O racialismo não é saída, é cilada


Do Editorial da Afropress em 15/01/2016

O combate ao racismo é parte da luta do povo brasileiro por  transformações profundas nesta República, que se ergueu e se mantém sob os escombros de quase 400 anos de escravismo, e por democracia. A erradicação das práticas oriundas de uma ideologia – que contraria a constatação científica da inexistência de raças – é fundamental para a superação da desigualdade e a construção de uma sociedade baseada em outros valores, que não os da exploração do homem pelo homem.

No Brasil, contudo, tomou corpo e ganhou fama um certo tipo de ativismo antirracista que acaba por reforçar o sistema racista, ao tomar negros – a maioria da população – em símbolos, meras alegorias. É como se tivéssemos nos reduzido a um grupo étnico, uma minoria, uma comunidade, vítimas, pedintes da compreensão e da piedade públicas.

É comum o uso e o abuso – de modismos conhecidos. Mimetizando a cultura de negros norte-americanos, que autodeclaram afro-americanos, nós, os negros brasileiros, passamos a nos designar afro-brasileiros, afrodescentes, abdicando da condição de brasileiros, em favor desse exotismo despropositado.

Ora, até as pedras sabem: da mesma forma como não existem raças – apenas uma, a humana – (há consenso entre os cientistas) todos os seres humanos são afrodescendentes. O homo sapiens nasceu  na  África, portanto, o termo só serve para uma coisa: folclorizar e confundir.

A origem desse tipo de ativismo sem noção chama-se racialismo. Conhece-se por racialismo a crença na existência de raças biológicas e de racismo as formas de racialismo que afirmam a superioridade de uma raça sobre outra e servem para justificar a dominação social.marcha mulheres negras

Racismo e racialismo não são a mesma coisa, portanto. Mas, são irmãos siameses; guardam entre si relação estreita, quase umbilical. Enquanto um advoga a hierarquia, a superioridade; o segundo  defende que cada raça deve se manter no seu lugar (cada qual no seu quadrado), mas convivendo, se possível,  sem conflitos.

O racialismo, como se vê, flerta com o racismo. Tem em comum com este a mesma crença. Não combate verdadeiramente a mazela do racismo e seus efeitos perversos, o reforça. Ambos nascem do mesmo equívoco. É uma cilada, não uma saída.

No Brasil, desgraçadamente, o racialismo sustenta e mantém as ações e iniciativas dos setores majoritários disso que se apresenta e se conhece por movimento negro chapa branca. Subordinado aos partidos – que praticam e reproduzem o racismo institucional em todas as suas instâncias -,  o racialismo mantém e reforça a ideia dos negros como um grupo separado de uma sociedade cindida por contradições, a principal delas, a contradição de classe. Sua principal contribuição ao sistema racista é subordinar os negros – no caso brasileiro, a maioria da população – à condição de símbolos.

Destituídos de qualquer protagonismo, não tem agenda, não tem programa, não tem líderes confiáveis. São muito comuns e frequentes em reuniões e plenárias, afirmações do tipo “o movimento negro acha”, “o movimento negro decidiu”, “o movimento negro entende”. Tais expressões servem apenas para confundir desinformados ou incautos – bem intencionados ou não – além de uma injustiça histórica às populações indígenas, de quem herdamos parte da nossa herança genética, essas sim, vítimas e alvos de um genocídio que começou com a chegada de Cabral e persiste até hoje.

Tome-se, como exemplo, a atitude das principais entidades negras sobre  o momento político: não se ouviu uma única nota, um único protesto, uma única declaração, sobre o arrocho e a degradação da vida dos mais pobres – que são, por óbvio, negros.

Note-se o silêncio (que não é dos inocentes) das chamadas ONGs negras bancadas pela Fundação Ford. Quando tomam alguma iniciativa é para desembocar na carnavalização típica da ausência de propostas (negros fazendo exibições de capoeira, turbantes afros em profusão e as religiões de matriz africana e sua indumentária, sendo utilizadas de forma esperta e profana), como se viu na recente manifestação das mulheres negras em Brasília, que acabou em performances, beijos, abraços e selfies, com a principal responsável pelo arrocho: a presidente Dilma Rousseff.

E por que? A explicação é simples: subordinadas a agendas dos partidos da base do governo – PT e PC do B – tais iniciativas servem apenas para reforçar a presença negra na sociedade brasileira como simbólica. São os afro isso, afro aquilo;  é como se tivéssemos abdicado da condição de brasileiros submetidos às mais duras condições do capitalismo tupiniquim e ainda alvos da herança maldita da escravidão.

