas a sambarem.
A dança do ventre entrou no “currículo” escolar, quando já estavam maiorzinhas, pois grandes mestras de dança de países árabes, também eram mães de crianças naquela escola, que no ano seguinte, começou com uma 2 turmas bilíngues de turco-alemão.
A ideia se propagou e tem escolas por todo Hamburgo, com turmas bilíngues com russo, polonês, francês, espanhol e etc., juntos com o idioma alemão.

E tem mais, a escola Gesamtschule Rudolf-Ross, é agora Escola Européia, e se transformou em modelo para toda a Europa, e o patinho feio do sistema de ensino, é 16 anos depois, uma escola em que as vagas para entrar são disputadas na cidade. Pois que pais não querem que suas filhas e filhos sejam preparados?
Resultado:
Minhas duas crianças que hoje têm 22 anos de idade, quase não vejo mais. Estão pelo mundo disputadas por universidades. Com as 10 línguas juntas que aprenderam por si mesmas. Uma tá agora na Rússia e a outra na Escócia em excelentes universidades e por conta delas, porque o papai aqui, não teria condições de matriculá-las nem numa escola particular de subúrbio.
Silas conto isto tudo, porque tenho a necessidade de reportar a importância que é a participação da sociedade em volta, na educação de todas as nossas crianças, pois sinto uma satisfação imensa quando o Rena, um garoto iraniano que frequentou os bancos escolares com minhas filhas em Hamburgo, é meu amigo no Facebook e me escreve em português escorreito.
A educação superior (não a de faculdade) que era um privilégio das famílias reais (dom Pedro falava alemão e francês desde criancinha), hoje tem possibilidades via comunicação de se democratizar e se espalhar.
Creio que é isso que as nossas elites que vivem no século XVIII querem evitar.
Ter que discutir um projeto desses que tramita no congresso, me dá a sensação de que estamos tentando consertar um aparelho de fax, enquanto nossas crianças estão mexendo em seus celulares nas salas de aula.
O retrocesso é tão grande, que dá a impressão que querem proibir de novo a minissaia.
As escolas, os professores, e os alunos têm que voltar a estar no meio de suas comunidades e da sociedade. Aí sim, vamos saber o que aprender e para que.
É imensa a distância que estão da realidade das escolas, esses “pedagogos” do novo governo e dos anteriores também!

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