O Tanque de Guerra desceu a Caixa d´Água e parou no Morro do Juca Branco no Primeiro de Abril


por Marcos Romão

tanque

Eu estava com febre e quando fui fazer meu xixi da madrugada, vi que papai já tinha saído.

Para fazer xixi, tinha que passar pela sala cozinha, onde papai dormia com mamãe num sofá-cama Drago.

A casinha de alvenaria, tinha um quarto onde dormíamos os 4 irmãos, mais minha vó, uma sala que mal cabia a televisão e uma poltrona, o espaço quarto cozinha, com um banheiro puxadinho no fundo, dava pro quarto do vizinho na cabeça-de-porco que morávamos no Fonseca. Depois que li Aluísio de Azevedo, descobri que cortiço era um nome mais fino. Era um lugar que cada suspiro ou peido, incomodava a paz da vizinha.

Na frente morava o português, seu Alvinho, que alto e com traços fidalgos, em nada se parecia com os portugueses transmontanos das padarias.

Seu Alvinho, se dizia aposentado e era minha biblioteca. Assinava seleções de Reader´Digests, e dois jornais do Rio. De vez em quando aparecia com um jornal português que falava de uma guerra nas colônias. Ele me deixava sempre ler tudo, e antes de ir para escola. eu podia ver rápido as manchetes.

Naquele primeiro de abril de 1964, seu Alvinho não estava em casa quando acordei às 7 horas. Dona Maria, sua companheira negra, estava sentada silenciosa, na área em frente à casa quarto e sala, que ela arrumava como se fosse uma varanda de uma casa grande. O esmero no chão vermelhão polido, me impressionava.

Ao me ver de uniforme, pronto para ler as primeiras notícias, ela me disse que o jornal não viera, que seu Alvinho fora acordado por meu pai, pegou uma malinha e saiu rápido. Tudo que ela sabia era que não ia ter aulas, nem trabalho naquele dia, e que ela escutara no rádio que as pessoas de bem deveriam ficar em casa.

Ela colocou o rádio em volume mais alto para que eu escutasse. Só ouvia músicas de bandas militares e que o exército estava nas ruas para salvar o Brasil do comunismo.

Dei dois passos até minha casa, e fiquei contente por não precisar ir à escola, pois a febre passara, mas estava muito cansado.

Nem botara o shorts para dormir um pouco mais, quando apareceu o Waldeck falando que o pai dele, o seu Vivaldo, tinha saído de casa na madrugada, sem que ninguém da família desse por isso e que tinha um tanque de guerra na nossa rua Airosa Galvão.

Curioso saí com ele. Subimos a ladeirinha de nossa rua e lá estava o tanque de guerra na porta do seu Manel, atravessado na esquina da Magnólia Brasil, de jeito que o caminhão-pipa de leite teve que dar meia volta e entrar na Airosa pela Duarte Galvão, depois de passar pela Alameda São Boa Ventura.

O tanque de guerra naquele lugar na boca do morro do Juca Branco era fascinante. Quando chegamos já tinha muita gente em volta. As crianças queriam subir nele, mas eram afastadas pelo único soldado que ficou sentado encima dele com uma Ina no ombro. Os outros estavam no seu Manel tomando Coca-Cola com cachaça. Para quem perguntasse o que eles estavam fazendo lá, eles só respondiam que estavam em missão secreta.

Sabichão como eu era, falei logo que eles estavam lá para pegar o Comprido, que além de bandido chefe do morro era maconheiro e devia ser comunista.

Todos me escutavam com atenção, admirados por eu ter lido o panfleto que as pro-melhoramentos do morro havia distribuído nos botecos, padarias e armazéns um mês antes. Lá o panfleto batido à máquina dizia, para que todos tomassem cuidado com os maconheiros e comunistas que queriam vender a nação para os russos.

Gozei a admiração da platéia e esperamos por umas duas horas o início da batalha, que nem nos filmes americanos com legendas, que há um ano passava todo dia na TV Excelsior.

Foi então que apareceu um caminhão tanque, encostou no tanque de guerra e o encheu de gasolina. Os soldados voltaram meios trôpegos para o tanque e desceram a Magnólia fazendo o maior barulho, para se encontrarem com os outros tanques,  que estavam na Alameda os esperando, pois eles haviam se perdido ao descerem o Morro da Caixa d´Água e entrarem na Desembargador Lima Castro, ao invés de seguirem em frente.

Saí de fininho, pois a minha previsão de guerra estava errada e não aconteceu nenhuma batalha contra os maconheiros e comunistas no Morro do Juca Branco. O tanque de guerra só estava parado por falta de gasolina.

Quando voltei para casa, papai já tinha voltado. Estava com seu amigo Palhinha. Fui com eles por trás das casas, até um terreno baldio a umas três casas da nossa. Ajudei-os a carregar 2 caixas cheias de documentos do sindicato e um galão de gasolina. Queimaram tudo, inclusive as passagens para um congresso em Cuba. Seus companheiros que tinham ido um  semana antes, tiveram que ficar por lá 21 anos.

Primeiro de Abril para mim, lembra sempre o cheiro de gasolina e dor de garganta.

Seu Alvinho sumiu um ano e soube depois que ele fugira de Portugal por ser contra Salazar. Seu Vivaldo parou de organizar o time de futebol e as festas da rua, pois diziam que era comunista. E logo descobri que passaram a prender e expulsar os pretos mais velhos da rua, por que diziam que eram maconheiros. Não eram. Descobri cedo o que é falso testemunho.

 

 

Vista do Morro hoje em dia

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3 pensamentos sobre “O Tanque de Guerra desceu a Caixa d´Água e parou no Morro do Juca Branco no Primeiro de Abril

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