Regressivo e reacionário

Por trás desse “movimento negro” chapa branca, – que se expressa nos partidos em que negros são apenas personagens folclóricos – está a ideologia regressiva e reacionária do racialismo.

Copiado de manuais do movimento negro norte-americano, o Partido do racialismo no Brasil não tem registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas ocupa espaços nos governos, na Academia e garante os financiamentos de estatais e da Fundação Ford, a chamadas entidades e intelectuais, que se apresentam como porta-vozes das demandas seculares de milhões de pessoas, sem que jamais tenham tido procuração ou um único voto.

É regressivo e reacionário porque ignora a contradição fundamental na sociedade capitalista: a contradição de classe. Ao fazer regredir a contradição fundamental numa sociedade capitalista, à esfera biológica, transforma negros em vítimas e ou padrões de virtude; reserva a maioria da população o lugar de sempre: o de parcela subalterna, sub-cidadã.marcha mulheres negras 1

É famosa a frase de uma famosa filósofa e feminista, doutora em Educação pela USP de que, “entre a direita e a esquerda, continuo preta”. (“Caros Amigos” n° 35, fevereiro de 2000). A frase, dita no contexto da campanha em que Celso Pitta, com apoio de Paulo Maluf se elegeu prefeito de S. Paulo, é repetida por jovens inflamados, inclusive, nas redes sociais. Ignorantes (um dos males desse tipo de visão é a despolitização dos mais jovens), prestam um serviço ao sistema de exploração capitalista que tem no racismo um dos seus elementos estruturantes.

O racialismo mimetiza práticas do movimento negro norte-americano, porém, negros americanos representam apenas 12% da população. Sim, nos EUA, os negros podem se auto-denominar uma comunidade – já foram ultrapassados em número, inclusive, pelos hispânicos. Mas, no Brasil, onde representamos 51,7% da população, segundo o Censo do IBGE 2010?!!!

Há algo muito errado quando em um país – que é o de maior população negra no mundo fora da África -, os próprios negros abdicam da condição de brasileiros para se dizerem afro qualquer coisa, se reduzem à condição de minoria, de uma comunidade, o que torna a sua presença apenas simbólica e folclorizada.

O racialismo nunca foi, não é, nem jamais será uma saída para o combate ao racismo. O Partido do racialismo é uma cilada, não uma saída.

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2 pensamentos sobre “O racialismo não é saída, é cilada

