Chico Buarque, Agressões e Branquitude


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Hélio Santos é autor do Blog Brasil De Carne e Osso

Por Hélio Santos do original Brasil de Carne e Osso

Na semana passada, Chico Buarque foi interpelado por um grupo antipetista ao sair de um restaurante no Leblon, conhecido bairro carioca. O caso ficou famoso por envolver o célebre compositor, reconhecido por sua densa obra e, em especial, por sua atuação política ao longo dos anos. Chico é uma referência dentre aqueles que enfrentaram a ditadura militar no mundo artístico. O YouTube traz um flagrante do bate-boca de Chico com o grupo que manifestamente estava alcoolizado. A causa da agressão ficou nítida: o apoio do poeta-compositor-escritor ao PT! Chamar alguém com o histórico de Chico Buarque – o artista e, sobretudo, o cidadão – de “merda”, revela a olímpica e profusa ignorância política que magnifica a intolerância vivenciada pela sociedade brasileira nos dias atuais.

Ao ser provocado: “petista vá morar em Paris”. Mais: “o PT é bandido”, Chico não perde o humor e tenta argumentar educadamente, mas responde também: “Eu acho que o PSDB é bandido”. Mais tarde se soube: os provocadores não pertencem a partido algum. Seriam “coxinhas” antipetistas. A verdade é que o músico-poeta reagiu no mesmo diapasão de seus estúpidos detratores: generaliza um ponto de vista depreciativo e agressivo a respeito de algo. Tanto o grupo turbinado, quanto o poeta têm todo direito de achar que partidos podem ser “bandido”. Cada vez mais sabe-se, sim, que há bandidos nos partidos, mas é um escândalo generalista imaginar que os dois mais importantes partidos do país mereçam esse adjetivo. Mais prudente, o governador do Maranhão, Flávio Dino (PC do B), entende em recente artigo publicado na Folha de S.Paulo (30/12) que “só o diálogo dos dois principais partidos brasileiros” salva o país das graves dificuldades atuais, reconhecendo que, antes de econômica, a crise é política. É um ponto de vista que pode também ser contestado, mas marca a diferença de posição entre quem tem de governar um estado e quem externaliza seu ponto de vista avulso numa discussão noturna na rua.

O compositor sentiu na sua pele branca o mesmo tipo de covardia exalada dos ataques feitos ao jurista Joaquim Barbosa. Foram ataques com sinais trocados: os sofridos por Chico partiram da playboyzada “coxinha” e os de Joaquim viriam de combatentes da “esquerda”. No caso do ex-presidente do STF o viés racial rolou solto. Nas redes sociais foi taxado de “animal da pior espécie”; “capitão do mato”; “comprado pela direita” e foi ainda identificado com a figura de um macaco.

São situações distintas, mas com alguma semelhança. Joaquim Barbosa, eleitor confesso de Lula e Dilma, ao sair de um bar em Brasília, foi chamado de “corrupto”, ao que – com razão – se espantou: “corrupto, eu?”. Tais agressões, ao que tudo indica, não vieram de tucanos, mas é irresponsável dizer que o PT, enquanto partido, estivesse por trás disto.

A lamentável agressão a Chico Buarque, em grau bastante menor do que os diversos ataques sofridos por Joaquim Barbosa, teve, proporcionalmente, maior reação. Quem estuda a questão racial no Brasil conhece os ganhos imanentes à branquitude.

Além da carta de repúdio ao ex-presidente do STF (com cerca de 300 assinaturas de pessoas da área artística, acadêmica e jurídica), telefonemas com ameaça de morte foram feitos. Mas a ofensa máxima se deu no início do ano legislativo do Congresso Nacional em 2014: num ato formal, o então vice-presidente da Câmara dos Deputados, André Vargas (PT), com os punhos cerrados, hostilizou o então presidente do STF, Joaquim Barbosa – o absoluto constrangimento do ministro pode ser percebido na foto a seguir.

ANDRÉ VARGAS E JOAQUIM BARBOSA

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Andre Vargas e Joaquim Barboda – Agência Câmara

Esta agressão tem um componente perverso, pois o gesto com os punhos cerrados se origina dos ativistas Panteras Negras que combateram o apartheid no Estados Unidos. Nas Olimpíadas de 1968 na cidade do México, os atletas negros daquele País usaram-no para denunciar ao mundo o racismo existente na sociedade americana. Nas entregas das medalhas ganhas por um grande número de afro-americanos, ao som do hino dos Estados Unidos, atletas no pódio cerravam o punho com o braço erguido, popularizando para o mundo o símbolo do poder negro (“Black Power”).

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John Carlos, Tommie Smith e Peter Norman (direita para esquerda) – Divulgação

Trata-se de uma heresia que só o supremacismo da branquitude brasileira ousaria fazer: um parlamentar branco utilizando um símbolo, reconhecidamente da luta antirracista, contra um afro-brasileiro. Pior: contra o presidente do STF em um ato oficial da República!

O que eu gostaria de socializar com os meus amigos-leitores nesse derradeiro texto de 2015 é o seguinte: Observo que nos últimos tempos, no Brasil de carne e osso, Xangô parece ter adquirido a dinâmica de Exu. Não posso cometer nenhuma heresia pois não sou conhecedor do assunto, mas, confesso, este é um insight muito forte em minha alma.

Exemplifico o porquê dessa intuição: 2 meses depois da ofensa à Joaquim Barbosa, o poderoso Vargas inicia seu calvário; em abril de 2014 se desliga do PT para não ser expulso; em dezembro tem o seu mandato de deputado cassado pelos seus pares na Câmara; em abril de 2015 é preso. Foi o primeiro – sim o primeiro – condenado na operação Lava Jato em setembro último. Além de multa de mais 600 mil reais pegou 14 anos de prisão pelos crimes de corrupção ativa e lavagem de dinheiro. O mais emblemático dessa história recente: o juiz que condenou o ex-deputado fez questão de assinalar na sentença que na mesma época em que este ofendia o presidente do STF, recebia propinas… Barbosa deu uma volta por cima inteira em seu detrator. Tudo isso se deu muito rápido; menos de 2 anos!

Em dezembro último, finalmente, um político graúdo do PSDB também foi pego, o ex-deputado e governador de Minas, Eduardo Azeredo. Em 2014, como Vargas (PT), renunciou ao mandado de deputado para não ser cassado. Em meados de dezembro último foi condenado em primeira instância a 20 anos e 10 meses por 7 crimes, incluindo peculato (devio de recursos públicos para campanha polítca). Cabe recurso ainda. Aqui, o processo foi bastante lento, fazendo-se justiça só 17 anos depois…

Nota-se na terra-brasilis grupos políticos se defrontando num Fla-Flu que prima pela irracionalidade, em vez de produzirem um embate ideológico, o que seria saudável para a nossa crua democracia, acaba-se tendo um ambiente tóxico para ela. Não se coloca o dedo na ferida – nossa estúpida injustiça -, pois o que deleita os contendores é a superficialidade vadia de sempre.

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2 pensamentos sobre “Chico Buarque, Agressões e Branquitude

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