Antônio Pompeu: “O racismo é uma serpente de muitas cabeças. Damos um golpe no seu corpo e ela se multiplica. Precisamos lutar para que essa igualdade exista e que todos possam participar”


Nota da Mamapress: Também amigo de Antônio Pompêo, o comunicador e militante negro José Ricardo de Almeida nos enviou um artigo escrito por ANTONIO POMPÊO e publicado no O Globo em 10/06/2010, assim como uma pequena fala de Pompêo nos 100 anos de Abolição em 1988.

Januário Garcia enviou uma foto de Pompêo sempre garotão.

Rosane Aurore Romão Juliano escolheu a frase título da matéria do Pompêo em homenagem ao Pompêo.

Luiz Carlos Gá, designer e também militante negro desde os anos 70, nos enviou um “logo” de despedida do Pompêo, resumindo os sentimentos de perda de milhares de pessoas nas redes sociais.

Antônio Pompêu-Designer Gá

Antônio Pompêu-Designer Gá

Assim temos a nossa rede tambor formada da imprensa negra, que ajuda a baixar para todos a análise de conjuntura da situação política do negro no Brasil.

Antônio Pompêo escreveu este texto em 2010, mas quiseram os mestres de nossos destinos, que ele, o texto, infelizmente se ajustasse ao momento atual brasileiro, momento em que ele se despede de nós, triste e sozinho como Zezé Mota postou em seu Facebook:

” Pompêo foi um grande ator mal aproveitado. Não teve o grande reconhecimento que merecia e acho que morreu de tristeza. Tínhamos uma relação que não tinha nome. Eu era namorada, mãe, madrinha, tudo ao mesmo tempo. Pompêo foi um grande amigo, companheiro, irmão… Meu amigo estava recluso, deprimido com a falta de oportunidades de trabalho… Essa é a realidade.”

Em 2010, Antônio Pompêo já prenunciava:

“O racismo é uma serpente de muitas cabeças. Damos um golpe no seu corpo e ela se multiplica. Precisamos lutar para que essa igualdade exista e que todos possam participar”. 

ANTONIO POMPÊO

Antonio Pompêo- foto Januário Garcia

Antonio Pompêo- foto Januário Garcia

Na peça teatral “Esse perverso sonho de igualdade”, de Joel Rufino dos Santos — que fala da revolta dos alfaiates ocorrida na Bahia do século XVII —, um dos revoltosos entra em desespero e grita: “O mundo é dos brancos, nós somos os penetras!”

É assim que, às vezes, os não brancos da nossa sociedade se sentem: excluídos na invisibilidade. Ao andarmos, por exemplo, pelo Congresso Nacional, símbolo de democracia, constatamos a invisibilidade. Aí, perguntamos: por que isso acontece?

Existe uma sutileza nesse olhar que só sente quem está do lado de cá. Da mesma maneira sentimos a intenção de apagar o passado escravocrata deste país. Não dá. São apenas 122 anos. As marcas estão aí para quem quiser ver. Milhares de negros não conseguiram atravessar o Atlântico, ficaram no meio do mar, almas perdidas e esquecidas e que clamam por um reconhecimento histórico. Impossível dizer que a escravidão não aconteceu.

Durante muitos anos vivemos sob o véu da democracia racial. Foram anos de luta até admitirmos a desigualdade e o racismo. Graças à atuação de uma geração do movimento negro brasileiro, conseguimos colocar a questão racial em pauta. No entanto, a resistência a discutirmos o assunto ocasionou um hiato muito grande no atendimento de nossas reivindicações.

O racismo é uma serpente de muitas cabeças. Damos um golpe no seu corpo e ela se multiplica. Precisamos lutar para que essa igualdade exista e que todos possam participar. Mas nem sempre tratar os iguais igualmente dá certo. Às vezes necessitamos apressar os acontecimentos, tomar medidas urgentes. Este é o caso das ações afirmativas. Só com elas os negros poderão participar ativamente da divisão econômica no Brasil. As nossas reivindicações estão em análise no STF. Se a decisão for favorável, avançaremos; se for contrária aos nossos interesses, acataremos.

Na década passada ficamos iludidos pela entrada no século XXI. Com certeza, na medicina, na ciência e outras modalidades entramos neste século. Mas estamos atrasados nas relações humanas. Parece que nada mudou. Os conflitos mundiais estão aí para provar. A grande novidade foi a eleição de um negro, algo até então impensável, para a presidência dos Estados Unidos. Esperamos que esses ventos de mudanças cheguem por aqui.

O Brasil está deixando de ser o país do futuro e entrando no clube das nações do presente. Mas, para entrar definitivamente no novo século, precisamos incorporar essa leva de 49% de negros e pardos. Sem isso não há como avançar e se tornar um país competitivo. Zumbi, Machado de Assis, Juliano Moreira,Tia Ciata, Lima Barreto, Antonio Rebouças, Cartola, Lélia Gonzales, Carolina de Jesus, Mãe Menininha do Gantois, Aleijadinho, Pixinguinha e tantos outros e outras clamam por uma verdadeira democracia racial.

O autor é ator, diretor e presidente do Centro Brasileiro de Informação e Documentação do Artista Negro (Cidan).

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