  1. A questão não é e nunca foi “racial” no sentido biológico, porque racismo e supremacia branca são construções sociais. Mas, ser construção social não deixa o racismo e supremacia branca ser “menos real” de que se fosse biológica. Culpar o negro de praticar “racialismo”, para mim é além de ridículo. Tal “racialismo”, que eu iria identificar com orgulho de ser classificado como negro, é uma arma para combater o racismo e a supremacia branca, novamente construções sociais que existem e tem efeitos verdadeiros nas vidas, oportunidades, saúde, etc. das pessoas. Nós não “somos um”, independente de raça, justamente por causa do sistema de racismo e supremacia branca que prega a superioridade do branco em todos os sentidos. Simplesmente falando que “somos um” não derruba tal sistema. Se refletir bem, esse papo de “somos um” é o papo brasileiro desde a década de 1930, e é a frase preferida entre os crentes em “democracia racial”. O negro, em abraçar a sua negritude, não está sendo “racialista”; ele está lutando contra a sua própria “racialização” pelo sistema de racismo e supremacia branca. Quem inventou “raça” não foi o negro não; foi o branco europeu. Lutar contra esse sistema, declarando que ser negro não é ser feio, burro, violento, vagabundo, marginal, etc., é uma forma de resistência contra esse sistema global. O papo do artigo é abertamente marxista, alegando falsamente que “a contradição fundamental na sociedade capitalista: [é] a contradição de classe”. Isso é e sempre foi uma mentira porque “pobres” não eram escravos; apenas pessoas negras. Outra refutação reside no fato que existe racismo em países socialistas e comunistas também. Como explica isso? Os Marxistas nem tentam explicar isso, nem o racismo aberto praticado por Marx. A contradição fundamental na sociedade é a invenção de classificações raciais que não coadunam com a realidade biológica. Isso sim é a contradição fundamental. Outrossim, o erro no artigo é evidente na própria definição de “racialismo”: “a crença na existência de raças biológicas e de racismo as formas de racialismo que afirmam a superioridade de uma raça sobre outra e servem para justificar a dominação social”. Os negros nos Estados Unidos e em outras partes do mundo que estudaram o assunto, e a definição oficial de racismo encontrado em enciclopédias, é que racismo é uma construção social, não uma categoria biológico. Ou seja, negros não acreditam na premissa central do sistema de racismo e supremacia branca: a existência de raças biológicas, com a raça branca superior às outras. Pessoalmente, não conheço um negro esclarecido que acredita em “racialismo”. Similarmente, o artigo mostra que o autor só vê raça se for negra: “defende que cada raça deve se manter no seu lugar (cada qual no seu quadrado), mas convivendo, se possível, sem conflitos”. Sabe quem defende essa ideia: o povo indígena, os judeus, os japoneses, os chineses, os bolivianos, os peruanos, os alemães, os italianos, os espanhóis, os franceses, ou seja, todas ou quase todas as etnias, menos os negros. “Liberdade” é um bairro japonês, não é não? Não tem cidades e vilarejos fundados por colonos baseado apenas em etnicidade? Não tem cidades em qual alemão é ainda falado no Brasil? Não tem igrejas étnicas, com cultos em espanhol, japonês, alemão? Sabe quantas vezes o dinheiro circula nessas comunidades étnicas antes de sair? Até 18 vezes. Os judeus, os japoneses, os chineses, os alemães, os italianos, os espanhóis e os franceses todos tem instituições financeiras e outras instituições que apoiam as suas comunidades. Mas, se o negro tivesse os seus próprios bairros ou praticava economia de grupo, como todos os outros grupos étnicos no Brasil, seria ou racismo ou “racialismo”. O negro é o único grupo étnico que não tem instituições que ajudam a sua comunidade. Então, para mim, este discurso de “racialismo” é uma apologia e apoia o sistema de racismo e supremacia branca, qual vê raça só quando é negra. Esses outros povos também são “racialistas”? Nem foram mencionados no texto porque o autor aparentemente não entende o assunto. Também não concordo que “a principal contribuição [do movimento negro} ao sistema racista é subordinar os negros – no caso brasileiro, a maioria da população – à condição de símbolos”. Elevar o auto estima abalada pela sistema de racismo e supremacia branca não é apenas simbólico; tem efeitos reais na vida real. E os negros no Brasil são “destituídos de qualquer protagonismo, não tem agenda, não tem programa, não tem líderes confiáveis” justamente por causa das ditaduras militares no Brasil, que eliminaram o movimento negro, o qual era muito mais forte no início do século XX de que agora. Não é a culpa do negro; é a culpa e foi o plano intencional do sistema de racismo e supremacia branca. E o movimento negro não é e nunca foi “uma injustiça histórica às populações indígenas, de quem herdamos parte da nossa herança genética, essas sim, vítimas e alvos de um genocídio que começou com a chegada de Cabral e persiste até hoje”. Os negros no Brasil sempre morreram em números muito maiores números de que o povo indígena. Por exemplo, “em 2014,138 índios foram mortos”. No mesmo ano, em apenas três dias e meio, 271 negros foram mortos”. E “estimativas da população indígena na época do descobrimento apontam que existiam no território Brasileiro, mais de 1 000 povos, sendo dois a seis milhões de indígenas. Hoje em dia, são 227 povos, e sua população está em torno de 300 mil. As razões para isso são muitas, desde agressão direta de colonizadores a epidemias de doenças para as quais os índios não tinham imunidade ou cura conhecidas”. Mesmo se a gente estima que 6.000.000 de índios morreram, isso é muito menos do que o número de negros mortos indo para ou no Brasil: “Com um total de cerca de 150 milhões de mortos, o Holocausto Negro é com segurança o maior crime da história”. Temos que lembrar que todos os escravos que vieram ao Brasil e que não foram alforrados foram mortos através de violência, trabalho até exaustão ou doenças. Por exemplo, “no Brasil do último quarto do século XIX a expectativa de vida dos escravos, ao nascer, variava em torno de 19 anos” e se eles não começaram trabalhar como escravos até ter pelo menos 5 ou 6 anos de idade, a expectativa de vida dos escravos era em torno de 12 a 14 anos. Entre 2,5 e 10,0 milhões eram mortos na travessia para o Brasil. E escravidão no Brasil começou entre 1508 e 1520. Ou seja, os índios “vítimas e alvos de um genocídio que começou com a chegada de Cabral e persiste até hoje” sempre morreram em números muito inferiores aos negros vindo ao e no Brasil, até agora. Também, os índios tiveram outras vantagens que os negros não tiveram, como terra, liberdade, retenção da sua cultura e religião, etc. Vastas porções do Brasil não foram povoados por colonos europeus ou japoneses por séculos e até pouco tempo atrás ainda tiveram tribos que nunca teve contato com brancos. E é ao menos curioso, se não abertamente contraditório de alegar que “a contradição fundamental na sociedade capitalista: [é] a contradição de classe” e logo em seguida criticar o “PT e PC do B”. E alegar que “o Partido do racialismo no Brasil não tem registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE)” é revelar o problema fundamental: só o negro não tem instituições que apoiam a sua comunidade. Porém, da perspectiva do artigo, criar um partido negro seria o ápice de “racialismo”: está vendo as contradições internas e a falta de lógica no texto? E me poupe: o movimento negro não “reserva a maioria da população o lugar de sempre: o de parcela subalterna, sub-cidadã”. O sistema de racismo e supremacia branca fez isso. As classificações racistas são construções sociais que criaram “sub-cidadãos” e “super-cidadãos” e não o movimento negro. E “no Brasil”, no Brasil, as pessoas negras são apenas 6 a 8% da população e não “51,7% da população”. Negros não são pardos e pardos não são negros. Não sabia? Pergunte para o Neymar ou o famoso Caio, que parece como Barack Obama. Eles não são negros, não. Eles são morenos ou pardos, o que significa apenas que não jogam no time dos negros contra o sistema de racismo e supremacia branca. E a criação de um povo “pardo” é um dos instrumentos mais poderosos do sistema de racismo e supremacia branca brasileiro. Não pode contar com o apoio dos pardos nessa luta. Qualquer alegação ao contrário é pura bobagem. Finalmente, “os próprios negros” não abdicaram “da condição de brasileiros”; o sistema de racismo e supremacia branca fez isso com as suas classificações que marginalizam os negros, que não beneficiam dos direitos ou frutos e benefícios da sociedade, como os não negros e não pardos. Similarmente, não foram os negros que “se reduzem à condição de minoria, de uma comunidade, o que torna a sua presença apenas simbólica e folclorizada”, foi o sistema de racismo e supremacia branca que fez isso. E veja que a solução implícita do artigo é que o negro é apenas brasileiro, o Brasil é uma democracia racial e o movimento negro deve ser proibido no Brasil porque é contraprodutiva. Isso é papo de um supremacista branca ou alguém que faz apologia para supremacia branca. Concordo com a necessidade do movimento negro de ter uma agenda mais coerente e de mobilizar o povo negro e pardo que quer lutar no seu time. Mas, tomara que isso virá com tempo. Ao contrário das conclusões do artigo, o negro tem que se comportar como qualquer outro grupo étnico no país: praticar economia do grupo, se organizar como um grupo, criar um partido político para o grupo, criar instituições financeiras e outras instituições para apoiar o grupo, etc. Agir diferente de todos os outros grupos étnicos “torna a sua presença apenas simbólica e folclorizada”, não “racialismo”. E é importante ressaltar que nos últimos anos, os geneticistas brancos descobriram que o único povo na terra que é 100% ser humano são os negros de Africa. Todos os outros povos na terra tem até 40% do seu DNA de neandertais. Ou seja, tem base científica para racismo sim, mas exatamente o oposto de que é alegado pelos supremacistas brancas. Porém, veja que o negro não age como os outros povos, o que mostra e revela a sua plena humanidade. O movimento negro, nos EUA, na Africa do Sul ou no Brasil, não prega a superioridade do negro. Ele prega a igualdade do negro e a organização do negro num grupo coesivo, justamente para competir no sistema capitalista através da prática de economia de grupo, como todos os outros grupo étnicos fazem. A resposta não é parar o movimento negro; é o fortalecer mais e mais, porque mesmo que ele não pode eliminar o sistema de racismo e supremacia branca, ele pode melhorar a qualidade de vida do seu povo, algo que o sistema nunca vai fazer, porque a lógica do sistema é justamente a extinção do negro através de violência, matança, doenças, miséria e miscigenação … O autor do artigo está completamente errado e até parece doente mentalmente, com argumentos espúrios, sem qualquer base fatual. Precisamos nos livrar e não dar ouvidos a papo torto assim. Avante guerreiros, avante!!!!

  2. Muito bom! Texto consciente das condições dos negros no Brasil e da sua forma de resistência. Falta muita educação, história, sociologia, filosofia, antropologia, para entender o que foi a escravidão africana na África e na diáspora. Buscar uma saída justa, eis o problema!

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